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domingo, 5 de janeiro de 2014

Volcker e a austeridade (na pele)

Paul Volcker, velho batuta
Da coluna de hoje do Elio Gaspari:

Em 1979, quando Paul Volcker foi nomeado presidente do Federal Reserve Bank, perdeu 50% de sua receita e foi morar numa quitinete de estudante em Washington. Sua mulher ficou em Nova York e equilibrou as contas alugando um quarto de seu apartamento.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Temporada de caça aos ursos

2013 não está terminando bem para os pessimistas com os mercados de ações dos Estados Unidos. O índice S&P 500 deve terminar o ano perto dos 1800 pontos, tendo subido cerca de 25% com relação ao nível do final de 2012. A expectativa média das projeções que 14 grandes instituições apresentaram há um ano a seus clientes era 1534 pontos, mais de 17% abaixo de onde o mercado se encontra. O mais otimista entre esses (usualmente exageradamente otimistas) analistas esperava alta de pouco mais de 12%. Os pessimistas foram atropelados, mesmo com um cenário econômico pior do que se imaginava: em dezembro do ano passado, o Fed acreditava que o PIB americano cresceria, em 2013, entre 2,3% e 3,0%. O crescimento efetivo dificilmente passará de 2,0%.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As últimas leituras do ano..

... já que semana que vem começam minhas provas e não deve sobrar tempo pra diletantismo:

- McKinsey sobre os efeitos dos juros muitos baixos no mundo na distribuição.

- Stiglitz descendo a lenha na política de subsídio agrícolas dos EUA.

- O último Journal of Economic Perspectives sobre os 100 anos do Fed, com textos de Bernanke, Eichengreen, Feldstein, Sandel...

- Na visão (bem mercantilista) de Dani Rodrik, os verdadeiros heróis da economia global são: Áustria, Canadá, Filipinas, Lesoto e Uruguai.

- Robert Solow sobre crescimento igualitário.

- Teoria dos jogos aplicada a jantares.

- Coletânea de gráficos bacanas sobre as megacidades do mundo.

- Pankaj Mishra dá seus pitacos sobre o arranca-rabo entre Amartya Sen e Jagdish Bhagwati.

- Esporte e crescimento com redistribuição.

- A Irlanda está destruindo projetos residenciais abandonados.

- A América Latina enriqueceu e diminuiu desigualdade, mas o crime nunca foi tão alto.

- Tim Harford sobre renda mínima universal. A Suíça vai votar um pagamento mensal de 2.500 francos para cada adulto.

- O megatorneio de previsões de Philip Tetlock e Dan Gardner.

- Mangabeira Unger no BBC Hardtalk.

- Philip Roth x Bertrand Russell.

- John Gray esculachando Malcolm Gladwell.

- Os muros do mundo no Guardian.

- Já é aquela época do ano, de novo: as listas de melhores livros do ano do New York Times e do Financial Times.

- Os cinco melhores ensaios de George Orwell.

- A viagem de ônibus de 96 horas e 5.800 quilômetros (mesma distância de Nova York a Ocotal, Nicarágua) entre São Paulo e Lima.

- Se os times da NFL fossem para o futebol europeu...

- Forte candidata a foto do ano.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

As consequências econômicas da senhora Yellen

O aspecto mais importante da nomeação de Janet Yellen para a presidência do Fed foi a nomeação em si. Primeiro, por ela ser a primeira mulher a ocupar esse posto, em um campo ainda amplamente comandado por homens. Annie Lowrey, no New York Times, observou que não há nenhuma mulher entre os 23 membros do conselho do Banco Central Europeu ou os 9 do mesmo órgão no Banco da Inglaterra, e apenas uma no equivalente do Japão. Fora do mundo desenvolvido, mulheres presidem os bancos centrais da África do Sul, Malásia e Botsuana, mas não há mais do que 10 no cargo mais importante dos bancos centrais do resto do mundo. Atualmente, não há nenhuma mulher entre os membros do nosso Copom.

O resto do texto está no Estadão.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bernanke em casa

Da última New Yorker:


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Delfim e a guerra cambial

Quando quer, Delfim é dos economistas mais lúcidos deste país. Por vezes, porém, é de um sabujismo que passa por cima de qualquer traço de honestidade intelectual. Hoje, no Valor, pede para os "críticos impertinentes fazerem justiça à retórica do ministro Guido Mantega", já que ele teria se provado correto quanto à "guerra cambial" promovida pelo Fed.

Ora, a guerra cambial não era uma tentativa de desvalorizar a própria moeda e colocar os vizinhos e parceiros comerciais em má situação? Na conveniência de Delfim, a lógica se inverteu: agora o Fed, ameaçando aumentar os juros, provoca desvalorização nas moedas dos emergentes (curiosamente, não no euro, libra, iene, etc). Não sabemos o que queremos, contra quem estamos lutando, de que lado estamos... mas estamos numa "guerra", e precisamos "lutar". A retórica é de propaganda de cerveja em época de Copa, e a tradição brasileira de tentar distribuir a culpa pelos próprios descaminhos econômicos tem um passado glorioso e um futuro promissor, como diria outro dos grandes tecnocratas da história do país.

Adiante, diz Delfim:

"O que os emergentes têm pela frente, portanto, não é um trilema. É um pobre dilema: impor controle à plena liberdade no movimento dos capitais ou entregar sua política monetária ao banco central americano, o Fed! Sua superação precisa de uma ordem internacional inteligente."

O Fed não é o maior BC do mundo desde anteontem, portanto, ou Delfim está certo, ou só é possível ter política monetária independente com controle de capitais (ignoremos os que têm conseguido fazê-lo). De novo, o inimigo está fora, é grande e não há nada que possamos fazer. Talvez a melhor solução seja mesmo alugar o Brasil (nós não vamo pagá nada, yeah).

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Leituras da Semana

- O Irã desvalorizou sua moeda, o rial, em mais de 50%. Pode se declarar vencedor da guerra cambial?

- Paper novo de Dani Rodrik, sobre ideias e interesses em economia política.

- Entrevista com Stephen King, do HSBC.

- Entrevista com Persio Arida no Estado.

- Esse artigo do Eike Batista no Valor merece ser lido.

- Um seminário bacana sobre reindustrialização, aqui em São Paulo.

- John Cassidy sobre os problemas com os lucros (recordes) dos bancos americanos.

- O mercado de apostas para o próximo presidente do Fed. Nassim Taleb paga 1000 para 1, para quem quiser apostar no cisne negro.

- A associação de João Gilberto e Daniel Dantas, isso sim é inovação financeira. Deveria virar caso de estudo para as escolas de negócios.

- A lista de livros de verão de Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre o livro novo de Jon Elster.

- Onde estão os 34.492 Mc Donald's do mundo.

- O tamanho médio das dissertações em várias disciplinas.

- Galeria de fotos de escritórios de professores de Harvard.

- Claro que não há nada errado com um jogo de futebol que termina 79-0, né?

- Robert Galbraith, mas pode chamar de JK Rowling.

- Uma história animada da tipografia em cinco minutos.

- Um TED talk imperdível com Pico Iyer.

- Michel Laub sobre falácias na literatura.

- Um festival de jazz imperdível aqui no SESC Pompéia: McCoy Tyner, Lonnie Smith, Cassandra Wilson... O modelo de financiamento do SESC é detestável, mas, pqp, como fazem coisas bacanas...

terça-feira, 14 de maio de 2013

Equação do dia

Não é um DSGE, mas deve explicar muita coisa.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Leituras da Semana

- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.

- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.

- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.

- Charles Gave prevê uma depressão para a França.

- Entrevista da Salon com Jim Chanos.

- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.

- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.

- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.

- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.

- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.

- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).

- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.

- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?

- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.

- Como investir na Coreia do Norte.

- O tratado definitivo sobre tretas na internet.

- Uma tabela periódica do jazz.

- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.

- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e  a de Waking Life para a série Great Movies.

- Literatura erótica, literalmente.

- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Leituras da Semana

Cuidado com o tomate
- Entrevista com André Esteves no Estado.

- Jim O'Neill sobre sua aposentadoria.

- O melhor livro sobre a crise recente? Resenha entusiasmada de Roger B. Myerson (Nobel 2007) de The Bankers' New Clothes.

- Olivier Blanchard e cinco lições da crise para economistas.

- Barry Eichengreen sobre Chipre e União Europeia.

- Os possíveis sucessores de Ben Bernanke.

- Curso novo da Marginal Revolution University sobre a economia do México.

- O país mais afetado pela Grande Depressão (não foram os EUA).

- Edward Chancellor sobre o Japão recente.

- Charles Gave sobre o poder dos governos e supressão de livres mercados.

- Uma cantina contra a "bolha" nos preços do tomate em São Paulo, que, claro, é culpa do governo. Como agir nesses tempos.

- John Kay relembrando Jane Jacobs.

- Salários de professores na OCDE. Alguém já cruzou isso com os resultados nos testes padronizados?

- O mapa dos EUA redesenhado pelo movimento do papel-moeda.

- Usando SimCity para melhorar o trânsito de São Paulo.

- Escolhendo destino de férias aleatoriamente (e economizando).

- Os 25 países menos visitados no mundo.

- Os livros de viagem mais influentes da história.

- Entrevista bacana com Ted Gioia, sobre escrever e jazz.

- Os 70 anos de Manfred Eicher, da icônica ECM.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Alan Blinder

Alan Blinder foi vice-presidente do Fed entre 1994 e 1996. A curta permanência é atribuída a uma tentativa de debater ideias e premissas em uma instituição que, na época, orbitava em torno da aura de "maestro" de Alan Greenspan (não sei dizer se Bernanke é mais ou menos autoritário). Como citado pela Wikipedia, de um artigo do Huffington Post:

[Economist] Rob Johnson, who watched the Blinder ordeal, says Blinder made the mistake of behaving as if the Fed was a place where competing ideas and assumptions were debated. "Sociologically, what was happening was the Fed staff was really afraid of Blinder. At some level, as an applied empirical economist, Alan Blinder is really brilliant," says Johnson. In closed-door meetings, Blinder did what so few do: he challenged assumptions. "The Fed staff would come out and their ritual is: Greenspan has kind of told them what to conclude and they produce studies in which they conclude this. And Blinder treated it more like an open academic debate when he first got there and he'd come out and say, 'Well, that's not true. If you change this assumption and change this assumption and use this kind of assumption you get a completely different result.' And it just created a stir inside--it was sort of like the whole pipeline of Greenspan-arriving-at-decisions was disrupted." This put him in conflict with Greenspan and his staff. "A lot of senior staff... were pissed off about Blinder--how should we say?--not playing by the customs that they were accustomed to," Johnson says.

Um ano após sua saída, Blinder foi convidado a proferir as célebres Lionel Robbins Memorial Lectures da London School of Economics. A transcrição das aulas virou um livrinho clássico, Central Banking in Theory and Practice, lançado no início de 1999.

Hoje o Valor publicou uma longa entrevista com Blinder, que está lançando um novo livro que aumenta a já enorme biblioteca de obras sobre a crise recente. Da resenha de Roger Lowenstein para a New Republic:

Say this for Alan S. Blinder: the man has not been jaded. His new book on the Wall Street meltdown, After the Music Stopped: The Financial Crisis, the Response, and the Work Ahead, is animated by a lay person’s sense of wonder and—at times—horror at the country’s financial mess.

Pois bem, eis que, no finalzinho do livro mais recente de Nassim Taleb, Antifragile, encontro a seguinte história:

At Davos, during a private coffee conversation that I thought aimed at saving the world from, among other things, moral hazard and agency problems, I was interrupted by Alan Blinder, a former vice chairman of the Federal Reserve Bank of the United States, who tried to sell me a peculiar investment product that aims at legally hoodwinking taxpayers. It allowed the hight net worth investor to get around the regulations limiting deposit insurance (at the time, $100,000) and benefit from coverage for near-unlimited amounts. The investor would deposit funds in any amount and Prof. Blinder's company would break it up into smaller accounts and invest in banks, thus escaping the limit; it would look like a single account but would be insured in full. In other words, it would allow the super-rich to scam taxpayers by getting free goverment-sponsored insurance. Yes, scam taxpayers. Legally. With the help of former civil servants who have an insider edge. 
I blurted out: "Isn't this unethical?" I was then told in response "It is perfectly legal," adding the even more incriminating "we have plenty of former regulators on the staff," (a) implying that what was legal was ethical and (b) asserting that former regulators have an edge over citizens. 
(...) 
Now stage two - things get worse. Blinder and the dean of Columbia University Business School wrote an op-ed opposing the government's raising the insurance limit on individuals. The article argued that the public should not have the unlimited insurance that Blinder's clients benefit from.

Não descobri se houve uma réplica de Blinder, mas, se a história é verdadeira, "horror at the country's financial mess" só pode ser uma forma aguda de dissonância cognitiva - ou pura canalhice.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Leituras atrasadas

"50 years of excitingly detonated hardware
and women breathing “Jaaames” in states
 of postcoital gratitude, thousands of air
miles clocked en route to tropical lagoons
where villainy lurks among the ravenous
barracuda"
- Eichengreen e O'Rourke sobre multiplicadores fiscais.

- Perfil de Felix Salmon na The New Republic.

- Sheila Bair propõe cinco reformas para Wall Street.

- Os BRICs continuam perdendo o apelo.

- Os entrevistadores casca-grossa do Spiegel falam com Mario Draghi.

- Um documentário sobre o Fed, a ser lançado em breve.

- Jeffrey Frankel e as dificuldades da disciplina fiscal em tempos de crise.

- Boas conversas: Hugh Hendry e David Einhorn na conferência da The Economist; Paul Krugman e Joseph Stiglitz.

- Como mudou, em 200 anos, a terminologia de desenvolvimento.

- O Brasil é o país que tem mais cachorros pequenos per capita do mundo.

- Sir Mervyn King e Don Diego Maradona.

- A paulistanização do Rio.

- Um livro sobre as origens do neoliberalismo.

- Steven Pinker explica como os estados americanos se tornaram democratas ou republicanos.

- Robert D. Kaplan sobre a arte de viajar.

- Simon Schama sobre o novo James Bond.

- Uma vida com livros - os bibliófilos certamente vão se identificar. Trecho:

The world is changing, but I am not changing with it. There is no e-reader or Kindle in my future. My philosophy is simple: Certain things are perfect the way they are. The sky, the Pacific Ocean, procreation and the Goldberg Variations all fit this bill, and so do books. Books are sublimely visceral, emotionally evocative objects that constitute a perfect delivery system.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Fed, por Linus van Pelt


Aviso que as ideias desse post são descaradamente copiadas dos e-mails do amigo C.R., a quem agradeço.

Noite de Halloween. Linus van Pelt, o melhor amigo do Charlie Brown, espera a aparição da Grande Abóbora, concorrente menos popular do Papai Noel. Antes do Halloween, Linus sempre escreve para a Grande Abóbora. Para melhor entendimento pelas gerações mais novas de economistas, podemos imaginá-lo como um operador de mercado ou banqueiro, e substituir "Grande Abóbora" por "Fed":


Dear Great Pumpkin, I am looking forward to your arrival on Halloween night. I hope you will bring me lots of presents. You must get discouraged because more people believe in Santa Claus than in you. Well, let’s face it; Santa Claus has had more publicity, but being #2, perhaps you try harder. Everyone tells me you are a fake, but I believe in you. 

P.S.: If you really are a fake, don’t tell me. I don’t wanna know.

E, a essa altura, não acreditar na Grande Abóbora Fed sai caro:


Esse Charles Schulz sabia das coisas. Boa Noite da Abóbora a todos.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Banco Imobiliário x Fed x Física Quântica

Das regras do Monopoly (vulgo Banco Imobiliário) - via TheTrader:


Do Fed de St. Louis, citado por L. Randall Wray:

"As the sole manufacturer of dollars, whose debt is denominated in dollars, the U.S. government can never become insolvent, i.e., unable to pay its bills. In this sense, the government is not dependent on credit markets to remain operational. Moreover, there will always be a market for U.S. government debt at home because the U.S. government has the only means of creating risk-free dollar-denominated assets.“

Sempre acho que o que o grande físico dinamarquês Niels Bohr disse da teoria quântica também se aplica ao sistema de moeda fiduciária:


"Anyone who is not shocked by quantum theory has not understood it."

E eis um post sem absolutamente nenhuma ideia original.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

QE or not QE?

Jackson Hole, sem Bernanke
Na próxima sexta-feira, espera-se que Ben Bernanke faça um discurso no simpósio anual do Fed de Kansas City, realizado no Buraco do Filho do Jão (vulgo Jackson Hole), um lindo vale no estado de Wyoming (uma vez, durante uma viagem, conheci um casal que vivia lá; ficaram muito espantados ao saber que eu já tinha ouvido falar - economistas...). Faço uma pausa, primeiro, para pensar sobre a situação: o mundo vai parar para ver um presidente de banco central falar em um simpósio acadêmico (foi criado para que economistas do Fed apresentassem seus trabalhos de pesquisa, inicialmente com foco em agricultura, depois abrindo para macroeconomia e finanças). Com base no que ele falar (ou não falar), milhares de participantes do mercado financeiro vão tomar decisões especulativas que, potencialmente, vão mudar o rumo dos preços de ativos para os próximos meses. Não importa muito se o que ele anunciar vai ter real impacto na economia e nos lucros das empresas, o que vale é a "sinalização" e a reação dos animais pavlovianos por trás das mesas de operações. Graham e Dodd se reviram nas respectivas tumbas; Keynes provavelmente ficaria espantado ao ver como o "concurso de beleza" hoje está resumido, grosso modo, a adivinhar o que (e quando) bancos centrais vão fazer.

A dúvida, neste caso, é se os indicadores da economia americana justificam mais um festival de impressão de dinheiro, sob o nome sofisticado de quantitative easing. A turma "pró-QE" alega que a economia ainda está muito frágil, com baixa criação de empregos, pouca criação de crédito e "espíritos animais" muito contidos. Se muito pouco é feito pelos políticos para estimular a demanda, que pelo menos o Fed faça sua parte. Os "anti-QE" (contem-me entre esses) podem dizer que os juros já estão no nível mais baixo da história, que não há ameaça deflacionária (o indicador mais confiável que conheço, a taxa forward de  inflação cinco anos x cinco anos, está bem acima do limite de 2%, que, quando ultrapassado para baixo, antecedeu o QE2 e a Operação Twist), que a medida pode afetar o resultado das eleições presidenciais e que é necessário deixar os mercados funcionarem, sem ameaça constante de intervenções que não se provaram inequivocamente efetivas no passado.

O duplo mandato do Fed e a credibilidade (merecida ou não) conquistada por Bernanke nesses anos de crise tornam plausível qualquer escolha. Desanima ver toda as atenções e discussões voltadas para política monetária, que se tornou a única ferramenta de intervenção viável e aceitável. Desanima ver o ceticismo do mercado, que sabe que os fundamentos no mundo desenvolvido são desanimadores e vem sendo guiado pela expectativa de muito ou muito mais tempo de dinheiro barato. Estranho o mundo onde ainda predomina a narrativa do laissez-faire, mas que aceita de bom grado intervenções que acabam por distorcer (e não raro fixar) preços de mercado.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Indo pra prateleira...

Umas três ou quatro vezes por ano o carrinho da Amazon passa por aqui e faz a alegria deste ser antiquado que prefere papel às telas de tinta eletrônica ou cristal líquido. Desta vez, chegaram (fora os quadrinhos e romances pouco pertinentes):

- Central Banking in Theory and Practice, de Alan Blinder - vou começar a escrever em breve sobre bancos centrais para outro projeto, e para isso resolvi seguir a indicação de um chefe há uns cinco anos e me informar um pouco mais. Blinder foi um dos chefes dos conselheiros econômicos de Bill Clinton e braço direito de outro Alan, o Greenspan. Esse livrinho é produto das Robbins Lectures que Blinder proferiu na London School of Economics em 1996. Naquela época os EUA estavam quase zerando o déficit do orçamento, cresciam a 4% ao ano e, creio, a vida de banqueiro central era bem mais fácil. Vai ser interessante ver o que mudou nesses longos e esquisitos 16 anos.

- Financial Turmoil in Europe and the United States, de George Soros - coletânea de artigos curtos mais recente de Soros, que, ainda que às vezes repetitivo, segue como um dos observadores mais lúcidos e ilustrados da relação entre mercados financeiros e economia.

- Reinventing the Bazaar: a Natural History of Markets, de John McMillan - foi muito bem recomendado, agora não lembro por quem.

- The Mystery of Capital, de Hernando de Soto - um dos grandes livros sobre desenvolvimento que me falta ler. De Soto fez o famoso experimento tentando descobrir, nos anos 80, quanto tempo levaria para, pelos meios legais, abrir um novo negócio no Peru. Gastou 256 dias úteis para obter as 11 permissões necessárias, tendo que ceder e pagar propina para conseguir duas delas.

- The Element, de Ken Robinson - OK, parece meio auto-ajuda (e deve ser um pouco, mesmo), mas também foi bem recomendado.

- Hedge Fund Market Wizards, de Jack Schwager e The Alpha Masters, de Maneet Ahuja - ambos compilam entrevistas com gestores de hedge funds e devem ser de pouco ou nenhum interesse para quem não trabalha com isso. Eu acho útil, seja para aprender ou para observar as ilusões pelo acaso.

- What Money Can't Buy, de Michael J. Sandel - livro novo do filósofo político popstar de Harvard, antes ainda preciso ler o Justice. O Anatole Kaletsky disse que é naïve e superficial, veremos...