sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Leituras da Semana

De novo, lista mais longa do que o usual... A proximidade do Natal deve estar fazendo meu critério amolecer. Ah, hoje é dia de 20 anos da independência do Greatest Country in the World.

- 10 previsões realistas para os mercados em 2012.

- As apostas pessimistas com a China começam a render.

- Bill Gross, o Total Return Fund e seu momento sic transit gloria mundi.

- 10 coisas que achávamos que sabíamos sobre economia, por Stephen King, do HSBC.

- Daron Acemoglu, aposta certeira para um futuro Nobel, indica cinco livros sobre desigualdade.

- Dani Rodrik sobre a ocupação das aulas de introdução à economia de Harvard. Parágrafo que vale ser destacado, sobre a graduação em economia:

In our zeal to display the profession’s crown jewels in untarnished form – market efficiency, the invisible hand, comparative advantage – we skip over the real-world complications and nuances, well recognized as they are in the discipline. It is as if introductory physics courses assumed a world without gravity, because everything becomes so much simpler that way. 

- Economistas ouvidos pela BBC escolhem os gráficos que definiram 2011.

- Magno Karl, do OrdemLivre, teve a paciência de compilar todas as previsões furadas de Guido Mantega para o crescimento do Brasil neste ano.

- O lado liberal da Suíça: alguns cantões da parte francófona liberaram o cultivo doméstico de maconha, e um estudo do governo concluiu que o download de material para uso pessoal não deve ser criminalizado.

- O guia de economia comportamental para presentes de Natal.

- A piauí deste mês tem dois bons textos: um sobre o Banco PanAmericano e outro sobre Farouk al-Kasim, um imigrante iraquiano que contribuiu enormemente para o tratamento primoroso que a Noruega dá a seu petróleo. O último ainda não está aberto para não-assinantes; na falta dele, vale ler outro perfil feito pelo Financial Times, há dois anos.

- Um tributo a Christopher Hitchens.

- Os livros do ano, pela The Economist.

- Química orgânica aplicada: convertendo açúcar em cocaína e tequila em diamantes.

- O que deveríamos saber sobre o tempo.

- A versão 2011 do Julgamento de Paris, agora com vinhos... chineses!

- 2011 em Lego.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma ação para acompanhar

De La Rue plc, listada na Bolsa de Londres, mais antiga companhia privada dedicada à impressão de cédulas de papel-moeda (entre outros produtos). Na tese razoavelmente plausível do Grant's Interest Rate Observer, lucraria caso alguns países resolvessem voltar a suas antigas moedas nacionais.


P.S. A De La Rue já nos forneceu muitos cruzados e cruzeiros, velhos e novos, de diversas denominações.


Zeitgeist 2011, pelo Google

Vídeo:



O hotsite, dá para perder umas boas horas maquinando teses antropológicas e sociológicas com as espetaculares apresentações de dados (e chorar por ter vivido um ano no qual o maior interesse do mundo foi por Rebecca Black).

Dados do dia - FUBAR

FUBAR, segundo consta, é um acrônimo inventado durante a II Guerra pelo exército americano para designar algo que está "fucked up beyond any repair", ou, em Português popular, "problema de 'junta' - 'junta' tudo e joga fora". A Moody's publicou um estudo de sustentabilidade da dívida de vários países, levando em conta o nível atual de endividamento (quanto o país pode aumentá-lo sem atingir um nível crítico - chamado de fiscal space, mais sobre a metodologia aqui) e qual a taxa máxima de juros que poderia ser paga pela dívida sem iniciar uma espiral destrutiva. Os resultados estão resumidos na tabela (mais na The Economist):


Para a Moody's, Irlanda, Itália, Portugal, Grécia e Japão estão (ou muito perto de) FUBAR. O fato das notas de crédito não refletirem isso só confirma a inconsistência das agências e a inutilidade prática desse indicador.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Uma resenha para Grand Pursuit, de Sylvia Nasar

Grand Pursuit: The Story of Economic Genius, da economista (mestre pela NYU) e jornalista Sylvia Nasar, propõe-se a ser uma história de como a humanidade, a partir do século XIX, superou boa parte de suas limitações materiais (a chamada armadilha malthusiana) e fez com que o mundo pudesse ter sua população aumentada em quase seis vezes, chegando aos dias de hoje com, salvo exceções que confirmam a regra, o melhor padrão de vida desde sempre. Na visão da autora, isso deve-se em parte significativa a economistas, esses seres estranhos que apareceram mais ou menos junto com a Revolução Industrial e se propuseram a estudar como lidar com problemas sociais que envolvem produção e alocação de bens e dinheiro.

Evidentemente, é difícil isolar a contribuição dos economistas para a História, e todos os mencionados no livro são produtos de seus tempos e circunstâncias (em medida maior do que os moldaram, creio), mas Sylvia Nasar faz uma grande defesa da profissão - especialmente daqueles que não só tentaram teorizar sobre economia, mas tiveram (ou tentaram ter) papéis decisivos na formulação e discussão de políticas que visavam aumentar o bem estar da sociedade ou resolver problemas criados por guerras e outras demonstrações de estupidez do próprio homem. Daí, de início, ficam de lado alguns reconhecidos pioneiros da dismal science, como Adam Smith e David Ricardo; e Karl Marx tem a importância diminuída por sua excessiva abstração e falta de contato com a realidade (nunca visitou uma fábrica, é dito). O livro começa de verdade com Alfred Marshall, seguido por uma figura pouco estudada nos cursos de história do pensamento econômico: Beatrice Webb (foto), uma aristocrata inquieta que, entre outros feitos, foi das primeiras a estudar a condição dos trabalhadores britânicos do fim do século XIX, co-fundou a London School of Economics, colaborou com o socialismo fabiano e foi pioneira no desenho do estado de bem-estar social (welfare state).

A cronologia segue pelas vidas de Joseph Schumpeter e Irving Fisher nos anos de prosperidade antes da I Guerra, e é após o término desta, com boa parte da Europa destruída e o fim do ideal de globalização, que desponta o grande personagem do livro: John Maynard Keynes. Sua figura é predominante até sua morte, em 1946, passando pela crítica presciente ao Tratado de Versalhes, o entendimento da Grande Depressão (que, em alguma medida, desmoralizou Schumpeter e Fisher, este famoso por acreditar que as ações americanas haviam atingido uma "planície" poucas semanas antes do crash de 1929), a atuação durante a II Guerra e a influência sobre o acordo de Bretton Woods e quase todos os economistas contemporâneos.

Após Keynes, o principal pólo do pensamento econômico começa a se deslocar da Cambridge inglesa para a Cambridge vizinha a Boston (sede de Harvard e do MIT), Chicago e os demais centros universitários dos EUA. No Reino Unido ainda seriam formados Joan Robinson (que parecia a maior promessa de continuação da tradição de Keynes, mas se perdeu com a instabilidade psiquiátrica e o apoio imperdoável aos regimes comunistas) e o grande teórico de desenvolvimento e justiça social Amartya Sen (que, em 1986, também cruzaria o Atlântico para lecionar em Harvard, onde permanece até hoje). Em 1950 Friedrich Hayek transfere-se da London School of Economics para a Universidade de Chicago, onde Milton Friedman já trabalhava desde 1946. Em Chicago seria consolidado o paradigma liberal que dominou a política econômica nos últimos 30 anos. Curiosamente, a autora dá pouco destaque para os economistas americanos mais recentes - dedica apenas um capítulo a Paul Samuelson e dá mais destaque a Friedman na sua passagem pelo serviço público (onde, ironicamente, dedicou-se a aumentar a arrecadação federal) do que nos seus papéis de guru do liberalismo e possivelmente economista mais influente desde Keynes.

Keynes é o arquétipo do "gênio econômico" que emerge do livro, reunindo profunda curiosidade intelectual, flexibilidade, inteligência e veia política. Os demais retratados, ainda que com menos destaque, também tiveram influência na sociedade e em políticas públicas. Hoje o papel do economista parece fragmentado em pesquisas especializadas, muitas vezes fechadas em suas áreas e com pouco interesse no que ocorre no mundo como um tudo (como exercício, vale passar os olhos na lista de ganhadores do Nobel de Economia nos últimos anos e tentar apontar quantos foram influentes no dia-a-dia de alguma parte da população). Talvez esse fosse mesmo o caminho natural da economia e de outras ciências sociais, mas creio que uma das mensagens possíveis do livro é que pensadores econômicos generalistas, de grande capacidade de persuasão e influência política, fazem falta nos nossos dias. Amartya Sen, hoje com 78 anos, é o mais jovem retratado no livro, e quase não há menção à crise atual - talvez porque ainda está para surgir a grande figura pública que vai se meter a resolvê-la (Paul Krugman adoraria ocupar esse lugar, o que, aparentemente, não vai ocorrer).

Grand Pursuit foi amplamente comentado e resenhado, em parte pelo sucesso da autora com a biografia de John Nash (Uma Mente Brilhante) mas muito, creio, pelo grande interesse do público por história e economia e pela falta de uma obra abrangente e não-técnica desde The Worldly Philosophers, de 1953 (que vendeu mais de quatro milhões de cópias). Não é uma história do pensamento econômico (fala relativamente pouco de teoria e da evolução das ideias - para isso, Robert Solow, na resenha linkada abaixo, recomenda o também recente Economics Evolving, do norueguês Agnar Sandmo), nem uma história econômica do pós-Revolução Industrial: é a história de uma tradição de economistas agindo como intelectuais públicos e engajados com as causas pertinentes a suas sociedades. O trabalho de pesquisa foi imenso (o livro tem mais de 60 páginas de notas bibliográficas), e Sylvia Nasar tem um grande talento para entreter o leitor com anedotas, sem comprometer a linha narrativa (às vezes repete fatos já citados como se fossem novos, mas é um pecado menor). Perdoadas as omissões, é uma grande leitura, fica recomendado.

Outras resenhas mais qualificadas:

- James Grant, para o WSJ
- Justin Fox, para o NY Times
- O Nobel Roberto Solow, para The New Republic
- The Economist
- Orley C. Asehnfelter, de Princeton, num paper do NBER (que inclui o gráfico abaixo)


P.S. Não tenho notícias de tradução para o Português. Alguém tem?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

É aquela época do ano de novo...

Está quase na hora de conferir as previsões do ano passado; para este ano, a Bloomberg já compilou os exercícios de futurologia de analistas para a bolsa dos EUA (índice S&P500):


Notícia emblemática do dia - A Revolta de Atlas

Na verdade não é de hoje, é da semana passada, mas só fui ver na The Economist hoje (grifo meu):

After a world-record 541 days, Belgium finally formed a government, under pressure from the markets. The new prime minister is Elio di Rupo, a Socialist from the Walloon (French-speaking) community.

Mercados aparentemente gostam da ideia de ausência de governo, até os preços (formados pelo próprio mercado) começarem a incomodar... curioso, isso.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Correlações

Algumas explicações científicas para fenômenos do nosso tempo (clique para aumentar):


Via Business Week.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Gráfico do dia - Canções Natalinas

Via xkcd.


Som da Sexta - Lee Morgan

Para coroar uma semana de grande dedicação ao nobre hábito da procrastinação.



 "Procrastination is the soul rebelling against entrapment." - Nassim Taleb

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Gráfico do dia - custo de crises bancárias

A Autoridade Bancária Européia (EBA) divulgou hoje um teste de stress cujo resultado indica que os bancos europeus precisarão levantar adicionais € 115 bilhões em novo capital. Isso corresponde a pouco menos de 1% do PIB da União Européia (eu tinha escrito 10%, erro grosseiro - obrigado ao anônimo que corrigiu nos comentários), de  € 12,3 trilhões. Esse tipo de estimativa parece estar se aproximando mais da realidade, mas acredito que os números ainda sejam otimistas demais: para pegar um caso que me parece mais dramático, os três maiores bancos franceses carregam € 4,7 trilhões em ativos, e pela EBA precisariam de apenas mais € 7,3 bilhões (abertura dos resultados aqui).

Em 2005, o Fed de St Louis publicou o seguinte gráfico, num trabalho sobre crises bancárias:


E adicionou (grifo meu):

The fiscal costs of restructuring may seem extremely large at first, but they often pale in comparison to the long-term effects of systemic banking crises. The resources committed to resolving a crisis are diverted from other productive uses, economic reforms are delayed, and stabilization programs are abandoned. The economy suffers from higher interest rates, lower growth, and higher unemployment for a protracted period. Because nearly every citizen is affected by the declining living standards brought on by large banking crises, the public should understand the factors that weaken a banking system and make it susceptible to systemic crises.

A tabela abaixo é de um trabalho de 2010, do FMI:


Lembrando que, mesmo antes de resolver o problema dos bancos, os tesouros nacionais partem de níveis de dívida bem pouco confortáveis, para ser generoso com o adjetivo.Cada vez mais parece clara a escolha entre ligar a impressora ou calotar renegociar a dívida. Chamar a situação atual de "crise de confiança" é um insulto à inteligência dos pagadores de impostos europeus.

A transição de McCloskey

Imaginem a cena (via Marginal Revolution):

Back in the mid 1990s, I attended Deirdre McCloskey's first talk at the AEA meetings after her coming out publicly as a transgender person. She had not yet had her subsequent medical procedures, let alone written her telling memoir Crossings. McCloskey stood before a packed room of 500, dressed in a stylish dress and wig, and proudly announced "I am an economist in transition." [pause] "I am transitioning from a Chicago economist to an Austrian economist." Whatever awkwardness or tension that existed in the room was dispelled with that quip, and McCloskey proceeded to give a wonderful talk on the importance of rhetoric within the economy, pursuing a theme she had developed with Arjo Klamer in "One Quarter of GDP is Persuasion".

Mais aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Agências de classificação de risco ainda importam?

A resposta curta é: não.

- Barry Ritholtz responde, olhando para quando os Estados Unidos perderam a classificação AAA;

- Essa tabela, da última carta para o investidor de J. Kyle Bass, fala por si só:


Para quem a tabela não falou nada: a segunda coluna é a nota dada aos países pela Moody's (uma das três grandes agências de classificação de risco, junto com a S&P e a Fitch - entre as agências, as notas variam muito pouco). A terceira coluna mostra a nota equivalente ao que o mercado precifica como risco de calote (pelos credit default swaps). A última mostra a diferença entre as duas anteriores, em níveis da escala usada pelas agências. O mercado, por exemplo, precifica o risco de calote da Itália equivalente ao de um país com o rating sete degraus pior (Armênia ou El Salvador).