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Escritos (não muito sóbrios) sobre economia, mercado financeiro e afins.


Esse é o título da matéria de capa da Isto É Dinheiro desta semana, bastante recomendável (principalmente sabendo que quem financia os "eleitos" é você, contribuinte) e acessível. Entre outras informações relevantes, mostra que o BNDES tornou-se o maior banco de fomento do mundo, um mamute que já emprestou US$ 73 bilhões nos últimos doze meses, com critérios no mínimo discutíveis. A revista traz também uma entrevista com o presidente da instituição, Luciano Coutinho, que pretende estender os tentáculos do banco para o possível fundo soberano nacional.
E não é que há alguém compilando sistematicamente as previsões de mercado de Nouriel Roubini? O resultado, desapontador, está no gráfico ao lado. O guru de hoje é o motivo de piada de amanhã, e esse negócio de fazer previsões é, de fato, muito difícil e ingrato.
"Quem poderia imaginar que o mundo entraria em crise?"
O grupo dos sábios ministros das finanças das 20 nações mais importantes do mundo reuniu-se neste final de semana na Escócia, provavelmente para chegar à conclusão de quão sagazes e providenciais eles foram ao tirar o mundo da beira do abismo em que se encontrava entre o final do ano passado e início deste. "Abismo que cavaste com teus pés", diria o mestre Angenor de Oliveira: as ações (ou falta delas) desses mesmos políticos levaram, em grande medida, àquela situação. Fora o eventual autoelogio, mais nada saiu da tal reunião: o mundo já saiu da recessão, dizem, mas, mesmo assim, ainda não é hora de começar a retirada dos maiores pacotes de estímulo monetário e fiscal que se tem notícia -- algo como dar alta a um doente e mantê-lo sedado, só por via das dúvidas. Assim, o mundo continua em uma situação de prosperidade artificial, comprada com os recursos das próximas gerações, que ainda não têm poder político ou econômico para contestar.
Que continue dando títulos de bacharel para os homens das cavernas. E a sociedade brasileira mostra, mais uma vez, sua verdadeira cara: conservadora e, sobretudo, extremamente hipócrita. Para quem é minimamente liberal, resta boicotar tal """universidade""" e os profissionais formados por ela. Afinal, é tudo uma questão de escolhas.

Quem não achar bizarro demais uma entrevista em Português dublada em Inglês (clique na imagem para assistir), poderá ver que nosso presidente molusco está passando da fase "nunca antes na história deste país" para "nunca antes na história do mundo" (esta semana ele já havia soltado que iria propor a Obama a criação de um SUS americano). Assustador...
Pois agora a moda dos políticos, principalmente daqueles não eleitos, é caçar bolhas no mercado financeiro. Seu Meirelles falou que o tema vai ser discutido na próxima reunião do G20, e o Financial Times nota que tanto membros do Banco Mundial quanto do FMI já estão preocupados com eventuais bolhas por conta dos juros baixos mundo afora. Se por um lado é evidente que, na maioria do mundo, os juros estão abaixo de uma taxa de equilíbrio (se é que isso existe) e isso incentiva tomada de riscos (nem sempre de forma responsável), por outro é preocupante ver "autoridades" que sempre estão atrasadas nas suas ações e diagnósticos unirem esforços para tentar "suavizar" alguns movimentos do mercado financeiro.
O Financial Times cita um estudo da Merrill Lynch que compara algumas variáveis econômicas antes, durante e depois das últimas Copas do Mundo de futebol. A conclusão é que o evento é benéfico para turismo (dãããã...), varejo e consumo, mas atrapalha a produção industrial -- supostamente pelo efeito dos trabalhadores pararem para assistir aos jogos. Imaginem como vai ser no "país do futebol"...
Você está prestes a se tornar sócio compulsório de cooperativas de reciclagem. Seu Lula anunciou ontem que o BNDES vai liberar uma linha de crédito de R$ 225 milhões para fomentar essa atividade.
O livro que conta a história da Grande Depressão concentrando-se nos principais banqueiros centrais do mundo ganhou o prêmio do Financial Times (ainda não saiu em Português, mas, acredito, isso deve acontecer em breve). Não li os outros indicados, mas, no absoluto, posso dizer que foi uma boa escolha. Nunca é demais aprender com os erros do passado, e o timing não poderia ser mais apropriado. E uma das mensagens que fica é: banqueiros centrais são seres perigosos. Cuidado com eles.
Há exatos 50 anos, um grupo de irredutíveis gauleses era apresentado ao mundo pelas mãos geniais de René Goscinny e Albert Uderzo. Saudações ao jubileu de ouro de uma das grandes séries em quadrinhos da história, repleta de humor inteligente e politicamente incorreto. Que mais gerações aprendam sobre os hilários estereótipos europeus nas páginas das revistas do Asterix.
... já que, no curto, a performance foi um desastre. As ações da CETIP estrearam hoje na Bovespa, com queda de 10,3% do preço da emissão (R$ 13). Mais uma vez, nem sinal da eficácia da "estratégia vencedora".
O Free Exchange, da The Economist, traz mais uma anedota fascinante sobre taxas de câmbio e poder de compra. Com a mesma conclusão: o Reino Unido está ficando barato, acredite se quiser.
Anatole Kaletsky escreve sobre a tentativa de George Soros de apressar a morte da velha economia, com a criação do Institute for New Economic Thought.
Se você é paulistano, está passeando por Londres e quer se sentir em uma cidade barata, basta entrar no Mc Donald's mais próximo. Segundo a Bloomberg, o Big Mac na capital britânica custa, a taxas de câmbio correntes, cerca de R$ 6,50 (£ 2,29), contra R$ 8,00 em São Paulo (melhor não fazer a conta como proporção da renda, já que o PIB per capita britânico ajustado pelo poder de compra é cerca de 3,5 vezes maior que o brasileiro).
Interessante ver que, assim como Grantham (ver post abaixo), Gross (principal cabeça da PIMCO, maior gestor de renda fixa do mundo), na sua última carta, está pessimista com o futuro próximo dos EUA -- uma economia que cresceu nos últimos anos com base na criação de riqueza no "papel" e agora está vendo trilhões de dólares de contribuintes sendo usados para sustentar esse mesmo modelo.
Bolgatanga e a floresta de Katum podem se tornar nomes conhecidos para o turista americano. Paul Kedrosky nota que, neste ano, apenas nove moedas no mundo (!!!) estão se desvalorizando contra o dólar. O maior movimento é o do cedi de Gana, que perdeu 13%. Nossos vizinhos argentinos também fazem parte dessa seleta lista. E, para o americano que se dispõe a pedir um visto e enfrentar 10 horas de vôo para conhecer o Corcovado ou ver o que a baiana tem, os preços em real estão hoje cerca de 35% maiores do que no final do ano passado. É o preço do sucesso, como diria nosso querido ministro Mantega.
... quando o Mc Donald's resolve abandoná-lo porque os custos dos insumos dobraram de um ano para cá e é inviável aumentar os preços para recuperar algo da margem de lucro. Nem na Argentina dos piores dias isso aconteceu.
"You tried your best, and you failed miserably. The lesson is: never try."
Confesso que pequei. Perdão, caro leitor. Anteontem recomendei, com base em uma leitura diagonal, uma matéria da Época Negócios sobre os novos rumos da pesquisa em economia. A matéria não deixa de ser boa, mas pisa na bola quando fala de Nassim Taleb (ele é o ator citado de quem conheço melhor a obra, pode haver outras pisadas que eu não identifiquei).
No post anterior (já estou escrevendo para leitores seriais... vejam a pretensão), escrevi que ia falar sobre o caso da Vale. Na verdade, pensando bem, sobre o caso em si não há muito o que escrever -- quem acompanha a imprensa está vendo a sequência de atos hostis contra a empresa, vindos de diversas instâncias do governo, nas mais variadas formas. O que preocupa, na verdade, é a motivação política do governo. Novamente: o sucesso relativo dos últimos anos está sendo usado para lubrificar a idéia da necessidade de um Estado maior e com mais influência na economia -- seja para implementar idéias "desenvolvimentistas", ou , simplesmente, para empregar mais "companheiros".
Um mês atrás eu escrevi aqui que Lula e o PT estão aproveitando o momento de relativa calmaria e o sucesso do "modelo brasileiro" durante a crise como argumentos para aumentar a influência econômica do Estado. Se alguém tinha dúvidas sobre essa postura, creio que essas acabaram ontem. Mantega, o çábio, anunciou, após o fechamento do mercado, que a entrada de capital estrangeiro para investimentos em bolsa e renda fixa será taxada em 2% (via IOF). A medida, palavras do governo, visa afastar o capital especulativo, de curto prazo. Praticamente ao mesmo tempo, o ministro de Minas e Energia disse que o governo pode aumentar os impostos do setor de mineração, incluindo o sobre a exportação de minério.
... que traz, em sua última edição, uma ótima matéria (como há muito tempo eu não via na imprensa local) sobre os rumos e as fronteiras da pesquisa acadêmica em economia. Confira lá.
A The Economist escreve sobre a esquizofrenia do Banco Central Europeu -- reclamando da valorização do euro contra o dólar enquanto vê a inflação afundar, sem mexer nos juros. Mais um exemplo de grande sabedoria dos bancos centrais.
Há uma piada pouco engraçada da época do apartheid (bem, continua sendo atual) na qual um negro entra em um ônibus e senta em um dos assentos na parte da frente. Um guarda diz que o lugar reservado para negros é no fundo do ônibus, e pede que ele se mude para lá. O negro se levanta e começa um sermão, dizendo: "Imagine se fôssemos todos marcianos, verdes. Seríamos todos iguais, e não haveria discriminação. Eu poderia continuar sentado aqui, então não vou sair". O guarda insiste: "Se isso acontecesse, o lugar dos verde-escuros seria no fundo do ônibus. Pode ir pra lá". Para uma analogia mais tosca e direta, há também uma música de uma banda gaúcha cujo líder é um baixista loiro e cabeludo (dá vergonha falar o nome) cujo refrão é: "todos iguais, todos iguais... mas uns mais iguais que os outros". Enfim, o leitor atento já entendeu o sentido e deve estar irritado com esse parágrafo introdutório longo e desnecessário.
Há na mitologia do mercado financeiro, acredite, uma teoria do tamanho das saias -- pela qual o tamanho das saias da moda são uma indicação da atmosfera do mercado. Pode parecer loucura, mas há um bom racional: para resumir muito, mercados otimistas (bull) incentivam inovação e ousadia; mercados pessimistas (bear) pedem conservadorismo. Com base em uma matéria do Wall Street Journal, que acredita que a tendência para a próxima primavera do hemisfério norte são roupas que lembram os anos 1920, o pessoal da Elliott Wave International fala sobre como o mercado da moda é ligado ao mercado financeiro -- estamos falando do mesmo mundo e dos mesmos tempos, afinal de contas. Não é um gatilho para sair vendendo ações, mas é sempre bom termos idéia de onde estamos pisando.
O Valor noticia hoje que o Citi está estudando uma abertura de capital de sua unidade brasileira (ou sozinha, ou junto com o Banamex, a subsidiária do México), inspirado pelo sucesso da emissão do Santander Brasil. Porque alguém vai querer ser sócio de um banco praticamente quebrado é um mistério, mas o fato, acredito, reforça uma idéia minha: há algum tempo escrevi sobre a "the greater fool theory", onde alguém compra um ativo esperando que, no futuro, consiga vender a um preço maior para outro, mais idiota.
A essa altura já não é mais novidade, mas só fui ler hoje: a piauí deste mês faz um grande e interessante perfil de José Serra, o (por enquanto) favorito para a corrida presidencial do ano que vem. Vale a leitura, especialmente comparada ao perfil da Dilma que a mesma revista publicou em duas partes (aqui e aqui).