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domingo, 13 de novembro de 2016

Lendo sobre Trump

Passado o choque, resta tentar entendê-lo. A lista abaixo é parte recomendações, parte lição de casa pra mim mesmo:

–Niall Ferguson: populismo como reação à globalização.

–Joachim Voth compara Trump e Hitler. (Ele pode. Só ele.)

–Evan Osnos, num tremendo (e antecipado – a matéria é de setembro) esforço para entender como será o governo Trump.

–The Economist, também de setembro, sobre "post-truth politics".

–Nate Silver sobre como o resultado das eleições poderia ter mudado.

–Jorge Castañeda sobre as implicações para a América Latina.

–Andrew Sullivan, antes e depois. Pessimista, muito pessimista.

–Gabriel Trigueiro, bem longe da histeria e mais otimista.

–Fukuyama e a nova ordem global de mais nacionalismo e populismo. Timothy Garton Ash mais ou menos na mesma linha.

–A teoria política previu Trump, enquanto a ciência política o descartou.

–Sociólogos e cientistas políticos que foram aos Estados Unidos profundos também fizeram um trabalho melhor. (Este link e o anterior via Lucas Novaes – obrigado!)

–Acemoglu falando de – adivinhem – instituições. Ainda há muito a ser escrito sobre como instituições informais foram derrubadas na campanha deste ano.

–Tyler Cowen sobre Peter Navarro, que, supostamente, é o economista que mais influencia Trump.

–Ainda é a economia, estúpido (pelo menos quando tratada por Ray Fair).

–Hirschman, em 1973, sobre tolerância à desigualdade de renda (o famoso paper do "efeito túnel").

A imagem foi roubada da capa da Der Spiegel.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Erros, erros grosseiros e projeções de PIB

Semana passada coloquei a tabelinha abaixo no Twitter, mostrando como a mediana das projeções dos economistas que contribuem com a pesquisa Focus, do Banco Central, costuma errar a projeção do PIB com um ano de antecedência por muito (1,6 ponto percentual, na média do período):


Também semana passada, a Economist publicou uma matéria sobre o mesmo assunto, avaliando o desempenho das projeções feitas pelo FMI. Os resultados também não são muito animadores, como se pode ver no gráfico:


Se projeções e previsões, no geral, erram tão feio, por que ainda há um mercado para elas? Para Tim Harford, projeções são como Pringles: "nobody thinks that there’s any great virtue in them but, offered with the fleeting pleasure of consuming them, we find it hard to resist." Por que? As teorias de Harford:

Possibility one is that the moment we hear a forecast, we imagine it happening. It then becomes a believable outcome and one that is easy to call to mind in the future. The scenario that we imagine looms large in our minds; other scenarios, equally plausible, fade to the background. As a result, we can be sceptical of forecasts in general yet still hooked by a particular one. 
(...) 
Possibility two is that forecasts offer us a lazy way to understand a complex world. The background to the conflict in Syria is complicated. So is Chinese politics. So, too, is the evolution of the Japanese economy. Trying to understand what is going on in any of these places requires an investment of time and attention that most of us are not willing to make. Wise heads at this newspaper could explain the intricacies to you or to me for hours yet barely have begun to do the topic justice.

Sobre o assunto, ainda quero ler o Superforecasting, sobre o Good Judgment Project.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O tamanho do buraco na economia brasileira

Postei alguns desses gráficos no Twitter e pareceu uma boa ideia juntá-los em um mesmo lugar (ao menos serve para tirar o blog da dormência--espero voltar ainda este ano com os livros, discos e filmes de 2015):


  • O crescimento real do PIB nos 4 anos terminados em 2016 deve ser o pior para períodos similares desde 1932 (na esteira da Grande Depressão). Desde 1908, apenas em 4 ocasiões o PIB acumulado em 4 anos caiu:
  • Se de fato não houver recuperação até o final do ano que vem, a economia brasileira estará em recessão por 13 trimestres consecutivos. A trajetória é bem distinta de recessões seguidas de recuperação em "V" (como Argentina, depois da crise de 2001 e Coreia do Sul, depois da crise de 1997) e se parece bastante com a Espanha pós-crise de 2008. Se há algum consolo é que ainda passamos longe da queda livre pela qual a Grécia passou. A comparação negativa é que a Argentina se recuperou de uma queda brutal no PIB (mais de 16%) mais rapidamente do que estamos nos recuperando. Nessa comparação, o choque sai-se melhor do que o gradualismo negacionista.

Com este desempenho, a recessão atual não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB terá recuado mais de 6%, quase 2% abaixo do observado na recessão mais severa até então — a da crise de 1929. O pior, no entanto, é o que segue: a retomada, segundo a projeção de consenso, será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão no Brasil, bem mais letárgica do que a retomada pós-Plano Collor, de 1990.



  • Por fim: os incumbentes brasileiros não costumam se sair bem em períodos de forte queda no crescimento (se meu professor de econometria ler isso, pega um avião pra me dar uns cascudos pela sugestão grosseira de causalidade--mas a ideia é só mostrar a coincidência).

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Leituras atrasadas

—O mercado frequentemente prevê altas de juros nos EUA cedo demais.

—Porque não vai haver quebradeira nos mercados emergentes.

—Por mais igualdade de oportunidades nos EUA. Deve valer mil vezes mais para o Brasil.

—Dois ótimos projetos do Laboratório Analytics da Universidade Federal de Campina Grande: "House of Cunha", analisando as votações da legislatura atual da Câmara e "Quem me representa?", que ordena os deputados de acordo com as preferências de quem acessa.

—Perfil de Daniel Kahneman no Guardian.

—Oliver Blanchard, o ex-economista-chefe do FMI, tem um homônimo que escreveu este belo artigo sobre sharing economy.

—O departamento de economia mais influente dos EUA: MIT, Stanford ou Berkeley? De qualquer jeito, Harvard lidera com folga o ranking de citações.

—Slides de Susan Athey e Guido Imbens sobre machine learning. Uma bela visualização sobre o básico do tema.

—Mais um teste de orientação política, este nos termos usados nos EUA.

—A filosofia moral da prostituição.

—O milagre científico do sorvete (amém).

—Uma hierarquia da discordância.

—João Gilberto cantando em comercial da Brahma, 1991.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Líderes políticos e desempenho econômico

Em tempos de eleição, quando políticos tendem a atribuir a si próprios as conquistas e ao azar ou a "heranças malditas" os fracassos, é interessante ver o que a academia econômica tem feito para definir sucesso econômico e a quem ele cabe. Alguns trabalhos recentes que me parecem pertinentes:

—Jones & Olken, de 2005, já é meio clássico: eles usaram episódios de transição política que envolve a morte de líderes como um experimento natural e avaliaram o que ocorre depois com o crescimento do PIB. Encontraram um efeito bastante forte nas autocracias (o exemplo mais evidente é a China depois da morte de Mao), mas não em democracias, o que sugere que nestas outros fatores são mais importantes para explicar variações no crescimento do que a influência de um presidente;

—Easterly & Pennings, de 2014, tenta responder a mesma pergunta de Jones & Olken (líderes importam?) usando uma metodologia diferente, que tenta decompor taxas de crescimento e encontrar, isolando fatores específicos ao país e choques aleatórios, a fração que cabe exclusivamente ao líder político. Os resultados sugerem que líderes explicam muito pouco da variação nas taxas de crescimento. Nas palavras deles: "our results are consistent with plausible views of how even seemingly unconstrained autocratic leaders  might find it difficult to exert control over the growth rate of the economy... We find in this paper little reason to believe in “great men” –either benevolent or malevolent – driving the growth process."

—Blinder & Watson, de 2013, compara o crescimento econômico nos EUA com presidentes Democratas e Republicanos após a II Guerra: durantes mandatos Democratas, o crescimento anual do PIB foi, em média, 1,8% maior do que em governos Republicanos. A conclusão, porém, é que tal diferença não é produto de políticas diferentes, mas, mais provavelmente, do acaso: Democratas têm mais sorte com os preços de petróleo, choques de produtividade e se beneficiam de algo de profecia autorrealizável alimentada pelo histórico mais favorável.

—Por fim, mas não menos importante: Carrasco, de Mello & Duarte, de 2014, tentam comparar o desempenho de vários indicadores de desenvolvimento econômico no Brasil de 2003 a 2012 com o que poderia ter sido o Brasil com outro governo, este simulado a partir da composição de um grupo de países com características passadas parecidas. A conclusão é que o desempenho brasileiro, medido pela maioria dos indicadores (crescimento, investimento, inflação, redução de pobreza, etc), foi aquém do grupo de comparação—a importante exceção é o mercado de trabalho.

 
L'État, c'est moi?

Se tomarmos esses trabalhos em conjunto, um possível resumo é: (i) em democracias, líderes têm muito menos influência sobre o desempenho econômico do que se costuma supor; (ii) não houve "milagre" no Brasil dos últimos anos, mas sim uma grande oportunidade desperdiçada, com ventos externos muito favoráveis; (i) + (ii) bravatas e acusações de "herança maldita" de um governo anterior específico provavelmente são retórica oca, ao menos no que diz respeito a crescimento, e (iii) copiando o amigo Batata, provavelmente inspirado no Kahneman, o acaso é foda (e também a reversão à média).

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A época das previsões

Enquanto os humanos trocam presentes e desejos de que as coisas melhorem no ano que está para começar, economistas, esses seres exóticos, tiram do armário seu estojo de ferramentas e dedicam-se a prever. Quanto vai crescer o PIB, qual vai ser a taxa de câmbio, os juros sobem ou caem, o que vai acontecer com a bolsa, quem vai ganhar as eleições… Para todas essas perguntas há uma resposta, mais ou menos embalada num pacote de método científico e sabedoria acumulada. Afinal de contas, se alguém tem como antecipar o que vai acontecer com variáveis econômicas, ninguém melhor que quem dedica a vida a estudá-las, certo?

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A inutilidade de previsões do PIB

Cumprindo a promessa de depois das eleições dos EUA do ano passado, estou no finalzinho do excelente The Signal and the Noise (segundo a Folha, a tradução para o Português sai mês que vem). O capítulo 6, sobre o fracasso das previsões de variáveis macroeconômicas, deveria ser obrigatório antes de qualquer curso de econometria. De lá roubei esses dois gráficos:


Esse gráfico mostra as previsões para a variação anual do PIB americano recolhidas na Survey of Professional Forecasters. As barras delimitam um intervalo de confiança de 90%, ou seja, se as previsões são corretas, em 90% do tempo o PIB observado vai se situar dentro dessas barras. Os resultados observados são os pontos pretos (quando dentro do intervalo esperado) ou os "x" (quando fora). Silver notou que, para esses anos, em 1/3 do tempo o observado ficou fora do intervalo de confiança. Estendendo o mesmo exercício para uma amostra desde 1968, em quase metade do tempo o crescimento observado ficou fora desse intervalo.


Este mostra a relação entre previsões e as observações efetivas para o crescimento do PIB entre 1986 e 2006 - a correlação (ou seja, o poder de previsão dos analistas) é praticamente inexistente.

A mensagem central do livro é: previsões funcionam bem em alguns campos, nem tanto em outros. Em alguns, a tecnologia ajudou a melhorar a qualidade das previsões; em outros, pouco fez diferença. O histórico de previsões macroeconômicas, em especial, pede no mínimo humildade e muita desconfiança de quem tenta viver certezas, sejam eles políticos ou economistas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Gráfico do Dia - 13,92 desvios-padrão

Ontem foi um dia problemático para quem opera o valor relativo entre as ações ordinárias e preferenciais da Petrobras com alguma suposição de normalidade...


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lei de Benford

Ontem o amigo T. Maia contou que, em um curso de "computational investing" no Coursera, o professor usou uma pesquisa simples entre os alunos (perguntando o primeiro dígito da quantidade de dinheiro que cada um tinha na carteira e o primeiro dígito do número da respectiva casa) para exemplificar a Lei de Benford, da qual nunca tinha ouvido falar e que achei muitíssimo interessante, mais uma sistematização da observação de fractais no mundo. Aqui o Tim Harford fala de uma aplicação da lei para produzir evidências de que o governo da Grécia forjava os números enviados para a agência de estatísticas europeia. Infelizmente dá para imaginar, por variação de outra lei (a de Goodhart) que fraudadores mais sofisticados vão adaptar os dados de forma que pareçam realistas por aquele critério.

P.S. A Lei de Benford é exemplo de outra lei que conheci ontem, a de Stigler.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Nate Silver, o cara

Um negro, nascido no Havaí de pai queniano e que passou parte da infância na Indonésia; e um judeu, gay, nerd, de 34 anos, formado em Chicago e morador do Brooklyn são os grandes personagens das eleições dos EUA. O primeiro todo mundo sabe quem é; o segundo é Nate Silver, o estatístico que fazia previsões sobre a carreira de jogadores de beisebol (como o personagem de Jonah Hill em Moneyball) e ganhou destaque ao prever com grande acurácia o resultado das eleições presidenciais de 2008. Este ano ele justificou o hype e o dinheiro que o NY Times gastou para colocar seu blog embaixo do portal do jornal, cravando o resultado da votação em todos os estados - calando a boca dos que o acusavam de um viés democrata e enchendo a bola das pesquisas e métodos estatísticos, quando bem utilizados.


É evidente que o modelo de Silver não é infalível - em alguma eleição futura ele vai errar (ou encerrar a carreira antes, no auge). Por enquanto, vai desfrutar da fama merecida e vender alguns milhares de cópias a mais (alô, editoras brasileiras) do seu livro recém lançado, The Signal and the Noise: Why So Many Predictions Fail-but Some Don't. Este escriba já vai ter que adquirir a sua, para cumprir a promessa que fez caso ele repetisse o sucesso das previsões nesta eleição.

Mais Nate Silver:

- Nate Silver e as lições de 2012

- Entrevista para o Huffington Post

P.S. O xkcd diz verdades:



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Leituras da semana (passada)

Palau, mom
- Uma boa entrevista de Miriam Leitão com o professor Eduardo Giannetti.

- Pedro Malan sobre os 18 anos do Plano Real. Semana passada resgataram também um texto da época assinado por um tal Guido Mantega.

- Edmar Bacha consegue encontrar erotismo na macroeconomia. Cada um com sua tara...

- Flavio Comim sobre o acerto de Dilma ao minimizar a importância do PIB.

- Um mito da FEA-USP se despede.

- Marcelo Ballvé sobre securitização e os problemas dos bancos médios no Brasil. O Marcelo tem feito um ótimo trabalho na cobertura desses temas, vale acompanhar.

- Dani Rodrik acha que Brasil, Índia e Coréia do Sul estão em boa posição relativa para os próximos anos na economia global.

- Richard P. Mattione, da GMO, sobre a Espanha.

- Os "gráficos mais importantes do mundo" (sei lá se são, mas muitos são bem interessantes).

- Uma boa crítica de Noah Smith ao Zero Hedge.

- O maior hedge fund do mundo não está tendo um ano exatamente brilhante.

- As ligações perigosas de Hayek com Pinochet.

- Como economistas se atrapalham com estatística.

- O que Daniel Kahneman sabe.

- Guardian sobre um possível renascimento do marxismo na Inglaterra.

- Infográficos (picaretas) da antiga União Soviética.

- Uma carta de Kurt Vonnegut para a família, direto de um campo de repatriação de prisioneiros da II Guerra.

- Como fazer um TED Talk.

- Procrastine e seja feliz.

- Considere migrar para Palau.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Gráficos (esportivos) do Dia

Faltando duas semanas para o início das Olimpíadas, vamos entrando no clima:

- Gráfico do relatório da Goldman Sachs sobre os jogos, mostrando como um modelo econométrico que não leva em conta nenhuma variável "esportiva" consegue prever com bastante precisão o quadro de medalhas dos jogos (o professor Daniel K. N. Johnson, do Colorado College, mostra isso desde os jogos de Sydney, em 2000):



- Um gráfico de dispersão da BBC com a relação peso x altura dos atletas olímpicos. Na versão interativa, dá para ver que tipo de atleta você poderia ser (no meu caso, é de grande conforto saber que é só melhorar um pouco meu coeficiente gordura / músculos para eu me tornar um halterofilista de sucesso):


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Frases do Dia - Dados e Conclusões

The more abundant and complex the statistical data and methods used in support of a conclusion, the weaker the result. Just as in a detective novel where the person with the more elaborate alibi is most likely to be guilty. Hard results in science rest on minimal, if any, statistics.

Nassim Taleb, no Facebook. Como princípio, diz bastante sobre a discussão da semana passada.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Blogosfera econômica brasileira pegando fogo

Quem acompanha os blogs de economia brasileiros, a essa altura já deve ter caído em algum post sobre a polêmica Reinaldo Azevedo x professor João Manoel Pinho de Mello e outros pesquisadores da PUC-RJ e do Banco Mundial. Abaixo tento organizar o que já se falou até agora e depois coloco minhas três linhas de pitacos:

1. Este é o link para o trabalho original, que não necessariamente foi lido por quem o criticou ou defendeu:

Chioda, Laura & de Mello, João M. P. & Soares, Rodrigo R., 2012.
"Spillovers from Conditional Cash Transfer Programs: Bolsa Família and Crime in Urban Brazil,"
IZA Discussion Papers 6371, Institute for the Study of Labor (IZA).

2. O Globo usou os resultados do paper para a matéria:

Bolsa Família reduz violência, aponta estudo da PUC-Rio
3. Reinaldo Azevedo, com sua sutileza habitual e muito provavelmente só com base na notícia (sem ter procurado o paper), chamou o estudo de "cascata autoevidente", acusou os pesquisadores de ideólogos e tentou mostrar com "lógica e bom-senso" os furos do trabalho.


4. Vieram as reações da blogosfera: primeiro do Adolfo Sachsida, depois do Márcio Laurini.


5. O professor João Manoel Pinho de Mello escreveu uma resposta furiosa ao post do Reinaldo Azevedo, tentando explicar algo da metodologia do trabalho e suas limitações (não sem algum nível de "carteirada" e diminuindo o "blogueiro").


6. O Reinaldo treplicou em cima da resposta do professor e, aparentemente, ainda sem se dar ao trabalho de tentar ler o paper.


7. Nesse tempo, a blogosfera entrou em combustão:


- "O" Anônimo, do A Mão Visível, aproveitou os posts do Reinaldo para fazer algumas críticas pertinentes ao paper (aqui e aqui - vale ler também os comentários), com muito mais propriedade;


- Márcio Laurini comentou a resposta do professor e a tréplica do R.A.;


- Sachsida criticou o tom agressivo que tomou conta do debate;


- Chutando a Lata argumenta que a discussão evidencia a desmoralização dos economistas no Brasil;


- Mansueto Almeida falou sobre os limites da econometria e desse tipo de pesquisa;


- Claudio Shikida acompanhou as idas e vindas e notou que a econometria acaba fazendo o papel de Geni;


- Prosa Econômica acha que o R.A. armou um circo;


- Cristiano Costa entendeu a indignação do professor;


- Selva Brasilis argumenta que todos os envolvidos saem arranhados.


- Leonardo Monasterio sacou uma regra de bolso para saber quando se deve debater.


8. O R.A. ainda publicou uma "opinião de expert" totalmente furada (mais um que não leu o paper), que o Selva esculachou.


Ainda devo ter perdido alguma coisa (avisem nos comentários, por favor). Faltou a minha contribuição, provavelmente pouco relevante depois de tudo isso:


- Eu tive um pouco de preguiça dessa história desde o começo, confesso. Principalmente porque qualquer um que acompanha ou já acompanhou o Reinaldo Azevedo sabe do viés (pra não dizer ranço) antipetista dele. Para mim, o mais provável é que ele leu a notícia, não gostou da conclusão e começou a atacar a partir daí, sem gastar o mínimo de tempo conferindo se o trabalho acadêmico dizia aquilo mesmo ou tentando entender a metodologia. Também imagino que, se os mesmos pesquisadores tivessem usado exatamente a mesma metodologia e concluído que o Bolsa Família aumenta a criminalidade, ele teria destacado os resultados e chamado os autores de algo como "luzes de racionalidade no meio da névoa petralha". Enfim: não acho que o Reinaldo tenha muito compromisso com a realidade ou honestidade intelectual, ele tem uma agenda política que paira acima de tudo isso, para prejuízo do debate e conforto de quem prefere opiniões prontas e mastigadas.

- Como o Cristiano, entendo a fúria na resposta do professor. Assumindo que o trabalho foi bem feito, custou muito tempo e dedicação, etc (e não vejo motivos para duvidar disso), não deve ter sido legal ver ele sendo desmerecido em um post com uma reflexão superficial influenciada por ideologia e total ignorância sobre como esse tipo de pesquisa é conduzida e tratada. Isso levou a uma resposta que, mesmo informativa, carregou no tom de "falamos do alto da torre de marfim" e pode ter levado a um reforço no preconceito do público geral (sobretudo o leitor do R.A.) com a pesquisa acadêmica. Vendo tudo agora, creio que a resposta mais adequada dos pesquisadores seria um texto de duas ou três páginas bem didático, explicando, em termos simples (mas não simplórios), a pesquisa, os resultados e suas limitações. Tendo sido feita a propaganda, esse texto seria bastante útil para o público e poderia aumentar a reputação da academia. Perdeu-se essa chance, paciência, e, de novo, passado o tempo e à distância, é mais fácil criticar. É difícil ser conciliador logo depois de alguém pisar no seu calo, reconheço.


- Vários doutores em economia que estudaram algumas vezes mais do que eu já comentaram a parte técnica da pesquisa, e nesse quesito não tenho muito a acrescentar. As credenciais dos autores são muito boas, o que me leva a crer que é baixa a probabilidade de terem cometido alguma barbaridade metodológica. Além disso, o trabalho, para ser publicado, deve ter passado por várias revisões técnicas. Uma coisa é a metodologia e os dados usados terem limitações (e tenho pouca dúvida que os pesquisadores são dos primeiros a reconhecê-las), outra é achar que elas invalidam totalmente o trabalho.

- Para quem ficou só nos posts do R.A., provavelmente vai mesmo sair com a impressão que pesquisadores são uns lunáticos, não sabem nada sobre o mundo real e perdem-se entre seus cálculos esotéricos. Uma pena. Se há algo que esse debate todo evidenciou é: primeiro, a ignorância geral sobre a metodologia de pesquisa econômica e a confusão ao tomar resultados estatísticos (aceitáveis apenas dentro de um grau de confiança e, portanto, sempre sujeito a erros) como peças de ideologia ou conclusões determinísticas ou lógicas e; segundo, as dificuldades da academia na comunicação com jornalistas e o público leigo. Por outro lado, reforçou-se o estereótipo (que acho errado, fique claro - ou pelo menos é errado para toda a classe) que jornalistas não têm espaço ou capacidade para ir além da superficialidade. Talvez ainda haja algum esclarecimento nesses sentidos, mas, por enquanto, as chances foram perdidas. Em resumo: quem não tem formação em economia ou acompanhou apenas um dos lados da discussão provavelmente saiu com preconceitos reforçados e pouco mais.

- Como tinha dito, a história toda me deu um pouco de preguiça no início. Porém, como disse um amigo, levou a boas discussões sobre pesquisa acadêmica, econometria, causalidade, comunicação, política, etc; além disso, não lembro de outra questão ter mobilizado tanto a blogosfera econômica brasileira (aqui está o ex-preguiçoso, empolgadão, terminando texto à 1 da manhã) - que sempre deveria dar as boas-vindas a esse tipo de diálogo e, no fim das contas, enriqueceu com essa história.  Serendipity, baby.

P.S. Outra coisa legal que surgiu nas discussões foi esse texto que o goombagoomba indicou, sobre a crítica conservadora à educação superior.

P.P.S. Bem que o Hermenauta podia sair da hibernação para entrar na discussão.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Leituras da Semana

Bruxelas, Domingo de Páscoa
- The Economist sobre a Gávea e as gestoras de dinheiro brasileiras (seu Armínio deve ter ficado feliz com a matéria, não sei se com a legenda "Shakira with a beard").

- Acemoglu & Robinson sobre política industrial.


- Edward Glaeser sobre a corrida presidencial americana e como a campanha de Romney pode ajudar o país.

- Extraordinário texto de Michael J. Sandel (professor do curso mais pop de Harvard, Justice) sobre os limites do livre mercado e a ausência de um elemento moral no debate sobre o que deve ou não ser vendido.


- New York Times comendo com Tyler Cowen.

- Também no NYT, perfil da presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster.

- O discurso de Dilma na Kennedy School, de Harvard.

- Na Foreign Affairs, o fim do "momento mágico" do Brasil (ainda não consegui uma boa alma para me mandar a matéria inteira).

- Dez fatos interessantes sobre a Turquia (via Mauricio Santoro).

- Timothy Garton Ash sobre a omissão da Europa na Síria e um déjà-vu otomano.

- Como modelos de previsão econométrica falharam em prever a crise de 2008 (mas acertaram a recuperação subsequente).

- Belo trabalho do Credit Suisse sobre urbanização (via Urban Demographics).

- Como era a lista das 500 maiores empresas americanas há 200 anos.

- Quanto ganham os professores das universidades americanas (em muitos casos, menos que muito analista com três anos de experiência do mercado financeiro no Brasil).

- Mais um paper drunkeynesiano: como a cerveja criou a Bélgica (via Marginal Revolution).

- Mais um aspecto nefasto da crise no Reino Unido: caiu a qualidade das pole dancers (via Epicurean Dealmaker).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Economia em cartazes

O Planet Money começou fazendo seus próprios cartazes minimalistas sobre conceitos econômicos; depois pediu a alguns economistas que rascunhassem outros, que também viraram arte. Meu favorito, por enquanto, é este, bolado pelo Tim Harford:


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Leituras pré-carnavalescas

Cordão do Boitatá, vou sentir falta este ano.
A julgar pelo número de acessos ao blog, a turba de leitores já deve ter começado a se entregar aos festejos de Momo (notem que estou evitando a conclusão mais simples que o público se encheu de mim). Antes que caia a zero, aí vão as leituras da semana:

- Discretos noruegueses x David Swensen (Yale), de quem é o melhor modelo de gestão de grandes fundos de longo prazo (soberanos, pensão, endowments).

- Mansueto Almeida analisa o corte de R$ 55 bilhões no orçamento brasileiro para este ano, e conclui que a política fiscal ainda é expansionista.

- Um estudo do Banco Central Europeu chegou à chocante conclusão que traders prestam menos atenção nos mercados durante jogos de suas seleções na Copa.

- A Turquia preocupa-se com o impacto de trocas de aparelho celular nas suas contas externas.

- Porque banqueiros gostariam de ver seus ganhos comparados aos de esportistas, e porque isso é errado.

- Dois engenheiros se meteram a estudar quantitativamente um pouco da política brasileira (como os diferentes partidos votam no congresso), e chegaram a resultados interessantes.

- A difícil aplicação de leis de potência à ciência.

- A contribuição dos cervejeiros da Guinness para a popularização da significância estatística.

- O economista de Harvard mais famoso do momento.

- Porque eu nunca vou conseguir ser doutor em economia.