terça-feira, 4 de outubro de 2011

Alessio Rastani, um especulador

A essa altura, todo mundo já deve ter visto a entrevista que o trader independente Alessio Rastani deu, semana passada, para a BBC:



Entre uma ou outra frase de efeito ("Goldman Sachs rules the world"), ele diz que a Europa está condenada a uma crise de grandes proporções, de solução não trivial. O que, acho, chocou mais os entrevistadores e boa parte da mídia tradicional foi ele ter dito não se importar com uma solução para a crise e que vinha sonhando com esse cenário há tempos. Isso alimentou a velha imagem do especulador inescrupuloso, comedor de criancinhas e depositor de metais pesados em lagos do degelo do Himalaia.

Eu sou, em alguma medida, um especulador profissional, portanto levem em conta o viés na minha opinião. Dito isto, vamos lá:

Uma defesa usual da especulação é evocar a origem nobre do verbo especular, que vem do latim e, originalmente, quer dizer (segundo o Houaiss) "observar de lugar alto, estar de sentinela, de atalaia; observar, seguir com os olhos, considerar". O especulador, portanto, pode se considerar um mero observador dos fato, incapaz de alterá-los. Claro que essa visão não resiste a algumas versões da história, onde o especulador é responsável pela quebra de empresas e até de países. Numa definição mais atualizada, o especulador é um oportunista, que age em função de suas previsões para o futuro e sua visão de mundo.

Daí costuma-se traçar uma linha entre investidor e especulador. O investidor é um financiador de atividades "produtivas": seja do déficit de um governo soberano ou do crescimento de uma companhia. O especulador não acha que tem essa função na divisão do trabalho: busca o retorno para seus investimentos, em qualquer que seja o cenário. Sua flexibilidade o permite comprar, vender a descoberto, atuar nos mercados de derivativos e tudo mais que a lei permitir (às vezes além disso, mas não estamos tratando aqui da versão criminosa da atividade).

A visão de que um investidor é melhor para a sociedade do que um especulador é, no mínimo, parcial, e passa por um entendimento distorcido do dever de um gestor de dinheiro alheio. Esse gestor, seja ele "investidor" ou "especulador", é (bem) pago para proteger a poupança de quem o contrata. Acontece que, em muitas ocasiões, o mercado é um destruidor de poupança (que, por outro lado, é a dívida de outra entidade). Nesses momentos, o investidor que só compra é vitimizado, e o (bom) especulador pode salvar o futuro de seu cliente. Quem está errado? Alessio Rastani acha que estamos em um desses momentos: se ele estiver correto, pode ficar rico e ajudar seus clientes a pelo menos não empobrecerem; se estiver errado, coloca alguma reputação em risco e, muito provavelmente, não contará com ajuda em dinheiro do contribuinte. Idealmente, jogo entre adultos, conscientes do risco que tomam.

Outro aspecto que gerou estranhamento é o pessimismo do cenário dele, numa mídia que é totalmente dominada por cheerleaders de mercados em alta. Seja pela diversidade ou pela dose de realidade, é bom ver um cara desse tipo fazer barulho.

P.S. Para uma defesa mais articulada dos especuladores, recomendo este texto do Hugh Hendry para o Telegraph.

9 comentários:

Leonardo Monasterio disse...

sem entrar no merito da questao, eu li no boing boing que esse trader estava mais para um farsante e auto-declarado attention seeker. confere?

Drunkeynesian disse...

Farsante ele não parece ser, attention seeker com certeza - pelo o que entendi, ele vive de prestar esse tipo de "consultoria" (como lidar com mercados turbulentos) para clientes. Teve gente que chegou a comparar com casos de comediantes falando na BBC, acho que não tem a ver.

No Guardian tem um texto bom falando disso (de um dos caras que já pregou peças na BBC): http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/sep/29/alessio-rastani-no-prank

Ticão disse...

O texto do Telegrph defende pagar para ver. Deixar os que aplicaram mal quebrarem.

O problema, eu acho, é que os que aplicaram mal já realizaram seus lucros em forma de bônus de desempenho. E provavelmente hoje este dinheiro já está em títulos do governo dos EUA.

Quem pagaria a conta, em sua grande maioria, seriam os investidores pequenos, que aplicam em fundos recomendados pelos bancos. A maioria nem sabe o que é hedge.

O golpe já foi dado. Sua carteira já foi roubada. O punguista já passou adiante. E a lei diz que só se ele for pego com a mão na massa é que pode vir a responder um processo. O golpe já prescreveu.

Não é uma sensação muito boa.

Quanto ao especulador. No mundo animal os carnívoros matam para comer. É natural.

Mas o bicho homem também faz parte desse mundo. Enquanto o bicho homem matar para comer só estará se comportando de forma integrada ao sistema.

Mas quando o bicho homem começa a matar só para pegar a pele, e deixa a carcaça do búfalo apodrecendo na planície, e mata todos os que consegue, então já não mais está agindo integrado ao sistema. Virou um predador no pior sentido da palavra. Não mata para comer. Mata pela pele. Ou porque adquiriu o gosto de matar.

Não é uma questão moral. É uma questão de alocação de recursos.

M. disse...

Interessante que com mesmo essa visão de que o especulador 'é mal'(eu não me incluo nisso)existe muita gente querendo trabalhar com isso(eu me incluo nisso), levando essa discussão para outro ponto, como é a seleção para operadores sem experiência? Se não tiver um diploma FEA, IBMEC, FGV, ITA não entra mesmo?

Drunkeynesian disse...

Ticão, você tem razão, no fim das contas quem tem pagado a conta é o contribuinte, o que, no frigir dos ovos, deve ser um dos maiores episódios de distribuição de renda às avessas que a humanidade já viu.

Quanto às metáforas com carnívoros, não me agradam, mas sou parte envolvida :-)

M., muita gente quer trabalhar nisso porque paga bem - é o tipo de remuneração mais assimétrica (relativamente pouco risco, muito retorno potencial) que alguém pode ter hoje em dia. Tem n jeitos de começar na carreira, mas, pelo menos aqui em SP, o padrão é mesmo ter um diploma de algum desses lugares.

Ticão disse...

Drunk, se você anda matando para comer, ou para que outros possam comer, então tudo bem. "Faiz Parte".

Mas se você anda matando só em busca da pele, nem se dá ao trabalho de avisar os outros de que "tem carne fresca lá na planície. Vai lá pegar." então os recursos estão sendo mal alocados.

Pior seria se você estivesse matando bebês foca para entregar a pele, branca e fofinha, na mão de um estilista italiano qualquer que vai usar como gola do casaco da amante do banqueiro alemão.

Aí o caso é mais grave.

Além de ser uma péssima alocação de recursos, é de um mau gosto atroz.

Mas não acho que seja o seu caso.

PS: desculpe a intimidade do "Drunk".

Drunkeynesian disse...

Hehe, entendido... eu jogo totalmente dentro das regras.

Jorge Browne disse...

Boa declaração. O cara me pareceu um nerd arrivista mas veio em boa hora. Especulador é que nem atravessador, leva a culpa por um serviço, muitas vezes, absolutamente necessário.

O problema não é esse mercado, o problema é como as sociedades lidam com as regras (ou a falta delas) que o regula.

Agora, aquele papo angelical no Telegraph já é um pouco demais...

Anônimo disse...

É válido diferenciar especulador e investidor. Assim, como é válido salientar que a especulação é uma característica humana. Porém, o Rastani se mostra um cínico. Mal comparando, imagina um médico, diante de uma epidemia, chegar na televisão e dizer que as pessoas se virem sozinhas e que nada pode ser feito em termos de ação pública.