terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma crítica de Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme

De vez em quando alguém me pergunta o que achei do Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street 2, daqui pra frente). Só fui ver o filme semana passada, então minha opinião provavelmente não vai ter nada de original. De qualquer forma, vamos lá (se você não viu o filme e pretende fazê-lo, talvez seja boa ideia deixar este texto para depois):

Ideologias à parte, Oliver Stone é um puta cineasta, o que talvez tenha ficado esquecido nos micos que ele fez nesta década (Alexander, World Trade Center, W, South of the Border. Além disso, ele escreveu "a porra do roteiro de Scarface", como fez questão de contar para o Shia LaBeouf durante as filmagens deste filme). Wall Street 2 nos lembra disso: as 2h15 do filme passam rapidinho. Ele sabe como contar uma história, o elenco é fantástico, o personagem Gordon Gekko ainda é sensacional e a música do David Byrne e do Brian Eno casou muito bem com as imagens de Nova York, mesmo quando aparecem aqueles efeitos meio cafonas de prédios se misturando com dominós caindo. Paro por aqui o comentário "artístico", já que, imagino, ninguém queria saber desse tipo de opinião quando me perguntavam do filme.

Para quem viveu a crise de 2007/2008 trabalhando no mercado financeiro, as cenas dos banqueiros reunidos com o tesouro e o Fed são uma grande atração, e parecem bastante verossímeis. Na primeira delas, o banco ficcional Churchill Schwartz (uma mistura dos reais Goldman Sachs e JP Morgan) coloca na parede o problemático Keller Zabel (referência óbvia a Bear Stearns), forçando sua venda a US$ 3 dólares por ação e provocando o suicídio de seu presidente, Louis Zabel. Na segunda, é o Churchill Schwartz (e o resto do sistema financeiro) que imploram (ou chantageiam) por ajuda para o Fed e o Tesouro, que, como na vida real, reconhece que os bancos são grandes demais para irem à falência e os salvam (também há personagens que são referências evidentes a Hank Paulson e Tim Geithner). Mas isso tudo é secundário. Os grandes temas do filme são redenção e renovação.

Gordon Gekko acaba de passar oito anos preso pelas fraudes cometidas no primeiro filme. Dedica-se, inicialmente, a vender livros e dar palestras, até descobrir uma maneira de conseguir sacar os US$ 100 milhões que deixou sob custódia da filha (Winnie) antes de ir para a cadeia. Com os US$ 100 milhões, como George Soros, volta da aposentadoria para operar em um mercado caótico, porém cheio de oportunidades. No final do filme, os US$ 100 milhões viraram US$ 1 bilhão, e Gekko pode devolver o dinheiro para Winnie, que o usa para investir em uma companhia de energia limpa na qual Jake, seu noivo, acredita. Gekko está redimido, e o dinheiro ganho com o estouro de uma bolha é renovado e usado para um projeto inovador e benéfico para a humanidade. O filho de Winnie e Jake nascerá em um mundo melhor.

Jake Moore, o genro de Gekko, choca-se com o suicídio de Louis Zabel, seu mentor no trabalho, e decide trabalhar para o Churchill Schwartz. Ultrajado por saber que a companhia de energia limpa que ele apoiava foi preterida em um investimento de chineses por não trazer benefícios para os executivos do banco, Moore decide preparar e publicar um dossiê envolvendo Bretton James, o presidente da Churchill Schwartz, em uma série de fraudes que visavam lucrar com a queda do Keller Zabel. James é demitido e deve responder a um processo. O suicídio de Louis Zabel está vingado.

No mundo criado por Stone, há espaço para redenção, renovação e justiça. O dinheiro capturado oportunamente após o estouro da bolha financeira é usado para financiar projetos ecologicamente corretos. O banqueiro que leva sua instituição à falência vê como única saída honrosa o suicídio. O outro banqueiro, inescrupuloso, é desmascarado e punido. Gordon Gekko, depois de um longo período na cadeia, está pronto para voltar ao mercado, contando apenas com suas habilidades e com objetivos mais nobres. Até Bud Fox (Charlie Sheen), a cria de Gekko do filme de 1987, encontrou sua redenção: transformou a companhia aérea em que o pai trabalhava em um negócio lucrativo, ficou multimilionário e agora dedica-se à "garotas, invernos em St Barts e filantropia".

Stone é um idealista: pintou o mundo como ele gostaria que fosse. A vida real, como sabemos, é bem diferente. O estouro das bolhas, por enquanto, não implicou em renovação, mas sim em desculpa para uma gigantesca transferência de dinheiro do contribuinte para uma classe de plutocratas, sem maiores consequências para os envolvidos. A mensagem relativamente otimista do final do filme, com crianças brincando com bolhas, não encontra correspondência em uma sociedade que parece cada vez menos se preocupar com as próximas gerações.

Quando fez o primeiro Wall Street, Oliver Stone queria fazer uma crítica à cultura inescrupulosa dos anos 80. Acabou inspirando uma geração de pretensos Gordon Gekkos, loucos por dinheiro, influência e poder. Desta vez, creio, a tentativa é de criar, em Jake Moore, um modelo para os recém entrados no mercado de trabalho. Temo, entretanto, que a figura que pode emergir do filme como inspiração é a do cínico Bretton James (papel de Josh Brolin) que opera na área cinzenta entre crime e legalidade, dá-se ao luxo de destruir um original de Goya num momento de fúria e, apesar de ter a sorte consideravelmente pior do que muitos dos executivos envolvidos na crise e perder o emprego, não tem sua fortuna ameaçada (talvez tenha, numa sequência). Essa história ainda está sendo contada, e, talvez, a visão relativamente otimista do cineasta ainda se prove correta. Infelizmente, por enquanto, as evidências apontam para o contrário.

Um comentário:

João Marcus disse...

Caro D
Vou comentar porque minha opinião do filme é diametralmente oposta! Foram as duas horas e pico mais longas da minha vida cinéfila! Ao chegar em casa rapidamente coloquei na máquina o WS original de 87 para "compensar". Pensei; "É nisso que dá qdo alguem se torna amiguinho de pessoas como Hugo Chavez"!