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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O tamanho do buraco na economia brasileira

Postei alguns desses gráficos no Twitter e pareceu uma boa ideia juntá-los em um mesmo lugar (ao menos serve para tirar o blog da dormência--espero voltar ainda este ano com os livros, discos e filmes de 2015):


  • O crescimento real do PIB nos 4 anos terminados em 2016 deve ser o pior para períodos similares desde 1932 (na esteira da Grande Depressão). Desde 1908, apenas em 4 ocasiões o PIB acumulado em 4 anos caiu:
  • Se de fato não houver recuperação até o final do ano que vem, a economia brasileira estará em recessão por 13 trimestres consecutivos. A trajetória é bem distinta de recessões seguidas de recuperação em "V" (como Argentina, depois da crise de 2001 e Coreia do Sul, depois da crise de 1997) e se parece bastante com a Espanha pós-crise de 2008. Se há algum consolo é que ainda passamos longe da queda livre pela qual a Grécia passou. A comparação negativa é que a Argentina se recuperou de uma queda brutal no PIB (mais de 16%) mais rapidamente do que estamos nos recuperando. Nessa comparação, o choque sai-se melhor do que o gradualismo negacionista.

Com este desempenho, a recessão atual não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB terá recuado mais de 6%, quase 2% abaixo do observado na recessão mais severa até então — a da crise de 1929. O pior, no entanto, é o que segue: a retomada, segundo a projeção de consenso, será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão no Brasil, bem mais letárgica do que a retomada pós-Plano Collor, de 1990.



  • Por fim: os incumbentes brasileiros não costumam se sair bem em períodos de forte queda no crescimento (se meu professor de econometria ler isso, pega um avião pra me dar uns cascudos pela sugestão grosseira de causalidade--mas a ideia é só mostrar a coincidência).

segunda-feira, 10 de março de 2014

Livros no mercado futuro

Tem sobrado pouco tempo para ler algo além do que está nos syllabi e executar as funções vitais. Portanto, atualmente só opero livros no mercado futuro—acumulo, anoto os títulos e empurro para a frente. Aí vão os que saíram há pouco ou vão sair em breve e quero ler, ficam como dicas para quem ainda passa por este tristemente abandonado blog:

- The Tyranny of Experts, do William Easterly e The Idealist, de Nina Munk. Foram resenhados juntos no FT do último fim de semana. Amanhã vou numa apresentação do Easterly, se der tempo (probabilidade menor do que a do Levy Fidelix levar a eleição presidencial deste ano) posto algum comentário aqui.

- Reinventing State Capitalism: Leviathan in Business, Brazil and Beyond, de Aldo Musacchio (Harvard Business School) e Sergio G. Lazzarini (Insper, autor do indispensável Capitalismo de Laços).

- Brazil: The Troubled Rise of a Global Power, de Michael Reid, editor da The Economist para as Américas.

- Exceptional Argentina, de Rafael Di Tella, Edward Glaeser e Lucas Llach. Tem uma versão prévia por aí, não sei se tem previsão de lançamento.

- The Killing Fields of Inequality, tema da moda aos olhos do grande sociólogo Göran Therborn.

- Flash Boys: A Wall Street Revolt, o novo do Michael Lewis.

- Everyday Is for the Thief, o primeiro livro do Teju Cole, agora relançado.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Argentina, a megera domada?

Na peça de Shakespeare, Catarina, a megera do título, é “domada” com uma série de privações impostas por seu marido, Petrúquio. Na semana passada, o ministro da economia da Argentina, Axel Kicilof, anunciou uma nova metodologia de cálculo para a inflação no país, marcando uma “mudança qualitativa com relação ao passado” (palavras dele). Ainda é altamente especulativo pensar que a Argentina foi domada pelas privações impostas pelos mercados internacionais. Porém, a medida, em meio a negociações (que precisam de um aval do FMI) de uma dívida de US$ 6,5 bilhões com o Clube de Paris, pode indicar que o país quer levantar uma bandeira branca para tais mercados.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os caminhos divergentes de Brasil e Argentina

Os dados de Brasil e Argentina fornecerão material riquíssimo para os historiadores econômicos de um futuro não muito distante. Ao fim de um período de câmbio fixo e muto valorizado (final dos anos 1990 / início dos anos 2000), os dois países partiram de níveis similares de renda per capita e desde então vêm aprofundando a divergência entre a condução de suas políticas econômicas. O Brasil trocou a âncora nominal do câmbio por metas de inflação e de resultado fiscal (duas pernas do famoso “tripé macroeconômico”); a Argentina, após o maior calote de dívida externa da história, tem se dedicado a abandonar qualquer espécie de âncora e navegar ao gosto do casal de capitães Kirchner. A recente ascensão ao posto de ministro de Axel Kicillof, o arquiteto da nacionalização da petrolífera YPF e representante de uma nova geração da longa tradição de economistas heterodoxos no continente, parece ser uma reafirmação desse caminho.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Leituras das Últimas Semanas

Adam Smith faria 290 anos hoje
- Reforma e contra-reforma dos sistemas bancários do mundo desenvolvido, por Andrew Haldane.

- Entrevista com a brasileira Leda Braga, da BlueCrest, uma das gestoras (de qualquer gênero) de fundos  mais bem sucedidas do mundo.

- Apresentação de Dani Rodrik sobre a crise europeia.

- Uma volta dos bond vigilantes?

- Keynes: “How long will it be found necessary to pay City men so entirely out of proportion to what other servants of society commonly receive for performing social services not less useful or difficult?”

- Bresser-Pereira, depois de longos anos, jogou a toalha com a economia argentina. Salve-se quem puder.

- Longa reportagem do Financial Times sobre a Colômbia.

- Uma resenha da autobiografia de Benoît Mandelbrot.

- Versão eletrônica grátis da autobiografia de Deirdre McCloskey.

- Boa análise da política econômica do futebol brasileiro.

- As hospedagens mais caras do mundo.

- Porque a educação na Finlândia é tão boa.

- Dambisa Moyo x Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre Borgen.

- Um ótimo ensaio sobre ensaios.

- Os 15 países mais difíceis de se visitar.

- O que se aprende usando apenas produtos do Google.

- Para quem gosta de drogas pesadas, vários downloads gratuitos de Anthony Braxton.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Frases do Dia - o termômetro do mercado negro de câmbio

The black market is indispensable to one's insight into a country. Right away you know if there is a black market, and if so, whether the currency carries a big premium. The black market is like taking somebody's temperature. If I give you a thermometer and we take your temperature, we know whether something is wrong. We do not know what is wrong, but we do know that something is wrong. If you have a high temperature, we know that something is really wrong. The black market operates the same way. You do not know what is wrong if there is a black market, but it gives you the frist hint. And if there is a big premium in the market - a large discrepancy between the official rate and the black market rate - you know something is seriously wrong. If you want to know something about a country, you can learn more from talking to a black marketer than from speaking to a government minister.

Da nova biografia de Jim Rogers, Street Smarts. A economia da Argentina vai bem, obrigado.

P.S. Não sei se já linkei aqui, mas há uns dois anos a Glória Maria fez uma matéria divertida com ele em Cingapura. Figuraça.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Argentina e uma possível falta de dólares no mundo

Ontem o dólar paralelo atingiu novo recorde na Argentina, cotado a 8,63 pesos (ágio de quase 70% contra a cotação oficial - mais na Folha; cotações atualizadas aqui; gráfico aqui). Todo mundo sabe do problema de escassez da moeda americana por lá, e é claro que ele tem mais motivações idiossincráticas do que globais. Mas pode ser que a Argentina esteja sendo o canário na mina de carvão, a primeira indicação de um problema de financiamento em dólares que em breve pode afetar outros países.

De alguns meses para cá, creio que os EUA se tornaram novamente o melhor destino para a poupança global - melhor até do que a Suíça, que em 2011 colocou um teto para sua moeda contra o euro. Os EUA têm bancos sólidos, já saneados; oportunidades interessantes de investimento; legisladores não muito hostis com o mercado financeiro (para dizer o mínimo) e, pelo "privilégio exorbitante" de emitir a moeda global de transações, não terão problemas de financiamento externo até onde seja possível enxergar.

Além disso, o déficit em conta corrente americano vem diminuindo desde 2006, tendo mudado de patamar desde então e, aparentemente, voltado a fechar a partir do ano passado. Se vale a alternativa de substituição de importações de combustível pelo shale gas, essa pode ser uma nova tendência. E, amigos, déficit externo americano diminuindo não é nada bom para o resto do mundo, como mostra esse gráfico do Simple Economic Concepts for Complicated Financial Markets, ótimo livro da turma do GaveKal Research que merece uma reedição (como de costume, descontem minhas incríveis habilidades de digitalização de imagens - clique para aumentar):



Se de fato a Argentina for a primeira da série de vítimas de um encolhimento da liquidez em dólares, quais serão os próximos dominós a caírem? Os candidatos evidentes são países com grandes déficits de conta corrente: entre os maiores (critério: os que aparecem toda semana nas tabelas das últimas páginas da The Economist) estão Turquia (6% do PIB) e África do Sul (5,4% do PIB). A moeda turca anda relativamente bem comportada, mas o rand sul-africano já perdeu quase 30% contra o dólar desde o topo, em abril de 2011.

Ainda que o déficit externo brasileiro seja relativamente pequeno (3,5% do PIB), me preocupa a dependência do país de commodities para gerar dólares. É provável que, se o dólar começar a se valorizar contra as principais moedas do mundo, isso afete os preços das matérias primas, e a balança comercial brasileira pode se deteriorar rapidamente (mais ainda com a nossa recém criada demanda por gasolina importada - mais nesse relatório da Nomura). Com isso em mente, tenho cerca de 30% da minha poupança em dólares, e recomendo a todos que me perguntam considerar essa opção. Os dias em que comprar até lenço de papel em Miami é mais barato podem estar acabando.

DXY (dólar americano contra cesta de moedas, preto) x CRB (índice de commodities, laranja)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Leituras da Semana e Meia

Índia, 65
- O Spiegel acha que o Brasil é um país-modelo. Ouch.

- Mark Dow sobre as dificuldades dos fundos global macro.

- Uma lista de leituras para o verão europeu, por Barry Eichengreen.

- Nicholas Kaldor, há 41 anos, sobre a União Européia.

- A Companhia das Letras lança ainda esta semana a versão brasileira do livro de Sylvia Nasar sobre pensamento econômico. A Folha publicou um trecho e a resenha do NY Times. Eu havia resenhado aqui.

- John Kay sobre a abordagem de Keynes para probabilidade.

- 36 indicadores econômicos bizarros.

- Nassim Taleb acha que não é mais uma boa ideia trabalhar na indústria de investimentos.

- Uma retrospectiva da crise argentina.

- McKinsey sobre a Austrália.

- Começa a esquentar o debate pré-eleições nos EUA: Simon Schama e a escolha entre Franklin Roosevelt e Ayn Rand. A matéria de capa da última Newsweek, com Niall Ferguson panfletando para os republicanos. Entre as dezenas de reações, a de Noah Smith e o comentário de John Cassidy. Ezra Klein e o melhor caso contra o mandato de Obama.

- Jeremy Grantham sobre a crise de alimentos.

- O Oikomania faz um resumo sobre as hipóteses correntes para o desenvolvimento.

- As desigualdades regionais na Europa e uma boa reflexão sobre educação.

- Um manual do Brasil, pelo J.P. Morgan.

- William Easterly prova que as Olimpíadas não produzem medalhas.

- Os guias de viagens e suas concessões a tiranias.

- Como tem crescido o consumo de cerveja no mundo.

- Das Kapital em mangá.

- Caso não saibam, é proibido entrar com livros em estádios de futebol no Brasil.

- O Financial Times lê o quadro de medalhas das Olimpíadas de Londres.

- As 10 verdadeiras lições de gestão dos jogos.

- Sonny Rollins na New York Review of Books.

- A globalização segundo a revista Cosmopolitan (Nova, por aqui).

- Os bons tempos em que se podia beber no trabalho.

- Fotos dos 65 anos de independência do Paquistão e da Índia.

- Escândalo: o bolovo é uma invenção escocesa.

- Um grande dilema de lecionar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Leituras da Semana

Não tem preço
- Dylan Grice, do Societe Generale, sobre a impossibilidade de controlar resultados de processos complexos.

- David Rosenberg, economista pessimista de carteirinha, está ameaçando virar a camisa.

- Anatole Kaletsky agora tem um blog na Reuters.

- Uma aulinha da The Economist sobre como colocar 2000 anos de dados em um gráfico.

- A Foreign Affairs publicou uma série de contrapontos ao artigo pessimista com o Brasil do mês passado. De novo parei no paywall, agradeço a quem conseguir os textos e me mandar.

- Da turma do Why Nations Fail, 10 motivos que levam um país a desmoronar.

- 3x William Easterly: novo paper, que atribui quase metade do desenvolvimento global atual à colonização europeia; um cartoon sobre desenvolvimento e uma micro-opinião sobre a Rio+20.

- Há uma relação (inversa) entre índice de propriedade de imóveis e desenvolvimento?

- Deirdre McCloskey sobre os danos da intervenção estatal nos séculos XIX e XX, texto pequeno para uma discussão imensa (e ela consegue mencionar não menos que 20 autores em duas páginas - quanta gente consegue debater contra esse nível de erudição?).

- Nicholas D. Kristof visita o Irã e fala sobre os efeitos das sanções econômicas.

- Maurício Santoro sobre a Argentina, que deve entrar em recessão este ano (mas não pelos dados oficiais, claro).

- Timothy Garton Ash sobre mais um renascimento de Aung San Suu Kyi.

- Garry Wills sobre a crítica de Mangabeira Unger a Obama e o dilema ideal x possível em política.

- O grande Costa-Gavras sobre a Grécia.

- Calvin & Haroldo para entender a política no Egito.

- Karl Marx foi parar num cartão de crédito. Treme o Highgate Cemetery.

- Cartazes maximalistas de ídolos do rock.

- E há um novo vídeo da série Where the Hell Is Matt?, imperdível. Há alegria no Eixo do Mal:

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma crônica argentina, 2001-2012

Não falta alguém?
Minha história com a economia da Argentina começa em 2001, quando comecei um estágio na tesouraria de um banco europeu. Dois anos já haviam se passado desde a desvalorização do real, e o país vizinho seguia com uma constituição onde estava escrito que um peso valia exatamente um dólar. Todo mundo sabia que esse arranjo não era sustentável: não havia dólares entrando no país para saciar a demanda dos argentinos que, pero que sí, pero que no, preferiam guardar as notas verdes embaixo do colchão a manter contas em dólares digitais nos bancos. Comecei a trabalhar em maio, e há algum tempo já vinham sendo feitas apostas para o dia em que a Argentina calotaria a dívida externa. A crise seguiu exemplarmente a apropriada descrição de Rudiger Dornbusch: primeiro, demorou mais para ocorrer do que todos esperavam; depois, aconteceu de forma mais rápida que qualquer um poderia imaginar. A maioria das apostas expirou sem sucesso ao longo do ano. No início de dezembro, os depósitos foram congelados e, na última semana do ano, veio finalmente o calote, em grande estilo: o presidente-tampão Adolfo Rodríguez Saá declarou insolvência em mais de US$ 130 bilhões em dívida, no maior evento desse tipo da história, até então.

O fundo do poço foi cavado mais um pouco, e o desemprego ficou por dois anos perto de 18%. Em 2003, novas eleições presidenciais foram chamadas. A posse de Néstor Kirchner coincidiu com o início da recuperação, impulsionada pelo câmbio muito desvalorizado, juros internos negativos e a melhora nos termos de troca. Em 2004, visitei a Argentina pela primeira vez. Uma das minhas lembranças de Buenos Aires nessa viagem é de um maluco que ficava o dia todo batendo com um pedaço de pau na porta de uma agência do Citibank, perto da calle Florida, berrando palavras de ordem contra o FMI e o imperialismo ianque. Ele, porém, já era uma voz solitária: não havia mais grandes protestos e panelaços, o desemprego já tinha começado a cair e havia algum futuro a ser vislumbrado. Para quem gosta de simbolismo: em um mesmo dia daquele ano, 28 de agosto, duas das principais equipes masculinas da Argentina conquistaram o ouro olímpico em Atenas: futebol (contra o Paraguai, gol de Tévez) e basquete (contra a Itália). As leonas, time de hóquei na grama liderada pela bela Luciana Aymar (o "Maradona de saias"), haviam, dois dias antes, garantido uma honrosa medalha de bronze. De algum jeito, estava recuperado parte do proverbial orgulho argentino. Já no ano seguinte, veio a bravata da liquidação da dívida junto ao FMI, quase US$ 10 bilhões em um único pagamento (with a little help from the amigo Chávez, claro).
Nacionalizem o Messi!

Nos anos seguintes, até 2009, devo ter voltado mais umas três vezes a Buenos Aires. A 2h30 de voo de São Paulo, a cidade era boa, bonita e barata, com o inconveniente de metade do sul / sudeste do Brasil ter chegado, ao mesmo tempo, à mesma conclusão. Nas ruas de compras, ouvia-se mais Português do que Castelhano, e havia fila para comer, a algo como R$ 50 por pessoa (vinho incluído), as fabulosas carnes do Cabaña Las Lilas. Eu, metido a intelectual, fazia a festa nas livrarias e lojas de discos: edição espetacular das obras completas de Shakespeare, no original, por dez dólares (evidentemente depois concluí que não conseguiria ler o Inglês do século XVII); inúmeros discos de Coltrane, Ornette Coleman, Paco de Lucia, Piazzolla e Charles Mingus por R$ 12; por pouco não comprei uma mala nova para enfiar uma coleção em capa dura com a obra completa de Freud em Espanhol, custava menos de 100 dólares. Na Santa Fe, a loja da Dior vendia ternos por US$ 250, com um bom desconto para pagamento em dinheiro. Era quase bom demais para ser verdade, e talvez fosse, mesmo.

Passei três anos sem voltar à capital argentina, baixando novamente por lá na última sexta-feira. Nesse tempo, o povo aproveitou a melhora de vida para voltar ao inconveniente hábito de consumir, e aí começou a entrar água no modelo kirchnerista. Em 2007, a inflação já havia subido a ponto do governo se incomodar e passar a manipular os índices oficiais. Estava aberta a Caixa de Pandora do intervencionismo. A situação econômica do país seguiu piorando, chamando por mais intervenção (difícil fechar a caixa) e populismo - havia uma eleição para ser ganha no final do ano passado, afinal de contas. Passada a votação, com dona Kirchner reeleita, veio a rasteira final no capital: a nacionalização da petrolífera YPF, no último 16 de abril.

A culpa é dos brasileiros, colombianos,
espanhóis...
Buenos Aires há muito é uma cidade com ar decadente, mas não lembro de ter visto os domínios de Imperatriz Cristina (como a chamam os portenhos opositores) com tanto lixo nas ruas, pichações nos prédios e cartazes lambe-lambe nas paredes e tapumes (alguns devidamente protegidos por grades, para evitar a ação dos cartoneros, catadores de papel). Ao câmbio oficial, depois de anos de inflação subestimada, o país deixou de ser evidentemente barato: um jantar num bom restaurante na capital não custa menos do que o equivalente em São Paulo (ou seja, é caro com todas as letras); também não vi diferença entre os preços de livros e discos lá e aqui (ou melhor, livros importados estão muito mais caros lá - deixei de comprar uma coletânea de novos autores da Alfaguara porque custava quase 190 pesos), o mesmo valendo para uma olhada geral em um supermercado. Táxi continua barato, com o gás natural subsidiado e preços tabelados, o que é quase garantia de ouvir reclamações dos motoristas ao entrar nos veículos: "O governo está louco, preços de comida sobem 5% ao mês, o câmbio oficial é uma piada", e por aí vai.

O câmbio oficial, de fato, é uma piada. Está hoje em 4,47 pesos por dólar. Para quem tira dinheiro do país via blue chip swap, a taxa é quase 6 pesos por dólar, ágio de mais de 30%. Na sexta, o governo tentava, de forma patética, convencer as casas de câmbio a praticarem uma taxa de 5,10. Quem precisa viajar para fora do país não encontra dólares - a burocracia para comprar ao preço oficial inclui prestar contas dos gastos e, como contaram, eventualmente receber menos dólares do que o solicitado e uma recomendação para gastar menos. O Banco Central reporta US$ 47 bilhões em reservas, mas não está disposto a entregar os dólares para o mercado. O governo adota uma política mercantilista que tende ao escambo: importações devem ser acompanhadas de contrapartidas em exportações. Com isso consegue, por enquanto, uma conta corrente equilibrada, ao custo de escassez, preços mais altos, criação de uma ampla rede informal e deterioração geral do ambiente de negócios. Já podem começar as apostas para o agravamento da crise.

A esperança de desenvolvimento econômico vem sendo substituída por uma onda de nacionalismo - nunca tinha visto tantas referências as Malvinas, de grafites a seções inteiras nas livrarias; e encontra-se o logo da YPF estatizada até nos souvenirs das barracas da feira da Plaza Serrano, em Palermo. É a marcha da insensatez, mais uma vez atingindo uma das sociedades do mundo que mais tenta se conhecer. Não sei se aí há um paradoxo, ou se o peronismo-kirchnerismo, como a psicanálise, são partes inseparáveis do que conhecemos como psique do país. Gente muito mais qualificada do que eu já procurou esse tipo de resposta, até onde sei, sem conclusões definitivas. A vida é absurda, só um pouco mais na Argentina, e aí está grande parte da fascinação que o país exerce em quem o observa.

Para sair das conclusões sociológicas rasteiras e voltar um pouco à economia: parte do "desenvolvimentismo" brasileiro adora citar o "exemplo de sucesso do modelo argentino", sempre mencionando as altas taxas de crescimento do PIB nos últimos anos (ignorando, claro, o que está ruim ou o tamanho do buraco em que o país havia se metido antes da recuperação). Um outro tipo de "desenvolvimentista", com mais apego a dados e à realidade, olhando para a situação atual do país provavelmente chegaria a uma conclusão menos animadora. No seu excelente The Elusive Quest for Growth, William Easterly não consegue chegar a nenhuma receita mágica para o enriquecimento dos países, mas dedica um capítulo inteiro a ações induzidas por governos que foram capazes, ao longo da história, de enterrar o crescimento. São elas: inflação alta, altos ágios no mercado paralelo de câmbio, altos déficits de orçamento, juros reais fortemente negativos, restrições ao livre comércio, burocracia excessiva e serviços públicos inadequados*. Quase tudo presente na Argentina de hoje, que, mais uma vez, tenta desafiar alguns equivalentes econômicos às leis da física. Resta desejar sorte, ou dias melhores - this too shall pass.


As fotos que ilustram o post foram todas tiradas no último final de semana, em Buenos Aires.


* Sobre os determinantes do crescimento, Easterly cita:


Robert J. Barro, 1996.
"Determinants of Economic Growth: A Cross-Country Empirical Study,"
NBER Working Papers 5698, National Bureau of Economic Research, Inc.


Sobre a associação entre prêmio no mercado paralelo de câmbio e aumento na desigualdade:


Kevin Sylwester, 2003.
"Changes in income inequality and the black market premium," 
Applied Economics, Taylor and Francis Journals, vol. 35(4), pages 403-413.


Sobre o câmbio paralelo na Argentina, mais na The Economist e no Foro Económico.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Mais Argentina e Dados - PIB e Energia

Estava devendo este post há um tempo: o Jorge Browne me mandou, no começo do mês, esse gráfico, que compara uma medida de produtividade (PIB por unidade de energia) de Brasil e Argentina com América Latina / Caribe e o mundo todo. As produtividades do Brasil e da América Latina / Caribe são praticamente estáveis há muitos anos, enquanto o mundo tem se tornado mais eficiente. Conhecendo o caso da Argentina, ou aceitamos que eles conseguiram aumentar essa medida de eficiência em 24% desde 2004, ou podemos especular que a medida do PIB é superestimada, enquanto o uso de energia é medido corretamente. O Alexandre Schwartsman comentou há algum tempo que estava olhando dados desse tipo, provavelmente vai aparecer com uma conclusão mais fundamentada.


Obrigado ao Jorge pelos dados e pela ideia.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Argentina: O Que Você Vê e o Que Você Não Vê

"An economist must take into account both what is seen and what is not seen"
- Frédéric Bastiat 

"O corvo da desconfiança pousou na nossa amizade. Daqui por diante, cada um segue seu destino"
- Drauzio Varella, em Estação Carandiru

O post que comparou o crescimento de alguns países latino-americanos (e seu posterior anexo), concluindo que os crescimentos de Brasil e Argentina não são tão diferentes ao longo dos anos, foi o mais acessado e comentado da história deste blog. Isso reforça minha obrigação de esclarecer quando surgem novos fatos. Ontem o Mansueto Almeida publicou esse post, citando uma pesquisa do Sergio Vale (da MB associados) junto a Ecolatina, uma consultoria argentina com 35 anos de experiência e serviços prestados a  muitas empresas que operam por lá. Pois bem: os dados da Ecolatina dizem que o INDEC (o equivalente ao IBGE argentino) vem subestimando o deflator do PIB (e, portanto, superestimando o crescimento real) deade 2007. A tabela abaixo (roubada do Mansueto) mostra esse descolamento entre os dados oficiais e os estimados pela Ecolatina:


Para reforçar um ponto que eu já fiz: nunca achei que a inflação oficial (IPC) publicado pelo INDEC fosse realista, mas, até agora, era levado a acreditar que a manipulação só ocorria nessa métrica (daí a grande diferença entre o IPC e o deflator, desde 2005). Os dados da Ecolatina, se corretos, mostram que fui feito de trouxa - eu e todos que usam as estatísticas que o país fornece a FMI, Banco Mundial, etc.

Quando fatos mudam, não resta muito a não ser mudar os pensamentos, como bem disse Lord Keynes. Assim que possível, vou refazer as tabelas e gráficos do post de semanas atrás incluindo os dados como vistos pela Ecolatina; coloco o resultado aqui o quanto antes.

Agradeço ao Mansueto e ao Sergio Vale pelos novos dados, e lamento muito pelo o que está sendo feito com os argentinos, a quem resta o consolo de que isso, também, um dia vai passar.