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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os livros de 2014

Li tão poucos livros neste ano que nem vou fazer a tradicional divisão por categorias. Aí vai o que gostei, na ordem em que li:

—Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie. Vale todo o hype, foi "o" livro que indiquei pra listinha do Amálgama.

—The Great Escape: Health, Wealth, and the Origins of Inequality, Angus Deaton. Um ótimo panorama de como a humanidade tem conseguido escapar da pobreza, por um grande entendido do assunto. Relevante tanto para leigos quanto para (presumo) doutores.

—Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago. Não, eu ainda não tinha lido. Brilhante.

—The Sense of an Ending, Julian Barnes. Primeiro romance do Barnes que leio, vou virar freguês. Assustador, mostra que provavelmente não vou ficar mais sábio com a idade.

—My Brilliant Friend, Elena Ferrante. Outra autora que justifica o hype, das coisas boas que li na Itália. Também um antídoto para a era em que escritores são mais famosos pelo o que colocam no Instagram do que pelo o que escrevem.

—Stoner, John Williams. Depois que li, soube que virou um best seller tardio e acidental na Europa. Como o Barnes acima, bem pessimista quanto a segunda metade da vida (olha a minha mid-life crisis chegando adiantada).

—Thinking, Fast and Slow, Daniel Kahneman. Uma biografia científica brilhante de um dos poucos Nobeis de economia que faz-se entender além da academia, e das lições de humildade mais convincentes que já tive.

—The Structure of Scientific Revolutions, Thomas S. Kuhn e The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte, Karl Marx. Da categoria "deveria ter lido na faculdade, mas era vagabundo demais." Eternamente grato aos colossais Michael Piore e Suzanne Berger por terem me colocado pra ler isso no fabuloso curso de Economia Política do MIT (tem uma versão online).

—Man's Search for Meaning, Viktor E. Frankl. Não é o Primo Levi, mas adiciona a um relato comovente sobre a vida nos campos de concentração nazistas uma exposição sobre logoterapia, abordagem interessantíssima da psicologia.


Ainda estou pra terminar o The Great Transformation, do Polanyi, que certamente entraria nessa lista, e ontem comecei o primeiro volume do My Struggle, do Knausgaard, que deve ser a leitura do verão. Ao Papai Noel, só peço mais tempo livre ano que vem.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O que aprendi sobre a Alemanha

Algumas surpresas que descobri numa curta temporada na terra do lado certo dos 7 a 1 (saque-as naquela discussão de boteco em que alguém solta o inevitável "essas baixarias só acontecem no Brasil"):

—Brandenburg, o novo aeroporto de Berlim, vem sendo construído desde 2006. Inicialmente, a inauguração era prevista para novembro de 2011; depois, foi adiada para junho de 2012. Semanas antes do início das operações, o órgão supervisor anunciou um novo adiamento (de nove meses) por causa de falhas no sistema anti-incêndio. A promessa mais recente de inauguração é 2016, mas os jornais dizem que a estimativa mais realista é 2018. O orçamento inicial, de 2,8 bilhões de euros, foi aumentado em junho para 5,4 bilhões;

—O Hertha, maior time de futebol da capital, é patrocinado pela Deutsche Bahnhof, quase monopolista controlada pelo estado (mas de capital misto, tal qual a Petrobras) responsável pelas ferrovias alemãs;

—Annette Schavan, ministra da educação até fevereiro do ano passado, perdeu o título de doutorado (e o cargo) depois de uma acusação de plágio em sua dissertação;

—O governo de Gerhard Schröder concedeu um empréstimo de um bilhão de euros à petrolífera russa Gazprom semanas antes do fim da liderança dele, em 2005. Logo depois, Schröder foi contratado pela Gazprom para um cargo executivo (esses últimos dois itens estão num texto recente do Perry Anderson que apareceu traduzido em uma edição recente da piauí);

—Bônus, Espanha (também do texto do Anderson): Luis Bárcenas, tesoureiro do partido do primeiro ministro por 20 anos, está preso por ter acumulado 48 milhões de euros em uma conta não-declarada na Suíça. Quando o escândalo estourou, Rajoy mandou uma mensagem de texto a Barcenas dizendo: "Luis, eu entendo. Fique forte. Ligo para você amanhã. Um abraço."

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As últimas leituras do ano..

... já que semana que vem começam minhas provas e não deve sobrar tempo pra diletantismo:

- McKinsey sobre os efeitos dos juros muitos baixos no mundo na distribuição.

- Stiglitz descendo a lenha na política de subsídio agrícolas dos EUA.

- O último Journal of Economic Perspectives sobre os 100 anos do Fed, com textos de Bernanke, Eichengreen, Feldstein, Sandel...

- Na visão (bem mercantilista) de Dani Rodrik, os verdadeiros heróis da economia global são: Áustria, Canadá, Filipinas, Lesoto e Uruguai.

- Robert Solow sobre crescimento igualitário.

- Teoria dos jogos aplicada a jantares.

- Coletânea de gráficos bacanas sobre as megacidades do mundo.

- Pankaj Mishra dá seus pitacos sobre o arranca-rabo entre Amartya Sen e Jagdish Bhagwati.

- Esporte e crescimento com redistribuição.

- A Irlanda está destruindo projetos residenciais abandonados.

- A América Latina enriqueceu e diminuiu desigualdade, mas o crime nunca foi tão alto.

- Tim Harford sobre renda mínima universal. A Suíça vai votar um pagamento mensal de 2.500 francos para cada adulto.

- O megatorneio de previsões de Philip Tetlock e Dan Gardner.

- Mangabeira Unger no BBC Hardtalk.

- Philip Roth x Bertrand Russell.

- John Gray esculachando Malcolm Gladwell.

- Os muros do mundo no Guardian.

- Já é aquela época do ano, de novo: as listas de melhores livros do ano do New York Times e do Financial Times.

- Os cinco melhores ensaios de George Orwell.

- A viagem de ônibus de 96 horas e 5.800 quilômetros (mesma distância de Nova York a Ocotal, Nicarágua) entre São Paulo e Lima.

- Se os times da NFL fossem para o futebol europeu...

- Forte candidata a foto do ano.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Rent-seeking e o jogador de 100 milhões de euros

A grande notícia desta temporada de transferências no futebol europeu foi a venda do galês Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid por alegados 100 milhões de euros. Não vou tentar discutir aqui quantos Neymares deve valer Bale, mas sim alguns aspectos econômicos por trás do negócio (e já peço desculpas ao vizinho Roberto de Lira por roubar um potencial assunto dele).
Primeiro, o que determina o preço de um jogador? Se considerarmos que o atleta é um ativo do clube onde atua, seu preço poderia ser estimado como o de uma ação ou título de renda fixa, trazendo a valor presente toda receita estimada que ele trará ao clube durante sua passagem. Porém, contar com isso é arriscado: para cada Cristiano Ronaldo, que no primeiro ano em Madri vendeu 1,2 milhão de camisas só na cidade e ajudou a arrecadar estimados 120 milhões de euros, existem tantos outros Ibrahimovics ou Fernandos Torres, que passaram longe de justificar o valor dos seus passes quando foram transferidos, respectivamente, para Barcelona e Chelsea.
O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Leituras das Últimas Semanas

Adam Smith faria 290 anos hoje
- Reforma e contra-reforma dos sistemas bancários do mundo desenvolvido, por Andrew Haldane.

- Entrevista com a brasileira Leda Braga, da BlueCrest, uma das gestoras (de qualquer gênero) de fundos  mais bem sucedidas do mundo.

- Apresentação de Dani Rodrik sobre a crise europeia.

- Uma volta dos bond vigilantes?

- Keynes: “How long will it be found necessary to pay City men so entirely out of proportion to what other servants of society commonly receive for performing social services not less useful or difficult?”

- Bresser-Pereira, depois de longos anos, jogou a toalha com a economia argentina. Salve-se quem puder.

- Longa reportagem do Financial Times sobre a Colômbia.

- Uma resenha da autobiografia de Benoît Mandelbrot.

- Versão eletrônica grátis da autobiografia de Deirdre McCloskey.

- Boa análise da política econômica do futebol brasileiro.

- As hospedagens mais caras do mundo.

- Porque a educação na Finlândia é tão boa.

- Dambisa Moyo x Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre Borgen.

- Um ótimo ensaio sobre ensaios.

- Os 15 países mais difíceis de se visitar.

- O que se aprende usando apenas produtos do Google.

- Para quem gosta de drogas pesadas, vários downloads gratuitos de Anthony Braxton.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os 1%

Gráficos do novo trabalho de Facundo Alvaredo, Anthony B. Atkinson, Thomas Piketty e Emmanuel Saez sobre como evolui a renda do primeiro percentil da população em vários países da OECD. Aqui fica sugerida a importância do papel da política tributária para a redução de desigualdade (clique nas figuras para aumentar)..




quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pensando alto sobre mercados

Esse é daqueles posts que faço pra organizar minha cabeça. Não deve ser de interesse para quem não se interessa por mercados ou futurologia gratuita (devem sobrar dois leitores).

Depois dos problemas com o sistema bancário do Chipre, passei a trabalhar com a possibilidade que poderíamos voltar a ver sombras de uma crise bancária generalizada sobre a Europa. Por um tempo essa tese encontrou correspondência nos mercados: as bolsas do continente, no geral, tiveram desempenho pior do que as dos EUA; e, dentre essas bolsas, sofreram mais as de países com grande peso de bancos no índice e maior percepção de fragilidade (Espanha, França, Itália). Há mais ou  menos dez dias esses movimentos se intensificaram, com bolsas americanas também caindo e alguns movimentos violentos em commodities dando indicações de uma mini-crise deflacionária.

Em algum momento da semana passada, isso mudou, com os movimentos descritos acima sendo descontinuados: bolsas europeias passaram a subir, deixando EUA para trás; entre essas bolsas, os maiores ralis foram nos países mais frágeis. O ouro começou a se recuperar de um movimento particularmente agudo e o iene voltou a se depreciar contra a maioria das outras moedas. O dólar seguiu se fortalecendo e os juros de títulos longos em parte do mundo desenvolvido fizeram novas mínimas.

Como fundo a isso, vejo duas possibilidades:

i. Uma recuperação técnica, já que alguns dos índices europeus estavam testando suportes importantes, que, se respeitados, levariam a uma correção da queda e possível formação de um intervalo bem definido para os próximos meses;

ii. Indicação de corte de juros pelo Banco Central Europeu - isso seria compatível com as indicações de atividade mais fraca na Alemanha, o movimento das bolsas, dos títulos e do euro. Também estaria em linha com o tema geral de iniciativa dos bancos centrais, que deixaram de reagir a choques e passaram a tomar iniciativas para tentar promover crescimento.

Se (ii) estiver correto, poderemos ver bolsas fazendo novas máximas para o ano e, eventualmente, o euro encontrando um novo patamar, mais perto de US$1,20. Com o dólar relativamente forte, é mais difícil para commodities encontrarem espaço para subir, o que daria continuidade à fraqueza relativa de moedas de produtores e suas respectivas bolsas.

Ontem outro fato me convenceu de que provavelmente estamos no início de um período de recuperação das bolsas da Europa com relação às dos EUA: a Apple, que foi claramente a líder dos índices americanos no ano passado, anunciou recompra de ações e aumento de dividendos. Creio que a mensagem é que a companhia perdeu, ao menos temporariamente, a capacidade de gerar lucros com base em inovação, e está gastando caixa para agradar acionistas e comprar tempo (e tomando um risco de cross-border grande, já que o caixa da companhia está no exterior e ela tomará empréstimos nos EUA para pagar as recompras e dividendos). Isso pode ser bom para os preços das ações no curto prazo, mas me parece um sinal claro de que a companhia está num momento de inflexão (como se não bastasse o movimento dos preços). Evidentemente tudo pode mudar com o lançamento de novos produtos, mas não é bom contar com isso (o que também ficou evidenciado desde o ano passado, quando muitos analistas citavam a "capacidade infinita de inovar" da empresa como justificativa para preços-alvo ao redor de $1,000). Se a Apple não lidera, os candidatos naturais são os bancos, novamente registrando lucros recorde. Porém, se é esse o tema dominante, há muito mais espaço para recuperação na Europa, a preços mais descontados e possibilidade de aumento de lucros com juros mais baixos e outras possíveis benesses do BCE.

No médio / longo prazo, é importante notar que quase toda a recuperação dos mercados estará fundada em ideias no mínimo duvidosas: que bancos centrais podem influenciar decisivamente os níveis de atividade e preços, que ações de bancos com problemas graves de balanço podem valer alguma coisa e que bancos são os melhores instrumentos para distribuir dinheiro público para toda a economia. Isso faz com que os níveis atuais sejam extremamente frágeis, já que não parece haver melhora significativa em fundamentos (justo o contrário, em alguns casos). Porém, talvez o confronto com a realidade demore a acontecer, e também é possível que a primeira indicação (dados do Japão neste ano) apontem para a direção oposta, de sucesso da iniciativa de expansão monetária. O "sucesso" levaria, claro, a mais incentivos para repetição desse tipo de política, inflando ainda mais preços e deixando cada vez menos opções à disposição dos governos.

Em resumo, creio que tudo vai acabar em lágrimas, mas provavelmente estamos num período de euforia para alguns mercados, até que um novo esqueleto saia do armário (não são poucos enfiados nos balanços de bancos na Europa). Na dúvida, compre dólares.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A união monetária ideal para a Alemanha

Michael Cembalest, do J.P. Morgan, estimou (com base em 22 fatores de competitividade) quais seriam os países mais similares a Alemanha, que, em teoria, formariam uma união monetária melhor que a atual (clique para aumentar):


sexta-feira, 19 de abril de 2013

A teoria Scarlett O'Hara de finanças

The Maastricht Treaty stipulated that no member government could run a deficit of more than 3 percent in any one year. The French, in order to abide by the contract, were the first to institute phony bookkeeping. We will not pay our pension obligations this year, we will pay them next year, they decided. This year things will look good, next year things will look worse, but next year is next year and we are not going to worry about that. It is the Scarlett O'Hara theory of finance: "After all ... tomorrow is another day." The move was seen as pretty outrageous. Even the Italians, who had been using phony bookkeeping for decades - for centuries, in fact - were shocked. After pulling themselves up off the floor, they proceeded to emulate the French, going with their own time-honored recipe for cooking the books.

A versão de Jim Rogers para a adequação de alguns países às regras do Tratado de Maastricht. Está na biografia dele, que já citei aqui.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Leituras da Semana

- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.

- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.

- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.

- Charles Gave prevê uma depressão para a França.

- Entrevista da Salon com Jim Chanos.

- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.

- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.

- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.

- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.

- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.

- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).

- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.

- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?

- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.

- Como investir na Coreia do Norte.

- O tratado definitivo sobre tretas na internet.

- Uma tabela periódica do jazz.

- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.

- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e  a de Waking Life para a série Great Movies.

- Literatura erótica, literalmente.

- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma olhada nos sistemas bancários do mundo

Fiz esse gráfico há um tempinho, com dados do Banco Mundial (clique para aumentar). No eixo vertical está o crédito doméstico criado pelo sistema bancário, como percentual do PIB. No horizontal, a razão entre o capital dos bancos e seus ativos. Dividi o gráfico em quadrantes, pela mediana das métricas. A amostra inclui os países do G20 e a zona do euro (estes com marcadores em vermelho).

No segundo quadrante (verde), estão os sistemas bancários relativamente pouco alavancados e relativamente bem capitalizados - onde estão a maioria dos emergentes e apenas dois países (pequenos) da zona do euro. No primeiro e no terceiro quadrantes (vermelho claro) estão países com uma das métricas acima da mediana - notem o caso dos EUA, com um sistema bancário entre os mais capitalizados, mas muito alavancado, e a Itália, bastante próxima do quadrante "desejável". No quarto quadrante (vermelho escuro) estão a maioria dos países que usam o euro, Suíça, Reino Unido, Dinamarca e Japão - bancos muito alavancados e com pouco capital. O Japão é a aberração de costume, e vejam onde está Chipre (OK, agora não adianta mais).


Esse gráfico, creio, bate com a minha opinião de que os problemas com bancos na Europa ainda não acabaram - creio que muitos ainda precisarão reduzir drasticamente os balanços ou buscar novo capital. Também, de certa forma, confirma a ideia de que a Itália é um investimento melhor do que parece - ou ao menos melhor do que Espanha e, possivelmente, França.

Opiniões ou algo que eu esteja perdendo ou superestimando?

terça-feira, 19 de março de 2013

O cálculo político de Chipre

Com a advertência de que quase fiquei um semestre a mais na graduação por conta de Teoria dos Jogos, aí vai uma análise rápida do que pode acontecer com o Chipre nos próximos dias:

- A condição imposta pela Troika para Chipre receber €10 bilhões de ajuda externa é conseguir arrancar dos contribuintes €5,8 bilhões em forma de uma taxa sobre o estoque de depósitos bancários (a outra questão relevante é se esse dinheiro é suficiente para salvar um sistema bancário com €126 bilhões em ativos, sete vezes o PIB da ilha - mas deixemos essa de lado, por enquanto).

- Aparentemente, a ideia inicial era aprovar as medidas rapidamente, no final de semana, evitando assim o confronto com a população. Esse plano falhou, e agora deve parecer claro que é uma espécie de suicídio eleitoral para um político defender abertamente a medida que gerou tanta controvérsia.

- Assim, é mais provável que o plano não seja aprovado (está em discussão enquanto escrevo), e a bola volta para a Troika, que pode (i) relaxar os termos e pensar em um pacote mais amigável; (ii) bater o pé e não liberar o dinheiro. Se as condições forem amenizadas, é provável que Chipre leve um pacote em termos parecidos que outros países, sem necessidade de medidas imediatas radicais e algum comprometimento para o futuro (esse tipo de blefe funcionou para a Grécia em novembro de 2011, com o então Primeiro Ministro George Papandreou ameaçando convocar um referendo para votar um acordo e provocando um recuo dos emprestadores). Caso isso não ocorra, Chipre pode decidir que passar o pacote é a melhor opção ou romper com a Troika e, possivelmente, sair do euro.

- Para resumir a confusão acima: ou Chipre entra em um acordo com a Troika (em termos ruins ou menos ruins) ou há o risco concreto de Chipre deixar a união monetária. Se isso acontecer, é provável que, novamente, a sobrevivência do euro seja colocada em questão pelos mercados e a Troika teria que apagar outro grande incêndio. Uma matriz de payoffs estilizada e meio torta pode ser:


- Creio que, por agora, Chipre tem os incentivos para adiar uma solução e tentar conseguir uma oferta melhor (ou uma negociação paralela com a Rússia - vida loka). Confrontada com essa opção, a escolha racional da Troika seria apresentar uma alternativa menos draconiana e liberar o dinheiro. Imagino que esse seja o equilíbrio se todos agirem "racionalmente".

- O problema, claro, está no "racionalmente" e em que mensagem a Troika (para alguns, leia-se: Alemanha) quer passar para os periféricos. Deixar Chipre afundar seria uma mudança importante na postura dos países fortes envolvidos, e delimitaria os termos de negociações com outras economias que futuramente precisarem de ajuda.

- Se Chipre resolver sair do euro, curiosamente, vai parecer que a melhor alternativa teria sido aceitar a taxa, já que provavelmente a desvalorização do câmbio e a subsequente inflação devem tirar do poder de compra das economias dos cipriotas muito mais do que os 6,75% (ou 9,9%) propostos. Porém, a saída da desvalorização pode parecer menos arbitrária, e, sobretudo, seria uma demonstração de soberania.

Em resumo, apostaria que esta semana o pacote seja rejeitado e volte uma oferta em condições mais amenas, que seria aprovada. Porém, levando em conta as consequências para os mercados de cada um dos cenários (business as usual, se der tudo certo versus caos, se der tudo errado) e suas probabilidades, é bastante recomendável pensar numa saída para se o pior se concretizar. Confiar na racionalidade humana raramente é uma boa estratégia de sobrevivência.

domingo, 17 de março de 2013

Como será amanhã...

Fatos, esses sacanas
Um dos exercícios interessantes que minha equipe costuma fazer no trabalho é imaginar que operações faríamos no mercado caso tivéssemos a chance de olhar o jornal do dia (ou da semana, mês, etc) seguinte. Às vezes as conclusões são óbvias e consensuais; mais interessantes, porém, são as ocasiões (não raras) em que não conseguimos chegar em um acordo, ou quando as conclusões que pareciam cristalinas são ignoradas pelos mercados, que não reagem ou tomam direção oposta.

Lembrei disso acompanhando ontem e hoje a história do confisco bancário de Chipre (ver o post anterior). O que vai acontecer amanhã nos mercados? É difícil discordar do mais evidente: a escolha do governo cipriota é muito perigosa, pode fazer com que os correntistas de diversos outros países enxerguem nela um precedente e corram para os bancos. Se isso for verdade, ações de bancos europeus devem cair, os juros pagos por países periféricos subir, o euro se desvalorizar, etc.

Por outro lado, é quase tão fácil criar um cenário alternativo onde o mercado segue se apoiando no relativo otimismo que tem sido mostrado nos últimos meses e logo surge uma narrativa dizendo que, no fim das contas, Chipre é um país pequeno e o risco de contágio é fácil de ser contido com uma ação decisiva das autoridades, afirmando que o caso é isolado e não será repetido em outros países.

Se na sexta-feira, antes do fechamento dos mercados, eu tivesse o jornal do final de semana, provavelmente concordaria com a maioria das reações na imprensa, blogs e twitter, e apostaria no pessimismo. Sabendo, porém, que mercados têm a incômoda característica de atropelar consensos e racionalizações (ver regra 9 de Bob Farrell) e seguir tendências, não ficaria surpreso se em alguns dias ficar mostrado que o temor deste final de semana foi exagerado e a Europa seguir empurrando seus problemas ladeira abaixo, sem pânico.

Em resumo, os mercados darão o veredito de curto prazo. Se ignorarem as notícias, não deve demorar para aparecerem opiniões dizendo que, na verdade, a decisão de tomar parte dos depósitos dos cipriotas foi sensata, a melhor opção disponível. Acontecimentos antecipam as análises, raramente o contrário, para desespero da nossa lógica e tentativa de entender o mundo.