sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Conferindo as previsões para 2011 - perdas & danos

No final do ano passado, me meti a fazer algumas previsões para 2011. Seguindo a tradição que diz que economistas devem dizer o que vai acontecer no futuro e depois explicar porque erraram (acho que a ideia é do Churchill), aí vai o meu confronto com a realidade. Na primeira semana de 2012 faço as previsões para o ano novo.

- Os juros longos no Brasil vão continuar caindo, possivelmente para os níveis mais baixos da história.

Caíram, é verdade - os juros locais de dez anos foram de 12% para algo como 11,2% no fechamento de ontem, mas ainda estão longe dos patamares mais baixos da história (abaixo de 10%, em meados de 2007).    Na prática, a execução foi muito problemática, já que até julho os juros estavam em alta e quase todo o movimento de queda foi feito durante agosto (mês em que eu estava de férias, diga-se de passagem). Quem teve estômago e paciência fez algum dinheiro, e as quedas maiores foram nos juros curtos, mais diretamente influenciados pela mudança de postura do Banco Central. Conto a previsão como meio certa.

- A inflação no Brasil será mais baixa do que o mercado prevê.

Errei feio. O último relatório Focus do ano passado previa o IPCA de 2011 em 5,32%; deve ficar bem perto do teto da meta, 6,5%.

- Mais algum banco médio brasileiro vai ter problemas com a carteira de crédito.

A história do Panamericano é um misto disso com fraude, e o ano não foi exatamente bom para o modelo de negócio desses bancos, deve ter muito mais por vir. Ponto pra mim.

- As ações de bancos na Europa vão seguir caindo. Possivelmente alguns bancos grandes serão nacionalizados ou receberão ajuda dos governos.

O índice Stoxx 600 Banks, que engloba os bancos do continente, caiu até agora 33,3%. Todos os grandes bancos do continente, sem exceção, perderam valor de mercado, em alguns casos mais da metade (os franceses Société Générale e Crédit Agricole). A ajuda do governo, em termos de liquidez, foi ampla e enorme, e o Dexia foi nacionalizado na Bélgica. Ponto.

- A União Européia vai garantir a dívida de todos os seus membros. Dessa forma, o esfacelamento do euro que eu achava que ia ocorrer vai ser adiado, até que algum país não aguente mais conviver com uma moeda valorizada.

De fato, o euro não se esfacelou (há quem diga que chegou perto disso). Não houve uma garantia formal para as dívidas, mas estamos caminhando para isso, e, nos casos mais problemáticos, a ajuda multinacional tirou o financiamento do mercado. 3/4 de ponto, creio.

- O Brasil vai começar a ter problemas com financiamento externo. O real vai se desvalorizar. As reservas internacionais vão parar de crescer.

2/3 errado: o financiamento externo para o Brasil continuou sendo tranquilo, em parte por uma balança comercial melhor do que quase todo mundo esperava (o Focus previa US$ 8 bilhões, o acumulado até Novembro foi quase US$ 26 bilhões) e por grandes entradas de investimento direto. Como consequência, as reservas subiram para quase US$ 350 bilhões, ainda que estejam praticamente estáveis desde o final de Julho. Ainda assim, o real deve fechar o ano com cerca de 10% de desvalorização contra o dólar americano, que foi, junto com o iene, a moeda forte de 2011.

- A bolha do ouro e da prata vai estourar; o preço de ambos cairá pelo menos 20%.

Grande erro, ainda que ambos estejam longe das máximas do ano, 2011 deve terminar com o ouro ganhando mais de 10% e a prata com queda de 5%. Nada de bolha aqui, por enquanto.

- Vender volatilidade nos picos vai novamente ser uma estratégia ganhadora. O mercado caminha para cada vez mais preços controlados.

Agora vejo que essa previsão, levada ao pé da letra, é auto-realizável: se a venda é no pico, necessariamente todos os níveis posteriores são mais baixos. De qualquer maneira, olhando para o VIX, algo desse tipo teria funcionado: os grandes spikes em volatilidade duraram poucos dias, concentrados entre agosto e setembro, e sempre foram seguidos de reversões rápidas e violentas. Durante Dezembro, o VIX colapsou e deve terminar o ano perto de onde começou.

No campo mais abstrato, uma tese a ser comprovada é "as consequências econômicas de mr Taleb": a popularização da compra de seguros contra eventos extremos elevou muito o preço de "risco", a ponto desse tipo de estratégia não ser mais eficiente. Quem desenvolver isso já tem uma boa tese de mestrado pronta.

- A carteira de crédito do BNDES vai começar a ter problemas. Talvez demore mais do que um ano, mas a JBS não vai se aguentar.

Ainda não foi dessa vez que o BNDES teve que reconhecer grandes perdas em investimentos, mas mantenho a convicção. E a JBS nem é o pior caso...

- Não terminarão o ano acima dos preços máximos deste ano as ações de: Apple, Netflix, bancos brasileiros, índice do México, índice da Alemanha. E, sinto informar, o Facebook não vale US$ 40 bilhões.

Variações em 2011 (sem nem olhar as máximas de 2010, que são quase todas mais altas que o fechamento): Apple +23,5%, Netflix -58%, Itaú -12%, Bradesco -4%, Banco do Brasil -24%, Santander Brasil -33%, índice IPC do México -3,8% (em moeda local, -14% em dólares), índice DAX -17%. Nada mal o índice de acerto - só errei a Apple, aposta que vou renovar para 2012. Quanto ao Facebook... continuo achando que não vale US$ 40 bilhões, mas a última estimativa de precificação para o IPO é de módicos US$ 100 bilhões. Veremos...

- Preços de imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro vão seguir altos (e, possivelmente, subindo).

O índice FIPE ZAP (Case-Shiller, o FIPE ZAP deles) de São Paulo subiu 25% até Novembro; no Rio, a alta foi de quase 30% no mesmo período. Nada de bolha estourando aqui, também.

- Eike Batista vai seguir vendendo promessas. Guido Mantega vai continuar falando asneiras. Ben Bernanke vai seguir imprimindo. Eu vou seguir reclamando.

Essa era covardia, não vou nem contar como acerto - vide as bravatas do Eike, as Mantegadas, o prosseguimento da política monetária expansiva nos EUA e a manutenção do tom rabugento deste blog.

- Vai ficar cada vez mais claro o quanto Lula foi sortudo. E a culpa vai ser colocada em dona Dilma. É do jogo...

Meu ponto aqui eram os preços de commodities, que, no geral, não caíram e seguiram disfarçando muitas fragilidades da economia brasileira. O que ficou claro, considerando as quedas quase mensais de ministros, é quanto o arranjo político dos últimos anos dependia da, digamos, flexibilidade e capacidade de afagar quase todos os lados do Lula. A vida para Dilma é mais difícil, e não necessariamente isso é culpa exclusiva dela.

- Vou errar pelo menos metade das previsões acima. Espero não perder leitores por isso. Saravá!

Na minha contagem esquisita, até agora errei 5,76 de 12 possíveis, o que significa que acertei mais da metade e errei esta metaprevisão, o que prejudica meu desempenho total (maldita falta de autoconfiança). Ficaria interessante se eu tirasse o "acima" desta previsão: colocar este erro na conta contaria como mais um acerto, e cairíamos em algo próximo ao Paradoxo de Russell (os eventuais leitores que realmente conhecem lógica e matemática podem me apedrejar).

Em resumo, foi mais um ano que confirmou a grande sabedoria de Yogi Berra: é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. Outra confirmação foi a de que na prática, a teoria é outra: ainda que eu tenha acertado relativamente bastante do cenário, o desempenho do meu portifólio foi muito aquém do que isso poderia sugerir. Resta manter o humor e tentar de novo em 2012.

4 comentários:

Valentim Terra, o Rei das Blue Chips disse...

Cara, seu blog tá ficando cada vez melhor, parabéns! Acompanho há vários meses. Continue assim!! Abraços, boas festas e excelente 2012!

Alex disse...

Melhor que as minhas previsões, acho, embora não tenha tido a disciplina...

Danilo disse...

Parabéns. O fechamento com 'paradoxo de Russel' foi legal. Abs

Drunkeynesian disse...

Obrigado a todos... ano que vem tem mais.