quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bart Simpson & Portfolio Management

Lição para os pessimistas de plantão (eu incluso).



Recebido via e-mail.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os "heróis" do Unibanco e jornalismo preguiçoso


O título da matéria de capa da revista do Valor (ValorInveste) deste mês é "A história não contada do ataque especulativo ao Unibanco". Nela "aprendemos" que as ações do Unibanco sofreram, durante outubro do ano passado, um "intenso ataque especulativo", alimentado por "boatos sobre possíveis perdas da instituição com câmbio". A companhia teria sido salva por uma heróica operação de recompra de ações durante o dia 24 de outubro, orquestrada por um dos diretores da Unibanco Holdings, que reconta a história com tons épicos: "Naquele momento, o mercado atuava como um alcateia, se reunindo para abater uma presa fácil. Era preciso matar o máximo de lobos, e rápido, na partida".

O texto usa como fontes sócios, funcionários e ex-funcionários do Unibanco, que, evidentemente, teriam motivos para florear a história. E o autor da matéria ou se de deixou levar pela simplicidade do conto de fadas maniqueísta (o "bem", representado pelos banqueiros, patriotas, geradores de empregos contra o "mal", os lobos, especuladores, abutres, vendedores usando corretoras estrangeiras) ou quis agradar alguém. A verdade, como de costume, é bem menos glamourosa: simplesmente a recompra ocorreu um pregão antes do Ibovespa alcançar o menor nível desde janeiro de 2005 (29,435 pontos - ver o gráfico abaixo), que não voltou a ser atingido mais nenhuma vez desde então (a bolsa americana ainda teria dois momentos piores, em novembro de 2008 e março deste ano, antes de iniciar uma recuperação relativamente consistente). Aquele dia (27 de outubro) também marcou a mínima de preço de fechamento da ação do Unibanco (R$ 10,28), embora a matéria alegue que os preços das compras da tesouraria tenham sido abaixo desse nível (R$ 10,05).



As conclusões são relativamente claras: primeiro, o que houve não foi um ataque especulativo ao "pobre" Unibanco, mas sim uma venda generalizada de ações, que, no caso do Brasil, atingiu um pico naquele dia (além disso, quase todo o movimento da ação do Unibanco no ano passado foi altamente correlacionado com o Ibovespa, como é fácil ver pelo gráfico). As ações da Vale, por exemplo, também fizeram uma mínima (a menos da metade do que valem hoje) naquele dia, e nem por isso acredita-se que a empresa estava sendo vítima de especuladores. Segundo, trata-se de mais um exemplo de manipulação conveniente do acaso: como tudo correu bem, mesmo por motivos alheios, louros para os protagonistas. Imaginemos se, por exemplo, na semana seguinte da tal recompra mais um banco global quebrasse, mesmo que isso não afetasse em um centavo o balanço ou os resultados do Unibanco. Provavelmente haveria mais uma rodada de vendas de ações mundo afora, que dificilmente não afetaria o preço da ação do Unibanco e pegaria a companhia numa posição de caixa ainda mais fragilizada, depois de ter gastado cerca de R$ 228 milhões na recompra. O Unibanco poderia ter problemas, e os gênios (sortudos) teriam se transformado em (no mínimo) irresponsáveis.
É interessante ver tal matéria aparecer menos de uma semana depois do anúncio que a marca Unibanco vai desaparecer. E também que continuamos sem saber da verdadeira história da operação Itaú / Unibanco: foi de fato uma fusão ou a aquisição disfarçada de um banco que estava frágil? Houve dedo do governo? Essa e outras matérias sobre o período turbulento do ano passado (a ridícula compra de 49,9999999...% do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil, a participação do BNDES nos frigoríficos, a implosão da Aracruz...) ficam para quando o tempo inocentar os envolvidos ou para jornalistas mais corajosos.

Os eleitos do BNDES

Esse é o título da matéria de capa da Isto É Dinheiro desta semana, bastante recomendável (principalmente sabendo que quem financia os "eleitos" é você, contribuinte) e acessível. Entre outras informações relevantes, mostra que o BNDES tornou-se o maior banco de fomento do mundo, um mamute que já emprestou US$ 73 bilhões nos últimos doze meses, com critérios no mínimo discutíveis. A revista traz também uma entrevista com o presidente da instituição, Luciano Coutinho, que pretende estender os tentáculos do banco para o possível fundo soberano nacional.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Schadenfreude

E não é que há alguém compilando sistematicamente as previsões de mercado de Nouriel Roubini? O resultado, desapontador, está no gráfico ao lado. O guru de hoje é o motivo de piada de amanhã, e esse negócio de fazer previsões é, de fato, muito difícil e ingrato.

Frase(s) do dia - Loucura

"Quem poderia imaginar que o mundo entraria em crise?"

"Como, de uma hora para outra, eu posso ter virado um louco, um irresponsável?"


Adriano Ferreira, ex-diretor financeiro da Sadia, na crônica que a piauí faz, um ano depois, sobre como uma combinação de incompetência, ganância, negligência e, sim, irresponsabilidade, afundou a empresa. A reportagem traz os bastidores e detalhes da história que contei, na época, aqui.

A covardia do G-20

O grupo dos sábios ministros das finanças das 20 nações mais importantes do mundo reuniu-se neste final de semana na Escócia, provavelmente para chegar à conclusão de quão sagazes e providenciais eles foram ao tirar o mundo da beira do abismo em que se encontrava entre o final do ano passado e início deste. "Abismo que cavaste com teus pés", diria o mestre Angenor de Oliveira: as ações (ou falta delas) desses mesmos políticos levaram, em grande medida, àquela situação. Fora o eventual autoelogio, mais nada saiu da tal reunião: o mundo já saiu da recessão, dizem, mas, mesmo assim, ainda não é hora de começar a retirada dos maiores pacotes de estímulo monetário e fiscal que se tem notícia -- algo como dar alta a um doente e mantê-lo sedado, só por via das dúvidas. Assim, o mundo continua em uma situação de prosperidade artificial, comprada com os recursos das próximas gerações, que ainda não têm poder político ou econômico para contestar.

Outra inação do grupo foi se recusar a fazer qualquer menção à taxas de câmbio, sobretudo da moeda chinesa contra o dólar. Mais um ajuste que ficará para um dia qualquer no futuro, já que, como a China é o grande salvador da humanidade, consumidor, investidor e poupador de todas as instâncias, sua política econômica não pode ser contestada -- e se eles se irritam e resolvem parar de comprar nossa dívida, nosso minério, nosso petróleo, de nos fornecer iPods e tênis de corrida a custos baixos?

Os primeiros resultados já estão sendo vistos nos mercados: as bolsas devem voltar para as máximas do ano, com a promessa da perpetuação da pedra filosofal criada com dinheiro grátis - volta do crescimento - ausência de risco deflacionário. No mercado de câmbio, todas as moedas relevantes do mundo se valorizam contra o dólar: como o câmbio chinês segue fixo e desvalorizado, algum ajuste de fluxo de conta corrente global é feito dessa forma distorcida, que, no limite, levaria para um mundo de apenas um produtor. Felizmente esse "limite" provavelmente não chegará: se a história ensinou algo é que todo regime de câmbio fixo um dia ruiu. Quanto mais tarde, maiores as distorções acumuladas que vão se converter em turbulência no momento do ajuste. Mas, novamente, parecemos estar em um momento em que há pouca preocupação com o futuro -- ainda o legado de uma era de excessos, que políticos teimam em tentar legitimar e provar que não há nada de errado com a idéia de consumir além do que se pode pagar. Covardia e uma profunda falta de respeito com as próximas gerações, estes ainda são os nomes do jogo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Exploda, Uniban

Que continue dando títulos de bacharel para os homens das cavernas. E a sociedade brasileira mostra, mais uma vez, sua verdadeira cara: conservadora e, sobretudo, extremamente hipócrita. Para quem é minimamente liberal, resta boicotar tal """universidade""" e os profissionais formados por ela. Afinal, é tudo uma questão de escolhas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Som da Sexta - Sarah Vaughan

Dum-dum-dum-dum-dum-dum-dum-dum... Quando uma linha instrumental famosíssima e grudenta encontra uma das vozes com mais swing na história do jazz, dá nisso. Para terminar uma das semanas mais chatas dos últimos tempos, Sarah Vaughan e uma versão irresistível do Peter Gunn Theme, de Henry Mancini.

Gráfico do Dia - Desemprego nos EUA



E com o dado de hoje, o desemprego nos EUA passa dos 10% pela primeira vez desde 1983. Com a diferença que, naquela época, os Fed Funds rodavam a 9% -- ou seja, havia muito espaço para estímulo monetário. Já hoje...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Gráfico do Dia - Economistas

É o que resta de um dia bem pouco inspirado (clique para aumentar).

Via IKN.

Lula no Financial Times

Quem não achar bizarro demais uma entrevista em Português dublada em Inglês (clique na imagem para assistir), poderá ver que nosso presidente molusco está passando da fase "nunca antes na história deste país" para "nunca antes na história do mundo" (esta semana ele já havia soltado que iria propor a Obama a criação de um SUS americano). Assustador...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os caçadores de bolhas

Pois agora a moda dos políticos, principalmente daqueles não eleitos, é caçar bolhas no mercado financeiro. Seu Meirelles falou que o tema vai ser discutido na próxima reunião do G20, e o Financial Times nota que tanto membros do Banco Mundial quanto do FMI já estão preocupados com eventuais bolhas por conta dos juros baixos mundo afora. Se por um lado é evidente que, na maioria do mundo, os juros estão abaixo de uma taxa de equilíbrio (se é que isso existe) e isso incentiva tomada de riscos (nem sempre de forma responsável), por outro é preocupante ver "autoridades" que sempre estão atrasadas nas suas ações e diagnósticos unirem esforços para tentar "suavizar" alguns movimentos do mercado financeiro.

Bolhas são um dos temas mais estudados e discutidos na literatura de finanças, mas nem por isso surgiu, até hoje, um método eficaz e objetivo para identificá-las e prever seu fim. Se houvesse, bolhas não existiriam ou seriam de outra natureza, já que o mercado financeiro, de posse da informação, começaria a especular na direção do estouro, antecipando-o até o ponto em que o pico da bolha ficaria misturado com os movimentos "normais" do mercado.

Todos esses anos (centenas! As primeiras manias especulativas registradas por Charles Kindleberger no clássico Manias, pânicos e crashes são do século XVII) de observação e estudo não foram em vão, e serviram para destacar dois fatos, talvez óbvios, mas não por isso irrelevantes: bolhas são da natureza dos mercados e da psicologia de massas; e bolhas sempre estouram. Se, portanto, considerarmos bolhas como partes indissociáveis dos mercados, como furacões e maremotos são da natureza, a solução mais inteligente seria, ao invés de tentar combatê-las, blindar o sistema contra seus efeitos. Isso passaria por acabar com instituições "grandes demais para quebrarem", regular o nível de alavancagem de empresas e fundos e deixar que o investidor e sócio, não o contribuinte, sofra com os custos de quem, por azar ou incompetência, for pego no estouro de uma bolha.
Curiosamente, nada ou muito pouco está sendo feito nesse sentido. Ao contrário, a tentativa de "caçar bolhas" deve criar mais distorções nos mercados "escolhidos": mais poder estará sendo dado a burocratas com nenhuma legitimidade e pouco conhecmiento prático comprovado; e sempre teremos o problema de insider, de pessoas que sabem antecipadamente das medidas vendendo a informação ou atuando diretamente nos mercados. É mais uma tentativa de mudança sem passar pelas bases. Na melhor das hipóteses, será ineficiente e gerará mais um problema para o futuro, que tem sido tão negligenciado em favor de uma falsa prosperidade de curto prazo.

Que pena, Unibanco...

Não era uma fusão?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Copa do Mundo, varejo e produção industrial

O Financial Times cita um estudo da Merrill Lynch que compara algumas variáveis econômicas antes, durante e depois das últimas Copas do Mundo de futebol. A conclusão é que o evento é benéfico para turismo (dãããã...), varejo e consumo, mas atrapalha a produção industrial -- supostamente pelo efeito dos trabalhadores pararem para assistir aos jogos. Imaginem como vai ser no "país do futebol"...

Parabéns, contribuinte brasileiro

Você está prestes a se tornar sócio compulsório de cooperativas de reciclagem. Seu Lula anunciou ontem que o BNDES vai liberar uma linha de crédito de R$ 225 milhões para fomentar essa atividade.

Não tenho absolutamente nada contra reciclagem e cooperativas. Nessa história, dois problemas me afligem: primeiro, que um banco, mesmo estatal, deveria levar em conta o retorno das atividades que está financiando, na esperança de que essas consigam gerar o caixa para pagar os empréstimos, mais os juros (ainda que subsidiados). Segundo, que tal banco deveria incentivar desenvolvimento. Os ecologistas que me desculpem, mas não vejo como reciclagem pode ser um motor de desenvolvimento no sentido de gerar inovação, empregos, etc (e me vem à mente a frase de um amigo, que dizia que se Bill Gates tivesse nascido no Rio de Janeiro e montado uma empresa numa garagem, estaria vendendo CDs piratas no Largo do Machado). Se o governo quer transferir dinheiro para esses setores, que faça via um programa social, sem o engano de que está alimentando algum benefício de longo prazo para a sociedade. Fazendo isso via BNDES, a impressão que se tem é que qualquer atividade é elegível a um financiamento com juros camaradas -- basta contar uma história bonita e ter um bom lobby no governo. A moda agora é pintar de verde os interesses dos vários setores com bom trânsito no governo, e assim cobrir de boas intenções financiamentos, isenções, incentivos, etc. Já aconteceu com a tal "linha branca", está acontecendo com as usinas de reciclagem, e podemos aguardar mais e mais.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Som (filme) da Sexta - Soul Power

Hoje, como muito bem lembrou o Balu, a maior luta de boxe da história faz 35 anos. Claro que estou falando do rumble in the jungle, o fantástico combate em Kinshasa, Zaire (hoje República Democrática do Congo) entre o então campeão George Foreman (hoje deve ter gente que só o conhece como vendedor de grelhas elétricas...) e o "decadente" Muhammad Ali. Como sabemos, Ali venceu de forma épica e o episódio rendeu pelo menos um excelente livro (A Luta, de Norman Mailer) e um documentário ganhador do Oscar (Quando Éramos Reis).

Como para o megalomaníaco Mobutu Sese Seko a luta não bastava, foi também organizado, como aperitivo, um pequeno e humilde festival de música negra, com a presença de: B.B. King e James Brown (dois monstros no auge da carreira), a cantora cubana Celia Cruz, Manu Dibango (o pai do soul africano, que Michael Jackson citou em Wanna Be Startin' Somethin'), Miriam Makeba, The Spinners e Bill Withers. Ano passado esse festival também ganhou um documentário -- Soul Power -- que está sendo exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e cujo trailler está aqui. Para quem perder essas poucas sessões (como eu), o filme deve estrear regularmente no dia 11 de dezembro. Assista à luta, leia o livro, veja os filmes -- e tenha um bom feriado.

Vídeo do dia - Hugh Hendry

Hugh Hendry é o CIO da Eclectica Asset Management, uma companhia de gestão de recursos baseada em Londres. Escutá-lo falar é sempre um desafio às idéias estabelecidas e ao senso comum. Este é o primeiro de uma série de oito vídeos; as sequências estão nos links à direita da janela. Para quem gostar do assunto, tiver paciência e conseguir compreender o sotaque escocês, é uma grande aula.

Lords of Finance - Business Book of the Year

O livro que conta a história da Grande Depressão concentrando-se nos principais banqueiros centrais do mundo ganhou o prêmio do Financial Times (ainda não saiu em Português, mas, acredito, isso deve acontecer em breve). Não li os outros indicados, mas, no absoluto, posso dizer que foi uma boa escolha. Nunca é demais aprender com os erros do passado, e o timing não poderia ser mais apropriado. E uma das mensagens que fica é: banqueiros centrais são seres perigosos. Cuidado com eles.

Update: a Folha de hoje (4/11) diz que a editora Campus Elsevier (que publica os livros mais caros do Brasil) vai lançar a obra em Português em janeiro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Je vous salue Astérix

Há exatos 50 anos, um grupo de irredutíveis gauleses era apresentado ao mundo pelas mãos geniais de René Goscinny e Albert Uderzo. Saudações ao jubileu de ouro de uma das grandes séries em quadrinhos da história, repleta de humor inteligente e politicamente incorreto. Que mais gerações aprendam sobre os hilários estereótipos europeus nas páginas das revistas do Asterix.

(para o post ter algum número "sério": a série Asterix vendeu 325 milhões de cópias no mundo, o que faz de Goscinny e Uderzo os autores franceses mais lidos no exterior. Que pena, Proust.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mais uma ação para o longo prazo...

... já que, no curto, a performance foi um desastre. As ações da CETIP estrearam hoje na Bovespa, com queda de 10,3% do preço da emissão (R$ 13). Mais uma vez, nem sinal da eficácia da "estratégia vencedora".

Sobre ações para o longo prazo, ver aqui.

Atravessando a fronteira por uma Guinness

O Free Exchange, da The Economist, traz mais uma anedota fascinante sobre taxas de câmbio e poder de compra. Com a mesma conclusão: o Reino Unido está ficando barato, acredite se quiser.

Soros e a nova economia

Anatole Kaletsky escreve sobre a tentativa de George Soros de apressar a morte da velha economia, com a criação do Institute for New Economic Thought.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paulistanos, esses milionários (ou: londrinos, esses pobres)

Se você é paulistano, está passeando por Londres e quer se sentir em uma cidade barata, basta entrar no Mc Donald's mais próximo. Segundo a Bloomberg, o Big Mac na capital britânica custa, a taxas de câmbio correntes, cerca de R$ 6,50 (£ 2,29), contra R$ 8,00 em São Paulo (melhor não fazer a conta como proporção da renda, já que o PIB per capita britânico ajustado pelo poder de compra é cerca de 3,5 vezes maior que o brasileiro).

O interessante é que, na mesma matéria, nenhum dos economistas citados acha estranho o que há bem pouco tempo soaria como um grande absurdo. Para eles, os "fundamentos" e o crescimento superior do Brasil justificam uma taxa de câmbio apreciada e, como consequência, um dos Big Macs mais caros do mundo. O nível de euforia com o país é, de fato, imenso -- na mesma proporção que a desesperança com os EUA e a Inglaterra. Euforia num extremo, desilusão no outro: receita para grandes distorções nos preços relativos.

O real deve, de fato, tornar-se uma moeda mais forte no longo prazo, o que deve implicar em um Brasil mais caro -- o país está enriquecendo, e o efeito Balassa-Samuelson é bem estudado e suportado empiricamente. Isso não elimina, porém, a existência de exageros no caminho. No nosso exemplo, o Brasil ainda é um país pobre, e o Reino Unido ainda não consumiu seu grande estoque de riqueza. E o exemplo do Big Mac serve para ilustrar que, talvez, o real, como as ações de empresas nacionais, já esteja bastante caro.

Fala Bill Gross

Interessante ver que, assim como Grantham (ver post abaixo), Gross (principal cabeça da PIMCO, maior gestor de renda fixa do mundo), na sua última carta, está pessimista com o futuro próximo dos EUA -- uma economia que cresceu nos últimos anos com base na criação de riqueza no "papel" e agora está vendo trilhões de dólares de contribuintes sendo usados para sustentar esse mesmo modelo.

Jeremy Grantham - carta trimestral

Já citei aqui algumas vezes o Jeremy Grantham. Sua carta trimestral é, provavelmente, das coisas mais inteligentes escritas sobre mercados que você vai ler até o final do ano.

Jeremy Grantham's Quarterly Letter - 3Q09

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Festival de extrapolação aplicada ao mercado (3)



Dando sequência a nossa série, por enquanto temos um vencedor: 85 mil pontos até o meio de 2010.

Férias em Gana

Bolgatanga e a floresta de Katum podem se tornar nomes conhecidos para o turista americano. Paul Kedrosky nota que, neste ano, apenas nove moedas no mundo (!!!) estão se desvalorizando contra o dólar. O maior movimento é o do cedi de Gana, que perdeu 13%. Nossos vizinhos argentinos também fazem parte dessa seleta lista. E, para o americano que se dispõe a pedir um visto e enfrentar 10 horas de vôo para conhecer o Corcovado ou ver o que a baiana tem, os preços em real estão hoje cerca de 35% maiores do que no final do ano passado. É o preço do sucesso, como diria nosso querido ministro Mantega.

Você sabe que um país está mal...

... quando o Mc Donald's resolve abandoná-lo porque os custos dos insumos dobraram de um ano para cá e é inviável aumentar os preços para recuperar algo da margem de lucro. Nem na Argentina dos piores dias isso aconteceu.

Mais no Financial Times: Icelandic collapse complete

Espelho, espelho meu

As ações nos EUA ainda têm muito espaço para subir porque o retorno desses ativos no ano, quando comparado ao de títulos corporativos de alto risco (junk bonds), é o menor desde 1986.

Esse é, em resumo, o conteúdo de uma das notícias de hoje da primeira página do site da Bloomberg. Mostra o nível dos argumentos que alguns tem usado para justificar a premissa que preços de ações devem continuar subindo. A lógica, além de não passar pela navalha de Occam, pode ser usada também para prever um grande problema no mercado de junk bonds -- a gosto do freguês. O mercado está começando a ficar divertido.

Para quem acha o Brasil barato

De uma matéria do Financial Times de ontem, destacada por Andrew Shawn:

“The BM&FBovespa ex-change is worth more than the New York Stock Exchange, Nasdaq and London Stock Exchange combined, while Itaú Unibanco, with a $96bn market capitalisation, is the world’s 12th largest bank. Talk that it considered buying Morgan Stanley last year still brings a gleam to local deal-makers’ eyes. With the economy heading for growth of at least 4 or 5 per cent next year, there is a feeling”

Pós fato, não falta gente para explicar essa euforia e justificar porque a bolsa brasileira TEM que valer mais do que três das maiores bolsas do mundo, somadas. Incrível.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

(A volta do) Som da Sexta - Eldar

O fato de um pianista de 19 anos (hoje tem 22, o vídeo é de 2006), nascido no Quirguistão (não é mentira!), tocar como um negro americano da primeira metade do século passado deve dizer algo sobre música. Bom final de semana a todos.

Festival de extrapolação aplicada ao mercado (2)

Mais um para nossa amostra:



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mais uma chance (ou: errar duas vezes é humano...)

"You tried your best, and you failed miserably. The lesson is: never try."
Homer Jay Simpson


John Meriwether é um especialista em tentar pegar moedinhas no caminho de um rolo compressor e terminar atropelado, como personagem de desenho animado. Já foi responsável por duas gestoras de investimentos que fizeram água -- a JWM e a Long-Term Capital Management, esta de forma épica, tendo como sócios dois Nobel de economia e obrigando o Fed de Nova York a organizar uma operação-resgate, temendo um contágio para o restante do sistema financeiro. Agora, como a nossa GWI, ele testa a memória curta do mercado, abrindo uma nova companhia (de nome JM Advisors Management).

A analogia do rolo compressor serve para estratégias que dependem de um ambiente de dinheiro abundante, onde é possível conseguir pequenos ganhos (as moedinhas) arbitrando pequenas imperfeições em diversos mercados com diferentes níveis de liquidez. O rolo compressor vem quando, por qualquer motivo, o medo aparece no mercado, o dinheiro migra em massa para ativos líquidos e as pequenas imperfeições tornam-se grandes distorções, distantes de qualquer "racionalidade" ou modelo estatístico.

A volta de Meriwether parece ser mais um sinal da volta da "normalidade" aos mercados, e da impressão de que as chances de um grande colapso, como o do ano passado, diminuíram a ponto de poderem novamente ser tratadas como eventos de baixíssima probabilidade (na ponta das caudas de uma distribuição normal, para os fãs de estatística). Porém, como nos filmes de guerra, aparente tranquilidade no mercado geralmente precede grandes turbulências -- a calmaria gera a ilusão de segurança para tomada de riscos grandes e pouco compreendidos, o que é um ingrediente essencial para o próximo colapso. Os ex-clientes de Meriwether devem saber bem disso.

Pisadas de bola (minha e da Época Negócios)

Confesso que pequei. Perdão, caro leitor. Anteontem recomendei, com base em uma leitura diagonal, uma matéria da Época Negócios sobre os novos rumos da pesquisa em economia. A matéria não deixa de ser boa, mas pisa na bola quando fala de Nassim Taleb (ele é o ator citado de quem conheço melhor a obra, pode haver outras pisadas que eu não identifiquei).

Os problemas começam quando os jornalistas escrevem que "Taleb é um sujeito agourento que de mera excentricidade midiática foi promovido a guru". Depois, afirma: "Ele é um ET na economia anglo-saxã", para logo depois dizer que "... formou-se na escola de negócios Wharton... ... Foi como operador no mercado de opções, em Wall Street, que enriqueceu...". Estranho ver como Taleb acabou sendo transformado em um produto da mídia financeira (o pessimista de plantão, pregando a desgraça para uma platéia de otimistas machucados), algo que ele tanto criticou (mas, verdade seja dita, soube capitalizar neste último ano). Creio que a explosão na popularidade de Taleb deve-se a uma coincidência: seu livro sobre eventos imprevisíveis e de grande impacto (cisnes negros), que chama a atenção para diversos aspectos falhos na teoria e prática de finanças e alerta para a inutilidade de previsões em um mundo altamente complexo, foi publicado pouco antes da maior crise financeira em décadas -- crise que, ele mesmo fez questão de esclarecer, não teve nada de "cisne negro": um colapso era previsível, dado o volume de risco que as instituições financeiras estavam carregando de forma complacente. E chamar alguém que estudou numa das escolas de negócios mais prestigiadas dos EUA e fez carreira em diversas instituições financeiras em Nova York de "ET na economia anglo-saxã" é, no mínimo, paradoxal.
A matéria segue dizendo que "economistas profisisonais sérios acham difícil engolir a iconoclastia verborrágica de Taleb", que (isso dito antes) "desenvolveu um estilo único, que mistura insights criativos, nenhuma reverência ao establishment e linguagem acessível". Eu posso não ser um economista profissional (muito menos sério), mas já vi, em um espaço relativamente curto de tempo, bastante pesquisa acadêmica "séria" influenciada pelas idéias de Taleb. É curioso como informabilidade e acessibilidade na escrita são, geralmente, confundidas com falta de conteúdo (e, por outro lado, linguagem obtusa, expressões estrangeiras e fórmulas matemáticas indecifráveis são tidos como sinais de erudição e respeitabilidade). Na minha opinião, nada mais difícil e trabalhoso do que escrever com simplicidade, de forma enxuta e fazendo com que um público leigo entenda conceitos sofisticados. Isso é exatamente o que Taleb faz (para os puristas, ele oferece, na internet, um apêndice matemático).
Fora esses deslizes, a matéria ainda merece ser lida -- mas, fica aqui minha mea culpa, não pode ser considerada "ótima". E segue a constatação que o jornalismo financeiro brasileiro segue carecendo de profissionais que realmente entendam dos assuntos que cobrem.

Frase do dia (talvez do ano, ou das últimas décadas)

"Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

Beato Luiz Inácio Lula da Silva, na capa da Folha de hoje.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Começa o festival de extrapolação aplicada ao mercado



2010 está chegando, e já é hora dos analistas atualizarem suas projeções cabalísticas. Começaram a chegar na minha caixa de e-mail as previsões de bancos e corretoras para o Ibovespa no final do ano que vem. Minha ambiciosa previsão é que a grande maioria dessas previsões consistirá de extrapolações, mais ou menos requintadas, do movimento de alta da bolsa dos últimos meses. O corolário disso é que, acredito, todas essas previsões serão na direção de um Ibovespa mais alto -- a maioria pelo menos cobrindo o custo de oportunidade até lá. Começo a conferir desde já -- o primeiro exemplo está acima, tirado do relatório de um banco.

O que está por trás do ataque a Vale

No post anterior (já estou escrevendo para leitores seriais... vejam a pretensão), escrevi que ia falar sobre o caso da Vale. Na verdade, pensando bem, sobre o caso em si não há muito o que escrever -- quem acompanha a imprensa está vendo a sequência de atos hostis contra a empresa, vindos de diversas instâncias do governo, nas mais variadas formas. O que preocupa, na verdade, é a motivação política do governo. Novamente: o sucesso relativo dos últimos anos está sendo usado para lubrificar a idéia da necessidade de um Estado maior e com mais influência na economia -- seja para implementar idéias "desenvolvimentistas", ou , simplesmente, para empregar mais "companheiros".
Não vejo problema com idéias "desenvolvimentistas" por si só. Não é difícil procurar na história diversos exemplos de saltos de desenvolvimento induzidos pelo Estado (a grande obra de David Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações, é cheia deles). Aqui, eu destacaria dois contrapontos ao que estamos presenciando: primeiro, que o aumento da presença do Estado na economia não necessariamente é benéfica para o investidor -- sobretudo quando este atua num horizonte de tempo relativamente curto quando comparado com o necessário para a concretização dos eventuais benefícios das políticas estatais (e isso engloba a grande maioria dos que investem no país). O caso da Vale serve de exemplo: talvez, no futuro, seja positivo a companhia transformar em aço o minério que produz para então exportar um produto de maior valor agregado. O problema é que, para isso, investimentos pesados devem ser feitos, num país de custo de capital altíssimo e com os riscos que estão presentes em qualquer empreendimento. A influência disso no valor atual da ação da companhia é altamente questionável, ainda mais contrastada com o otimismo que toma conta do mercado (embora não estejamos vivendo um mercado predominantemente guiado por fundamentos).
O segundo é o foco do governo e sua relação com o momento histórico. Um dos poucos benefícios do atraso no desenvolvimento (novamente citando David Landes) é poder aprender com a experiência passada de outros países, e usá-la para pular algumas etapas. Assim, o Brasil não precisa investir nos mesmos setores "quentes" de 70 anos atrás, sabendo que, por exemplo, hoje em dia a siderurgia cria poucos empregos, consome muita energia e gera pouco incentivo para inovação tecnológica. Menos ainda depois de já ter passado por uma fase de investimentos nesses setores (dona Dilma andou citando a China como exemplo... só esqueceu de lembrar que, numa "sequência evolutiva", eles ainda estão algumas décadas atrás de nós. Para ficar em um indicador, o Brasil atingiu o nível de renda per capita ajustado pela inflação que a China ostenta hoje em 1972). Assim, faria mais sentido incentivar o empreendedorismo e setores capazes de absorver mão-de-obra, quaisquer que sejam -- por que não começar, por exemplo, com um programa para implementar sistemas de esgoto e saneamento básico país afora?
Todas essas observações não são novas, nem originais, nem obscuras, e pouco ideológicas. No caso brasileiro, a idéia do Estado maior não parece estar atrelada a uma tentativa consistente de fazer com que o país dê um salto de desenvolvimento, mas a uma visão de que é necessário aproveitar o momento para concentrar mais poder e/ou implementar idéias atrasadas. Visão, portanto, essencialmente conservadora -- seja no sentido de tentar perpetuar e fortalecer uma classe privilegiada de burocratas, seja na falta de ousadia para mudar e experimentar. Olhando bastante de cima, ainda sigo otimista com o futuro do país, mas devo admitir que parecem ter aumentado as chances de, novamente, darmos dois passos para trás para dar um a frente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

IOF is back, dear investor

Um mês atrás eu escrevi aqui que Lula e o PT estão aproveitando o momento de relativa calmaria e o sucesso do "modelo brasileiro" durante a crise como argumentos para aumentar a influência econômica do Estado. Se alguém tinha dúvidas sobre essa postura, creio que essas acabaram ontem. Mantega, o çábio, anunciou, após o fechamento do mercado, que a entrada de capital estrangeiro para investimentos em bolsa e renda fixa será taxada em 2% (via IOF). A medida, palavras do governo, visa afastar o capital especulativo, de curto prazo. Praticamente ao mesmo tempo, o ministro de Minas e Energia disse que o governo pode aumentar os impostos do setor de mineração, incluindo o sobre a exportação de minério.

A volta do IOF para estrangeiros (a alíquota tinha sido reduzida a zero há poucos anos) visa, supostamente, conter a apreciação do real contra o dólar (as eleições do ano que vem estão chegando... hora de tentar agradar os exportadores). Começa errando na identificação do alvo: primeiro, porque não é um "problema" específico do real. Praticamente todas as moedas relevantes do mundo estão ganhando contra o dólar. Segundo, as moedas de países produtores de commodities, não por acaso (o clima é de recuperação da economia global, esteja correto ou não), são contra as quais o dólar mais se desvalorizou no ano: real, 35%; dólar australiano, 31%; dólar neozelandês, 30%; coroa norueguesa, 25%; rand sulafricano, 30%. Dessa maneira, qualquer medida local pode, no máximo, atenuar o "problema": se a tendência global do dólar não for revertida (o que, talvez, esteja perto de acontecer, evidentemente por motivos que fogem totalmente do controle do governo brasileiro), o real vai voltar a se valorizar, apenas de um patamar diferente.

Ainda sobre o IOF: se a medida foi tomada efetivamente para afastar o capital de curto prazo, essa distinção deveria ser feita nas alíquotas do imposto: em muitos países, há uma tabela de imposto regressivo, de acordo com o tempo entre o investimento e o seu resgate (e o imposto é cobrado sobre os ganhos de capital, e não sobre o montante total investido). Da forma que foi feita, não há distinção: todos pagam igual, na entrada. A justificativa do governo, nas palavras do çábio: "Se a aplicação for de curto prazo, essa tributação será forte. Por outro lado se a aplicação for de longo prazo, acima de um ano, essa tributação se dilui no tempo, praticamente desaparece". Percebam a arrogância (ou a ignorância) por trás desse argumento: é óbvio que quem investir no Brasil no longo prazo vai ganhar muito, logo os 2% não farão a menor diferença. Olhando para o tamanho dos movimentos da bolsa, pode até parecer pouco; mas, no mundo da renda fixa (pelo qual o Tesouro se financia), onde os movimentos são de décimos de ponto percentual, é uma enormidade.

Por fim, notem que Lula tinha negado as intenções do governo de retomar o IOF para estrangeiros na última sexta-feira. Ou informações não chegam em Cabrobó-PE (onde ele estava), ou ele mentiu. Ontem Mantega disse que havia convencido o presidente naquele mesmo dia, afirmação que provavelmente tem tanto valor quanto uma nota de três reais ou a palavra de um político. Mantega, como sempre, só fez o papel de boi de piranha, e, como de costume, foi o escolhido para anunciar uma medida impopular (nessas horas, dona Dilma se esconde) e, provavelmente, discutida com uma certa antecedência (tanto que já havia vazado no final de semana, na Folha de São Paulo).

Na mesma declaração que mencionei acima, Lula ainda disse que "quando sai uma notícia errada na área econômica quem sofre é o povo brasileiro". Nisso ele está correto: quem vai pagar a conta das consequências da medida, como um custo de financiamento maior da dívida do tesouro e menor disponibilidade de investimentos de estrangeiros, é, de fato, o povo brasileiro. Que pode se preparar para mais trapalhadas vindas de Brasília -- este post acabou ficando grande demais, falo disso e da Vale no próximo.

Novo vídeo de Nassim Taleb

O autor de Black Swan e Fooled by Randomness fala sobre o que está fundamentalmente errado nos EUA.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Palmas para a Época Negócios...

... que traz, em sua última edição, uma ótima matéria (como há muito tempo eu não via na imprensa local) sobre os rumos e as fronteiras da pesquisa acadêmica em economia. Confira lá.

Dica do Batata.

Dr. Trichet e Mr. Jean-Paul

A The Economist escreve sobre a esquizofrenia do Banco Central Europeu -- reclamando da valorização do euro contra o dólar enquanto vê a inflação afundar, sem mexer nos juros. Mais um exemplo de grande sabedoria dos bancos centrais.

Também lá: a crítica a SuperFreakonomics, a sequência do aclamado (adivinhem) Freakonomics.

Bancos e bancos

Há uma piada pouco engraçada da época do apartheid (bem, continua sendo atual) na qual um negro entra em um ônibus e senta em um dos assentos na parte da frente. Um guarda diz que o lugar reservado para negros é no fundo do ônibus, e pede que ele se mude para lá. O negro se levanta e começa um sermão, dizendo: "Imagine se fôssemos todos marcianos, verdes. Seríamos todos iguais, e não haveria discriminação. Eu poderia continuar sentado aqui, então não vou sair". O guarda insiste: "Se isso acontecesse, o lugar dos verde-escuros seria no fundo do ônibus. Pode ir pra lá". Para uma analogia mais tosca e direta, há também uma música de uma banda gaúcha cujo líder é um baixista loiro e cabeludo (dá vergonha falar o nome) cujo refrão é: "todos iguais, todos iguais... mas uns mais iguais que os outros". Enfim, o leitor atento já entendeu o sentido e deve estar irritado com esse parágrafo introdutório longo e desnecessário.

O último texto de Paul Krugman no New York Times fala da diferença entre a performance dos bancos americanos que estão no negócio de conceder empréstimos e dos que tiram a maior parte dos seus resultados de especulação (trading): enquanto a Goldman Sachs voltou a ter lucros espetaculares e provavelmente pagará os maiores bônus da sua história, o Citi e o Bank of America seguem com dificuldades e reportaram prejuízos no terceiro semestre. Todos iguais, todos iguais...

Não tenho absolutamente nada contra especulação: sempre fez parte do mercado, e deve continuar fazendo. O problema é que especulação é um negócio, por natureza, de alto risco -- principalmente quando feita com o nível brutal de alavancagem que a Goldman e outros bancos operam (e assumindo, claro, que eles não contam com a ajuda informações privilegiadas e manipulações de preços). Mesmo argumentando que a Goldman Sachs já devolveu o dinheiro da ajuda federal, o incentivo para o sistema continua sendo totalmente perverso: os outros bancos não demorarão a chegar a conclusão que o que devem fazer para lucrar é usar todo o capital possível para especular; e, mesmo no caso da Goldman, caso algo errado aconteça, a indicação é de que, novamente, não faltará dinheiro público para salvá-los. Fazer com que o dinheiro do contribuinte assuma esses riscos é algo que -- palavras de Krugman com as quais concordo integralmente -- os EUA deveriam evitar desesperadamente.


O gráfico ao lado ajuda a reforçar o ponto de Krugman -- ver no original, "The Chart That Cost John Mack His Job".

Ursos de saias longas

Há na mitologia do mercado financeiro, acredite, uma teoria do tamanho das saias -- pela qual o tamanho das saias da moda são uma indicação da atmosfera do mercado. Pode parecer loucura, mas há um bom racional: para resumir muito, mercados otimistas (bull) incentivam inovação e ousadia; mercados pessimistas (bear) pedem conservadorismo. Com base em uma matéria do Wall Street Journal, que acredita que a tendência para a próxima primavera do hemisfério norte são roupas que lembram os anos 1920, o pessoal da Elliott Wave International fala sobre como o mercado da moda é ligado ao mercado financeiro -- estamos falando do mesmo mundo e dos mesmos tempos, afinal de contas. Não é um gatilho para sair vendendo ações, mas é sempre bom termos idéia de onde estamos pisando.


P.S. Delirando mais um pouco... engraçado ver que em 2000, ano de um dos auges da euforia dos últimos anos, a (boa) banda Cake gravou uma música chamada Short Skirt/Long Jacket. O trecho final da letra:

I want a girl with a smooth liquidation
I want a girl with good dividends
And at the city bank we will meet accidentally
We'll start to talk when she borrows my pen
She wants a car with a cupholder arm rest
She wants a car that will get her there
She's changing her name from Kitty to Karen
She's trading her MG for a white Chrysler La Baron
I want a girl with a short skirt and a lonnnnggggggggg jacket

Os tempos parecem ter mudado, não?

P.P.S. Morte ao site do Wall Street Journal... as páginas têm tanto código escondido que tornam a navegação uma tortura.

Para começar a semana...

É tudo uma questão de expectativas...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Citi em busca do mais idiota (no Brasil)

O Valor noticia hoje que o Citi está estudando uma abertura de capital de sua unidade brasileira (ou sozinha, ou junto com o Banamex, a subsidiária do México), inspirado pelo sucesso da emissão do Santander Brasil. Porque alguém vai querer ser sócio de um banco praticamente quebrado é um mistério, mas o fato, acredito, reforça uma idéia minha: há algum tempo escrevi sobre a "the greater fool theory", onde alguém compra um ativo esperando que, no futuro, consiga vender a um preço maior para outro, mais idiota.

O mercado de ações parece estar operando guiado por essa idéia, já que é necessário um cenário muito otimista para justificar os preços e o oba-oba atuais. Veja a fila de empresas que estão esperando para emitir ações e arrancar algum dinheiro do mercado; há poucos fatos e muitas esperanças (o caso mais emblemático no Brasil é o das empresas do Eike Batista). Geralmente o "greatest fool" é o investidor individual, que demora a ter acessou às informações e é movido pela euforia. Desta vez, não deve ser diferente.

Fronteiras da análise técnica

Take a look below at the Velociraptor pattern forming in USZ9 (uniquely characterized by the two purple legs and one green and one white).





Recebido por e-mail.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os novos dólares

Há algum tempo escrevi um texto como convidado para o blog do Balu dizendo, entre outras asneiras, que chegaria um dia em que os EUA terão que cortar zeros do dólar e emitir novas notas, coloridas e com estampas de astros do rock. Agora, em tempos de fraqueza do dólar, Richard Smith, um designer de Nova York, acredita que a moeda americana precisa de um "desing makeover", e abriu seu site para propostas de outros artistas para o novo layout do dólar, com resultados (apesar das motivações totalmente diferentes) próximos da minha "profecia". Veja os mais bacanas:

A proposta futurista, do próprio Smith:


The king of all, Sir Duke (por Dean Potter):

A mais cool: Lady Day, por Christina DiMeo:

Jack Nicholson e o hotel de O Iluminado, por David Muller:


Versão clássica, com Adam Smith (de Kyle Thompson):


Aguardo a série com os Simpsons... e constato a semelhança de algumas dessas notas com as lindas cédulas de cruzeiros, cruzados, novos cruzados e afins que tivemos por bastante tempo por aqui. Coincidência?
A matéria de onde tirei as notas é do The Big Money; foi citada na Folha de hoje.

Serra na piauí

A essa altura já não é mais novidade, mas só fui ler hoje: a piauí deste mês faz um grande e interessante perfil de José Serra, o (por enquanto) favorito para a corrida presidencial do ano que vem. Vale a leitura, especialmente comparada ao perfil da Dilma que a mesma revista publicou em duas partes (aqui e aqui).
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