sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meus 5 ienes sobre o Japão

5 centavos de dólar (e caindo)
Primeiro, atualizando os que não se interessam tanto pela página 5 do caderno de economia dos jornais: ontem o banco central do Japão anunciou que vai aumentar seu programa de compra de títulos da dívida soberana e que pretende, em dois anos, dobrar a base monetária. Se de fato levado à prática, será um dos maiores experimentos monetários da história. Aqui alguns pensamentos que juntei nesse par de dias, ajudado pela discussão de ontem no Twitter (muito obrigado aos interlocutores):

- Uma das consequências do anúncio foi uma queda nos juros longos, de patamares já ridiculamente baixos (0,56% aa para 10 anos) para novas mínimas históricas (0,32% - salvo engano, menor taxa já negociada para um título desse vencimento na história da humanidade). Essa taxa, a meu ver, embute duas fortes convicções: i) os juros curtos, ditados pelo banco central, serão próximos de zero por muito tempo; ii) o BC aceitará essas taxas (e possivelmente mais baixas) na recompra de títulos. Como consequência, um comportamento que em qualquer condição inicialmente pareceria irresponsável, como se alavancar o quanto possível para comprar títulos rendendo menos de 1%, terá se convertido em uma estratégia muito vencedora.

Considerações de risco moral à parte: o que impediria essa taxa de cair ainda mais, já que, aparentemente, o poupador que carrega os títulos não se importa com sua rentabilidade e, para o governo, quanto mais baixa, melhor (mais fácil servir a dívida, mais potencial de gerar inflação e crescimento nominal)? Na medida em que os juros longos se aproximam a zero, há cada vez menos diferença entre emitir títulos e simplesmente imprimir dinheiro (papel moeda é um título perpétuo do governo que não paga juros) para cobrir os déficits?

- Antes de começar a gritar "Weimar! Hiperinflação!", é bom lembrar que hiperinflações não são fenômenos exclusivamente monetários (mais nesse trabalho do James Montier). A questão aqui, como diria meu chefe, é quanto tempo o senhor e a senhora Watanabe aceitam trocar horas de trabalho e mercadorias por papel pintado cada vez mais abundante. Ou, vendo por outro lado, transferir dinheiro de suas poupanças para especuladores, bancos e outros que se posicionem para lucrar com juros reais negativos. Poderia aqui entrar em uma discussão de botequim sobre a coesão da sociedade japonesa e sua disposição a sacrifícios, mas não conseguiria ir além dos estereótipos - de qualquer forma, o Japão de hoje está longe de parecer um ambiente propício à convulsão social (claro que isso pode mudar relativamente rápido, como a história já mostrou tantas vezes).

- Afinal, o que quer o governo do Japão? Aqui me apoio na opinião de Noah Smith, que provavelmente já esqueceu sobre economia e Japão mais do que vou aprender na minha vida. Quando Shinzo Abe foi eleito (a votação foi em 16 de dezembro, mesmo dia em que o Corinthians ganhou o mundial de clubes - os sinais de mudanças tectônicas estavam lá para quem quisesse interpretar!), ele achou que o principal objetivo da nova política econômica era provocar uma forte depreciação no iene para atender interesses "mercantilistas" (mais aqui). Esta semana ele mudou de opinião, e acha que as mudanças podem ser mais profundas (aqui). Em resumo, o Japão parece estar disposto a fazer a maior aposta de política monetária da história para tentar aumentar o patamar da inflação no país e gerar algum crescimento. No mínimo vão gerar excelente material para os historiadores econômicos do futuro.

- Para concluir: se tudo der certo, daqui a alguns meses o Japão terá uma moeda mais depreciada, algum crescimento e inflação subindo, mas sob controle. Seria um caso de sucesso (ainda que temporário, alguém pode dizer) que geraria grande clamor por imitações em outras partes do mundo (possíveis consequências em um outro post futuro - só fiquemos em mente que o contexto do Japão é muitíssimo específico). Se der meio errado, a economia segue emperrada e com inflação muito baixa, e aí ou a definição de insanidade de Einstein segue sendo aplicada (fazer mais da mesma coisa esperando resultados diferentes) ou os japoneses buscam outros caminhos (eventualmente um novo líder). Se der muito errado, o que parecer bom no início (mais inflação) sairá do controle e veremos o desenrolar da maior crise de dívida da história (mas não Weimar - comparações com Weimar deveriam render uma Lei de Godwin aplicada à história econômica). Tempos interessantes, tempos interessantes...

11 comentários:

Anônimo disse...

Tudo isso por uma OGX?

Manoel disse...

Vi no twitter, mas ainda não entendi.

Porque a inflação (se ocorrer) vai causar crise da dívida?

2. Se o QE gigantesco não provocar inflação, mais uma pá de cal nos monetaristas, não?

abç
M

Drunkeynesian disse...

Oi, Manoel,

Inflação causaria crise da dívida quando os detentores de títulos decidirem que não estão dispostos a receber juros reais negativos, e vendem para aplicar em outros ativos. A questão aí é a que nível o governo interviria para monetizar, mas o risco de sair de controle parece grande.

2. Acho que sim, ainda que eles sempre podem dizer que foi feito "pouco"...

P.S. você é o Manoel - Maceió da FEA? Se sim, lembro de boas discussões que você protagonizava em algum grupo de e-mails... De qualquer jeito, bem-vindo por aqui.

Anônimo disse...

"que provavelmente já esqueceu sobre economia e Japão mais do que vou aprender na minha vida"

escreveu... autocorretor rs?

abs

Drunkeynesian disse...

Não entendi...

Dawran Numida disse...

Ainda fica difícil entender como uma população, disposta a poupar, iria comportar-se diante de tanta moeda em circulação, que poderia fazer seus ativos virarem pó.

Bem, iosso seria uma discusssão quase infindável. Melhor aguardar.

Só para tirar do sério, poderiam apostar no ativo "pré-sal brasileiro"...

Manoel disse...

Olá,

sim, sou eu mesmo o Maceió da FEA. Obrigado pelas palavras. Seu blog parece ser um bom blog. Mas você seria??

Sobre o Japão, se a inflação sair do controle, o BC de lá vai elevar os juros, provocando uma brutal recessão. Mas não vejo como isso vai provocar uma crise da dívida (como os juros são prefixiados, os títulos já emitidos perderiam valor e o BC poderia recomprá-los, reduzindo o peso da dívida, não?)

ps.: o anon acima se referiu ao fato de que você usou a palavra "esqueceu", ou seja, dizendo que o Noah já "esqueceu" muito sobreo Japão, e provavelmente vc quis dizer ja "escreveu"...

Anônimo disse...

Mas em 2% a taxa de juros real ja estaria negativa, não? Eu digo, poderia estar dentro do controle e negativa.

Ps: Desculpe a ignorância graduanda.

Guilherme

Drunkeynesian disse...

Sou seu calouro e acho que não te conheci pessoalmente... mas trabalhei com o Lungov, que você conhece (acho).

Exato, os títulos emitidos perderiam valor, provavelmente os bancos quebrariam e o refinanciamento seria ou a taxas mais altas ou com emissão de moeda, com os riscos associados.

Aaaah, era "esqueceu", mesmo - no sentido de que o que ele já aprende e esqueceu é provavelmente mais do que eu já aprendi ao longo da minha vida.

Guilherme, sim, acho que esse é o cenário desejado - juro real "levemente" negativo, a ponto de não incomodar muito o poupador.

Jorge Browne disse...

Por falar em juro negativo esse quadro aqui me deixou horrorizado (pela informação nele contida e pela minha total ignorância da realidade). Acho que valia um post teu DK.

Como trabalhador e poupador (alguém que não quer perder em termos reais o resultado do seu trabalho) estou pensando no Tesouro Direto...

Delfim Bisnetto disse...

Também acharia interessante um comentário sobre a tabela proposta pelo Browne...

Sobre o Japão, é difícil não aplicar a "insanidade de Einstein" já... Acho que a medida aponta mais a falta de alternativas de política macroeconômica (o que só faz os governos aumentarem o "call" das que nunca deram muito certo) do que uma novidade de grande risco.

Já achei que isso era papo de boteco, mas cada vez mais me convenço que a Economics se tornou tão tecnicista e homogênea que constrange qualquer inovação. Mesmo o Krugman, por muitos considerado maluco ou politizado demais, não propõe nada além de imprimir dinheiro e aumentar o gasto público.