quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os Livros de 2011

Essa é a Strand, em NY, das livrarias mais legais que conheço.
De algum jeito, consegui manter a média de mais ou menos um livro por semana. Aí vai o que me chamou a atenção (não usei o critério de limitar ao que foi lançado no ano, aqui vale tudo):

Economia, mercados e afins:

- Capitalism 4.0, Anatole Kaletsky (2010)

Um bom contraponto para o pessimismo que costumo cultivar. Kaletsky divide a história do capitalismo em quatro fases, sempre destacando a capacidade do sistema se reinventar e gerar prosperidade. Às vezes soa muito Poliana, na maior parte é intrigante e bem argumentado. Falei um pouco dele aqui.

- Grand Pursuit: The Story of Economic Genius, Sylvia Nasar (2011)

Resenhei há pouco tempo.

- The Great Stagnation, Tyler Cowen (2011)

Possivelmente o livro de economia mais comentado deste ano (pelo menos na blogolândia). Cowen argumenta sobre como o ritmo de inovação e desenvolvimento dos EUA estagnou há uns 40 anos. Conciso e informativo, ainda que possa ser em grande parte resumido a um problema de retornos decrescentes.

- The Little Book of Economics, Greg Ip (2010)

Ip, além de ter o menor sobrenome do mundo, é editor da The Economist e (dizem) insider do Fed. Fez uma boa introdução ao mainstream de macroeconomia. Aliás, essa série toda (The Little Book) é muito boa.

- Speculation as a Fine Art and Thoughts on Life, Dickson G. Watts (circa 1880)

Watts foi presidente da bolsa de algodão de Nova York e contemporâneo do legendário Jesse Livermore. Esse é um livrinho de menos de 50 páginas, oito dedicadas à especulação financeira (muita experiência destilada, o difícil é ter a disciplina de aplicar) e as restantes preenchidas com aforismos sobre vida, negócios, sociedade e linguagem. Merece o status de clássico da literatura sobre mercados.

- The Secret Sins of Economics, Deirdre McCloskey (2002)

Outro pequeno grande livro, com a condição de suportar o estilo de McCloskey, que às vezes trata o leitor como semi-débil mental. A erudição e a capacidade de síntese e argumentação compensam. Está disponível  integralmente no site da autora.

- Zombie Economics, John Quiggin (2010)

Lista as ideias econômicas que, caso a ciência que as envolve realmente fosse tratada como ciência, já teriam sido abandonadas pelo confronto com a realidade (e aí entram a "grande moderação", hipótese dos mercados eficientes, privatizações, etc). Boa provocação para qualquer ideologia.

Temas menos mundanos:

- The Bed of Procrustes, Nassim Taleb (2010)

Livrinho de aforismos do Taleb, resenhei aqui.

- É Isto um Homem? (1947) e A Tabela Periódica (1975), Primo Levi

Levi consegue tirar leveza de um dos temas e épocas mais barra-pesada da história; os méritos disso não são poucos.

- Encaramujado, Antonio Lino (2011)

Uma grande viagem de kombi pelo Brasil, descrita num estilo que faz falta nos livros de viagem de autores daqui. Tem inspiração declarada num dos livros do Cortázar que mais gosto, Los autonautas de la cosmopista, e se o autor evidentemente não escreve como o Cortázar e a Carol Dunlop, os confins do Brasil são algumas vezes mais interessantes do que a estrada entre Paris e Marselha. Mais aqui.

- How to Live: Or A Life of Montaigne in One Question and Twenty Attempts at an Answer, Sarah Bakewell (2010)

O título sugere auto-ajuda, mas trata-se de uma biografia de Montaigne e uma visita a sua obra (os Ensaios), produto de anos de pesquisa por uma autora apaixonada por livros.

- Minhas Viagens com Heródoto, Ryszard Kapuscinski (2007)

Acho que foi o último livro escrito por Kapuscinski, contando de suas primeiras viagens como jornalista da agência estatal polonesa na companhia de um exemplar de História, de Heródoto.

- Mortals and Others, Bertrand Russell (2009)

Textos curtos (originalmente para jornais) de uma época conturbada (entre as guerras), quando Russell dedicava sua enorme inteligência à nobre arte da tudologia (opinar sobre qualquer assunto).

- Pós-Guerra (2005) e Ill Fares the Land (2010), Tony Judt

Respectivamente, a história da Europa desde 1945 e o penúltimo livro de Judt, uma defesa apaixonada da social-democracia e do que se conquistou no pós-guerra. Mais na resenha do Celso Barros para o livro mais recente.

- Why Our Decisions Don't Matter, Simon Van Booy [org] (2010)

Uma pequena coletânea de trechos de livros (de Sófocles a Camus) e obras de arte que tentam ilustrar o papel preponderante do acaso nas nossas vidas.

- Yoga for People Who Can't Be Bothered to Do It, Geoff Dyer (2004)

Dyer, dos melhores autores contemporâneos, divaga sobre viagens a Roma, Amsterdã, Líbia, Detroit... Divertidíssimo.

Ficção:

- Breakfast of Champions, Kurt Vonnegut (1973)

Primeiro livro de Vonnegut que leio (vergonha), não podia ter começado melhor a atacar a obra dele. A adaptação para o cinema, com Bruce Willis, é forte candidata à pior já feita a partir de um livro.

- Drown, Junot Díaz (1997)

Primeiro livro de Junot Díaz, na verdade uma compilação de diversos contos que já haviam sido publicados em revistas, todos com pano de fundo na República Domicana ou nas Nova York / Nova Jersey dos imigrantes.

- Axilas e Outras Histórias Indecorosas, Rubem Fonseca (2011)

Em certa medida como Woody Allen, Rubem Fonseca segue se repetindo, e eu sigo gostando. Para ler em uma sentada.

- The Girls' Guide to Hunting and Fishing, Melissa Bank (1999)

Comprei nas férias só pela capa e pelo título, mas o livro é ótimo (os detratores e amigos vão dizer que é girlie demais).

- One Day, David Nicholls (2009)

Um dos grandes best sellers do ano (ainda que tenha demorado um tempo para ser "descoberto"). Apesar dos maneirismos britânicos, não tem como alguém de 30 e poucos não se identificar com as cabeçadas dos protagonistas. O filme, que andou no cinema há pouco tempo, é bastante assistível.

- Open City, Teju Cole (2011)

Acho que é o livro de estréia que eu queria ter escrito caso um dia virasse ficcionista. Caminhadas e viagens servem para o protagonista, intelectual e cosmopolita, divagar sobre solidão, artes, cidades, relacionamentos, violência...

- Solar, Ian McEwan (2010)

Hilário, com um protagonista canalha e a(i)moral e grande escrita.

- White Tiger, Aravind Adiga (2008)

Vale o comentário sobre o livro anterior. Grande recurso para entender um pouco sobre o "I" dos BRICS.

Quadrinhos:

- Asterios Polyp, David Mazzuccheli (2009)

Quem ainda duvida do potencial artístico e literário dos quadrinhos, pode ir direto a essa obra prima, lindamente escrita e desenhada. Polyp é um arquiteto que tenta reencontrar um rumo depois de um divórcio e um apartamento incendiado; no processo, pensa e faz pensar sobre o que realmente importa na vida.

- The Fart Party (2007) e Drinking at the Movies (2010), Julia Wertz

Vejo um pouco de Harvey Pekar na Julia Wertz, ainda que com um estilo totalmente diferente. Vale pela diversão e pelos insights da vida nos EUA nos últimos anos.

- Feynman, Jim Ottaviani e Leland Myrick (2011)

Biografia do cientista mais pop que já passou por aqui; não gostei muito dos desenhos, mas o personagem e seus "causos" e conquistas compensam (e é bastante bem escrito, baseado nos livros do próprio Feynman).

- Logicomix: An Epic Search for Truth, Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna (2009)

Junto com Asterios Polyp, tem lugar garantido na galeria de melhores graphic novels da história. Segue a carreira de Bertrand Russell, passando por diversos dos gênios matemáticos do século XX (Cantor, Gödel, Poincaré...), suas grandes descobertas, frustrações e loucuras.


Sugestões do que deixei pra trás, sempre benvindas nos comentários.

7 comentários:

Delfim Bisnetto disse...

Caramba!

Você trabalha mesmo? :-P

Drunkeynesian disse...

Pro padrão que a gente se acostumou a tratar como "normal", pouco (mas não menos que 8h / dia). Eu vejo muito pouca TV (fora filmes), que acho que é o que faz a diferença no tempo livre, comparando com a maioria das pessoas que conheço.

Leonardo Monasterio disse...

Eu vou sempre lembrar de 2006 como o ano em que li Primo Levi. A propósito, vc sabia que ele tlvz não se suicidou?
http://bostonreview.net/BR24.3/gambetta.html

Valeu pelas dicas!

Drunkeynesian disse...

Sabia da história do possível não-suicídio, sim.

Grande personagem... devo em breve começar a ler "A Trégua", que depois virou filme.

Abraço!

Catarina Braga disse...

Muitíssimo obrigada pela lista!
Com a quantidade quase que indecente de livros que são divulgados hoje em dia é muito difícil separar quais realmente devem ser lidos.

Vi as duas dicas para livros de Economia e achei que talvez você pudesse se interessar por um que chama "Sex, Drugs and Economics" (se é que você já não o leu).

Mais uma vez, obrigada.

Drunkeynesian disse...

Por nada... de fato, eu tenho dificuldade pra escolher o que ler só de olhar pra minha estante do que ainda não li.

Não li esse "Sex Drugs and Economy", e você não é a primeira pessoa que me recomenda. Vou colocar na lista.

Anônimo disse...

Valeu pelas dicas! Dos filmes, assisti dois apenas. Inside Job e Cisne Negro. Tirando as partes apelativas, Inside Job dá uma ideia dos fatos que levaram a crise financeira. Da lista dos livros, li apenas Logicomix. E é isso, retrata em quadrinhos a carreira do filósofo matemático Bertrand Russell.