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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A crise de representação no Brasil

O blog anda parado porque tenho gastado todo o meu tempo livre tentando entender, à la Santiago Zavala, em que momento o Brasil se fodeu. (Mentira, ando mesmo é com bloqueio de escritor, ou preguiça, a depender da generosidade do leitor). De qualquer forma, com relação à pergunta, li hoje três coisas interessantes:

—Frances Hagopian coloca como origem da atual crise de representação a divergência entre a expansão de accountability horizontal e a falha dos partidos em capturar a demanda emergente por representação política:

"Why are voters ready to see the ouster of a president
to whom they gave a second term just two years ago? Why, given
Brazil’s great strides in building a more inclusive democracy buttressed
by stronger institutions of horizontal accountability—which have been
key to exposing the Petrobras scandal—are we witnessing such political
turmoil? What underlies the current crisis?
 
The answer is that stronger horizontal accountability institutions and
an expanded citizenship have paradoxically eroded the bonds of vertical
accountability. Brazil’s recent achievements in empowering accountability
institutions and enforcement agencies and broadening sociopolitical inclusion
have generated demands for political representation that the existing
party system has not been able to meet. The work of judicial institutions
now throws corruption (hardly a new phenomenon) into starker relief. At
the same time, the stabilization of the economy and the expansion of access
to social services and income support have made citizens less reliant
on patronage and more demanding of local and national governments."

—Mainwaring, Power e Bizzarro apontam que o relativo sucesso econômico do Brasil até poucos anos atrás ajudou a institucionalizar o sistema de partidos, algo que está em risco com a crise corrente e os dois principais partidos programáticos do país catando os cacos do que já foram por aí. O reverso da institucionalização é o personalismo da política no Peru ou o caos da Venezuela.

Alguma esperança? De novo, Hagopian:

"The protests of recent years in Brazil are a sobering reminder that
democracies need representative institutions to reach citizens, to express
their aspirations, and to translate their preferences into effective governing
solutions. But the protests also offer a ray of hope: Even in hard
times, and with popular anger at the political class threatening to boil
over, Brazilians find their democracy worth taking part in, and respect
the institutions that safeguard it."

E, no mesmo tom, a (grande) coluna desta semana do Michael Reid na The Economist:

 "... in Brazil, with its strong parliamentary tradition, no president can govern against Congress. When Ms Rousseff brandishes her 54m votes in the presidential election of 2014 as a defence, she forgets that they were for Mr Temer too, and that the senators have an equally valid democratic mandate. Brazil has thus offered a tutorial in constitutional theory to the likes of Nicolás Maduro, Venezuela’s dictatorial president. The legacy of a divisive impeachment is not all bad."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O tamanho do buraco na economia brasileira

Postei alguns desses gráficos no Twitter e pareceu uma boa ideia juntá-los em um mesmo lugar (ao menos serve para tirar o blog da dormência--espero voltar ainda este ano com os livros, discos e filmes de 2015):


  • O crescimento real do PIB nos 4 anos terminados em 2016 deve ser o pior para períodos similares desde 1932 (na esteira da Grande Depressão). Desde 1908, apenas em 4 ocasiões o PIB acumulado em 4 anos caiu:
  • Se de fato não houver recuperação até o final do ano que vem, a economia brasileira estará em recessão por 13 trimestres consecutivos. A trajetória é bem distinta de recessões seguidas de recuperação em "V" (como Argentina, depois da crise de 2001 e Coreia do Sul, depois da crise de 1997) e se parece bastante com a Espanha pós-crise de 2008. Se há algum consolo é que ainda passamos longe da queda livre pela qual a Grécia passou. A comparação negativa é que a Argentina se recuperou de uma queda brutal no PIB (mais de 16%) mais rapidamente do que estamos nos recuperando. Nessa comparação, o choque sai-se melhor do que o gradualismo negacionista.

Com este desempenho, a recessão atual não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB terá recuado mais de 6%, quase 2% abaixo do observado na recessão mais severa até então — a da crise de 1929. O pior, no entanto, é o que segue: a retomada, segundo a projeção de consenso, será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão no Brasil, bem mais letárgica do que a retomada pós-Plano Collor, de 1990.



  • Por fim: os incumbentes brasileiros não costumam se sair bem em períodos de forte queda no crescimento (se meu professor de econometria ler isso, pega um avião pra me dar uns cascudos pela sugestão grosseira de causalidade--mas a ideia é só mostrar a coincidência).

sábado, 19 de abril de 2014

Thomas Piketty e o espírito do tempo

Piketty ontem na Harvard Kennedy School (foto roubada da Masoomeh Khandan)

Desperto o blog da sonolência dos últimos meses para falar sobre o que todo mundo tem falado (o mundo como esse estranho lugar onde as pessoas debatem conceitos abstratos ligados a dinheiro e produção): o novo livro de Thomas Piketty, "Capital in the 21st Century", que deve roubar  de "Why Nations Fail" e "This Time Is Different" o título de obra de economia menos lida (qual o público para um trabalho acadêmico de mais de 600 páginas, traduzido do Francês, por mais que escrito de forma acessível e bem editado? Admitindo que fica bonito na estante, "CAPITAL" em letronas vermelhas na lombada) e mais comentada deste século.

Como parte do tour de lançamento da obra nos EUA, que o New York Times noticiou como "Economist Receives Rock Star Treatment", ontem o autor parou por aqui, mais especificamente do lado da sala onde eu costumo ter a maioria das minhas aulas. Cheguei meia hora antes, com a intenção de olhar o movimento e comer algo antes de sentar; acabei, alertado por um amigo, pegando um dos últimos lugares disponíveis. A sala foi enchendo, enchendo, enchendo, enchendo, e, quando Piketty chegou, poucos minutos atrasado, havia gente em pé, a um metro da porta, esticando o pescoço para tentar ver e ouvir qualquer coisa. De fato, tratamento de rock star.

Piketty foi apresentado por Larry Summers como o autor do livro de economia que "causou mais sensação do que qualquer outro em duas décadas, abraçando uma vasta rede de informação e experiência." A tal rede de informação foi construída em um projeto de 20 anos de pesquisa que juntou dados de declarações de renda de mais de 20 países, com séries começando, em alguns casos, no fim do século XVIII. Depois de dividir o mérito dessa base de dados com um grande time de pesquisadores, Piketty logo disse que o objetivo principal do livro é difundir o conhecimento sobre a evolução da riqueza no mundo (zhe knowledge ov evolution ov wealth) e que as recomendações de política econômica são secundárias (mais sobre isso adiante). Sua intenção era atualizar o famoso trabalho de Simon Kuznets, um dos pais do uso de métodos empíricos na economia, agora com mais dados de mais países e poder de computação infinitamente maior.

Ele divide os principais resultados da pesquisa em três pontos:

1. O retorno de uma sociedade patrimonial e baseada em riqueza—a desigualdade de renda e riqueza nos EUA e Europa parece ter voltado aos patamares do início do século XX, no que Paul Krugman, em sua resenha de "Capital in the 21st Century" para a New York Review of Books chamou de "uma nova era dourada." Isso já havia sido adiantado no ano passado, quando Emmanuel Saez (coautor frequente de Piketty) publicou uma atualização para o clássico "Income Inequality in the United States, 1913—1988", de 2003.

2. O futuro da concentração de riqueza—aqui entra a inequação que tem sido repetida como se fosse a nova fórmula da teoria da relatividade. Se r > g (o retorno para o capital for maior do que a taxa de crescimento da economia), como parece ocorrer na maior parte do tempo, a riqueza tende a se concentrar. Entre 1987 e 2013, pelas estimativas de Piketty, a riqueza dos bilionários cresceu a 6,8% anuais, enquanto a mesma taxa para a riqueza média foi de 2,1%.

3. O tratamento da desigualdade nos Estados Unidos—ele comenta que, em 1919, Irving Fisher era presidente da Associação Americana de Economia e demonstrava preocupação com a crescente desigualdade, qualificando-a como uma "ameaça para a democracia americana." Hoje, qualquer tentativa de aumento em impostos progressivos é rotulada como "anti-liberdade" no melhor dos casos e "fascista" no pior. Piketty mostra o gráfico com evolução da alíquota de imposto de renda para a faixa mais altas, que chegou a 90% nos EUA do pós-II Guerra e foi exportada para os derrotados Alemanha e Japão.

Terminada a apresentação, Larry Summers foi o primeiro a perguntar, sugerindo que talvez a desigualdade atual não seja produto do sistema de impostos ou da remuneração do estoque de capital, mas do fato de que "há mais empreendedores, mais Bill Gates e Mark Zuckerberg."  Piketty respondeu, de bate-pronto, que empreendedorismo e inovação não começaram ontem, e que inventores de tecnologias muito mais disruptivas do que o WhatsApp não chegaram perto de acumular os bilhões de dólares acumulados pelos magnatas de hoje. Summers parece ter ficado irritado e aproveitou o resto do tempo na sala para atualizar o sono.

Outro figurão na plateia, Michael Ignatieff, perguntou se não era preciso fazer uma diferenciação normativa entre os tipos de desigualdade (lembrou muito, mas sem citar, a ideia de categorias que Daniel Markovits, de Yale, delineou—vejam o último slide desta apresentação que fiz há um tempinho). Piketty concordou, mas disse haver um trade-off entre esse tipo de diferenciação e manter o código tributário simples e não-intrusivo.
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Thomas Piketty é o primeiro a admitir que as aplicações para política pública não são o forte do seu trabalho. Um imposto global sobre fortunas parece altamente implausível, e os efeitos do aumento da desigualdade no crescimento estão longe de ser claros—ele argumenta que concentração de riqueza provavelmente reduz crescimento, mas tanto a teoria como a evidência empírica estão longe de apontarem de forma inequívoca para a confirmação dessa hipótese. É possível que desigualdade seja apenas um sintoma de um mal do capitalismo que ainda não foi identificado, mas que parece também ser responsável por baixo dinamismo do mercado de trabalho e uma recuperação lenta da crise de 2007/2008. De qualquer forma, as razões para combater desigualdade continuam sendo mais morais do que contidas no domínio da economia.

Por que, então, todo o barulho em torno do livro? Aqui, apelo para o pensamento atribuído a Victor Hugo que diz que não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou. Desde que a crise foi controlada, governos e progressistas parecem buscar uma nova agenda de política econômica. Atacar a desigualdade parece conveniente, tanto numa tentativa de estender a influência do governo sobre a economia quanto pelo forte apelo moral. O problema é o costumeiro às boas intenções: se um mundo mais igual é preferível, os meios para atingir esse objetivo estão cercados de obscuridade e consequências indesejadas. Aumentar impostos talvez seja a única política factível, mas criará distorções e não necessariamente atingirá os alvos desejados (vide a experiência recente de François Hollande na terra de Piketty). Por outro lado, outras propostas que mais provavelmente contribuiriam mais para a diminuição da desigualdade global (que, sujeita a pouco debate, é muito maior entre países do que dentro de um determinado país), como leis de imigração mais flexíveis, passam longe do debate.

Escrevi tudo isso sem ter lido mais do que as orelhas e a contracapa do livro, que pode ou não surpreender quando o fizer, mas arrisco uma conclusão: "Capital in the 21st Century" é uma obra de pesquisa empírica de ponta, resultado de um trabalho que leva nosso entendimento sobre riqueza e desigualdade para o ponto mais alto da história. Piketty, porém, não é o novo Marx ou Keynes (ou nem mesmo o salvador da economia política no século XXI): é brilhante, estava no lugar certo na hora certa, mas sua obra e suas conclusões ainda vão ter que sobreviver a vários testes de realidade para que a aura de profeta se justifique. O lado positivo é que ele parece saber disso, e deve continuar seu excelente trabalho, agora como improvável herói de um ramo do conhecimento que, ao menos aos olhos do público geral, andava a procura de uma figura sobrehumana.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Desigualdade, a bola da vez

Os países desenvolvidos ainda não saíram da crise iniciada em 2007/2008, mas agora parecem conseguir tratá-la como um problema do dia-a-dia: requer constante monitoramento e esforço, mas não mais choques e medidas de emergência. A última evidência a favor dessa tese foi a mini-crise no Chipre, que completa um ano nesta semana. Os abalos foram restritos ao pequeno país e duraram poucos dias para serem dispersados pelos mercados, que seguira escalando o proverbial muro de preocupações.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Argentina, a megera domada?

Na peça de Shakespeare, Catarina, a megera do título, é “domada” com uma série de privações impostas por seu marido, Petrúquio. Na semana passada, o ministro da economia da Argentina, Axel Kicilof, anunciou uma nova metodologia de cálculo para a inflação no país, marcando uma “mudança qualitativa com relação ao passado” (palavras dele). Ainda é altamente especulativo pensar que a Argentina foi domada pelas privações impostas pelos mercados internacionais. Porém, a medida, em meio a negociações (que precisam de um aval do FMI) de uma dívida de US$ 6,5 bilhões com o Clube de Paris, pode indicar que o país quer levantar uma bandeira branca para tais mercados.

O resto do texto está no Estadão.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

50 tons de vermelho nas crises cambiais

Levou menos de um mês para os mercados de câmbio aprontarem a primeira surpresa de 2014. Se as resposta de alguns bancos centrais – maxidesvalorização na Argentina, choque de juros na Turquia, as “rações” de dólares ao mercado que o BC brasileiro vem fornecendo há algum tempo – lembram algumas grandes crises do passado, o contexto global atual é tão distinto, e as diferenças entre os países tão grandes a ponto de tornar impossível usar a história como mapa para o futuro.

O resto do texto está no Estadão.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Paint it red

Hoje vai ser um longo dia...


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Leituras das Últimas Semanas

Adam Smith faria 290 anos hoje
- Reforma e contra-reforma dos sistemas bancários do mundo desenvolvido, por Andrew Haldane.

- Entrevista com a brasileira Leda Braga, da BlueCrest, uma das gestoras (de qualquer gênero) de fundos  mais bem sucedidas do mundo.

- Apresentação de Dani Rodrik sobre a crise europeia.

- Uma volta dos bond vigilantes?

- Keynes: “How long will it be found necessary to pay City men so entirely out of proportion to what other servants of society commonly receive for performing social services not less useful or difficult?”

- Bresser-Pereira, depois de longos anos, jogou a toalha com a economia argentina. Salve-se quem puder.

- Longa reportagem do Financial Times sobre a Colômbia.

- Uma resenha da autobiografia de Benoît Mandelbrot.

- Versão eletrônica grátis da autobiografia de Deirdre McCloskey.

- Boa análise da política econômica do futebol brasileiro.

- As hospedagens mais caras do mundo.

- Porque a educação na Finlândia é tão boa.

- Dambisa Moyo x Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre Borgen.

- Um ótimo ensaio sobre ensaios.

- Os 15 países mais difíceis de se visitar.

- O que se aprende usando apenas produtos do Google.

- Para quem gosta de drogas pesadas, vários downloads gratuitos de Anthony Braxton.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Gráfico do Dia - hot money

Curioso observar que, de algumas semanas pra cá e depois de muito tempo, começaram a pipocar relatórios de bancos sobre reversão de fluxos de capital e risco de "paradas súbitas" no financiamento externo. Esse gráfico usa dados de um dos mais interessantes que recebi (de Stephen Jen, para o Itaú BBA); segundo o autor, esse é dos indicadores mais importantes para avaliar aquele risco.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pensando alto sobre mercados

Esse é daqueles posts que faço pra organizar minha cabeça. Não deve ser de interesse para quem não se interessa por mercados ou futurologia gratuita (devem sobrar dois leitores).

Depois dos problemas com o sistema bancário do Chipre, passei a trabalhar com a possibilidade que poderíamos voltar a ver sombras de uma crise bancária generalizada sobre a Europa. Por um tempo essa tese encontrou correspondência nos mercados: as bolsas do continente, no geral, tiveram desempenho pior do que as dos EUA; e, dentre essas bolsas, sofreram mais as de países com grande peso de bancos no índice e maior percepção de fragilidade (Espanha, França, Itália). Há mais ou  menos dez dias esses movimentos se intensificaram, com bolsas americanas também caindo e alguns movimentos violentos em commodities dando indicações de uma mini-crise deflacionária.

Em algum momento da semana passada, isso mudou, com os movimentos descritos acima sendo descontinuados: bolsas europeias passaram a subir, deixando EUA para trás; entre essas bolsas, os maiores ralis foram nos países mais frágeis. O ouro começou a se recuperar de um movimento particularmente agudo e o iene voltou a se depreciar contra a maioria das outras moedas. O dólar seguiu se fortalecendo e os juros de títulos longos em parte do mundo desenvolvido fizeram novas mínimas.

Como fundo a isso, vejo duas possibilidades:

i. Uma recuperação técnica, já que alguns dos índices europeus estavam testando suportes importantes, que, se respeitados, levariam a uma correção da queda e possível formação de um intervalo bem definido para os próximos meses;

ii. Indicação de corte de juros pelo Banco Central Europeu - isso seria compatível com as indicações de atividade mais fraca na Alemanha, o movimento das bolsas, dos títulos e do euro. Também estaria em linha com o tema geral de iniciativa dos bancos centrais, que deixaram de reagir a choques e passaram a tomar iniciativas para tentar promover crescimento.

Se (ii) estiver correto, poderemos ver bolsas fazendo novas máximas para o ano e, eventualmente, o euro encontrando um novo patamar, mais perto de US$1,20. Com o dólar relativamente forte, é mais difícil para commodities encontrarem espaço para subir, o que daria continuidade à fraqueza relativa de moedas de produtores e suas respectivas bolsas.

Ontem outro fato me convenceu de que provavelmente estamos no início de um período de recuperação das bolsas da Europa com relação às dos EUA: a Apple, que foi claramente a líder dos índices americanos no ano passado, anunciou recompra de ações e aumento de dividendos. Creio que a mensagem é que a companhia perdeu, ao menos temporariamente, a capacidade de gerar lucros com base em inovação, e está gastando caixa para agradar acionistas e comprar tempo (e tomando um risco de cross-border grande, já que o caixa da companhia está no exterior e ela tomará empréstimos nos EUA para pagar as recompras e dividendos). Isso pode ser bom para os preços das ações no curto prazo, mas me parece um sinal claro de que a companhia está num momento de inflexão (como se não bastasse o movimento dos preços). Evidentemente tudo pode mudar com o lançamento de novos produtos, mas não é bom contar com isso (o que também ficou evidenciado desde o ano passado, quando muitos analistas citavam a "capacidade infinita de inovar" da empresa como justificativa para preços-alvo ao redor de $1,000). Se a Apple não lidera, os candidatos naturais são os bancos, novamente registrando lucros recorde. Porém, se é esse o tema dominante, há muito mais espaço para recuperação na Europa, a preços mais descontados e possibilidade de aumento de lucros com juros mais baixos e outras possíveis benesses do BCE.

No médio / longo prazo, é importante notar que quase toda a recuperação dos mercados estará fundada em ideias no mínimo duvidosas: que bancos centrais podem influenciar decisivamente os níveis de atividade e preços, que ações de bancos com problemas graves de balanço podem valer alguma coisa e que bancos são os melhores instrumentos para distribuir dinheiro público para toda a economia. Isso faz com que os níveis atuais sejam extremamente frágeis, já que não parece haver melhora significativa em fundamentos (justo o contrário, em alguns casos). Porém, talvez o confronto com a realidade demore a acontecer, e também é possível que a primeira indicação (dados do Japão neste ano) apontem para a direção oposta, de sucesso da iniciativa de expansão monetária. O "sucesso" levaria, claro, a mais incentivos para repetição desse tipo de política, inflando ainda mais preços e deixando cada vez menos opções à disposição dos governos.

Em resumo, creio que tudo vai acabar em lágrimas, mas provavelmente estamos num período de euforia para alguns mercados, até que um novo esqueleto saia do armário (não são poucos enfiados nos balanços de bancos na Europa). Na dúvida, compre dólares.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Frases do Dia - Risco

And if you bundled together the middle-aged schoolteachers and strictly private dentists with the unemployed single parents and moonlighting plasterers, then sliced the bundles into high-, medium- and low-risk tranches, you could persuade the credit rating agencies like Fitch, Moody's and Standard & Poor's to award the top tranches a triple A. After all, even though the risk is pretty high that there'll be one or two defaults on those NINJA mortgages (No Income No Job No Assets - what the hell did they expect?) they're not all going to default, are they? 
He smiles. It's at times like this that you need a sense of irony. 
People are so stupid. They don't understand about risk. They let themselves be dazzled by returns of 7 per cent, 8 per cent, 9 per cent. Whoever is going to pay you that kind of money unless there's a reason? Then the Government started laying down the law, saying it wasn't their job to bail out reckless gamblers. Too right. But they bailed them out anyway, because they realised they had no choice. As Chicken so brilliantly put it, 'If I owe the bank £10,000, I've got problems. But if I owe it £10 million, the bank's got problems. Ha ha.'

Marina Lewycka, em Various Pets Alive and Dead.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Leituras da Semana

- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.

- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.

- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.

- Charles Gave prevê uma depressão para a França.

- Entrevista da Salon com Jim Chanos.

- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.

- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.

- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.

- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.

- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.

- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).

- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.

- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?

- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.

- Como investir na Coreia do Norte.

- O tratado definitivo sobre tretas na internet.

- Uma tabela periódica do jazz.

- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.

- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e  a de Waking Life para a série Great Movies.

- Literatura erótica, literalmente.

- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Leituras da Semana

Cuidado com o tomate
- Entrevista com André Esteves no Estado.

- Jim O'Neill sobre sua aposentadoria.

- O melhor livro sobre a crise recente? Resenha entusiasmada de Roger B. Myerson (Nobel 2007) de The Bankers' New Clothes.

- Olivier Blanchard e cinco lições da crise para economistas.

- Barry Eichengreen sobre Chipre e União Europeia.

- Os possíveis sucessores de Ben Bernanke.

- Curso novo da Marginal Revolution University sobre a economia do México.

- O país mais afetado pela Grande Depressão (não foram os EUA).

- Edward Chancellor sobre o Japão recente.

- Charles Gave sobre o poder dos governos e supressão de livres mercados.

- Uma cantina contra a "bolha" nos preços do tomate em São Paulo, que, claro, é culpa do governo. Como agir nesses tempos.

- John Kay relembrando Jane Jacobs.

- Salários de professores na OCDE. Alguém já cruzou isso com os resultados nos testes padronizados?

- O mapa dos EUA redesenhado pelo movimento do papel-moeda.

- Usando SimCity para melhorar o trânsito de São Paulo.

- Escolhendo destino de férias aleatoriamente (e economizando).

- Os 25 países menos visitados no mundo.

- Os livros de viagem mais influentes da história.

- Entrevista bacana com Ted Gioia, sobre escrever e jazz.

- Os 70 anos de Manfred Eicher, da icônica ECM.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma olhada nos sistemas bancários do mundo

Fiz esse gráfico há um tempinho, com dados do Banco Mundial (clique para aumentar). No eixo vertical está o crédito doméstico criado pelo sistema bancário, como percentual do PIB. No horizontal, a razão entre o capital dos bancos e seus ativos. Dividi o gráfico em quadrantes, pela mediana das métricas. A amostra inclui os países do G20 e a zona do euro (estes com marcadores em vermelho).

No segundo quadrante (verde), estão os sistemas bancários relativamente pouco alavancados e relativamente bem capitalizados - onde estão a maioria dos emergentes e apenas dois países (pequenos) da zona do euro. No primeiro e no terceiro quadrantes (vermelho claro) estão países com uma das métricas acima da mediana - notem o caso dos EUA, com um sistema bancário entre os mais capitalizados, mas muito alavancado, e a Itália, bastante próxima do quadrante "desejável". No quarto quadrante (vermelho escuro) estão a maioria dos países que usam o euro, Suíça, Reino Unido, Dinamarca e Japão - bancos muito alavancados e com pouco capital. O Japão é a aberração de costume, e vejam onde está Chipre (OK, agora não adianta mais).


Esse gráfico, creio, bate com a minha opinião de que os problemas com bancos na Europa ainda não acabaram - creio que muitos ainda precisarão reduzir drasticamente os balanços ou buscar novo capital. Também, de certa forma, confirma a ideia de que a Itália é um investimento melhor do que parece - ou ao menos melhor do que Espanha e, possivelmente, França.

Opiniões ou algo que eu esteja perdendo ou superestimando?