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sábado, 25 de novembro de 2017

O que os estados brasileiros exportam, afinal?

O mapa abaixo, que coloquei no Twitter esta semana, gerou muita curiosidade. Aqui o gabarito de algumas das perguntas que apareceram por lá:



  • O Acre exporta para o Peru madeira (30% do total) algo na categoria de cocos, castanha do Brasil e castanha de caju (27%).
  • Roraima exporta arroz e açúcar para a Venezuela. Jan Tinbergen e discípulos devem ter algo a dizer dos casos de Acre e Roraima, também.
  • 99% do que o Maranhão exporta para o Canadá é óxido de alumínio e derivados (como coríndon).
  • Rondônia exporta carne bovina para Hong Kong.
  • Sergipe, nos últimos 12 meses, exportou mais de 21 mil toneladas de suco de frutas para a Holanda.
  • Nesse mesmo período, Amazonas exportou quase US$ 100 milhões em motocicletas para a Argentina.
  • Desde outubro passado, Pernambuco (provavelmente a fábrica da FCA) exportou mais de meio bilhão de reais em automóveis para a Argentina.
  • O Distrito Federal exporta para o mundo, além de táticas de corrupção e dinheiro para ser lavado, soja e carne de frango.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Erros, erros grosseiros e projeções de PIB

Semana passada coloquei a tabelinha abaixo no Twitter, mostrando como a mediana das projeções dos economistas que contribuem com a pesquisa Focus, do Banco Central, costuma errar a projeção do PIB com um ano de antecedência por muito (1,6 ponto percentual, na média do período):


Também semana passada, a Economist publicou uma matéria sobre o mesmo assunto, avaliando o desempenho das projeções feitas pelo FMI. Os resultados também não são muito animadores, como se pode ver no gráfico:


Se projeções e previsões, no geral, erram tão feio, por que ainda há um mercado para elas? Para Tim Harford, projeções são como Pringles: "nobody thinks that there’s any great virtue in them but, offered with the fleeting pleasure of consuming them, we find it hard to resist." Por que? As teorias de Harford:

Possibility one is that the moment we hear a forecast, we imagine it happening. It then becomes a believable outcome and one that is easy to call to mind in the future. The scenario that we imagine looms large in our minds; other scenarios, equally plausible, fade to the background. As a result, we can be sceptical of forecasts in general yet still hooked by a particular one. 
(...) 
Possibility two is that forecasts offer us a lazy way to understand a complex world. The background to the conflict in Syria is complicated. So is Chinese politics. So, too, is the evolution of the Japanese economy. Trying to understand what is going on in any of these places requires an investment of time and attention that most of us are not willing to make. Wise heads at this newspaper could explain the intricacies to you or to me for hours yet barely have begun to do the topic justice.

Sobre o assunto, ainda quero ler o Superforecasting, sobre o Good Judgment Project.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O tamanho do buraco na economia brasileira

Postei alguns desses gráficos no Twitter e pareceu uma boa ideia juntá-los em um mesmo lugar (ao menos serve para tirar o blog da dormência--espero voltar ainda este ano com os livros, discos e filmes de 2015):


  • O crescimento real do PIB nos 4 anos terminados em 2016 deve ser o pior para períodos similares desde 1932 (na esteira da Grande Depressão). Desde 1908, apenas em 4 ocasiões o PIB acumulado em 4 anos caiu:
  • Se de fato não houver recuperação até o final do ano que vem, a economia brasileira estará em recessão por 13 trimestres consecutivos. A trajetória é bem distinta de recessões seguidas de recuperação em "V" (como Argentina, depois da crise de 2001 e Coreia do Sul, depois da crise de 1997) e se parece bastante com a Espanha pós-crise de 2008. Se há algum consolo é que ainda passamos longe da queda livre pela qual a Grécia passou. A comparação negativa é que a Argentina se recuperou de uma queda brutal no PIB (mais de 16%) mais rapidamente do que estamos nos recuperando. Nessa comparação, o choque sai-se melhor do que o gradualismo negacionista.

Com este desempenho, a recessão atual não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB terá recuado mais de 6%, quase 2% abaixo do observado na recessão mais severa até então — a da crise de 1929. O pior, no entanto, é o que segue: a retomada, segundo a projeção de consenso, será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão no Brasil, bem mais letárgica do que a retomada pós-Plano Collor, de 1990.



  • Por fim: os incumbentes brasileiros não costumam se sair bem em períodos de forte queda no crescimento (se meu professor de econometria ler isso, pega um avião pra me dar uns cascudos pela sugestão grosseira de causalidade--mas a ideia é só mostrar a coincidência).

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Algumas novas medidas de desigualdade de renda no Brasil

Esta semana saíram algumas novas medidas interessantes de desigualdade no Brasil:

—O Valor publicou uma matéria com o trabalho dos economistas do IPEA Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, que olharam a base de declarações de imposto de renda disponibilizada recentemente pela Receita Federal (não achei um paper deles sobre o assunto, mas deve sair em breve). Há duas coisas interessantes nessas medidas: i. elas capturam melhor renda do capital, que é subestimada nas pesquisas por amostragem de domicílios (como a PNAD) e, ii. são (algo) comparáveis com a World Top Incomes Database, que ficou famosa pelo trabalho de Thomas Piketty.

Com base nos dados publicados no Valor, fiz a tabelinha abaixo. Informações muito mais ricas (e compiladas por gente muito mais competente) devem aparecer em breve:


—O LIS, que compila e padroniza dados de renda de vários países, acrescentou às suas bases a PNAD de 2013. De lá saíram os dados de desigualdade do gráfico abaixo—por esses dados, a desigualdade seguiu caindo no Brasil entre 2011 e 2013, conclusão diferente de outros estudos, que apontavam para uma estagnação a partir de 2012 (não me perguntem quais são as diferenças de metodologia, fiquem à vontade para esclarecer ou especular nos comentários).



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O gráfico mais libertino da história?

Está na última The Economist, cuja matéria de capa fala sobre como a internet está liberalizando o comércio de sexo—cortando intermediários, distribuindo informação, tornando toda transação mais segura, etc. A revista analisou 190 mil perfis de um "site internacional de reviews" para montar uma base de dados para a matéria. O grande Alvin Roth provavelmente diria que esse é mais um mercado que está deixando de ser repugnante. De qualquer jeito, vai ser interessante olhar a seção de cartas na semana que vem.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A época das previsões

Enquanto os humanos trocam presentes e desejos de que as coisas melhorem no ano que está para começar, economistas, esses seres exóticos, tiram do armário seu estojo de ferramentas e dedicam-se a prever. Quanto vai crescer o PIB, qual vai ser a taxa de câmbio, os juros sobem ou caem, o que vai acontecer com a bolsa, quem vai ganhar as eleições… Para todas essas perguntas há uma resposta, mais ou menos embalada num pacote de método científico e sabedoria acumulada. Afinal de contas, se alguém tem como antecipar o que vai acontecer com variáveis econômicas, ninguém melhor que quem dedica a vida a estudá-las, certo?

O resto do texto está no Estadão.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O crescimento do PIB além do curto prazo

Comentar cada leitura trimestral do PIB parece-me uma atividade mais estéril do que debater o desempenho do time preferido na rodada passada do campeonato. Enquanto os resultados de esportes são facilmente interpretáveis e raramente sujeitos a mudanças, o PIB é uma estimativa estatística complexa (pior: complexa vestida da simplicidade com que o crescimento é usualmente reportado) e longe de ser definitiva. Não necessariamente a última informação disponível é a melhor, revisões são frequentes e o número final nem sempre se parece com a estimativa divulgada na data marcada (claro que as revisões merecem muito menos destaque entre os comentaristas habituais).

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As últimas leituras do ano..

... já que semana que vem começam minhas provas e não deve sobrar tempo pra diletantismo:

- McKinsey sobre os efeitos dos juros muitos baixos no mundo na distribuição.

- Stiglitz descendo a lenha na política de subsídio agrícolas dos EUA.

- O último Journal of Economic Perspectives sobre os 100 anos do Fed, com textos de Bernanke, Eichengreen, Feldstein, Sandel...

- Na visão (bem mercantilista) de Dani Rodrik, os verdadeiros heróis da economia global são: Áustria, Canadá, Filipinas, Lesoto e Uruguai.

- Robert Solow sobre crescimento igualitário.

- Teoria dos jogos aplicada a jantares.

- Coletânea de gráficos bacanas sobre as megacidades do mundo.

- Pankaj Mishra dá seus pitacos sobre o arranca-rabo entre Amartya Sen e Jagdish Bhagwati.

- Esporte e crescimento com redistribuição.

- A Irlanda está destruindo projetos residenciais abandonados.

- A América Latina enriqueceu e diminuiu desigualdade, mas o crime nunca foi tão alto.

- Tim Harford sobre renda mínima universal. A Suíça vai votar um pagamento mensal de 2.500 francos para cada adulto.

- O megatorneio de previsões de Philip Tetlock e Dan Gardner.

- Mangabeira Unger no BBC Hardtalk.

- Philip Roth x Bertrand Russell.

- John Gray esculachando Malcolm Gladwell.

- Os muros do mundo no Guardian.

- Já é aquela época do ano, de novo: as listas de melhores livros do ano do New York Times e do Financial Times.

- Os cinco melhores ensaios de George Orwell.

- A viagem de ônibus de 96 horas e 5.800 quilômetros (mesma distância de Nova York a Ocotal, Nicarágua) entre São Paulo e Lima.

- Se os times da NFL fossem para o futebol europeu...

- Forte candidata a foto do ano.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gráficos do Dia - Desigualdade nos EUA

Emmanuel Saez, de Berkeley, atualizou os dados do seu famoso trabalho de 2003 (em parceria com Thomas Piketty) sobre desigualdade de renda nos EUA. Nunca antes na história daquele país os 1% mais ricos (em 2012, famílias com renda anual maior que US$ 112 mil) ou os 0,1% mais ricos (renda familiar maior que US$ 10,25 milhões) tiveram fração maior do total:



A Economist montou esse gráfico, derivado dos mesmos dados. Curioso ver que os ricos ganharam pra valer nos anos Clinton, com a "exuberância irracional" no mercado de ações, perderam pouco na recessão de 2011 e voltaram a prosperar nos anos Bush. E chocante notar que 95% do aumento da renda nos últimos quatro anos veio dos 1% mais ricos:


Joseph Stiglitz comentou no Financial Times.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Grafico do Dia - Produtividade

Da Folha de hoje. E deve ser inedito que alguem da CNI explique isso sem jogar a culpa no cambio:

"O baixo desempenho do Brasil resulta de questões de natureza regulatória e problemas associados à formação fraca dos trabalhadores", diz José Augusto Fernandes, diretor de políticas e estratégia da entidade.


P.S. Desculpas pela falta de acentos, ainda nao tive paciencia para configurar o teclado novo.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Gráfico do Dia - investimentos

Roubado do Humble Student of the Market (clique para aumentar). Talvez, só talvez, tanto tempo com taxa de investimento tão elevada tenha acabado com qualquer possibilidade de retorno seguro para os investimentos mais recentes. Mas ninguém liga pra lucros e fluxos de caixa, né?


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Onde é melhor nascer no Brasil?

Claro que não pretendo dar uma resposta objetiva para a pergunta do título, apenas cruzei os dados do IDH e Gini por estado. Entendo que é melhor nascer na melhor combinação possível de IDH alto e Gini baixo, para que aumente sua probabilidade de aproveitar o IDH (assim fica fácil justificar porque é melhor nascer em Santa Catarina do que no Distrito Federal, assumindo que você não há como escolher vir ao mundo como filho de servidor público federal):


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Os IDHs do Brasil

Ontem saiu, depois de muita espera, o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, trabalho conjunto colossal da PNUD, Fundação João Pinheiro e IPEA. Os dados mais recentes são baseados no censo de 2010 e abertos para 5.565 municípios, devem ser fonte riquíssima para pesquisadores e a turma de visualização de dados (o Estado já montou alguns mapas bacanas: 1, 2, 3, 4). A este humilde diletante, com poucos recursos e pouco tempo livre, coube montar a tabelinha abaixo, comparando os IDHs dos estados brasileiros com o de alguns países (dados também de 2010). O Brasil é algo entre Botswana e Eslovênia, muito diverso e desigual, como era de se imaginar (entre os municípios, vamos de Uganda - comparável a Melgaço-PA, último do ranking a Espanha - comparável a São Caetano do Sul-SP, na outra ponta):


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Câmbio, bolsa, etc...

Um estimado leitor me escreve dizendo que há tempos não aparecem por aqui posts sobre os mercados brasileiros, em especial bolsa e câmbio. Ele tem razão, claro. Parte da omissão é porque eu tenho estado tão errado que dá uma certa vergonha seguir opinando; parte porque, por estar tão errado, sinto-me meio perdido. De qualquer maneira, atendendo ao pedido e seguindo a recomendação (do Churchill, acho - não estou achando a fonte) de que um economista deve dizer o que vai acontecer e depois explicar porque não aconteceu, aí vão meus pitacos atualizados:

Primeiro, apesar da extrema má vontade dos mercados com o Brasil (em grande medida justificada, claro), a queda da bolsa e desvalorização da moeda não são exclusividade do país. Sim, o Ibovespa tem o pior desempenho entre os principais índices do mundo, mas essa diferenciação pode ser atribuída sobretudo à queda do império X e suas ramificações. As bolsas da América Latina (Chile, México, Peru) também estão mal em 2013, e quase todas as moedas do mundo estão perdendo valor contra o dólar americano. Minha principal mea culpa recente foi não ter levado a sério a possibilidade de uma chacoalhada nos mercados emergentes por conta da possibilidade de alta dos juros nos EUA e fortalecimento do dólar.




Dito isso, vamos às particularidades:

1. Bolsa - a preços atuais, o Ibovespa implica uma relação preço / lucros de 13x para 2013 e 9x para 2013. Esses mesmos múltiplos para o S&P500 são 15x e 13x. O desconto é compatível com o padrão histórico e, creio, com a dependência de commodities do índice brasileiro. As incógnitas aqui são: i) se há alguma possibilidade dos lucros surpreenderem positivamente; ii) o destino do grupo X; iii) (e talvez mais importante) se o ciclo de commodities de fato virou. Sem parar para analisar cada um desses pontos, acho que muito pessimismo já está incorporado, mas achava o mesmo quando o índice operava a 53 mil pontos.

Na prática, se fosse pra dar algum trade idea, recomendaria, para o curto prazo, comprar contra algum outro índice (México, por exemplo). Para a minha poupança, esperaria, sem pressa, por uma nova crise. Nada está tão ruim que não possa piorar muito: a Petrobras segue perdendo dinheiro vendendo gasolina e com um caminhão de dívida para pagar, sem saber bem o que vai ser do pré-sal; o minério de ferro ainda vale muito mais do que o padrão histórico, etc...

2. Câmbio - nove entre dez economistas que conheço acham que, no médio / longo prazo, o câmbio vai ter que seguir se desvalorizando para compensar a deterioração das contas externas. Mais do que isso, acho que ajustar o câmbio é condição necessária para devolver alguma competitividade ao país (lembrando que, se o câmbio terminar o ano no nível atual, a depreciação terá pagado pouco mais do que o diferencial de inflação e quase o mesmo que o diferencial de juros - é preciso mais para que o câmbio real efetivamente mude de patamar).

O que complica a análise aqui é o papel das reservas e o comportamento do banco central. Não há precedente na história do país de um estoque de reservas internacionais do tamanho atual, e não dá para saber (pelo menos não consigo ter uma opinião firme) se quando o BC começar a entregar reservas para o mercado isso vai atenuar a depreciação ou atiçar um ataque especulativo. Também não tenho ideia de quanto do (enorme) passivo externo vai ser chamado de volta em caso de crise mais aguda. Tudo isso considerado, acho que o real segue se enfraquecendo nos próximos anos, e tenho recomendado a todo mundo que me pergunta manter uma boa reserva de dólares. Foi bom enquanto durou, mas durante a história do Brasil moeda forte foi exceção, não regra. Como diz o Teco, chora Mickey, viva Axé Moi.

Bom, é isso... opiniões minhas, não de onde trabalho, etc... Com elas e mais três reais, ganha-se uma viagem de ônibus dentro de São Paulo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Gráfico do Dia - precisamos falar sobre as universidades públicas...

Gráfico que ilustra o artigo de Gustavo Ioschpe na famigerada Veja com a capa do congresso-alienígena. Fala por si só, e serve como ilustração das microaberrações do gasto público por aqui.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

Brasil, rumo a uma recessão?

É o que acha a BCA Research. Alguns dados compilados por eles: