terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mirando no PIB nominal

Era uma ideia pouco conhecida, que circulava entre alguns economistas relativamente obscuros. Há dois meses, foi debatida na coluna de economia da The Economist. Há 10 dias, ganhou o apoio peso-pesado da Goldman Sachs. Finalmente, na semana passada, após um discurso de Ben Bernanke em Boston, Bill Gross disse acreditar que o Fed estaria aderindo, e o Business Insider classificou-a como "a ideia mais quente em política monetária".

Estamos falando do estabelecimento de metas formais para o PIB nominal (NGDP targeting, para os falantes de Inglês). A ideia é relativamente simples: ao invés de mirar um determinado nível de inflação e usar os juros para, mais ou menos, obtê-lo, os bancos centrais deveriam perseguir um determinado PIB nominal, ou um ritmo fixo de crescimento para esta variável. Considerando que o PIB nominal pode ser visto, grosso modo, como o crescimento real do PIB (o que costumamos ver nos cadernos de economia) mais uma taxa de inflação, seria possível atingir a meta com diversas combinações de crescimento + inflação: em tempos de crescimento alto, a "calibragem" deveria ser feita para manter uma inflação baixa; com o crescimento abaixo do potencial, a diferença viria de um estímulo monetário inflacionário, via juros baixos ou simplesmente imprimindo dinheiro (para os mais sensíveis, via afrouxamento quantitativo).

Sendo a medida do PIB nominal o produto de uma estimativa estatística não exatamente trivial e difícil de ser acompanhada em alta frequência, o banco central precisaria de uma âncora para saber se suas ações estão levando a variável para sua meta. Aí entrariam as inevitáveis expectativas de mercado, no geral feitas com modelos econométricos alimentados com diversas outras variáveis e algum nível de dispersão.

O principal porta-estandarte da ideia é Scott Sumner, professor da pequena Bentley University (que fica em Waltham, a 15km de Boston) e doutor por Chicago. Sinal dos tempos, Sumner ficou conhecido pelo seu blog, onde defende incessantemente o "NGDP target" em posts longos e discussões frequentes com os keynesianos mais prolíficos (geralmente Paul Krugman e Brad DeLong). A "escola" macroeconômica representada por ele ganhou, recentemente, um nome elegante: monetarismo de mercado - ver aqui o manifesto do dinamarquês Lars Christensen.

Aos meus olhos, o tal monetarismo de mercado é uma tentativa (envolta numa embalagem de novidade) de salvar a tradição de crença no livre mercado de Chicago. Arrisco levantar os seguintes pontos (com a ressalva que meu conhecimento de economia monetária é, pra dizer o mínimo, precário):

- Acreditar que metas para o PIB nominal são uma boa depende de confiar em algumas premissas controversas: uma delas é que, nas palavras do Lars Christensen, recessões são fenômenos monetários - ou seja, são causadas, principalmente, por políticas monetárias muito restritivas (e ciclos reais, portanto, não existem). Mirar o PIB nominal é uma forma de seguir uma velha prescrição do seu Friedman: cresça a base monetária a uma taxa razoável e a economia toma conta de si própria.

- É preciso acreditar fortemente na casualidade queda no PIB nominal - recessão (quando é possível argumentar o contrário). É preciso acreditar na eficiência dos mercados ("Let expectations guide Fed policy", diz Sumner). É preciso confiar em trickle-down economics (políticas que afetam principalmente bancos e empresas serão benéficas, indiretamente, para toda a sociedade). Quem acha que isso tudo já se provou irremediavelmente errado com a crise pode começar a atacar daí.

- Se usada uma premissa errada (muito otimista) de tendência de crescimento real, o resultado será mais inflação e crescimento menor. É preciso tomar o crescimento real como dado, confiar que ele voltará apenas com estímulo monetário. Premissa corajosa, sobretudo num mundo de pouca esperança em inovação e ganhos de produtividade.

O assunto é muitíssimo extenso e devo ter feito muitas simplificações exageradas, mas só queria introduzir aqui um tema que ainda deve dar muito o que falar. Acho que é a última cartada do grande experimento monetário mundial, a grande aposta em tentar provar a relevância dos bancos centrais, a viabilidade das economias liberais e a relevância de boa parte do que foi feito na academia nos últimos anos. Sou cético quanto aos resultados: além de não acreditar que crescimento pode ser totalmente endógeno, acho que esse tipo de política acentua o já absurdo nível de risco moral do sistema. Ainda assim, é uma ideia ao mesmo tempo ousada e perfeitamente inserida dentro de um território relativamente confortável para o status quo, daí sua relevância e potencial força. Aguardemos.

P.S. O brasileiro João Marcus Nunes, que passa por aqui de vez em quando, é um interlocutor frequente do Scott Sumner e escreve um blog (em Inglês) bastante focado em monetarismo de mercado. João, se quiser corrigir alguma barbaridade que escrevi ou fazer uma introdução mais apropriada sobre o tema, será um prazer divulgar.

P.P.S. Para quem quiser se aprofundar nos argumentos favoráveis, ver, do próprio Sumner, este artigo ou o vídeo abaixo:



P.P.P.S. Obviamente tendo se inspirado aqui, o Free Exchange acabou de colocar um post sobre o assunto.

P.P.P.P.S. Do João Marcus que mencionei acima, pescado dos comentários:

Eu me convenci do potencial da "meta para o PIB nominal" quando percebi que o Greenspan "aplicou o princípio" sem saber que estava fazendo! O artigo abaixo eu escrevi há pouco mais de 2 anos, em 2009, e transformei em post esse ano. Talvez ajude a entender melhor o princípio: link.


24 comentários:

Ticão disse...

Para seu conhecimento.

No Estadão notícia de que os "Bancos americanos nadam em dinheiro, mas não emprestam".

http://blogs.estadao.com.br/radar-economico/2011/10/25/bancos-dos-eua-nadam-em-dinheiro-mas-nao-emprestam/

Matéria do mesmo jornalista que falou dos bancos demolindo casas e doando terrenos para as igrejas.

Todas as profissões podem passar por grandes transformações. Na minha passei por pelo menos quatro.

1 - Início dos anos 70 quando houve um salto na produção de filme publicitário.

2 - Final dos 80 quando as técnicas de acabamento dos filmes migrou para o vídeo.

3 - Meados dos 90 quando começou a baratear equipamento de computação aplicado para a industria de vídeo.

4 - Inicio desse século com o aparecimento e posterior barateamento das câmeras digitais com alta resolução.

Em todos esses momentos muitos morreram, alguns sobreviveram mas também surgiram muitos novos atores. Fomos do analógico para o digital. Muita empresa foi sucateada. Atualmente a Kodak está diminuindo sua linha de produtos profissionais. A de filmes para amadores já foi praticamente liquidada.

Sempre são momentos difíceis mas muito interessantes.

Parece que talvez os economistas e afins estão "correndo o risco" de passar por um destes momentos.

Divirtam-se.

Drunkeynesian disse...

O Sumner acha que isso (bancos com muito dinheiro, mas não emprestando) se resolveria cobrando uma taxa dos bancos que deixassem muitas reservas no banco central.

A analogia é boa, e de fato a economia parece estar passando por uma boa sacudida. O problema é que, ao contrário de tecnologia, o que surge muitas vezes não é evidentemente melhor do que o que se usava.

Anônimo disse...

Pois é, concordo. Acho que o mundo corre o risco de ser Keynesiano demais. Tomara que não.

Drunkeynesian disse...

Eu tenho pouca dúvida que os próximos anos serão de muita intervenção, só não sei se keynesiana ou desse tipo (monetarista). Talvez ambas...

Daniel disse...

Drunkey,
Essa proposta, apesar de ser uma política monetária, não é monetarista. Na verdade está muito mais alinhada com a visão de mundo keynesiana de que deslocando a LM para direita e dando choques nas expectativas seria possivel manter o GDP acima do equilibrio. (os monetaristas/chigaco/RBC acreditariam na neutralidade da moeda, ilhas de Lucas etc..)
Na minha visão uma idéia desta é uma tremenda loucura, que se levada a sério traria como consequencia lógica e certa a hiperinflação.

Daniel disse...

e queda da produtividade/renda/produção/riqueza...
Resumindo ilhas de Lucas, a política monetária somente tem efeitos reais se os agentes forem surpreendidos com a inflação. Portanto, se o governo fixa uma meta gdp*, será preciso uma inflação crescente e rapidamente explosiva.
Além disso, os problemas que vc citou no cálculo do GDP e do deflator são bem grandes.

iconoclastas disse...

um pitaco: como sempre, se trata de administração de expectativas. ser crível ou não depende, pleonasticamente, da credibilidade da autoridade monetária.

o Nick Rowe -http://worthwhile.typepad.com/ -(foi aqui que eu descobri esse blog?) tem uma analogia ótima.

Delfim Bisnetto disse...

Foi algo que me atraiu no começo.

Atualmente, não consigo ver tantas diferenças com as metas de inflação. Na prática, imagino como uma meta de inflação flexibilizada em relação (inversa)ao PIB real.

Em vez de utilizar o hiato do produto na determinação dos juros, ele é apenas internalizado na meta.

Daniel V. disse...

Não gostei e não concordo com esse blog. Novamente, uma política dessas leva inevitavel e invariavelmente à hiperinflação.

Aqui um texto recente do Volcker :

http://www.nytimes.com/2011/09/19/opinion/a-little-inflation-can-be-a-dangerous-thing.html

E outro antigo do Sargent(ja que ta na moda)

http://www.mpls.frb.org/research/QR/QR531.pdf

O sargent fala basicamente que, se há dominancia fiscal, a consequencia é a inflação, adote o BC uma política rigida hj ou não.

Na prática, uma meta para o GDP é o cheque em branco para a dominancia fiscal.

GAbiRu disse...

e o blo do summer chama "the money illusion"? para monetary illusion é um pulo

Drunkeynesian disse...

Ótimos comentários. Algumas adições:

- Daniel, a meta final é trazer o PIB nominal de volta para a tendência linear de crescimento de longo prazo. Isso implicaria, claro, em crescimento acima do potencial por algum tempo - e aí o que vai pra inflação e o que vai pra crescimento real é a grande questão, eu tendo a concordar com a maioria que se manifestou aqui.

Iconoclastas, já tinha lido o Nick Rowe mas nunca indiquei aqui... preciso colocar na lista aí do lado.

Gabiru, na mosca. Da primeira vez que eu vi esse blog eu achei que ele ia tratar de provar que política monetária, no fundo, é smoke & mirrors e o que acontece na economia é muito mais complexo, mas sei lá em qual ilusão ele pensou.

Drunkeynesian disse...

Outra coisa que eu não tinha colocado no texto: imagina se o Fed tem sucesso em criar desincentivos para os bancos carregarem muito caixa, e eles começam a emprestar. Emprestar pra quem? Ou para créditos bons, que sobreviveram à crise e provavelmente não precisam de crédito, ou baixam os padrões e criam novamente um problema para o futuro. Mais ainda em um undo onde os retornos para o capital não estão exatamente promissores.

Fernando A. disse...

O Brasil já está perseguindo um crescimento do PIB há pelo menos 60 dias. Abaixo de 10% ao ano, puxão de orelha no Tombini. E, claro, rodando acima mantém no ponto morto.
Abraço

Drunkeynesian disse...

O Tombini deve estar perto de tomar um pescotapa, então:

http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/a-consciencia-de-dois-liberais/2011/10/26/pib-igual-a-zero/

João Marcus disse...

DK
Obrigado pela menção. O seu post é uma boa introdução. Eu me convenci do potencial da "meta para o PIB nominal" quando percebi que o Greenspan "aplicou o princípio" sem saber que estava fazendo!
O artigo abaixo eu escrevi há pouco mais de 2 anos, em 2009, e transformei em post esse ano. Talvez ajude a entender melhor o princípio:
http://thefaintofheart.wordpress.com/2011/04/14/the-crisis-from-an-ad-perspective/

Drunkeynesian disse...

João, muito obrigado pelo comentário. Vou "subir" ele pro texto do post. Apareça sempre, abraço!

Daniel V. disse...

1º: relendo meu último comentário, vi que ficou estranho o "não concordo com esse blog" (era c/ o Nick Rowe).

2º PIB Potencial (seja extraído por filtro HP ou de qualquer modelo derivado do SOLOW) é apenas uma extrapolação do passado para o futuro, e não uma verdadeira análise contrafactual. È muito convincente e conveniente plotar em um gráfico o resíduo de solow e uma variavel qualquer (crédito, no caso da reportagem na Exame) e apontar uma suposta relação causal.

Sugiro a leitura de:

http://stefanmikarlsson.blogspot.com/2010/10/problem-with-potential-gdp.html

3º: O que esse "modelo" tem em mente é uma curva de Phillips
[NAIRU-u = INFLAÇÃO]. Ou seja, qdo o produto estiver abaixo do potencial podemos utilizar a pólítica monetária que não havera impacto nos preços. Essa curva ja foi refutava varias vezes (empiricamente, vide 70's, Inglaterra, europa, EUA hj)

4º: Antes do twist, uma idéia que ganhou força foi que o fed parasse de pagar pelas reservas depositadas, que hj é 0,5% a.a. Como os bancos conseguem captar a cp mais barato que isso (fed fund's 0,1%a.a), é uma arbitragem bem boa risk free. Coloque no mesmo gráfico no bloomberg qualquer index de yield de 10y de cias AAA vs libor usd 3M e essa arbitragem (das reservas) se torna espetacularmente tentadora.

Bill Gross tem um artigo bem legal sobre isso (antes do twst)

http://www.ft.com/cms/s/0/04868cd6-d7b2-11e0-a06b-00144feabdc0.html#axzz1bwlH6oO2

Daniel V. disse...

Olha que prato cheio p/ vcs...

http://conhecimento.insper.edu.br/wp-content/uploads/2011/03/BritoBystedtJDE10.pdf

Anônimo disse...

No final das contas, vocês sabem que o tal "monetarismo de mercado" só vai servir para justificar a dinheirama que eles andaram despejando na economia nos últimos anos. De quebra, ainda jogarão a culpa nos bodes expiatórios de sempre: o "mercado", os "monetaristas", etc.

Pobre Milton Friedman, tão mal representado... ele dizia que a inflação era um fenômeno monetário; mas não chegou ao ponto de dizer que recessões eram sempre fenômenos monetários (muito embora políticas monetárias possam ser recessivas). Basta ver o que aconteceria com uma queda abrupta na produção de petróleo.

João Marcus disse...

Anômimo. O que você argumenta é no mínimo curioso, já que foi o próprio MF que atribuiu o sucesso de Greenspan ao fato dele ter conseguido compensar as mudanças na velocidade de circulação da moeda mantendo, portanto, estável o PIB nominal!

Anônimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=P_RsX828C7A

Ainda mais curioso é o que o próprio Greenspan diz dele mesmo e da capacidade que os atuais modelos têm para definir e prever os agregados monetários a partir de 4:20 do vídeo...

Se já é difícil estimar os agregados monetários, como fazer para estimar e ainda estabelecer uma meta para a combinação de: Produto + Moeda + Expectativas...?

Anônimo disse...

Essa ideia é antiga. Os pós-keynesianos a defendem há um bom tempo. Minha discordância com eles é que, em geral, são intervencionistas além da conta. Bem, o argumento separa, corretamente, o mercado monetário do mercado de crédito. A proposta é muito simples: ao se ter uma meta para o pib nominal visa-se estimular o mercado de crédito. Evidentemente, não se trabalha com expectativas racionais ou com a hipótese de mercados eficientes.

D.V. disse...

È drunk mais uma vez seu blog na fronteira do conhecimento hehehe:

http://correiodobrasil.com.br/aprovado-projeto-que-vincula-acao-do-bc-a-crescimento-do-emprego%C2%A0/321925/

http://www.dgabc.com.br/News/5923834/cresce-debate-no-fed-para-eua-adotarem-meta-de-pib.aspx

Drunkeynesian disse...

Hahaha... convenhamos que adiantar o que vai sair no jornal não é das coisas mais difíceis :-)