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sexta-feira, 8 de março de 2013

Leituras da Semana

Helicópteros de dinheiro são para os fracos
- A mais recente carta de Warren Buffett aos acionistas da Berkshire Hathaway. John Kay sobre Buffett.

- Uma comparação interessante entre os índices de inflação de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela e variações de preços na internet. O resultado é o que você imagina. Dica do leitor J.

- Aviões de dinheiro (literais) teriam salvado a Grécia de uma corrida bancária. O euro esteve incrivelmente perto de se esfacelar ano passado.

- Mansueto Almeida duas vezes sobre bancos públicos: aqui e aqui.

- A (falta de) competitividade internacional do Brasil.

- A Argentinofilia de Paul Krugman.

- Moisés Naím sobre Hugo Chávez. Ótimo gráfico comparando a evolução dos termos de troca nos países da América Latina, reforça o tamanho da sorte que acompanhou os mandatos de Chávez. O editorial da última The Economist.

- Os bairros mais caros do Brasil.

- O Índice Starbucks.

- Ótimo guia para ratings de crédito soberano.

- Uma introdução à desigualdade global, por Branko Milanovic.

- Entrevista da Folha com Ricardo Paes de Barros.

- As cidades com quartos de hotel mais caros do mundo.

- Você anda lendo demais o Zero Hedge?

- Uma carta para Marissa Mayer, a CEO do Yahoo! que proibiu os funcionários de trabalharem de casa.

- Entrevista com John Gray.

- Entrevista com Teju Cole, sobre drones e mais.

- Do que fala a literatura brasileira contemporânea.

- Um projeto para ler todos os romances mais vendidos dos últimos 100 anos.

- Uma resenha muito interessante de Django Livre.

- Candidatando-se para a vaga de papa.

- Jacques Derrida entrevistando Ornette Coleman.

- Criei um Tumblr para alimentar (como se precisasse) meu lado diletante.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Europa 2013

Entre o que aconteceu de surpreendente no ano passado, nada me espanta mais do que a Zona do Euro ter chegado a 2013 funcionando e com exatamente a mesma composição de um ano atrás. Dentro desse tema, cresce o espanto ao ver que as taxas de juros pagas pelos títulos dos governos que usam a moeda entraram novamente em convergência, diminuindo a diferença para os títulos da Alemanha.

De algum jeito, Mario Draghi, seus colegas tecnocratas e políticos conseguiram: conter uma corrida bancária que, em vários momentos, pareceu se iniciar na Grécia, Portugal e Espanha; evitar a eleição de partidos radicais, que poderiam tirar unilateralmente seus países do acordo monetário; administrar as divergências internas da comunidade e garantir linhas de salvamento para todos os países em crise mais aguda; e fomentar programas de austeridade mesmo em países com alto desemprego e grande pressão por mais gastos públicos. Não é pouca coisa, e só foi conseguido às custas de alguns pactos faustianos, de alto risco: aumento do "risco moral" do sistema (bancos não quebram mais, ponto final); potencial da austeridade gerar mais um longo período de desemprego alto e consequente radicalização política; enormes desequilíbrios entre os balanços de bancos centrais nacionais (o sistema TARGET2, mais neste paper do BIS) e distorção dos mecanismos de mercado para vários preços importantes (notadamente, o custo de financiamento público).

Para o futuro, creio, uma hipótese importante a ser testada (emprestada do Taleb) é se essa supressão de volatilidade implicará em rupturas mais profundas. Afinal, a vida da maioria da população e sua capacidade de consumir ou pagar dívidas não parece ter melhorado, e deve haver um ponto em que a insistência na austeridade, se não gerar resultados concretos para o emprego, passe a ajudar na plataforma de partidos de oposição mais radicais do que aqueles eleitos nas votações mais recentes. Assim, os maiores riscos tornaram-se ocultos, longe das telas de cotações de preços e sujeitos a dinâmicas pouco previsíveis e de grande impacto.

Por enquanto, sobra aos pessimistas o rótulo de Cassandra, já que as apostas vencedoras das quais se têm notícia foram na capacidade dos governos contornarem a crise e na reação que isso gerou nos mercados - como exemplo, basta dizer que ativos gregos forneceram grandes retornos no ano passado. Não há como ignorar, porém, a deterioração progressiva da representatividade de alguns governos e a tentativa de domar grandes sistemas complexos com medidas centralizadas. A história mostra algumas consequências desastrosas dessa combinação e, infelizmente, não vejo porque acreditar que desta vez será diferente. Porém, anos podem se passar sem que nada aconteça, o que inviabiliza boa parte das teses de investimento baseadas nessa ideia. Resta buscar opcionalidades e, sobretudo, evitar a tentação de eventuais ganhos de curto prazo em ativos sabidamente ruins.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Grécia e crises do passado

Michael Cembalest, do J.P. Morgan, comparou a atual crise da Grécia com outras tragédias econômicas de após a II Guerra (tabela tirada do Outlook 2013 dele, cuja leitura recomendo):


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Drunkeynesian Awards 2012

A exemplo do ano passado, uma lista de coisas aleatórias que me chamaram a atenção durante o ano (durante os últimos dias, na verdade - viva o viés de disponibilidade):

- Melhor hedge fund: São Paulo Futebol Clube, que, dizem as fontes, ganhou R$10 milhões só com a oscilação do câmbio euro / real após fechar a venda do Lucas para o PSG.

- Livro mais presciente sobre o pós-crise (até agora): Capitalism 4.0, do colunista da Reuters Anatole Kaletsky. Quando li, a linha de achar que "problema adiado é problema resolvido" parecia delirante, mas o comportamento dos mercados na Europa este ano confirmou-a com todas as letras.

- Ideias mais interessantes sobre mercados: Christopher Cole, aproveitando um ano em que o Hugh Hendry andou meio quieto.

- Melhor investimento, categoria macro: ativos da Grécia, pasmem. Os juros dos títulos de dez anos caíram 2400 p.b. desde o início do ano, a bolsa subiu mais de 30%... Esse negócio de arrancar dinheiro do mercado financeiro é difícil pra caramba.

- Melhor investimento, categoria large caps: ações do Bank of America, preço mais do que dobrou em 2012. No geral, ações de bancos no mundo desenvolvido foram um ótimo negócio, cortesia das molezas proporcionadas pelos bancos centrais.

- Pior case do mercado de ações brasileiro: disputa dura entre as companhias elétricas (Eletrobras vai terminar o ano tendo perdido mais de 60% do valor de mercado) e as empresas do grupo X. Mas...


(a propósito, o Ibovespa teve, em dólares, o pior desempenho do ano entre os principais índices de ações do mundo. Onde mesmo era a crise?)

- Troféu Torre de Babel: ações da Apple, que ameaçaram subir até o céu (mas já caíram 26% desde a máxima, em setembro). Ao preço atual, confirma a regra de bolso que diz que poucas companhias aguentam muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões.

- Paper econômico mais pertinente (dos poucos que li): The dog and the frisbee, do diretor do Banco da Inglaterra Andrew Haldane, defendendo que um mundo ultracomplexo requer modelos de regulação bancária muito mais simples do que os protocolos da Basiléia. Leva também a ideia econômica do ano, ainda que 2012 foi mesmo o ano em que a que eu tinha mencionado ano passado (metas para o PIB nominal) pegou pra valer.

- Melhor twitter, categoria Lucy in the Sky With Diamonds: @stanleyburburin, claro, com teorias que fazem as do Nassif e do PHA parecerem versões atualizadas dos encadeamentos lógicos do Bertrand Russell.

- Melhor twitter, de verdade: @mkarl, porque um baixista-vascaíno-libertário-de-Petrópolis-morando-nos-confins-da-Alemanha só pode ser engraçado e pertinente.

- Melhor blog novo estrangeiro: Behavioral Macro. Posts não muito frequentes, mas sempre uma aula de como se aplica economia na prática dos mercados.

- Melhor blog novo brasileiro: Apogeo - ainda que mais professoral do que gosto de acompanhar, tem feito um grande trabalho de educação do investidor médio.

- Melhor site de comics: Vida e Obra de Mim Mesmo. xkcd é hors concours, claro (ainda que eu não entenda uns 30% das piadas).

- Foto do ano: era essa, de um urso sendo resgatado no Colorado:


... até que ontem alguém postou isso no twitter (o grande Carlos Valderrama lavando a própria estátua em Santa Marta, Colômbia):



- Melhor factóide: companheira Rose viajando com mala de dinheiro (apenas 25 milhões de euros) em voo diplomático para depositar em bancos de Portugal.

- Troféu Chora The Economist: Silvio Berlusconi, que, após ter anunciado aposentadoria da política, mudou de ideia e deve tentar voltar ao poder na Itália em 2013.

- Maior Lusófono de Todos os Tempos (que, por definição, é melhor que o Maior Brasileiro de Todos os Tempos): Miguel Marujo, por atualizar diariamente e com zelo impecável o E Deus Criou a Mulher.

- Melhor série de TV: a dinamarquesa Borgen (na verdade foi a única recente que vi - só neste ano perdi o preconceito com séries, ao começar a ver The Wire com dez anos de atraso).

- Descoberta musical do ano: a genialidade do Raça Negra, após ouvir as versões hipster.

- Melhor ano para a história da música popular: 1942, após constatar que foi quando nasceram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Jimi Hendrix, Tim Maia, Jorge Ben, Paul McCartney, Isaac Hayes, Lou Reed, Curtis Mayfield, John McLaughlin, Milton Nascimento, Nara Leão, Clara Nunes...

- Troféu Puskas do Mundo Bizarro: Diego Souza, por motivos óbvios. A nação corinthiana agradece.

- Anti-herói do ano: o cidadão do Qatar Emerson Sheik, claro.

- Melhor prova irrefutável de que o Brasil deu certo: Monica Bellucci anunciando mudança para o Rio.

Espero que tenham se divertido lendo isso metade do que eu me diverti escrevendo. Bom final de semana do não-final do mundo (ainda volto por aqui semana que vem).

P.S. Não podia deixar de mencionar o Troféu Homem de Visão (obrigado pela lembrança, Samer) para o craque Zé Love, que esnobou o Milan, seguiu jogando no lanterna do campeonato italiano (1 gol marcado pelo clube até agora) e, dizem as más línguas, vai parar no Vasco (chora, Magno Karl).

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lei de Benford

Ontem o amigo T. Maia contou que, em um curso de "computational investing" no Coursera, o professor usou uma pesquisa simples entre os alunos (perguntando o primeiro dígito da quantidade de dinheiro que cada um tinha na carteira e o primeiro dígito do número da respectiva casa) para exemplificar a Lei de Benford, da qual nunca tinha ouvido falar e que achei muitíssimo interessante, mais uma sistematização da observação de fractais no mundo. Aqui o Tim Harford fala de uma aplicação da lei para produzir evidências de que o governo da Grécia forjava os números enviados para a agência de estatísticas europeia. Infelizmente dá para imaginar, por variação de outra lei (a de Goodhart) que fraudadores mais sofisticados vão adaptar os dados de forma que pareçam realistas por aquele critério.

P.S. A Lei de Benford é exemplo de outra lei que conheci ontem, a de Stigler.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Gráfico do Dia - o sucesso dos PIGS

Hoje é fácil interpretar a história recente dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) como uma tragédia, mas é sempre bom mudar um pouco a perspectiva. Este estudo do Banco Mundial (que já tinha indicado aqui) mostra que esses países foram dos poucos a escapar da "middle income trap" entre 1960 e 2008. Hoje vi em um interessante relatório da McKinsey sobre o mercado de trabalho no mundo (h/t Urban Demographics) que esses países, entre os desenvolvidos da OECD, foram os únicos a crescer a renda dos mais pobres (último decil da distribuição) em ritmo mais acelerado do que a dos mais ricos (primeiro decil) nos últimos 25 anos.  Resta checar os mesmos dados em alguns anos e descobrir o quanto disso foi sustentado e quanto era devido à fantasia de financiamento barato e câmbio forte do euro.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Piquenique na beira do vulcão

Mesmo para os otimistas de ocasião, a semana começou com emoções. Vários indicadores indo hoje para níveis críticos:

Juros títulos 10 anos Alemanha (Bund) - perto da mínima de todos os tempos

Índice IBEX (Espanha) - de volta às mínimas deste ano

Ações do Banco Santander - tentando romper o suporte a EUR 4.0

EUR/USD perto de 1.20

Spread títulos 2 anos - 10 anos Espanha - curva em movimento de inversão

Ibovespa, novamente testando a mínima deste ano

EWZ (ETF ações brasileiras), de novo ameaçando romper $50

Petrobras, recuperação ameaçada

A "novidade" é a volta de um risco concreto da Grécia ser forçada para fora do euro e os temores da possível espiral destrutiva que isso geraria (ver no Spiegel - com a ressalva que deve ser a quarta ou quinta vez que o Spiegel coloca a Grécia nessa situação). Minha visão era que essa coordenação já estava mais ou menos resolvida, pelo visto os alemães ainda não estão totalmente convencidos. Não tenho nenhum palpite no curto prazo; o jeito é continuar com o piquenique e confiar nos níveis de stop-loss. Esperem uma semana de muito ruído.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Leituras da Semana

Não tem preço
- Dylan Grice, do Societe Generale, sobre a impossibilidade de controlar resultados de processos complexos.

- David Rosenberg, economista pessimista de carteirinha, está ameaçando virar a camisa.

- Anatole Kaletsky agora tem um blog na Reuters.

- Uma aulinha da The Economist sobre como colocar 2000 anos de dados em um gráfico.

- A Foreign Affairs publicou uma série de contrapontos ao artigo pessimista com o Brasil do mês passado. De novo parei no paywall, agradeço a quem conseguir os textos e me mandar.

- Da turma do Why Nations Fail, 10 motivos que levam um país a desmoronar.

- 3x William Easterly: novo paper, que atribui quase metade do desenvolvimento global atual à colonização europeia; um cartoon sobre desenvolvimento e uma micro-opinião sobre a Rio+20.

- Há uma relação (inversa) entre índice de propriedade de imóveis e desenvolvimento?

- Deirdre McCloskey sobre os danos da intervenção estatal nos séculos XIX e XX, texto pequeno para uma discussão imensa (e ela consegue mencionar não menos que 20 autores em duas páginas - quanta gente consegue debater contra esse nível de erudição?).

- Nicholas D. Kristof visita o Irã e fala sobre os efeitos das sanções econômicas.

- Maurício Santoro sobre a Argentina, que deve entrar em recessão este ano (mas não pelos dados oficiais, claro).

- Timothy Garton Ash sobre mais um renascimento de Aung San Suu Kyi.

- Garry Wills sobre a crítica de Mangabeira Unger a Obama e o dilema ideal x possível em política.

- O grande Costa-Gavras sobre a Grécia.

- Calvin & Haroldo para entender a política no Egito.

- Karl Marx foi parar num cartão de crédito. Treme o Highgate Cemetery.

- Cartazes maximalistas de ídolos do rock.

- E há um novo vídeo da série Where the Hell Is Matt?, imperdível. Há alegria no Eixo do Mal:

terça-feira, 19 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Algumas linhas sobre a Grécia pós-eleição

Ontem me perguntaram se eu achava que a Grécia ia sair do euro após as eleições, e eu disse que não, mesmo se o resultado apontasse vitória do partido de esquerda radical (Syriza). Um amigo atento lembrou deste post, onde eu disse que a probabilidade disso acontecer tinha aumentado substancialmente. Desde então, soubemos que: 1) a maioria dos gregos prefere continuar no euro; 2) o próprio líder do Syriza escreveu no Financial Times, com todas as letras (chamei de "Carta ao Povo Grego"), que seu partido está comprometido em manter a Grécia na zona do euro (OK, acredita em político, trouxa...); 3) a Espanha conseguiu um bailout em termos mais favoráveis, o que deve levar a um afrouxamento nas condições impostas para Grécia e Irlanda. Sigo achando que a saída da Grécia do euro será uma decisão dos eleitores gregos, que, quando não estiverem mais dispostos a pagar o preço da austeridade, votarão em um candidato cuja principal bandeira será a volta a dracma. Achei que isso podia acontecer já este ano, pelo visto ainda teremos que esperar. Ruim com o euro, pior sem ele, parece ser a mensagem mais clara das urnas gregas.

Uma outra (boa) opinião (opiniões "boas" geralmente são as que concordam com o que pensamos): Satyajit Das no Wall Street Journal.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Leituras da Semana

Frau Riefenstahl, I presume?
- Para ler quando bater um desânimo com Mantega e companhia: entrevista da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, non, je ne regrette rien.


- Como desgraça gosta de companhia, o azeite de oliva, exportação importante de vários dos países mediterrâneos em crise, está no preço mais baixo dos últimos dez anos.


- John Kay sobre a estupidez de cancelar feriados para combater a crise.

- Carta mais recente da Greenlight Capital, de David Einhorn, com alguns insights interessantes sobre a Apple (ele acha a empresa barata).

- Mark Dow contra os paradigmas ideológicos em política econômica.

- Um guia argentino para a crise na Grécia (não, não pode ser bom).

- Muito boa entrevista da Time com o líder da esquerda radical grega (SYRIZA), Alexis Tsipras. Mesmo pesando o desconto que deve se dar a qualquer declaração de político, teria meu voto.

- Um gráfico importante sobre a crise do euro.

- O Paraguai vai ter uma bolsa de futuros.

- Países subvalorizados, para Tyler Cowen: Filipinas, Paquistão, México...

- Acemoglu e Robinson estão animados com a Bolívia de Evo Morales.

- Adam Smith e Barack Obama, socialistas.

- Pesquisa do ManpowerGroup sobre a dificuldade de encontrar profissionais em diversos países e áreas.

- Custo de uma noite a dois em várias cidades.

- O mercado antecipou a abolição da escravidão no Brasil?

- A sucessão do IPEA está pegando fogo no Mão Visível.

- Sherry Turkle, do MIT, sobre como usamos aparelhos eletrônicos para fugir de conversas e como isso nos atrapalha.

- Fabuloso artigo de Susan Sontag, de 1975, sobre a estética do fascismo e a fascinação que exerce (partindo de um livro de fotografias de Leni Riefenstahl). Alguém apontou no twitter, não consigo lembrar quem e fico devendo o agradecimento.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Europa, por europeus

Ontem o Pew Research Center (think thank baseada em Washington, financiada com dinheiro da família fundadora da petrolífera Sunoco) publicou um relatório muito interessante, intitulado European Unity on the Rocks - Greeks and Germans at Polar Opposites. O trabalho foi baseado em entrevistas com cerca de 9 mil pessoas em nove países, e busca investigar como os europeus se sentem com relação ao atual arranjo do seu continente e os outros países que o compõe (o projeto do qual faz parte, chamado Global Attitudes, pesquisa 21 países em vários continentes).

O relatório tem inúmeros insights interessantes sobre o espírito do tempo atual; aqui destaco alguns:

- Como os europeus enxergam os outros europeus: o Mark Dow fez uma reflexão muito apropriada sobre a seguinte tabela:


- Como avaliam as condições econômicas e o futuro: a diferença entre Grécia e Alemanha é brutal (mesmo entre Alemanha e todos os outros países pesquisados). Como bem observou o Mark Dow, as forças que atuam no continente são centrífugas, não centrípetas:


Ainda assim, a maioria dos gregos quer permanecer no euro - mais surpreendente que, entre os países pesquisados, são os que mais defendem continuar na moeda única. Talvez isso explique porque até agora não houve uma corrida bancária e porque a opção pelo radicalismo na política está sendo revista (pesquisas para a nova eleição mostram fortalecimento dos partidos moderados).


Quase todos gostam dos alemães:


Daria para destacar outros tantos dados, fica recomendada a leitura do relatório inteiro.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Esperando Godot, versão 2012

Cortesia de Michael Cembalest, do J.P. Morgan (é, economistas conseguem ser engraçados - é raro, mas acontece). Qualquer semelhança da situação da Europa com humor nonsense não é mera coincidência. Clique para aumentar:


A referência para as "M Countries" é o gráfico abaixo, que sugere que uma união monetária formada por países cujo nome começa com a letra "M" seria mais coesa que a zona do euro.


O relatório inteiro está aqui.

domingo, 27 de maio de 2012

O dia de fúria de Lagarde

Algumas das frases do ano, até agora, na entrevista da diretora geral do FMI para o Guardian (grandes méritos para a entrevistadora, Decca Aitkenhead):


Asked whether she is able to block out of her mind the mothers unable to get access to midwives or patients unable to obtain life-saving drugs, Lagarde replies: "I think more of the little kids from a school in a little village in Niger who get teaching two hours a day, sharing one chair for three of them, and who are very keen to get an education. I have them in my mind all the time. Because I think they need even more help than the people in Athens."


Lagarde, predicting that the debt crisis has yet to run its course, adds: "Do you know what? As far as Athens is concerned, I also think about all those people who are trying to escape tax all the time. All these people in Greece who are trying to escape tax." She says she thinks "equally" about Greeks deprived of public services and Greek citizens not paying their tax.


"I think they should also help themselves collectively." Asked how, she replies: "By all paying their tax."


Asked if she is essentially saying to the Greeks and others in Europe that they have had a nice time and it is now payback time, she responds: "That's right."


(...)



In her interview Lagarde says Greece is not getting softer treatment than a poor country in the developing world, and that the IMF does not find it harder to impose strong conditions on a rich nation.


"No, it's not harder. No. Because it's the mission of the fund, and it's my job to say the truth, whoever it is across the table. And I tell you something: it's sometimes harder to tell the government of low-income countries, where people live on $3,000, $4,000 or $5,000 per capita per year, to actually strengthen the budget and reduce the deficit. Because I know what it means in terms of welfare programmes and support for the poor. It has much bigger ramifications."

Talvez tenha faltado algum tato na escolha das palavras e medida do impacto desse tipo de declaração (além, claro, dos problemas com a generalização dos hábitos tributários da população de um país inteiro). Mesmo pesando isso, acho que é exatamente esse tipo de postura que falta em políticos quando se discute a crise: essa é linguagem para adultos, sem dissimulação ou promessas impossíveis de serem cumpridas. O FMI está longe de ser uma entidade filantrópica, representa interesses e defende uma certa visão de política econômica. Que os eleitores envolvidos informem-se e tomem a decisão que julgarem mais adequada, pesando as consequências associadas. Declarações desse tipo ajudam nessa tarefa, mas tem sido tão raras que devem ser celebradas. Bien fait, madame Lagarde.

A última pergunta da entrevista foi menos destacada, mas também merece registro:

I try once more. When history books are written about the financial crisis, they will say it began in 2008. What date will they give for its end? "Hmm, after the hyphen? After 2008? Two thousand," she says firmly. How odd, I think – her English is perfect, but she must have misunderstood the question. I ask again, but she is laughing. There was no misunderstanding.


"Well, I'm sure about the first two digits: 20. But I'm not sure about the last two digits."

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Leituras da Semana

#OccupyFourthDimension
- Entrevista de Ray Dalio, da Bridgewater, para a Barron's. Vale também recomendar de novo a entrevista de Jim Chanos para a Graham & Doddsville.

- Mark Spitznagel, sócio de Nassim Taleb na Universa, sobre economia austríaca e a utilidade de seu arcabouço para evitar cisnes negros nos mercados de ações.

- Robert Shiller tentando dar uma força para os formandos em finanças: "Finance, at its best, does not merely manage risk, but also acts as the steward of society’s assets and an advocate of its deepest goals."

- Apostolos Doxiadis, coautor do fabuloso Logicomix, acha que autodestruição faz parte do caráter nacional da Grécia. Como a história ajuda a entender os dilemas do país.

- Albert Fishlow respondendo à onda de pessimismo com o Brasil.

- Paul Krugman sobre as impossibilidades da desvolarização cambial.

- Jared Diamond sobre o Why Nations Fail e a dificuldade do livro em conciliar sua tese central (instituições) com alguns fatores geográficos que lhe parecem evidentes. Acho que dá pra tirar um axioma postulando que todos essas obras com teses grandiosas de desenvolvimento e história econômica não conseguem passar sem furos grandes, a tarefa é impossível. Boas resenhas, como a do Diamond, também não ficam sem presepadas: ele fala que a Argentina é o maior exportador de alimentos da América Latina (pelos dados da OMC, o Brasil exporta quase o dobro).

- Amartya Sen sobre a Europa, para o NY Times.

- Como vai o futebol, vai a economia? Jamil Chade usa a final da Liga dos Campeões para comparar as finanças da liga alemã com as outras da Europa.

- Dois bons contrapontos a todo o confete jogado para Tony Judt nos últimos tempos: Eric Hobsbawm, num texto ao mesmo tempo ressentido, crítico e elogioso; e o sociólogo de Berkeley Dylan Riley, numa crítica muito aguda a toda a obra de Judt e sua postura como historiador.

- Open the Spigots and Drown the Bigots! As marchas drunkeynesianas pela legalização da cerveja nos EUA, em 1932.

- Um exemplo de intervenção pesada nos mercados.

- Carl Sagan sobre o equilíbrio entre ceticismo e aceitação de novas ideias.

- Hans Rosling em dose dupla: sobre riqueza, religião e fertilidade e nessa demonstração fantástica de concisão, clareza e elegância (seguramente vai ser um dos minutos mais bem gastos da sua semana):

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Leituras da Semana

Guerreiros mongóis, século XXI
- A apresentação de James Montier na conferência deste ano do CFA Institute virou um White Paper da GMO, leitura indispensável para quem trabalha (ou quer trabalhar) com investimentos.

- Seleção criteriosa das milhões de palavras escritas sobre a Grécia esta semana: Timothy Garton Ash para o Guardian, uma coletânea de notícias sobre a corrida em câmera lenta (é possível?) aos bancos, a escolha entre um novo calote agora ou mais tarde, comparação da Europa atual com a do padrão-ouro no período entre guerras.

- Debate no NY Times sobre a perda de fôlego dos BRICs.

- Longa entrevista de Guido Mantega para a Agência Estado, com espírito Poliana dos mais elevados.

- O Banco Central do Brasil vai passar a divulgar os votos dos diretores nas decisões de política monetária, assim como todo o material das reuniões (este passados quatro anos).

- Jeffrey Frankel, de Harvard, decreta a morte das metas de inflação. Na mesma linha, no ano passado, notei a saída de Jean-Claude Trichet do BCE como o fim da ortodoxia nos BCs.

- Cinco livros para se convencer da importância de história econômica.

- Como os bancos enxergam uns aos outros.

- Um quebra-pau intelectual dos bons entre Niall Ferguson e Pankaj Mishra (dica: Bruno Borges).

- Relatório sobre as finanças dos times de futebol brasileiros, que, mesmo no período de maior bonança na história, não conseguiram reduzir suas dívidas. Bom para guardar e ser lembrado quando a CBF voltar a dizer que é uma entidade privada, que não deve satisfações ao público ou ao governo.

- A ideia de mudar a capital da Rússia para Vladivostok.

- O que não é dito nos discursos de formatura.

- As cidades que mais compram livros nos EUA.

- A batalha no filme Os Vingadores custaria US$ 160 bilhões, menos do que vai custar (acho) salvar os bancos espanhóis.

- Enquanto os EUA se preocupavam com o programa nuclear do Irã, a Kodak operava seu próprio reator.

- Uma pesquisa da revista Stylist apontou que 65% dos britânicos gostariam de mais sexo. Alain de Botton fez um comentário bacana que vale para todas as nações.

- Belas fotos coloridas do início do século XX na Mongólia.

- Uma brochura da Apple de 1989, ilustrada por Matt Groening.

- Tudo sobre a final da UEFA Champions League deste final de semana.

Duas, ops, três capas de revista para acompanhar

Já escrevi aqui sobre o suposto poder preditivo (só que ao contrário) de capas de revista. Esta semana tivemos dois novos exemplares para testar a teoria:

- A capa da Spiegel, expulsando a Grécia do euro (mais aqui):


- Capa da italiana Internazionale, vendendo o Brasil que cresce, gera emprego e lava mais branco:


Update - Hoje a The Economist fez questão de também se colocar na lista: