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segunda-feira, 5 de maio de 2014

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Sr. Dinheiro e o negócio de entretenimento

Hoje (escrevo em 18 de Dezembro) fiquei sabendo da existência do Sr. Dinheiro, personagem criado, aparentemente, pelo "Fantástico" da TV Globo em cima de Luis Carlos Ewald. O Sr. Dinheiro ganha para ensinar finanças na FGV do Rio e prestar assessoria financeira. Hoje ele concedeu uma entrevista ao portal InfoMoney dizendo que há uma bolha imobiliária no Brasil que vai estourar "no primeiro semestre de 2014". A entrevista não fala como ele precisou tão bem o timing. Se tem um modelo para isso, é forte candidato ao Nobel nos próximos anos.

Assumindo que, de fato, haja uma bolha no mercado imobiliário brasileiro, o que garante que ela vai estourar nos próximos seis meses, ou seis anos? Nada. Se é fato consumado que toda bolha estoura (ver a pesquisa da GMO sobre o assunto, a mais completa que conheço), também é mais ou menos estabelecido que bolhas podem ser incrivelmente resilientes. As perdas amargadas por muitos grandes investidores que tentaram ir contra bolhas, de Julian Robertson a George Soros, passando pela própria GMO, parecem confirmar a frase (aparentemente apócrifa) atribuída a Keynes: o mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode permanecer solvente.

Ewald, porém, não deve ter problemas de solvência (ou pode ser mais esperto que Robertson, Soros, Jeremy Grantham ou o próprio Keynes). Ele e outros consultores financeiros não vivem de acertar ou errar: vivem de colocar o nome nas manchetes, fazendo previsões "ousadas" e "bombásticas". Em seis meses, se errar, ninguém mais vai se lembrar e ele pode continuar cobrando por aulas e consultoria; se acertar, vira guru. Baixíssimo risco, alto retorno potencial: esse é o melhor investimento que o Sr. Dinheiro poderia recomendar.

O problema aqui é como reputações no mercado financeiro são construídas e destruídas. O assunto merece um estudo mais cuidadoso, mas arrisco alguns palpites: é uma área que lida com variáveis complexas, com um componente brutal de incerteza, onde o sucesso é difícil de ser mensurado ao longo do tempo, e povoada por um nível monumental de ignorância. Isso gera um grande problema de seleção: como saber escolher um bom profissional se (i) o nível de conhecimento geral sobre o assunto é baixo e qualquer um que fala besteiras com convicção pode se passar por expert; (ii) mesmo os verdadeiros experts sofrem para entregar resultados (e estes são os que, sabendo da incerteza, cercam de cautela suas opiniões e frequentemente são vistos como "fracos" ou "pouco arrojados"); (iii) os resultados mais visíveis são os de poucos meses - para períodos mais curtos, o peso da incerteza é ainda maior, e anos de bom trabalho são facilmente esquecidos após um semestre de performance fraca. Aqui, de novo, o grande Keynes: "é melhor para a reputação falhar de forma convencional do que ter sucesso de forma não convencional".

Aqui, a analogia com o futebol e seus inúmeros comentaristas é quase perfeita: o assunto, complexo, é parte importante da vida de milhões; há um corpo de conhecimento sobre o assunto, dominado por poucos; o conhecimento implica reconhecer que grande parte do jogo é determinada por fatores que não podem ser explicados; quem reconhece isso não chama a atenção devida e quem ganham os holofotes são os que gritam mais alto, usam metáforas mais coloridas ou criam mais polêmicas. Tostão escreveu hoje, na Folha, que, caso o Atlético Mineiro passasse do Raja Casablanca, podia tanto ser goleado pelo Bayern ou ganhar a final do Mundial de Clubes. Isso pode parecer óbvio, mas embute grande dose de humildade, conhecimento e sabedoria. Coloquem ele em um canal da TV dizendo isso e no outro o Craque Neto dizendo que o Galo é favorito, que esses times da Europa não são tudo isso, etc, e vejamos quem atrai mais audiência. Em resumo, ambos os negócios remuneram mais entretenimento e menos conhecimento. Ao menos no futebol raramente se coloca em risco o dinheiro da aposentadoria.

O post já está longo demais e ainda nem cheguei ao que mais me deixou doente na entrevista do professor. Cito:

Ainda segundo o Sr. Dinheiro, quando o mercado imobiliário desaba, a bolsa de valores (e o mercado acionário como um todo) melhora muito. “Essa bolha que vai estourar no ano que vem vai criar uma ótima oportunidade para os investidores do mercado de renda variável, afinal, o desempenho de ambos são inversamente proporcionais”, finalizou.

Entre 2007 e 2008, o preço de imóveis nos EUA, medido por um índice criado pelo professor de Yale que ganhou o Nobel este ano e o Sr. Dinheiro orgulhosamente citou como referência para suas previsões, caiu pouco mais de 25%. As açoes americanas, medidas pelo S&P 500, perderam mais de um terço do seu valor. O mesmo aconteceu em inúmeros outros países onde o mercado imobiliário colapsou. A crise que se arrasta até hoje é das maiores da história do capitalismo, mas não é evidência suficiente para o Sr. Dinheiro, que prefere sacar uma teoria estapafúrdia para empurrar incautos para o mercado de ações.

Uma das frases que Nassim Taleb gosta de repetir (acho que está no Antifragile, se bobear é emprestada de algum grego): se você vê uma fraude e não grita "fraude", você é uma fraude. O Sr. Dinheiro é uma fraude. Espero ter coragem e isenção para apontar outras ao longo da vida.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Temporada de caça aos ursos

2013 não está terminando bem para os pessimistas com os mercados de ações dos Estados Unidos. O índice S&P 500 deve terminar o ano perto dos 1800 pontos, tendo subido cerca de 25% com relação ao nível do final de 2012. A expectativa média das projeções que 14 grandes instituições apresentaram há um ano a seus clientes era 1534 pontos, mais de 17% abaixo de onde o mercado se encontra. O mais otimista entre esses (usualmente exageradamente otimistas) analistas esperava alta de pouco mais de 12%. Os pessimistas foram atropelados, mesmo com um cenário econômico pior do que se imaginava: em dezembro do ano passado, o Fed acreditava que o PIB americano cresceria, em 2013, entre 2,3% e 3,0%. O crescimento efetivo dificilmente passará de 2,0%.

O resto do texto está no Estadão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Brasil, The Economist e as indicações contrárias

Quando a The Economist lançou a famosa edição com o Cristo Redentor decolando na capa (14 de novembro de 2009), o Ibovespa estava em 65.000 pontos, vindo de uma espetacular recuperação de mais de 80% nos doze meses anteriores (no mesmo período, o S&P500 havia subido “só” 28%, tendo feito uma nova mínima em março e só então iniciado uma correção). Uma ação da Petrobras (PETR4) valia R$ 37, uma ação da OGX (OGXP3) valia R$ 14 e gente como Jeremy Grantham, o conservador e respeitado estrategista da gigante americana GMO, dizia que ações de mercados emergentes deveriam operar com um prêmio sobre seus pares em países desenvolvidos, para (aqui cito literalmente de uma das cartas trimestrais dele) “celebrar seu crescimento do PIB obviamente superior comparado ao de um mundo desenvolvido envelhecendo”.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Leituras das últimas duas semanas

Skål!
- Trabalho interessante do BIS sobre mercados de dívida em moeda local.

- Nova carta de Jeremy Grantham, da GMO, sempre pertinente.

- Uma boa lista de livros sobre história das finanças; outra de filmes sobre mercado financeiro.

- Mark Dow defende Hillary Clinton como próxima secretária do tesouro americano.

- Entrevista com Eugene F. Fama.

- Luiz Felipe de Alencastro acha que a reeleição de Obama é uma vitória do keynesianismo (não sei se concordo).

- John Kay sobre o fetiche da manufatura.

- Nassim Taleb e cinco princípios para uma sociedade antifrágil. A Economist resenhou seu novo livro, que sai nos EUA semana que vem.

- Acemoglu, Robinson e Verdier sobre variedades de capitalismo (ou porque não podemos ser todos nórdicos).

- O fundo soberano da Noruega tornou-se o maior do mundo, ultrapassando o de Abu Dhabi.

- A história da participação de mulheres em trabalhos científicos. Economia é dos campos com menos presença feminina.

- O Santa Fe Institute abriu seu primeiro curso online, gratuito.

- Coisas mais novas que Oscar Niemeyer.

- A história do piso de cacos de lajota das casas paulistas.

- Ganhe um Nobel de Física... e uma torneira com cerveja ilimitada.

- Uma entrevista longa, meio velha e muito boa com João Moreira Salles.

- Cartões de visita dos personagens de Star Wars.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Frase do Dia - Crescendo até o céu

"Anyone who believes exponential growth can go on forever in a finite world is either a madman or an economist."

De Kenneth E. Boulding, economista inglês citado por Jeremy Grantham, da GMO, em sua última carta trimestral. Granhtam está resgatando o tom pessimista / malthusiano que mostrou em 2010, vale a leitura.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Leituras da quarta-feira

- "Situations that will irritate some of us with higher prices will cause others to starve. Situations that will cause some of us to go hungry will be for others a real disaster, and I believe this, unfortunately, will not be in the dim and distant future". Jeremy Grantham sobe um tom na escala de pessimismo em sua última carta trimestral.

- Talvez ajude a causa de Grantham: foi encontrado o maior volume de água do universo - em um buraco negro.  Logo mais o Eike Batista aparece com um plano mirabolante para explorar (dica Veiga).

- Howard Marks: "One of the most striking aspects of the debt in the modern era is that little if any attention is paid to repayment of principal. No one pays off their debt. They merely roll it over... and add to it." (Carta trimestral da Oaktree.)

- Dani Rodrik jogando um pouco de água fria na ideia de que os emergentes vão dominar o mundo.

- Porque economistas precisam estudar história, por Barry Eichengreen (vídeo).

- A Veja desta semana tem uma entrevista com o Luciano Coutinho, dizendo, basicamente, que é isso aí, mesmo, que as empresas "vencedoras" já foram selecionadas pelo mercado e que o BNDES só dá uma forcinha pra que elas virem "supercampeãs".

- Uma rara (e sempre pertinente) entrevista de Elie Horn, da Cyrela.

- Dan Ariely indica cinco livros sobre economia comportamental.

- Para quem estiver em Boston no final de setembro: na próxima terça-feira começam as vendas de ingressos para a 21ª entrega do prêmio Ig Nobel.

- Uma campanha pelo Banco Imobiliário de raiz.

- Leituras de verão, no outro hemisfério (a foto aí do lado é de lá).

terça-feira, 10 de maio de 2011

Jeremy Grantham, Thomas Malthus, Jonathan Franzen

Já citei Jeremy Grantham aqui algumas vezes. Grantham é a cara mais conhecida da gestora de fundos GMO, sediada em Boston. Parte da reputação adquirida pela GMO nos seus quase 35 anos de existência pode ser atribuída à fiel adesão de Grantham à idéia que, no mercado financeiro, há menos mudanças de paradigma do que o espetáculo público propagandeia (esta vez quase nunca é diferente); daí a atenção atraída quando tal figura falou, na sua última carta trimestral, de uma mudança secular na dinâmica de preços de commodities.

Alguns aspectos interessantes da análise de Grantham (vale a leitura da íntegra, de qualquer forma).

1. Thomas Malthus estava certo, mas, como na tira do Laerte, o ano errou.

2. Crescimento exponencial não é sustentável, assim como árvores não crescem até o céu. Parece óbvio, mas é uma verdade ignorada por boa parte da análise econômica e de empresas que é produzida por bancos, consultorias e corretoras.

3. Freedom, de Jonathan Franzen, foi, possivelmente, o romance americano mais aclamado do ano passado. Uma das preocupações do protagonista, Walter Berglund, também é o crescimento da população e a preservação ambiental. O tema, definitivamente, pertence aos nossos tempos.

4. Grantham coloca dinheiro no que fala: montou, em 1997, uma fundação "para ajudar a proteger e aperfeiçoar a saúde do ambiente global".

Free Exchange, Marginal Revolution, Paul Krugman e Tim Worstall têm opiniões sobre o assunto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Frase(s) do Dia - Dwight D. Eisenhower, há 50 anos

"As we peer into society's future, we -- you and I, and our government -- must avoid the impulse to live only for today, plundering, for our own case and convenience, the precious resources of tomorrow. We cannot mortgage the material assets of our grandchildren without risking the loss also of their political and spiritual heritage. We want democracy to survive for all generations to come, not to become the insolvent phantom of tomorrow."

Dwight D. Eisenhower, 34º presidente dos Estados Unidos, há exatos 50 anos citado por Jeremy Grantham no relatório abaixo -- vale a leitura inteira, sobretudo da tabela que compara alguns indicadores de 1960 com os atuais. Uma curiosidade que eu tive: o Brasil tem 0.31% de advogados na população.


GMO's Jeremy Grantham - I Like Ike

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Jeremy Grantham - carta trimestral

Já citei aqui algumas vezes o Jeremy Grantham. Sua carta trimestral é, provavelmente, das coisas mais inteligentes escritas sobre mercados que você vai ler até o final do ano.

Jeremy Grantham's Quarterly Letter - 3Q09