quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Camarada Pochmann e a Revolução Cultural Brasileira

Marcio Pochmann, o companheiro que preside o IPEA (e usa camisas parecidas com as do camarada Mao aí do lado -- great minds think alike!), assina hoje um dos textos da seção de tendências e debates da Folha. Se o texto serve de base para o nível da pesquisa econômica que está sendo feita por lá (eu espero e acredito que não, tem muito profissional competente por lá), nosso país está mal, muito mal.

O artigo trata de trabalho e emprego. Começa separando a jornada de trabalho em "material" (aquela que é cumprida no escritório, fábrica, fazenda, etc) e "imaterial" (todo o resto do tempo em que se trabalha, que teria aumentado brutalmente com o acesso a internet, telefone celular, etc). Depois, ele saca da cartola um número que, somando os dois "tipos" de trabalho, totaliza uma carga anual de 4.000 horas de trabalho (aproximadamente 16 horas por dia útil), próximo ao que se observava no século XIX. Sim, para ele, depois de todo esse tempo de inovações tecnológicas, morais, éticas e jurídicas, somos submetidos às mesmas horas de trabalho que os trabalhadores de minas de carvão que Émile Zola descreveu em Germinal. Você, que está no seu trabalho lendo este texto (será que esse tempo é descontado do trabalho material, na precisa conta de Pochmann?), não se sente explorado? Trabalhadores, uní-vos!
A lógica utilizada já seria esdrúxula se parasse por aí, mas estamos somento no terceiro parágrafo. Depois, Pochmann ataca o maléfico setor terciário (serviços) da economia, responsável no Brasil por (número que ele mesmo cita) 70% das novas ocupações abertas e, aparentemente, o grande explorador de "trabalho imaterial". Para ele, se entendi bem (essa parte do texto me parece confusa), o trabalho nos serviços faz com que jovens se afastem da educação "tradicional" e nunca mais precisem abrir um livro ou voltar a frequentar a escola, e, por isso, só deveria ser permitido após os 24 anos de idade e conclusão do ensino superior. O que fazer com os jovens e os que não puderem / quiserem cursar uma faculdade, e que não terão acesso ao setor que gera mais de dois terços dos empregos no país? Não se sabe. Talvez puxar arado em alguma fazenda coletiva -- mas só 39 horas por semana, claro, sem direito a internet ou telefone.
Por fim, chegamos na desigualdade social. Fruto, claro, da má divisão do trabalho entre a mão de obra disponível. A solução de aritmética de primeiro grau, que deixaria até Stephen Kanitz e suas brilhantes soluções para o Brasil com vergonha, é -- surpresa! -- redistribuir o trabalho. Ao invés de termos 100 empregados trabalhando oito horas por dia e outros 100 desempregados, por que não empregar as 200 pessoas em jornadas diárias de quatro horas? O trabalho executado seria o mesmo e não haveria mais desemprego -- além de muito mais tempo livre para os trabalhadores! Em um modelo tão brilhante, os custos (excluindo salários) nos quais um empregador incorre para manter seus funcionários podem ser desprezados, claro. Até porque eles são pequenos no Brasil -- apenas dobram a despesa por empregado.
Numa democracia que preza a liberdade de expressão (poderíamos dizer de culto, mas vamos tentar segurar um pouco a ironia), é até saudável que alguém com esses pensamentos possa ter se tornado livre docente da segunda maior universidade do país. Mas saber que tal profissional é influente a ponto de se tornar presidente de um instituto de pesquisas estatal cuja missão é "produzir, articular e disseminar conhecimento para aperfeiçoar as políticas públicas e contribuir para o planejamento do desenvolvimento brasileiro" (citação do próprio website do IPEA) me dá a impressão de que, em alguns aspectos (sou um otimista com o Brasil no geral), estamos caminhando para trás. A passos de Usain Bolt, neste caso.

9 comentários:

Danilo Balu disse...

Pouco otimista vc....

jao disse...

Eu sou totalmente a favor de trabalhar menos!

Drunkeynesian disse...

Eu também sou a favor de trabalhar menos :-P

Gian disse...

Não foi esse cara que, dois anos atrás, disse que a semana de trabalho deveria ser de dois dias?
Se fora assim, ele até evoluiu, pois se formos dividir as horas disponíveis pela mão-de-obra extra desocupada, algo como 10% da população, não dá nem meio dia a mais parado.

Drunkeynesian disse...

Não lembro dessa história dos dois dias, mas é bem provável... sempre tem como ver o copo meio cheio!

Kanizares disse...

pena que no site da folha não tem espaço pra comentarios dos leitores. Ai sim seria engraçado (mais ainda), com idéias "geniais".

Danilo disse...

Esse é o Brasil "regular"? Te digo, Drunkeynesian, é uma m*!

Drunkeynesian disse...

Merda é a Argentina. Bom é a Noruega. Aqui é regular, ué...

Gian disse...

Estava enganado, não foi de dois dias, mas de três, com 4 horas de jornada. Cá está a prova: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u354096.shtml