quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mais mercados e revistas

The Big Picture também acompanha a indicação dada pela última capa da Newsweek. Enquanto isso, a bolsa americana opera na máxima do ano...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quando algoritmos de alta frequência viram editorial do New York Times

Paul Wilmott é um dos papas da aplicação de métodos quantitativos em finanças (isso não deveria ser de interesse de meia dúzia de especialistas? Pois é...), e escreve hoje um dos editoriais do New York Times dizendo que o próximo grande susto nos mercados financeiros pode vir de operações baseadas em algoritmos de alta frequência. Funciona assim: alguém monta um programa que identifica (baseado em dados históricos) certos padrões nos mercados (mesmo que esses padrões durem segundos), e o computador gera milhares de ordens de compra ou venda, lucrando caso esses padrões se repitam. Em tempos normais, esse tipo de transação representa uma fração relativamente pequena do total do volume operado diariamente; desde a crise do final do ano passado, porém, os algoritmos passaram a ocupar um espaço significativamente maior, consequentemente tendo mais poder de influenciar a dinâmica de preços.

O risco, para Wilmott, é de tais algoritmos criarem um espécie de efeito dominó -- tendências que se auto-alimentam -- que voltaria a desestabilizar fortemente os mercados e teria consequências danosas para o restante da economia. Ele cita, como exemplo, a grande queda das bolsas mundiais de outubro de 1987 (quando a bolsa americana perdeu 22,7%), que teria sido causada, em parte, por algumas estratégias baseadas em algoritmos.
Essa discussão já havia sido iniciada há algum tempo nos blogs e sites especializados em finanças (o editorial do New York Times chega atrasado e só confirma uma tendência). O argumento técnico faz sentido: quanto mais o mercado é dominado por estratégias quantitativas, maior a chance de os ativos passarem a adotar padrões de preços que têm pouco a ver com o "mundo real". Entretanto, acho que ela deixa escapar algo maior.
Como diria Bastiat, há o que se vê e o que se não vê, e, geralmente, o segundo é mais importante. O mundo pode se prevenir contra o que se vê e está estampado nos jornais, o invisível e imprevisível tem consequências mais perigosas. Neste caso, o que não está exatamente explícito é que o suposto domínio do mercado por computadores é um sinal de que os demais participantes, sejam eles poupadores, especuladores, empresas, investidores de longo prazo, governos, etc., perderam importância na formação de preços. A consequência é um mercado menos funcional, e, por isso, mais frágil e sujeito a rupturas. Essas rupturas, como o tal outubro de 1987 e tantos outros episódios, são de natureza mais estrutural do que pontual -- as explicações são sempre posteriores e geralmente contam apenas um lado da história (até hoje debate-se o que causou, por exemplo, a crise de 1929) . É natural do ser humano procurar culpados e responsáveis para tentar montar uma história, quando, na verdade, a complexidade de um sistema que envolve tantas interações entre pessoas exige mais estoicismo (aceitar as coisas como elas são) e reflexão. Os algoritmos de alta frequência, por si só, provavelmente não seriam capazes de provocar uma nova de onda de pânico em mercados líquidos; o fato de esta não ser a condição atual é sinal de que muito dinheiro deixou de procurar o mercado financeiro -- seja porque muito capital foi perdido, ou porque não há mais confiança nas regras do jogo, ou por qualquer outro motivo -- e isso é realmente preocupante para o futuro do capitalismo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

12,000,000,000 ~ zero

Michael Lewis está com um texto hilário na Bloomberg sobre a Goldman Sachs, veja lá.

Trecho:

Let’s assume AIG transferred $12,880,560,250.34 of taxpayer money to Goldman Sachs. A Goldman outsider, asked to round this number, might call it $12,880,560,250.00. That’s not how we look at it; at Goldman we always round to the nearest $50 billion, so anything less than $50 billion rounds to zero.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Acabou a recessão - versão Brasil

Manchete do UOL hoje:

Bovespa fecha em alta e recupera patamar anterior à crise

Melhor que a manchete, só a palavra do analista citado:

"Com os sinais de recuperação, ninguém está querendo correr o risco de perder o potencial de uma valorização ainda maior das ações", afirmou Hamilton Moreira, analista senior do BB.

A euforia está de volta, como se nesse período, de setembro do ano passado até aqui, nada muito relevante tivesse acontecido com os mercados mundiais. E a pirâmide (castelo de cartas, melhor dizer) vai caminhando para o topo: primeiro compram os investidores profissionais, depois alguns especuladores, a mídia se dá conta, a notícia chega nos menos informados e preparados. Já vimos como isso acaba, e aí entra o grande mito de ações como bom investimento no longo prazo que já citei aqui: o "bom" depende muito de em que nível se compra. Quem comprou há um mês deve estar feliz para o resto do ano; quem entra agora para "não correr o risco de perder o potencial de valorização" corre, na verdade, um risco bem maior e que está sendo ocultado por toda essa euforia. Ninguém sabe quando será o ponto de virada da bolsa, o que é certo é que a cada dia de alta ele está mais próximo. Risco é ter a possibilidade de perder o capital, não de deixar escapar uma oportunidade de aumentá-lo -- essas sempre existirão.

Acabou a recessão

Esse é o título da matéria de capa da edição americana da Newsweek -- os EUA de fato querem acreditar que o pior já passou e que mais sacrifícios não serão necessários. Como contraponto a essa idéia, recomendo a segunda parte da carta trimestral do investidor Jeremy Grantham, que pode ser vista aqui.

Já falei aqui que capas de revista são clássicos indicadores contrários. Vamos acompanhar para ver se, mais uma vez, a teoria se confirma.

Cerveja contra a crise

O Free Exchange, um dos blogs da The Economist, nota que, nos EUA, caíram as vendas de marcas tradicionais de cerveja (como Budweiser e Miller) e aumentaram as de cervejas "subpremium" (Busch, Natural Light e Keystone). Parar de beber, nem pensar.

Roubini defende Bernanke

Num editorial do New York Times de sábado, Nouriel Roubini defende a nomeação de Ben Bernanke para um próximo mandato no Fed. Razão: apesar dos erros iniciais, "as ações criativas e agressivas do Fed diminuíram significativamente os riscos de uma depressão". Será que um economista vai conseguir acertar previsões duas vezes seguidas?

O fim do fim da crise

O Zero Hedge, junto com David Rosenberg, ex-economista chefe da Merril Lynch e um dos poucos que, corretamente, previu a avalanche nos mercados no ano passado, preparou uma apresentação bem interessante, repleta de dados, para mostrar que a crise nos EUA está só no começo. Um porém é que, com a quantidade de dados disponível hoje em dia, dá para provar qualquer tese com dezenas de gráficos e estatísticas -- sempre acho que vale mais a argumentação e o bom senso do que os números, até porque eles sempre contam uma história passada. De qualquer maneira, prefiro ficar do lado deles do que do da euforia.

The End of the End of the Recession

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Esta manhã um disco salvou minha vida

O título é paródia de um livro bem bacana, que foi lançado em 2005 e convidava várias personalidades a falar sobre um disco que, por qualquer motivo, tenha mudado suas vidas. Bem, hoje foi o dia da minha epifania: enquanto eu levava quatro horas (sem exagero -- eu estava esperando dobrar uma curva e ver uma cratera de meteoro fumegante ou o Godzilla derrubando alguns prédios, para justificar tamanho congestionamento. Mas era só São Paulo mostrando sua cara menos simpática) para percorrer os 12km entre minha casa e o escritório, São John Coltrane e o seu Blue Train impediram que eu jogasse meu carro no Rio Pinheiros ou seguisse até alguma estrada pra fugir de vez pra alguma cidadezinha do interior. Portanto, sem cabeça hoje para economia e mercados. Salve St. John!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Frase do dia

“Economics was the only profession where a person could be considered an expert without having once been right.”

-George Meany

Chupinhado do The Big Picture.

A volta do oráculo

Nada como duas semanas consecutivas de bolsa subindo para os velhos gênios reaparecerem... a Bloomberg noticia que a Berkshire Hathaway, empresa do lendário Warren Buffett, já lucrou mais de US$ 2 bilhões com as ações da Goldman Sachs compradas durante o furacão da crise financeira.

Buffett talvez seja mesmo um fenômeno, mas acredito que sua figura tenha feito muito mal para o investidor médio -- sobretudo pela interpretação incompleta de sua crença de que ações são um bom investimento no longo prazo (felizmente ele não deflagrou uma migração em massa para Omaha, que ele acredita ser o melhor lugar do mundo). Podem ser, mas desde que se saiba escolher o tempo certo e as boas empresas para se comprar. Como esse conhecimento é muito mais raro do que se supõe e as tais boas empresas são escassas, muito dinheiro já foi perdido tentando seguir os passos do velho Warren.
Em tempo: as ações da Berkshire Hatthaway ainda estão 4% mais baixas do que no início do ano (o S&P 500 acumula 8% de alta). E desde que Buffett escreveu o já famoso editorial do New York Times de 16 de outubro do ano passado, o índice subiu apenas 3,2%, mesmo após a euforia das duas últimas semanas.

Larry Summers, gênio das finanças - ou, que pena, Harvard

Numa notícia da Bloomberg muito comentada ontem, ficamos sabendo que a Universidade Harvard perdeu US$ 1 bilhão em swaps de taxas de juros contratados em 2001 e 2006, quando o atual presidente do Conselho Econômico Nacional, possível futuro presidente do Fed e gênio econômico, Larry Summers, era o reitor da universidade. A operação, teoricamente, serviria de proteção (hedge) para uma emissão de dívida que a universidade pretendia fazer em 2022 (não é erro de digitação). Como ninguém em sã consciência entra em uma operação desse tipo com 20 anos de antecedência, a conclusão é que Summers e seu time de finanças são ou extremamente arrogantes, ao tentar antecipar um movimento de mercado em duas décadas, ou arrumaram uma desculpa para especular no mercado, ou são simplesmente cretinos e não sabiam o que estavam fazendo. Na verdade, as três possibilidades não são excludentes. Os Estados Unidos estão em boas mãos.

Mais com Felix Salmon.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O "progressismo" do Vaticano

A coluna de hoje do professor Delfim Netto na Folha me fez lembrar de que não havia escrito nada sobre a nova encíclica do Papa Bento XVI, publicada no último dia 7. Nela, o papa reconhece a utilidade do lucro capitalista ("O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar."), com, considerando como marco de início do capitalismo a publicação de "A riqueza das nações", 233 anos de atraso. Levando em conta que a Igreja Católica levou 382 anos para se desculpar pelo tratamento dado a Galileu e reconhecer que a Terra não é o centro do universo, talvez devamos comemorar o avanço -- daí o título da reportagem da Veja sobre o assunto, "Atestado progressista". Prefiro não imaginar como estaria o mundo caso essa fosse a definição definitiva de progressismo.

Sarcasmo e religião à parte, a visão católica dos objetivos do desenvolvimento ("Com o termo « desenvolvimento », queria indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endémicas e do analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista económico, a sua participação activa e em condições de igualdade no processo económico internacional; do ponto de vista social, a sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz.") é, de fato, progressista e correta. Porém, felizmente e infelizmente, o jeito que o mundo anda atualmente depende bem pouco do que pensa a Igreja Católica.