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domingo, 12 de novembro de 2017

Custo de vida e renda no Brasil: ganhe em Brasília, gaste no Piauí

Semana passada o FMI publicou esse paper do Carlos Góes e Izabela Karpowicz que, entre outras coisas, estimou diferenças de poder de compra entre os estados brasileiros (vale ler o trabalho inteiro, que faz ótimo uso dos microdados da PNAD). Com os dados, o Thomas Conti fez o mapa abaixo, que ganhou certa fama nas redes:

Pegando carona na fama do Thomas, cruzei os dados de poder de compra com os de PIB per capita para tentar medir a "affordability", nada mais do que a relação entre renda e custo de vida. Deu nesses gráficos (clique para aumentar):



No primeiro gráfico, as médias para cada variável define quatro quadrantes: os estados mais caros, com renda abaixo da média (pobre Amapá), estados caros, mas relativamente ricos (SP, RJ e DF, sobretudo), estados relativamente ricos e baratos (por esse critério, o melhor lugar do Brasil para se morar é o Espírito Santo) e os estados relativamente pobres e baratos. Neste grupo, há grande variação de custo de vida -- para uma renda parecida, o Piauí é muito mais barato que Rondônia, e Pernambuco é bem mais caro que os vizinhos Alagoas e Paraíba. Ah, e na média o efeito Balassa-Samuelson funciona para os dados (não esqueça de cortar o cabelo quando for ao Piauí, diria o mestre Jeffrey Frankel).

No segundo, tentei montar um índice de "affordability", dividindo o PIB estadual per capita pelo índice de custo de vida e indexando a 100, a média nacional. Aqui, o PIB per capita domina o efeito do custo de vida, e, no geral, os estados mais ricos (e caros) parecem mais atrativos.

Em resumo: trabalhe em Brasília e gaste no Piauí -- ou mude-se para o Espírito Santo.

P.S. Enquanto preparava esse post, o Thomas, com os mesmos dados, fez esse gráfico, muito mais sofisticado:

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Notas sobre o petróleo barato

Uma conversa pelo Twitter me inspirou a escrever isso, que deve muito também ao ótimo curso que fiz com o Francisco Monaldi.

—Muito se confundem dois conceitos essenciais para a exploração: breakeven e custo marginal.

  • Breakeven é o preço necessário, por barril, para que um determinado projeto de exploração tenha lucro. A definição de lucro aqui não é uniforme, mas, geralmente, corresponde a uma taxa de retorno acima do custo de capital para o projeto. Como esse custo varia muito em função do risco-país e do tipo de exploração, as taxas de retorno correspondentes aos preços de breakeven também variam: o retorno exigido para furar um poço raso na Arábia Saudita é muito menor, por exemplo, do que o de um projeto de águas ultraprofundas na costa de Angola, e este, portanto, requer um preço do petróleo maior como breakeven. 
  • Custo marginal é, simplesmente, quanto custa para se extrair um barril de petróleo adicional em um poço em funcionamento. 
O preço relevante para determinar se um projeto continuará ou não a ser explorado é o custo marginal, já que o investimento inicial (sunk cost) é geralmente, intransferível e não pode ser recuperado. Em outras palavras, um projeto seguirá produzindo petróleo mesmo se tiver que vender o óleo a um preço muito abaixo do breakeven (tendo prejuízo no projeto), desde que esse preço seja maior do que o custo marginal. É, portanto, errado dizer que o petróleo a tal preço "inviabiliza" a exploração no pré-sal: alguns investimentos já foram feitos ou estão contratados, e os projetos seguirão mesmo que, ao longo do tempo, não se provem lucrativos. Não conheço bem os projetos da Petrobras a ponto de fazer uma análise mais profunda, mas saber o que vai acontecer com o pré-sal é mais complicado do que bater o olho na cotação do petróleo e cravar uma resposta. 

O gráfico abaixo (daqui, clique para aumentar) mostra o breakeven dos principais projetos de petróleo no mundo. Para o poço de Libra, por exemplo, o preço é algo como US$65. Se esse poço vai ou não ser explorado caso o petróleo fique ao redor de US$40, como disse, depende da estratégia da Petrobras, incluindo o quanto a empresa está disposta a perder dinheiro em nome do "projeto nacional" (mais uma variável difícil de se estimar).



—O extremo do gráfico é o campo de Kashagan, no Cazaquistão. O projeto já consumiu US$48 bilhões e está 12 anos atrasado—e depende de uma distante volta do petróleo a US$100/barril para dar lucro.

—A resposta de um produtor a preços mais baixos, em muitos casos, pode ser aumentar a produção (desde que, como vimos, o preço ainda seja mais alto que o custo marginal). É o que tem feito a Arábia Saudita, o produtor mais eficiente e com folgas mais evidentes na produção; e é o que provavelmente está tentando fazer a Venezuela, no desespero do regime chavista para gerar receita e se manter no poder (o lado positivo disso pode ser uma reforma na PDVSA, a empresa estatal de óleo, progressivamente sucateada nos últimos anos).

—A inviabilidade mais evidente está nos projetos de shale gas nos Estados Unidos, onde os breakevens e custos marginais mais se aproximam. Esses projetos, diferentemente dos tradicionais, maturam em pouco tempo e têm o pico de produção no início da exploração. O avanço na tecnologia pode fazer com que, mesmo a preços menores, a exploração seja viável, mas, no curto prazo, o boom nas regiões produtoras deve arrefecer.

—A tecnologia de produção do shale gas é uma Espada de Dâmocles para os produtores de petróleo: se o preço do barril subir, produção adicional torna-se viável e pode ser acionada de forma relativamente rápida, assim como também passa a ser viável tentar recuperar produção de poços que eram dados como esgotados—em ambos os casos, a oferta aumenta e os preços são pressionados para baixo. Em algum lugar, Schumpeter tira sarro de Malthus.

—Muito do ponto anterior está no trabalho algo profético (de 2012) de Leonardo Maugeri. Maugeri acredita que, até 2020, o principal fator de aumento na produção global de petróleo é o renascimento dos campos do Iraque, algo que pode já estar acontecendo:
Crude Oil Production, Iraq, Monthly

—A queda nos preços deveria ser uma excelente oportunidade para o mundo começar a se livrar dos US$5,3 trilhões em subsídios oferecidos aos preços de combustível. A ver quem vai dar esse passo.

—Por fim, sempre bom lembrar:
“The Stone Age did not end for lack of stone, and the Oil Age will end long before the world runs out of oil.”

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sambas e a economia brasileira

O pessimista: "Saco de Feijão", de Chico Santana, gravado pela Beth Carvalho em 1977 (inflação era algo como 45% no ano—ainda tinha muito pra piorar):

No tempo dos "derréis" e do vintém
Se vivia muito bem, sem haver reclamação
Eu ia no armazém do seu Manoel com um tostão
Trazia um quilo de feijão
Depois que inventaram o tal cruzeiro
Eu trago um embrulhinho na mão
E deixo um saco de dinheiro



O otimista: "Partido Baixo do Partido Alto", de Miguel Gustavo, gravado pela Elizeth Cardoso em 1972. Não consegui achar um histórico bom de retornos da bolsa brasileira (Alguém tem aí? Acho que tem uma tabela boa no final do Ordem do Progresso, não tenho o livro aqui), mas, de acordo com este gráfico, o mercado foi bem festivo entre 1966 e 1971.

Comprei Banco do Brasil  
Comprei Vale e Petrobras 
Até eu já estou na bolsa, ninguém me segura mais





Bônus: e mais recentemente tivemos... bem, tivemos "Eike Batista", com o Forró Estourado:

Eu durno na Disney, acordo em Las Vegas
Jogo no cassino com as mulheres mais belas
Que vida boa, não faço nada, e a minha conta só aumenta
A minha vida é 5 estrelas, eu não sei o que é problema
Me diz ai o que é que eu sou
Bi-bi-bilionario... bi-bi-bilionario... bi-bi-bilionario
Dei uma gorjeta pro garçom e ele comprou uma BMW


segunda-feira, 5 de maio de 2014

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Leituras das Últimas Semanas

Adam Smith faria 290 anos hoje
- Reforma e contra-reforma dos sistemas bancários do mundo desenvolvido, por Andrew Haldane.

- Entrevista com a brasileira Leda Braga, da BlueCrest, uma das gestoras (de qualquer gênero) de fundos  mais bem sucedidas do mundo.

- Apresentação de Dani Rodrik sobre a crise europeia.

- Uma volta dos bond vigilantes?

- Keynes: “How long will it be found necessary to pay City men so entirely out of proportion to what other servants of society commonly receive for performing social services not less useful or difficult?”

- Bresser-Pereira, depois de longos anos, jogou a toalha com a economia argentina. Salve-se quem puder.

- Longa reportagem do Financial Times sobre a Colômbia.

- Uma resenha da autobiografia de Benoît Mandelbrot.

- Versão eletrônica grátis da autobiografia de Deirdre McCloskey.

- Boa análise da política econômica do futebol brasileiro.

- As hospedagens mais caras do mundo.

- Porque a educação na Finlândia é tão boa.

- Dambisa Moyo x Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre Borgen.

- Um ótimo ensaio sobre ensaios.

- Os 15 países mais difíceis de se visitar.

- O que se aprende usando apenas produtos do Google.

- Para quem gosta de drogas pesadas, vários downloads gratuitos de Anthony Braxton.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Leituras da Semana

- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.

- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.

- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.

- Charles Gave prevê uma depressão para a França.

- Entrevista da Salon com Jim Chanos.

- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.

- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.

- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.

- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.

- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.

- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).

- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.

- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?

- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.

- Como investir na Coreia do Norte.

- O tratado definitivo sobre tretas na internet.

- Uma tabela periódica do jazz.

- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.

- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e  a de Waking Life para a série Great Movies.

- Literatura erótica, literalmente.

- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Gráfico do Dia - a "bolha" do tomate

OK, o preço do tomate quase triplicou desde novembro, mas... quando começou a subir, o preço era só 15% mais alto do que era no início de 2009 (variação do IPCA no período = 25%). Confiemos na regressão à média e, por enquanto, comamos molho branco.

Obrigado à minha amiga mais sortuda pelos dados.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Gráfico do Dia - compressão de margens

Cortesia do Santander:

Leituras da Semana

Helicópteros de dinheiro são para os fracos
- A mais recente carta de Warren Buffett aos acionistas da Berkshire Hathaway. John Kay sobre Buffett.

- Uma comparação interessante entre os índices de inflação de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela e variações de preços na internet. O resultado é o que você imagina. Dica do leitor J.

- Aviões de dinheiro (literais) teriam salvado a Grécia de uma corrida bancária. O euro esteve incrivelmente perto de se esfacelar ano passado.

- Mansueto Almeida duas vezes sobre bancos públicos: aqui e aqui.

- A (falta de) competitividade internacional do Brasil.

- A Argentinofilia de Paul Krugman.

- Moisés Naím sobre Hugo Chávez. Ótimo gráfico comparando a evolução dos termos de troca nos países da América Latina, reforça o tamanho da sorte que acompanhou os mandatos de Chávez. O editorial da última The Economist.

- Os bairros mais caros do Brasil.

- O Índice Starbucks.

- Ótimo guia para ratings de crédito soberano.

- Uma introdução à desigualdade global, por Branko Milanovic.

- Entrevista da Folha com Ricardo Paes de Barros.

- As cidades com quartos de hotel mais caros do mundo.

- Você anda lendo demais o Zero Hedge?

- Uma carta para Marissa Mayer, a CEO do Yahoo! que proibiu os funcionários de trabalharem de casa.

- Entrevista com John Gray.

- Entrevista com Teju Cole, sobre drones e mais.

- Do que fala a literatura brasileira contemporânea.

- Um projeto para ler todos os romances mais vendidos dos últimos 100 anos.

- Uma resenha muito interessante de Django Livre.

- Candidatando-se para a vaga de papa.

- Jacques Derrida entrevistando Ornette Coleman.

- Criei um Tumblr para alimentar (como se precisasse) meu lado diletante.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Valor Agregado

Leio na Economist que a Suíça exportou, no ano passado, US$23,3 bilhões em relógios (mais de 30 milhões de unidades ao preço médio de incríveis US$685). No mesmo período, o Brasil exportou 327 milhões de toneladas de minério de ferro, recebendo por isso US$31 bilhões. Mas beleza, bom mesmo é gastar dinheiro público para incentivar campeões nacionais produtores de commodities.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Gráfico do Dia - Querosene de Aviação

Mais um para a coleção de anedóticos do Custo Brasil. Matéria completa na Folha.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Gráfico do Dia - Petrobras não é a única retardatária

O mau humor dos mercados com o Brasil não é concentrado na Petrobras. O gráfico abaixo mostra o preço, em dólares e com base 100 no início de julho do ano passado, das ações da Vale (linha laranja) com suas principais competidoras (Rio Tinto, amarela e BHP, rosa) e o índice de ações de mineradoras da bolsa de Londres.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Gráfico do Dia - vergalhão de aço no Brasil

Por indicação do Samer, cheguei nesse trabalho de dois pesquisadores da PUC-RJ, que estuda a cartelização do mercado de vergalhões de aço no Brasil. Esse gráfico é produto de um dos quatro métodos utilizados no trabalho para calcular o sobrepreço.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Gráfico do Dia - Custo China

Gráfico do especial The World in 2013, da The Economist (costumam publicar em Português por aqui, alguém já viu nas bancas?). Créditos da imagem tosca para minhas incríveis habilidades de digitalização e edição gráfica.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Frases do Dia - A Mão Invisível (de Alá)

Foto do amigo talentoso Erico
The prophet Mohammed was an early proponent of property rights. When a famine in Medina brought sharp price increases, people implored him to lessen the hardship by fixing prices. He refused because, having once been a merchant himself, he believed the buyers' and sellers' free choices should not be overriden. "Allah is the only who sets the prices and gives prosperity and poverty", he said. "I would not want to be complained about before Allah by someone whose property or livelihood has been violated."

John McMillan, num capítulo belíssimo sobre direitos de propriedade em Reinventing the Bazaar: a natural history of markets. As citações de Maomé são do Hadith, traduzidas por Muhamet Yildez.