- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.
- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.
- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.
- Charles Gave prevê uma depressão para a França.
- Entrevista da Salon com Jim Chanos.
- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.
- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.
- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.
- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.
- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.
- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).
- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.
- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?
- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.
- Como investir na Coreia do Norte.
- O tratado definitivo sobre tretas na internet.
- Uma tabela periódica do jazz.
- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.
- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e a de Waking Life para a série Great Movies.
- Literatura erótica, literalmente.
- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.
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quarta-feira, 10 de abril de 2013
Leituras da Semana
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Os Livros de 2012
A exemplo dos anos anteriores, aí vai o que achei de melhor nas minhas leituras onívoras de bom neste ano curto (vai acabar amanhã, logo, teremos alguns dias a menos):
Economia, mercados e afins:
- Diary of a Very Bad Year (2010)
Série de entrevistas de um (muito inteligente) gestor de hedge funds anônimo para a revista n+1 ao longo da crise de 2007 - 2009. Grande maneira de ver como pensam esses profissionais e um ótimo documento histórico para o período.
- Hedge Fund Market Wizards, Jack Schwager (2012)
Jack Schwager adiciona mais um bom título para sua série Market Wizards. Dos melhores aprendizados para quem senta ou quer sentar em uma mesa de operações.
- Bumerangue, Michael Lewis (2011)
Compilação ligeiramente modificada das matérias que Michael Lewis fez para a Vanity Fair após a crise. Resenhei aqui.
- Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets, John McMillan (2003)
Livro fascinante e isento (na medida do possível) de ideologias sobre essa instituição tão discutida e pouco compreendida. Mais satisfatório ainda ver que passou incólume pelas várias mudanças de paradigma dos últimos anos.
- Economix: How and Why Our Economy Works (and Doesn't Work), in Words and Pictures, Michael Goodwin e Dan E. Burr (2012)
Uma ótima e honesta introdução à história do pensamento econômico, em forma de quadrinhos. Deve ser um ótimo material didático.
- American Sucker, David Denby (2005)
Denby é o crítico fodão de cinema da New Yorker; este livro é o relato da tragédia pessoal dele quando ele se divorciou e resolveu tentar surfar na bolha do Nasdaq, entre 1999 e 2001. Além da crônica dos tempos, é mais uma grande lição de como pessoas muito eruditas e inteligentes às vezes deixam-se levar por manias irracionais.
Temas menos mundanos:
- The Memory Chalet, Tony Judt (2011) e Thinking the Twentieth Century, Tony Judt e Timothy Snyder (2012)
O legado final do grande Tony Judt. Resenhei o primeiro aqui e separei alguns trechos do segundo aqui.
- Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti (1999)
Não só li com 13 anos de atraso, como li antes de sair a nova edição. De qualquer jeito e com todas as falhas e vieses possíveis, parece um livro essencial para compreender o Brasil.
- Imperium, Ryszard Kapuscinski (1995)
Kapuscinski e sua relação com o império soviético, desde a época de estudante na Polônia-satélite até a dissolução nos anos 90. Muito bom conhecer um pouco de cada uma das repúblicas, que soam tão obscuras pra gente do outro lado do mundo.
- A Perfeição Não Existe, Tostão (2012)

Não bastasse ter jogado o que jogou, Tostão tem o melhor texto da imprensa esportiva brasileira.
- The Hare with the Amber Eyes, Edmund de Waal (2011)
Justificou todo o hype. De Waal usa miniaturas de porcelana para contar a história de sua família em algumas das cidades mais agitadas do mundo no final do século XIX / início do século XX.
- Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious, Gerd Gigerenzer (2007)
Ótimo contraponto à moda corrente de economia comportamental. Gigerenzer mostra como o inconsciente às vezes joga a nosso favor e o valor da simplicidade e heurística.
- Diário da Corte, Paulo Francis (2012)
Legal voltar a ler Francis, aqui escrevendo, entre 1976 e 1990, para a Folha. Tem uma resenha minha aqui.
- De Carona com Buda: o Japão de Cabo a Cabo, Will Ferguson (2007)
Ótima companhia para a viagem ao Japão. Ferguson foi de uma ponta a outra do Japão pegando carona com os locais e tentando decifrá-los.
Ficção:
- The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, Michael Chabon (2000)
Um dos favoritos do NPTO, não à toa.
- A Chave de Casa, Tatiana Salem Levy (2007)
Das autoras da minha geração que mais gostei de conhecer, sobre a relação de pessoas com lugares e o passado conhecido e desconhecido.
- Neve, Orhan Pamuk (2006)
O comitê do Nobel às vezes acerta. Livro lindíssimo.
- Two Caravans, Marina Lewycka (2008)
Uma nota abaixo do anterior, mas ainda muito engraçado. Quero muito ler o mais recente.
- The Marriage Plot, Jeffrey Eugenides (2011)
Também justifica o hype, ainda que eu tenha uma compaixão assumida por histórias de síndromes de Peter Pan mal resolvidas.
- O Rei Branco, György Dragomán (2009)
Ser criança na Romênia comunista não era fácil. Muito bom quando um livro comprado pelo simples motivo de estar no saldão da Fnac surpreende tão positivamente.
- The Dinner, Herman Koch (2009)
Comprei pela empolgação da The Economist, que raramente fala tão bem de ficção. Difícil não ler em uma só sentada.
- A Megera Domada, Shakespeare (circa 1590)
Nunca é tarde demais pra começar a ler Shakespeare, né? Ótima tradução do Millôr na edição da L&PM.
Quadrinhos
- Habibi (2011) e Carnet de Voyage (2004), Craig Thompson
O primeiro é um épico delirante e ridiculamente bem desenhado, o segundo é um diário de viagem de um americano meio caipira, observador e muito sensível (e também ridiculamente bem desenhado).
- Box Office Poison, Alex Robinson (2001)
Dos tantos quadrinhos que falam da vida de jovens em grandes cidades, esse é o que mais me agradou.
- Deus, Essa Gostosa, Rafael Campos Rocha (2012)
Poucos sabem, mas Deus é uma negra escultural, dona de um sex-shop. Merece muitas continuações.
- Toda Rê Bordosa, Angeli (2012)
Toda a obra do Angeli merece ser eternizada em livro, este é um bom começo.
Economia, mercados e afins:
- Diary of a Very Bad Year (2010)
Série de entrevistas de um (muito inteligente) gestor de hedge funds anônimo para a revista n+1 ao longo da crise de 2007 - 2009. Grande maneira de ver como pensam esses profissionais e um ótimo documento histórico para o período.
- Hedge Fund Market Wizards, Jack Schwager (2012)
Jack Schwager adiciona mais um bom título para sua série Market Wizards. Dos melhores aprendizados para quem senta ou quer sentar em uma mesa de operações.
- Bumerangue, Michael Lewis (2011)
Compilação ligeiramente modificada das matérias que Michael Lewis fez para a Vanity Fair após a crise. Resenhei aqui.
- Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets, John McMillan (2003)
Livro fascinante e isento (na medida do possível) de ideologias sobre essa instituição tão discutida e pouco compreendida. Mais satisfatório ainda ver que passou incólume pelas várias mudanças de paradigma dos últimos anos.
- Economix: How and Why Our Economy Works (and Doesn't Work), in Words and Pictures, Michael Goodwin e Dan E. Burr (2012)
Uma ótima e honesta introdução à história do pensamento econômico, em forma de quadrinhos. Deve ser um ótimo material didático.
- American Sucker, David Denby (2005)
Denby é o crítico fodão de cinema da New Yorker; este livro é o relato da tragédia pessoal dele quando ele se divorciou e resolveu tentar surfar na bolha do Nasdaq, entre 1999 e 2001. Além da crônica dos tempos, é mais uma grande lição de como pessoas muito eruditas e inteligentes às vezes deixam-se levar por manias irracionais.
Temas menos mundanos:
- The Memory Chalet, Tony Judt (2011) e Thinking the Twentieth Century, Tony Judt e Timothy Snyder (2012)
O legado final do grande Tony Judt. Resenhei o primeiro aqui e separei alguns trechos do segundo aqui.
- Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti (1999)
Não só li com 13 anos de atraso, como li antes de sair a nova edição. De qualquer jeito e com todas as falhas e vieses possíveis, parece um livro essencial para compreender o Brasil.
- Imperium, Ryszard Kapuscinski (1995)
Kapuscinski e sua relação com o império soviético, desde a época de estudante na Polônia-satélite até a dissolução nos anos 90. Muito bom conhecer um pouco de cada uma das repúblicas, que soam tão obscuras pra gente do outro lado do mundo.
- A Perfeição Não Existe, Tostão (2012)

Não bastasse ter jogado o que jogou, Tostão tem o melhor texto da imprensa esportiva brasileira.
- The Hare with the Amber Eyes, Edmund de Waal (2011)
Justificou todo o hype. De Waal usa miniaturas de porcelana para contar a história de sua família em algumas das cidades mais agitadas do mundo no final do século XIX / início do século XX.
- Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious, Gerd Gigerenzer (2007)
Ótimo contraponto à moda corrente de economia comportamental. Gigerenzer mostra como o inconsciente às vezes joga a nosso favor e o valor da simplicidade e heurística.
- Diário da Corte, Paulo Francis (2012)
Legal voltar a ler Francis, aqui escrevendo, entre 1976 e 1990, para a Folha. Tem uma resenha minha aqui.
- De Carona com Buda: o Japão de Cabo a Cabo, Will Ferguson (2007)
Ótima companhia para a viagem ao Japão. Ferguson foi de uma ponta a outra do Japão pegando carona com os locais e tentando decifrá-los.
Ficção:
- The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, Michael Chabon (2000)
Um dos favoritos do NPTO, não à toa.
- A Chave de Casa, Tatiana Salem Levy (2007)
Das autoras da minha geração que mais gostei de conhecer, sobre a relação de pessoas com lugares e o passado conhecido e desconhecido.
- Neve, Orhan Pamuk (2006)
O comitê do Nobel às vezes acerta. Livro lindíssimo.
- Two Caravans, Marina Lewycka (2008)
Uma nota abaixo do anterior, mas ainda muito engraçado. Quero muito ler o mais recente.
- The Marriage Plot, Jeffrey Eugenides (2011)
Também justifica o hype, ainda que eu tenha uma compaixão assumida por histórias de síndromes de Peter Pan mal resolvidas.
- O Rei Branco, György Dragomán (2009)
Ser criança na Romênia comunista não era fácil. Muito bom quando um livro comprado pelo simples motivo de estar no saldão da Fnac surpreende tão positivamente.
- The Dinner, Herman Koch (2009)
Comprei pela empolgação da The Economist, que raramente fala tão bem de ficção. Difícil não ler em uma só sentada.
- A Megera Domada, Shakespeare (circa 1590)
Nunca é tarde demais pra começar a ler Shakespeare, né? Ótima tradução do Millôr na edição da L&PM.
Quadrinhos
- Habibi (2011) e Carnet de Voyage (2004), Craig Thompson
O primeiro é um épico delirante e ridiculamente bem desenhado, o segundo é um diário de viagem de um americano meio caipira, observador e muito sensível (e também ridiculamente bem desenhado).
- Box Office Poison, Alex Robinson (2001)
Dos tantos quadrinhos que falam da vida de jovens em grandes cidades, esse é o que mais me agradou.- Deus, Essa Gostosa, Rafael Campos Rocha (2012)
Poucos sabem, mas Deus é uma negra escultural, dona de um sex-shop. Merece muitas continuações.
- Toda Rê Bordosa, Angeli (2012)
Toda a obra do Angeli merece ser eternizada em livro, este é um bom começo.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Frases do Dia - Eric Hobsbawm, RIP
"Os economistas, como os políticos, sempre tendem a atribuir os sucessos à sagacidade de suas políticas, e durante a Era de Ouro, quando mesmo economias fracas como a britânica floresceram e cresceram, pareceu haver bastante espaço para a autocongratulação."
Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos.
"We have never quite lost that sense that - as Hobsbawm himself would probably still insist - you cannot fully appreciate the shape of the twentieth century if you did not once share its illusions, and the communist illusion in particular."
Tony Judt, em Thinking the Twentieth Century.
Morreu hoje o grande historiador marxista, nascido em 1917 em Alexandria - que lugar mais apropriado para ter nascido um historiador?
Estava procurando uma entrevista dele para o Roda Viva, mas não achei em lugar nenhum. Existe ou estou delirando?
Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos.
"We have never quite lost that sense that - as Hobsbawm himself would probably still insist - you cannot fully appreciate the shape of the twentieth century if you did not once share its illusions, and the communist illusion in particular."
Tony Judt, em Thinking the Twentieth Century.
Morreu hoje o grande historiador marxista, nascido em 1917 em Alexandria - que lugar mais apropriado para ter nascido um historiador?
Estava procurando uma entrevista dele para o Roda Viva, mas não achei em lugar nenhum. Existe ou estou delirando?
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Tony Judt e o capitalismo dos nossos tempos
Tinha prometido colocar aqui alguns trechos do último capítulo (The Banality of Good: Social Democrat) do último Tony Judt, Thinking the Twentieth Century. Para economistas, é o capítulo mais interessante do livro. Aí vai o material para pensar:
Página 340:
Adam Smith argued that capitalism does not in itself generate the values that make its success possible; it inherits them from the pre-capitalist or non-capitalist world, or else borrows them (so to speak) from the language of religion or ethics. Values such as trust, faith, belief in the reliability of contracts, assumptions that the future will keep faith with past commitments and so on have nothing to do with the logic of markets per se, but they are necessary for their functioning.
Página 346:
The rates of growth in industrializing societies were thus typically 7 or even 9 percent - pretty much as they are in China today. What this indicate is that high rates of economic growth do not typically suggest prosperity, stability or modernity. They were long thought to be transitional features.
Página 347:
The loss of equilibrium that Keynes and his generation experienced with the First World War and the collapse of Edwardian, and therefore Victorian, certainties and security, is the most important informing sentiment in his theoretical writings.
Página 354:
All six of the foreign ministers who signed the European Steel and Coal Community, the foundation of institutionalized European economic cooperation, were Catholics: from Italy, France, largely Catholic West Germany and the Benelux countries.
Página 355:
We do well to recall that it was only a new generation of Anglo-American-inclined economic theorists and policy makers who claimed that planning as such was a failure. (...) English disillusion with planning was a by-product (not altogether justified) of disillusion with nationalization and the state control of the economy.
Página 358:
We need a similar renewal of attention to what lies under our noses. Today so many of us live in gated communities, physical enclaves that keep one kind of social reality out and also preserve another kind of social reality from intrusion. These enclosed micro-societies reassure their beneficiaries that since they are paying for their own services, they are not responsible for the expenses and demands of the society outside the gates. This makes them reluctant to pay for services and benefits from which they perceive no immediate private gain.
What gets lost here, what is corroded in the distaste for common taxation, is the very idea of society as a terrain of shared responsibilities.
Página 359:
None of the water-starved, western states of the U.S. could survive a year without the American equivalent of what the European think of as regional subsidies.
Página 360:
The appearance of individual self-reliance is part of the myth of the American frontier. Destroy that or, rather, let it be destroyed, and you destroy part of our roots. This is a defensible and even reasonable political argument - there is no reason in principle why Americans should not pay to maintain whatever they consider most American about their heritage. But as an argument it has nothing to do with capitalism, individualism or the free market. On the contrary, it's an argument for a certain sort of welfare state - not least because of its unquestioned assumption thata certain sort of sustainable individualism requires a good deal of help from the state.
Página 361:
The effect of the dominance of economic language in an intellectual culture which was always vulnerable to the authority of "experts" has acted as a brake upon a more morally informed social debate.
Página 365:
So let's return to the capital markets: under today's arrangements, the losses of the biggest gamblers are covered sufficiently to ensure that people will, indeed, continue to take the risks but with no downside. Which means the risks they take will be ever less justified. If you don't have to worry about making the wrong decision, then there's a greater chance you will make the wrong decision.
Página 368:
... social policy should consist of creating the most educated electorate possible: precisely because the citizenry today are both more exposed to abuse and have more "authority" to abuse themselves than ever before.
Página 375:
Even at the height of the Iraqi absurdity, a majority of Americans favored huge government expenditure on under-articulated or straightforwardly dishones military ends, while claiming to believe in reducing taxation across the board, presumably including taxation that was intended to pay for military expenditure. Americans showed no interest in increasing the role of government in their lives, not realizing that they had just enthusiastically encouraged it to do just that in the most important ways in which government can intervene in their citizens' lives, namely fighting a war. This reveals an American collective cognitive dissonance that is very hard to overcome politically.
Página 386:
... the choice we face in the next generation is not capitalism versus communism, or the end of history versus the return of history, but the politics of social cohesion based around collective purposes versus the erosion of society by the politics of fear.
Evidentemente tem muito mais no livro, fica recomendada a leitura. Judt faz muitas perguntas relevantes, mesmo para quem não concorda com as respostas que ele mesmo fornece.
Página 340:
Adam Smith argued that capitalism does not in itself generate the values that make its success possible; it inherits them from the pre-capitalist or non-capitalist world, or else borrows them (so to speak) from the language of religion or ethics. Values such as trust, faith, belief in the reliability of contracts, assumptions that the future will keep faith with past commitments and so on have nothing to do with the logic of markets per se, but they are necessary for their functioning.
Página 346:
The rates of growth in industrializing societies were thus typically 7 or even 9 percent - pretty much as they are in China today. What this indicate is that high rates of economic growth do not typically suggest prosperity, stability or modernity. They were long thought to be transitional features.
Página 347:
The loss of equilibrium that Keynes and his generation experienced with the First World War and the collapse of Edwardian, and therefore Victorian, certainties and security, is the most important informing sentiment in his theoretical writings.
Página 354:
All six of the foreign ministers who signed the European Steel and Coal Community, the foundation of institutionalized European economic cooperation, were Catholics: from Italy, France, largely Catholic West Germany and the Benelux countries.
Página 355:
We do well to recall that it was only a new generation of Anglo-American-inclined economic theorists and policy makers who claimed that planning as such was a failure. (...) English disillusion with planning was a by-product (not altogether justified) of disillusion with nationalization and the state control of the economy.
Página 358:
We need a similar renewal of attention to what lies under our noses. Today so many of us live in gated communities, physical enclaves that keep one kind of social reality out and also preserve another kind of social reality from intrusion. These enclosed micro-societies reassure their beneficiaries that since they are paying for their own services, they are not responsible for the expenses and demands of the society outside the gates. This makes them reluctant to pay for services and benefits from which they perceive no immediate private gain.
What gets lost here, what is corroded in the distaste for common taxation, is the very idea of society as a terrain of shared responsibilities.
Página 359:
None of the water-starved, western states of the U.S. could survive a year without the American equivalent of what the European think of as regional subsidies.
Página 360:
The appearance of individual self-reliance is part of the myth of the American frontier. Destroy that or, rather, let it be destroyed, and you destroy part of our roots. This is a defensible and even reasonable political argument - there is no reason in principle why Americans should not pay to maintain whatever they consider most American about their heritage. But as an argument it has nothing to do with capitalism, individualism or the free market. On the contrary, it's an argument for a certain sort of welfare state - not least because of its unquestioned assumption thata certain sort of sustainable individualism requires a good deal of help from the state.
Página 361:
The effect of the dominance of economic language in an intellectual culture which was always vulnerable to the authority of "experts" has acted as a brake upon a more morally informed social debate.
Página 365:
So let's return to the capital markets: under today's arrangements, the losses of the biggest gamblers are covered sufficiently to ensure that people will, indeed, continue to take the risks but with no downside. Which means the risks they take will be ever less justified. If you don't have to worry about making the wrong decision, then there's a greater chance you will make the wrong decision.
Página 368:
... social policy should consist of creating the most educated electorate possible: precisely because the citizenry today are both more exposed to abuse and have more "authority" to abuse themselves than ever before.
Página 375:
Even at the height of the Iraqi absurdity, a majority of Americans favored huge government expenditure on under-articulated or straightforwardly dishones military ends, while claiming to believe in reducing taxation across the board, presumably including taxation that was intended to pay for military expenditure. Americans showed no interest in increasing the role of government in their lives, not realizing that they had just enthusiastically encouraged it to do just that in the most important ways in which government can intervene in their citizens' lives, namely fighting a war. This reveals an American collective cognitive dissonance that is very hard to overcome politically.
Página 386:
... the choice we face in the next generation is not capitalism versus communism, or the end of history versus the return of history, but the politics of social cohesion based around collective purposes versus the erosion of society by the politics of fear.
Evidentemente tem muito mais no livro, fica recomendada a leitura. Judt faz muitas perguntas relevantes, mesmo para quem não concorda com as respostas que ele mesmo fornece.
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
Escrevendo para fora, em Inglês
Há umas três semanas, coloquei aqui um texto em Inglês que era um teste para um projeto paralelo. Por conta dele, recebi um convite da Bertelsmann Stiftung (uma fundação e think tank alemã riquíssima, dona de 77.4% do conglomerado de mídia Bertelsmann AG, que controla, entre outras empresas, a Random House - maior editora de livros de interesse geral do mundo - e Gruner + Jahr - maior editora de revistas da Europa) para escrever no blog do Global Economic Symposium. O evento é organizado anualmente (desde 2008) pela Bertelsmann em parceria com o respeitado Kiel Institute for the World Economy e cooperação com o Leibniz Information Centre for Economics, dono da maior biblioteca de economia do mundo. A edição deste ano ocorre no Rio de Janeiro, entre 15 e 17 de outubro.
O evento é dividido em temas e, dentro deles, sessões. Eu vou cobrir a sessão "The Future of Central Banking: Inflation Targeting versus Financial Stability", dentro do tema "The Global Economy". Até o início do simpósio, devo publicar pelo menos dois posts por mês no blog. O primeiro já está na rede (mas não ainda debaixo do blog principal, isso deve ser resolvido ainda esta semana), e pode ser acessado aqui. Um trecho:
Comentários, críticas e sugestões são, como de costume, muito benvindos. E ponham o blog do evento nos favoritos, vai ter muita gente boa escrevendo por lá.
O evento é dividido em temas e, dentro deles, sessões. Eu vou cobrir a sessão "The Future of Central Banking: Inflation Targeting versus Financial Stability", dentro do tema "The Global Economy". Até o início do simpósio, devo publicar pelo menos dois posts por mês no blog. O primeiro já está na rede (mas não ainda debaixo do blog principal, isso deve ser resolvido ainda esta semana), e pode ser acessado aqui. Um trecho:
I believe we’re living through times of very difficult political coordination in the developed world: one of the paradoxical legacies of several decades of prosperity and stability is a very powerful defense of the status quo (partly because, as late historian Tony Judt said, there’s too much to be preserved), hence little disposition for taking risks in the form of bold action that could damage the current arrangements of power and privileges. In this environment, central bankers became the quintessential technocrats, with a mandate for discretionary action, no need of political legitimacy, and an aura of neutrality and technical knowledge.
Comentários, críticas e sugestões são, como de costume, muito benvindos. E ponham o blog do evento nos favoritos, vai ter muita gente boa escrevendo por lá.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
Leituras da Semana
![]() |
| Elinor Ostrom, 1933-2012 |
- Por que o aluguel em Berlim é barato? (via Marginal Revolution)
- Boa discussão no Guardian sobre porque acreditamos em economistas.
- Três grandes economistas sobre o ajuste nominal na Letônia: Olivier Blanchard, Paul Krugman e Dani Rodrik.
- Brain drain: Thomas Sargent vai receber US$ 1.3 milhão por ano para se transferir da NYU para a Universidade Nacional de Seul.
- A poderosa dinastia de economistas criados no MIT. Rudiger Dornbusch é uma espécie de Vito Corleone da macroeconomia.
- Eliana Cardoso (que foi casada com Dornbusch) sobre Why Nations Fail e Jared Diamond.
- Bom relatório da SPX Capital sobre os juros no Brasil.
- Um novo prefácio de Barry Eichengreen e Brad DeLong para o livro de Charles Kindleberger sobre a Grande Depressão. Eichengreen sugere redução da jornada de trabalho como ajuda para o combate à crise.
- Porque a Alemanha deve assumir definitivamente o papel de liderança na Europa.
- A dinâmica do financiamento da dívida dos países europeus.
- Duas distopias: uma imaginada na vida real por Dani Rodrik, outra criada em 10 anos contínuos de um jogo de Civilization II.
- Bronte Capital sobre a cleptocracia chinesa.
- Na terça morreu Elinor Ostrom, a primeira (e única, até agora) mulher com um Nobel em economia. Mansueto Almeida e Peter Boettke comentam. O último texto dela foi sobre a Rio+20.
- Os problemas da meritocracia.
- Belo texto de Zadie Smith (quase um pleonasmo) sobre a importância de preservar espaços públicos, sobretudo bibliotecas.
- A burrice dos inteligentes, na New Yorker e The Economist.
- Paul Theroux indica cinco livros sobre viagens.
- Série bacana do Financial Times com atletas de todos os Jogos Olímpicos desde 1924.
- Herlander Coimbra, da seleção de basquete de Angola, que jogou contra o Dream Team em 1992: "To keep our hopes up, our coach told us that only Larry Bird and Michael Jordan were really, really good—that the other Dream Teamers were just okay."
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segunda-feira, 11 de junho de 2012
Frases do Dia - reciclando lucros
Do último Tony Judt, Thinking the Twentieth Century, que finalmente terminei de ler. O último capítulo tem uma das críticas mais inteligentes e pertinentes sobre o capitalismo atual que já li, durante a semana coloco alguns trechos aqui.
E seria bom se a reciclagem de lucros fosse só para atividades de apelo estético. Hoje em dia, vemos dinheiro de arrecadação pública sendo reciclado, para ficar em poucos exemplos, em:
- Companhias aéreas (que deveriam ser reconhecidas como bem público, ainda que moralmente isso seja muito difícil de ser defendido. Daí, creio, a preferência por um modelo que envolva o setor privado);
- Times de futebol, sempre gastando mais do que conseguem arrecadar e renegociando dívidas;
- Shows do Elton John pagos por banqueiros para seus amigos e convidados.
A lista pode ir longe. Agradeço ao Iconoclastas e ao André Poffo por uma discussão desse grande tema no twitter, devo voltar a ele no futuro.
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
Leituras da Semana
![]() |
| #OccupyFourthDimension |
- Mark Spitznagel, sócio de Nassim Taleb na Universa, sobre economia austríaca e a utilidade de seu arcabouço para evitar cisnes negros nos mercados de ações.
- Robert Shiller tentando dar uma força para os formandos em finanças: "Finance, at its best, does not merely manage risk, but also acts as the steward of society’s assets and an advocate of its deepest goals."
- Apostolos Doxiadis, coautor do fabuloso Logicomix, acha que autodestruição faz parte do caráter nacional da Grécia. Como a história ajuda a entender os dilemas do país.
- Albert Fishlow respondendo à onda de pessimismo com o Brasil.
- Paul Krugman sobre as impossibilidades da desvolarização cambial.
- Jared Diamond sobre o Why Nations Fail e a dificuldade do livro em conciliar sua tese central (instituições) com alguns fatores geográficos que lhe parecem evidentes. Acho que dá pra tirar um axioma postulando que todos essas obras com teses grandiosas de desenvolvimento e história econômica não conseguem passar sem furos grandes, a tarefa é impossível. Boas resenhas, como a do Diamond, também não ficam sem presepadas: ele fala que a Argentina é o maior exportador de alimentos da América Latina (pelos dados da OMC, o Brasil exporta quase o dobro).
- Amartya Sen sobre a Europa, para o NY Times.
- Como vai o futebol, vai a economia? Jamil Chade usa a final da Liga dos Campeões para comparar as finanças da liga alemã com as outras da Europa.
- Dois bons contrapontos a todo o confete jogado para Tony Judt nos últimos tempos: Eric Hobsbawm, num texto ao mesmo tempo ressentido, crítico e elogioso; e o sociólogo de Berkeley Dylan Riley, numa crítica muito aguda a toda a obra de Judt e sua postura como historiador.
- Open the Spigots and Drown the Bigots! As marchas drunkeynesianas pela legalização da cerveja nos EUA, em 1932.
- Um exemplo de intervenção pesada nos mercados.
- Carl Sagan sobre o equilíbrio entre ceticismo e aceitação de novas ideias.
- Hans Rosling em dose dupla: sobre riqueza, religião e fertilidade e nessa demonstração fantástica de concisão, clareza e elegância (seguramente vai ser um dos minutos mais bem gastos da sua semana):
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Tony Judt
terça-feira, 15 de maio de 2012
Judt sobre Hayek x Keynes
The three quarters of century that followed Austria’s collapse in the 1930s can be seen as a duel between Keynes and Hayek. Keynes, as I was saying, begins with the observation that under conditions of economic uncertainty we would be imprudent to assume stable outcomes and therefore had better devise ways to intervene in order to bring these about. Hayek, writing quite consciously against Keynes and from the Austrian experience, argues in The Road to Serfdom that intervention - planning, however benevolent or well-intentioned and whatever the political context - must end badly. His book was published in 1945 and is most remarkable for its prediction that the post-World War II British welfare state already in the making should anticipate a fate similar to that of the socialist experiment in post-1918 Vienna. Starting with socialist planning, you would end with Hitler or a comparable successor. For Hayek, in short, the lesson of Austria and indeed the disaster of interwar Europe at large boiled down to this: don’t intervene, and don’t plan. Planning hands the initiative to those who would, in the end, destroy society (and the economy) to the benefit of the state. Three quarters of a century later, this remains for many people (especially here in the U.S.) the salient moral lesson of the twentieth century.
(...)
It is as though what had taken place in Austria was a debate between planning and freedom, which was never the case, and as though it were self-evident that the course of events which led from a planned city to authoritarian repression and ultimately fascism can be summarized as a necessary causal relationship between economic planning and political dictatorship. Relieved of its Austrian historical context and, indeed, even of the very historical reference, this set of assumptions - imported to the U.S. in the suitcases of a handful of disabused Viennese intellectuals - has come to inform not just the Chicago school of economics but all significant public conversation over policy choices in the contemporary United States.
Isso provocou uma discussão interessante na blogolândia em Inglês. Começou com este post do Tyler Cowen, que diz que Judt foi injusto na caracterização do Hayek. O Crooked Timber discutiu aqui, com uma leitura do próprio Hayek. Por fim, o Moneybox aponta uma inconsistência no pensamento de Hayek sobre o estado de bem-estar social (e o Crooked Timber, de novo, dá mais referências). Pena Judt não estar mais entre nós para seguir alimentando a polêmica.
Ah, no primeiro post do Crooked Timber foi possível encontrar esta pérola entre os comentários:
I would certainly be happy if I was generally regarded as being as dishonest and as ignorant as Tony Judt. After achieving that, I think I’d try to become as poor as Donald Trump and as ugly as Jude Law.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Som da Sexta - Irving Berlin
Neste dia, em 1888, nascia, na Bielorrússia, Irving Berlin.
Tony Judt, em Thinking the Twentieth Century.
"Irving Berlin was a Russian Jew. But rather thank think, talk or write about his Russian Jewishness, he excelled at writing American tunes, with catchy upbeat narrative verse, for musical self-celebration: something he did much better than most native-born Americans."
Tony Judt, em Thinking the Twentieth Century.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Para saber onde pisamos: um pouco da história do euro
Terminei, depois de longos três meses (dois, descontando minhas férias), o enciclopédico Pós-Guerra, do Tony Judt. É o terceiro livro dele que leio; a essa altura, já estou quase me declarando social-democrata e lamentando a falta que ele faz no debate sobre um cenário tão nebuloso para a Europa. Esses, porém, são temas para outros textos. Aqui, quero colocar um trecho no qual ele explica o contexto histórico que desembocou no euro. Segundo consta, Judt desprezava a idéia de que a história pode servir como um guia para o futuro, mas validava a tese de George Santayana de como é importante aprender história para não repetir erros do passado. Com a palavra, mr Judt:
Algumas possíveis lições:
- O euro pode ser visto como o último legado de Bretton Woods, como a âncora que alguns países precisavam (pela falta de controle das finanças ou qualquer outro motivo) para ajudar no controle da inflação, depois do fim da paridade do dólar americano com o ouro. Tomavam-se emprestadas as credenciais do Bundesbank e o problema de credibilidade da moeda estava resolvido. Em um cenário onde inflação não é problema, porém, essa função deixa de ser primordial. Talvez esse seja o caso agora: as economias periféricas, deprimidas, não apresentam risco inflacionário e provavelmente estariam melhor caso pudessem trabalhar com moedas mais desvalorizadas. O problema é que, uma vez abandonado o euro, há o risco da desvalorização das moedas nacionais desencadear uma alta forte na inflação. Não há almoço grátis, já diria um velhinho de Chicago.
- O ponto acima levanta a questão: é possível o mundo operar sem ao menos uma referência cambial? Por um lado, talvez tenhamos mais moedas flutuando por algum tempo; por outro, é razoável concluir que tal situação levaria a uma grande tentação de fixação de taxas em razoavelmente pouco tempo. Na prática: uma nova dracma, caso gerasse inflação, seria logo fixada ao que sobrar do euro (marco alemão?) ou ao dólar, numa taxa que o BC da Grécia julgasse controlável. Só especulações, tudo isso deve estar ainda muito longe de acontecer.
- Muitos governos nacionais precisam retomar a iniciativa para reerguer suas economias (ao contrário do ambiente descrito por Judt, onde a prioridade era passar medidas impopulares sem associação direta aos políticos eleitos). Isso não é prioridade nem consenso dentro da zona do euro; mais um motivo para o arranjo atual ser contestado.
- Frase que vale ser repetida integralmente: "O surgimento de uma única moeda européia decorreu, portanto, de uma reação pragmática a problemas econômicos, e não de uma estratégia calculada e posta em prática em nome de um objetivo europeu predeterminado." Se Judt está certo e isso valeu para uma época mais ideológica, onde os fantasmas da II Guerra eram muito mais recentes, mudanças devem ocorrer no euro em pouco tempo. O "objetivo europeu", no campo econômico, teria surgido como narrativa para uma resolução de problemas práticos, e não tem sustentação própria. Atualmente, a reação pragmática tem sido "chutar a lata ladeira abaixo", esperando que os problemas se resolvam com o passar do tempo ou com medidas de austeridade que são ou pouco realistas na execução, ou que não fazem diferença dado o tamanho do problema (das dívidas). Essa reação não tem levado a nenhuma resolução minimamente satisfatória; daí, creio que é questão de tempo até o pragmatismo preponderar novamente e os problemas econômicos serem encarados a sério: ou os países problemáticos traçam uma linha de quanto estão dispostos a se sacrificar pelos credores, ou a Alemanha consegue costurar uma ampla união fiscal, consenso dificílimo de ser alcançado.
No ano passado, decretei o fim do euro justamente por achar que essa união fiscal era impossível. No início deste ano, parecia estar se formando um certo consenso, e o euro vem sobrevivendo. Nesse tempo, o problema das dívidas soberanas não foi resolvido, apareceu uma questão não trivial de capitalização dos bancos (reapareceu, na verdade, posto que não havia sido resolvida em 2008) e, cereja do bolo, a atividade econômica mergulhou e parece apontar para uma nova recessão. Não há consenso, ainda mais fracamente ideológico, que resista a tantas provações e interesses conflitantes. Evoco aqui a História não como um guia para o futuro, mas como instrumento para entender o que trouxe a situação atual e, mantida a lógica do passado (um grande "se", aí talvez abusando do papel da História), concluir que havia substância por trás do projeto de integração monetária europeu. Essa substância foi se perdendo com o tempo, e, creio, o que sobrou agora são egos de tecnocratas e políticos covardes demais para enfrentarem a realidade. Mudaram os fatos, é preciso que as pessoas mudem de opinião e ajam em função de uma nova realidade.
(...) ao longo dos anos 70, um número crescente de políticos passou a crer que a inflação agora impunha riscos maiores do que os altos níveis de desemprego - especialmente porque os custos humanos e políticos do desemprego eram institucionalmente aliviados. Não era possível tratar a inflação sem alguma espécie de esquema internacional que visasse a regulação de moedas e taxas de câmbio, em substituição ao sistema de Bretton Woods, prematuramente derrubado por Washington. Em 1972, os seis primeiros Estados membros da Comunidade Econômica Européia já responderam à situação com a criação do "Serpente Dentro do Túnel": um acordo para manter a taxa de câmbio de suas moedas semifixadas dentro de determinado valor, permitindo variações de 2,25% para cima ou para baixo da taxa aprovada. Contando com a adesão inicial da Grã-Bretanha, Irlanda e dos países escandinavos, o acordo durou apenas dois anos: os governos britânico, irlandês e italiano - incapazes de resistir (ou não querendo fazê-lo) a pressões domésticas por desvalorizações monetárias além dos índices estabelecidos - foram obrigados a desistir do acordo e permitir a queda de suas moedas. Até os franceses, em duas ocasiões (em 1974 e 1976) tiveram de abandonar o "Serpente". Era evidente que algo mais seria necessário.
Em 1978, o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Schmidt, propôs a reformulação do acordo em termos bem mais rigorosos: um Sistema Monetário Europeu (SME). Seria criado um esquema de taxas de câmbio bilaterais fixas, baseado numa unidade de medida meramente teórica, a Unidade Monetária Européia*, e garantido pela estabilidade e pelas prioridades antiinflacionárias da economia alemã e do Bundesbank. Os países participantes se comprometeriam a adotar uma austeridade econômica doméstica para se manterem no SME. Foi a primeira inciativa alemã nesse sentido, e traduzia, oficiosa senão oficialmente, a recomendação de que, ao menos na Europa, o marco alemão deveria substituir o dólar enquanto moeda de referência.
Alguns países ficaram de fora - notadamente o Reino Unido, cujo primeiro ministro trabalhista, James Callaghan, percebeu que o SME impediria a Grã-Bretanha de adotar políticas de reflação capazes de fazer frente ao problema de desemprego no país. Outros países adotaram o sistema precisamente por esse motivo. Enquanto "solution de rigueur", o SME teria um funcionamento semelhante ao Fundo Monetário Internacional (ou à Comissão Européia e o euro, anos mais tarde): o sistema obrigaria os países a tomar medidas impopulares cuja responsabilidade poderia ser imputada a regras e tratados formulados no exterior. Na realidade, a longo prazo, essa seria a verdadeira relevância dos novos acordos. Não era tanto o fato de eles terem conseguido expulsar o demônio da inflação, mas o fato de que, para realizar tal façanha, os novos acordos terem privado os governos de inciativa em relação à política doméstica.
Isso constituiu uma grande guinada, com consequências maiores do que se pensou à época. No passado, se um governo optasse por uma estratégia de "dinheiro duro", aderindo ao padrão-ouro ou recusando-se a diminuir as taxas de juros, era obrigado a responder ao eleitorado local. Mas, dadas as circunstâncias do final dos anos 70, qualquer governo - em Londres, Estocolmo ou Roma - que enfrentasse persistentes índices de desemprego, um setor industrial decadente ou presão para inflacionar os salários podia invocar os termos de um empréstimo contraído junto ao FMI, ou os rigores de taxas de câmbio pré-negociadas no âmbito europeu, e se eximir de responsabilidade. Os benefícios táticos desse tipo de medida eram óbvios, mas haveria um custo.
(...)
O impulso que estava por trás das ações franco-germânicas nos anos 70 era a ansiedade econômica. A economia européia crescia lentamente (ou simplesmente não crescia), a inflação era endêmica e a incerteza decorrente do colapso do sistema de Bretton Woods resultava em taxas de câmbio voláteis e imprevisíveis. O sistema "serpente", o SME e o ecu eram uma espécie de paliativo para o problema (por serem soluções regionais, e não internacionais) e introduziam o marco alemão, em vez do dólar norte-americano, como moeda de referência para banqueiros e mercados europeus. Alguns anos mais tarde, a substituição das moedas nacionais pelo euro, apesar das implicações simbolicamente problemáticas da medida, foi a consquência lógica. O surgimento de uma única moeda européia decorreu, portanto, de uma reação pragmática a problemas econômicos, e não de uma estratégia calculada e posta em prática em nome de um objetivo europeu predeterminado.
* Em inglês, "European Currency Unit" - ECU. O acrônimo tinha emprego marcantemente político: ao invocar o nome de uma moeda de prata francesa corrente no século XVIII, a palavra diminuía o constrangimento parisiense diante do reconhecimento da crescente primazia da Alemanha Ocidental em questões européias.
Algumas possíveis lições:
- O euro pode ser visto como o último legado de Bretton Woods, como a âncora que alguns países precisavam (pela falta de controle das finanças ou qualquer outro motivo) para ajudar no controle da inflação, depois do fim da paridade do dólar americano com o ouro. Tomavam-se emprestadas as credenciais do Bundesbank e o problema de credibilidade da moeda estava resolvido. Em um cenário onde inflação não é problema, porém, essa função deixa de ser primordial. Talvez esse seja o caso agora: as economias periféricas, deprimidas, não apresentam risco inflacionário e provavelmente estariam melhor caso pudessem trabalhar com moedas mais desvalorizadas. O problema é que, uma vez abandonado o euro, há o risco da desvalorização das moedas nacionais desencadear uma alta forte na inflação. Não há almoço grátis, já diria um velhinho de Chicago.
- O ponto acima levanta a questão: é possível o mundo operar sem ao menos uma referência cambial? Por um lado, talvez tenhamos mais moedas flutuando por algum tempo; por outro, é razoável concluir que tal situação levaria a uma grande tentação de fixação de taxas em razoavelmente pouco tempo. Na prática: uma nova dracma, caso gerasse inflação, seria logo fixada ao que sobrar do euro (marco alemão?) ou ao dólar, numa taxa que o BC da Grécia julgasse controlável. Só especulações, tudo isso deve estar ainda muito longe de acontecer.
- Muitos governos nacionais precisam retomar a iniciativa para reerguer suas economias (ao contrário do ambiente descrito por Judt, onde a prioridade era passar medidas impopulares sem associação direta aos políticos eleitos). Isso não é prioridade nem consenso dentro da zona do euro; mais um motivo para o arranjo atual ser contestado.
- Frase que vale ser repetida integralmente: "O surgimento de uma única moeda européia decorreu, portanto, de uma reação pragmática a problemas econômicos, e não de uma estratégia calculada e posta em prática em nome de um objetivo europeu predeterminado." Se Judt está certo e isso valeu para uma época mais ideológica, onde os fantasmas da II Guerra eram muito mais recentes, mudanças devem ocorrer no euro em pouco tempo. O "objetivo europeu", no campo econômico, teria surgido como narrativa para uma resolução de problemas práticos, e não tem sustentação própria. Atualmente, a reação pragmática tem sido "chutar a lata ladeira abaixo", esperando que os problemas se resolvam com o passar do tempo ou com medidas de austeridade que são ou pouco realistas na execução, ou que não fazem diferença dado o tamanho do problema (das dívidas). Essa reação não tem levado a nenhuma resolução minimamente satisfatória; daí, creio que é questão de tempo até o pragmatismo preponderar novamente e os problemas econômicos serem encarados a sério: ou os países problemáticos traçam uma linha de quanto estão dispostos a se sacrificar pelos credores, ou a Alemanha consegue costurar uma ampla união fiscal, consenso dificílimo de ser alcançado.
No ano passado, decretei o fim do euro justamente por achar que essa união fiscal era impossível. No início deste ano, parecia estar se formando um certo consenso, e o euro vem sobrevivendo. Nesse tempo, o problema das dívidas soberanas não foi resolvido, apareceu uma questão não trivial de capitalização dos bancos (reapareceu, na verdade, posto que não havia sido resolvida em 2008) e, cereja do bolo, a atividade econômica mergulhou e parece apontar para uma nova recessão. Não há consenso, ainda mais fracamente ideológico, que resista a tantas provações e interesses conflitantes. Evoco aqui a História não como um guia para o futuro, mas como instrumento para entender o que trouxe a situação atual e, mantida a lógica do passado (um grande "se", aí talvez abusando do papel da História), concluir que havia substância por trás do projeto de integração monetária europeu. Essa substância foi se perdendo com o tempo, e, creio, o que sobrou agora são egos de tecnocratas e políticos covardes demais para enfrentarem a realidade. Mudaram os fatos, é preciso que as pessoas mudem de opinião e ajam em função de uma nova realidade.
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