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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Globalização e tecnologia, 1919 e 2009

Keynes, no clássico The Economic Consequences of the Peace:

"What an extraordinary episode in the economic progress of man that age was which came to an end in August, 1914. The inhabitant of London could order by telephone, sipping his morning tea in bed, the various products of the whole earth, in such quantity as he might see fit, and reasonably expect their early delivery upon his doorstep; he could at the same moment and by the same means adventure his wealth in the natural resources and new enterprises of any quarter of the world, and share, without exertion or trouble, in their prospective fruits and advantages; or he could decide to couple the security of his fortunes with the good faith of the townspeople of any substantial municipality in any continent that fancy or information might recommend. He could secure, forthwith, if he wished it, cheap and comfortable means of transit to any country or climate without passport or other formality, could dispatch his servant to the neighboring office of a bank for such supply of the precious metals as might seem convenient, and could then proceed abroad to foreign quarters, without knowledge of their religion, language, or customs, bearing coined wealth upon his person, and would consider himself greatly aggrieved and much surprised at the least
interference.”

Jess Walter (já tinha citado ele aqui), em The Financial Lives of the Poets, talvez o melhor livro que li este ano (pode ser também o viés por ter ficado tanto tempo sem conseguir terminar um romance):

So I make one phone call, and just like that, we're eating pizza at 6:30. What is this world? You tap seven abstract figures onto a piece of plastic thin as a billfold, hold that plastic device to your head, use your lungs and vocal cords to indicate more abstractions, and in thirty minutes, a guy pulls up in a 2,000-pound machine made on an island on the other side of the world, fueled by viscous liquid made from the rotting corpses of dead organisms pulled from the desert on yet another side of the world and you give this man a few sheets of green paper representing the abstract wealth of your home nation, and he gives you a perfectly reasonable fac-simile of one of the staples of the diet of a people from yet another faraway nation. 
And the mushrooms are fresh.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Destruição criativa

Dilbert de hoje.




terça-feira, 5 de março de 2013

A maçã que caiu

O gráfico abaixo é do preço das ações da Apple - chegaram a quase $700 em setembro do ano passado e agora operam a $420 - queda de quase 40%. No topo, muita gente respeitada dizia que a companhia seria a primeira a atingir $1 trilhão em valor de mercado e que a $700 as ações ainda eram baratas. How the mighty have fallen.


A queda da Apple serve como exemplo de várias heurísticas conhecidas no mercado, como:

- As regras #1, 2, 3, 4, 5 6, 9 e 10 do lendário estrategista Bob Farrell - um espetacular exagero foi corrigido com uma queda não menos espetacular.

- Nenhuma empresa passou muito tempo com valor de mercado acima de $500 bilhões (mais aqui).

- A enorme dificuldade em lucrar tentando vender uma bolha ou movimento parabólico. A primeira perna parabólica da Apple no ano passado parecia ter terminado em abril, mas as ações ainda subiram mais 10% até o novo pico. Pior ainda, quem tentou vender quando a empresa passou a valer $500 bilhões viu as ações subirem mais 32% até o início da queda. Conseguiu lucrar quem teve pouca preocupação com o mercado ou montou uma estrutura com opções fora do dinheiro. Até agora não apareceu nenhum gestor de fundos que ficou multimilionário com o movimento.

Da minha parte, pelo terceiro ano consecutivo coloquei a queda da Apple entre as minhas previsões do início do ano. Como dizem, mesmo um relógio quebrado acerta o horário duas vezes ao dia, e esta foi minha vez de acertar. Agora, porém, passei a achar o movimento exagerado, e imagino que uma correção está por vir (o Mark Dow concorda comigo). Hora de recolher as fichas (melhor seria se eu tivesse seguido a tal previsão na vida real).

Outro fato que merece nota é como o índice Nasdaq conseguiu descolar, a partir de novembro do ano passado, da queda da Apple, mesmo com esta representando cerca de 12% do índice e tendo liderado toda a alta de 2012. Nesse período, as ações da Google subiram 24%. O setor de tecnologia continua quente.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Leituras da Semana

Frau Riefenstahl, I presume?
- Para ler quando bater um desânimo com Mantega e companhia: entrevista da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, non, je ne regrette rien.


- Como desgraça gosta de companhia, o azeite de oliva, exportação importante de vários dos países mediterrâneos em crise, está no preço mais baixo dos últimos dez anos.


- John Kay sobre a estupidez de cancelar feriados para combater a crise.

- Carta mais recente da Greenlight Capital, de David Einhorn, com alguns insights interessantes sobre a Apple (ele acha a empresa barata).

- Mark Dow contra os paradigmas ideológicos em política econômica.

- Um guia argentino para a crise na Grécia (não, não pode ser bom).

- Muito boa entrevista da Time com o líder da esquerda radical grega (SYRIZA), Alexis Tsipras. Mesmo pesando o desconto que deve se dar a qualquer declaração de político, teria meu voto.

- Um gráfico importante sobre a crise do euro.

- O Paraguai vai ter uma bolsa de futuros.

- Países subvalorizados, para Tyler Cowen: Filipinas, Paquistão, México...

- Acemoglu e Robinson estão animados com a Bolívia de Evo Morales.

- Adam Smith e Barack Obama, socialistas.

- Pesquisa do ManpowerGroup sobre a dificuldade de encontrar profissionais em diversos países e áreas.

- Custo de uma noite a dois em várias cidades.

- O mercado antecipou a abolição da escravidão no Brasil?

- A sucessão do IPEA está pegando fogo no Mão Visível.

- Sherry Turkle, do MIT, sobre como usamos aparelhos eletrônicos para fugir de conversas e como isso nos atrapalha.

- Fabuloso artigo de Susan Sontag, de 1975, sobre a estética do fascismo e a fascinação que exerce (partindo de um livro de fotografias de Leni Riefenstahl). Alguém apontou no twitter, não consigo lembrar quem e fico devendo o agradecimento.

domingo, 1 de abril de 2012

Apple, a fraude do século

A essa altura, todo mundo já deve saber da grande história deste final de semana: uma investigação da SEC e do FBI mostrou que a Apple, vem, há mais de dois anos e com consentimento do governo chinês, inflando os números de produção e venda de seus produtos. O número de iPads vendidos, por exemplo, provou-se menor que 10 milhões, contra os 30 milhões divulgados pela companhia. A expectativa para a abertura do mercado amanhã é enorme, com muitos analistas antecipando uma "segunda-feira negra", com o Nasdaq (da qual a Apple tem cerca de 12% de peso) caindo entre 5% e 10%. Fora os efeitos diretos no mercado de ações, teme-se que o problema diplomático gerado cause uma grande disrupção no comércio mundial com a China. Pode ser a "tempestade perfeita" que muitos analistas esperavam (evidentemente sem prever o evento) e que acabará levando o mundo de volta a uma grande recessão.

É sintomático dos nossos tempos que a companhia arquetípica deste século e da recuperação do mercado americano tenha se mostrado, em tão pouco tempo, uma fraude. Paradoxalmente, nunca tanta informação esteve disponível ao alcance de tanta gente, e nunca se acreditou em tantas mentiras, desde que bem embaladas em uma narrativa mais ou menos plausível. Que usemos essa história para uma profunda reflexão sobre em quê acreditar, e com qual grau de certeza.

Mais aqui (Inglês) e aqui (Português).

segunda-feira, 19 de março de 2012

Ironia Britânica do Dia

Da última The Economist:

In a move hailed as a triumph by the digerati but deplored by bibliophiles, the publishers of "Encyclopaedia Britannica" decided to discontinue the printed edition of the 32-volume tome in order to focus on the online and digital versions. The encyclopedia contains 40m words, is in its 15th edition and was first published in Edinburgh in 1768 but has been based in America since 1901 (according to Wikipedia).

P.S. Claro que a tecnologia empurrou esse tipo de produto para a obsolescência e tal, mas vou sempre lembrar com saudades da Britannica impressa - devo muito da minha educação randômica e sem foco à edição de 1986 da Barsa (versão tropicalizada e editada no Brasil pela Britannica, que também publicava a Mirador) que meus pais compraram para mim e para minha irmã quando entramos na escola. Na época, custava o preço de um bom carro usado.

P.P.S. Este livro, que conta a saga de um jornalista que resolveu ler a Britannica de cabo a rabo, é bem divertido.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Leituras da semana (passada)

- A Apple chegou ao meio trilhão de dólares de valor de mercado, e vai se ver com a lei dos grandes números. Para o pessoal que pensa em vender, não deve animar saber que a Cisco Systems chegou a US$ 700 bilhões no auge da bolha, em 2000.

- Faça você mesmo: a produção de cerveja artesanal e como deveria funcionar o capitalismo.

- Mansueto Almeida fala sobre a entrevista de Paul Krugman a Playboy; o próprio fala sobre a crise na ciência econômica. Scott Adams, o economista que criou o Dilbert, numa variação sobre o tema.

- Maurice Obstfeld, um dos coautores do Krugman, explica porque ainda é importante prestar atenção para déficits em conta corrente.

- Scott Sumner faz uma nova introdução para o monetarismo de mercado.

- O Banco Central de Israel vai radicalizar a "diversificação de reservas" e investir em ações. Espero que a moda não chegue por aqui.

- Como a tributação de energia elétrica atrapalha a distribuição de renda no Brasil.

- Duas leituras obrigatórias para quem mexe com ações (ou tiver interesse no mercado financeiro em geral): as últimas cartas de Warren Buffett e Jeremy Grantham. O site da Berkshire Hathaway continua na vanguarda do design mundial.

- Nova Délhi e São Paulo tiveram os mercados imobiliários mais quentes do mundo no ano passado, segundo o Global Property Guide. Nos EUA, só Detroit ganhou em 2011.

- A piauí tirou do paywall a matéria do João Moreira Salles sobre a Islândia que eu tinha recomendado aqui, vale conferir.

- O grande Amartya Sen vai falar em São Paulo no dia 24 de Abril, marque na agenda.

- Uma entrevista pouco usual com Obama, falando longamente sobre esportes (e deixando escapar que já conta com a reeleição).

- Mais uma para a coleção de anedotas absurdas da Grécia.

- O tweet do ano, por enquanto.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Leituras da Sexta

- Três anos depois, João Moreira Salles, da piauí, voltou a Islândia, balão de ensaio da crise de 2008 e possíveis respostas a ela. Encontrou um país onde os cidadãos e credores foram tratados como adultos, o que, acho, não é pouco para os dias de hoje. Por enquanto está disponível no site só para assinantes; ao longo do mês, a matéria deve ser liberada, como é o bom costume da revista.

- As ações da Apple continuam a escalada (até o céu, dirão alguns): esta semana o valor de mercado da companhia ultrapassou a soma de Google e Microsoft; se a Apple fizesse parte do Dow Jones, o índice estaria em sua máxima histórica; James Altucher, que há cinco anos disse que o Facebook valeria US$ 100 bilhões, acredita que a Apple pode ser a primeira empresa a alcançar US$ 1 trilhão no mercado. Antes disso, precisa testar a heurística que diz que nenhuma companhia aberta valeu por muito tempo mais que US$ 500 bilhões (Petrochina, Exxon e Microsoft tentaram e falharam) - mais nessa fala de Geoffrey West.

- Warren Buffett volta à famosa imagem do cubo de ouro de 21m de aresta para defender o investimento em ações.

- Mais um texto que, indiretamente, alimenta o senso de auto-importância dos economistas ao defender que o paradigma neoclássico causou a crise.

- O que é ser keynesiano hoje em dia? (dica Maurício Santoro)

- Para o zeitgeist americano, ver o comercial que a Chrysler passou no intervalo do Super Bowl, com Clint Eastwood.

- 5.000 pesquisadores já aderiram a um boicote a Elsevier, maiora editora de revistas científicas do mundo. Tyler Cowen decidiu não aderir, e comenta. Aqui no Brasil, costumo pegar no pé da Elsevier / Campus pelos preços extravagantes dos livros que publica - o clássico Desafio aos Deuses, por exemplo, custa aqui R$ 122, contra US$ 12,50 na Amazon. Sim, a qualidade da publicação aqui é melhor e há um problema de escala, mas... seis vezes mais caro?

- Christina Romer discorda de Dani Rodrik e diz que a indústria não deve ter tratamento especial.

- Como desgraça gosta de companhia, apareceu na Grécia um supergerme resistente a antibióticos que causa pneumonia.

- Tyler Cowen sobre o novo livro de Tony Judt (com Timothy Snyder).

- Pensar que tempo = dinheiro é receita para infelicidade, diz um estudo da Universidade de Toronto.

- A The Economist sobre o leilão dos aeroportos brasileiros.

- Uma playlist de Barack Obama, devidamente cornetada.

- Para saudosos da Chiclete com Banana: Angeli e Laerte planejam lançar, juntos, uma nova revista.

- Homenagem, em vida, do Laerte à obra do Wando, aí do lado.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Acha que estamos em uma nova bolha de tecnologia? Vai tentar vender...

Já devo ter reproduzido aqui uma meia dúzia de vezes a tabela abaixo, que está acompanhando o mercado de ações de internet / tecnologia na medida em que passos da bolha que estourou em 2000 vão sendo repisados com precisão assustadora (clique para aumentar):


Talvez o diagnóstico seja preciso e estejamos mesmo em uma bolha, que, quando estourar, vai deixar os acionistas de algumas companhias com uma pequena fração do que investiram. Porém, como também já escrevi aqui, tentar lucrar antecipando o estouro de uma bolha é das coisas mais ingratas que um especulador pode se dedicar a fazer. Meu amigo Veiga tem o estranho prazer de acompanhar algumas companhias abertas com negócios mais ou menos estranhos baseados na internet. Com a ajuda dele, montei a tabela abaixo, acrescentando o índice Nasdaq e alguns outros casos que considero emblemáticos:


Timing is a bitch... por enquanto, em 2012, ganharam os que identificaram a bolha e, seguindo a máxima de George Soros, compraram e estão surfando. Se a história se repete, teremos, como em 2000, muita gente inteligente perdendo dinheiro mesmo com a visão de médio / longo prazo se provando correta. Esse negócio de tentar ser mais esperto que o mercado é muito, muito difícil.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O que é o Facebook

Alguns dados interessantes, via Can Turtles Fly? (clique para aumentar).


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Facebook indo a público

Poucas coisas irritam mais um investidor / especulador do que ver uma bolha inflando sem participar dos lucros. Claro que, no fim, nenhuma era é tão diferente assim, todas as bolhas estouram e aqueles têm sua compensação pelo menos na forma de schadenfreude. Muitas vezes, porém, o processo é mais longo do que se antecipa e faz muita gente rica enquanto se desenrola - e ganhar com o estouro é, provavelmente, tão difícil quanto com a valorização (de um tal George Soros: "a primeira coisa que faço quando vejo uma bolha é comprar"). O mesmo Soros, junto com pelo menos outro investidor lendário (Julian Robertson), tentou antecipar o furo da bolha do Nasdaq, em 2000, por muito tempo, desistindo meses antes do início da queda. E o livro The Big Short, do Michael Lewis, conta várias histórias de brilhantes especuladores que lucraram com o fim da bolha imobiliária nos EUA, não sem antes quase irem a loucura questionando suas convicções ante o comportamento exuberante do mercado.

Dado isso, é compreensível o tom raivoso de muitos corneteiros de mercados (este escriba incluído) ao saber que o Facebook está nos últimos passos para uma oferta pública inicial de ações, que deve levantar algo como US$ 10 bilhões e determinar um valor de mercado entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões para a companhia (mais aqui). Para uma ideia das grandezas: uma oferta de US$ 10 bilhões seria cinco vezes maior que o IPO do Google, em 2004, e o terceiro maior da história do mercado de capitais dos EUA. Um investidor com US$ 100 bilhões (por acaso, mais ou menos o que a Apple tem em caixa - chorem, pobres!) poderia escolher entre comprar, grosso modo, 100% do Facebook ou escolher uma entre empresas do porte de: Unilever, Cisco, Verizon, Schlumberger, Pepsico, Sanofi (o Google e seus anos de sucesso valem US$ 190 bilhões no mercado, mais ou menos o mesmo que a Petrobras). Ainda que comparando fluxos e estoques, US$ 100 bilhões equivalem a um ano de PIB do Marrocos.

A questão de vários milhões de patacas é se de fato estamos assistindo aos desenvolvimentos finais de uma estranha nova bolha de tecnologia (ver aqui) ou se, com o tempo, o Facebook vai conseguir gerar os fluxos de caixa / crescimento que justifiquem seu preço em bolsa. Para fazer uma conta de padaria: com um valor de mercado de US$ 100 bilhões e um múltiplo preço / lucro igual ao do Google (20x), o Facebook teria que ser capaz de gerar lucros de US$ 5 bilhões por ano - em 2011, gerou entre zero e US$ 1 bilhão, dependendo da fonte. Para quem compra, mais importante do que acreditar nesse crescimento é se convencer de que o modelo de negócios do Facebook é estável, e que a empresa é de fato o modelo definitivo de rede social - sendo que tantas outras que pareciam promissoras caíram no esquecimento antes de fazer qualquer dinheiro para seus compradores finais. Há opiniões de "especialistas" para todos os lados; eu acho as premissas muito, muito frágeis - mas pelo menos desde que a empresa era avaliada em "apenas" US$ 50 bilhões. Façamos nossas apostas e assistamos a uma das grandes histórias corporativas dos nossos tempos.

P.S. Sim, acho que o Zuckerberg é mais um iludido pelo acaso do que um visionário.

P.P.S. O Wolfram|Alpha está muito bacana pra levantar informações de empresas listadas. Treme, Bloomberg.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mesmo sem SOPA e PIPA...

Hoje recebi o seguinte e-mail (dado: ao longo de cinco anos, eles removeram dois de dezenas de documentos que subi para o Scribd):



Claro que não dá para extrapolar nada a partir de uma observação e que é só criar outra conta, mas não consigo deixar de pensar que ainda vamos sentir saudades da liberdade de circulação de informação dos últimos anos. Na margem, claro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O que perdi semana passada

- O Fed agora tem uma meta explícita de inflação - e, ao mesmo tempo, se comprometeu a deixar os juros de um dia a zero até o final de 2014. Na terra de Bernanke, isso é compatível, partindo do princípio de que o risco de deflação ainda existe (a inflação esperada está abaixo dos 2%) e o mandato do Fed também cobre estimular a atividade. O outro lado disso é que provavelmente os juros reais vão ficar negativos por bastante tempo, o que também ajuda o Tesouro americano a lidar com a dívida; além disso, vai seguir sendo interessante para os bancos carregar dívida pública longa, desde que a inflação não se mexa muito nesse tempo. Intencionalmente ou não, os EUA entram de vez na era de financial repression.

- A Apple reportou o melhor trimestre de sua história - de que crise estamos falando? As ações já subiram mais que 10% este ano, o que reduz a probabilidade de eu acertar uma das minhas previsões irresponsáveis de 2012.

- Os juros de 10 anos na Itália chegaram a cair abaixo de 6% (já voltaram hoje, a 6,11%). Na Espanha, chegaram a operar abaixo de 5%. Sigo achando que uma linha foi traçada para a dívida européia: Grécia e Portugal podem ter que renegociar, mas a crise para por aí.

- O Banco Central do Brasil reafirmou a disposição em seguir cortando juros. Lembrem-se que das primeiras coisas que Dilma disse depois de eleita foi que ia tentar baixar os juros reais para 2%, estamos nesse caminho (ainda que promessas de políticos não possam exatamente ser tomadas ao pé da letra).

Esqueci de alguma coisa? De qualquer forma, acho que perdi pouca coisa e ganhei o privilégio de, pela primeira vez na vida, contemplar esta vista:


P.S. Parece que a festinha de começo de ano nos mercados está perdendo o gás. Hora dos búfalos recolherem os chifres.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

JWT: 100 Things to Watch in 2012

Claro que em 100 chutes eles sempre vão acertar cinco ou seis, mas é divertido olhar tudo:

JWT: 100 Things to Watch in 2012

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domingo, 30 de outubro de 2011

Anais da governança corporativa, edição de domingo

Quando Jobs fez a primeira distribuição de ações da Apple, deixou um dos parceiros de fora. Wozniak foi a ele e propôs: "O que você der, eu também dou". "OK", respondeu Jobs, "eu dou zero".

Elio Gaspari, na coluna de hoje da Folha, citando a biografia de Steve Jobs, de Walter Isaacson. Humano, demasiadamente humano.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Leituras da semana

- Dani Rodrik sobre Milton Friedman e seu legado. O que ele pensaria ao saber que, mais de 30 anos depois de Free to Choose, a maioria dos lápis do mundo é feita na China?

- Uma boa entrevista com Olivier Blanchard, dizendo o que revisaria no seu famoso livro-texto de macroeconomia.

- Faça seu próprio stress test nos bancos europeus, e tente fugir da conclusão de que ainda há muito tumulto por vir - obrigado, Aninha.

- A carta aberta de dezenas de europeus notáveis (entre eles, George Soros, Daniel Cohn-Bendit, Timothy Garton Ash e Tadeusz Mazowiecki) a seus líderes - união fiscal está no topo dos pedidos.

- Vladimir Safatle dá seu adeus a Obama, eu só tenho que lamentar e concordar.

- A Itália resolve o problema da instabilidade dos mercados: é só parar de dar cocaína para os babuínos que ficam atrás das mesas de operações.

- Preços de imóveis pelo mundo.Ou os caras erraram algumas das contas, ou tem coisa MUITO barata nos EUA.

- O Google estende seus tentáculos para o mundo da cerveja: vem aí a URKontinent.

- Um trecho do ilustre desconhecido Nobel de Literatura.

- Um plano (de 1930) para drenar o Mar do Norte e aumentar a área da Europa - via Chris Blattman.

- Os problemas que a Universidade de Moscou usava para afastar alunos indesejados (judeus, entre eles) - via Alex Bellos.

- A ciência por trás dos jogadores de futebol que tentam cavar faltas.

- A mais tocante homenagem a "Esteve" Jobs.

- Aprendendo matemática, química, história... com filmes pornô.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Gráfico do dia - Preços da Apple

Mais uma ilustração de como vivemos um período muito deflacionário para alguns produtos. Via Felix Salmon:

P.S. A The Economist desta semana não dedicou o seu famoso obituário a Steve Jobs (a honra ficou com a ambientalista queniana Wangari Maathai). Jobs, em sua tradição megalomaníaca, ficou com a capa, um editorial e esta matéria.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Steve Jobs, 1955-2011

O time daqui de baixo perdeu um dos grandes.

Remembering that I’ll be dead soon is the most important tool I’ve ever encountered to help me make the big choices in life. Because almost everything — all external expectations, all pride, all fear of embarrassment or failure — these things just fall away in the face of death, leaving only what is truly important.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Leituras da semana caótica

Aproveitando enquanto é cedo:

- Favorito da casa 1: Jeremy Grantham, da GMO, explicando porque este não é um mercado para jovens.

- Favorito da casa 2: o Eclectica, de Hugh Hendry, acumula ganhos de quase 40% no ano.

- O "doutor caos" Roubini não é tão favorito, mas junta-se ao coro dos que defendem um calote da Grécia. Dona Cristina Kirchner, ontem, na ONU, levantou a mesma bandeira, só faltou dizer: calotem e sejam felizes.

- Os chutes da Reuters para o Nobel de Economia. O anúncio oficial é no próximo dia 10; todos os virtuais favoritos lecionam nos EUA.

- O trading de alta frequência começa a desafiar a relatividade. Não sei o que achar.

- O Financial Times levantou algumas correlações úteis para quem precisa de material para uma tese sobre comportamento dos mercados.

- Um paper muito interessante sobre os vieses políticos embutidos em testes econométricos aparentemente isentos.

- Um bom resumo do IPEA sobre como o Brasil chega para mais uma possível crise.

- Uma (longa) aula de Nassim Taleb na Universidade da Pensilvânia.

- Montes de papers sobre o futuro da pesquisa em economia.

- Um tumblr que coleciona "coisas" que valem menos do que a Apple, como todo o ouro estocado no Fed, o PIB da Dinamarca, todas as casas de Atlanta...

- Mais um estudo sobre o impacto macroeconômico dos Jogos Olímpicos. O Leonardo Monasterio comenta.

- As consequências econômicas de dona Merkel, por Robert Skidelsky.

- Um Mister M das ciências políticas conta 10 segredos de sua profissão para os mortais (dica do Maurício).

- Anais do idiotismo: Ron Paul disse que a fome na África acaba quando o continente deixar de ser "tão socialista". Para o retorno à sanidade, a resenha do NY Times para Three Famines.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Netflix em queda livre

Parece estar terminando um dos casos de amor mais interessantes dos últimos tempos (nas finanças corporativas, evidentemente): do mercado de ações com a Netflix. A empresa perdeu mais da metade do valor de mercado em um mês, como consequência, em teoria, de uma radical reestruturação de suas atividades (há quem vá dizer que a queda coincide com o anúncio das operações no Brasil e restante da América Latina). Talvez seja um passo para trás para, no futuro, alguns à frente; por enquanto, é uma espetacular destruição de valor.

Mais no Washington Post.


P.S. Quando citei aqui a Netflix como um exemplo de destruição criativa, as ações operavam a US$ 156, máxima histórica. Esse preço beirou os US$ 300 antes do mergulho das últimas semanas. Talvez aquele preço ainda seja espetacular, e estejamos presenciando a correção de mais um de tantos exageros do mercado (início de um estouro da mais recente "bolha" de tecnologia?).