terça-feira, 27 de novembro de 2012

É o desenvolvimento, estúpido

Surrupio dois gráficos interessantíssimos da edição de hoje do Valor:

1. O Delfim Netto reproduziu o gráfico abaixo, de um estudo do IPEA. Trata-se de um índice simples de bem-estar social criado pelo grande Amartya Sen, que multiplica a renda média pelo complementar do índice de Gini (de forma a obter um número que é maior quanto menor a desigualdade). Explica o Delfim:


O gráfico abaixo mostra a mudança de situação a partir de 2003, onde o indicador cresce fortemente (quase 5% ao ano), impulsionado por múltiplos fatores: 1) o aprofundamento da política econômica; 2) a colheita da estabilidade monetária e fiscal; 3) o aumento da produtividade produzida pelas privatizações e pequenas reformas estruturais; 4) e, mas não menos importante, pela ênfase à inclusão introduzida nas políticas sociais e consequente redução das distâncias entre a renda dos indivíduos, o que explica por que o governo é popular.


2. O Boston Consulting Group (jamais confundir com o Boston Medical Group - OK, perdão pela piada cretina) calculou, para 150 países, um índice que mede ganhos de bem-estar nos últimos cinco anos. O Brasil foi o primeiro na ampla amostra.



Enfim, os dados não explicam ou justificam a incompetência da oposição, mas mostram que a vida dela não estaria fácil de nenhuma maneira - e não estará enquanto o país conseguir manter esse ritmo de progresso.

39 comentários:

Anônimo disse...

"os dados não explicam ou justificam a incompetência da oposição". Não acho. Tenta montar um discurso eleitoralmente viável nesse ambiente ("meu deus o IPCa tá em 5,5%!"). Essa conjuntura arrasaria com a oposição em qualquer país desigual e em desenvolvimento do globo. E também definem eleitoralmente o certo (Lulismo) e o errado (privatismo, austeridade e FHCismo). Quando o eleitor se acostumar com o status quo poderá querer mais, aí voltará a existir uma oposição. Esse quadro exlica a causa do Lula teflon, do Lula gênio da política, porque o PMDB agora é trabalhista... Essas mudanças podem fazer um partido ficar 50 anos no poder.
Dantas

Drunkeynesian disse...

O meu ponto é que acho que a oposição aqui estaria perdida mesmo se o cenário econômico não fosse tão bom (algo como os Republicanos nos EUA). Com o resto do seu comentário, concordo.

Anônimo disse...

Manda a conta agora rs...

Anônimo disse...

Drunk, o grande lance é que a oposição não conseguiu convencer a população de que ela tem parte nesse aumento de bem estar. se tivesse defendido melhor seus ideais, a população talvez tivesse notado que o Lula foi CO-responsavel e não o único responsável

Teco

Drunkeynesian disse...

Sim, talvez seria uma boa parte do PSDB deixar de ter vergonha do FHC (ou vice-versa).

Drunkeynesian disse...

Sim, talvez seria uma boa parte do PSDB deixar de ter vergonha do FHC (ou vice-versa).

Anônimo disse...

Esconder o FHC foi uma escolha em função das análises profissionais do marketing político. Colocar o FHC no palanque significa menos voto na próxima eleição. O que fazer? Apostar no longo prazo, na imagem institucional do partido?
Convencer que o legado FHC proporcionou o bem-estar corrente? Somente finlandeses poderiam perceber essa relação inter-temporal.
Falei em 50 anos de poder, mas o engraçado é que sempre se observou uma resistência ao voto no PT, sempre 55/45 mais ou menos, mesmo quando pareceria que a lavada seria maior. Somos quase finlandeses politicamente.
Dantas
Dantas

Anônimo disse...

Brilhante foi a evolução do ´país situado na 15ª posição. Quando se tem uma boa posição e se aumenta ai estão de parabéns.

Frank disse...

eu não consigo imaginar uma peça de markrting político melhor do q o 1o gráfico.

a narrativa política q se pode extrair é bem óbvia e auto-explicativa.

no entanto, por mais q os avanços lulistas sejam relevantes, não sei se a evolução da percepção subjetiva de bem-estar :) corresponde ao q o gráfico sugere.

acho q houve uma importante melhora de bem-estar (inflexão) com o PLano Real, e em alguns momentos de FHC I e II (como o marco de governança político-econômica da LRF em 1999/2000), q o gráfico parece não capturar.

iconoclastas disse...


alguém sabe como foi a evolução dos índices de violência no Brasil?

JGould disse...

"alguém sabe como foi a evolução dos índices de violência no Brasil?"
Eu não sei em relação aos números proporcionais, mas em números absolutos, li em meados de julho, que eramos os campeões! Mas, o pior era a taxa de elucidações dos crimes...o que compete para que este número só aumente.

Delfim Bisnetto disse...

Um índice de bem-estar dado por renda média x Gini é feito na medida pra colocar o Brasil de Lula em destaque mesmo. Medida de bem estar pra valer teria que levar em conta outros fatores.

Nesse caso,acho que o indicador do BCG é mais significativo ("renda, estabilidade econômica, emprego, distribuição de renda, sociedade civil, governança (estabilidade política, liberdade de expressão, direito de propriedade, baixo nível de corrupção, entre outros itens), educação, saúde, ambiente e infraestrutura").

Achei curioso isso: "Se o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu a um ritmo médio anual de 5,1% entre 2006 e 2011, os ganhos sociais obtidos no período são equivalentes aos de um país que tivesse registrado expansão anual de 13% da economia." O que explicaria essa discrepância entre crescimento do PIB e crescimento do bem estar? Só a distribuição de renda?

Por fim, acho que oposição nos moldes PSDB-DEM ("o PT é tudo de ruim") está com os dias contados. Aposto mais numa oposição simpática ao PTismo-lulismo, também de centro esquerda, com foco em exigências de classe média (eficiência de gestão pública, serviços de qualidade, um pouco mais de liberalismo econômico) em oposição a um PT focado nos muito ricos e nos muito pobres.

Tenho impressão de que a tal "nova classe média" é profundamente anti-Lula e anti-PT, isso só não se manifestou ainda, pois não houve nenhuma grande crise ou estrangulamento na esfera federal pós-mensalão. Para essa classe média, se crescimento não foi nem fruto do lulismo nem herança de FHC, mas simplesmente meritório. Mas é apenas uma impressão...

Jorge Browne disse...

A questão da desigualdade voltou com mais intensidade nos últimos tempos, especialmente depois de 2008. Acho que este tipo de medição (renda e desigualdade) mata uma parte substancial da charada. Meu pitaco bem superficial:

1 - Isso complica muitíssimo a vida de qualquer oposição, especialmente uma oposição neófita no assunto.

2 - Assim como não adianta falar no legado Itamar (ele era o presidente do Plano Rreal, lembram?) também não adianta insistir no legado FHC. Não que ele não tenha aspectos positivos, pois claro que tem vários, mas sim porque no imaginário popular o que ficou não é bom, o que também é justificável. Em que pesem as opiniões de parte das classes B e A os marqueteiros "escondem" o FHC por esse motivo.

3 - A oposição comete dois erros que brutais. Primeiro, como diz o Gaspari, fazem excelentes seminários com ex-ministros defedendo e reapresentando as ideias de um governo que acabou em 2002. Segundo, como diz o Magnoli num bom artigo A substituição da divergência política pela acusação criminal evidencia o estado falimentar da oposição no País e, mais importante, inocula veneno no sistema circulatório de nossa democracia.. Petralhas, o Apedeuta, "O inimigo agora é o mesmo" e definir o PT como quadrilha dá um tiro no pé da oposição democrática. Fica-se nessa abordagem a la Reinaldo Azevedo e se deixa de lado a discussão substancial da política. Como novamente diz o Gaspari, o cara que odeia o PT fica odiando duas veze mais, mas continua com um voto apenas. Agora, que tem gente que sonha com um "golpe institucional" (a la Honduras, Paraguai), ah!, isso tem...

4 - Por fim, existe vida inteligente na oposição sim! Olhem essa proposta de cotas nas universidades estaduais paulistas. Agarraram o touro (cotas) pelos chifres e expandiram o programa de forma muito mais completa e abrangente (ao que me parece,li apenas uma notícia). É uma baita evolução e, isso sim, um grande exemplo de como construir alternativas ao governo.

@Bisnetto, gosto muito dos teus comentários, mas no ponto "nova classe média é profundamente anti-Lula" divergimos, fico com a abordagem do André Singer pata quem "só vai tirar o PT do governo quem souber falar com as classes emergentes" . Aqui.

Loooongo post, desculpem.

Anônimo disse...

Bom para o povo. Eu não voto no PT porque não recebo um benefício direto do governo. Bolsa, subsídio, nada. Não uso sistema de saúde público. Não compro nada parcelado a juros barato. Não tenho financiamento na caixa. Só pago a conta do governo junto com os outros. Então eu voto em quem deixa a conta barata para mim, porque na média uso muito pouco do Estado.

Jorge Browne disse...

Bah Anon! Esse post vai para meu Hall of Fame, categoria Ironia. Muito bom.

Frank disse...

""só vai tirar o PT do governo quem souber falar com as classes emergentes""

ou qdo as classes emergentes pararem de emergir (ou emergirem mais devagar), algo q parece já estar ocorrendo.

Jorge Browne disse...

Porque Frank?

iconoclastas disse...


"Aposto mais numa oposição simpática ao PTismo-lulismo,"

...

"Por fim, existe vida inteligente na oposição sim! Olhem essa proposta de cotas nas universidades estaduais paulistas. "

caramba, eu me achava relativamente pessimista, mas ao ver essas opiniões passei a me achar muito otimista.


;^)

Frank disse...

Jorge, refiro-me aos resultados fracos do crescimento de PIB em 2011-2012.

se o Brasil inventar o crescimento de bem-estar sem crescimento econômico, teremos inventado o "almoço grátis" :)

Anônimo disse...

Falta um discurso para a oposição. O que eles fariam diferente? Que país eles pensam? Aliás, eles pensam? Não creio que Aécio tenha estofo para uma corrida presidencial. E não sei se o Eduardo Campos é um balão de ensaio da mídia ou não. Mas se ele se lançar vai ser engraçado ver a direita apoiando o PSB.

Anônimo disse...

Esse seu post me lembrou de certa ocasião em que o Lula disse que "democracia é onde todos têm o que comer", no que o Reinaldo Azevedo emendou: "então granjas de porcos e galinhas são o lugar mais democrático do mundo!" Pois é: a Granja Brasil está bombando, não duvido dos gráficos. Mas estou estranhando uma certa "empolgação" no ar! A OCDE acabou de colocar a Granja em último lugar entre os BRICS (atrás tbém do Tio Sam), em crescimento econômico. E por que se fala em "oposição"? O que é isso???

Anônimo disse...

Esse seu post me lembrou de certa ocasião em que o Lula disse que "democracia é onde todos têm o que comer", no que o Reinaldo Azevedo emendou: "então granjas de porcos e galinhas são o lugar mais democrático do mundo!"


E é por isso que a oposição não se elege.

Anônimo disse...

Golpe institucional? Prender ladrão que é seu herói de infância é golpe? Não tem acusação e sim condenação. Ah, esqueci que agora Sarney e Maluf não são mais exemplos do pior da política brasileira, são idealistas que jogam na regra do jogo da política profissional. E o STF é a elite raivosa e golpista. Patético.
O uso eleitoral do crimes por parte da oposição faz parte do jogo, tanto aqui como em qualquer outro país. Acredito que foi pouco usado inclusive, por determinação dos marketeiros tucanos.
"Tenho impressão de que a tal "nova classe média" é profundamente anti-Lula e anti-PT". Também não acho isso, acho que eles são conservadores, pragmáticos e sem viés ideológico. E não curtem o FHC.
Frank, você pode estar certo, mas ao fim deste biênio acredito que o conforto econômico ainda é muito alto. Expandir programas sociais parece ser impossível daqui para frente, mas mantê-los...
Dantas

Drunkeynesian disse...

Eu acho analisar crescimento do PIB em um ano uma perda de tempo... mas, sim, o Brasil de fato tem um problema grave e insustentável, que é o descompasso entre os salários e a remuneração do capital. Ou bem o plano Dilma dá certo e consegue atrair investimentos, ou logo mais a lenda do pleno emprego vai sofrer algum dano.

Lucas Iten Teixeira disse...

vai sofrer algum dano, mas só depois de 2014, qdo ela ganhara no 1o turno (nao, nao será de propósito, só um somatorio de inflaçao, gargalos e questionamento da nova classe media que deve surgir apos a Copa)

Anônimo disse...

"descompasso entre os salários e a remuneração do capital". É verdade. Sem investimentos o risco de uma espiral queda emprego-queda arrecadação-pressão por gastos anticiclicos- cambio mais fraco-inflação mais alta afetar o eleitor fica mais presente.

Delfim Bisnetto disse...

"@Bisnetto, gosto muito dos teus comentários, mas no ponto "nova classe média é profundamente anti-Lula" divergimos, fico com a abordagem do André Singer pata quem "só vai tirar o PT do governo quem souber falar com as classes emergentes" . "

Como disse, é mais uma impressão a partir das pessoas que conheço. Mas, evidentemente, minha "amostragem" pessoal está muito aquém de qualquer representatividade.

"Por fim, existe vida inteligente na oposição sim! Olhem essa proposta de cotas nas universidades estaduais paulistas."

Quem declarou esse negócio de cotas foi o reitor da Unesp após uma reunião do Conselho de Reitores das Estaduais Paulistas (CRUESP). O da Unicamp disse que é só uma proposta e aquela coisa que está na reitoria da USP nem se manifestou. Dúvido que saia assim tão fácil.

Anônimo disse...

E é por isso que a oposição não se elege."

Justo. Como a maioria do povo tem miolo de galinha, pensam q morreriam de fome sem a situação. Além disso, se perguntam: o que mais queremos?

Jorge Browne disse...

Dantas, olha o que diz o Magnoli, claro q a oposição deve explorar o mensalão e tais. Mas isso se faz na Política porém, não como se fossem as páginas policiais. Esse discurso extremado q exemplificas bem serve na internet, mas não ganha eleição.

Bisnetto, o Singer está com uma boa abordagem sobre o lulismo. Vale ler o livro ou pesquisar as entrevistas dele. Essa proposta da CRUESP é inteligente mesmo se não for adiante. Ninguém se elege hoje propondo fim das cotas, cortes de gastos sociais, mudanças no BF, redução de salários, etc.

DK, o governo parece que fez uma inflexação para o lado da oferta, mesmo assim investimento não decola. Ser keynesiano hj é também acreditar q
No papel das expectativas como explicação de pq isso não acontece.

iconoclastas disse...


http://www.ebc.com.br/2012/11/brasil-fica-em-penultimo-lugar-em-ranking-global-de-qualidade-de-educacao

pô, mas a pesquisa deixou a África de fora...

Anônimo disse...

Essa história do investimento não decola deve ser melhor analisada.

Os exemplos do aumento de capital da petrobrás que não foi direcionado para os investimentos da empresa e também o aumento de capital da eletrobras e que ambas agora estão sendo direcionadas para conter a inflação são motivos suficientes para afastem investidores em qualquer segmento que possa ser afetado.

Anônimo disse...

Acho que o Mansueto é quem melhor tem destacado a importância das transferências públicas para o crescimento da renda dos mais pobres. Some-se a isto a valorização do real e o vigor da economia nos anos passados, claro, todos ricos e felizes com o hábil Presidente Lula.

A questão fica por conta da sustentabilidade. Mas acho que temos um Peron pelos próximos 20 anos.

Dk, os mecanismos pelos quais a economia sairia da situação atual de pelno emprego/sem dinamismo para uma economia novamente ajustada, dinâmica e competitiva merece melhor exame. Quais os fatores que farão o atual modelo dar água? Qual a solução para restaurar o preço dos serviços em níveis mais razoáveis? Desvaloriazação cambial?

Abraços,

Rafael

Drunkeynesian disse...

O modelo atual termina matando os "espíritos animais", creio, e com o governo tendo que incorrer numa política fiscal irresponsável para manter o pleno emprego. Desvalorização cambial sem dúvida ajuda, mas é uma solução pontual, não ataca os problemas estruturais de falta de produtividade. Nesse sentido, acho que o Brasil perdeu mais uma chance, usou muito pouco dos anos de bonança para aumentar a taxa de acumulação de capital ou melhorar a educação... De fato é um tema que merece mais atenção do que só um comentário rasteiro, vou tentar falar sobre isso até o final do ano.

Frank disse...

"Qual a solução para restaurar o preço dos serviços em níveis mais razoáveis? "

índice de preços marretados, para forçar reajustes de salário (dissídios apoiados em IPCA, por exemplo) q reduzam o poder de compra da massa assalariada.

q tal ? :)

Anônimo disse...

"índice de preços marretados, para forçar reajustes de salário (dissídios apoiados em IPCA, por exemplo) q reduzam o poder de compra da massa assalariada."

Ia ser o auge do "That's 70's Show!"

Drunkeynesian disse...

Pra sinalizar isso, bastaria anunciar a volta do próprio Delfim ao governo.

Jorge Browne disse...

Que maldade DK :-)

Frank disse...

Armínio Fraga n'O GLOBO: "Temos visto o governo adotar medidas pontuais que têm claramente como objetivo trabalhar o índice de inflação. Isso tipicamente provoca problemas macroeconômicos lá na frente, escamoteando a realidade"

oglobo.globo.com/economia/para-arminio-governo-escamoteia-realidade-da-inflacao-6866391

estou em boa companhia ?

ou não... (depende do ponto de vista) :)

Dionísio disse...

Além desses dois gráficos, o último livro do Marcelo Neri (A Classe C) decompõe muito bem a evolução da renda, consumo, escolaridade, etc dessa classe e permite entender esse ganho de bem estar no micro.

Agora, eleitoralmente, o PT está sabendo se reinventar muito mais rápido que a oposição. Dilma e Haddad investindo na marca da gestão, desonerações tributárias, etc.