Na falta de notícia melhor...Governo libera R$ 80 bi extras para BNDES emprestar
O Tesouro segue financiando a dieta hipercalórica do BNDES. Aguardamos a contrapartida em desenvolvimento econômico e social.
Escritos (não muito sóbrios) sobre economia, mercado financeiro e afins.
Na falta de notícia melhor...
Um amigo me informou hoje que o Brasil levou para a Conferência Climática da ONU uma delegação modesta, de 720 pessoas, ao custo de R$ 30 milhões (de onde qualquer calculadora pode concluir que o gasto médio por representante da nossa pátria amada, idolatrada, foi de R$ 41,7 mil - belas férias, não?). Tudo isso com a nobilíssima intenção de salvar o país e o mundo do aquecimento global (não vamos considerar que o Ministro do Ambiente ainda não entrou em acordo com os diplomatas sobre o que o Brasil vai pedir na conferência).
Há cerca de 14 meses, o índice S&P 500 (de ações americanas) estava mais ou menos no mesmo nível em que está hoje. O Ibovespa valia 46 mil pontos (hoje vale quase 69 mil). Brasil, todo mundo acredita.
Mais uma daquelas listas para arrancar os cabelos pensando em quanta coisa interessante deixamos de ler durante o ano.
Melhor comentário até agora:
A capa do Valor de hoje traz algumas previsões para o crescimento do PIB brasileiro no ano que vem. Tem gente projetando aumento de 20% nos investimentos e crescimento total de 6,5%. Tudo isso com juros baixos, para fechar a conta de uma projeção de Ibovespa acima de 80 mil pontos. Acredite quem quiser.
A lista da revista Foreign Policy é encabeçada por Ben Bernanke e inclui Larry Summers e Dick Cheney. Acho que resume bem o espírito do ano: nada mudou, business as usual. A leitura subliminar é que os problemas continuam os mesmos, e sem nenhum sopro de renovação para resolvê-los.
Woody Allen dirigiu exatamente dez longas durante a década (teria tido uma regularidade ainda mais impressionante se não tivesse passado em branco por 2004 e compensado lançando dois títulos em 2005). Uma sequência fraca (para padrões Woody Allen, claro) nos primeiros cinco anos foi interrompida por este filme, o melhor dos anos 00 e um dos melhores da carreira de Allen. Match Point volta aos temas de culpa e moralidade do genial Crimes e Pecados (1989), constrói uma versão século XXI para a obra prima de Dostoiévski Crime e Castigo e introduz a visão do diretor, cínica e realista, sobre o papel da sorte na vida. Nas mãos de alguém menos hábil, tal combinação poderia resultar em um filme árido e sonolento; nas mãos do mestre, virou uma história de suspense, temperada com bom humor e Scarlett Johansson.
Eu imagino qual teria sido o impacto desse filme em mim se eu tivesse a mesma idade dos protagonistas – algo como vinte e poucos anos em 1995, quando foi lançado o primeiro filme (Antes do Amanhecer) e mais perto dos 30 em 2004. De qualquer maneira, como só fui ver os dois em uma idade intermediária, me identifiquei com as duas situações. O passado, romântico e bastante ingênuo; e o futuro breve, mais difícil, mas não menos fascinante. Talvez por este filme ter tido participação dos dois atores principais (Ethan Hawke e Julie Delpy) no roteiro, ele às vezes parece um documentário, mas não deixa de alimentar um pouco do ideal romântico de Antes do Amanhecer.
Denys Arcand traz de volta os mesmos personagens de O Declínio do Império Americano (1986): intelectuais da parte francófona do Canadá, inteligentes, céticos, beberrões, sarcásticos e meio tarados. As Invasões Bárbaras é sobre a despedida de um deles, Rémy, da vida, e traz uma reflexão honesta e realista sobre família, amigos e a morte.
Fui assistir a esse filme esperando absolutamente nada, já que tinha achado muito chato o único filme (In the Mood for Love, não lembro como ficou o título em Português) que havia visto do diretor. Dada a posição dele na lista, não preciso falar quão boa foi a surpresa ao terminar a sessão. As histórias dos personagens de Norah Jones (grata surpresa como atriz), Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz (não dá para entender como ela ganhou o Oscar por O Jardineiro Fiel e não por este papel) e Natalie Portman são envolventes e profunamente humanas. E a música (The Story) composta por Norah Jones para a trilha é das coisas mais sensuais que já foram gravadas. Aliás, a trilha toda (Cat Power, Cassandra Wilson, Otis Redding, Ruth Brown) é tão boa quanto o filme.
Cidade de Deus deve ser quase uma unanimidade nessas listas de Top 10 da década. Há muito tempo um filme brasileiro não era tão reconhecido, e hoje é uma influência visível para histórias filmadas sobre países subdesenvolvidos (vide Quem Quer Ser um Milionário?, talvez o filme mais superestimado da década).
Antiherói Americano mistura cinema, quadrinhos e documentário para contar a história de Harvey Pekar, um americano ranzinza, funcionário público e viciado em jazz. Esse vício levou-o a conhecer o grande desenhista Robert Crumb, e a amizade dos dois transformou-se numa parceria onde Pekar contava seus “causos” e pensamentos e Crumb transformava-os em histórias em quadrinhos. Brilhante interpretação de Paul Giamatti, e uma cena comovente usando a interpretação de John Coltrane para My Favorite Things como trilha sonora.
“Tarantino é doente”, foi o consenso que eu e os amigos cinéfilos conseguimos chegar após ver Bastardos Inglórios. Felizmente sua doença é canalizada para filmes brilhantes e delirantes como este, o melhor desde Pulp Fiction. E se há alguma justiça no Oscar, Christoph Waltz sai da premiação do ano que vem com uma estatueta pelo papel do coronel poliglota Hans Landa.
A idéia do conto de F.S. Fitzgerald é tão boa que é de se estranhar que tenha levado tanto tempo para ser adaptada para o cinema. Felizmente a espera foi recompensada, e ganhamos um ótimo filme de um dos diretores mais interessantes da atualidade. Infelizmente, o filme teve que concorrer com a febre Quem Quer Ser um Milionário?, e não levou nada no Oscar. Acho as cenas em que Brad Pitt e Tilda Swinton contracenam, no segmento em que Button está em Murmansk, uma aula sobre como mulheres gostam, sobretudo, de serem ouvidas.
Valeria só pelas cenas com a Eva Green, mas, como mulher pelada não é o critério da lista, esse filme é um dos motivos que me fazem ter vontade de ter vivido os anos 1960. Ou melhor, ser um estudante americano morando em Paris em 1968 e tendo um caso com a Eva Green.
Closer é o contraponto à esperança de Antes do Amanhecer, e condensa, embora de forma menos bem humorada, o pensamento de Woody Allen sobre relacionamentos no final de Annie Hall: "I thought of that old joke, y'know, the, this... this guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken." And, uh, the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs." Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs”
Da Bloomberg:
O ano vai acabando, a liquidez dos mercados vai minguando, e os assuntos sobre mercado financeiro e economia vão ficando cada vez mais batidos. Todos estão felizes com o brilhante ano que o mercado de ações teve (Bovespa +83% por enquanto - era só ter comprado, infiéis), e o abismo parece ter sido empurrado para 2010.
Michael Jackson, pelo Google Zeitgeist. Barack Obama, como dizem lá, is sooooooooo 2008...
Acabou de passar por aqui:
Nassim Taleb tira uma folga da mídia, após considerar que o reapontamento de Ben Bernanke para a presidência do Fed é demais para aguentar. Para ele, o mundo nunca esteve tão frágil.
Não vá ao shopping! Ou vá de transporte público. Ou procure vaga na rua, e sofra com os odiosos flanelinhas.
Aproveite para fazer o seu puxadinho e mobiliar com um dormitório Bartira:
É a clássica história da formiga e da cigarra aplicada aos Emirados Árabes Unidos: enquanto a formiga Abu Dhabi poupava a receita do petróleo e montava o maior fundo soberano do mundo, a cigarra Dubai, cuja receita do petróleo já acabou há algum tempo, se endividava para construir o prédio mais alto do mundo, um hotel seis estrelas, um condominío de ilhas em forma de palmeira, etc. Na crise, a cigarra foi pedir abrigo para a formiga, e Abu Dhabi injetou dinheiro em Dubai para que esta não quebrasse. Agora, com o mundo inundado em liquidez, aparece a prova de quão frágil é a situação na terra "onde o sol nunca se põe": a Dubai World, uma das companhias estatais, tenta negociar o pagamento de títulos que vencem no próximo dia 14. O mundo parece não querer financiar Dubai; o que vai acontecer quando a formiga resolver não abrir a porta?
A cara de pau de políticos não têm limites. Veja o Brasil, bonito por natureza e dotado do maior potencial de geração hidroelétrica do mundo: um acaso da natureza agora faz com que o país possa alardear que tem a energia mais limpa do mundo, e leva o nosso Ministro de Minas e Energia a apontar o dedo para os americanos, que dependem do carvão para gerar 50% da energia que consomem. Esse tipo de bravata não custa ao consumidor, pelo menos. O caso do Ministério da Fazenda é mais grave: a causa verde ("Brasil está muito preocupado com meio ambiente", proclamou o çábio Mantega) está sendo usada como justificativa para subsidiar, via isenções e corte de impostos, indústrias com boa influência no governo. Paga a conta, como sempre, o contribuinte. Já havia sido anunciada uma isenção para geladeiras que tivessem um "selo verde". Hoje foi a vez da indústria automotiva: foi mantido o IPI reduzido de 3% para carros flex 1.0 até março do ano que vem (o plano inicial era voltar, gradualmente, a alíquota aos 7% pré-crise). Segundo a Fazenda, tal medida vai custar R$ 1,3 bilhão às contas públicas.
Continuando a nossa série... por enquanto, ninguém prevê nada diferente da continuação do movimento.
Hoje o Valor nos informa que, durante a "marolinha" de outubro do ano passado, o Banco do Brasil jogou uma bóia de R$ 5,8 bilhões para os bancos Votorantim, Alfa e Safra. Na época, tivemos de ouvir bravatas por todos os lados, que diziam, entre outras barbaridades, que a crise financeira era coisa de "banqueiro loiro de olhos azuis". Infelizmente, passado o calor do momento, pouca gente vai prestar atenção na história que começa a aparecer. Infelizmente porque seria um bom aprendizado e exercício de humildade, pelo menos. Mas chegaremos no ano de eleição com a imagem de que temos um banco central infalível e um presidente onisciente. Pior para o país.
"Se fizermos uma análise geológica de Brasília, fatiagráfica, notaremos camadas que se superpõem. E qual é a regra do jogo? É a nova camada respeitar cuidadosamente os benefícios recebidos pela que está sendo substituída."
"A new scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die, and a new generation grows up that is familiar with it."
Elio Gaspari, com a sobriedade e inteligência habituais, fala sobre o "caso Mario Torós".
Funciona assim: o governo emite dívida para dar dinheiro aos bancos. Os bancos recebem esse dinheiro, usam parte para comprar a mesma dívida que o governo emitiu e lucram, recebendo, nos dois casos, dinheiro do contribuinte. Os mesmos bancos, agora que já garantiram os bônus dos executivos no ano, resolvem ser filantropos e emprestar parte do dinheiro para apoiar pequenos negócios. Os pequenos negócios, tocados por alguns contribuintes, prosperam, com dinheiro, em última instância, também de contribuintes.
Somália, Afeganistão e Myanmar são os lanternas da lista do Índice de Corrupção Percebida, pulicada hoje pela Transparência Internacional. O Brasil? Pelo lado bom, está na metade de cima da lista e subiu da 80ª para a 75ª posição. Pelo lado ruim, segue atrás de Gana, Cuba, Namíbia...
Abra o Google Maps e tente achar as ilhas Maurício. Dica 1: aumente o zoom. Dica 2: vá para a costa oriental da África, no Oceano Índico, a leste de Madagascar. Ali estão: 1,3 milhão de habitantes, área quatro vezes menor que a região metropolitana de São Paulo. A notícia do dia é que tal país adquiriu, do FMI, duas toneladas de ouro, a preços de mercado. Motivos possíveis: diversificar reservas para fugir do dólar e surfar a tendência de alta do ouro. Os últimos convidados para a festa estão chegando, logo mais, ela acaba.
É claro que Mario Torós não sobreviveria à matéria do Valor de sexta-feira. Ontem ele anunciou sua saída da diretoria de política monetária do Banco Central, por motivos pessoais. Foi reposto por Aldo Luiz Mendes, funcionário de carreira do Banco do Brasil e que presidia a Companhia de Seguros Aliança do Brasil, cargo para o qual foi transferido pelo nosso estimado Ministro da Fazenda. E aqui temos o nosso banco central "independente".
Da última carta mensal da Eclectica Asset Management, a composição da carteira de investimentos do fundo que administra o dinheiro da maior universidade do mundo. Uma carteira que deveria ser conservadora (afinal, dela depende a existência da universidade) com apenas 8% em renda fixa. Algo deve estar errado com o mundo -- ou com o meu modo de enxergá-lo.
O Nobel de economia escreve hoje no New York Times sobre os profundos desequilíbrios que o câmbio fixo da China causa no resto do mundo.
"Paciência, o câmbio é flutuante, vocês fizeram isso, se virem."
A capa e a longa reportagem especial da The Economist desta semana tratam do nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Ainda não li as matérias, mas coloco aqui quando achar algum destaque.

A ÚNICA aposta lógica para o ano que vem. Infelizmente ele não coloca uma previsão numérica. Aguardamos ansiosamente.