quarta-feira, 17 de julho de 2013

Câmbio, bolsa, etc...

Um estimado leitor me escreve dizendo que há tempos não aparecem por aqui posts sobre os mercados brasileiros, em especial bolsa e câmbio. Ele tem razão, claro. Parte da omissão é porque eu tenho estado tão errado que dá uma certa vergonha seguir opinando; parte porque, por estar tão errado, sinto-me meio perdido. De qualquer maneira, atendendo ao pedido e seguindo a recomendação (do Churchill, acho - não estou achando a fonte) de que um economista deve dizer o que vai acontecer e depois explicar porque não aconteceu, aí vão meus pitacos atualizados:

Primeiro, apesar da extrema má vontade dos mercados com o Brasil (em grande medida justificada, claro), a queda da bolsa e desvalorização da moeda não são exclusividade do país. Sim, o Ibovespa tem o pior desempenho entre os principais índices do mundo, mas essa diferenciação pode ser atribuída sobretudo à queda do império X e suas ramificações. As bolsas da América Latina (Chile, México, Peru) também estão mal em 2013, e quase todas as moedas do mundo estão perdendo valor contra o dólar americano. Minha principal mea culpa recente foi não ter levado a sério a possibilidade de uma chacoalhada nos mercados emergentes por conta da possibilidade de alta dos juros nos EUA e fortalecimento do dólar.




Dito isso, vamos às particularidades:

1. Bolsa - a preços atuais, o Ibovespa implica uma relação preço / lucros de 13x para 2013 e 9x para 2013. Esses mesmos múltiplos para o S&P500 são 15x e 13x. O desconto é compatível com o padrão histórico e, creio, com a dependência de commodities do índice brasileiro. As incógnitas aqui são: i) se há alguma possibilidade dos lucros surpreenderem positivamente; ii) o destino do grupo X; iii) (e talvez mais importante) se o ciclo de commodities de fato virou. Sem parar para analisar cada um desses pontos, acho que muito pessimismo já está incorporado, mas achava o mesmo quando o índice operava a 53 mil pontos.

Na prática, se fosse pra dar algum trade idea, recomendaria, para o curto prazo, comprar contra algum outro índice (México, por exemplo). Para a minha poupança, esperaria, sem pressa, por uma nova crise. Nada está tão ruim que não possa piorar muito: a Petrobras segue perdendo dinheiro vendendo gasolina e com um caminhão de dívida para pagar, sem saber bem o que vai ser do pré-sal; o minério de ferro ainda vale muito mais do que o padrão histórico, etc...

2. Câmbio - nove entre dez economistas que conheço acham que, no médio / longo prazo, o câmbio vai ter que seguir se desvalorizando para compensar a deterioração das contas externas. Mais do que isso, acho que ajustar o câmbio é condição necessária para devolver alguma competitividade ao país (lembrando que, se o câmbio terminar o ano no nível atual, a depreciação terá pagado pouco mais do que o diferencial de inflação e quase o mesmo que o diferencial de juros - é preciso mais para que o câmbio real efetivamente mude de patamar).

O que complica a análise aqui é o papel das reservas e o comportamento do banco central. Não há precedente na história do país de um estoque de reservas internacionais do tamanho atual, e não dá para saber (pelo menos não consigo ter uma opinião firme) se quando o BC começar a entregar reservas para o mercado isso vai atenuar a depreciação ou atiçar um ataque especulativo. Também não tenho ideia de quanto do (enorme) passivo externo vai ser chamado de volta em caso de crise mais aguda. Tudo isso considerado, acho que o real segue se enfraquecendo nos próximos anos, e tenho recomendado a todo mundo que me pergunta manter uma boa reserva de dólares. Foi bom enquanto durou, mas durante a história do Brasil moeda forte foi exceção, não regra. Como diz o Teco, chora Mickey, viva Axé Moi.

Bom, é isso... opiniões minhas, não de onde trabalho, etc... Com elas e mais três reais, ganha-se uma viagem de ônibus dentro de São Paulo.

13 comentários:

Anônimo disse...

Bom texto. Os investidores do mercado acionário encontram-se mais ou menos igual a cachorro em dia de muidança, não sabem para onde ir. mas permita-me uma consulta não teríamos uma possibilidade nas empresas exportadoras.

Anônimo investidor.

Anônimo disse...

Qual a relação entre a desvalorização do real como sendo pouca quando comparada com a inflação e juros?
Por que você acha que a partir disso abre-se mais caminho para desvalorização? Abraço.

Drunkeynesian disse...

Para efeito de competitividade, o que importa é o câmbio real. Se o seu custo de produção sobe 5% num ano e o câmbio desvaloriza 5%, o preço do seu produto em moeda estrangeira ficou igual.

Anônimo disse...

Desde que a pres. Dilma assumiu, o Real vem desvalorizando 5% real por ano. Religiosamente. Para manter o passo 2,25 é o número.
Maradona

Anônimo disse...

Chutômetro:

Esfolados no curto prazo, a questão passa a ser de médio/longo prazo (esse o meu foco como investidor particular). No longo prazo, entendo que a questão passa por:

a) forte reversão de política econômica;

b)sobrevivermos à enorme expansão do crédito imobiliário sem maiores problemas;

c) manutenção de algum nível de preços nas commodities.

PS: Em que pese o declínio da China, acho que a expansão da Ásia (e não somente China representa expansão da demanda por commodities no LP. Não sei o quanto)...

Abraços para todos

Anônimo disse...

Se tirarmos as empresas X, para quanto iria este P/L da Bolsa?
Será que tirando elas já não podemos dizer que as outras empresas estão com um desconto mais razoável?

rodrigo disse...

Acredito que há desconto na bolsa, chegamos a estar quase 20% abaixo da mme 180dd , isso é raro. Agora subiu um pouco ...

Anônimo disse...

Bom, é isso... opiniões minhas, não de onde trabalho...

Mais sorte nos EUA...

Anônimo disse...

Curiosamente as três moedas que se valorizaram no ano são fortes parceiros comerciais Americanos. O mercado esta comprando a recuperação americana por tudo quanto é ponta!!
klb

Anônimo disse...

.. e ainda nem começou o bear market nos mercados desenvolvidos, dopados monetariamente. KB

Anônimo disse...

Repito sempre, o ibovespa não serve como parâmetro de barato ou caro. A história é outra se olharmos os índices setoriais. Metade morreu e metade ainda está muito bem. Consumo está muito bem obrigado, cai merreca no ano e sobe 20% em 12m e 40% em 24m. Bancos tem a mesma história, somente algo pior. O setor imobiliário morreu sim.
Se quiser comprar ibov porque está barato, vá direto no que caiu: petro, vale, pdg, brmls e Xs. Todas elas com fundamentals complicados, mas inegavelmente baratas historicamente (pelo menos nos últimos 3 anos). Como alguém perguntou acima, se tirarmos o lixo, acredito que o resto ainda está mais para caro do que para barato.
enfim, vou promover uma passeata contra o índice Ibov, ele não me representa! O Brasil não está tão ruim assim, como este índice criado pela Veja e pela Globo para criticar a pol eco da Dilma sugere!
Maradona

rodrigo disse...

Setoriais tbem nao me representam, há pelo menos duas empresas com retorno acima de 34% no imob;

Pablo Oliveira disse...

Tenta construir um gráfico de reservas x net imports ou reservas x net foreing asset purchases. Isso te dá uma idéia se o Brasil está numa posição de ser atacado ou se outros países serão atacados antes do Brasil. Te adianto que o Brasil tem uma situação bem confortável. E olhando o déficit de CC do Brasil com os atuais níveis de FDI, parece bem tranquilo, o que não justifica um ataque especulativo