terça-feira, 29 de maio de 2012

Um histórico longo de juros no Brasil (2) - a poupança

Continuando a arqueologia do post anterior, cheguei nos seguintes dados, desta vez usando como proxy dos juros o rendimento das cadernetas de poupança, na série disponibilizada pelo Banco Central desde 1967:

Update: corrigi os dados com base na precisa observação do Irineu de Carvalho Filho, que notou que os dados de 1967 a 1983 eram da correção trimestral (e não mensal, como dizia a metadata do Banco Central) da poupança. Obtive os dados mensais aqui. A tabela faz muito mais sentido com essa correção, comentários abaixo.






Se os dados estiverem corretos, algumas possíveis observações:

- Durante muito tempo (1967-1983), a remuneração da poupança foi extremamente generosa. Resta saber se o índice de inflação usado reflete fielmente as variações no custo de vida.


- A vida do rentista ficou menos fácil entre 1984 e 1989, e azedou de vez nos três anos seguintes.Depois disso, a poupança sempre perdeu para os juros overnight.

- Impressionante como o mecanismo de indexação conseguiu manter por muito tempo (trinta anos) um rendimento real médio entre 3% e 5% ao ano ao longo das décadas. Períodos problemáticos foram entre 1979 e 1980 (com o segundo choque do petróleo e a inflação acelerando) e 1989 - 1990 (com a hiperinflação e o plano Collor). Ainda assim, o investidor de longo prazo sempre foi compensado.

- Os rendimentos reais caíram significativamente nos anos 2000, com a Selic entrando em tendência de queda depois da desvalorização de 1999 e a inflação já estabilizada (com um soluço em 2002). Em 2010 e 2011, foram metade da média da década anterior, menos de 1% em termos reais. Muito curioso ver como isso coincide com um período de grande desenvolvimento do mercado de capitais e mudança no perfil da dívida pública, a estabilização da inflação com câmbio flutuante parece ter feito muito bem ao país (temos também a feliz coincidência do boom de commodities a partir de 2003).

Aguardo os tradicionais, generosos e benvindos comentários. Agradeço ao Fernando Hadba pela sugestão, do post anterior, de estimar o juro real mês a mês; e ao Irineu, pelas correções neste post.

P.S. Quanto mais mexo nesses dados, mais me parece justificada a conveniência de assumir que esse aspecto da história econômica do Brasil só começou em 1994.

12 comentários:

Irineu de Carvalho Filho disse...

Envia os dados para mim (idecarvalhofilho imf org). Achei os numeros da poupanca nos anos 60-70 bem estranhos. Eu posso checar com alguns dados que eu tenho acesso.

Drunkeynesian disse...

Já mando, Irineu. Obrigado!

J disse...

Acho que um problema possível da série (principalmente do post anterior) é calcular o juro real usando a inflação passada.
Em tese o juro nominal embute a expectativa de inflação 12 meses a frente. Como não tinhamos pesquisa focus ou títulos negociando inflação implícita naquela época fica dificil de eliminar corretamente a inflação para fazer a conta.
Acredito que uma solução alternativa é supor informação perfeita, isto é, que os agentes tivessem plena previsibilidade da inflação futura e, assim, ao inés de deflacionar pela inflação dos últimos 12 meses utilizar a dos 12 meses seguintes.
Isso deve causar uma grande diferença principalmente em períodos de inflação acelarando, como visto nos anos 80.

Irineu de Carvalho Filho disse...

Um problema dos dados nos anos 60-80 é que esses retornos devem ser trimestrais, e não mensais. Por isso que o retorno real está tão alto.

Drunkeynesian disse...

Não sei, Irineu... a tabela diz que é % p.m. , precisaria bater com outra fonte.

J, dá pra fazer isso (e usa-se os dois conceitos, é a diferença entre ex-ante e ex-post que o Fernando comentou no outro post). Nessa tabela da poupança, eu usei o rendimento no início do mês contra a inflação fechada do mês (que só era sabida depois), portanto eliminaria esse efeito que você mencionou.

Irineu de Carvalho Filho disse...

Drunken,

Acho que nao precisa bater com outra fonte. O money market rate em 1969 era 20% ao ano. O mercado financeiro nao poderia oferecer poupanca as taxas abaixo mensais:

Jan-69 6.622
Apr-69 5.722
Jul-69 3.86
Oct-69 7.643

Talvez vc seja novo demais e nao se lembre, a poupanca era uma aplicacao que pagava juros a cada 3 meses. Acho que faz todo sentido que os numeros no website do banco central sejam juros trimestrais (entre datas da poupanca).

Drunkeynesian disse...

Concordo, Irineu, faz todo sentido sua observação. Acho estranho porque o BC diz que toda série é de juros ao mês, mas devo estar confiando demais no cuidado deles ao tratar os dados. Vou ver se mando um e-mail perguntando (e aguardo os 3 meses até responderem).

Drunkeynesian disse...

Essas tabelas, se corretas, vão em linha com o que você observou: http://www.debit.com.br/consulta30.php?indice=poupanca

Vou recalcular usando elas.

JGould disse...

DK(Indiana Jones das poupanças), se quiser dá uma olhada nesses dados. Há pequenas discrepâncias nas txs. nominais em relação aos seus dados. Acho que as taxas anuais estão equivocados, deveriam computar de Abr-Jan e não Jan-Out.

abs

http://www.portalbrasil.net/poupanca_mensal_antigos.htm

Drunkeynesian disse...

JGould, eu corrigi o post com outros dados... vê se faz mais sentido agora.

Gewinn Investimentos disse...

Tenho uma pergunta...
Segundo os seus dados, o investimento em poupança sempre gerou ganhos reais(salvo raras excessões). Já os juros geraram muitos resultados negativos. Hoje os investimentos de RF são pagos de acordo com a SELIC, mas e no passado? Se pagassem como hoje os investidores teriam prejuízos nominais... Ai vem a minha pergunta, como funcionavam os investimentos em RF?

Drunkeynesian disse...

Boa pergunta, e eu precisaria pesquisar pra te responder com alguma propriedade. A primeira lembrança que tenho de correção monetária para investimentos é via ORTN. Aqui (http://pt.wikipedia.org/wiki/Obriga%C3%A7%C3%A3o_Reajust%C3%A1vel_do_Tesouro_Nacional) diz que o reajuste ficou aquém da inflação, mas não cita fonte.