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quinta-feira, 8 de março de 2018

Faz sentido pensar em auditoria da dívida?

São Tufte chora
Só pra começar o ano por aqui e requentar um texto que saiu no ano passado no Acredito e no Brasil Economia e Governo. Logo volto.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

The reports of my death have been grossly exaggerated

Mas, vergonhosamente, eu ainda não havia postado nada no ano da graça de 2017.

Continuo não conseguindo produzir material original pra colocar aqui, mas vou aproveitar para requentar algumas coisas que escrevi para o Acredito e pro trabalho.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O que aprendi no mestrado

Estou há uns 3 meses enrolando pra escrever este post, que deve servir tanto para compartilhar um pouco da minha experiência com os nobres leitores quanto como um longo epitáfio para esses dois últimos anos. Agora que (temporariamente) acabaram minhas desculpas para falta de tempo livre, aqui estamos. Parte da enrolação também é devida à minha completa inabilidade de conseguir olhar para o passado em transições—vamos ver como me saio aqui.

Um bom resumo de tudo é este cartum do SMBC:

O mestrado me empurrou ladeira abaixo do "Mount Stupid" em muita coisa que eu achava que "sabia" (o sumiço do blog é, em parte, consequência disso). É muito difícil encontrar algo pra falar sobre um assunto que: i.você domina bem a ponto de saber que o básico já foi dito em outro lugar, ii. você não tem conhecimento suficiente para dizer algo que passe pelo seu novo filtro de autocrítica e, iii. você sabe de um monte de gente que escreveria melhor e com mais propriedade. Outra dificuldade associada é descer do nível de rigor e abstração que a academia impõe, que em grande medida não serve para o tal "mundo real" (i.e., a maioria dos empregos), nem para tocar um blog de público mais amplo. Acho que com o tempo vou achando um novo equilíbrio e me soltando, mas quando eu desandar a falar muito sobre qualquer coisa, tenham em mente que é mais provável que eu esteja no topo do tal Mount Stupid. 

Outras observações mais leves e, talvez, mais úteis (vou completando ao longo do tempo):

—Um outro lado do que disse acima talvez seja a tal "humildade epistêmica": saber mais sobre o tamanho do corpo de conhecimento sobre determinado assunto e a quantidade de incertezas que o cercam é o equivalente mental a levar uma surra daquele baixinho de quem você subestimou a força e chamou pra briga.

—Nessa linha, claro que a minha antibiblioteca aumentou muito por lá.

—A academia americana é muito mais generosa do que eu imaginava, pelo menos para quem consegue passar do portão. A grande maioria dos professores está disposta a gastar muito tempo com alunos, seja abrindo espaço na agenda para reuniões, respondendo e-mails ou compartilhando papers, bases de dados, códigos, etc. Um paraíso comparado ao clima de torre de marfim que predomina em alguns departamentos aqui no Brasil. Claro que alguns egos são de fato enormes e subindo na cadeia alimentar o clima talvez não seja assim tão amistoso, mas, no geral, até os professores mais famosos são acessíveis e dispostos a colaborar. No fim das contas, acho que tudo aquilo depende de uma troca incessante de ideias, e quem se isola tende a sair perdendo.

—Não dá para, hoje em dia, ser cientista social empiricista e não saber lidar com volumes colossais de dados, tanto para extrair informação e testar hipóteses quanto para gerar visualizações convincentes. Na maioria dos meus cursos usamos Stata, que é bem amigável e relativamente poderoso, mas não chega perto da fronteira. Jovens, aproveitem os neurônios frescos para aprender logo R ou Python. E a fronteira de verdade, mesmo em ciência política, está em machine learning.

—Definições são extremamente importantes, sobretudo se você não vai usar matemática para expressar seu raciocínio. O que pode parecer neutro e preciso muitas vezes carrega juízos de valor, ideologias e um monte de premissas implícitas. Sempre é bom procurar saber o que o autor quer dizer com termos que são contestáveis—muitas vezes percebe-se que ele próprio não sabe. Nessa linha, o Politics and the English Language, do Orwell, merece ser relido regularmente.

—Os trade-offs saber fazer conta/ter bom raciocínio lógico e analítico x escrever bem/ser criativo/ser articulado não existem (isso eu já deveria saber). A separação dessas habilidades é coisa da preguiça intelectual daqui, ou: dá para negligenciar totalmente um lado se você for um artista genial ou um teórico brilhante, mas para nós, mortais, é muito melhor quando os dois lados se completam.

—Muitas conclusões "definitivas" e pseudocientíficas são tiradas a partir de amostras muito pequenas. Identificação causal em ciências sociais é um pesadelo.

—A boa política pública, aprendemos, deve ser tecnicamente correta, administrativamente factível e politicamente apoiável (esta é a santíssima trindade da Kennedy School). Calculem aí o quanto é difícil fazer isso em contextos de falta de mão de obra qualificada, interesses de pequenos grupos infiltrados há séculos na política e falta de capacidade de implementação do estado. Vivemos condenados a um mundo de "second" (ou "third", "fourth"...) bests.

—Microeconomia é muito mais legal (e difícil) do que eu sempre achei—cortesia tanto da minha ignorância quanto de uma horrenda geração de professores da FEA-USP.

—E, já que é pra falar mal da alma mater: é incrível notar como a USP transforma(va?) uma geração de bons estudantes (privilegiados, claro, mas tantos outros privilegiados não passavam no vestibular) em vagabundos desinteressados, e como uma universidade excelente faz algo totalmente diferente. A maioria dos meus colegas da Poli e da FEA não é menos "inteligente" que meus colegas de Harvard, mas a maioria teve trajetórias acadêmicas medíocres e enormes potenciais frustrados ou adiados, em grande medida, creio, por um sistema de incentivos que não leva o aluno a querer aprender e perseguir seus interesses. Também é chocante notar que é muito mais fácil encontrar alunos negros em Harvard do que em algumas das unidades da USP.

Tenho um monte de outras observações de caipira brasileiro deslumbrado com os EUA, mas vou poupá-los delas. Em um post futuro, falarei mais sobre o programa de mestrado que cursei.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Mestre

Acabaram minhas férias na Disneylândia intelectual e depois de amanhã estou de mudança, de volta para o Brasil. Depois escrevo algo sentimentaloide e pseudo-profundo sobre a experiência; por ora fiquem com essa brilhante citação (infelizmente não sei quem é o autor para poder dar o devido crédito).



domingo, 5 de outubro de 2014

Vota, Brasil!

Concordei com meu ex-chefe em uma discussão, há alguns dias: a democracia no Brasil nunca esteve tão forte e vibrante (se ainda assim parece problemática, lembremos da base de comparação— coroneis, populistas, militares, malucos—e de que dá pra afirmar sem parecer maluco que a democracia representativa minimamente decente começou há não muito mais que 20 anos).

Perdi a data de registro no consulado e não vou poder votar; este seria meu voto. Que nossos representantes, quaisquer que sejam, continuem a ampliar a democracia e as possibilidades de escolha dos que os elegeram.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O que aprendi sobre a Alemanha

Algumas surpresas que descobri numa curta temporada na terra do lado certo dos 7 a 1 (saque-as naquela discussão de boteco em que alguém solta o inevitável "essas baixarias só acontecem no Brasil"):

—Brandenburg, o novo aeroporto de Berlim, vem sendo construído desde 2006. Inicialmente, a inauguração era prevista para novembro de 2011; depois, foi adiada para junho de 2012. Semanas antes do início das operações, o órgão supervisor anunciou um novo adiamento (de nove meses) por causa de falhas no sistema anti-incêndio. A promessa mais recente de inauguração é 2016, mas os jornais dizem que a estimativa mais realista é 2018. O orçamento inicial, de 2,8 bilhões de euros, foi aumentado em junho para 5,4 bilhões;

—O Hertha, maior time de futebol da capital, é patrocinado pela Deutsche Bahnhof, quase monopolista controlada pelo estado (mas de capital misto, tal qual a Petrobras) responsável pelas ferrovias alemãs;

—Annette Schavan, ministra da educação até fevereiro do ano passado, perdeu o título de doutorado (e o cargo) depois de uma acusação de plágio em sua dissertação;

—O governo de Gerhard Schröder concedeu um empréstimo de um bilhão de euros à petrolífera russa Gazprom semanas antes do fim da liderança dele, em 2005. Logo depois, Schröder foi contratado pela Gazprom para um cargo executivo (esses últimos dois itens estão num texto recente do Perry Anderson que apareceu traduzido em uma edição recente da piauí);

—Bônus, Espanha (também do texto do Anderson): Luis Bárcenas, tesoureiro do partido do primeiro ministro por 20 anos, está preso por ter acumulado 48 milhões de euros em uma conta não-declarada na Suíça. Quando o escândalo estourou, Rajoy mandou uma mensagem de texto a Barcenas dizendo: "Luis, eu entendo. Fique forte. Ligo para você amanhã. Um abraço."

terça-feira, 29 de julho de 2014

Mais uma opinião sobre o "Santandergate"

Ando pensando muito no "caso Santander", tanto pelo o que representa quanto porque muita gente me pergunta a respeito. Na preguiça de fazer um texto coerente, aí vão alguns aspectos que me chamam a atenção, em itens mais ou menos independentes:

--É enorme a ignorância quanto à organização e funcionamento de um banco grande. Para esclarecer minimamente: primeiro, há várias áreas que empregam economistas, cujas opiniões não necessariamente coincidem. Da mesma forma, a opinião corporativa (o que "o banco" pensa) pode ser bastante distinta do que é passado aos clientes. Parece confuso, mas é um jeito de evitar conflitos de interesse e evitar que o banco revele sua estratégia.

De forma mais concreta: os bancos tipicamente têm um economista-chefe, que é o responsável pela área de pesquisa econômica. Geralmente é quem faz as projeções "oficiais" para as variáveis macroeconômicas e é o economista com o qual o público geralmente associa a instituição. Esse economista e sua equipe atendem, na maior parte do tempo, os clientes institucionais do banco, que têm negócios com a tesouraria, a corretora e as áreas de relacionamento com empresas.

Outras áreas de negócios têm seus próprios economistas, como a gestão de recursos, private banking e varejo. Esses atendem suas respectivas áreas e, de novo, podem ter opiniões divergentes das do economista-chefe. Sua função é orientar os clientes para que tomem melhores decisões de investimento com base no que acham que vai acontecer com o cenário econômico.

Curiosamente, os economistas mais importantes para a instituição não são todos esses, e sim os que atendem a tesouraria (há casos em que a equipe do economista-chefe é a mesma que atende a tesouraria, porém), que é a área que opera com o capital próprio do banco . Esses muito raramente publicam opiniões, mas são os que realmente influenciam como o banco vai alocar seus recursos e especular. Ainda mais importante é o comitê de ativos e passivos, que recebe opiniões de diversos economistas (entre eles o economista-chefe e o responsável pela tesouraria) e toma as decisões mais estratégicas, levando ou não em conta o que ouve. Por cima disso tudo estão os acionistas, representados pelos executivos. No caso do Santander, o capital é relativamente pulverizado, mas a família Botín ainda parece ter peso enorme no direcionamento do grupo.

--Dentro da instituição há uma hierarquia informal de prestígio e relevância. Com todo o respeito aos profisionais envolvidos, o responsável por escrever a nota que gerou toda a polêmica está muito longe (na verdade, isolado—pelo bom motivo, mencionado acima, de tentar evitar conflitos de interesse e pela distância hierárquica até os altos comitês) das principais decisões do banco e de uma virtual "opinião oficial" da companhia.

--A probabilidade de uma análise que é distribuída para um segmento do varejo ter qualquer efeito nos mercados é bem próxima de zero. Daí o ridículo de se comparar a situação a episódios passados que envolvem declarações do George Soros ou achar que há qualquer tentativa de influenciar no resultado das eleições.

--O tamanho do barulho por, efetivamente, quase nada, é muito mais interessante do que a nota em si. Algumas coisas para pensar:
  • Como a necessidade da imprensa de, todo dia, criar manchetes que geram repercussão acaba distorcendo a importância relativa de notícias e cria factoides;
  • A enorme insegurança do PT e do governo—mesmo depois de 12 anos no poder, ainda parecem ter necessidade de mostrar que o mercado financeiro não tem porque temê-los;
  • A grande (e assustadora) mobilização da máquina de propaganda e relações públicas do governo para abafar uma opinião que, se ignorada, não teria nenhuma consequência prática;
  • A ridícula ideia de que, entre as prioridades de um governo, tem que estar "agradar o mercado", e partindo daí, numa distorção em cima da distorção, concluir que o desempenho da bolsa ou do câmbio são boas métricas de sucesso ou fracasso relativos;
  • A preferência de uma grande empresa privada por agradar o governo contra defender ter uma opinião independente ou preservar seus funcionários (mais sobre isso abaixo).
--De um dos itens acima: o episódio serve também para observar como a opinião geral sobre especulação é distante da realidade (até grandes como o Elio Gaspari costuma escorregar aqui). Para alguns palpiteiros, especular é fácil e traz lucros garantidos: basta plantar um boato, comprar ou vender ativos, esperar o mercado se mover e contar o dinheiro. No mundo real, salvo em casos de manipulações (que são muito mais plausíveis na negociação de ações de uma empresa específica do que em uma classe de ativos ou do elusivo "risco-país"), os mercados frequentemente teimam em não seguir roteiros pré-determinados, e é estatisticamente impossível lucrar com informação velha—os eventuais lucros de quem tenta fazer isso são obra do acaso, e não determinados pelo sucesso de um plano. O jogo de expectativas, tão bem descrito por Keynes no capítulo 12 da Teoria Geral, é muito mais complexo e imprevisível do que normalmente se supõe; e o tipo de especulação com a qual bancos conseguem lucrar é de outra natureza.

--Quanto à reação do Santander, também há muito a ser entendido. Se partirmos da ideia básica de que a finalidade, direta ou indireta, de qualquer ação estratégica do banco é gerar lucros para os acionistas, a preferência por "cortar na carne" a defender um princípio de independência pode indicar:
  • Um baixo valor atribuído a tal princípio: mesmo ante uma pequena ameaça aos lucros é preferível se submeter às "regras do jogo" ditadas pelo governo. Isso, acredito, não é totalmente específico ao Santander: diz algo sobre o ambiente de negócios do Brasil e a cultura da matriz. É de se imaginar como seria vista uma interferência desse tipo nos Estados Unidos, onde liberdade de expressão é um direito quase sagrado ou, pelo menos, está seguramente acima de qualquer melindre político; ou se o controle do Santander não fosse espanhol;
  • Uma real ameaça aos lucros futuros como consequência da nota do economista—esta viria, possivelmente, de alguma retaliação do governo contra a companhia caso esta não se "enquadrasse." Isso, sim, é de deixar os cabelos em pé. Minha tese (a ser desenvolvida quando eu for agraciado com o milagre do tempo livre abundante) é que o Estado brasileiro tem se tornado cada vez mais um poderoso arbitrador de lucros do setor privado: os lucros de "livre mercado" são muito baixos para atrairem investimentos, e qualquer empresa grande que opera no país depende, em alguma medida, de rent seeking—extração de lucros acima da média de mercado, mediada pelo governo. Isso é uma marca do capitalismo brasileiro, mas que parece ter se aprofundado com o PT pós-Palocci;
  • Qualquer combinação desses dois extremos, claro.
--Ainda sobre o Santander, também há o que se pensar da relação do banco com o país. Foi o único grupo estrangeiro a conseguir manter relevância entre os grandes bancos de varejo, provavelmente não por acaso. Isso começou, creio, com a cartada certeira da compra do Banespa, a um valor que, na época, parecia injustificável (o lance que ganhou o leilão de privatização foi muito maior do que os dos concorrentes) mas que, em poucos anos, se provou uma pechincha e uma demonstração de cojones dos espanhois quando pouca gente acreditava que o país decolaria. Depois, em 2002, seguindo um episódio muito parecido com o recente, o banco parece ter sido dos primeiros a "fechar" com Lula: nós acreditamos na "Carta ao Povo Brasileiro" e evitamos criticar a política econômica, vocês garantem um ambiente em que consigamos operar no Brasil (esta matéria da Bloomberg conta um pouco dessa história). Tal acordo de cavalheiros (ou de capi) parece valer, com as devidas mudanças no contexto, até hoje (outro episódio ilustrativo é o que, há alguns anos, envolveu críticas a Petrobras e o mesmo Santander). Não é necessária muita criatividade maquiavélica para imaginar como poderia ser diferente, partindo da ideia do governo como arbitrador de lucros que coloquei acima somada a algum nacionalismo (mais abaixo).

--Um exercício interessante é pensar quanto do episódio é aumentado pelo Santander ser controlado por capital estrangeiro. Como seria a repercussão de exatamente o mesmo relatório feito pelo Bradesco? Ou pelo Banco do Brasil? Parece haver também um componente de nacionalismo rasteiro, exacerbado pelo clima de eleições e polarização política, onde um partido é, claramente, "amigo" do mercado e o incumbente faz questão de deixar opaca a forma de como pretende tocar a economia depois das eleições. Também a frase "o que esses espanhois, com 25% de desemprego, querem palpitar no Brasil" parece se encaixar bem na média dos discursos de líderes petistas.

--Grandes empresas têm o que pode ser visto como uma "censura interna": ao menos uma área (compliance) é responsável por verificar se as informações tornadas públicas pela companhia não violam nenhuma lei e, mais sutilmente, não vão contra diretrizes internas, que, novamente, visam proteger os lucros ou algum outro interesse corporativo. O episódio ganha uma nuance interessante se pensarmos nele como uma falha dessa área: parece relativamente claro que um relatório do tipo do que foi divulgado traz um risco de repercussão negativa e que poderia ser modificado de forma a passar exatamente o mesmo recado de forma mais sutil (isso é uma arte que qualquer economista que já trabalhou em algum banco brasileiro precisa aprender a dominar). Caso isso tivesse acontecido, a polêmica provavelmente não existiria. É bruto, cínico e abominável, mas é como o jogo é jogado (e o lambari é pescado, completaria o saudoso Luciano do Valle).


Esclarecimento (talvez) necessário: trabalhei no Santander de 2001 a 2007, e devo muito da minha carreira (não é grande coisa, mas é a que tenho) ao banco e aos colegas e amigos que encontrei por lá. Não tenho como não ser grato por isso.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

5 motivos para o blog estar abandonado

1. É Copa

2. É Copa

3. Falta de tempo (bom, era até algumas semanas atrás, agora virou uma muleta conveniente)

4. Falta de assunto (não acho que tem muito valor ficar repetindo que a política econômica do Brasil é ruim, e os assuntos que venho estudando me parecem de menor interesse geral)

5. Crise em conciliar as ideias que eu tinha com o que aprendi em um ano de mestrado: ao mesmo tempo não me sinto confortável em usar algo que ainda não domino, e algo do que eu fazia antes me parece hoje vergonhosamente simplista.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Drunkeynesian Awards 2013

Atrasado, mas (acho que) ainda a tempo de manter a "tradição":

Notícia mais importante do ano: a decisão da China de flexibilizar a política de filho único

Troféu "calça de veludo ou bunda de fora": Eike Batista, claro (ainda que esteja longe de ter ficado pobre como pessoa física)

Troféu Paracelso: Arno Augustin, o homem do método das partidas triplicadas (a cada débito podem corresponder um ou mais créditos)

Troféu Pirro, para o vencedor da guerra cambial: Irã, que desvalorizou a moeda em mais de 50% ao longo do ano

Troféu Judas no Sábado de Aleluia: Malcolm Gladwell, malhado como nunca pelo seu David and Goliath 

Treta intelectual do ano: Amartya Sen x Jagdish Bhagwati sobre a Índia

Cefalópode do Ano: o polvão do NROL-39

Ideia econômica do ano (micro): distribuição direta de dinheiro para pessoas (por governos, ONGs, etc)

Ideia econômica do ano (macro): o forward guidance de Michael Woodford

Ideia econômica do ano passado, requentada pelo Larry Summers: a "grande estagnação" do mundo desenvolvido - até onde sei, o papo começou com esse paper de Robert Gordon

Troféu "Muito Barulho por Nada": Chipre, que na cabeça de alguns analistas (este incluído, em alguma medida) começaria a afundar o euro. A história recente da Europa tem sido um oceano de água gelada na cabeça dos que gostam de fazer previsões catastróficas (novamente me incluo aqui)

Factóide do ano: a "inflação do tomate". Podia ser também o "caráter transformador das manifestações de junho", mas não quero comprar essa briga (ops...)

Descoberta arqueológica do ano na internet: o vídeo do dr. Eneas explicando (em Inglês) o novo sistema de Bretton Woods

Maior brasileiro do ano: o Rei do Camarote, claro

Maior brasileiro vivo: Paulinho da Viola, também claro

Nobel de Linguística: deveria ser criado especialmente para celebrar Thamsanqa Jantjie

Melhor série de TV: Breaking Bad, que entra para a história a apenas um Grand Canyon de distância para The Wire

Pior capa de um disco bom: a do novo do Chick Corea

Descoberta musical do ano: Melissa Aldana, saxofonista chilena de 25 anos

Troféu Bolas de Aço: David Ortiz

Melhor Twitter: @zambininha, na luta incessante contra as várias categorias de normatividade

Estagiário do Ano: o que revisou as planilhas Excel de Reinhart & Rogoff e falou "tá beleza, pode publicar"

Troféu "vou fingir que não estou vendo essa gracinha aí": Michelle Obama. Aliás, saudades da Birgitte Nyborg.



Fotos do Ano: prêmio dividido entre:

- O presidente da Venezuela, em guerra permanente contra não se sabe bem o quê (parece uma versão vida real da Corrida Maluca, também):


- As coisas estranhas que acontecem quando resolve nevar em Jerusalém:


- O amor (correspondido) de Nigella Lawson pela coxinha:


- Esse dragão de Komodo anônimo, apropriadamente vestido para festejar:



2013 foi um ano complicado de se analisa. Ainda bem que, pra este ano, basta falar da Copa e das Eleições, assuntos simples e que não geram polêmica.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tchau, 2013...

Dou por encerrado o ano aqui no blog. Ainda devo alguns posts referentes ao ano que está acabando, mas vão ficar pra volta. Como de costume, muitíssimo obrigado pela audiência e generosidade. Comam demais e bebam demais, a época é pra isso, mesmo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Retrospectiva Drunkeynesian 2013

Sim, começou aquela série de posts olhando em retrospectiva para o meu próprio umbigo:

- Janeiro começou com as tradicionais previsões para o ano (confiro na primeira semana do ano que vem, já podem ir rindo da vergonha de algumas barbaridades). Listei 10 coisas que não entendia (e sigo não entendendo) na política econômica do governo. Começou o baile que levei do Ibovespa no ano, assim como ficou claro que é difícil operar ações no Planeta Bizaro.

- Em Fevereiro, Adam Gopnik compartilhou um belíssimo insight sobre decisões que deve me acompanhar por bastante tempo. O sofrimento com o Ibovespa continuou e o PT lançou uma cartilha picareta sobre seus 10 anos no poder.

- David Bowie lançou um disco novo em Março, o primeiro em dez anos. Hugo Chávez morreu, lançando uma série de discussões sobre como a economia venezuelana andou nos anos em que ele esteve no poder. Consuelo Dieguez publicou, na piauí, uma ótima matéria sobre o etanol no Brasil. O monumental Getz/Gilberto completou 50 anos, assim como o primeiro single dos Beatles. Num final de semana, o Chipre resolveu dar um sustinho nos mercados, que passou incrivelmente rápido (o proverbial "muro de preocupações" ia sendo escalado com relativa facilidade).

- Fiz um estudozinho sobre capital e alavancagem de bancos em Abril, que depois foi aproveitado em uma discussão bacana da Bertelsmann Foundation. Começou (e terminou) a histeria com o preço do tomate. O BNDES completou 60 anos, maior do que nunca. Morreram Margaret Thatcher e o gigante Paulo Vanzolini, a academia pegou fogo com os erros de cálculo de Reinhart e Rogoff e o Banco Central passou a publicar uma série de preços de imóveis que vai ser muito útil no futuro (além de ter começado a subir a Selic).

- Dilma ganhou um presentão em Maio. Descobri o verdadeiro DNA de Janet Yellen, que já despontava como favorita para suceder Bernanke no Fed. Um astronauta fez o mundo se emocionar com uma música velha e o BC acelerou a alta de juros.

- Em Junho o Ibovespa já havia caído mais de 20% no acumlado do ano e as moedas de emergentes tomavam uma surra do poderoso dólar americano. Escrevi um dos textos que mais gostei na história deste blog; os protestos começaram a correr soltos pelo Brasil. Pol Antràs, de Harvard, montou uma lista bacana com seus 50 papers favoritos. Morreu Marc Rich, o cara que inventou o mercado internacional de petróleo.

- Julho começou sem o Google Reader e com o Império X entrando em coma terminal. A Jornada Mundial da Juventude aconteceu no Rio. Saiu o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil.

- Em Agosto mudei para os EUA, minha vida terminou de virar pelo avesso e o blog passou a ficar meio abandonado. O dólar fez a máxima no ano contra o real, devidamente sinalizada pela mídia.

- Em Setembro estreou a versão deste blog debaixo do portal do Estadão. Saez e Piketty atualizaram um trabalho importantíssimo sobre distribuição de renda nos EUA. Começou a aparecer a baixaria da NSA.

- Em Outubro a The Economist botou na capa o foguete Brasil perdendo o rumo, para o bem do nosso complexo de vira-lata.  Fama, Shiller e Hansen dividiram o Nobel, a arqueologia da internet achou essa aula de economia política pelo finado dr. Enéas e Eike Batista quebrou de vez.

- Novembro viu a tentativa de registro do primeiro ataque especulativo fiscal da história.  Na que deve ter sido a notícia mais importante do ano, a China anunciou que vai flexibilizar a política de filho único. Janet Yellen foi confirmada como próxima presidenta do Fed e a Selic retornou aos dois dígitos.

- O mundo perdeu um gigante em Dezembro. O Galo passou vergonha em Marrocos, o SPTV anuncia o que vai abrir e o que vai fechar no Natal e, bom, todo mundo deve estar festejando o fim de mais um ano e ninguém vai ler isso aqui (mais ainda devo minhas listas de filmes, livros, etc).

Feliz Natal, queridos leitores, continua sendo um prazer contar com vossa companhia virtual para cornetar sobre esse mundo esquisito ao nosso redor.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

OGX, *2008 †2013



Foi o maior IPO da história da Bovespa, foi o arquétipo do capitalismo de compadrio petista, foi um dos mais espetaculares e rápidos fracassos da história das companhias. Vá em paz, OGX, o Brasil fica melhor sem você (e o país que deixou uma companhia dessas quebrar certamente é melhor do que o contrafactual que a salvaria e seria bem plausível num passado não muito distante).

No mais, tudo o que eu tinha pra dizer sobre o Eike e suas empresas está aqui (Ai-que), aqui (As consequências econômicas do sr. Batista) e aqui (Frases do Dia - Eike Batista x Hugh Hendry). No fim das contas, tenho que dar o braço a torcer para os analistas que miraram na última perna da derrocada, mas sustento o racional deste post. O resto vocês vão cansar de ler na mídia nos próximos dias, e com sorte algum bom meio vai desenrolar o novelo que vai da massa falida da OGX até o governo federal. Torçamos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Expandindo os domínios

Hoje estreou no portal do Estadão O Andar do Economista Bêbado, a versão menos diletante deste blog. Apareçam por lá, também.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Brasil de volta a tempos de déficit comercial

Enquanto governado pelo Partido dos Trabalhadores, o Brasil não conheceu nenhum ano de déficit comercial: o último registrado foi em 2000, encerrando uma série de seis déficits anuais consecutivos que seguiram o Plano Real. A forte depreciação do real em 2001 e 2002 contribuiu para uma nova série de superávits, que ganhou força com o início do melhor ciclo de alta dos preços das exportações brasileiras em muitas décadas. Hoje, a combinação de um já dado arrefecimento nos preços de commodities (e uma possível reversão no ciclo secular de alta) com anos de crescimento nas importações deve levar a um saldo comercial próximo a zero neste ano (o último consenso de mercado, pelo relatório Focus do Banco Central, é de um superávit de pouco mais de US$ 5 bilhões).

O restante do texto está no Comex do Brasil.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Do que vou sentir falta em São Paulo

Este texto foi publicado originalmente em maio, no blog da Mundus.

Daqui a alguns meses, depois de 33 anos morando em São Paulo, me despeço, temporariamente. O fato de, nesse tempo todo, eu nunca ter saído da cidade por mais que algumas semanas diz tanto sobre a minha preguiça para mudanças quanto a incrível quantidade de oportunidades, em todos os aspectos da vida, que encontrei aqui. É bastante fácil não gostar de São Paulo, sobretudo pela maldita trindade poluição / violência / trânsito; amar a cidade leva muito tempo, o suficiente para desenvolver certo senso de resignação e esquecer que existem lugares melhores no mundo (e, de qualquer maneira, o Tejo é belo, mas não é o rio que passa por aqui). Abaixo uma lista meio preguiçosa das coisas das quais acho que vou sentir saudades no próximo par de anos:

- Pastel de feira, clichê entre os clichês, mas minha comida de rua preferida do mundo todo. Mais ainda por, geralmente, carregar um gostinho de subversão, por estar se entupindo de massa frita, carne moída e queijo derretido antes de colocar qualquer outra coisa no estômago no dia (aliás, pastel existe em três sabores: carne, queijo e palmito. As demais variações são perversões desnecessárias do conceito). Feira livre também é uma delícia, mas esta tem equivalentes fora daqui (infelizmente não necessariamente com vendedores tão bem humorados).

- Poder beber na rua, sem necessidade de esconder a lata ou garrafa em um ridículo saquinho de papel. Poder comprar bebida a qualquer hora, em qualquer lugar, privilégio que muitos habitantes de paraísos da liberdade no mundo não têm. 

- Os shows do SESC. O modelo do SESC tem muito do que detesto no Brasil, sustentado por contribuições compulsórias e regressivo por natureza. Nesse caso, porém, vou ser egoísta e julgar pelos resultados, não pelo princípio. Como acho que ouvir música ao vivo é das atividades mais sublimes a que podemos nos dedicar, devo muitos dos pontos altos da minha vida ao SESC. Lá vi Banda Mantiqueira, Paulo Vanzolini, Paulinho da Viola, Ornette Coleman, Christian Scott, Chris Potter, Andre Mehmari & Hamilton de Holanda, Hermeto Pascoal, Yusef Lateef, Rosa Passos, etc, etc, etc; tudo barato, organizado, com ótima infraestrutura e em horários decentes. Civilização deve ser algo desse tipo.

- Os botecos, lugares mágicos onde o tempo se comprime e horas vão passando entre conversas sérias e reflexivas, discussões que nunca levam a lugar nenhum, bobagens irrepetíveis em outros ambientes, chopes, petiscos e talagadas irresponsáveis de steinhäger ou cachaça. Poucas coisas me deixam mais feliz do que reservar uma tarde e uma noite (e, possivelmente, a manhã seguinte, para lidar com a ressaca) para se dedicar a isso. Rei das Batidas, Zé Gordo, Pirajá, São Cristóvão, Empanadas, Frangó, Veloso, Zur Alten Mühle, Léo e aquele bar anônimo de esquina, que não fecha nunca e sempre tem cerveja gelada e uns petiscos meio suspeitos numa vitrine aquecida, um top 10 de coração.

- Andar na avenida Paulista, que pra mim segue sendo uma atração turística de primeira, dos melhores lugares que conheço para simplesmente ver gente (claro que também ajuda o monte de cinemas, livrarias, bares e restaurantes ao redor).

- Poder dirigir duas horas e meia (OK, com alguma sorte) e chegar às praias que são acompanhadas pela Rio-Santos. O litoral de São Sebastião a Ubatuba é magnífico, não deve nada a outros mais falados (mas não menos visitados). Concedo que também é ótimo poder pegar um voo de três quartos de hora e pousar no Rio de Janeiro, mas as saudades do Rio eu deixo para outro texto.

- Por fim, acima de tudo isso, das paulistanas e paulistanos, porque não se sai de um relacionamento tão intenso de três décadas sem criar raízes. Imagine fazer todas essas coisas supostamente legais listadas aí em cima sem companhia - pior ainda quando olho para trás e vejo que tive a sorte de encontrar aqui gente tão generosa e interessante, disposta a compartilhar de sua alegria de viver. Este humilde texto é, no fundo, uma homenagem a todos vocês.

domingo, 4 de agosto de 2013

Ch-ch-changes...

Certa vez um repórter questionou o grande Cristiano Ronaldo sobre uma sequência de partidas sem gols pelo Real Madrid. Grande conhecedor de fluídos não-newtonianos, o "puto de ouro" respondeu que "gols são como ketchup: de repente começam a sair aos montes". Tomo a metáfora emprestada para falar de mudanças na vida, que também são como ketchup. E, para mim, 2013 foi o ano em que o ketchup saiu de vez.

Em março, soube que fui aceito num programa de mestrado que queria fazer há pelo menos seis anos, e foi sendo adiado até que, no fim do ano passado, resolvi fazer uma última tentativa.

Em abril, me apaixonei por um gordo careca e desdentado, que apareceu meio de repente e virou minha vida pelo avesso:


No fim de julho, interrompi minha carreira de 12 anos no mercado financeiro.

E amanhã estou de mudança para os Estados Unidos para cursar o tal mestrado, que deve terminar em maio de 2015.

Enfim, estou colocando um ponto-e-vírgula na minha carreira, e não tem como o blog não mudar com isso. Enquanto eu trabalhava numa mesa de operações, na frente do computador durante quase todo o tempo, escrever sobre economia e mercados era algo quase natural - parte um jeito de organizar minhas ideias e tê-las arquivadas, parte um projeto de "procrastinação estruturada" (só fui aprender que era um conceito bem depois de, inconscientemente, ter começado a aplicá-lo). Voltando à academia, creio que meu tempo livre vai ser menor, e me informar sobre o que está acontecendo no mundo passa a ser algo que, provavelmente, não fará parte da minha rotina de "trabalho". Dito isso, não sei bem o que isso vai virar - talvez um diário de paulistano resmungão exilado, reclamando do clima e da falta de coxinha e requeijão; talvez passe a falar mais de desenvolvimento e teoria econômica e menos de mercado financeiro e conjuntura. O que parece quase certo é que a frequência dos posts deve diminuir. Durante os últimos quatro anos, escrevi quase diariamente; agora preciso descobrir como vou conseguir encaixar o blog na minha nova rotina. De qualquer maneira, não quero parar, e os masoquistas que gostam de ler o que escrevo em breve poderão fazê-lo em outros meios - aviso das novidades quando elas se concretizarem.

Por fim, aproveito o tal ponto-e-vírgula para agradecer aos que passaram por aqui (e pelo twitter) pela generosidade que fez de The Drunkeynesian (modestia à parte por alguns instantes) um sucesso - relativo, moderado e em um nicho bem específico, mas muito maior do que eu poderia imaginar quando comecei a escrever aqui.

Tem um par de posts programados para os próximos dias. Volto com novidades assim que conseguir me assentar na Obamalândia. Até breve!


quarta-feira, 20 de março de 2013

III ENBECO

Não vou poder ir a Vitória, mas o encontro deve ser bacana, cheio de gente interessante. O cartaz (clique para aumentar) está aí embaixo; mais informações com os incansáveis Shikida e Cristiano.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Conferindo outra aposta do ano passado

Como sabemos, não é possível nadar em dinheiro real...
Em maio do ano passado, quando saiu a oferta inicial de ações do Facebook, propus uma troca virtual da empresa por ações da Danone e da 3M. Hoje a situação seria a seguinte:

Valor de mercado do Facebook: US$62 bilhões
Valor de mercado da 3M: US$66 bilhões
Valor de mercado da Danone: US$24 bilhões

Simplificando, ganhei uma Danone virtual e estou virtualmente bilionário. Troco essa condição por um bom almoço, sabendo que não vai aparecer ninguém para pagar. Segue a vida.