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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Brazil 2018 General Elections – The Parties

This is the second post in the series. The first one is Brazil 2018 Presidential Elections – Potential Candidates.

Brazil has currently 35 registered parties, constituting what is probably the most shattered political system in the world. It has currently 14 effective parties in the Lower House (see Figure 1), and its three last congress elections (2006, 2010, and 2014) produced some of the most fragmented legislatures among 1,167 elections in 137 countries (see Figure 2).

Figure 1: Effective number of parties in Brazil's Lower House (source: Jairo Nicolau)
Figure 2: Effective number of parties in the Legislative (y-axis) and in the elections (x-axis) for 1,167 elections – last seven Brazilian elections are represented as triangles. Source: Nicolau (2017)
The table below tries to summarize the main characteristics of all currently registered parties in Brazil:



Power Index

How the sausage is made (source)

The Power Index is a quick and dirty measure I developed to evaluate the relative strength of the parties. I simply added, with equal weights, the share of each party in five arbitrary dimensions: membership (as of October 2017); mayors and mayors of state capitals (as elected in 2016); state governors, federal deputies, and senators (as elected in 2014). I normalized the sums so the highest value obtained is 100 and the others are simple proportions of it. Results are below.

Brazilian parties in the political spectrum

To avoid (much) controversy, I chose to label the parties preferentially as per their own reported ideological positions in a 2016 survey made by O Globo newspaper (results in Figure 3). For the parties that didn't answer it, I picked the modal position in a survey of other studies made in 2013 by Gabriel da Silva Tarouco and Rafael Machado Madeira (Figure 4). The latest round of the Brazilian Legislative Survey, coordinated by Timothy J. Power and César Zucco and partially released a few weeks ago by BBC Brazil, compiles those perceptions from interviews with lawmakers (Figure 5). I once wrote a PhD research proposal that included using machine learning to derive the average ideological position ("learned" from a sample of canonical publications from each "side") of a given party from the transcriptions of speeches delivered by their elected representatives. That would be cool, wouldn't it?

Figure 3: O Globo 2016 survey on parties' ideologies

Figure 4: Table from Tarouco & Oliveira (2013)
Figure 5: Results from the Brazilian Legislative Survey

Where do the parties come from?

This is a nice timeline, made by G1 in 2014 (click to enlarge):



References not linked above:

Nicolau, Jairo. Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Quando o acaso atropela talento e esforço

Do alto da minha arrogância de vestibulando de engenharia (17 anos, inteligentinho, estudando 8 horas por dia em um bom cursinho), eu ficava irritado quando, antes de alguma prova, alguém me desejava "boa sorte". Ora, na minha mente adolescente, todo o meu preparo e dedicação eliminavam qualquer papel do acaso, e o resultado do vestibular estava dado dias antes de eu sentar para fazer a prova, pela soma do tempo gasto na preparação. Sorte era pra quem não tinha estudado direito, obrigado.

Hoje, 20 anos depois, considero um indicador claro de amadurecimento perceber que quem estava certo memo era Nelson Rodrigues – que, além de aconselhar escrotinhos de 17 anos a envelhecer, dizia que "sem sorte não se chupa nem um Chicabon. Você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha." Meritocracia só opera (quando opera) depois que uma série de possíveis azares, de difícil ou nenhum controle, são superados. Cada história de sucesso é um pequeno milagre probabilístico. Ou, como gosta de dizer um amigo, de forma mais eloquente e elegante, "o acaso é foda."

Em um livrinho que mistura histórias pessoais, estatística e propostas de reforma tributária, Robert H. Frank, professor de Cornell, propõe um experimento computacional relativamente simples (pode ser replicado no Excel, por exemplo): pegue 1.000 (ou 10.000, ou 100.000) pessoas, definidas por três atributos, distribuídos aleatoriamente pela amostra: habilidade, esforço e sorte. Cada atributo tem uma pontuação, de 0 a 100. Dê pesos iguais para habilidade e esforço, e atribua o restante – um peso relativamente pequeno, de 1% a 20% – à sorte. Use a composição desses atributos para definir o único vencedor de mil de torneios entre essas pessoas, e observe com qual frequência o resultado desvia da maior soma de habilidade e esforço – ou seja, quantas vezes o competidor mais habilidoso e esforçado deixa de vencer. Algum chute?


O produto de uma simulação está no gráfico acima. A direção dos resultados é intuitiva: quanto maior o peso da sorte, maior a probabilidade do vencedor não ser o que tem a melhor combinação de habilidade e esforço. E, dentro do mesmo nível de sorte, quanto maior a amostra, maior o peso da sorte – maior a probabilidade de um embate entre dois competidores com níveis equivalentes de habilidade + esforço ser decidida pela sorte. O que surpreende é quão frequente a parada é resolvida pelo acaso: em torneios com 100.000 participantes, em pelo menos 68% dos casos o vencedor não será o mais habilidoso/esforçado. Essa proporção sobe para mais de 90% quando a sorte determina apenas 10% do resultado na maior amostra testada. 

Mais recentemente, três pesquisadores italianos (dois físicos e um economista), partindo de uma ideia semelhante, propuseram um modelo ainda mais sofisticado e realista: para uma população de 1.000 pessoas dotadas de 10 unidades, distribuídas aleatoriamente (seguindo uma normal), de "talento", simularam uma carreira de 40 anos. A cada seis meses, cada pessoa é exposta, também aleatoriamente, a eventos de sorte ou azar, que, respectivamente, dobram ou reduzem pela metade, como proporção ao talento, uma medida de sucesso (também configurada inicialmente com 10 unidades). 


Passados os 40 anos, eis os resultados: primeiro, a distribuição de sucesso deixa de ser normal (concentrada em torno da média e com poucos resultados muito divergentes) e passa a seguir uma lei de Pareto, com alta desigualdade (ver a figura abaixo). Menos de metade da população termina com mais que os 10 "sucessos" iniciais, e os 20 indivíduos mais bem-sucedidos concentram 44% do sucesso total. Segundo, como nas simulações de Frank, raramente os mais talentosos terminam melhor. O acaso atropela as condições iniciais com frequência.

Pluchino, Biondo e Rapisarda ainda fazem outros simulações para avaliar a eficiência de diversas estratégias de financiamento e a influência do ambiente em termos de oportunidades para os indivíduos, também com resultados interessantes, mas não quero me alongar (mais) aqui. Minha conclusão é que, sobretudo em ambientes complexos e altamente competitivos, onde muitas pessoas qualificadas disputam algo, devemos aplicar uma alta dose de compaixão. A diferença entre quem é lembrado e quem é esquecido e deixado para trás pode ser nada mais que um atraso por conta do trânsito, uma dor de estômago, uma briga com o marido, uma chuva que fez um avião não decolar na hora esperada, uma folha de respostas de vestibular perdida num assalto.

domingo, 12 de novembro de 2017

Custo de vida e renda no Brasil: ganhe em Brasília, gaste no Piauí

Semana passada o FMI publicou esse paper do Carlos Góes e Izabela Karpowicz que, entre outras coisas, estimou diferenças de poder de compra entre os estados brasileiros (vale ler o trabalho inteiro, que faz ótimo uso dos microdados da PNAD). Com os dados, o Thomas Conti fez o mapa abaixo, que ganhou certa fama nas redes:

Pegando carona na fama do Thomas, cruzei os dados de poder de compra com os de PIB per capita para tentar medir a "affordability", nada mais do que a relação entre renda e custo de vida. Deu nesses gráficos (clique para aumentar):



No primeiro gráfico, as médias para cada variável define quatro quadrantes: os estados mais caros, com renda abaixo da média (pobre Amapá), estados caros, mas relativamente ricos (SP, RJ e DF, sobretudo), estados relativamente ricos e baratos (por esse critério, o melhor lugar do Brasil para se morar é o Espírito Santo) e os estados relativamente pobres e baratos. Neste grupo, há grande variação de custo de vida -- para uma renda parecida, o Piauí é muito mais barato que Rondônia, e Pernambuco é bem mais caro que os vizinhos Alagoas e Paraíba. Ah, e na média o efeito Balassa-Samuelson funciona para os dados (não esqueça de cortar o cabelo quando for ao Piauí, diria o mestre Jeffrey Frankel).

No segundo, tentei montar um índice de "affordability", dividindo o PIB estadual per capita pelo índice de custo de vida e indexando a 100, a média nacional. Aqui, o PIB per capita domina o efeito do custo de vida, e, no geral, os estados mais ricos (e caros) parecem mais atrativos.

Em resumo: trabalhe em Brasília e gaste no Piauí -- ou mude-se para o Espírito Santo.

P.S. Enquanto preparava esse post, o Thomas, com os mesmos dados, fez esse gráfico, muito mais sofisticado:

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lista de preocupações econômicas, 1798-2016

Deste discurso de Deirdre McCloskey, para quem a economia deve voltar a ser a "ciência otimista da riqueza" ao invés da "ciência pessimista da escassez" – e para quem as imperfeições da economia de mercado não impediram o mundo de enriquecer boa parte de uma população sete vezes maior do que em 1800 (e vão continuar não impedindo):

1. Malthus worried that workers would proliferate and
2. Ricardo worried that the owners of land would engorge the national product.
3. Marx worried, or celebrated, depending on how one views historical
materialism, that owners of capital would at least make a brave attempt to
engorge it.
4. Mill worried, or celebrated, depending on how one views the sick hurry of
modern life, that the stationary state was around the corner. Then the
economists, many on the left but some also on the right, in quick succession
1848 to the present—at the same time that trade-tested betterment was
driving real wages up and up and up by a factor of anywhere from 30 to 100,
3,000 to 10,000 percent—commenced worrying about, to name a few of the
grounds for imperfections and pessimisms they discerned concerning
”capitalism”:
5. greed (offensive to Christians)
6. alienation (as in the Young Marx)
7. the uneducated taste of the workers in consumption
8. the drinking habits of the workers (thus Knut Wicksell; Irving Fisher)
9. infant industries (List in Germany, Carey in the United States)
10. national histories of economies, as against “English” economics (the German
Historical School)
11. lack of bargaining strength by the workers
12. racial impurity
13. women working
14. immigration of lesser breeds
15. the race to the bottom in wages and the eugenic solution (advocated by most
of the American economics profession c. 1900)
16. neoclassical theory being insufficiently evolutionary (Veblen; Alchian)
17. monopoly and the trusts (see Hovenkamp’s article on “the first law and
economics movement”)
18. imperialism, the last stage of capitalism (Lenin; Hobson)
19. imperialism as robbery
20. adulterated food if no regulation
21. Veblen effects: demand curve slopes up
22. unemployment (a new word with Beveridge’s book of 1909)
23. lack of coordination (rationalization in the 1920s)
24. the government is wise and good, unlike self-interested markets
25. business cycles (eventually Schumpeter; Hayek; Keynes)
26. underinvestment in increasing-returns industries (as Pigou argued)
27. externalities
28. under-consumption (dating back to Malthus and the general glut; then
Keynes; now the neo-Keynesians)
29. monopolistic competition
30. separation of ownership from control (Berle and Means)
31. lack of planning (vs. Mises)
32. the economy is embedded in society (Karl Polanyi)
33. price-fixing markets are only recent, and optional (Karl Polanyi; vs. Michael
Polanyi)
34. post-War stagnationism (Keynes, Hansen)
35. investment spillovers
36. unbalanced growth (Hirschman; French indicative planning)
37. capital insufficiency (Harrod/Domar/Solow models; William Easterly on
“capital fundamentalism”)
38. businesspeople do not price by marginal cost or marginal revenue, but by
average plus markups
39. predatory pricing leads to monopoly
40. few competitors in an “industry” leads away from price = marginal cost
41. absence of entrepreneurs in certain cultures
42. dual labor markets (W. Arthur Lewis)
43. cost-push inflation (Otto Eckstein)
44. capital-market imperfections
45. peasant irrationality (vs. Theodore Schultz)
46. cultural irrationality
47. economic behavior has motives beyond self-interest
48. low-level traps, cycle of poverty (W. Arthur Lewis)
49. prisoner’s dilemma (and much later Elinor Ostrom’s reply)
50. failure to define property rights (Alchian, Demsetz, Coase: one of a few, like
those immediately following here, from the political right)
51. overfishing (H. Scott Gordon [195X] and Anthony Scott [1955])
52. tragedy of the commons (Garrett Hardin)
53. over-population (Hardin’s motive)
54. transaction costs (Coase)
55. public goods cannot be supplied privately (Samuelson; vs. Coase, Demsetz)
56. public choice (Buchanan, Tullock)
57. regulatory capture (ICC case Gabriel Kolko; Stigler)
58. free riding (Mancur Olson)
59. missing markets (George Akerlof; Joseph Stiglitz)
60. the Cambridge capital controversy and the undefinability of capital (Piero
Sraffa; Joan Robinson; Geoffrey Harcourt; see above, Ricardo)
61. informational asymmetry (Akerlof)
62. unions as good monopolies (H. Gregg Lewis tested it 1955-1980)
63. third-world exploitation (see above, imperialism)
64. advertising (Galbraith)
65. public underinvestment (Galbraith)
66. fine tuning of the economy can work
67. large scale econometric models are the way forward
68. the invisible hand is mere magic unless proven mathematically
69. the conditions sufficient in logic for invisible-hand results are unreasonable
(Hahn; Arrow; Debreu)
70. false trades out of equilibrium make it impossible to conclude that supply =
demand is optimal
71. any imperfection throws economic analysis into a hopeless world of secondbest
72. all policy arguments, such as the effect of minimum wages, must be
expressed in general equilibrium, or else they are inconclusive
73. most economic propositions, such as downward sloping demand curves, are
only provable econometrically
74. most econometric results have serious flaws
75. history is irrelevant: what matters is the future
76. history is decisive: what matters is the past
77. middle-income trap
78. path dependency (Paul David)
79. the economy is a complex system, with chaos and catastrophe
80. worker cooperatives are always better than corporations, but are lamentably
rare
81. lack of international competitiveness
82. consumerism (see above, bad taste of workers)
83. consumption externalities (Robert Frank)
84. unemployment and inefficiency results from menu costs in the product
market (neo-Keynesian neoclassicism)
85. knowledge has zero opportunity cost, but is expensive to produce (Paul
Romer)
86. irrationality (behavioral economics)
87. irrational entrepreneurs (Schumpeter; Keynes; Akerlof and Schiller)
88. hyperbolic discounting
89. too big to fail
90. environmental degradation
91. underpaying of care workers (Nancy Folbre)
92. GDP is a poor indicator of anything important
93. prices are influenced by an unjust distribution of income, and therefore are
irrelevant to policy for a just society
94. profit is against people; profit vs. social well-being
95. overpayment of CEOs
96. artificially high wages cause labor-saving innovation (Kaldor; Habakkuk;
Allen; Robert Reich)
97. the government has innovated most (Mazzucatto)
98. any imperfection—orphan drugs, for example—shows that capitalism is bad
on balance, even if the imperfection is caused by government
99. neo-liberalism has impoverished people worldwide
100. neo-stagnationism (Tyler Cowen; Robert Gordon 2016 )
101. rising inequality in future (Thomas Piketty)

A lista também deve servir como um superteste de História do Pensamento Econômico. Um dia consigo entender tudo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A crise de representação no Brasil

O blog anda parado porque tenho gastado todo o meu tempo livre tentando entender, à la Santiago Zavala, em que momento o Brasil se fodeu. (Mentira, ando mesmo é com bloqueio de escritor, ou preguiça, a depender da generosidade do leitor). De qualquer forma, com relação à pergunta, li hoje três coisas interessantes:

—Frances Hagopian coloca como origem da atual crise de representação a divergência entre a expansão de accountability horizontal e a falha dos partidos em capturar a demanda emergente por representação política:

"Why are voters ready to see the ouster of a president
to whom they gave a second term just two years ago? Why, given
Brazil’s great strides in building a more inclusive democracy buttressed
by stronger institutions of horizontal accountability—which have been
key to exposing the Petrobras scandal—are we witnessing such political
turmoil? What underlies the current crisis?
 
The answer is that stronger horizontal accountability institutions and
an expanded citizenship have paradoxically eroded the bonds of vertical
accountability. Brazil’s recent achievements in empowering accountability
institutions and enforcement agencies and broadening sociopolitical inclusion
have generated demands for political representation that the existing
party system has not been able to meet. The work of judicial institutions
now throws corruption (hardly a new phenomenon) into starker relief. At
the same time, the stabilization of the economy and the expansion of access
to social services and income support have made citizens less reliant
on patronage and more demanding of local and national governments."

—Mainwaring, Power e Bizzarro apontam que o relativo sucesso econômico do Brasil até poucos anos atrás ajudou a institucionalizar o sistema de partidos, algo que está em risco com a crise corrente e os dois principais partidos programáticos do país catando os cacos do que já foram por aí. O reverso da institucionalização é o personalismo da política no Peru ou o caos da Venezuela.

Alguma esperança? De novo, Hagopian:

"The protests of recent years in Brazil are a sobering reminder that
democracies need representative institutions to reach citizens, to express
their aspirations, and to translate their preferences into effective governing
solutions. But the protests also offer a ray of hope: Even in hard
times, and with popular anger at the political class threatening to boil
over, Brazilians find their democracy worth taking part in, and respect
the institutions that safeguard it."

E, no mesmo tom, a (grande) coluna desta semana do Michael Reid na The Economist:

 "... in Brazil, with its strong parliamentary tradition, no president can govern against Congress. When Ms Rousseff brandishes her 54m votes in the presidential election of 2014 as a defence, she forgets that they were for Mr Temer too, and that the senators have an equally valid democratic mandate. Brazil has thus offered a tutorial in constitutional theory to the likes of Nicolás Maduro, Venezuela’s dictatorial president. The legacy of a divisive impeachment is not all bad."

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Notas sobre o petróleo barato

Uma conversa pelo Twitter me inspirou a escrever isso, que deve muito também ao ótimo curso que fiz com o Francisco Monaldi.

—Muito se confundem dois conceitos essenciais para a exploração: breakeven e custo marginal.

  • Breakeven é o preço necessário, por barril, para que um determinado projeto de exploração tenha lucro. A definição de lucro aqui não é uniforme, mas, geralmente, corresponde a uma taxa de retorno acima do custo de capital para o projeto. Como esse custo varia muito em função do risco-país e do tipo de exploração, as taxas de retorno correspondentes aos preços de breakeven também variam: o retorno exigido para furar um poço raso na Arábia Saudita é muito menor, por exemplo, do que o de um projeto de águas ultraprofundas na costa de Angola, e este, portanto, requer um preço do petróleo maior como breakeven. 
  • Custo marginal é, simplesmente, quanto custa para se extrair um barril de petróleo adicional em um poço em funcionamento. 
O preço relevante para determinar se um projeto continuará ou não a ser explorado é o custo marginal, já que o investimento inicial (sunk cost) é geralmente, intransferível e não pode ser recuperado. Em outras palavras, um projeto seguirá produzindo petróleo mesmo se tiver que vender o óleo a um preço muito abaixo do breakeven (tendo prejuízo no projeto), desde que esse preço seja maior do que o custo marginal. É, portanto, errado dizer que o petróleo a tal preço "inviabiliza" a exploração no pré-sal: alguns investimentos já foram feitos ou estão contratados, e os projetos seguirão mesmo que, ao longo do tempo, não se provem lucrativos. Não conheço bem os projetos da Petrobras a ponto de fazer uma análise mais profunda, mas saber o que vai acontecer com o pré-sal é mais complicado do que bater o olho na cotação do petróleo e cravar uma resposta. 

O gráfico abaixo (daqui, clique para aumentar) mostra o breakeven dos principais projetos de petróleo no mundo. Para o poço de Libra, por exemplo, o preço é algo como US$65. Se esse poço vai ou não ser explorado caso o petróleo fique ao redor de US$40, como disse, depende da estratégia da Petrobras, incluindo o quanto a empresa está disposta a perder dinheiro em nome do "projeto nacional" (mais uma variável difícil de se estimar).



—O extremo do gráfico é o campo de Kashagan, no Cazaquistão. O projeto já consumiu US$48 bilhões e está 12 anos atrasado—e depende de uma distante volta do petróleo a US$100/barril para dar lucro.

—A resposta de um produtor a preços mais baixos, em muitos casos, pode ser aumentar a produção (desde que, como vimos, o preço ainda seja mais alto que o custo marginal). É o que tem feito a Arábia Saudita, o produtor mais eficiente e com folgas mais evidentes na produção; e é o que provavelmente está tentando fazer a Venezuela, no desespero do regime chavista para gerar receita e se manter no poder (o lado positivo disso pode ser uma reforma na PDVSA, a empresa estatal de óleo, progressivamente sucateada nos últimos anos).

—A inviabilidade mais evidente está nos projetos de shale gas nos Estados Unidos, onde os breakevens e custos marginais mais se aproximam. Esses projetos, diferentemente dos tradicionais, maturam em pouco tempo e têm o pico de produção no início da exploração. O avanço na tecnologia pode fazer com que, mesmo a preços menores, a exploração seja viável, mas, no curto prazo, o boom nas regiões produtoras deve arrefecer.

—A tecnologia de produção do shale gas é uma Espada de Dâmocles para os produtores de petróleo: se o preço do barril subir, produção adicional torna-se viável e pode ser acionada de forma relativamente rápida, assim como também passa a ser viável tentar recuperar produção de poços que eram dados como esgotados—em ambos os casos, a oferta aumenta e os preços são pressionados para baixo. Em algum lugar, Schumpeter tira sarro de Malthus.

—Muito do ponto anterior está no trabalho algo profético (de 2012) de Leonardo Maugeri. Maugeri acredita que, até 2020, o principal fator de aumento na produção global de petróleo é o renascimento dos campos do Iraque, algo que pode já estar acontecendo:
Crude Oil Production, Iraq, Monthly

—A queda nos preços deveria ser uma excelente oportunidade para o mundo começar a se livrar dos US$5,3 trilhões em subsídios oferecidos aos preços de combustível. A ver quem vai dar esse passo.

—Por fim, sempre bom lembrar:
“The Stone Age did not end for lack of stone, and the Oil Age will end long before the world runs out of oil.”

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Leituras atrasadas

—O mercado frequentemente prevê altas de juros nos EUA cedo demais.

—Porque não vai haver quebradeira nos mercados emergentes.

—Por mais igualdade de oportunidades nos EUA. Deve valer mil vezes mais para o Brasil.

—Dois ótimos projetos do Laboratório Analytics da Universidade Federal de Campina Grande: "House of Cunha", analisando as votações da legislatura atual da Câmara e "Quem me representa?", que ordena os deputados de acordo com as preferências de quem acessa.

—Perfil de Daniel Kahneman no Guardian.

—Oliver Blanchard, o ex-economista-chefe do FMI, tem um homônimo que escreveu este belo artigo sobre sharing economy.

—O departamento de economia mais influente dos EUA: MIT, Stanford ou Berkeley? De qualquer jeito, Harvard lidera com folga o ranking de citações.

—Slides de Susan Athey e Guido Imbens sobre machine learning. Uma bela visualização sobre o básico do tema.

—Mais um teste de orientação política, este nos termos usados nos EUA.

—A filosofia moral da prostituição.

—O milagre científico do sorvete (amém).

—Uma hierarquia da discordância.

—João Gilberto cantando em comercial da Brahma, 1991.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O que aprendi no mestrado

Estou há uns 3 meses enrolando pra escrever este post, que deve servir tanto para compartilhar um pouco da minha experiência com os nobres leitores quanto como um longo epitáfio para esses dois últimos anos. Agora que (temporariamente) acabaram minhas desculpas para falta de tempo livre, aqui estamos. Parte da enrolação também é devida à minha completa inabilidade de conseguir olhar para o passado em transições—vamos ver como me saio aqui.

Um bom resumo de tudo é este cartum do SMBC:

O mestrado me empurrou ladeira abaixo do "Mount Stupid" em muita coisa que eu achava que "sabia" (o sumiço do blog é, em parte, consequência disso). É muito difícil encontrar algo pra falar sobre um assunto que: i.você domina bem a ponto de saber que o básico já foi dito em outro lugar, ii. você não tem conhecimento suficiente para dizer algo que passe pelo seu novo filtro de autocrítica e, iii. você sabe de um monte de gente que escreveria melhor e com mais propriedade. Outra dificuldade associada é descer do nível de rigor e abstração que a academia impõe, que em grande medida não serve para o tal "mundo real" (i.e., a maioria dos empregos), nem para tocar um blog de público mais amplo. Acho que com o tempo vou achando um novo equilíbrio e me soltando, mas quando eu desandar a falar muito sobre qualquer coisa, tenham em mente que é mais provável que eu esteja no topo do tal Mount Stupid. 

Outras observações mais leves e, talvez, mais úteis (vou completando ao longo do tempo):

—Um outro lado do que disse acima talvez seja a tal "humildade epistêmica": saber mais sobre o tamanho do corpo de conhecimento sobre determinado assunto e a quantidade de incertezas que o cercam é o equivalente mental a levar uma surra daquele baixinho de quem você subestimou a força e chamou pra briga.

—Nessa linha, claro que a minha antibiblioteca aumentou muito por lá.

—A academia americana é muito mais generosa do que eu imaginava, pelo menos para quem consegue passar do portão. A grande maioria dos professores está disposta a gastar muito tempo com alunos, seja abrindo espaço na agenda para reuniões, respondendo e-mails ou compartilhando papers, bases de dados, códigos, etc. Um paraíso comparado ao clima de torre de marfim que predomina em alguns departamentos aqui no Brasil. Claro que alguns egos são de fato enormes e subindo na cadeia alimentar o clima talvez não seja assim tão amistoso, mas, no geral, até os professores mais famosos são acessíveis e dispostos a colaborar. No fim das contas, acho que tudo aquilo depende de uma troca incessante de ideias, e quem se isola tende a sair perdendo.

—Não dá para, hoje em dia, ser cientista social empiricista e não saber lidar com volumes colossais de dados, tanto para extrair informação e testar hipóteses quanto para gerar visualizações convincentes. Na maioria dos meus cursos usamos Stata, que é bem amigável e relativamente poderoso, mas não chega perto da fronteira. Jovens, aproveitem os neurônios frescos para aprender logo R ou Python. E a fronteira de verdade, mesmo em ciência política, está em machine learning.

—Definições são extremamente importantes, sobretudo se você não vai usar matemática para expressar seu raciocínio. O que pode parecer neutro e preciso muitas vezes carrega juízos de valor, ideologias e um monte de premissas implícitas. Sempre é bom procurar saber o que o autor quer dizer com termos que são contestáveis—muitas vezes percebe-se que ele próprio não sabe. Nessa linha, o Politics and the English Language, do Orwell, merece ser relido regularmente.

—Os trade-offs saber fazer conta/ter bom raciocínio lógico e analítico x escrever bem/ser criativo/ser articulado não existem (isso eu já deveria saber). A separação dessas habilidades é coisa da preguiça intelectual daqui, ou: dá para negligenciar totalmente um lado se você for um artista genial ou um teórico brilhante, mas para nós, mortais, é muito melhor quando os dois lados se completam.

—Muitas conclusões "definitivas" e pseudocientíficas são tiradas a partir de amostras muito pequenas. Identificação causal em ciências sociais é um pesadelo.

—A boa política pública, aprendemos, deve ser tecnicamente correta, administrativamente factível e politicamente apoiável (esta é a santíssima trindade da Kennedy School). Calculem aí o quanto é difícil fazer isso em contextos de falta de mão de obra qualificada, interesses de pequenos grupos infiltrados há séculos na política e falta de capacidade de implementação do estado. Vivemos condenados a um mundo de "second" (ou "third", "fourth"...) bests.

—Microeconomia é muito mais legal (e difícil) do que eu sempre achei—cortesia tanto da minha ignorância quanto de uma horrenda geração de professores da FEA-USP.

—E, já que é pra falar mal da alma mater: é incrível notar como a USP transforma(va?) uma geração de bons estudantes (privilegiados, claro, mas tantos outros privilegiados não passavam no vestibular) em vagabundos desinteressados, e como uma universidade excelente faz algo totalmente diferente. A maioria dos meus colegas da Poli e da FEA não é menos "inteligente" que meus colegas de Harvard, mas a maioria teve trajetórias acadêmicas medíocres e enormes potenciais frustrados ou adiados, em grande medida, creio, por um sistema de incentivos que não leva o aluno a querer aprender e perseguir seus interesses. Também é chocante notar que é muito mais fácil encontrar alunos negros em Harvard do que em algumas das unidades da USP.

Tenho um monte de outras observações de caipira brasileiro deslumbrado com os EUA, mas vou poupá-los delas. Em um post futuro, falarei mais sobre o programa de mestrado que cursei.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Mestre

Acabaram minhas férias na Disneylândia intelectual e depois de amanhã estou de mudança, de volta para o Brasil. Depois escrevo algo sentimentaloide e pseudo-profundo sobre a experiência; por ora fiquem com essa brilhante citação (infelizmente não sei quem é o autor para poder dar o devido crédito).



sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não ler quando...

...você está há dois anos estudando fora do Brasil e prestes a voltar para procurar emprego (sim, este post é um mimimi de um ultraprivilegiado):

—Oreopoulos, von Wachter & Heisz, que mostram que, numa base de dados do Canadá, pessoas que se formaram (na graduação, OK) e procuraram trabalho durante recessões sofrem efeitos negativos em seus salários por dez anos, por terem que aceitar inicialmente trabalhar para firmas que pagam relativamente mal;

—Goldin & Katz, numa base de dados de ex-alunos de Harvard, estimaram que um hiato de 18 meses em uma carreira de 15 anos (após terminar a graduação) implica em uma queda de 41% na renda dos que têm um MBA.

Pelo lado positivo, no Brasil não vou ter essa maldita alergia a pólen que está me derrubando há uma semana.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Frases do Dia—o Estado de Direito e o Capitalismo Americano

“The pioneers of American capitalism were not graduated from Harvard’s School of Business Administration. The early settlers and founding fathers, as well as those who “won the West” and built up cattle, mining and other fortunes, often did so by shady speculations and a not inconsiderable amount of violence. They ignored, circumvented, or stretched the law when it stood in the way of America’s destiny and their own—or were themselves the law when it served their purposes. This has not prevented them and their descendants from feeling proper moral outrage when, under the changed circumstances of the crowded urban environments, latecomers pursued equally ruthless tactics."

Do sociólogo Daniel Bell, citado nessa matéria interessante do Malcolm Gladwell.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Líderes políticos e desempenho econômico

Em tempos de eleição, quando políticos tendem a atribuir a si próprios as conquistas e ao azar ou a "heranças malditas" os fracassos, é interessante ver o que a academia econômica tem feito para definir sucesso econômico e a quem ele cabe. Alguns trabalhos recentes que me parecem pertinentes:

—Jones & Olken, de 2005, já é meio clássico: eles usaram episódios de transição política que envolve a morte de líderes como um experimento natural e avaliaram o que ocorre depois com o crescimento do PIB. Encontraram um efeito bastante forte nas autocracias (o exemplo mais evidente é a China depois da morte de Mao), mas não em democracias, o que sugere que nestas outros fatores são mais importantes para explicar variações no crescimento do que a influência de um presidente;

—Easterly & Pennings, de 2014, tenta responder a mesma pergunta de Jones & Olken (líderes importam?) usando uma metodologia diferente, que tenta decompor taxas de crescimento e encontrar, isolando fatores específicos ao país e choques aleatórios, a fração que cabe exclusivamente ao líder político. Os resultados sugerem que líderes explicam muito pouco da variação nas taxas de crescimento. Nas palavras deles: "our results are consistent with plausible views of how even seemingly unconstrained autocratic leaders  might find it difficult to exert control over the growth rate of the economy... We find in this paper little reason to believe in “great men” –either benevolent or malevolent – driving the growth process."

—Blinder & Watson, de 2013, compara o crescimento econômico nos EUA com presidentes Democratas e Republicanos após a II Guerra: durantes mandatos Democratas, o crescimento anual do PIB foi, em média, 1,8% maior do que em governos Republicanos. A conclusão, porém, é que tal diferença não é produto de políticas diferentes, mas, mais provavelmente, do acaso: Democratas têm mais sorte com os preços de petróleo, choques de produtividade e se beneficiam de algo de profecia autorrealizável alimentada pelo histórico mais favorável.

—Por fim, mas não menos importante: Carrasco, de Mello & Duarte, de 2014, tentam comparar o desempenho de vários indicadores de desenvolvimento econômico no Brasil de 2003 a 2012 com o que poderia ter sido o Brasil com outro governo, este simulado a partir da composição de um grupo de países com características passadas parecidas. A conclusão é que o desempenho brasileiro, medido pela maioria dos indicadores (crescimento, investimento, inflação, redução de pobreza, etc), foi aquém do grupo de comparação—a importante exceção é o mercado de trabalho.

 
L'État, c'est moi?

Se tomarmos esses trabalhos em conjunto, um possível resumo é: (i) em democracias, líderes têm muito menos influência sobre o desempenho econômico do que se costuma supor; (ii) não houve "milagre" no Brasil dos últimos anos, mas sim uma grande oportunidade desperdiçada, com ventos externos muito favoráveis; (i) + (ii) bravatas e acusações de "herança maldita" de um governo anterior específico provavelmente são retórica oca, ao menos no que diz respeito a crescimento, e (iii) copiando o amigo Batata, provavelmente inspirado no Kahneman, o acaso é foda (e também a reversão à média).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Salários altos, Revolução Industrial e o Brasil de hoje

"As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender" (Paulinho da Viola em Coisas do mundo, minha nêga)


Nessa pausa da Copa, aproveite o tempo para ler este paper de Peter Temin (professor emérito do MIT), uma revisão, em linguagem simples e acessível, da evolução da "Nova História Econômica" (que também atende pelo nome de cliometria.) A cliometria é produto tanto da quantificação da economia, cujo marco inicial foi a publicação do The Foundations of Economic Analysis, de Paul Samuelson, em 1947 (Samuelson tinha 32 anos, mortais—e é uma das celebridades que compartilham o dia de aniversário com este que vos escreve, como Raí e os gêmeos De Boer), quanto da evolução das técnicas econométricas, da disponibilidade de dados e do poder dos computadores para processá-los.

Temin destaca a pesquisa recente de Robert C. Allen, Hans-Joachim Voth e Nico Voigtländer (os dois últimos são coautores), que tenta responder a pergunta mais clássica de história econômica: por que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra no século XVIII? A narrativa que emerge desses trabalhos é fascinante. Vou tentar resumir em um parágrafo (já me perdoem pela heresia):

A Peste Negra, no século XIV, foi a mãe de todos os choques exógenos: surgiu inesperadamente e, em pouco tempo, reduziu drasticamente a oferta de mão de obra na Europa. Como consequências, para cultivar plantações cujo tamanho não mudou: i) salários subiram, ii) aumentaram os incentivos para adoção de novas tecnologias, iii) mulheres passaram a fazer parte da força de trabalho (tanto pela demanda por trabalhadores quanto pela adoção de tecnologias que diminuíram a necessidade de força física para o trabalho agrícola.) Com isso, mulheres passaram a se casar mais tarde e a ter menos filhos. A população passou a crescer mais lentamente, o que manteve a oferta de mão de obra restrita e os salários mais altos. Começava a se romper a "armadilha malthusiana": as famílias, menores, passaram a dispor de mais renda e puderam incrementar a alimentação (comer mais proteína animal), que, por sua vez, seguiu alterando o padrão da agricultura. A Revolução Industrial surge como uma tentativa de produtores reduzirem custos (já que empregar gente ficou permanentemente mais caro), alimentada pela criatividade de pequenos empreendedores que passaram a ter renda acima do nível de subsistência e tempo livre para experimentar (falta a peça do quebra-cabeça que explica o porquê da Inglaterra e não outro país europeu: energia barata, segundo Allen.)

Temin liga a história do desenvolvimento da Europa (depois replicada para outros continentes) aos problemas atuais de economia do desenvolvimento. A diferença entre a Europa pobre, pré-Revolução Industrial e a Europa rica que veio depois é similar à diferença corrente entre países pobres e países ricos: estes pagam salários maiores e usam tecnologia mais avançada. Ambos os fatores são, claro, interligados: salários mais altos justificam o investimento em tecnologia, e o aumento de produtividade sustenta níveis de renda maiores. A dificuldade está na transição: como fazê-la em (muito) menos que 400 anos e sem depender de um enorme choque exógeno. Se buscarmos respostas na história de sucesso da Europa, um bom começo passa por inclusão de mais mulheres na força de trabalho e redução da taxa de fertilidade.

Corta para o Brasil de hoje: um dos fatores mais importantes e menos alardeados da história econômica do país desde a redemocratização é uma profunda transição demográfica, que segue surpreendendo nós, pobres economistas. A taxa de fertilidade caiu muito rápido: lembro de um texto de Roberto Campos, acho que do início dos anos 1980 (estou sem o livro aqui, é um dos primeiros do Ensaios Imprudentes, salvo engano) que a listava como "o" principal problema do país. Tal problema desapareceu em pouco mais de uma geração: em 1980 esperava-se que cada mulher tivesse 4 filhos durante sua vida; hoje, menos de 2. Em mais uma geração, a população total do país deve começar a declinar, a partir de um pico de 220 milhões. A surpresa mais recente, e que ajuda a explicar porque o desemprego segue baixo mesmo após anos de atividade econômica fraca e salários subindo, é o baixo crescimento da população economicamente ativa (está bem explicado neste artigo do Marcelo Muinhos). Não só a população total cresce pouco como também, aparentemente, demora-se mais para entrar no mercado de trabalho, já que o aumento da renda das famílias permite financiar mais anos de educação e diminui a pressão para que jovens comecem a trabalhar o quanto antes.

A tragédia do Brasil recente é a produtividade, que é frequentemente ligada à adoção de tecnologia. Além dos dados, anedotas não faltam: os ônibus nas grandes cidades ainda empregam cobradores, o enorme contingente de empregadas domésticas, manobristas, garçons, frentistas, recepcionistas, porteiros... Claro que não se trata de simplesmente extinguir esse tipo de trabalho, mas criar condições para que os que se empregam nele consigam trabalhos melhores e sejam substituídos por tecnologia e processos mais avançados (exemplo: grandes prefeituras poderiam aproveitar o mercado de trabalho aquecido e criar projetos para acabar com cobradores de ônibus em poucos anos, oferecendo um pacote de alguns meses de salário e cursos de qualificação. Há, claro, uma briga necesária a ser comprada com sindicatos e afins.) É preciso criar um círculo virtuoso onde empregadores concluam que só conseguirão ser competitivos se diminuírem o uso de mão de obra, invistam em tecnologia e a mão de obra dispensada, suficientemente qualificada, consiga outros empregos, criados por novos investimentos visando um mercado consumidor maior e com mais poder aquisitivo. Mais fácil falar do que fazer, evidentemente, mas boa parte das condições de uma "revolução industrial contemporânea" estão dadas pela transição demográfica descrita acima. Essas condições precisam ser aproveitadas antes que prevaleça a história do "país que envelheceu antes de ficar rico."

A grande conquista dos governos no PT (muito ajudados por um grande choque de termos de troca entre 2002 e 2012, é sempre bom reconhecer), e que, na minha visão, é totalmente coerente com a história do partido, foi o aumento consistente dos salários reais. Como isso ocorreu com produtividade em queda, dependeu de uma grande redistribuição que está culminando, acredito, em taxas de lucro das empresas que não justificam novos investimentos (além da inflação persistentemente alta.) Se isso está correto, a política econômica dos próximos anos deve ser fortemente voltada para o lado da oferta, assumindo que, corretamente, as conquistas recentes em salários não podem retroceder e serão naturalmente defendidas pelos enormes grupos de interesse que se criaram em torno delas (a obviedade aparente do suicídio eleitoral que seria defender a desindexação do salário mínimo é um bom indicador da força dessa defesa.) Acho que, dentro da conjuntura, há pouco espaço para mais "trabalhismo" e muito para um "desenvolvimentismo" que tem pouco a ver com o significado que tem se dado à palavra. Criá-lo vai requerer muita criatividade e esforço de economistas e políticos que, por enquanto, ainda precisam gastar tempo e energia discutindo e pensando em questões como controle da inflação e disciplina fiscal.


Outros links:
—O paper de Voth e Voigtländer;
—Um resumo da pesquisa de Robert C. Allen;
—Se não conseguirem acessar o Temin no NBER, uma alternativa.

sábado, 19 de abril de 2014

Thomas Piketty e o espírito do tempo

Piketty ontem na Harvard Kennedy School (foto roubada da Masoomeh Khandan)

Desperto o blog da sonolência dos últimos meses para falar sobre o que todo mundo tem falado (o mundo como esse estranho lugar onde as pessoas debatem conceitos abstratos ligados a dinheiro e produção): o novo livro de Thomas Piketty, "Capital in the 21st Century", que deve roubar  de "Why Nations Fail" e "This Time Is Different" o título de obra de economia menos lida (qual o público para um trabalho acadêmico de mais de 600 páginas, traduzido do Francês, por mais que escrito de forma acessível e bem editado? Admitindo que fica bonito na estante, "CAPITAL" em letronas vermelhas na lombada) e mais comentada deste século.

Como parte do tour de lançamento da obra nos EUA, que o New York Times noticiou como "Economist Receives Rock Star Treatment", ontem o autor parou por aqui, mais especificamente do lado da sala onde eu costumo ter a maioria das minhas aulas. Cheguei meia hora antes, com a intenção de olhar o movimento e comer algo antes de sentar; acabei, alertado por um amigo, pegando um dos últimos lugares disponíveis. A sala foi enchendo, enchendo, enchendo, enchendo, e, quando Piketty chegou, poucos minutos atrasado, havia gente em pé, a um metro da porta, esticando o pescoço para tentar ver e ouvir qualquer coisa. De fato, tratamento de rock star.

Piketty foi apresentado por Larry Summers como o autor do livro de economia que "causou mais sensação do que qualquer outro em duas décadas, abraçando uma vasta rede de informação e experiência." A tal rede de informação foi construída em um projeto de 20 anos de pesquisa que juntou dados de declarações de renda de mais de 20 países, com séries começando, em alguns casos, no fim do século XVIII. Depois de dividir o mérito dessa base de dados com um grande time de pesquisadores, Piketty logo disse que o objetivo principal do livro é difundir o conhecimento sobre a evolução da riqueza no mundo (zhe knowledge ov evolution ov wealth) e que as recomendações de política econômica são secundárias (mais sobre isso adiante). Sua intenção era atualizar o famoso trabalho de Simon Kuznets, um dos pais do uso de métodos empíricos na economia, agora com mais dados de mais países e poder de computação infinitamente maior.

Ele divide os principais resultados da pesquisa em três pontos:

1. O retorno de uma sociedade patrimonial e baseada em riqueza—a desigualdade de renda e riqueza nos EUA e Europa parece ter voltado aos patamares do início do século XX, no que Paul Krugman, em sua resenha de "Capital in the 21st Century" para a New York Review of Books chamou de "uma nova era dourada." Isso já havia sido adiantado no ano passado, quando Emmanuel Saez (coautor frequente de Piketty) publicou uma atualização para o clássico "Income Inequality in the United States, 1913—1988", de 2003.

2. O futuro da concentração de riqueza—aqui entra a inequação que tem sido repetida como se fosse a nova fórmula da teoria da relatividade. Se r > g (o retorno para o capital for maior do que a taxa de crescimento da economia), como parece ocorrer na maior parte do tempo, a riqueza tende a se concentrar. Entre 1987 e 2013, pelas estimativas de Piketty, a riqueza dos bilionários cresceu a 6,8% anuais, enquanto a mesma taxa para a riqueza média foi de 2,1%.

3. O tratamento da desigualdade nos Estados Unidos—ele comenta que, em 1919, Irving Fisher era presidente da Associação Americana de Economia e demonstrava preocupação com a crescente desigualdade, qualificando-a como uma "ameaça para a democracia americana." Hoje, qualquer tentativa de aumento em impostos progressivos é rotulada como "anti-liberdade" no melhor dos casos e "fascista" no pior. Piketty mostra o gráfico com evolução da alíquota de imposto de renda para a faixa mais altas, que chegou a 90% nos EUA do pós-II Guerra e foi exportada para os derrotados Alemanha e Japão.

Terminada a apresentação, Larry Summers foi o primeiro a perguntar, sugerindo que talvez a desigualdade atual não seja produto do sistema de impostos ou da remuneração do estoque de capital, mas do fato de que "há mais empreendedores, mais Bill Gates e Mark Zuckerberg."  Piketty respondeu, de bate-pronto, que empreendedorismo e inovação não começaram ontem, e que inventores de tecnologias muito mais disruptivas do que o WhatsApp não chegaram perto de acumular os bilhões de dólares acumulados pelos magnatas de hoje. Summers parece ter ficado irritado e aproveitou o resto do tempo na sala para atualizar o sono.

Outro figurão na plateia, Michael Ignatieff, perguntou se não era preciso fazer uma diferenciação normativa entre os tipos de desigualdade (lembrou muito, mas sem citar, a ideia de categorias que Daniel Markovits, de Yale, delineou—vejam o último slide desta apresentação que fiz há um tempinho). Piketty concordou, mas disse haver um trade-off entre esse tipo de diferenciação e manter o código tributário simples e não-intrusivo.
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Thomas Piketty é o primeiro a admitir que as aplicações para política pública não são o forte do seu trabalho. Um imposto global sobre fortunas parece altamente implausível, e os efeitos do aumento da desigualdade no crescimento estão longe de ser claros—ele argumenta que concentração de riqueza provavelmente reduz crescimento, mas tanto a teoria como a evidência empírica estão longe de apontarem de forma inequívoca para a confirmação dessa hipótese. É possível que desigualdade seja apenas um sintoma de um mal do capitalismo que ainda não foi identificado, mas que parece também ser responsável por baixo dinamismo do mercado de trabalho e uma recuperação lenta da crise de 2007/2008. De qualquer forma, as razões para combater desigualdade continuam sendo mais morais do que contidas no domínio da economia.

Por que, então, todo o barulho em torno do livro? Aqui, apelo para o pensamento atribuído a Victor Hugo que diz que não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou. Desde que a crise foi controlada, governos e progressistas parecem buscar uma nova agenda de política econômica. Atacar a desigualdade parece conveniente, tanto numa tentativa de estender a influência do governo sobre a economia quanto pelo forte apelo moral. O problema é o costumeiro às boas intenções: se um mundo mais igual é preferível, os meios para atingir esse objetivo estão cercados de obscuridade e consequências indesejadas. Aumentar impostos talvez seja a única política factível, mas criará distorções e não necessariamente atingirá os alvos desejados (vide a experiência recente de François Hollande na terra de Piketty). Por outro lado, outras propostas que mais provavelmente contribuiriam mais para a diminuição da desigualdade global (que, sujeita a pouco debate, é muito maior entre países do que dentro de um determinado país), como leis de imigração mais flexíveis, passam longe do debate.

Escrevi tudo isso sem ter lido mais do que as orelhas e a contracapa do livro, que pode ou não surpreender quando o fizer, mas arrisco uma conclusão: "Capital in the 21st Century" é uma obra de pesquisa empírica de ponta, resultado de um trabalho que leva nosso entendimento sobre riqueza e desigualdade para o ponto mais alto da história. Piketty, porém, não é o novo Marx ou Keynes (ou nem mesmo o salvador da economia política no século XXI): é brilhante, estava no lugar certo na hora certa, mas sua obra e suas conclusões ainda vão ter que sobreviver a vários testes de realidade para que a aura de profeta se justifique. O lado positivo é que ele parece saber disso, e deve continuar seu excelente trabalho, agora como improvável herói de um ramo do conhecimento que, ao menos aos olhos do público geral, andava a procura de uma figura sobrehumana.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Desigualdade, a bola da vez

Os países desenvolvidos ainda não saíram da crise iniciada em 2007/2008, mas agora parecem conseguir tratá-la como um problema do dia-a-dia: requer constante monitoramento e esforço, mas não mais choques e medidas de emergência. A última evidência a favor dessa tese foi a mini-crise no Chipre, que completa um ano nesta semana. Os abalos foram restritos ao pequeno país e duraram poucos dias para serem dispersados pelos mercados, que seguira escalando o proverbial muro de preocupações.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De Roberto Campos para Paul Samuelson

Em dezembro de 1973, governo Médici, depois de cinco anos de AI-5, seu Roberto Campos, nosso mais ilustre liberal, enviou uma carta a Paul Samuelson "esclarecendo" alguns comentários da nova edição do seu clássico livro-texto, Economics. O documento está no site que acompanha o relançamento da série de livros de Elio Gaspari sobre a ditadura. Campos diz que o regime no Brasil é "autoritário", mas não ditatorial:

"Its most appropriate description would be a regime of 'consented authoritarianism'"

E completa:

"Solid operational democracies like the US can afford to ignore the difference between opposition and subversion."

Sendo esse um dos ícones da defesa das liberdades individuais, não é de se estranhar que o liberalismo tenha tanta dificuldade em se firmar por aqui...



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Frases do Dia - os desastres do século XX

The great economist and Nobel laureate James Meade used to complain that the three great disasters of the twentieth century were the "infernal" combustion engine, the population explosion, and the Nobel prize in economics.

Citado por Angus Deaton no ótimo The Great Escape.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O último capítulo da convergência de salários entre mulheres e homens

Claudia Goldin, economista de Harvard, dedica parte da sua carreira a estudar o que determina a diferença de salários entre homens e mulheres nos Estados Unidos. No passado não muito distante, a diferença era facilmente explicada pela diferença de produtividade entre os gêneros (fortemente associada ao tempo médio de escolaridade) e pela maioria das mulheres trabalhando em setores tipicamente com baixa remuneração. Ao longo dos últimos 50 anos, o primeiro fator foi praticamente eliminado: em 2006, a própria Goldin e seus coautores mostraram que mulheres eram maioria entre estudantes universitários nos EUA. A convergência em educação contribuiu para que a remuneração média por hora de mulheres passasse de 59% para 77% do equivalente para homens.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Frases do Dia - África e rent seeking (deve valer pra América Latina, também)

Rent seeking in our [African] economies is not a more or less important phenomenon, as would be the case in most economies. It is the centerpiece of our economies. It is what defines and characterizes our economic life.

H.E. Prime Minister Meles Zenawi of Ethiopia, September 5, 2000. Tirada deste (ótimo) paper de Lant Pritchett sobre a (ausência de) retornos da educação para o crescimento.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As últimas leituras do ano..

... já que semana que vem começam minhas provas e não deve sobrar tempo pra diletantismo:

- McKinsey sobre os efeitos dos juros muitos baixos no mundo na distribuição.

- Stiglitz descendo a lenha na política de subsídio agrícolas dos EUA.

- O último Journal of Economic Perspectives sobre os 100 anos do Fed, com textos de Bernanke, Eichengreen, Feldstein, Sandel...

- Na visão (bem mercantilista) de Dani Rodrik, os verdadeiros heróis da economia global são: Áustria, Canadá, Filipinas, Lesoto e Uruguai.

- Robert Solow sobre crescimento igualitário.

- Teoria dos jogos aplicada a jantares.

- Coletânea de gráficos bacanas sobre as megacidades do mundo.

- Pankaj Mishra dá seus pitacos sobre o arranca-rabo entre Amartya Sen e Jagdish Bhagwati.

- Esporte e crescimento com redistribuição.

- A Irlanda está destruindo projetos residenciais abandonados.

- A América Latina enriqueceu e diminuiu desigualdade, mas o crime nunca foi tão alto.

- Tim Harford sobre renda mínima universal. A Suíça vai votar um pagamento mensal de 2.500 francos para cada adulto.

- O megatorneio de previsões de Philip Tetlock e Dan Gardner.

- Mangabeira Unger no BBC Hardtalk.

- Philip Roth x Bertrand Russell.

- John Gray esculachando Malcolm Gladwell.

- Os muros do mundo no Guardian.

- Já é aquela época do ano, de novo: as listas de melhores livros do ano do New York Times e do Financial Times.

- Os cinco melhores ensaios de George Orwell.

- A viagem de ônibus de 96 horas e 5.800 quilômetros (mesma distância de Nova York a Ocotal, Nicarágua) entre São Paulo e Lima.

- Se os times da NFL fossem para o futebol europeu...

- Forte candidata a foto do ano.