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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Notas sobre o petróleo barato

Uma conversa pelo Twitter me inspirou a escrever isso, que deve muito também ao ótimo curso que fiz com o Francisco Monaldi.

—Muito se confundem dois conceitos essenciais para a exploração: breakeven e custo marginal.

  • Breakeven é o preço necessário, por barril, para que um determinado projeto de exploração tenha lucro. A definição de lucro aqui não é uniforme, mas, geralmente, corresponde a uma taxa de retorno acima do custo de capital para o projeto. Como esse custo varia muito em função do risco-país e do tipo de exploração, as taxas de retorno correspondentes aos preços de breakeven também variam: o retorno exigido para furar um poço raso na Arábia Saudita é muito menor, por exemplo, do que o de um projeto de águas ultraprofundas na costa de Angola, e este, portanto, requer um preço do petróleo maior como breakeven. 
  • Custo marginal é, simplesmente, quanto custa para se extrair um barril de petróleo adicional em um poço em funcionamento. 
O preço relevante para determinar se um projeto continuará ou não a ser explorado é o custo marginal, já que o investimento inicial (sunk cost) é geralmente, intransferível e não pode ser recuperado. Em outras palavras, um projeto seguirá produzindo petróleo mesmo se tiver que vender o óleo a um preço muito abaixo do breakeven (tendo prejuízo no projeto), desde que esse preço seja maior do que o custo marginal. É, portanto, errado dizer que o petróleo a tal preço "inviabiliza" a exploração no pré-sal: alguns investimentos já foram feitos ou estão contratados, e os projetos seguirão mesmo que, ao longo do tempo, não se provem lucrativos. Não conheço bem os projetos da Petrobras a ponto de fazer uma análise mais profunda, mas saber o que vai acontecer com o pré-sal é mais complicado do que bater o olho na cotação do petróleo e cravar uma resposta. 

O gráfico abaixo (daqui, clique para aumentar) mostra o breakeven dos principais projetos de petróleo no mundo. Para o poço de Libra, por exemplo, o preço é algo como US$65. Se esse poço vai ou não ser explorado caso o petróleo fique ao redor de US$40, como disse, depende da estratégia da Petrobras, incluindo o quanto a empresa está disposta a perder dinheiro em nome do "projeto nacional" (mais uma variável difícil de se estimar).



—O extremo do gráfico é o campo de Kashagan, no Cazaquistão. O projeto já consumiu US$48 bilhões e está 12 anos atrasado—e depende de uma distante volta do petróleo a US$100/barril para dar lucro.

—A resposta de um produtor a preços mais baixos, em muitos casos, pode ser aumentar a produção (desde que, como vimos, o preço ainda seja mais alto que o custo marginal). É o que tem feito a Arábia Saudita, o produtor mais eficiente e com folgas mais evidentes na produção; e é o que provavelmente está tentando fazer a Venezuela, no desespero do regime chavista para gerar receita e se manter no poder (o lado positivo disso pode ser uma reforma na PDVSA, a empresa estatal de óleo, progressivamente sucateada nos últimos anos).

—A inviabilidade mais evidente está nos projetos de shale gas nos Estados Unidos, onde os breakevens e custos marginais mais se aproximam. Esses projetos, diferentemente dos tradicionais, maturam em pouco tempo e têm o pico de produção no início da exploração. O avanço na tecnologia pode fazer com que, mesmo a preços menores, a exploração seja viável, mas, no curto prazo, o boom nas regiões produtoras deve arrefecer.

—A tecnologia de produção do shale gas é uma Espada de Dâmocles para os produtores de petróleo: se o preço do barril subir, produção adicional torna-se viável e pode ser acionada de forma relativamente rápida, assim como também passa a ser viável tentar recuperar produção de poços que eram dados como esgotados—em ambos os casos, a oferta aumenta e os preços são pressionados para baixo. Em algum lugar, Schumpeter tira sarro de Malthus.

—Muito do ponto anterior está no trabalho algo profético (de 2012) de Leonardo Maugeri. Maugeri acredita que, até 2020, o principal fator de aumento na produção global de petróleo é o renascimento dos campos do Iraque, algo que pode já estar acontecendo:
Crude Oil Production, Iraq, Monthly

—A queda nos preços deveria ser uma excelente oportunidade para o mundo começar a se livrar dos US$5,3 trilhões em subsídios oferecidos aos preços de combustível. A ver quem vai dar esse passo.

—Por fim, sempre bom lembrar:
“The Stone Age did not end for lack of stone, and the Oil Age will end long before the world runs out of oil.”

terça-feira, 7 de julho de 2015

O que aprendi no mestrado

Estou há uns 3 meses enrolando pra escrever este post, que deve servir tanto para compartilhar um pouco da minha experiência com os nobres leitores quanto como um longo epitáfio para esses dois últimos anos. Agora que (temporariamente) acabaram minhas desculpas para falta de tempo livre, aqui estamos. Parte da enrolação também é devida à minha completa inabilidade de conseguir olhar para o passado em transições—vamos ver como me saio aqui.

Um bom resumo de tudo é este cartum do SMBC:

O mestrado me empurrou ladeira abaixo do "Mount Stupid" em muita coisa que eu achava que "sabia" (o sumiço do blog é, em parte, consequência disso). É muito difícil encontrar algo pra falar sobre um assunto que: i.você domina bem a ponto de saber que o básico já foi dito em outro lugar, ii. você não tem conhecimento suficiente para dizer algo que passe pelo seu novo filtro de autocrítica e, iii. você sabe de um monte de gente que escreveria melhor e com mais propriedade. Outra dificuldade associada é descer do nível de rigor e abstração que a academia impõe, que em grande medida não serve para o tal "mundo real" (i.e., a maioria dos empregos), nem para tocar um blog de público mais amplo. Acho que com o tempo vou achando um novo equilíbrio e me soltando, mas quando eu desandar a falar muito sobre qualquer coisa, tenham em mente que é mais provável que eu esteja no topo do tal Mount Stupid. 

Outras observações mais leves e, talvez, mais úteis (vou completando ao longo do tempo):

—Um outro lado do que disse acima talvez seja a tal "humildade epistêmica": saber mais sobre o tamanho do corpo de conhecimento sobre determinado assunto e a quantidade de incertezas que o cercam é o equivalente mental a levar uma surra daquele baixinho de quem você subestimou a força e chamou pra briga.

—Nessa linha, claro que a minha antibiblioteca aumentou muito por lá.

—A academia americana é muito mais generosa do que eu imaginava, pelo menos para quem consegue passar do portão. A grande maioria dos professores está disposta a gastar muito tempo com alunos, seja abrindo espaço na agenda para reuniões, respondendo e-mails ou compartilhando papers, bases de dados, códigos, etc. Um paraíso comparado ao clima de torre de marfim que predomina em alguns departamentos aqui no Brasil. Claro que alguns egos são de fato enormes e subindo na cadeia alimentar o clima talvez não seja assim tão amistoso, mas, no geral, até os professores mais famosos são acessíveis e dispostos a colaborar. No fim das contas, acho que tudo aquilo depende de uma troca incessante de ideias, e quem se isola tende a sair perdendo.

—Não dá para, hoje em dia, ser cientista social empiricista e não saber lidar com volumes colossais de dados, tanto para extrair informação e testar hipóteses quanto para gerar visualizações convincentes. Na maioria dos meus cursos usamos Stata, que é bem amigável e relativamente poderoso, mas não chega perto da fronteira. Jovens, aproveitem os neurônios frescos para aprender logo R ou Python. E a fronteira de verdade, mesmo em ciência política, está em machine learning.

—Definições são extremamente importantes, sobretudo se você não vai usar matemática para expressar seu raciocínio. O que pode parecer neutro e preciso muitas vezes carrega juízos de valor, ideologias e um monte de premissas implícitas. Sempre é bom procurar saber o que o autor quer dizer com termos que são contestáveis—muitas vezes percebe-se que ele próprio não sabe. Nessa linha, o Politics and the English Language, do Orwell, merece ser relido regularmente.

—Os trade-offs saber fazer conta/ter bom raciocínio lógico e analítico x escrever bem/ser criativo/ser articulado não existem (isso eu já deveria saber). A separação dessas habilidades é coisa da preguiça intelectual daqui, ou: dá para negligenciar totalmente um lado se você for um artista genial ou um teórico brilhante, mas para nós, mortais, é muito melhor quando os dois lados se completam.

—Muitas conclusões "definitivas" e pseudocientíficas são tiradas a partir de amostras muito pequenas. Identificação causal em ciências sociais é um pesadelo.

—A boa política pública, aprendemos, deve ser tecnicamente correta, administrativamente factível e politicamente apoiável (esta é a santíssima trindade da Kennedy School). Calculem aí o quanto é difícil fazer isso em contextos de falta de mão de obra qualificada, interesses de pequenos grupos infiltrados há séculos na política e falta de capacidade de implementação do estado. Vivemos condenados a um mundo de "second" (ou "third", "fourth"...) bests.

—Microeconomia é muito mais legal (e difícil) do que eu sempre achei—cortesia tanto da minha ignorância quanto de uma horrenda geração de professores da FEA-USP.

—E, já que é pra falar mal da alma mater: é incrível notar como a USP transforma(va?) uma geração de bons estudantes (privilegiados, claro, mas tantos outros privilegiados não passavam no vestibular) em vagabundos desinteressados, e como uma universidade excelente faz algo totalmente diferente. A maioria dos meus colegas da Poli e da FEA não é menos "inteligente" que meus colegas de Harvard, mas a maioria teve trajetórias acadêmicas medíocres e enormes potenciais frustrados ou adiados, em grande medida, creio, por um sistema de incentivos que não leva o aluno a querer aprender e perseguir seus interesses. Também é chocante notar que é muito mais fácil encontrar alunos negros em Harvard do que em algumas das unidades da USP.

Tenho um monte de outras observações de caipira brasileiro deslumbrado com os EUA, mas vou poupá-los delas. Em um post futuro, falarei mais sobre o programa de mestrado que cursei.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O gráfico mais libertino da história?

Está na última The Economist, cuja matéria de capa fala sobre como a internet está liberalizando o comércio de sexo—cortando intermediários, distribuindo informação, tornando toda transação mais segura, etc. A revista analisou 190 mil perfis de um "site internacional de reviews" para montar uma base de dados para a matéria. O grande Alvin Roth provavelmente diria que esse é mais um mercado que está deixando de ser repugnante. De qualquer jeito, vai ser interessante olhar a seção de cartas na semana que vem.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O último capítulo da convergência de salários entre mulheres e homens

Claudia Goldin, economista de Harvard, dedica parte da sua carreira a estudar o que determina a diferença de salários entre homens e mulheres nos Estados Unidos. No passado não muito distante, a diferença era facilmente explicada pela diferença de produtividade entre os gêneros (fortemente associada ao tempo médio de escolaridade) e pela maioria das mulheres trabalhando em setores tipicamente com baixa remuneração. Ao longo dos últimos 50 anos, o primeiro fator foi praticamente eliminado: em 2006, a própria Goldin e seus coautores mostraram que mulheres eram maioria entre estudantes universitários nos EUA. A convergência em educação contribuiu para que a remuneração média por hora de mulheres passasse de 59% para 77% do equivalente para homens.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Imagina na Copa (versão transporte aéreo e hotéis)

Noticiou-se no fim de semana que o governo avalia alternativas para evitar a cobrança de preços “abusivos” durante a Copa do Mundo. Os principais potenciais “abusadores” são hotéis e companhias aéreas, sendo que, no caso destas, estuda-se abrir, por meio de medida provisória, o mercado de voos domésticos para companhias estrangeiras. Nas palavras da ministra chefe da casa civil Gleisi Hoffmann, em entrevista para a Folha de S. Paulo: “Queremos que os preços deem retorno para os empresários, mas que sejam preços justos na época dos grandes eventos.” A definição de “preço justo”, no caso, passa por qualquer metodologia, menos a mais simples e menos arbitrária: deixar o mercado definir.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Frases do Dia - África e rent seeking (deve valer pra América Latina, também)

Rent seeking in our [African] economies is not a more or less important phenomenon, as would be the case in most economies. It is the centerpiece of our economies. It is what defines and characterizes our economic life.

H.E. Prime Minister Meles Zenawi of Ethiopia, September 5, 2000. Tirada deste (ótimo) paper de Lant Pritchett sobre a (ausência de) retornos da educação para o crescimento.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As últimas leituras do ano..

... já que semana que vem começam minhas provas e não deve sobrar tempo pra diletantismo:

- McKinsey sobre os efeitos dos juros muitos baixos no mundo na distribuição.

- Stiglitz descendo a lenha na política de subsídio agrícolas dos EUA.

- O último Journal of Economic Perspectives sobre os 100 anos do Fed, com textos de Bernanke, Eichengreen, Feldstein, Sandel...

- Na visão (bem mercantilista) de Dani Rodrik, os verdadeiros heróis da economia global são: Áustria, Canadá, Filipinas, Lesoto e Uruguai.

- Robert Solow sobre crescimento igualitário.

- Teoria dos jogos aplicada a jantares.

- Coletânea de gráficos bacanas sobre as megacidades do mundo.

- Pankaj Mishra dá seus pitacos sobre o arranca-rabo entre Amartya Sen e Jagdish Bhagwati.

- Esporte e crescimento com redistribuição.

- A Irlanda está destruindo projetos residenciais abandonados.

- A América Latina enriqueceu e diminuiu desigualdade, mas o crime nunca foi tão alto.

- Tim Harford sobre renda mínima universal. A Suíça vai votar um pagamento mensal de 2.500 francos para cada adulto.

- O megatorneio de previsões de Philip Tetlock e Dan Gardner.

- Mangabeira Unger no BBC Hardtalk.

- Philip Roth x Bertrand Russell.

- John Gray esculachando Malcolm Gladwell.

- Os muros do mundo no Guardian.

- Já é aquela época do ano, de novo: as listas de melhores livros do ano do New York Times e do Financial Times.

- Os cinco melhores ensaios de George Orwell.

- A viagem de ônibus de 96 horas e 5.800 quilômetros (mesma distância de Nova York a Ocotal, Nicarágua) entre São Paulo e Lima.

- Se os times da NFL fossem para o futebol europeu...

- Forte candidata a foto do ano.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O petróleo é (40%) nosso

A descoberta de petróleo no pré-sal segue sendo para o Brasil algo como um dom divino da mitologia grega: uma benesse acompanhada de vários problemas. Cassandra tinha o dom de antever o futuro, mas ninguém acreditava em suas previsões; Héracles tinha força e inteligência extraordinárias, mas foi destemperado a ponto de estrangular os próprios filhos e ter que sofrer com 12 trabalhos quase impossíveis para ser perdoado; e o Brasil foi dotado com uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, mas ainda não sabe bem como explorá-la ou o que fazer quando os petrodólares começarem a aparecer.

O texto completo está no Estadão.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Uma frase sobre matemática

Será?

What, then, to raise the old question once more, is mathematics? The answer, it appears, is that any argument which is carried out with sufficient precision is mathematical, and the reason that your friends and ours cannot understand mathematics is not because they have no head for figures, but because they are unable to achieve the degree of concentration required to follow a moderately involved sequence of inferences.

De College Admissions and the Stability of Marriage, D. Gale e L.S. Shapley, 1962.

sábado, 21 de setembro de 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Já que não dá tempo de escrever...

... vou, descaradamente, apelar para um clipping de imagens (ideal para os leitores que sofrem do mesmo problema que eu):

1. Outra tirinha do Calvin sobre economia (na verdade é uma versão resumida da que eu tinha publicado aqui). Roubado do Economistas Xs.


2. Esta capa espetacular, triste e desesperadora da última New Yorker, desenhada pelo Adrian Tomine. Acho que vale por um tratado de centenas de páginas sobre os problemas de quem vive em megacidades hoje em dia. Mais aqui.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Rent-seeking e o jogador de 100 milhões de euros

A grande notícia desta temporada de transferências no futebol europeu foi a venda do galês Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid por alegados 100 milhões de euros. Não vou tentar discutir aqui quantos Neymares deve valer Bale, mas sim alguns aspectos econômicos por trás do negócio (e já peço desculpas ao vizinho Roberto de Lira por roubar um potencial assunto dele).
Primeiro, o que determina o preço de um jogador? Se considerarmos que o atleta é um ativo do clube onde atua, seu preço poderia ser estimado como o de uma ação ou título de renda fixa, trazendo a valor presente toda receita estimada que ele trará ao clube durante sua passagem. Porém, contar com isso é arriscado: para cada Cristiano Ronaldo, que no primeiro ano em Madri vendeu 1,2 milhão de camisas só na cidade e ajudou a arrecadar estimados 120 milhões de euros, existem tantos outros Ibrahimovics ou Fernandos Torres, que passaram longe de justificar o valor dos seus passes quando foram transferidos, respectivamente, para Barcelona e Chelsea.
O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Gráfico do Dia - investimentos

Roubado do Humble Student of the Market (clique para aumentar). Talvez, só talvez, tanto tempo com taxa de investimento tão elevada tenha acabado com qualquer possibilidade de retorno seguro para os investimentos mais recentes. Mas ninguém liga pra lucros e fluxos de caixa, né?


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Uma piada e um estudo sobre sorte & carreira

A piada velha é a seguinte (estou transcrevendo de orelha e sou péssimo para contar piadas, portanto não estranhem se não acharem graça nenhuma): um chefe abriu uma vaga, e recebeu 500 candidaturas. Seu assistente chegou com a pilha de currículos impressos. O chefe olhou para a pilha, separou meia dúzia aleatoriamente e mandou jogar os outros no lixo, respondendo ao assistente, que não estava entendendo o método: "não preciso de gente sem sorte aqui". Corta para o mundo real, estudo citado nesse ótimo post do Free Exchange:

in which they applied for 3,000 clerical, administrative, sales and customer-service jobs advertised online by submitting 12,000 fictitious cvs. The submissions were designed so that applicants with similar backgrounds, education and experience went for the same job. The only difference was how long the applicant had been jobless, a period that ranged from no time at all to as much as 36 months…They found that the odds of an applicant being called back by an employer declined steadily as the duration of unemployment rose, from 7.4% after one month without work down to 4-5% at the eight-month mark, where the call-back rate stabilised. 
The design and results of the experiment excluded three common explanations for why the long-term unemployed stay that way; that employers spot some qualitative flaw in the applicant’s resume; that the unemployed themselves search less energetically as unemployment lengthens; or that employers equate lengthening unemployment with atrophying skills:
These results strongly suggest that long-term unemployment is at least partly self-fulfilling. Like patrons who avoid restaurants purely because they are empty, employers were reluctant to hire someone other employers didn’t want. 
If their inference is correct, the implication is troubling: someone who ends up unemployed through bad luck, and for some idiosyncratic reason doesn’t quickly land a job, finds his chances of reemployment diminish until he’s part of the long-term unemployed.

Já fui grande fã de meritocracia (ao ponto babaca de ter, por um tempo, parado de desejar "boa sorte" aos amigos que iam fazer alguma prova, entrevista de emprego ou similar), por achar que, ao longo da vida e da carreira, de fato os melhores acabavam se destacando. Com o tempo, tanto por ler quanto por observar ao meu redor, fui mudando de opinião, ao ponto que hoje acho que o tal "mérito" só passa a valer cumpridas uma série de condições que têm muito mais a ver com o puro acaso do que qualquer outro indicador. Por conta disso, acho que duas tarefas muito nobres para economistas e outros cientistas sociais são (i) nivelar as condições de partida, para que a trajetória de vida não dependa tanto do acaso que determina onde, de que cor, gênero, etc, uma pessoa nasce e (ii) mostrar como a sorte é preponderante em vários aspectos e corrigir processos (como o de busca por emprego) de forma que os azarados tenham mais chances. Os trabalhos citados no Free Exchange são muito interessantes nesta linha.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Alguns pitacos de economista sobre as tarifas de ônibus em São Paulo

Como o assunto é quente e eu não consigo me segurar, aí vai minha opinião amadora:

- Se o serviço de transporte urbano fosse 100% privado e cobrasse um preço de mercado (que permitisse pagar por toda a operação em um padrão decente e garantisse um lucro de mercado para o capitalista), provavelmente o preço da passagem seria muito mais alto do que o atual. Num modelo como o de São Paulo, em que a tarifa é a mesma para a cidade toda, linhas mais lucrativas financiariam linhas menos lucrativas (mas necessárias) e a tarifa seria uma média; se fosse permitida segmentação, provavelmente haveria muita diferença de preço entre linhas.

- O modelo de São Paulo envolve empresas privadas e subsídios públicos, de forma que a tarifa é o resultado de um equilíbrio entre (i) quanto as empresas precisam receber para ter algum lucro, pagar os empregados e manter o serviço em um padrão mínimo (ainda longe do ideal, claro); (ii) quanto a prefeitura pode gastar em subsídios e (iii) quanto os passageiros podem pagar.

- Quanto maior a distância entre a tarifa e o preço de mercado definido acima, maior tem que ser o subsídio dado pela prefeitura às viações. Quanto maior o subsídio, mais sensível é o tema de distribuição: a prefeitura arrecada de todos os cidadãos e, nesse caso, gasta mais ou menos com os que utilizam o transporte público. O orçamento municipal é limitado e costumeiramente apertado, o que implica que um aumento no subsídio deve levar a cortes em outras áreas, criação de novas receitas ou mais endividamento.

- Com todas essas restrições, se os custos das empresas de fato aumentam com o tempo, se o lucro dessas empresas é compatível com o mercado, e se o orçamento da prefeitura está no limite, não resta alternativa a aumentar a tarifa. Sem o aumento, ou o serviço piora, ou as viações saem do mercado, ou a prefeitura gasta o que não pode e compromete outras áreas essenciais (claro que o ideal seria cortar salário de vereador, regalias, etc... mas isso não dá pra resolver numa canetada).

- Eu não gosto do modelo atual, envolvendo o setor privado. Preferiria uma operação 100% pública (ainda que, no contexto atual, entenda que é preciso tirar a execução do setor público para que funcione), e aí a discussão seria outra: da essencialidade do serviço e como seus custos e benefícios são distribuídos. Como acho tratar-se de um serviço essencial e utilizado sobretudo pelos mais pobres, vejo bastante sentido em dar um subsídio pesado, cobrar uma tarifa bastante baixa e compensar com alguma taxa ou imposto progressivo - algo como implementar um pedágio urbano ou um imposto sobre os combustíveis e fazer com que os motoristas particulares financiem o sistema. Mas, de novo, pra fazer isso é preciso tirar o setor privado da jogada. Quer envolver o setor privado, tem que garantir um lucro compatível com o risco da operação e do mercado. Sair disso é botar a operação em risco ou tentar compensar "por fora", gerando incentivos para corrupção e negociatas.

- Considerando a realidade de São Paulo hoje, levantar a bandeira de "tarifa zero" é puro populismo, canalha ou mal pensado. Pode-se avaliar passos nessa direção (como descrevi acima), mas não dá para imaginar que é possível, de um dia para outro e só com "vontade política", liberar todas as catracas da cidade. Também seria desejável todo cidadão ter saneamento básico em casa, educação decente e tudo mais que está na Constituição, mas não tem ninguém parando a cidade por isso, talvez por haver um consenso na sociedade de que esses problemas complexos têm resoluções demoradas.

- Mesmo em uma cidade onde o orçamento fosse pensado considerando transporte público serviço essencial e dever da prefeitura, provavelmente haveria bons motivos para a tarifa não ser zero - dar à população noção dos custos, estudos que mostram que o patrimônio público é melhor preservado se o preço é usado para atribuir algum valor a ele, regular minimamente a demanda, facilidade na divisão do orçamento, alguma competição entre as secretarias municipais, etc... Pessoal de economia comportamental, ajude aqui.

- Apelando para uma regra de bolso minha (= a melhor política pública do mundo está na Noruega, e eles já pensaram muito bem em tudo isso), a passagem de ônibus em Oslo custa 30 coroas, mais ou menos o mesmo preço de uma lata de Coca-Cola por lá (ambos absurdamente altos para nós, mortais, algo como 11 reais) - e ninguém duvida que a capital do país mais rico do mundo poderia abolir a tarifa, de modo que esse preço deve servir para sinalizar alguma coisa. Em São Paulo essa relação, grosso modo, também se observa. Porém, pensando que o problema de distribuição aqui é muito mais agudo, a tarifa deveria ser mais baixa, mas aí voltamos aos problemas listados acima.

- Outra questão curiosa é: por que esse aumento de 2013, com o brasileiro médio na sua melhor situação de emprego / renda em muitos anos, tem gerado tantos protestos, muito mais do que outros dados com o país em condições muito piores? Deixo essa para os sociólogos de plantão.