É aquela época do ano de novo. Aqui o que andei lendo de bom (em nenhuma ordem particular):
Ficção
‘Sweet Tooth’, Ian McEwan. A Guerra Fria encontra a literatura na Inglaterra dos anos 1970. Ainda estou pra ler um livro ruim do McEwan.
‘El Aleph’, Jorge Luis Borges. Tem El Zahir, El Aleph e mais alguns outros contos pra você ler em 20 minutos e seguir pensando neles por 20 anos.
‘The Plot Against America’, Philip Roth. É ótimo e tem todas aquelas analogias com a eleição do Trump que você está cansado de ouvir.
‘Afirma Pereira’, Antonio Tabucchi. Obra-prima de concisão e erudição, a briga solitária de um jornalista contra o fascismo português.
‘Os Cus de Judas’, António Lobo Antunes. Mais sobre a vida sob o salazarismo, aqui do ponto de vista de um médico dado a digressões longas e originais trabalhando em Angola durante a guerra colonial.
‘O Homem que Amava os Cachorros’, Leonardo Padura. Grande romance histórico e crítica devastadora ao stalinismo.
‘Half of a Yellow Sun’, Chimamanda Ngozi Adichie. Novelona (no melhor dos sentidos) ambientada na Guerra de Biafra. Não perca tempo com o filme, ruinzinho, ruinzinho. (Acabei de descobrir que essa guerra parou pra um amistoso do Santos de Pelé contra uma tal Seleção do Meio Oeste, história fantástica.)
‘Bone’, Yrsa Daley-Ward. Poesia para a minha geração (que não gosta muito de poesia, acho).
‘Laços’, Domenico Starnone. Não há uma linha desperdiçada nessa grande pequena novela. Junto com o Lobo Antunes, foi o que mais gostei de ler no ano.
Não-ficção
‘Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies’, Jared Diamond. Uma busca original e erudita pela causa-raiz do desenvolvimento econômico. O tamanho intimida, mas é uma leitura fluente e prazerosa.
‘A Ditadura Acabada’, Elio Gaspari. Esperado último livro da série, é generoso demais com o governo no desastre econômico do fim do “milagre”, mas vale a leitura.
‘A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo’, Paulo Francis. Sempre divertido rever os chutes e acertos de um dos nossos maiores tudólogos.
‘Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals’, John Gray. Pra ler na praia, num dia de sol, com um mojito na mão (em qualquer outra situação pode levar à depressão e pensamentos suicidas, epa, peraí, por que você está entrando no mar com uma bigorna amarrada no tornozelo?).
‘Traffic: Why We Drive the Way We Do’, Tom Vanderbilt. Enorme e bem-sucedido esforço para apresentar de forma atrativa os resultados de décadas de pesquisa acadêmica sobre um assunto que tanto nos afeta.
‘Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados’, Jairo Nicolau. Manual claríssimo e bem-escrito para entender os desdobramentos do voto proporcional no Brasil. Merecia uma edição atualizada em 2018 incorporando as mudanças da última rodada de reforma política.
‘Pavões Misteriosos – 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil”, André Barcinski. As histórias e personagens, famosos e anônimos, de um período de grande criatividade e cara de pau da brilhante música feita por aqui.
‘Better Presentations: A Guide for Scholars, Researchers, and Wonks’, Jonathan Schwabish.
Excelente para quem, como eu, gasta um tempo inconfessável trabalhando com o PowerPoint e apresentando material técnico.
‘Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy’, Tim Harford. Harford é quem melhor leva Economia às massas, segue em grande forma.
‘China Airborne’, James Fallows. A indústria aeronáutica chinesa como ponto de partida para falar sobre desenvolvimento, instituições e, claro, o maior dos “grandes enriquecimentos” da história.
‘1988: Segredos da Constituinte’, Luiz Maklouf Carvalho. Ainda quero ler uma narrativa bem contada da constituinte, mas esse livro de entrevistas é muito informativo e divertido.
'Os Pecados Secretos da Economia', Deirdre McCloskey. A edição ficou linda e a tradução é ótima, até compensam a picaretagem do cara que fez as notas.
Quadrinhos
‘Trinity: A Graphic History of the First Atomic Bomb’, Jonathan Fetter-Vorm. Como diz o título, uma história ilustrada do Projeto Manhattan, com vários diálogos históricos reproduzidos.
‘Marbles: Mania, Depression, Michelangelo, and Me’, Ellen Forney. Um relato instrutivo, honesto e sensível sobre a relação entre transtorno bipolar e arte.
‘O Árabe do Futuro 3 – Uma Juventude no Oriente Médio (1985-1987)’, Riad Sattouf. Presença frequente por aqui, a série continua ótima.
Outros
‘This Book Is a Planetarium… And Other Extraordinary Pop-Up Contraptions’, Kelli Anderson. Presente de Natal para a pessoa mais curiosa e inteligente da casa (o pequeno Drunk Jr., claro).
Um ótimo final de ano e um 2018 ainda melhor para todos!
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Brasil 1, Alemanha 7
Dia bom pra ler isso aqui (itens 7 e 8, em especial), mas não antes da explicação definitiva baseada em economia política.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
1 ano de Abenomics
Há pouco mais de um ano, num domingo, milhares de corinthianos em Tóquio (este escriba entre eles) se preparavam para tomar um trem para Yokohama, ver seu time bater o Chelsea e conquistar o Mundial de Clubes. O outro campeão no Japão naquele dia foi Shinzo Abe, eleito novamente primeiro ministro do país com a promessa de tirar o país da estagnação que prevalece desde o estouro das bolhas de ações e imobiliária, em 1990. Na semana seguinte, o índice Nikkei 225 subiu 2%, começando uma impressionante escalada de (até agora) mais de 60%.
O resto do texto está no Estadão.
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Rent-seeking e o jogador de 100 milhões de euros
A grande notícia desta temporada de transferências no futebol europeu foi a venda do galês Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid por alegados 100 milhões de euros. Não vou tentar discutir aqui quantos Neymares deve valer Bale, mas sim alguns aspectos econômicos por trás do negócio (e já peço desculpas ao vizinho Roberto de Lira por roubar um potencial assunto dele).
Primeiro, o que determina o preço de um jogador? Se considerarmos que o atleta é um ativo do clube onde atua, seu preço poderia ser estimado como o de uma ação ou título de renda fixa, trazendo a valor presente toda receita estimada que ele trará ao clube durante sua passagem. Porém, contar com isso é arriscado: para cada Cristiano Ronaldo, que no primeiro ano em Madri vendeu 1,2 milhão de camisas só na cidade e ajudou a arrecadar estimados 120 milhões de euros, existem tantos outros Ibrahimovics ou Fernandos Torres, que passaram longe de justificar o valor dos seus passes quando foram transferidos, respectivamente, para Barcelona e Chelsea.
O resto do texto está no Estadão.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Leituras da Semana
- O Irã desvalorizou sua moeda, o rial, em mais de 50%. Pode se declarar vencedor da guerra cambial?
- Paper novo de Dani Rodrik, sobre ideias e interesses em economia política.
- Entrevista com Stephen King, do HSBC.
- Entrevista com Persio Arida no Estado.
- Esse artigo do Eike Batista no Valor merece ser lido.
- Um seminário bacana sobre reindustrialização, aqui em São Paulo.
- John Cassidy sobre os problemas com os lucros (recordes) dos bancos americanos.
- O mercado de apostas para o próximo presidente do Fed. Nassim Taleb paga 1000 para 1, para quem quiser apostar no cisne negro.
- A associação de João Gilberto e Daniel Dantas, isso sim é inovação financeira. Deveria virar caso de estudo para as escolas de negócios.
- A lista de livros de verão de Bill Gates.
- Tyler Cowen sobre o livro novo de Jon Elster.
- Onde estão os 34.492 Mc Donald's do mundo.
- O tamanho médio das dissertações em várias disciplinas.
- Galeria de fotos de escritórios de professores de Harvard.
- Claro que não há nada errado com um jogo de futebol que termina 79-0, né?
- Robert Galbraith, mas pode chamar de JK Rowling.
- Uma história animada da tipografia em cinco minutos.
- Um TED talk imperdível com Pico Iyer.
- Michel Laub sobre falácias na literatura.
- Um festival de jazz imperdível aqui no SESC Pompéia: McCoy Tyner, Lonnie Smith, Cassandra Wilson... O modelo de financiamento do SESC é detestável, mas, pqp, como fazem coisas bacanas...
- Paper novo de Dani Rodrik, sobre ideias e interesses em economia política.
- Entrevista com Stephen King, do HSBC.
- Entrevista com Persio Arida no Estado.
- Esse artigo do Eike Batista no Valor merece ser lido.
- Um seminário bacana sobre reindustrialização, aqui em São Paulo.
- John Cassidy sobre os problemas com os lucros (recordes) dos bancos americanos.
- O mercado de apostas para o próximo presidente do Fed. Nassim Taleb paga 1000 para 1, para quem quiser apostar no cisne negro.
- A associação de João Gilberto e Daniel Dantas, isso sim é inovação financeira. Deveria virar caso de estudo para as escolas de negócios.
- A lista de livros de verão de Bill Gates.
- Tyler Cowen sobre o livro novo de Jon Elster.
- Onde estão os 34.492 Mc Donald's do mundo.
- O tamanho médio das dissertações em várias disciplinas.
- Galeria de fotos de escritórios de professores de Harvard.
- Claro que não há nada errado com um jogo de futebol que termina 79-0, né?
- Robert Galbraith, mas pode chamar de JK Rowling.
- Uma história animada da tipografia em cinco minutos.
- Um TED talk imperdível com Pico Iyer.
- Michel Laub sobre falácias na literatura.
- Um festival de jazz imperdível aqui no SESC Pompéia: McCoy Tyner, Lonnie Smith, Cassandra Wilson... O modelo de financiamento do SESC é detestável, mas, pqp, como fazem coisas bacanas...
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quarta-feira, 12 de junho de 2013
A "arenização" do Brasil
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| Arena Amazônia, vulgo Elefantão |
A "arenização" do Brasil começou, claro, com o sucesso da candidatura para sediar a Copa do Mundo de 2014. O governo novo-rico achou por bem jogar no lixo qualquer critério econômico para definir como seriam os gastos para o Mundial. Primeiro, ao fazer questão de doze cidades-sede (a Copa de 1994, nos Estados Unidos, de dimensões parecidas, tinha nove). Segundo, ao incluir entre essas cidades algumas onde grandes estádios jamais proverão grandes benefícios à população, quanto menos retorno financeiro (ficaram famosas as contas dos séculos que seriam necessários para pagar o estádio de Manaus, por exemplo). Terceiro, ao decidir construir novos estádios mesmo em cidades onde seria possível apenas reformar estádios já existentes (como São Paulo e Recife).
Sediar uma Copa do Mundo tem custos conhecidos e benefícios difíceis de serem medidos diretamente. Pode-se escolher gastar mais ou menos para resultados parecidos, e o Brasil claramente resolveu esbanjar - por húbris ou pela conveniência política de atender aos interesses de uma legião de rent-seekers, numa oportunidade que dificilmente se repetirá em uma geração.
A mania, porém, não se limitou ao governo e aos estádios da Copa: clubes como Grêmio e Palmeiras também resolveram erguer suas arenas, mesmo sem sediar jogos do Mundial e contando apenas com financiamento do setor privado. Bom para os clubes, talvez não tão bom para quem colocou dinheiro nas obras - e esse é um problema compartilhado com quem investiu em muita coisa no Brasil. Os que conhecem melhor os detalhes corrijam as minhas possíveis leviandades, mas imagino que esse investimento está baseado em algumas premissas, como:
- O espectador de futebol brasileiro enriqueceu e seguirá enriquecendo, portanto poderá pagar mais caro por ingressos, estacionamento, comida, material esportivo, etc;
- O futebol brasileiro está melhor e deverá atrair um público médio crescente;
- A gestão dos clubes está mais profissional, o que reduz riscos de operação ou de quebra de contrato;
- As arenas poderão ser utilizadas para shows, cobrando bons aluguéis, já que o público brasileiro paga os ingressos mais caros do mundo;
- As arenas atrairão empresas dispostas a pagar muito para atrelar seu nome a elas;
- Os juros brasileiros caíram e permanecerão baixos, de forma que investimentos são atrativos mesmo com taxas de retorno baixas para o padrão histórico do país.
Algumas dessas premissas podem ser verdadeiras, mas muitas dependem da concretização da frase mais cara para qualquer investidor: "desta vez é diferente". Mudanças de paradigma ocorrem menos frequentemente ou são menos previsíveis do que os vendedores de projetos querem fazer os investidores acreditar. Creio que muito do sentimento atual com os mercados no Brasil é fruto menos de uma piora nos fundamentos ou na condução da política econômica do que de um reencontro com a realidade de premissas exageradamente otimistas e alguns delírios e fraudes. Na mesma linha, no campo das finanças públicas, hoje o Mansueto escreveu:
O que deu errado no plano do governo nao foi crescimento do gasto, mas o baixo PIB. Gasto é planejado para economia que cresce 4,5% aa
— Mansueto Almeida (@mansualmeida) June 12, 2013
Nesse sentido, não ficaria espantado caso comecem em breve a aparecer papagaios mesmo nas arenas que não contaram com dinheiro público (rombos nos clubes aparecerão de qualquer jeito, sempre aparecem - já escrevi um pouco sobre isso aqui). Projetos desse tamanho são instrumentos de investimento difíceis: exigem grande capital na saída para retornos ao longo de muitos anos, horizonte no qual incertezas inicialmente desconhecidas aparecem e se compõem com as já conhecidas.
Fico apenas nos aspectos econômicos, mas há outras discussões relevantes para o fenômeno das arenas - como elas marcam uma descaracterização do público tradicional de futebol no país, os estragos em patrimônios arquitetônicos (a notícia mais recente é - ugh - de uma possível "arenização" do Pacaembu pela nova prefeitura neoliberal - e fica como exercício para o leitor mais desocupado tentar criar um cenário onde São Paulo pode manter três arenas multiuso viáveis), e, possivelmente, tantas mais. Deixo-as para outros cientistas sociais mais capacitados. De qualquer maneira, no futuro, quando passar com meus eventuais netos pelas ruínas de uma dessas arenas, usarei-as para contar, dentro das limitações da minha bagagem, a história de como, na minha geração, o Brasil se fodeu.
P.S. Este texto tem uma mea culpa implícita. Eu fui dos que, tolamente, ignorei os amigos mais céticos e acreditei que a Copa e as Olimpíadas seriam aproveitadas para ajudar a decolar o investimento em infraestrutura. Erro crasso. Continuamos na cultura do "puxadinho" e de privilegiar qualquer critério imediatista antes de pensar o país para além de um par de anos. Há poucas semanas ouvi o Marcelo Odebrecht em um evento; ele adiantou que o legado da Copa será "quase nulo" e que as Olimpíadas provavelmente deixarão algo positivo - para o Rio de Janeiro. Considerando o montante de investimento federal envolvido, pensemos na injustiça que é o país inteiro subsidiar melhorias para uma das cidades mais ricas do país (ainda que, claro, com todos seus problemas e demandas urgentes, mas não mais urgentes de que as de outras cidades menos badaladas e que continuarão esquecidas).
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
Leituras das Últimas Semanas
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| Adam Smith faria 290 anos hoje |
- Entrevista com a brasileira Leda Braga, da BlueCrest, uma das gestoras (de qualquer gênero) de fundos mais bem sucedidas do mundo.
- Apresentação de Dani Rodrik sobre a crise europeia.
- Uma volta dos bond vigilantes?
- Keynes: “How long will it be found necessary to pay City men so entirely out of proportion to what other servants of society commonly receive for performing social services not less useful or difficult?”
- Bresser-Pereira, depois de longos anos, jogou a toalha com a economia argentina. Salve-se quem puder.
- Longa reportagem do Financial Times sobre a Colômbia.
- Uma resenha da autobiografia de Benoît Mandelbrot.
- Versão eletrônica grátis da autobiografia de Deirdre McCloskey.
- Boa análise da política econômica do futebol brasileiro.
- As hospedagens mais caras do mundo.
- Porque a educação na Finlândia é tão boa.
- Dambisa Moyo x Bill Gates.
- Tyler Cowen sobre Borgen.
- Um ótimo ensaio sobre ensaios.
- Os 15 países mais difíceis de se visitar.
- O que se aprende usando apenas produtos do Google.
- Para quem gosta de drogas pesadas, vários downloads gratuitos de Anthony Braxton.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Espanha e os 0,1%, aplicado ao futebol
Anteontem, na premiação da FIFA de melhores de 2012 no futebol, foi escolhida uma seleção mundial - os 11 jogadores mais votados por mais de 50.000 outros jogadores profissionais. Em teoria e descontados alguns vieses, são os melhores jogadores do mundo em suas respectivas posições - ou pelo menos é seguro afirmar que estão entre os três ou cinco primeiros em todos os casos. Chamou-me a atenção que todos, 100%, os 11, jogam em clubes espanhóis - cinco no Real Madrid, cinco no Barcelona e um no Atletico de Madrid.
A Espanha, como sabemos, terminou o ano passado com mais de 25% de desemprego - 56,5% para os jovens com menos de 25 anos. Passou mais da metade dos últimos quatro anos em recessão. Ainda assim, seus clubes têm dinheiro para pagar e manter os onze maiores futebolistas em atividade no mundo. Onde está o erro?
Dá pra falar de vários aspectos desse caso (quer dizer, daria se eu entendesse alguma coisa dos assuntos), todos fascinantes: a capacidade do futebol descolar do ambiente da sede dos clubes, tanto pela transcendência do esporte quanto pelo dinheiro globalizado aplicado nos times grandes; a atual fase do futebol espanhol (mais da metade dos eleitos) e a tendência desses jogadores preferirem jogar no país / clube de origem, mesmo com potenciais ofertas melhores; o efeito "winner takes all" que o atual esquema de receitas alimenta; a enganação que são os "dois melhores laterais do mundo" brasileiros, etc... Vou me concentrar em um que especialmente me incomoda: os subsídios cruzados que ajudam a sustentar o futebol.
Os times da liga espanhola, segundo estudo de um professor da Universidade de Barcelona (mais, muito mais no ótimo The Swiss Ramble) acumulam cerca de €3,5 bilhões em dívidas - Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, somados, correspondem a quase metade desse valor. Os clubes devem a bancos, outros clubes e ao fisco espanhol (€426 milhões para este). No mundo ideal, essas dívidas um dia seriam devidamente pagas. Clubes de futebol, porém, não estão entre os melhores pagadores, talvez porque não têm grandes incentivos para tal: como executar um grande clube? Decretar sua falência, liquidar e encerrar a história? Quem vai lidar com a pressão popular, ou dos torcedores poderosos (apenas o rei da Espanha, no caso do Real Madrid)? Para piorar, estamos numa conjuntura em que bancos não podem mais quebrar, e suas más decisões de crédito, emprestar a times de futebol entre elas, acabam sendo bancadas pelo contribuinte.
No fim das contas, todos os contribuintes acabam sustentando os clubes - o governo precisa arrecadar de outra maneira os impostos que deixa de cobrar, resgata os bancos que emprestaram aos clubes e, pelo exemplo brasileiro (deve haver muitos outros), resgata os próprios clubes, quando preciso. É um crowdfunding compulsório, tendo como fundo a ideia que clubes de futebol são, ao menos parcialmente, bens públicos. Podem até ser, mas isso deveria ficar mais claro para que os eleitores decidam se é legítimo manter essa casta de multimilionários às custas da população.
O caso específico da Espanha hoje parece particularmente imoral pelo descolamento entre a conjuntura do país e a riqueza da liga de futebol, mas não é o único. Nem é o futebol - o mundo está repleto de negócios que criam milionários indiretamente subsidiados por contribuintes. É ridículo políticos defenderem uma era de austeridade geral enquanto esses casos não se tornarem explícitos, analisados e repensados.
A Espanha, como sabemos, terminou o ano passado com mais de 25% de desemprego - 56,5% para os jovens com menos de 25 anos. Passou mais da metade dos últimos quatro anos em recessão. Ainda assim, seus clubes têm dinheiro para pagar e manter os onze maiores futebolistas em atividade no mundo. Onde está o erro?
Dá pra falar de vários aspectos desse caso (quer dizer, daria se eu entendesse alguma coisa dos assuntos), todos fascinantes: a capacidade do futebol descolar do ambiente da sede dos clubes, tanto pela transcendência do esporte quanto pelo dinheiro globalizado aplicado nos times grandes; a atual fase do futebol espanhol (mais da metade dos eleitos) e a tendência desses jogadores preferirem jogar no país / clube de origem, mesmo com potenciais ofertas melhores; o efeito "winner takes all" que o atual esquema de receitas alimenta; a enganação que são os "dois melhores laterais do mundo" brasileiros, etc... Vou me concentrar em um que especialmente me incomoda: os subsídios cruzados que ajudam a sustentar o futebol.
Os times da liga espanhola, segundo estudo de um professor da Universidade de Barcelona (mais, muito mais no ótimo The Swiss Ramble) acumulam cerca de €3,5 bilhões em dívidas - Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, somados, correspondem a quase metade desse valor. Os clubes devem a bancos, outros clubes e ao fisco espanhol (€426 milhões para este). No mundo ideal, essas dívidas um dia seriam devidamente pagas. Clubes de futebol, porém, não estão entre os melhores pagadores, talvez porque não têm grandes incentivos para tal: como executar um grande clube? Decretar sua falência, liquidar e encerrar a história? Quem vai lidar com a pressão popular, ou dos torcedores poderosos (apenas o rei da Espanha, no caso do Real Madrid)? Para piorar, estamos numa conjuntura em que bancos não podem mais quebrar, e suas más decisões de crédito, emprestar a times de futebol entre elas, acabam sendo bancadas pelo contribuinte.
No fim das contas, todos os contribuintes acabam sustentando os clubes - o governo precisa arrecadar de outra maneira os impostos que deixa de cobrar, resgata os bancos que emprestaram aos clubes e, pelo exemplo brasileiro (deve haver muitos outros), resgata os próprios clubes, quando preciso. É um crowdfunding compulsório, tendo como fundo a ideia que clubes de futebol são, ao menos parcialmente, bens públicos. Podem até ser, mas isso deveria ficar mais claro para que os eleitores decidam se é legítimo manter essa casta de multimilionários às custas da população.
O caso específico da Espanha hoje parece particularmente imoral pelo descolamento entre a conjuntura do país e a riqueza da liga de futebol, mas não é o único. Nem é o futebol - o mundo está repleto de negócios que criam milionários indiretamente subsidiados por contribuintes. É ridículo políticos defenderem uma era de austeridade geral enquanto esses casos não se tornarem explícitos, analisados e repensados.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Conferindo as previsões para 2012
Hora do leitor se divertir com a pretensão deste escriba ao imaginar há um ano o que aconteceria nos doze meses seguintes:
- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.
Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.
- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.
Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.
- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.
A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.
- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...
Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.
- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.
2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.
- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.
De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.
- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).
A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.
- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.
É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.
- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.
A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.
- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).
Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.
- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.
Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.
- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.
10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.
- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.
Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.
- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.
BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.
- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.
Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.
- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.
De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.
- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.
Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.
- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.
Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.
- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.
Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.
- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).
Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.
- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.
Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:
They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
They all laughed at Wilbur and his brother
When they said that man could fly
They told Marconi
Wireless was a phony
It's the same old cry
(...)
For ho, ho, ho!
Who's got the last laugh?
Hee, hee, hee!
Let's at the past laugh
Ha, ha, ha!
Who's got the last laugh now?
E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.
- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.
Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:
- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.
Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.
- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.
Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.
- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.
Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.
- Vou errar mais previsões do que no ano passado.
Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):
Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%
Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).
Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.
Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.
- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.
Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.
- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.
Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.
- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.
A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.
- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...
Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.
- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.
2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.
- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.
De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.
- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).
A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.
- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.
É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.
- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.
A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.
- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).
Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.
- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.
Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.
- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.
10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.
- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.
Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.
- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.
BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.
- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.
Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.
- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.
De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.
- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.
Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.
- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.
Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.
- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.
Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.
- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).
Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.
- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.
Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:
They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
They all laughed at Wilbur and his brother
When they said that man could fly
They told Marconi
Wireless was a phony
It's the same old cry
(...)
For ho, ho, ho!
Who's got the last laugh?
Hee, hee, hee!
Let's at the past laugh
Ha, ha, ha!
Who's got the last laugh now?
E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.
- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.
Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:
0,7 / 1.
- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.
Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.
- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.
Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.
- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.
Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.
- Vou errar mais previsões do que no ano passado.
Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):
Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%
Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).
Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.
Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Drunkeynesian Awards 2012
A exemplo do ano passado, uma lista de coisas aleatórias que me chamaram a atenção durante o ano (durante os últimos dias, na verdade - viva o viés de disponibilidade):
- Melhor hedge fund: São Paulo Futebol Clube, que, dizem as fontes, ganhou R$10 milhões só com a oscilação do câmbio euro / real após fechar a venda do Lucas para o PSG.
- Livro mais presciente sobre o pós-crise (até agora): Capitalism 4.0, do colunista da Reuters Anatole Kaletsky. Quando li, a linha de achar que "problema adiado é problema resolvido" parecia delirante, mas o comportamento dos mercados na Europa este ano confirmou-a com todas as letras.
- Ideias mais interessantes sobre mercados: Christopher Cole, aproveitando um ano em que o Hugh Hendry andou meio quieto.
- Melhor investimento, categoria macro: ativos da Grécia, pasmem. Os juros dos títulos de dez anos caíram 2400 p.b. desde o início do ano, a bolsa subiu mais de 30%... Esse negócio de arrancar dinheiro do mercado financeiro é difícil pra caramba.
- Melhor investimento, categoria large caps: ações do Bank of America, preço mais do que dobrou em 2012. No geral, ações de bancos no mundo desenvolvido foram um ótimo negócio, cortesia das molezas proporcionadas pelos bancos centrais.
- Pior case do mercado de ações brasileiro: disputa dura entre as companhias elétricas (Eletrobras vai terminar o ano tendo perdido mais de 60% do valor de mercado) e as empresas do grupo X. Mas...
(a propósito, o Ibovespa teve, em dólares, o pior desempenho do ano entre os principais índices de ações do mundo. Onde mesmo era a crise?)
- Troféu Torre de Babel: ações da Apple, que ameaçaram subir até o céu (mas já caíram 26% desde a máxima, em setembro). Ao preço atual, confirma a regra de bolso que diz que poucas companhias aguentam muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões.
- Paper econômico mais pertinente (dos poucos que li): The dog and the frisbee, do diretor do Banco da Inglaterra Andrew Haldane, defendendo que um mundo ultracomplexo requer modelos de regulação bancária muito mais simples do que os protocolos da Basiléia. Leva também a ideia econômica do ano, ainda que 2012 foi mesmo o ano em que a que eu tinha mencionado ano passado (metas para o PIB nominal) pegou pra valer.
- Melhor twitter, categoria Lucy in the Sky With Diamonds: @stanleyburburin, claro, com teorias que fazem as do Nassif e do PHA parecerem versões atualizadas dos encadeamentos lógicos do Bertrand Russell.
- Melhor twitter, de verdade: @mkarl, porque um baixista-vascaíno-libertário-de-Petrópolis-morando-nos-confins-da-Alemanha só pode ser engraçado e pertinente.
- Melhor blog novo estrangeiro: Behavioral Macro. Posts não muito frequentes, mas sempre uma aula de como se aplica economia na prática dos mercados.
- Melhor blog novo brasileiro: Apogeo - ainda que mais professoral do que gosto de acompanhar, tem feito um grande trabalho de educação do investidor médio.
- Melhor site de comics: Vida e Obra de Mim Mesmo. xkcd é hors concours, claro (ainda que eu não entenda uns 30% das piadas).
- Foto do ano: era essa, de um urso sendo resgatado no Colorado:
... até que ontem alguém postou isso no twitter (o grande Carlos Valderrama lavando a própria estátua em Santa Marta, Colômbia):
- Melhor factóide: companheira Rose viajando com mala de dinheiro (apenas 25 milhões de euros) em voo diplomático para depositar em bancos de Portugal.
- Troféu Chora The Economist: Silvio Berlusconi, que, após ter anunciado aposentadoria da política, mudou de ideia e deve tentar voltar ao poder na Itália em 2013.
- Maior Lusófono de Todos os Tempos (que, por definição, é melhor que o Maior Brasileiro de Todos os Tempos): Miguel Marujo, por atualizar diariamente e com zelo impecável o E Deus Criou a Mulher.
- Melhor série de TV: a dinamarquesa Borgen (na verdade foi a única recente que vi - só neste ano perdi o preconceito com séries, ao começar a ver The Wire com dez anos de atraso).
- Descoberta musical do ano: a genialidade do Raça Negra, após ouvir as versões hipster.
- Melhor ano para a história da música popular: 1942, após constatar que foi quando nasceram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Jimi Hendrix, Tim Maia, Jorge Ben, Paul McCartney, Isaac Hayes, Lou Reed, Curtis Mayfield, John McLaughlin, Milton Nascimento, Nara Leão, Clara Nunes...
- Troféu Puskas do Mundo Bizarro: Diego Souza, por motivos óbvios. A nação corinthiana agradece.
- Anti-herói do ano: o cidadão do Qatar Emerson Sheik, claro.
- Melhor prova irrefutável de que o Brasil deu certo: Monica Bellucci anunciando mudança para o Rio.
Espero que tenham se divertido lendo isso metade do que eu me diverti escrevendo. Bom final de semana do não-final do mundo (ainda volto por aqui semana que vem).
P.S. Não podia deixar de mencionar o Troféu Homem de Visão (obrigado pela lembrança, Samer) para o craque Zé Love, que esnobou o Milan, seguiu jogando no lanterna do campeonato italiano (1 gol marcado pelo clube até agora) e, dizem as más línguas, vai parar no Vasco (chora, Magno Karl).
- Melhor hedge fund: São Paulo Futebol Clube, que, dizem as fontes, ganhou R$10 milhões só com a oscilação do câmbio euro / real após fechar a venda do Lucas para o PSG.
- Livro mais presciente sobre o pós-crise (até agora): Capitalism 4.0, do colunista da Reuters Anatole Kaletsky. Quando li, a linha de achar que "problema adiado é problema resolvido" parecia delirante, mas o comportamento dos mercados na Europa este ano confirmou-a com todas as letras.
- Ideias mais interessantes sobre mercados: Christopher Cole, aproveitando um ano em que o Hugh Hendry andou meio quieto.
- Melhor investimento, categoria macro: ativos da Grécia, pasmem. Os juros dos títulos de dez anos caíram 2400 p.b. desde o início do ano, a bolsa subiu mais de 30%... Esse negócio de arrancar dinheiro do mercado financeiro é difícil pra caramba.
- Melhor investimento, categoria large caps: ações do Bank of America, preço mais do que dobrou em 2012. No geral, ações de bancos no mundo desenvolvido foram um ótimo negócio, cortesia das molezas proporcionadas pelos bancos centrais.
- Pior case do mercado de ações brasileiro: disputa dura entre as companhias elétricas (Eletrobras vai terminar o ano tendo perdido mais de 60% do valor de mercado) e as empresas do grupo X. Mas...
um recado para quem ta shorteando (esta vendido) de ogx, You´re wrong! don´t ever short an x company! oil is pumping e o time eh do caralho.
— Thor Batista Oficial (@Thor631) April 25, 2012
(a propósito, o Ibovespa teve, em dólares, o pior desempenho do ano entre os principais índices de ações do mundo. Onde mesmo era a crise?)
- Troféu Torre de Babel: ações da Apple, que ameaçaram subir até o céu (mas já caíram 26% desde a máxima, em setembro). Ao preço atual, confirma a regra de bolso que diz que poucas companhias aguentam muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões.
- Paper econômico mais pertinente (dos poucos que li): The dog and the frisbee, do diretor do Banco da Inglaterra Andrew Haldane, defendendo que um mundo ultracomplexo requer modelos de regulação bancária muito mais simples do que os protocolos da Basiléia. Leva também a ideia econômica do ano, ainda que 2012 foi mesmo o ano em que a que eu tinha mencionado ano passado (metas para o PIB nominal) pegou pra valer.
- Melhor twitter, categoria Lucy in the Sky With Diamonds: @stanleyburburin, claro, com teorias que fazem as do Nassif e do PHA parecerem versões atualizadas dos encadeamentos lógicos do Bertrand Russell.
- Melhor twitter, de verdade: @mkarl, porque um baixista-vascaíno-libertário-de-Petrópolis-morando-nos-confins-da-Alemanha só pode ser engraçado e pertinente.
- Melhor blog novo estrangeiro: Behavioral Macro. Posts não muito frequentes, mas sempre uma aula de como se aplica economia na prática dos mercados.
- Melhor blog novo brasileiro: Apogeo - ainda que mais professoral do que gosto de acompanhar, tem feito um grande trabalho de educação do investidor médio.
- Melhor site de comics: Vida e Obra de Mim Mesmo. xkcd é hors concours, claro (ainda que eu não entenda uns 30% das piadas).
- Foto do ano: era essa, de um urso sendo resgatado no Colorado:
... até que ontem alguém postou isso no twitter (o grande Carlos Valderrama lavando a própria estátua em Santa Marta, Colômbia):
- Melhor factóide: companheira Rose viajando com mala de dinheiro (apenas 25 milhões de euros) em voo diplomático para depositar em bancos de Portugal.
- Troféu Chora The Economist: Silvio Berlusconi, que, após ter anunciado aposentadoria da política, mudou de ideia e deve tentar voltar ao poder na Itália em 2013.
- Maior Lusófono de Todos os Tempos (que, por definição, é melhor que o Maior Brasileiro de Todos os Tempos): Miguel Marujo, por atualizar diariamente e com zelo impecável o E Deus Criou a Mulher.
- Melhor série de TV: a dinamarquesa Borgen (na verdade foi a única recente que vi - só neste ano perdi o preconceito com séries, ao começar a ver The Wire com dez anos de atraso).
- Descoberta musical do ano: a genialidade do Raça Negra, após ouvir as versões hipster.
- Melhor ano para a história da música popular: 1942, após constatar que foi quando nasceram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Jimi Hendrix, Tim Maia, Jorge Ben, Paul McCartney, Isaac Hayes, Lou Reed, Curtis Mayfield, John McLaughlin, Milton Nascimento, Nara Leão, Clara Nunes...
- Troféu Puskas do Mundo Bizarro: Diego Souza, por motivos óbvios. A nação corinthiana agradece.
- Anti-herói do ano: o cidadão do Qatar Emerson Sheik, claro.
- Melhor prova irrefutável de que o Brasil deu certo: Monica Bellucci anunciando mudança para o Rio.
Espero que tenham se divertido lendo isso metade do que eu me diverti escrevendo. Bom final de semana do não-final do mundo (ainda volto por aqui semana que vem).
P.S. Não podia deixar de mencionar o Troféu Homem de Visão (obrigado pela lembrança, Samer) para o craque Zé Love, que esnobou o Milan, seguiu jogando no lanterna do campeonato italiano (1 gol marcado pelo clube até agora) e, dizem as más línguas, vai parar no Vasco (chora, Magno Karl).
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Os Livros de 2012
A exemplo dos anos anteriores, aí vai o que achei de melhor nas minhas leituras onívoras de bom neste ano curto (vai acabar amanhã, logo, teremos alguns dias a menos):
Economia, mercados e afins:
- Diary of a Very Bad Year (2010)
Série de entrevistas de um (muito inteligente) gestor de hedge funds anônimo para a revista n+1 ao longo da crise de 2007 - 2009. Grande maneira de ver como pensam esses profissionais e um ótimo documento histórico para o período.
- Hedge Fund Market Wizards, Jack Schwager (2012)
Jack Schwager adiciona mais um bom título para sua série Market Wizards. Dos melhores aprendizados para quem senta ou quer sentar em uma mesa de operações.
- Bumerangue, Michael Lewis (2011)
Compilação ligeiramente modificada das matérias que Michael Lewis fez para a Vanity Fair após a crise. Resenhei aqui.
- Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets, John McMillan (2003)
Livro fascinante e isento (na medida do possível) de ideologias sobre essa instituição tão discutida e pouco compreendida. Mais satisfatório ainda ver que passou incólume pelas várias mudanças de paradigma dos últimos anos.
- Economix: How and Why Our Economy Works (and Doesn't Work), in Words and Pictures, Michael Goodwin e Dan E. Burr (2012)
Uma ótima e honesta introdução à história do pensamento econômico, em forma de quadrinhos. Deve ser um ótimo material didático.
- American Sucker, David Denby (2005)
Denby é o crítico fodão de cinema da New Yorker; este livro é o relato da tragédia pessoal dele quando ele se divorciou e resolveu tentar surfar na bolha do Nasdaq, entre 1999 e 2001. Além da crônica dos tempos, é mais uma grande lição de como pessoas muito eruditas e inteligentes às vezes deixam-se levar por manias irracionais.
Temas menos mundanos:
- The Memory Chalet, Tony Judt (2011) e Thinking the Twentieth Century, Tony Judt e Timothy Snyder (2012)
O legado final do grande Tony Judt. Resenhei o primeiro aqui e separei alguns trechos do segundo aqui.
- Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti (1999)
Não só li com 13 anos de atraso, como li antes de sair a nova edição. De qualquer jeito e com todas as falhas e vieses possíveis, parece um livro essencial para compreender o Brasil.
- Imperium, Ryszard Kapuscinski (1995)
Kapuscinski e sua relação com o império soviético, desde a época de estudante na Polônia-satélite até a dissolução nos anos 90. Muito bom conhecer um pouco de cada uma das repúblicas, que soam tão obscuras pra gente do outro lado do mundo.
- A Perfeição Não Existe, Tostão (2012)

Não bastasse ter jogado o que jogou, Tostão tem o melhor texto da imprensa esportiva brasileira.
- The Hare with the Amber Eyes, Edmund de Waal (2011)
Justificou todo o hype. De Waal usa miniaturas de porcelana para contar a história de sua família em algumas das cidades mais agitadas do mundo no final do século XIX / início do século XX.
- Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious, Gerd Gigerenzer (2007)
Ótimo contraponto à moda corrente de economia comportamental. Gigerenzer mostra como o inconsciente às vezes joga a nosso favor e o valor da simplicidade e heurística.
- Diário da Corte, Paulo Francis (2012)
Legal voltar a ler Francis, aqui escrevendo, entre 1976 e 1990, para a Folha. Tem uma resenha minha aqui.
- De Carona com Buda: o Japão de Cabo a Cabo, Will Ferguson (2007)
Ótima companhia para a viagem ao Japão. Ferguson foi de uma ponta a outra do Japão pegando carona com os locais e tentando decifrá-los.
Ficção:
- The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, Michael Chabon (2000)
Um dos favoritos do NPTO, não à toa.
- A Chave de Casa, Tatiana Salem Levy (2007)
Das autoras da minha geração que mais gostei de conhecer, sobre a relação de pessoas com lugares e o passado conhecido e desconhecido.
- Neve, Orhan Pamuk (2006)
O comitê do Nobel às vezes acerta. Livro lindíssimo.
- Two Caravans, Marina Lewycka (2008)
Uma nota abaixo do anterior, mas ainda muito engraçado. Quero muito ler o mais recente.
- The Marriage Plot, Jeffrey Eugenides (2011)
Também justifica o hype, ainda que eu tenha uma compaixão assumida por histórias de síndromes de Peter Pan mal resolvidas.
- O Rei Branco, György Dragomán (2009)
Ser criança na Romênia comunista não era fácil. Muito bom quando um livro comprado pelo simples motivo de estar no saldão da Fnac surpreende tão positivamente.
- The Dinner, Herman Koch (2009)
Comprei pela empolgação da The Economist, que raramente fala tão bem de ficção. Difícil não ler em uma só sentada.
- A Megera Domada, Shakespeare (circa 1590)
Nunca é tarde demais pra começar a ler Shakespeare, né? Ótima tradução do Millôr na edição da L&PM.
Quadrinhos
- Habibi (2011) e Carnet de Voyage (2004), Craig Thompson
O primeiro é um épico delirante e ridiculamente bem desenhado, o segundo é um diário de viagem de um americano meio caipira, observador e muito sensível (e também ridiculamente bem desenhado).
- Box Office Poison, Alex Robinson (2001)
Dos tantos quadrinhos que falam da vida de jovens em grandes cidades, esse é o que mais me agradou.
- Deus, Essa Gostosa, Rafael Campos Rocha (2012)
Poucos sabem, mas Deus é uma negra escultural, dona de um sex-shop. Merece muitas continuações.
- Toda Rê Bordosa, Angeli (2012)
Toda a obra do Angeli merece ser eternizada em livro, este é um bom começo.
Economia, mercados e afins:
- Diary of a Very Bad Year (2010)
Série de entrevistas de um (muito inteligente) gestor de hedge funds anônimo para a revista n+1 ao longo da crise de 2007 - 2009. Grande maneira de ver como pensam esses profissionais e um ótimo documento histórico para o período.
- Hedge Fund Market Wizards, Jack Schwager (2012)
Jack Schwager adiciona mais um bom título para sua série Market Wizards. Dos melhores aprendizados para quem senta ou quer sentar em uma mesa de operações.
- Bumerangue, Michael Lewis (2011)
Compilação ligeiramente modificada das matérias que Michael Lewis fez para a Vanity Fair após a crise. Resenhei aqui.
- Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets, John McMillan (2003)
Livro fascinante e isento (na medida do possível) de ideologias sobre essa instituição tão discutida e pouco compreendida. Mais satisfatório ainda ver que passou incólume pelas várias mudanças de paradigma dos últimos anos.
- Economix: How and Why Our Economy Works (and Doesn't Work), in Words and Pictures, Michael Goodwin e Dan E. Burr (2012)
Uma ótima e honesta introdução à história do pensamento econômico, em forma de quadrinhos. Deve ser um ótimo material didático.
- American Sucker, David Denby (2005)
Denby é o crítico fodão de cinema da New Yorker; este livro é o relato da tragédia pessoal dele quando ele se divorciou e resolveu tentar surfar na bolha do Nasdaq, entre 1999 e 2001. Além da crônica dos tempos, é mais uma grande lição de como pessoas muito eruditas e inteligentes às vezes deixam-se levar por manias irracionais.
Temas menos mundanos:
- The Memory Chalet, Tony Judt (2011) e Thinking the Twentieth Century, Tony Judt e Timothy Snyder (2012)
O legado final do grande Tony Judt. Resenhei o primeiro aqui e separei alguns trechos do segundo aqui.
- Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti (1999)
Não só li com 13 anos de atraso, como li antes de sair a nova edição. De qualquer jeito e com todas as falhas e vieses possíveis, parece um livro essencial para compreender o Brasil.
- Imperium, Ryszard Kapuscinski (1995)
Kapuscinski e sua relação com o império soviético, desde a época de estudante na Polônia-satélite até a dissolução nos anos 90. Muito bom conhecer um pouco de cada uma das repúblicas, que soam tão obscuras pra gente do outro lado do mundo.
- A Perfeição Não Existe, Tostão (2012)

Não bastasse ter jogado o que jogou, Tostão tem o melhor texto da imprensa esportiva brasileira.
- The Hare with the Amber Eyes, Edmund de Waal (2011)
Justificou todo o hype. De Waal usa miniaturas de porcelana para contar a história de sua família em algumas das cidades mais agitadas do mundo no final do século XIX / início do século XX.
- Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious, Gerd Gigerenzer (2007)
Ótimo contraponto à moda corrente de economia comportamental. Gigerenzer mostra como o inconsciente às vezes joga a nosso favor e o valor da simplicidade e heurística.
- Diário da Corte, Paulo Francis (2012)
Legal voltar a ler Francis, aqui escrevendo, entre 1976 e 1990, para a Folha. Tem uma resenha minha aqui.
- De Carona com Buda: o Japão de Cabo a Cabo, Will Ferguson (2007)
Ótima companhia para a viagem ao Japão. Ferguson foi de uma ponta a outra do Japão pegando carona com os locais e tentando decifrá-los.
Ficção:
- The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, Michael Chabon (2000)
Um dos favoritos do NPTO, não à toa.
- A Chave de Casa, Tatiana Salem Levy (2007)
Das autoras da minha geração que mais gostei de conhecer, sobre a relação de pessoas com lugares e o passado conhecido e desconhecido.
- Neve, Orhan Pamuk (2006)
O comitê do Nobel às vezes acerta. Livro lindíssimo.
- Two Caravans, Marina Lewycka (2008)
Uma nota abaixo do anterior, mas ainda muito engraçado. Quero muito ler o mais recente.
- The Marriage Plot, Jeffrey Eugenides (2011)
Também justifica o hype, ainda que eu tenha uma compaixão assumida por histórias de síndromes de Peter Pan mal resolvidas.
- O Rei Branco, György Dragomán (2009)
Ser criança na Romênia comunista não era fácil. Muito bom quando um livro comprado pelo simples motivo de estar no saldão da Fnac surpreende tão positivamente.
- The Dinner, Herman Koch (2009)
Comprei pela empolgação da The Economist, que raramente fala tão bem de ficção. Difícil não ler em uma só sentada.
- A Megera Domada, Shakespeare (circa 1590)
Nunca é tarde demais pra começar a ler Shakespeare, né? Ótima tradução do Millôr na edição da L&PM.
Quadrinhos
- Habibi (2011) e Carnet de Voyage (2004), Craig Thompson
O primeiro é um épico delirante e ridiculamente bem desenhado, o segundo é um diário de viagem de um americano meio caipira, observador e muito sensível (e também ridiculamente bem desenhado).
- Box Office Poison, Alex Robinson (2001)
Dos tantos quadrinhos que falam da vida de jovens em grandes cidades, esse é o que mais me agradou.- Deus, Essa Gostosa, Rafael Campos Rocha (2012)
Poucos sabem, mas Deus é uma negra escultural, dona de um sex-shop. Merece muitas continuações.
- Toda Rê Bordosa, Angeli (2012)
Toda a obra do Angeli merece ser eternizada em livro, este é um bom começo.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Retrospectiva Drunkeynesian 2012
(ou: aquela tentativa de requentar posts antigos e atrair leitores sem precisar de criatividade)
- Comecei o ano fazendo as inevitáveis previsões para 2012 - acertei algumas, errei outras (depois faço o balanço sistemático), como um bom babuíno jogando uma moeda faria. Ainda em janeiro, o Fed anunciou que perseguiria uma meta de inflação e o preço dos títulos da dívida europeia começaram a mostrar uma divergência que, em certa medida, se manteve até hoje.
- Em fevereiro, o Brasil leiloou com um ágio absurdo a concessão de operação de três grandes aeroportos e a situação na Grécia começou a degringolar. As ações da Apple já tinham começado a voar, e a companhia passou os US$500 bilhões de valor de mercado. No finalzinho do mês, o Banco Central Europeu anunciou o LTRO, grande moleza para salvar o sistema bancário do continente.
- No começo de março, fui a Belo Horizonte para o II Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia, que rendeu boas discussões, bastante cerveja e, de brinde, uma visita ao fabuloso instituto de arte de Inhotim, que deve ser das coisas mais legais que há pra se fazer no Brasil hoje. O Banco Central levou o mercado a acreditar que a Selic pararia de ser cortada antes do mínimo histórico de então (8.75% - parem de rir), azar de quem deu crédito. A Encyclopaedia Britannica parou de ser publicada e o grande Jorge Ben completou 70 anos.
- Abril começou com muita gente acreditando que a Apple é uma fraude. O mercado começou a precificar o QE3, a Fazenda anunciou o plano Brasil Maior (ainda se achava que o PIB cresceria mais de 4% neste ano). Fiz um post sobre spread bancário no Brasil que deu um trabalho imenso e gerou uma repercussão legal. Os juros longos do Brasil voltaram a operar abaixo de 10%, ainda tinham muito mais pra cair; o grande Hugh Hendry começou a gorar Eike Batista.
- Em maio o blog atingiu cem mil acessos - incrível ver como desde então esse número dobrou, viva as não-linearidades. Começou a ficar clara a revolução que a queda dos juros está provocando no país (pelo menos para o mercado financeiro). Muita gente passou a acreditar que o euro não terminaria o ano (logo mais faço um post sobre as capas de revista). Saiu o IPO do Facebook, apostei contra (e acho que ganhei, depois confiro). Dona Lagarde deu uma entrevista histórica para o Guardian. Apanhei para conseguir montar um histórico longo de juros no Brasil.
- Em junho fui passar frio em Buenos Aires; na volta, escrevi um dos posts que mais gosto na história deste blog. Começou a Eurocopa, que terminou com um baile da Espanha sobre a Itália. Morreu Elinor Ostrom, a única mulher a ganhar um Nobel de economia. A Grécia votou e descartou a opção de sair do euro voluntariamente. Graças ao Reinaldo Azevedo, o pau quebrou na blogosfera econômica, e este post sobre a treta foi o mais acessado da história deste blog (o que comprova que o leitor gosta mesmo é de polêmica). As ações das empresas "X" entraram em queda livre, e o mundo começou a acordar do sonho Eike Batista. Foi a vez de Gilberto Gil entrar para o clube dos septuagenários.
- Em julho a Anne-Marie Slaughter publicou um dos textos mais comentados do ano, sobre a conciliação de trabalho e o resto da vida por mulheres. A profecia de final do mundo começou a parecer mais verossímil. Os Rolling Stones completaram 50 anos de carreira (e o Keith Richards seguramente sobreviverá ao fim do mundo). O México começou a virar o queridinho dos investidores entre os países da América Latina, com alguma razão (analisei aqui). Começaram as fabulosas Olimpíadas de Londres.
- Caetano Veloso completou 70 anos no dia 3 de agosto; duas semanas depois, perdemos o grande Altamiro Carrilho. O mercado começou a especular sobre o resultado do encontro de Jackson Hole. Pelo visto gastei muito tempo assistindo aos jogos olímpicos, escrevi pouco sobre economia...
- Fiquei em férias na maior parte de setembro, na volta, descobri que Roberto Silva tinha partido. A Europa tirou um pé da lama e a UNCTAD mostrou que o mundo tem alguns motivos para ficar otimista. No dia 13, Bernanke & cia anunciaram o QE3, contrariando a impressão que havia ficado de Jackson Hole.
- Em 1º de outubro morreu Eric Hosbawm. Fiquei relativamente otimista com a entrada de investimento direto no Brasil. O câmbio dólar / real a 4 completou 10 anos. Roth e Shapley levaram o Nobel de economia.
- Obama foi reeleito no início de novembro, consagrando um tal Nate Silver. Ficou claro que o preço da gasolina no Brasil não subiria neste ano, para desespero do acionista da Petrobras. Paulinho da Viola fez 70. Começou a destruição das ações de companhias elétricas, sobretudo da Eletrobras. Aprendi o que é a Lei de Benford.
- A não ser que de fato o mundo acabe daqui a três dias, nenhum acontecimento em dezembro será tão relevante quanto este.
Assim este humilde blog viu 2012. Outras retrospectivas melhores e menos viesadas abundam por aí. Nos próximos dias falarei dos livros, filmes e etceteras do ano.
- Comecei o ano fazendo as inevitáveis previsões para 2012 - acertei algumas, errei outras (depois faço o balanço sistemático), como um bom babuíno jogando uma moeda faria. Ainda em janeiro, o Fed anunciou que perseguiria uma meta de inflação e o preço dos títulos da dívida europeia começaram a mostrar uma divergência que, em certa medida, se manteve até hoje.
- Em fevereiro, o Brasil leiloou com um ágio absurdo a concessão de operação de três grandes aeroportos e a situação na Grécia começou a degringolar. As ações da Apple já tinham começado a voar, e a companhia passou os US$500 bilhões de valor de mercado. No finalzinho do mês, o Banco Central Europeu anunciou o LTRO, grande moleza para salvar o sistema bancário do continente.
- No começo de março, fui a Belo Horizonte para o II Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia, que rendeu boas discussões, bastante cerveja e, de brinde, uma visita ao fabuloso instituto de arte de Inhotim, que deve ser das coisas mais legais que há pra se fazer no Brasil hoje. O Banco Central levou o mercado a acreditar que a Selic pararia de ser cortada antes do mínimo histórico de então (8.75% - parem de rir), azar de quem deu crédito. A Encyclopaedia Britannica parou de ser publicada e o grande Jorge Ben completou 70 anos.
- Abril começou com muita gente acreditando que a Apple é uma fraude. O mercado começou a precificar o QE3, a Fazenda anunciou o plano Brasil Maior (ainda se achava que o PIB cresceria mais de 4% neste ano). Fiz um post sobre spread bancário no Brasil que deu um trabalho imenso e gerou uma repercussão legal. Os juros longos do Brasil voltaram a operar abaixo de 10%, ainda tinham muito mais pra cair; o grande Hugh Hendry começou a gorar Eike Batista.
- Em maio o blog atingiu cem mil acessos - incrível ver como desde então esse número dobrou, viva as não-linearidades. Começou a ficar clara a revolução que a queda dos juros está provocando no país (pelo menos para o mercado financeiro). Muita gente passou a acreditar que o euro não terminaria o ano (logo mais faço um post sobre as capas de revista). Saiu o IPO do Facebook, apostei contra (e acho que ganhei, depois confiro). Dona Lagarde deu uma entrevista histórica para o Guardian. Apanhei para conseguir montar um histórico longo de juros no Brasil.
- Em junho fui passar frio em Buenos Aires; na volta, escrevi um dos posts que mais gosto na história deste blog. Começou a Eurocopa, que terminou com um baile da Espanha sobre a Itália. Morreu Elinor Ostrom, a única mulher a ganhar um Nobel de economia. A Grécia votou e descartou a opção de sair do euro voluntariamente. Graças ao Reinaldo Azevedo, o pau quebrou na blogosfera econômica, e este post sobre a treta foi o mais acessado da história deste blog (o que comprova que o leitor gosta mesmo é de polêmica). As ações das empresas "X" entraram em queda livre, e o mundo começou a acordar do sonho Eike Batista. Foi a vez de Gilberto Gil entrar para o clube dos septuagenários.
- Em julho a Anne-Marie Slaughter publicou um dos textos mais comentados do ano, sobre a conciliação de trabalho e o resto da vida por mulheres. A profecia de final do mundo começou a parecer mais verossímil. Os Rolling Stones completaram 50 anos de carreira (e o Keith Richards seguramente sobreviverá ao fim do mundo). O México começou a virar o queridinho dos investidores entre os países da América Latina, com alguma razão (analisei aqui). Começaram as fabulosas Olimpíadas de Londres.
- Caetano Veloso completou 70 anos no dia 3 de agosto; duas semanas depois, perdemos o grande Altamiro Carrilho. O mercado começou a especular sobre o resultado do encontro de Jackson Hole. Pelo visto gastei muito tempo assistindo aos jogos olímpicos, escrevi pouco sobre economia...
- Fiquei em férias na maior parte de setembro, na volta, descobri que Roberto Silva tinha partido. A Europa tirou um pé da lama e a UNCTAD mostrou que o mundo tem alguns motivos para ficar otimista. No dia 13, Bernanke & cia anunciaram o QE3, contrariando a impressão que havia ficado de Jackson Hole.
- Em 1º de outubro morreu Eric Hosbawm. Fiquei relativamente otimista com a entrada de investimento direto no Brasil. O câmbio dólar / real a 4 completou 10 anos. Roth e Shapley levaram o Nobel de economia.
- Obama foi reeleito no início de novembro, consagrando um tal Nate Silver. Ficou claro que o preço da gasolina no Brasil não subiria neste ano, para desespero do acionista da Petrobras. Paulinho da Viola fez 70. Começou a destruição das ações de companhias elétricas, sobretudo da Eletrobras. Aprendi o que é a Lei de Benford.
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| Chora Chelsea |
Assim este humilde blog viu 2012. Outras retrospectivas melhores e menos viesadas abundam por aí. Nos próximos dias falarei dos livros, filmes e etceteras do ano.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Parece que ganhamos...
... ainda que eu não faça a menor ideia do que está escrito. Agora é encarar a longa volta, piorada pelo pânico de chegar praticamente no mesmo horário que o voo do Corinthians. Quarta voltamos aos trabalhos normais.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Japão
Achei que esta semana ia ter tempo para fazer um post sobre o PIB e outro falando da metade do mandato de dona Dilma; acabou que estou no aeroporto, xingando a conexão gratuita e vai ficar tudo para a volta, quando, provavelmente, só vou ter paciência para fazer os insuportáveis textos de "melhores do ano" e contar os dias para estourar a champanhe de boas-vindas a 2013.
Estou indo ao Japão, estudar o curioso fenômeno da semelhança entre o mapa do país e sua curva de Phillips (ver abaixo, mais aqui). Espero que os eventos por lá nesses dias não atrapalhem a pesquisa de campo. O blog fica em hibernação até dia 18.
Estou indo ao Japão, estudar o curioso fenômeno da semelhança entre o mapa do país e sua curva de Phillips (ver abaixo, mais aqui). Espero que os eventos por lá nesses dias não atrapalhem a pesquisa de campo. O blog fica em hibernação até dia 18.
P.S. VAI CURÍNTIA!
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quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Leituras da Semana
- Analisando as últimas medidas de controle de capitais no Brasil.
- Jack Schwager e a diferença entre volatilidade e risco.
- Entrevista de Michael Mauboussin para a Wired.
- Tim Harford defende a teoria dos mercados eficientes (pelo menos para a grande maioria dos mortais).
- Howard Marks sobre o resultado das eleições americanas.
- A GMO dá adeus a sua carteira de renda fixa.
- Entrevista de Reinhart e Rogoff para a Barron's.
- O último relatório do ótimo Dylan Grice para o Societe Generale.
- Jeffrey Frankel vai a Cuba.
- Ótima entrevista de Felipe González para o Valor.
- Professor, o que o governo pode fazer para promover o crescimento? Partes 1, 2 e 3.
- Robert Solow sobre Hayek e Friedman. Tyler Cowen rebate.
- Ronald Coase (quase 102 anos e bem, obrigado) pedindo pés no chão para os economistas.
- Um debate imaginário entre Michael Sandel e economistas.
- A lista de 100 pensadores globais deste ano da Foreign Policy.
- Cingapura, o país menos emotivo do mundo.
- Começa a temporada de listas de melhores livros do ano: Tyler Cowen (ficção e não-ficção), vários autores para o Guardian, os 100 do New York Times.
- O britânico que visitou, sem usar avião, todos os países do mundo.
- Nova série da ESPN sobre o futebol no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina durante as respectivas ditaduras. Parece interessante.
- Ke$ha + Zizek.
- Adeus, Joelmir Beting.
- Jack Schwager e a diferença entre volatilidade e risco.
- Entrevista de Michael Mauboussin para a Wired.
- Tim Harford defende a teoria dos mercados eficientes (pelo menos para a grande maioria dos mortais).
- Howard Marks sobre o resultado das eleições americanas.
- A GMO dá adeus a sua carteira de renda fixa.
- Entrevista de Reinhart e Rogoff para a Barron's.
- O último relatório do ótimo Dylan Grice para o Societe Generale.
- Jeffrey Frankel vai a Cuba.
- Ótima entrevista de Felipe González para o Valor.
- Professor, o que o governo pode fazer para promover o crescimento? Partes 1, 2 e 3.
- Robert Solow sobre Hayek e Friedman. Tyler Cowen rebate.
- Ronald Coase (quase 102 anos e bem, obrigado) pedindo pés no chão para os economistas.
- Um debate imaginário entre Michael Sandel e economistas.
- A lista de 100 pensadores globais deste ano da Foreign Policy.
- Cingapura, o país menos emotivo do mundo.
- Começa a temporada de listas de melhores livros do ano: Tyler Cowen (ficção e não-ficção), vários autores para o Guardian, os 100 do New York Times.
- O britânico que visitou, sem usar avião, todos os países do mundo.
- Nova série da ESPN sobre o futebol no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina durante as respectivas ditaduras. Parece interessante.
- Ke$ha + Zizek.
- Adeus, Joelmir Beting.
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quinta-feira, 5 de julho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Leituras da Semana - нехай почнеться гра!
- A Playboy americana mandou um repórter para o encontro da American Economic Association, em Denver. Ele voltou com algumas histórias interessantes e levantou uma boa discussão sobre o que separa ortodoxos e heterodoxos, além do tamanho das barbas.
- Falando em heterodoxia: Vladimir Safatle comenta uma nova coletânea de textos de Celso Furtado.
- O badalado discurso de George Soros no Festival de Economia de Trento, na Itália. Ezra Klein e Felix Salmon comentam. Só vi agora que Soros lançou, em fevereiro, um novo livro de ensaios sobre a crise nos EUA e Europa, já está encomendado. Trecho do discurso: "I am not well qualified to criticize the theory of rational expectations and the efficient market hypothesis because as a market participant I considered them so unrealistic that I never bothered to study them." Soros também no Project Syndicate, o conteúdo é praticamente o mesmo do discurso.
- Um ranking de bem-estar, como medido pela OECD.
- Achtung baby: porque a situação da Alemanha é mais perigosa do que se imagina.
- A história dos fluxos de capitais privados para o Brasil, em um gráfico.
- Boa matéria no Valor sobre fundos de trend following.
- Scott Sumner sobre regimes de câmbio fixo.
- Ariel Rubinstein indica cinco livros sobre teoria dos jogos.
- Mark Dow indica livros de finanças e economia comportamental, e fala sobre o modus operandi do FMI.
- Michael Lewis fala para os formandos de Princeton sobre o poder do acaso. The Epicurean Dealmaker comenta.
- O que Adam Smith sabia sobre desigualdade.
- Milton Friedman e uma receita para reviver a economia japonesa... em 1998. Daí vê-se que o monetarismo de mercado não é uma ideia lá muito original - nem pretende ser, creio (h/t Mark Dow).
- Uma ótima (ainda que meio tendenciosa) animação sobre a crise na Espanha, Españistán. É do ano passado, mas só vi há pouco.
- Uma história da família Safra.
- A economia de Seinfeld: dezenas de trechos do seriado exemplificando conceitos econômicos.
- Relatório bacana do banco italiano UniCredit sobre a Eurocopa, que começa hoje. Divertidíssimos os argumentos científicos e racionais do "client's corner". Tese a ser testada este ano: a Alemanha sempre ganha a edição seguinte a uma em que foi derrotada na final.
- A regra mais esdrúxula para definição de senha eletrônica da história.
- Pulp Fiction em ordem cronológica.
- Ver o Real Madrid perder de forma espetacular é sempre bom, não?
E este é o espírito da Irlanda para a Eurocopa, já ganhou minha torcida:
- Falando em heterodoxia: Vladimir Safatle comenta uma nova coletânea de textos de Celso Furtado.
- O badalado discurso de George Soros no Festival de Economia de Trento, na Itália. Ezra Klein e Felix Salmon comentam. Só vi agora que Soros lançou, em fevereiro, um novo livro de ensaios sobre a crise nos EUA e Europa, já está encomendado. Trecho do discurso: "I am not well qualified to criticize the theory of rational expectations and the efficient market hypothesis because as a market participant I considered them so unrealistic that I never bothered to study them." Soros também no Project Syndicate, o conteúdo é praticamente o mesmo do discurso.
- Um ranking de bem-estar, como medido pela OECD.
- Achtung baby: porque a situação da Alemanha é mais perigosa do que se imagina.
- A história dos fluxos de capitais privados para o Brasil, em um gráfico.
- Boa matéria no Valor sobre fundos de trend following.
- Scott Sumner sobre regimes de câmbio fixo.
- Ariel Rubinstein indica cinco livros sobre teoria dos jogos.
- Mark Dow indica livros de finanças e economia comportamental, e fala sobre o modus operandi do FMI.
- Michael Lewis fala para os formandos de Princeton sobre o poder do acaso. The Epicurean Dealmaker comenta.
- O que Adam Smith sabia sobre desigualdade.
- Milton Friedman e uma receita para reviver a economia japonesa... em 1998. Daí vê-se que o monetarismo de mercado não é uma ideia lá muito original - nem pretende ser, creio (h/t Mark Dow).
- Uma ótima (ainda que meio tendenciosa) animação sobre a crise na Espanha, Españistán. É do ano passado, mas só vi há pouco.
- Uma história da família Safra.
- A economia de Seinfeld: dezenas de trechos do seriado exemplificando conceitos econômicos.
- Relatório bacana do banco italiano UniCredit sobre a Eurocopa, que começa hoje. Divertidíssimos os argumentos científicos e racionais do "client's corner". Tese a ser testada este ano: a Alemanha sempre ganha a edição seguinte a uma em que foi derrotada na final.
- A regra mais esdrúxula para definição de senha eletrônica da história.
- Pulp Fiction em ordem cronológica.
- Ver o Real Madrid perder de forma espetacular é sempre bom, não?
E este é o espírito da Irlanda para a Eurocopa, já ganhou minha torcida:
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