sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não ler quando...

...você está há dois anos estudando fora do Brasil e prestes a voltar para procurar emprego (sim, este post é um mimimi de um ultraprivilegiado):

Oreopoulos, von Wachter & Heisz, que mostram que, numa base de dados do Canadá, pessoas que se formaram (na graduação, OK) e procuraram trabalho durante recessões sofrem efeitos negativos em seus salários por dez anos, por terem que aceitar inicialmente trabalhar para firmas que pagam relativamente mal;

Goldin & Katz, numa base de dados de ex-alunos de Harvard, estimaram que um hiato de 18 meses em uma carreira de 15 anos (após terminar a graduação) implica em uma queda de 41% na renda dos que têm um MBA.

Pelo lado positivo, no Brasil não vou ter essa maldita alergia a pólen que está me derrubando há uma semana.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. King

Uma vez, há uns 5 anos, cheguei muito cedo (antes das 7h00) para uma conferência em um hotel perto da Paulista. Na porta, estava parado um ônibus com "B.B. KING" escrito em letras imensas--sabia que ele tinha se apresentado em São Paulo na noite anterior e estava indo para Curitiba. No saguão do hotel, um velhinho meio corcunda, de boina e camiseta, dava um esporro geral no pessoal que carregava as caixas para o ônibus. Fiquei olhando para o Rei do Blues, meio pasmo; ele percebeu, armou um sorriso, acenou, virou as costas e foi embora.



Ouço regularmente bem pouca coisa do que ouvia há 10 ou 15 anos. B.B. King, claro, está entre elas. Poucos músicos me tocam tanto (me perdoem pelo clichê) na alma quanto King. Algumas letras--otimistonas, quase tontas--servem mais para me consolar do que qualquer filosofia ou texto religioso.



O melhor de B.B. King, creio, são os discos ao vivo dos anos 1960 e 1970. Live at the Regal, Live in Cook County Jail, Live in Japan e esse delírio, Live in Africa (que acho que só existe em DVD--vejam também o documentário Soul Power) são todos impecáveis. King era também o rei dos palcos, incendiário e ridiculamente carismático: ouçam, no show de Cook County Jail, ele dando dicas amorosas para os--como não dizer?--privilegiados detentos.



Me despeço de King no dia do meu 35º aniversário. Sua música, tenho certeza, vai me acompanhar até o último. Até mais, gênio.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sambas e a economia brasileira

O pessimista: "Saco de Feijão", de Chico Santana, gravado pela Beth Carvalho em 1977 (inflação era algo como 45% no ano—ainda tinha muito pra piorar):

No tempo dos "derréis" e do vintém
Se vivia muito bem, sem haver reclamação
Eu ia no armazém do seu Manoel com um tostão
Trazia um quilo de feijão
Depois que inventaram o tal cruzeiro
Eu trago um embrulhinho na mão
E deixo um saco de dinheiro



O otimista: "Partido Baixo do Partido Alto", de Miguel Gustavo, gravado pela Elizeth Cardoso em 1972. Não consegui achar um histórico bom de retornos da bolsa brasileira (Alguém tem aí? Acho que tem uma tabela boa no final do Ordem do Progresso, não tenho o livro aqui), mas, de acordo com este gráfico, o mercado foi bem festivo entre 1966 e 1971.

Comprei Banco do Brasil  
Comprei Vale e Petrobras 
Até eu já estou na bolsa, ninguém me segura mais





Bônus: e mais recentemente tivemos... bem, tivemos "Eike Batista", com o Forró Estourado:

Eu durno na Disney, acordo em Las Vegas
Jogo no cassino com as mulheres mais belas
Que vida boa, não faço nada, e a minha conta só aumenta
A minha vida é 5 estrelas, eu não sei o que é problema
Me diz ai o que é que eu sou
Bi-bi-bilionario... bi-bi-bilionario... bi-bi-bilionario
Dei uma gorjeta pro garçom e ele comprou uma BMW


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Os discos de 2014

(Ou: o post que deveria ter saído em dezembro, mas se a Camila fez a lista dela em fevereiro, eu também posso.)

Depois de muito tempo, em 2014 consegui acompanhar mais ou menos sistematicamente os lançamentos do que me interessa em música. Aqui o que mais gostei, sem ordem particular:


  • Trilhas de Boyhood e Chef, as melhores mixtapes do ano: a primeira tão boa quanto o filme, músicas seguindo a vida do personagem principal (finalmente me cocei pra ouvir Wilco depois de gamar em I Hate It Here); a segunda, trilha para uma roadtrip acompanhada de música caribenha e do sul dos EUA. Boyhood ainda nos presenteou com uma excelente coletânea pirata das melhores músicas dos ex-Beatles em carreira solo. Os caras eram bons, mesmo (OK, o Ringo, muito mais sortudo do que bom).
  • D'Angelo and the Vanguard, Black Messiah. Disse tudo o Sasha Frere-Jones: "D’Angelo is worthy of the arrogance of Isaac Hayes, who, in 1971, called an album “Black Moses,” with no apparent metaphoric dodges, and the self-regard of Prince. Arrogance suits pop stars, as their swagger encourages our own, especially in a moment of social fracture. D’Angelo is entitled to brag."
  • Avishai Cohen's Triveni, Dark Nights. Trio de trompete, baixo e bateria, tudo meio soltão, pra ouvir no escuro e esquecer do tempo passando. Cohen também está no lindo Lathe of Heaven, do Mark Turner Quartet (também sem piano), e Turner, grande saxofonista, tocou com o colossal trompetista Tom Harrell em Trip—este inspirado em Dom Quixote.
  • Girma Yifrashewa, Love and Peace. Pianista etíope, às vezes lembra Keith Jarrett, às vezes Chopin, às vezes a compatriota Emahoy Tsegue-Maryam Gebrou (que apareceu na sensacional Ethiopiques). E não costumo gostar muito de piano solo...
  • Tord Gustavsen Quartet, Extended Circle, melhor representante do jazz escandinavo da ECM. Tudo lindamente tocado, quase melhor que o silêncio.
  • Christine Jensen Jazz Orchestra, Habitat e Marius Neset/Trondheim Jazz Orchestra, Lion. Dois discaços de orquestras, ambos lembrando um pouco o que faz a Maria Schneider. Lion faz belo uso do acordeão, instrumento do qual tenho gostado cada vez mais.
  • Andrew Bird, I Want to See Pulaski at Night, só pela primeira música, que tocou em um episódio de Orange Is the New Black e não me saiu da cabeça desde então.
  • Pat Metheny Unity Group, Kin (←→). Pelo Chris Potter, talvez o melhor saxofonista da geração. O baterista é o mexicano Antonio Sánchez, que fez a trilha de Birdman.
  • Melissa Aldana & Crash Trio, a chilena quebrando tudo, sem o suporte do piano, sob a melhor influência de Sonny Rollins. Também foi dos melhores (poucos) shows que vi no ano passado, no festival da Berklee.
  • Quadraceratops, septeto de Londres que descobri por acaso, lendo jornal.
  • Jeff Ballard Trio, Time's Tales. Miguel Zenon melhor aqui do que no seu solo lançado no ano, Identities Are Changeable. Lionel Loueke completa o trio.
  • Jerome Sabbagh, The Turn, acho que o disco que mais vezes ouvi no ano passado, junto com o da Melissa Aldana. Difícil saber quem está melhor, Sabbagh ou o guitarrista Ben Monder.
  • Noura Mint Seymali, Tzenni. Como disse no Twitter, o melhor disco de rock do ano passado foi feito por uma mulher da Mauritânia (podem me xingar de cosmopolitohipster, ou algo do tipo).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

(Mais) Fronteiras da Análise Técnica

(Sim, o primeiro post do blog em 2015 veio depois de quase 60 dias e é só a continuação de uma série sem graça. Precisava, porém, postar algo pra ver se saio da inércia. Espero voltar com alguma frequência até o meio do ano.)

Via Suvi Kosonen, o Vomiting Camel:


E uma lição valiosa do Dilbert:



Mais fronteiras da análise técnica:

- O Beija-Flor
O Martelo de Thor (Batista)
Intraday Bart
Velociraptor
Vampire Black Swan
Bullish Cyclist
Evil Knievel Formation


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os filmes (e séries) de 2014


Tem muita coisa que foi lançada em 2013 e eu não tinha visto, não sei se regula com o que passou no Brasil ano passado. Em ordem aleatória:

All Is Lost, J.C. Chandor. Belíssima atuação do Robert Redford, mais um golaço de Chandor (ele dirigiu Margin Call).

August Osage County, John Wells. Julia Roberts encarando Meryl Streep sem fazer feio (pelo contrário), em mais uma história de famílias infelizes.

Before Midnight, Richard Linklater. Inferior ao anterior, mas um final digno para uma grande trilogia.

La Grande Bellezza, Paolo Sorrentino. Não há cinismo que resista a Roma, tive a sorte de comprovar.

In a World..., Lake Bell. A estreia da bela Bell na direção, grata surpresa.

Movie 43, Steven Brill & Elizabeth Banks. Não vejam, é totalmente idiota (ri demais, porém).

Prisoners, Denis Villeneuve. Melhor noir dos últimos tempos.

A Touch of Sin, Zhangke Jia. Filmaço chinês que acho que o Tarantino gostaria de ter feito.

La vie d'Adèle, Abdellatif Kechiche. Valeria só pela Adèle Exarchopoulos, linda e talentosa, mas é um filmaço por si só.

Boyhood, Richard Linklater. Óbvio.


Entre as séries, gostei das temporadas de Orange Is the New Black, Girls (julguem!) e Ray Donovan. Homeland chegou a empolgar um pouco, mas terminou mal, mal. Penei pra ver uma temporada de The Americans, achei uma merda, estragaram uma premissa ótima. Gostei bastante de True Detective, mas acho que menos do que a média dos palpiteiros. House of Cards se perdeu e nunca mais vai se encontrar, acho. E bom, mas bom mesmo é Black Mirror, mas a última temporada é de 2013 (ainda não vi o episódio de Natal deste ano, bom programa pra daqui a pouco).

Feliz Natal, caros!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os livros de 2014

Li tão poucos livros neste ano que nem vou fazer a tradicional divisão por categorias. Aí vai o que gostei, na ordem em que li:

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie. Vale todo o hype, foi "o" livro que indiquei pra listinha do Amálgama.

The Great Escape: Health, Wealth, and the Origins of Inequality, Angus Deaton. Um ótimo panorama de como a humanidade tem conseguido escapar da pobreza, por um grande entendido do assunto. Relevante tanto para leigos quanto para (presumo) doutores.

Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago. Não, eu ainda não tinha lido. Brilhante.

The Sense of an Ending, Julian Barnes. Primeiro romance do Barnes que leio, vou virar freguês. Assustador, mostra que provavelmente não vou ficar mais sábio com a idade.

My Brilliant Friend, Elena Ferrante. Outra autora que justifica o hype, das coisas boas que li na Itália. Também um antídoto para a era em que escritores são mais famosos pelo o que colocam no Instagram do que pelo o que escrevem.

Stoner, John Williams. Depois que li, soube que virou um best seller tardio e acidental na Europa. Como o Barnes acima, bem pessimista quanto a segunda metade da vida (olha a minha mid-life crisis chegando adiantada).

Thinking, Fast and Slow, Daniel Kahneman. Uma biografia científica brilhante de um dos poucos Nobeis de economia que faz-se entender além da academia, e das lições de humildade mais convincentes que já tive.

The Structure of Scientific Revolutions, Thomas S. Kuhn e The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte, Karl Marx. Da categoria "deveria ter lido na faculdade, mas era vagabundo demais." Eternamente grato aos colossais Michael Piore e Suzanne Berger por terem me colocado pra ler isso no fabuloso curso de Economia Política do MIT (tem uma versão online).

Man's Search for Meaning, Viktor E. Frankl. Não é o Primo Levi, mas adiciona a um relato comovente sobre a vida nos campos de concentração nazistas uma exposição sobre logoterapia, abordagem interessantíssima da psicologia.


Ainda estou pra terminar o The Great Transformation, do Polanyi, que certamente entraria nessa lista, e ontem comecei o primeiro volume do My Struggle, do Knausgaard, que deve ser a leitura do verão. Ao Papai Noel, só peço mais tempo livre ano que vem.

sábado, 8 de novembro de 2014

Desigualdades regionais

Estava lendo um artigo que dizia que o Brasil tem uma das maiores desigualdades de renda entre as unidades da federação no mundo. Fui conferir e fiz essa tabelinha, comparando com alguns outros países federativos (clique para aumentar). Talvez interesse pra mais alguém.


domingo, 5 de outubro de 2014

Vota, Brasil!

Concordei com meu ex-chefe em uma discussão, há alguns dias: a democracia no Brasil nunca esteve tão forte e vibrante (se ainda assim parece problemática, lembremos da base de comparação— coroneis, populistas, militares, malucos—e de que dá pra afirmar sem parecer maluco que a democracia representativa minimamente decente começou há não muito mais que 20 anos).

Perdi a data de registro no consulado e não vou poder votar; este seria meu voto. Que nossos representantes, quaisquer que sejam, continuem a ampliar a democracia e as possibilidades de escolha dos que os elegeram.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O que aprendi sobre a Alemanha

Algumas surpresas que descobri numa curta temporada na terra do lado certo dos 7 a 1 (saque-as naquela discussão de boteco em que alguém solta o inevitável "essas baixarias só acontecem no Brasil"):

—Brandenburg, o novo aeroporto de Berlim, vem sendo construído desde 2006. Inicialmente, a inauguração era prevista para novembro de 2011; depois, foi adiada para junho de 2012. Semanas antes do início das operações, o órgão supervisor anunciou um novo adiamento (de nove meses) por causa de falhas no sistema anti-incêndio. A promessa mais recente de inauguração é 2016, mas os jornais dizem que a estimativa mais realista é 2018. O orçamento inicial, de 2,8 bilhões de euros, foi aumentado em junho para 5,4 bilhões;

—O Hertha, maior time de futebol da capital, é patrocinado pela Deutsche Bahnhof, quase monopolista controlada pelo estado (mas de capital misto, tal qual a Petrobras) responsável pelas ferrovias alemãs;

—Annette Schavan, ministra da educação até fevereiro do ano passado, perdeu o título de doutorado (e o cargo) depois de uma acusação de plágio em sua dissertação;

—O governo de Gerhard Schröder concedeu um empréstimo de um bilhão de euros à petrolífera russa Gazprom semanas antes do fim da liderança dele, em 2005. Logo depois, Schröder foi contratado pela Gazprom para um cargo executivo (esses últimos dois itens estão num texto recente do Perry Anderson que apareceu traduzido em uma edição recente da piauí);

—Bônus, Espanha (também do texto do Anderson): Luis Bárcenas, tesoureiro do partido do primeiro ministro por 20 anos, está preso por ter acumulado 48 milhões de euros em uma conta não-declarada na Suíça. Quando o escândalo estourou, Rajoy mandou uma mensagem de texto a Barcenas dizendo: "Luis, eu entendo. Fique forte. Ligo para você amanhã. Um abraço."

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Frases do Dia—o Estado de Direito e o Capitalismo Americano

“The pioneers of American capitalism were not graduated from Harvard’s School of Business Administration. The early settlers and founding fathers, as well as those who “won the West” and built up cattle, mining and other fortunes, often did so by shady speculations and a not inconsiderable amount of violence. They ignored, circumvented, or stretched the law when it stood in the way of America’s destiny and their own—or were themselves the law when it served their purposes. This has not prevented them and their descendants from feeling proper moral outrage when, under the changed circumstances of the crowded urban environments, latecomers pursued equally ruthless tactics."

Do sociólogo Daniel Bell, citado nessa matéria interessante do Malcolm Gladwell.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O gráfico mais libertino da história?

Está na última The Economist, cuja matéria de capa fala sobre como a internet está liberalizando o comércio de sexo—cortando intermediários, distribuindo informação, tornando toda transação mais segura, etc. A revista analisou 190 mil perfis de um "site internacional de reviews" para montar uma base de dados para a matéria. O grande Alvin Roth provavelmente diria que esse é mais um mercado que está deixando de ser repugnante. De qualquer jeito, vai ser interessante olhar a seção de cartas na semana que vem.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Líderes políticos e desempenho econômico

Em tempos de eleição, quando políticos tendem a atribuir a si próprios as conquistas e ao azar ou a "heranças malditas" os fracassos, é interessante ver o que a academia econômica tem feito para definir sucesso econômico e a quem ele cabe. Alguns trabalhos recentes que me parecem pertinentes:

Jones & Olken, de 2005, já é meio clássico: eles usaram episódios de transição política que envolve a morte de líderes como um experimento natural e avaliaram o que ocorre depois com o crescimento do PIB. Encontraram um efeito bastante forte nas autocracias (o exemplo mais evidente é a China depois da morte de Mao), mas não em democracias, o que sugere que nestas outros fatores são mais importantes para explicar variações no crescimento do que a influência de um presidente;

Easterly & Pennings, de 2014, tenta responder a mesma pergunta de Jones & Olken (líderes importam?) usando uma metodologia diferente, que tenta decompor taxas de crescimento e encontrar, isolando fatores específicos ao país e choques aleatórios, a fração que cabe exclusivamente ao líder político. Os resultados sugerem que líderes explicam muito pouco da variação nas taxas de crescimento. Nas palavras deles: "our results are consistent with plausible views of how even seemingly unconstrained autocratic leaders  might find it difficult to exert control over the growth rate of the economy... We find in this paper little reason to believe in “great men” –either benevolent or malevolent – driving the growth process."

Blinder & Watson, de 2013, compara o crescimento econômico nos EUA com presidentes Democratas e Republicanos após a II Guerra: durantes mandatos Democratas, o crescimento anual do PIB foi, em média, 1,8% maior do que em governos Republicanos. A conclusão, porém, é que tal diferença não é produto de políticas diferentes, mas, mais provavelmente, do acaso: Democratas têm mais sorte com os preços de petróleo, choques de produtividade e se beneficiam de algo de profecia autorrealizável alimentada pelo histórico mais favorável.

—Por fim, mas não menos importante: Carrasco, de Mello & Duarte, de 2014, tentam comparar o desempenho de vários indicadores de desenvolvimento econômico no Brasil de 2003 a 2012 com o que poderia ter sido o Brasil com outro governo, este simulado a partir da composição de um grupo de países com características passadas parecidas. A conclusão é que o desempenho brasileiro, medido pela maioria dos indicadores (crescimento, investimento, inflação, redução de pobreza, etc), foi aquém do grupo de comparação—a importante exceção é o mercado de trabalho.

 
L'État, c'est moi?

Se tomarmos esses trabalhos em conjunto, um possível resumo é: (i) em democracias, líderes têm muito menos influência sobre o desempenho econômico do que se costuma supor; (ii) não houve "milagre" no Brasil dos últimos anos, mas sim uma grande oportunidade desperdiçada, com ventos externos muito favoráveis; (i) + (ii) bravatas e acusações de "herança maldita" de um governo anterior específico provavelmente são retórica oca, ao menos no que diz respeito a crescimento, e (iii) copiando o amigo Batata, provavelmente inspirado no Kahneman, o acaso é foda (e também a reversão à média).