terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os "heróis" do Unibanco e jornalismo preguiçoso


O título da matéria de capa da revista do Valor (ValorInveste) deste mês é "A história não contada do ataque especulativo ao Unibanco". Nela "aprendemos" que as ações do Unibanco sofreram, durante outubro do ano passado, um "intenso ataque especulativo", alimentado por "boatos sobre possíveis perdas da instituição com câmbio". A companhia teria sido salva por uma heróica operação de recompra de ações durante o dia 24 de outubro, orquestrada por um dos diretores da Unibanco Holdings, que reconta a história com tons épicos: "Naquele momento, o mercado atuava como um alcateia, se reunindo para abater uma presa fácil. Era preciso matar o máximo de lobos, e rápido, na partida".

O texto usa como fontes sócios, funcionários e ex-funcionários do Unibanco, que, evidentemente, teriam motivos para florear a história. E o autor da matéria ou se de deixou levar pela simplicidade do conto de fadas maniqueísta (o "bem", representado pelos banqueiros, patriotas, geradores de empregos contra o "mal", os lobos, especuladores, abutres, vendedores usando corretoras estrangeiras) ou quis agradar alguém. A verdade, como de costume, é bem menos glamourosa: simplesmente a recompra ocorreu um pregão antes do Ibovespa alcançar o menor nível desde janeiro de 2005 (29,435 pontos - ver o gráfico abaixo), que não voltou a ser atingido mais nenhuma vez desde então (a bolsa americana ainda teria dois momentos piores, em novembro de 2008 e março deste ano, antes de iniciar uma recuperação relativamente consistente). Aquele dia (27 de outubro) também marcou a mínima de preço de fechamento da ação do Unibanco (R$ 10,28), embora a matéria alegue que os preços das compras da tesouraria tenham sido abaixo desse nível (R$ 10,05).



As conclusões são relativamente claras: primeiro, o que houve não foi um ataque especulativo ao "pobre" Unibanco, mas sim uma venda generalizada de ações, que, no caso do Brasil, atingiu um pico naquele dia (além disso, quase todo o movimento da ação do Unibanco no ano passado foi altamente correlacionado com o Ibovespa, como é fácil ver pelo gráfico). As ações da Vale, por exemplo, também fizeram uma mínima (a menos da metade do que valem hoje) naquele dia, e nem por isso acredita-se que a empresa estava sendo vítima de especuladores. Segundo, trata-se de mais um exemplo de manipulação conveniente do acaso: como tudo correu bem, mesmo por motivos alheios, louros para os protagonistas. Imaginemos se, por exemplo, na semana seguinte da tal recompra mais um banco global quebrasse, mesmo que isso não afetasse em um centavo o balanço ou os resultados do Unibanco. Provavelmente haveria mais uma rodada de vendas de ações mundo afora, que dificilmente não afetaria o preço da ação do Unibanco e pegaria a companhia numa posição de caixa ainda mais fragilizada, depois de ter gastado cerca de R$ 228 milhões na recompra. O Unibanco poderia ter problemas, e os gênios (sortudos) teriam se transformado em (no mínimo) irresponsáveis.
É interessante ver tal matéria aparecer menos de uma semana depois do anúncio que a marca Unibanco vai desaparecer. E também que continuamos sem saber da verdadeira história da operação Itaú / Unibanco: foi de fato uma fusão ou a aquisição disfarçada de um banco que estava frágil? Houve dedo do governo? Essa e outras matérias sobre o período turbulento do ano passado (a ridícula compra de 49,9999999...% do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil, a participação do BNDES nos frigoríficos, a implosão da Aracruz...) ficam para quando o tempo inocentar os envolvidos ou para jornalistas mais corajosos.

2 comentários:

Rafael C. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
H.Alonso disse...

Gostei do seu ponto de vista. Li a reportagem hoje, e ainda não tinha visto por este ângulo. Faz muito sentido. Parabéns.