quarta-feira, 25 de abril de 2018

Brazil 2018 General Elections – The Parties

This is the second post in the series. The first one is Brazil 2018 Presidential Elections – Potential Candidates.

Brazil has currently 35 registered parties, constituting what is probably the most shattered political system in the world. It has currently 14 effective parties in the Lower House (see Figure 1), and its three last congress elections (2006, 2010, and 2014) produced some of the most fragmented legislatures among 1,167 elections in 137 countries (see Figure 2).

Figure 1: Effective number of parties in Brazil's Lower House (source: Jairo Nicolau)
Figure 2: Effective number of parties in the Legislative (y-axis) and in the elections (x-axis) for 1,167 elections – last seven Brazilian elections are represented as triangles. Source: Nicolau (2017)
The table below tries to summarize the main characteristics of all currently registered parties in Brazil:



Power Index

How the sausage is made (source)

The Power Index is a quick and dirty measure I developed to evaluate the relative strength of the parties. I simply added, with equal weights, the share of each party in five arbitrary dimensions: membership (as of October 2017); mayors and mayors of state capitals (as elected in 2016); state governors, federal deputies, and senators (as elected in 2014). I normalized the sums so the highest value obtained is 100 and the others are simple proportions of it. Results are below.

Brazilian parties in the political spectrum

To avoid (much) controversy, I chose to label the parties preferentially as per their own reported ideological positions in a 2016 survey made by O Globo newspaper (results in Figure 3). For the parties that didn't answer it, I picked the modal position in a survey of other studies made in 2013 by Gabriel da Silva Tarouco and Rafael Machado Madeira (Figure 4). The latest round of the Brazilian Legislative Survey, coordinated by Timothy J. Power and César Zucco and partially released a few weeks ago by BBC Brazil, compiles those perceptions from interviews with lawmakers (Figure 5). I once wrote a PhD research proposal that included using machine learning to derive the average ideological position ("learned" from a sample of canonical publications from each "side") of a given party from the transcriptions of speeches delivered by their elected representatives. That would be cool, wouldn't it?

Figure 3: O Globo 2016 survey on parties' ideologies

Figure 4: Table from Tarouco & Oliveira (2013)
Figure 5: Results from the Brazilian Legislative Survey

Where do the parties come from?

This is a nice timeline, made by G1 in 2014 (click to enlarge):



References not linked above:

Nicolau, Jairo. Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Brazil 2018 Presidential Elections – Potential Candidates

Desculpas aos leitores habituais em Português, mas vou usar este espaço para ir divulgando algumas partes de um projeto que desenvolvi em Inglês e acabou não virando. Espero que também aproveitem!

Brazil's 2018 general elections take place next October. During the lead-up to the voting day, I'll be posting information and analyses that may be useful for foreign investors or anyone interested in this major event. This is the first part: an extensive (but not exhaustive) list of the main potential presidential candidates – official candidacy registration starts only in July; so far we have many so-called self-declared "pre-candidates" and especulation about some names.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Quando o acaso atropela talento e esforço

Do alto da minha arrogância de vestibulando de engenharia (17 anos, inteligentinho, estudando 8 horas por dia em um bom cursinho), eu ficava irritado quando, antes de alguma prova, alguém me desejava "boa sorte". Ora, na minha mente adolescente, todo o meu preparo e dedicação eliminavam qualquer papel do acaso, e o resultado do vestibular estava dado dias antes de eu sentar para fazer a prova, pela soma do tempo gasto na preparação. Sorte era pra quem não tinha estudado direito, obrigado.

Hoje, 20 anos depois, considero um indicador claro de amadurecimento perceber que quem estava certo memo era Nelson Rodrigues – que, além de aconselhar escrotinhos de 17 anos a envelhecer, dizia que "sem sorte não se chupa nem um Chicabon. Você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha." Meritocracia só opera (quando opera) depois que uma série de possíveis azares, de difícil ou nenhum controle, são superados. Cada história de sucesso é um pequeno milagre probabilístico. Ou, como gosta de dizer um amigo, de forma mais eloquente e elegante, "o acaso é foda."

Em um livrinho que mistura histórias pessoais, estatística e propostas de reforma tributária, Robert H. Frank, professor de Cornell, propõe um experimento computacional relativamente simples (pode ser replicado no Excel, por exemplo): pegue 1.000 (ou 10.000, ou 100.000) pessoas, definidas por três atributos, distribuídos aleatoriamente pela amostra: habilidade, esforço e sorte. Cada atributo tem uma pontuação, de 0 a 100. Dê pesos iguais para habilidade e esforço, e atribua o restante – um peso relativamente pequeno, de 1% a 20% – à sorte. Use a composição desses atributos para definir o único vencedor de mil de torneios entre essas pessoas, e observe com qual frequência o resultado desvia da maior soma de habilidade e esforço – ou seja, quantas vezes o competidor mais habilidoso e esforçado deixa de vencer. Algum chute?


O produto de uma simulação está no gráfico acima. A direção dos resultados é intuitiva: quanto maior o peso da sorte, maior a probabilidade do vencedor não ser o que tem a melhor combinação de habilidade e esforço. E, dentro do mesmo nível de sorte, quanto maior a amostra, maior o peso da sorte – maior a probabilidade de um embate entre dois competidores com níveis equivalentes de habilidade + esforço ser decidida pela sorte. O que surpreende é quão frequente a parada é resolvida pelo acaso: em torneios com 100.000 participantes, em pelo menos 68% dos casos o vencedor não será o mais habilidoso/esforçado. Essa proporção sobe para mais de 90% quando a sorte determina apenas 10% do resultado na maior amostra testada. 

Mais recentemente, três pesquisadores italianos (dois físicos e um economista), partindo de uma ideia semelhante, propuseram um modelo ainda mais sofisticado e realista: para uma população de 1.000 pessoas dotadas de 10 unidades, distribuídas aleatoriamente (seguindo uma normal), de "talento", simularam uma carreira de 40 anos. A cada seis meses, cada pessoa é exposta, também aleatoriamente, a eventos de sorte ou azar, que, respectivamente, dobram ou reduzem pela metade, como proporção ao talento, uma medida de sucesso (também configurada inicialmente com 10 unidades). 


Passados os 40 anos, eis os resultados: primeiro, a distribuição de sucesso deixa de ser normal (concentrada em torno da média e com poucos resultados muito divergentes) e passa a seguir uma lei de Pareto, com alta desigualdade (ver a figura abaixo). Menos de metade da população termina com mais que os 10 "sucessos" iniciais, e os 20 indivíduos mais bem-sucedidos concentram 44% do sucesso total. Segundo, como nas simulações de Frank, raramente os mais talentosos terminam melhor. O acaso atropela as condições iniciais com frequência.

Pluchino, Biondo e Rapisarda ainda fazem outros simulações para avaliar a eficiência de diversas estratégias de financiamento e a influência do ambiente em termos de oportunidades para os indivíduos, também com resultados interessantes, mas não quero me alongar (mais) aqui. Minha conclusão é que, sobretudo em ambientes complexos e altamente competitivos, onde muitas pessoas qualificadas disputam algo, devemos aplicar uma alta dose de compaixão. A diferença entre quem é lembrado e quem é esquecido e deixado para trás pode ser nada mais que um atraso por conta do trânsito, uma dor de estômago, uma briga com o marido, uma chuva que fez um avião não decolar na hora esperada, uma folha de respostas de vestibular perdida num assalto.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Faz sentido pensar em auditoria da dívida?

São Tufte chora
Só pra começar o ano por aqui e requentar um texto que saiu no ano passado no Acredito e no Brasil Economia e Governo. Logo volto.

domingo, 31 de dezembro de 2017

O Mito do 'Quality Time'

Há quase 20 anos passo a virada de ano com um grupo de amigos, geralmente na praia. Este ano traduzi esse artigo do Frank Bruni para ler antes da ceia. Feliz 2018!


O Mito do ‘Quality Time’
Frank Bruni (New York Times, 5 de Setembro de 2015)


Todo verão, por muitos anos, minha família tem obedecido ao nosso ritual. Todos nós 20 – meus irmãos, meu pai, nossos companheiros, minhas sobrinhas e sobrinhos – procuramos uma casa de praia grande o bastante para caber todo o clã caótico. Nós viajamos de nossos diferentes estados e fusos horários. Nós dividimos os quartos sob tensão, tentando lembrar quem se deu bem ou mal na viagem anterior. E nós nos jogamos uns aos outros por sete dias e sete noites.

É isso: uma semana inteira. Isso é parte de um ritual que intriga muitos dos meus amigos, que apreciam proximidade familiar, mas acham que pode haver exageros. Um fim-de-semana prolongado não é suficiente? E não evitaria algumas briguinhas e simplificaria o planejamento?

A resposta para a segunda pergunta é sim, mas, para a primeira, um enfático não.

Eu costumava achar que mais curto seria melhor, e, no passado, eu chegava para essas férias na praia um dia depois ou ia embora dois dias antes, dizendo a mim mesmo que eu tinha que quando, na verdade, eu também queria – porque eu desejava meu espaço e meu silêncio, e porque eu fico cansado de me lambuzar de protetor solar e de encontrar areia em lugares estranhos. Mas, nos últimos anos, eu tenho aparecido no começo e ficado o tempo todo, e notei uma diferença.

Num período mais longo, há uma chance maior de eu estar por perto no momento preciso e aleatório quando um dos meus sobrinhos baixa a guarda e me pede um conselho sobre algo pessoal. Ou quando uma das minhas sobrinhas precisa de alguém que não seus pais para lhe dizer que ela é inteligente e bonita. Ou quando um dos meus irmãos lembra de um incidente na nossa infância que nos faz rir incontrolavelmente e, de repente, a corrente íntima e feliz do nosso amor fica muito mais apertada.

Simplesmente não há substituto real para a presença física.

Nós nos iludimos quando dizemos o contrário, quando invocamos e veneramos “quality time,” uma expressão batida com uma promessa questionável: que nós podemos planejar ocasiões de franqueza extraordinária, tramar episódios de ternura sutil, engenhar intimidade numa hora marcada.

Podemos tentar. Podemos isolar uma refeição por dia ou duas tardes por semana e livrá-las de distrações. Podemos escolher um lugar especial que encoraje relaxamento e elevação. Podemos enchê-lo de totens e frufrus – um balão para uma criança, espumante para uma esposa – que sinalizam celebração e criam um senso de sagrado.

E não há dúvida que o grau de atenção que trazemos para uma ocasião a enobrece ou a diminui. É melhor passar 15 minutos focados e atentos do que 30 totalmente distraídos.

Mas pessoas não operam no exato momento em que se espera. Pelo menos nossos humores e emoções não. Nós pedimos ajuda ocasionalmente; nós desabrochamos de forma imprevisível. O jeito mais seguro de ver as cores mais brilhantes, ou as mais escuras, é observar e esperar e estar pronto para elas.

Isso se reflete em uma mudança sobre a qual Claire Cain Miller e David Streitfeld escreveram no The Times. Eles notaram que “uma cultura de trabalho que exige que mães e pais voltem correndo para seus escritórios está começando a mudar,” e citam “políticas mais amigáveis para famílias” na Microsoft e na Netflix, que estenderam o tempo de licença que pais e mães podem tirar.

Ainda estamos por ver quantos pais e mães vão sair da rotina acelerada e se beneficiar disso, mas aqueles que o fizerem estarão decidindo que a quantidade de tempo que passam com suas crias importa tanto quanto a intensidade com que o fazem.

Eles têm sorte: muitas pessoas não são privilegiadas o bastante para poder fazer esse tipo de escolha. Minha família também tem sorte. Nós temos condições de tirar férias.

Mas nós também nos dedicamos a isso, e determinamos que o Dia de Ação de Graças não é o bastante, que o Natal passa muito rápido e que se cada um de nós quer mesmo ser parte central da vida dos outros, precisamos fazer um investimento do qual os maiores componentes são minutos, horas e dias. Assim que a nossa semana na praia deste verão acabou, nos debruçamos sobre nossos calendários e trocamos dezenas de e-mails para achar uma semana no próximo verão que todos possam tirar. Não foi fácil, mas foi essencial.

Casais vão morar juntos não porque isso é prudente economicamente. Eles entendem, conscientemente ou instintivamente, que proximidade ininterrupta é o melhor caminho para a alma de alguém; que gestos não ensaiados em momentos inesperados rendem melhores recompensas que aqueles ensaiados para um encontro marcado; que o “eu te amo” que conta mais não é sussurrado com grande cerimônia no topo de uma colina na Toscana. Não, ele escapa casualmente, espontaneamente, na seção de hortifrútis ou lavando louça, no meio do tédio e da sujeira de suas rotinas. Também é quando as confissões mais verdadeiras são feitas, quando a mágoa está mais crua e o carinho mais puro.

Eu sei como meu pai de 80 anos se sente sobre morte, religião e Deus não porque eu marquei um encontro discreto para discutir tudo isso com ele. Eu sei porque eu, por acaso, estava no banco do passageiro do carro dele quando esses pensamentos estavam na sua mente e quando, por qualquer motivo imprevisível, ele se sentiu confortável para articulá-los.

E eu sei o que ele aprecia e do que se arrepende mais no seu passado porque, além de eu ter sido pontual para as férias deste verão, eu viajei para lá com ele, para engordar nossa visita, e ele estava especialmente pensativo naquele voo.

Foi durante um almoço na casa de praia o dia que meu sobrinho mais velho falou, com franqueza e extensão incomuns, sobre suas expectativas para a faculdade, suas experiências no ensino médio – coisas que eu sempre tentei arrancar dele antes, nunca conseguindo as respostas generosas que ele me deu durante aquela refeição em particular.

Foi numa corrida na manhã seguinte que a minha sobrinha mais velha descreveu, como nunca tinha feito para mim antes, frustrações e detalhes do seu relacionamento com seus pais, suas duas irmãs e seu irmão. Por que essa informação saiu dela naquele momento, com pelicanos voando sobre nossas cabeças e suor escorrendo pelas nossas testas, não consigo dizer. Mas consigo dizer que estou ainda mais fortemente ligado a ela agora, e não por causa de algum esforço orquestrado e deliberado para testar as emoções dela. É porque eu estava presente. É porque eu estava lá.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Os livros de 2017

É aquela época do ano de novo. Aqui o que andei lendo de bom (em nenhuma ordem particular):

Ficção

‘Sweet Tooth’, Ian McEwan. A Guerra Fria encontra a literatura na Inglaterra dos anos 1970. Ainda estou pra ler um livro ruim do McEwan.

‘El Aleph’, Jorge Luis Borges. Tem El Zahir, El Aleph e mais alguns outros contos pra você ler em 20 minutos e seguir pensando neles por 20 anos.

‘The Plot Against America’, Philip Roth. É ótimo e tem todas aquelas analogias com a eleição do Trump que você está cansado de ouvir.

‘Afirma Pereira’, Antonio Tabucchi. Obra-prima de concisão e erudição, a briga solitária de um jornalista contra o fascismo português.

‘Os Cus de Judas’, António Lobo Antunes. Mais sobre a vida sob o salazarismo, aqui do ponto de vista de um médico dado a digressões longas e originais trabalhando em Angola durante a guerra colonial.

‘O Homem que Amava os Cachorros’, Leonardo Padura. Grande romance histórico e crítica devastadora ao stalinismo.

‘Half of a Yellow Sun’, Chimamanda Ngozi Adichie. Novelona (no melhor dos sentidos) ambientada na Guerra de Biafra. Não perca tempo com o filme, ruinzinho, ruinzinho. (Acabei de descobrir que essa guerra parou pra um amistoso do Santos de Pelé contra uma tal Seleção do Meio Oeste, história fantástica.)

‘Bone’, Yrsa Daley-Ward. Poesia para a minha geração (que não gosta muito de poesia, acho).

‘Laços’, Domenico Starnone. Não há uma linha desperdiçada nessa grande pequena novela. Junto com o Lobo Antunes, foi o que mais gostei de ler no ano.


Não-ficção

‘Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies’, Jared Diamond. Uma busca original e erudita pela causa-raiz do desenvolvimento econômico. O tamanho intimida, mas é uma leitura fluente e prazerosa.

‘A Ditadura Acabada’, Elio Gaspari. Esperado último livro da série, é generoso demais com o governo no desastre econômico do fim do “milagre”, mas vale a leitura.

‘A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo’, Paulo Francis. Sempre divertido rever os chutes e acertos de um dos nossos maiores tudólogos.

‘Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals’, John Gray. Pra ler na praia, num dia de sol, com um mojito na mão (em qualquer outra situação pode levar à depressão e pensamentos suicidas, epa, peraí, por que você está entrando no mar com uma bigorna amarrada no tornozelo?).

‘Traffic: Why We Drive the Way We Do’, Tom Vanderbilt. Enorme e bem-sucedido esforço para apresentar de forma atrativa os resultados de décadas de pesquisa acadêmica sobre um assunto que tanto nos afeta.

‘Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados’, Jairo Nicolau. Manual claríssimo e bem-escrito para entender os desdobramentos do voto proporcional no Brasil. Merecia uma edição atualizada em 2018 incorporando as mudanças da última rodada de reforma política.

‘Pavões Misteriosos – 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil”, André Barcinski. As histórias e personagens, famosos e anônimos, de um período de grande criatividade e cara de pau da brilhante música feita por aqui.

‘Better Presentations: A Guide for Scholars, Researchers, and Wonks’, Jonathan Schwabish.
Excelente para quem, como eu, gasta um tempo inconfessável trabalhando com o PowerPoint e apresentando material técnico.

‘Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy’, Tim Harford. Harford é quem melhor leva Economia às massas, segue em grande forma.

‘China Airborne’, James Fallows. A indústria aeronáutica chinesa como ponto de partida para falar sobre desenvolvimento, instituições e, claro, o maior dos “grandes enriquecimentos” da história.

‘1988: Segredos da Constituinte’, Luiz Maklouf Carvalho. Ainda quero ler uma narrativa bem contada da constituinte, mas esse livro de entrevistas é muito informativo e divertido.

'Os Pecados Secretos da Economia', Deirdre McCloskey. A edição ficou linda e a tradução é ótima, até compensam a picaretagem do cara que fez as notas.


Quadrinhos

‘Trinity: A Graphic History of the First Atomic Bomb’, Jonathan Fetter-Vorm. Como diz o título, uma história ilustrada do Projeto Manhattan, com vários diálogos históricos reproduzidos.

 ‘Marbles: Mania, Depression, Michelangelo, and Me’, Ellen Forney. Um relato instrutivo, honesto  e sensível sobre a relação entre transtorno bipolar e arte.

 ‘O Árabe do Futuro 3 – Uma Juventude no Oriente Médio (1985-1987)’, Riad Sattouf. Presença frequente por aqui, a série continua ótima.

Outros

‘This Book Is a Planetarium… And Other Extraordinary Pop-Up Contraptions’, Kelli Anderson. Presente de Natal para a pessoa mais curiosa e inteligente da casa (o pequeno Drunk Jr., claro).



Um ótimo final de ano e um 2018 ainda melhor para todos!

sábado, 25 de novembro de 2017

O que os estados brasileiros exportam, afinal?

O mapa abaixo, que coloquei no Twitter esta semana, gerou muita curiosidade. Aqui o gabarito de algumas das perguntas que apareceram por lá:



  • O Acre exporta para o Peru madeira (30% do total) algo na categoria de cocos, castanha do Brasil e castanha de caju (27%).
  • Roraima exporta arroz e açúcar para a Venezuela. Jan Tinbergen e discípulos devem ter algo a dizer dos casos de Acre e Roraima, também.
  • 99% do que o Maranhão exporta para o Canadá é óxido de alumínio e derivados (como coríndon).
  • Rondônia exporta carne bovina para Hong Kong.
  • Sergipe, nos últimos 12 meses, exportou mais de 21 mil toneladas de suco de frutas para a Holanda.
  • Nesse mesmo período, Amazonas exportou quase US$ 100 milhões em motocicletas para a Argentina.
  • Desde outubro passado, Pernambuco (provavelmente a fábrica da FCA) exportou mais de meio bilhão de reais em automóveis para a Argentina.
  • O Distrito Federal exporta para o mundo, além de táticas de corrupção e dinheiro para ser lavado, soja e carne de frango.

domingo, 12 de novembro de 2017

Custo de vida e renda no Brasil: ganhe em Brasília, gaste no Piauí

Semana passada o FMI publicou esse paper do Carlos Góes e Izabela Karpowicz que, entre outras coisas, estimou diferenças de poder de compra entre os estados brasileiros (vale ler o trabalho inteiro, que faz ótimo uso dos microdados da PNAD). Com os dados, o Thomas Conti fez o mapa abaixo, que ganhou certa fama nas redes:

Pegando carona na fama do Thomas, cruzei os dados de poder de compra com os de PIB per capita para tentar medir a "affordability", nada mais do que a relação entre renda e custo de vida. Deu nesses gráficos (clique para aumentar):



No primeiro gráfico, as médias para cada variável define quatro quadrantes: os estados mais caros, com renda abaixo da média (pobre Amapá), estados caros, mas relativamente ricos (SP, RJ e DF, sobretudo), estados relativamente ricos e baratos (por esse critério, o melhor lugar do Brasil para se morar é o Espírito Santo) e os estados relativamente pobres e baratos. Neste grupo, há grande variação de custo de vida -- para uma renda parecida, o Piauí é muito mais barato que Rondônia, e Pernambuco é bem mais caro que os vizinhos Alagoas e Paraíba. Ah, e na média o efeito Balassa-Samuelson funciona para os dados (não esqueça de cortar o cabelo quando for ao Piauí, diria o mestre Jeffrey Frankel).

No segundo, tentei montar um índice de "affordability", dividindo o PIB estadual per capita pelo índice de custo de vida e indexando a 100, a média nacional. Aqui, o PIB per capita domina o efeito do custo de vida, e, no geral, os estados mais ricos (e caros) parecem mais atrativos.

Em resumo: trabalhe em Brasília e gaste no Piauí -- ou mude-se para o Espírito Santo.

P.S. Enquanto preparava esse post, o Thomas, com os mesmos dados, fez esse gráfico, muito mais sofisticado:

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os (enormes) subsídios para crédito direcionado

Publicado originalmente no Acredito, em 23 de maio.

Em meio à polêmica da JBS, empresa que se beneficiou da ajuda do BNDES, vale aprofundarmos o debate sobre a alocação de crédito subsidiado no país.

Um recente trabalho para discussão do Banco Mundial estimou que, em 2015, o Brasil gastou 1,5% do PIB (R$ 86,5 bilhões) em subsídios para crédito direcionado. Isso corresponde a mais de 80% de todo o resultado (déficit) fiscal primário naquele ano, ou a três anos de Bolsa Família.
Além do valor em si, chama a atenção a potencial mal alocação dos recursos: os autores avaliam que empresas que tipicamente se beneficiam de juros subsidiados são grandes, antigas, não usam o crédito barato para investir mais e podem se beneficiar de “arbitragem financeira” -- simplesmente aplicando os recursos recebidos a taxas maiores no mercado financeiro, sem risco.

Como tem sido usado no Brasil, o crédito subsidiado é uma barreira à igualdade de oportunidades e ao crescimento econômico. O alto volume de recursos direcionados aumenta as taxas de juros de mercado, inibindo empreendedorismo, e pode contribuir para o aumento da desigualdade de renda. A solução, na nossa visão, não passa necessariamente pela eliminação imediata de todos os subsídios, mas começa por uma prestação de contas mais clara de custos e benefícios. A Instituição Fiscal Independente, criada no final de 2016, pode ter um papel importante na padronização e disseminação desse tipo de informações.

Clique para aumentar o gráfico.


The reports of my death have been grossly exaggerated

Mas, vergonhosamente, eu ainda não havia postado nada no ano da graça de 2017.

Continuo não conseguindo produzir material original pra colocar aqui, mas vou aproveitar para requentar algumas coisas que escrevi para o Acredito e pro trabalho.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Livros de 2016

Olhando a lista do que li neste ano fiquei com a impressão que, tal qual o autor do maior trote telefônico da história, perdi muito tempo com bobagens – logo, a meta literária para o ano que vem está evidente. O que dá pra recomendar (sem nenhuma ordem particular):

Economia, mercados & afins:


  • ‘The Second Machine Age’, Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson. Possivelmente o melhor guia – sem (muito) deslumbre ou catastrofismo – para como o refinamento de algumas tecnologias que já utilizamos hoje vai mudar nossas vidas e a estrutura do mercado de trabalho.
  • ‘How Does My Country Grow’, Brian Pinto. Excelente guia para analisar países do ponto de vista da macroeconomia e um prazer de ler – uma raridade para livros desse tipo. Grande dica do Samuel Pessôa.
  • ‘The Origin of Wealth: Evolution, Complexity, And the Radical Remaking of Economics’, Eric D. Beinhocker. Economia da complexidade é a heterodoxia possível, acho.

Temas menos mundanos:

  • ‘Letters to a Young Contrarian’, Christopher Hitchens. Hitchens irrita como poucos.
  • ‘When the Facts Change: Essays, 1995-2010’, Tony Judt. A raspa do tacho da produção de Judt, melhor do que muitos tachos inteiros por aí.
Quadrinhos:

  • ‘The Fixer and Other Stories’, Joe Sacco. O ‘fixer’ do título é uma alegoria brutal da Guerra da Bósnia e um dos grandes personagens que já apareceram nos quadrinhos.
  • ‘Zahra’s Paradise’, Amir & Khalil. Excelente companhia pro ‘Rosewater’, de Jon Stewart.
  • ‘Bohemians’, vários autores editados por Paul Buhle e David Berger. Coletânea de quadrinhos um pouco irregular, mas raramente desinteressante sobre uma época porreta.
  • ‘Relish: My Life in the Kitchen’, Lucy Knisley. Qualquer um que gosta de comer vai se identificar com essas memórias sentimentais. A receita de carbonara foi testada e aprovada por este sofrível cozinheiro.
Ficção:
  • ‘Três Mulheres de Três PPPês’, Paulo Emílio Sales Gomes. As três mulheres sapateiam nos três PPPês (os narradores) em novelas de alma paulistana (isso é um elogio!). Paulo Emílio teria feito 100 anos em 2016, aqui uma bela homenagem da Cinemateca Brasileira.
  • ‘The Children Act’, Ian McEwan. McEwan consegue dar leveza para temas éticos e morais pesados e humanidade para juízes e advogados (he he he).
  • ‘Bonita Avenue’, Peter Buwalda e ‘The Human Stain’, Philip Roth. Fazendo a lista me dei conta de que esses dois livros têm bastante em comum – Roth é melhor, mas Buwalda também satisfaz.
  • ‘Obra Completa’, Murilo Rubião. Dos contos mais bem escritos e originais da nossa língua.
  • ‘Madame Bovary’, Gustave Flaubert. Precisa justificar?

Tudo que li no ano está no Goodreads. Feliz 2017, caras e caros.

domingo, 13 de novembro de 2016

Lendo sobre Trump

Passado o choque, resta tentar entendê-lo. A lista abaixo é parte recomendações, parte lição de casa pra mim mesmo:

Niall Ferguson: populismo como reação à globalização.

Joachim Voth compara Trump e Hitler. (Ele pode. Só ele.)

Evan Osnos, num tremendo (e antecipado – a matéria é de setembro) esforço para entender como será o governo Trump.

The Economist, também de setembro, sobre "post-truth politics".

Nate Silver sobre como o resultado das eleições poderia ter mudado.

Jorge Castañeda sobre as implicações para a América Latina.

–Andrew Sullivan, antes e depois. Pessimista, muito pessimista.

Gabriel Trigueiro, bem longe da histeria e mais otimista.

Fukuyama e a nova ordem global de mais nacionalismo e populismo. Timothy Garton Ash mais ou menos na mesma linha.

A teoria política previu Trump, enquanto a ciência política o descartou.

Sociólogos e cientistas políticos que foram aos Estados Unidos profundos também fizeram um trabalho melhor. (Este link e o anterior via Lucas Novaes – obrigado!)

Acemoglu falando de – adivinhem – instituições. Ainda há muito a ser escrito sobre como instituições informais foram derrubadas na campanha deste ano.

Tyler Cowen sobre Peter Navarro, que, supostamente, é o economista que mais influencia Trump.

Ainda é a economia, estúpido (pelo menos quando tratada por Ray Fair).

Hirschman, em 1973, sobre tolerância à desigualdade de renda (o famoso paper do "efeito túnel").

A imagem foi roubada da capa da Der Spiegel.

sábado, 15 de outubro de 2016

Frases do Dia – Jane Jacobs e livres pensadores

The sad truth is that the saints we revere for thinking for themselves almost always end up thinking by themselves. We are disappointed to find that the self-taught are also self-centered, although a moment’s reflection should tell us that you have to be self-centered to become self-taught. (The more easily instructed are busy brushing their teeth, as pledged.) The independent-minded philosopher-saints are so sure of themselves that they often lose the discipline of any kind of peer review, formal or amateur. They end up opinionated, and alone.

Adam Gopnik, neste ótimo ensaio sobre Jane Jacobs, que teria feito 100 anos em maio.