segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Paul Samuelson, 1915-2009

Não tenho muito a acrescentar ao obituário do New York Times. Só queria levantar uma reflexão sobre dois aspectos do legado de Paul Samuelson: a "exatização" da Economia e a cultura do livro-texto. Ambos são, na minha opinião, negativos, mas não sei se a ponto de anular as contribuições positivas que a imprensa está exaltando (não preciso repetí-las).

Quanto ao primeiro, Samuelson foi um dos pioneiros na idéia de aplicar métodos de ciências exatas (termodinâmica, no caso) à Economia e tentar propor modelos e teoremas gerais para explicar e entender a realidade. Esse hoje é o mainstream, e a força dessa visão é tão grande que mesmo teorias que já se provaram equivocadas (mas que conseguem ser elegantemente demonstradas por equações) custam a ser abandonadas. Daí, creio, vem a impressão da Economia ser mais "científica" que as outras ciências sociais, e em nome disso muitas idéias boas que não podem ser escritas com letras gregas e derivadas parciais são abandonadas ou ridicularizadas.

O segundo é uma consequência do anterior: Samuelson foi o autor do primeiro livro-texto amplamente difundido para o ensino de Economia na graduação (Economics: An Introductory Analysis, de 1948 - hoje está na 19ª edição e já vendeu 4 milhões de cópias, em 40 idiomas). Daí vem a impressão que todo o conhecimento acumulado desde os fisiocratas pode ser condensado em um livro, com o auxílio de ferramentas matemáticas. O aluno, portanto, estaria dispensado de procurar conhecer e interpretar a obra de outras épocas, já que os modelos e equilíbrios gerais não precisam ser interpretados, já contêm o "conhecimento acumulado" na forma de leis gerais e teoremas. Hoje em dia, num curso de graduação em Economia, passa-se mais tempo tentando decifrar equações e analisando dados na frente do computador do que lendo, criticando e tirando conclusões próprias.

Creio que boa parte da revitalização da Economia deveria partir de uma correção nesses dois aspectos, que criaram algumas gerações de economistas arrogantes, ultraconfiantes e (pior) influentes, com uma aura de respeitabilidade e "eu-sei-o-que-estou-fazendo". Nesse sentido, é preciso um novo Samuelson, uma figura influente a ponto de ditar os rumos do quê será estudado, e como, nas próximas décadas. Já se observou que indivíduos e agregados econômicos não se comportam como partículas cujas características podem ser previstas com baixo grau de erro; a Economia precisa de novas e mais realistas inspirações.

Um comentário:

Lauro disse...

Muito bom texto. Já ouviu falar naquela frase: " um economista perdeu as chaves do carro e estava procurando elas em baixo de um poste. Seu amigo perguntou: Porque você nao procura perto do carro? Ele respondeu: Porque aqui está mais claro...