segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma olhada em commodities

Esclarecimento prévio necessário: estou muito longe de ser especialista em commodities, e reconheço que esses mercados são cheios de nuts & bolts que estou longe de compreender. Olho commodities como olho, por exemplo, o mercado imobiliário da Austrália, a milhares de quilômetros de distância e de uma perspectiva meio abstrata, meio global demais. Devo cometer vários erros de supersimplificação; correções e comentários são sempre muito benvindos. Dito isso...

Meu pessimismo com preços de commodities existe há algum tempo, é crescente e começa a ser confirmado pelos mercados. Minha convicção é que a alta estrutural de vários produtos deve-se a demanda da China, que parece pelo menos mais fraca do que nos últimos anos (o que eu acho mesmo é que a economia da China evoluiu para uma grande fraude, mas isso fica na opinião leviana, por enquanto). Além disso, creio que boa parte da demanda especulativa (alguém que tente provar que não existe) foi alimentada nos últimos anos pela ideia que o dólar americano é estruturalmente fraco e todos os preços marcados em dólar deveriam subir. Outra ideia bastante frequente (usada como argumento para comprar ouro) é o risco de inflação e de destruição do sistema de moeda fiduciária. A julgar pelos juros, o risco mais concreto no momento é o de deflação, e o sistema de moeda fiduciária está passando pelo teste do presidente do maior banco central do mundo imprimindo quantias épicas de dinheiro, sem abalo na confiança. Abaixo coloco alguns dados que achei pertinentes:

1. Esses gráficos são de um working paper recente e muito interessante do FMI, onde o autor analisa o impacto de choques de demanda em diversas commodities:





Notemos a importância da China no comércio de dois dos principais produtos da pauta de exportações do Brasil: minério de ferro e soja. No ano passado, minério de ferro correspondeu a 17% dos US$ 219 bilhões exportados pelo Brasil; soja e seus derivados, 9,4%. As exportações desses dois produtos para a China somaram quase US$ 32 bilhões, mais do que o saldo acumulado de toda balança comercial (esses dados todos são cortesia do Credit Suisse). O governo brasileiro gastou muito tempo e saliva falando da guerra cambial e lutando contra um câmbio muito apreciado; pode, em breve, sofrer da maldição de conseguir o que queria.

2. Um dos indicadores que mais gosto de acompanhar para medir a preocupação do mercado com a China são as ações das principais empresas produtoras de minério de ferro. Todas tiveram um desempenho de ruim a muito ruim nos últimos três meses, mas a maioria ainda ganha no acumulado do ano. Seguirei acompanhando:


3. Ouro: acho que esse gráfico (feito pelo Morgan Stanley) dá uma boa medida da especulação nesse mercado. Notemos que a demanda final vem caindo desde 2005, enquanto o preço mais que triplicou nesse período - evidentemente pelo aumento da demanda do metal como investimento, especulação ou hedge.


A cara do gráfico de preços não é boa:


4. Também não parecem bons os gráficos de outros indicadores:

Índice CRB
DBA (commodities agrícolas)

Petróleo (WTI, 1º futuro)

Talvez seja para isso que o Banco Central esteja olhando quando diz que o cenário externo continua desinflacionário, e, por enquanto, é difícil discordar (pelo menos enquanto o câmbio não anular as quedas nos preços em dólares).

6 comentários:

Davila disse...

Muito da subida dos ultimos anos tem a ver com isto http://www.hks.harvard.edu/fs/jfrankel/CampbellM&CPsumMonPolRev.pdf (eu entendo de outra forma o mecanismo de transmissão, but..) ,e a queda recente c/ a menor probabilidade associada de um novo QE.

Concordo que a economia da China seja um pouco "falsificada" e que. p.ex. Consumo de aço/GDP seja totalmente irreal, e quando isto corrigir terá um impacto brusco na VALE, CHILE, et...

Tem um gráfico legal disso naquele texto do CS ...

Drunkeynesian disse...

Obrigado pelo paper! Por enquanto faz sentido, mas a tese é destruída se os preços começarem a cair com política monetária afrouxando (claro que tem os lags, etc). Pra pegar esse caso, talvez tenha a ver com expectativa de QE, mas acredito que vai ter um dia em que mais estímulo monetário vai ser anunciado e isso não vai ter efeito no dólar / commodities.

Dionísio disse...

Drunk,

bom post. Mas se não for pedir muito, será que podia legendar esses gráficos para quem não é da área (DBAGIX index não me diz nada)

Abraço

Drunkeynesian disse...

Ficou pequena a fonte, mas tem a legenda em baixo. Vou tentar arrumar.

Anônimo disse...

Também tenho gigantescas desconfianças sobre a China. Eu penso que há um claro teto do que ela possa crescer. Vale um post?
Parabéns pelas postagens.

Drunkeynesian disse...

Obrigado... É assunto pra muitos posts, só não sei se tenho a competência pra sair do achismo. É muito difícil escrever sobre China, considerando que dá para ter pouca fé nos dados que publicam.