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terça-feira, 29 de julho de 2014

Mais uma opinião sobre o "Santandergate"

Ando pensando muito no "caso Santander", tanto pelo o que representa quanto porque muita gente me pergunta a respeito. Na preguiça de fazer um texto coerente, aí vão alguns aspectos que me chamam a atenção, em itens mais ou menos independentes:

--É enorme a ignorância quanto à organização e funcionamento de um banco grande. Para esclarecer minimamente: primeiro, há várias áreas que empregam economistas, cujas opiniões não necessariamente coincidem. Da mesma forma, a opinião corporativa (o que "o banco" pensa) pode ser bastante distinta do que é passado aos clientes. Parece confuso, mas é um jeito de evitar conflitos de interesse e evitar que o banco revele sua estratégia.

De forma mais concreta: os bancos tipicamente têm um economista-chefe, que é o responsável pela área de pesquisa econômica. Geralmente é quem faz as projeções "oficiais" para as variáveis macroeconômicas e é o economista com o qual o público geralmente associa a instituição. Esse economista e sua equipe atendem, na maior parte do tempo, os clientes institucionais do banco, que têm negócios com a tesouraria, a corretora e as áreas de relacionamento com empresas.

Outras áreas de negócios têm seus próprios economistas, como a gestão de recursos, private banking e varejo. Esses atendem suas respectivas áreas e, de novo, podem ter opiniões divergentes das do economista-chefe. Sua função é orientar os clientes para que tomem melhores decisões de investimento com base no que acham que vai acontecer com o cenário econômico.

Curiosamente, os economistas mais importantes para a instituição não são todos esses, e sim os que atendem a tesouraria (há casos em que a equipe do economista-chefe é a mesma que atende a tesouraria, porém), que é a área que opera com o capital próprio do banco . Esses muito raramente publicam opiniões, mas são os que realmente influenciam como o banco vai alocar seus recursos e especular. Ainda mais importante é o comitê de ativos e passivos, que recebe opiniões de diversos economistas (entre eles o economista-chefe e o responsável pela tesouraria) e toma as decisões mais estratégicas, levando ou não em conta o que ouve. Por cima disso tudo estão os acionistas, representados pelos executivos. No caso do Santander, o capital é relativamente pulverizado, mas a família Botín ainda parece ter peso enorme no direcionamento do grupo.

--Dentro da instituição há uma hierarquia informal de prestígio e relevância. Com todo o respeito aos profisionais envolvidos, o responsável por escrever a nota que gerou toda a polêmica está muito longe (na verdade, isolado—pelo bom motivo, mencionado acima, de tentar evitar conflitos de interesse e pela distância hierárquica até os altos comitês) das principais decisões do banco e de uma virtual "opinião oficial" da companhia.

--A probabilidade de uma análise que é distribuída para um segmento do varejo ter qualquer efeito nos mercados é bem próxima de zero. Daí o ridículo de se comparar a situação a episódios passados que envolvem declarações do George Soros ou achar que há qualquer tentativa de influenciar no resultado das eleições.

--O tamanho do barulho por, efetivamente, quase nada, é muito mais interessante do que a nota em si. Algumas coisas para pensar:
  • Como a necessidade da imprensa de, todo dia, criar manchetes que geram repercussão acaba distorcendo a importância relativa de notícias e cria factoides;
  • A enorme insegurança do PT e do governo—mesmo depois de 12 anos no poder, ainda parecem ter necessidade de mostrar que o mercado financeiro não tem porque temê-los;
  • A grande (e assustadora) mobilização da máquina de propaganda e relações públicas do governo para abafar uma opinião que, se ignorada, não teria nenhuma consequência prática;
  • A ridícula ideia de que, entre as prioridades de um governo, tem que estar "agradar o mercado", e partindo daí, numa distorção em cima da distorção, concluir que o desempenho da bolsa ou do câmbio são boas métricas de sucesso ou fracasso relativos;
  • A preferência de uma grande empresa privada por agradar o governo contra defender ter uma opinião independente ou preservar seus funcionários (mais sobre isso abaixo).
--De um dos itens acima: o episódio serve também para observar como a opinião geral sobre especulação é distante da realidade (até grandes como o Elio Gaspari costuma escorregar aqui). Para alguns palpiteiros, especular é fácil e traz lucros garantidos: basta plantar um boato, comprar ou vender ativos, esperar o mercado se mover e contar o dinheiro. No mundo real, salvo em casos de manipulações (que são muito mais plausíveis na negociação de ações de uma empresa específica do que em uma classe de ativos ou do elusivo "risco-país"), os mercados frequentemente teimam em não seguir roteiros pré-determinados, e é estatisticamente impossível lucrar com informação velha—os eventuais lucros de quem tenta fazer isso são obra do acaso, e não determinados pelo sucesso de um plano. O jogo de expectativas, tão bem descrito por Keynes no capítulo 12 da Teoria Geral, é muito mais complexo e imprevisível do que normalmente se supõe; e o tipo de especulação com a qual bancos conseguem lucrar é de outra natureza.

--Quanto à reação do Santander, também há muito a ser entendido. Se partirmos da ideia básica de que a finalidade, direta ou indireta, de qualquer ação estratégica do banco é gerar lucros para os acionistas, a preferência por "cortar na carne" a defender um princípio de independência pode indicar:
  • Um baixo valor atribuído a tal princípio: mesmo ante uma pequena ameaça aos lucros é preferível se submeter às "regras do jogo" ditadas pelo governo. Isso, acredito, não é totalmente específico ao Santander: diz algo sobre o ambiente de negócios do Brasil e a cultura da matriz. É de se imaginar como seria vista uma interferência desse tipo nos Estados Unidos, onde liberdade de expressão é um direito quase sagrado ou, pelo menos, está seguramente acima de qualquer melindre político; ou se o controle do Santander não fosse espanhol;
  • Uma real ameaça aos lucros futuros como consequência da nota do economista—esta viria, possivelmente, de alguma retaliação do governo contra a companhia caso esta não se "enquadrasse." Isso, sim, é de deixar os cabelos em pé. Minha tese (a ser desenvolvida quando eu for agraciado com o milagre do tempo livre abundante) é que o Estado brasileiro tem se tornado cada vez mais um poderoso arbitrador de lucros do setor privado: os lucros de "livre mercado" são muito baixos para atrairem investimentos, e qualquer empresa grande que opera no país depende, em alguma medida, de rent seeking—extração de lucros acima da média de mercado, mediada pelo governo. Isso é uma marca do capitalismo brasileiro, mas que parece ter se aprofundado com o PT pós-Palocci;
  • Qualquer combinação desses dois extremos, claro.
--Ainda sobre o Santander, também há o que se pensar da relação do banco com o país. Foi o único grupo estrangeiro a conseguir manter relevância entre os grandes bancos de varejo, provavelmente não por acaso. Isso começou, creio, com a cartada certeira da compra do Banespa, a um valor que, na época, parecia injustificável (o lance que ganhou o leilão de privatização foi muito maior do que os dos concorrentes) mas que, em poucos anos, se provou uma pechincha e uma demonstração de cojones dos espanhois quando pouca gente acreditava que o país decolaria. Depois, em 2002, seguindo um episódio muito parecido com o recente, o banco parece ter sido dos primeiros a "fechar" com Lula: nós acreditamos na "Carta ao Povo Brasileiro" e evitamos criticar a política econômica, vocês garantem um ambiente em que consigamos operar no Brasil (esta matéria da Bloomberg conta um pouco dessa história). Tal acordo de cavalheiros (ou de capi) parece valer, com as devidas mudanças no contexto, até hoje (outro episódio ilustrativo é o que, há alguns anos, envolveu críticas a Petrobras e o mesmo Santander). Não é necessária muita criatividade maquiavélica para imaginar como poderia ser diferente, partindo da ideia do governo como arbitrador de lucros que coloquei acima somada a algum nacionalismo (mais abaixo).

--Um exercício interessante é pensar quanto do episódio é aumentado pelo Santander ser controlado por capital estrangeiro. Como seria a repercussão de exatamente o mesmo relatório feito pelo Bradesco? Ou pelo Banco do Brasil? Parece haver também um componente de nacionalismo rasteiro, exacerbado pelo clima de eleições e polarização política, onde um partido é, claramente, "amigo" do mercado e o incumbente faz questão de deixar opaca a forma de como pretende tocar a economia depois das eleições. Também a frase "o que esses espanhois, com 25% de desemprego, querem palpitar no Brasil" parece se encaixar bem na média dos discursos de líderes petistas.

--Grandes empresas têm o que pode ser visto como uma "censura interna": ao menos uma área (compliance) é responsável por verificar se as informações tornadas públicas pela companhia não violam nenhuma lei e, mais sutilmente, não vão contra diretrizes internas, que, novamente, visam proteger os lucros ou algum outro interesse corporativo. O episódio ganha uma nuance interessante se pensarmos nele como uma falha dessa área: parece relativamente claro que um relatório do tipo do que foi divulgado traz um risco de repercussão negativa e que poderia ser modificado de forma a passar exatamente o mesmo recado de forma mais sutil (isso é uma arte que qualquer economista que já trabalhou em algum banco brasileiro precisa aprender a dominar). Caso isso tivesse acontecido, a polêmica provavelmente não existiria. É bruto, cínico e abominável, mas é como o jogo é jogado (e o lambari é pescado, completaria o saudoso Luciano do Valle).


Esclarecimento (talvez) necessário: trabalhei no Santander de 2001 a 2007, e devo muito da minha carreira (não é grande coisa, mas é a que tenho) ao banco e aos colegas e amigos que encontrei por lá. Não tenho como não ser grato por isso.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Leituras da Semana

- Pesquisa do Deutsche Bank sobre preços pelo mundo.

- Uma aula de humildade (parece sincera) por Bill Gross.

- O que a Europa tem a aprender com as crises de dívida da América Latina.

- Charles Gave prevê uma depressão para a França.

- Entrevista da Salon com Jim Chanos.

- John Cassidy sobre Janet Yellen, a possível futura presidente do Fed.

- Robert M. Solow sobre Ben Bernanke e a financialização nos EUA.

- George Soros volta a defender a emissão de eurobônus.

- Barry Eichengreen e a influência da história nas políticas monetárias dos EUA e da Europa.

- A entrevista mais recente de Stanley Druckenmiller, para a Bloomberg.

- Um documentário sobre planos de estabilização no Brasil (ainda não vi).

- Os departamentos de história nos EUA voltaram a estudar o capitalismo.

- Qual questão vários cientistas temem ser perguntados?

- Quatro livros de Tony Judt estão sendo relançados nos EUA.

- Como investir na Coreia do Norte.

- O tratado definitivo sobre tretas na internet.

- Uma tabela periódica do jazz.

- Ian McEwan sobre Margaret Thatcher. Sua carreira em 10 momentos e pelas capas da The Economist. Recomendação de livros sobre o thatcherismo.

- Dana Stevens, a ótima crítica de cinema da Slate, sobre Roger Ebert. Duas das críticas mais legais dele: a do lançamento de Apocalypse Now e  a de Waking Life para a série Great Movies.

- Literatura erótica, literalmente.

- A explicação definitiva para a escalada dos preços do tomate.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

7 mitos sobre a economia brasileira que foram / estão sendo / serão destruídos

Diz George Soros (vou citar de orelha porque meus livros sumiram; se notarem algum erro, por favor corrijam) que bolhas especulativas nascem de uma percepção de mudança de paradigma. Na medida em que aparecem sinais dessa mudança, mais pessoas investem nela, o que reforça os sinais e atrai mais gente. Depois de algumas rodadas desse auto-reforço, a percepção se descola tanto da realidade que, mesmo que a mudança inicialmente prevista ocorra, é impossível que as expectativas embutidas nos preços sejam confirmadas. Isso ocorrendo, é questão de tempo para que a bolha estoure, ativos sejam liquidados e percepção e realidade voltem a se encontrar.

Esse esquema me parece bastante correto para descrever o passado recente do Brasil: do país que ia "decolar" para o pior mercado de ações do mundo e grandes dificuldades em crescer. Abaixo uma lista (sem a menor pretensão de ser exaustiva) dos mitos que foram, estão sendo e (acho que) serão destruídos sobre o Brasil:

1. O PIB potencial do Brasil cresceu

Nos últimos 20 anos, o PIB brasileiro cresceu em média 3,2% ao ano. Entre 2003 e 2010, com o boom de commodities, essa média foi de 4,05% ao ano, e muita gente achou que estávamos entrando em uma nova era de crescimento mais acelerado: no início de 2011, a Fitch dizia que o novo crescimento potencial era de 4,5% anuais, e o recém-empossado governo Dilma determinou uma absurda "meta" de 5,9% de crescimento durante o mandato. O choque de realidade veio com sucessivos "pibinhos", mesmo após cortes de juros e inúmeros pacotes de crescimento. Mais provável mesmo que o PIB potencial esteja ao redor da média de longo prazo (3% anuais, talvez um pouco menos), e todo o crescimento adicional tenha sido função da alta dos preços do que exportamos.

2. O Brasil autossuficiente em petróleo

Em 2006 Lula declarou a "autossuficiência" do Brasil em petróleo. Sete anos depois, nunca antes na história deste país se importou tanta gasolina, a ponto disso preocupar os acionistas e detentores de dívida da Petrobras e prejudicar as contas externas do país.

3. O que trava o país é a Selic alta

Claro que provavelmente ainda estamos passando pelos efeitos defasados da grande queda dos juros no ano passado, mas parece evidente que não vai ser isso que vai fazer o país decolar. Pelo menos serviu para evidenciar outros problemas estruturais.

4. O Brasil não depende tanto de commodities

A dependência no principal índice de ações é claríssima - e volta a ficar claro que, no que depende do mercado interno, o Brasil é um país com inúmeros gargalos e dificuldades estruturais.

5. Eike Batista como empreendedor e possível homem mais rico do mundo

O fundo do poço estava longe de chegar quando escrevi isso, em junho do ano passado. Hugh Hendry acertou em cheio. É o caso mais emblemático (e alavancado) do descolamento entre realidade e percepções do Brasil recente.

6. O triunfo do "capitalismo de estado"

Após a crise de 2007/2008, muita gente defendeu a ideia (mais aqui) de que grandes empresas estatais (ou de capital misto) e bancos de fomento seriam os grandes indutores de crescimento no futuro. Talvez haja versões mais ou menos efetivas do "capitalismo de estado"; a brasileira, aparentemente, não mostrou nenhum novo dinamismo, a não ser a capacidade de prover o crédito que os bancos privados não quiseram conceder, com resultados ainda para serem discutidos.

7. O fim das crises cambiais

Já disse várias vezes por aqui que a história econômica do Brasil pode ser contada pelas suas inúmeras crises cambiais. A bonança de commodities e o consequente aumento de reservas internacionais parece ter afastado o risco de uma nova crise no futuro recente. Desde 2007 o país tem financiado com relativa facilidade déficits sucessivos em conta corrente; resta saber se esse padrão se repetirá no futuro ou quanto tempo levará para que as aparentemente grandes reservas sejam consumidas se o dinheiro estrangeiro que entrou nos últimos anos resolver voltar para casa.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Indo pra prateleira...

Umas três ou quatro vezes por ano o carrinho da Amazon passa por aqui e faz a alegria deste ser antiquado que prefere papel às telas de tinta eletrônica ou cristal líquido. Desta vez, chegaram (fora os quadrinhos e romances pouco pertinentes):

- Central Banking in Theory and Practice, de Alan Blinder - vou começar a escrever em breve sobre bancos centrais para outro projeto, e para isso resolvi seguir a indicação de um chefe há uns cinco anos e me informar um pouco mais. Blinder foi um dos chefes dos conselheiros econômicos de Bill Clinton e braço direito de outro Alan, o Greenspan. Esse livrinho é produto das Robbins Lectures que Blinder proferiu na London School of Economics em 1996. Naquela época os EUA estavam quase zerando o déficit do orçamento, cresciam a 4% ao ano e, creio, a vida de banqueiro central era bem mais fácil. Vai ser interessante ver o que mudou nesses longos e esquisitos 16 anos.

- Financial Turmoil in Europe and the United States, de George Soros - coletânea de artigos curtos mais recente de Soros, que, ainda que às vezes repetitivo, segue como um dos observadores mais lúcidos e ilustrados da relação entre mercados financeiros e economia.

- Reinventing the Bazaar: a Natural History of Markets, de John McMillan - foi muito bem recomendado, agora não lembro por quem.

- The Mystery of Capital, de Hernando de Soto - um dos grandes livros sobre desenvolvimento que me falta ler. De Soto fez o famoso experimento tentando descobrir, nos anos 80, quanto tempo levaria para, pelos meios legais, abrir um novo negócio no Peru. Gastou 256 dias úteis para obter as 11 permissões necessárias, tendo que ceder e pagar propina para conseguir duas delas.

- The Element, de Ken Robinson - OK, parece meio auto-ajuda (e deve ser um pouco, mesmo), mas também foi bem recomendado.

- Hedge Fund Market Wizards, de Jack Schwager e The Alpha Masters, de Maneet Ahuja - ambos compilam entrevistas com gestores de hedge funds e devem ser de pouco ou nenhum interesse para quem não trabalha com isso. Eu acho útil, seja para aprender ou para observar as ilusões pelo acaso.

- What Money Can't Buy, de Michael J. Sandel - livro novo do filósofo político popstar de Harvard, antes ainda preciso ler o Justice. O Anatole Kaletsky disse que é naïve e superficial, veremos...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Leituras da Semana - нехай почнеться гра!

- A Playboy americana mandou um repórter para o encontro da American Economic Association, em Denver. Ele voltou com algumas histórias interessantes e levantou uma boa discussão sobre o que separa ortodoxos e heterodoxos, além do tamanho das barbas.

- Falando em heterodoxia: Vladimir Safatle comenta uma nova coletânea de textos de Celso Furtado.

- O badalado discurso de George Soros no Festival de Economia de Trento, na Itália. Ezra Klein e Felix Salmon comentam. Só vi agora que Soros lançou, em fevereiro, um novo livro de ensaios sobre a crise nos EUA e Europa, já está encomendado. Trecho do discurso: "I am not well qualified to criticize the theory of rational expectations and the efficient market hypothesis because as a market participant I considered them so unrealistic that I never bothered to study them." Soros também no Project Syndicate, o conteúdo é praticamente o mesmo do discurso.

- Um ranking de bem-estar, como medido pela OECD.

- Achtung baby: porque a situação da Alemanha é mais perigosa do que se imagina.

- A história dos fluxos de capitais privados para o Brasil, em um gráfico.

- Boa matéria no Valor sobre fundos de trend following.

- Scott Sumner sobre regimes de câmbio fixo.

- Ariel Rubinstein indica cinco livros sobre teoria dos jogos.

- Mark Dow indica livros de finanças e economia comportamental, e fala sobre o modus operandi do FMI.

- Michael Lewis fala para os formandos de Princeton sobre o poder do acaso. The Epicurean Dealmaker comenta.

- O que Adam Smith sabia sobre desigualdade.

- Milton Friedman e uma receita para reviver a economia japonesa... em 1998. Daí vê-se que o monetarismo de mercado não é uma ideia lá muito original - nem pretende ser, creio (h/t Mark Dow).

- Uma ótima (ainda que meio tendenciosa) animação sobre a crise na Espanha, Españistán. É do ano passado, mas só vi há pouco.

- Uma história da família Safra.

- A economia de Seinfeld: dezenas de trechos do seriado exemplificando conceitos econômicos.

- Relatório bacana do banco italiano UniCredit sobre a Eurocopa, que começa hoje. Divertidíssimos os argumentos científicos e racionais do "client's corner". Tese a ser testada este ano: a Alemanha sempre ganha a edição seguinte a uma em que foi derrotada na final.

- A regra mais esdrúxula para definição de senha eletrônica da história.

- Pulp Fiction em ordem cronológica.

- Ver o Real Madrid perder de forma espetacular é sempre bom, não?

E este é o espírito da Irlanda para a Eurocopa, já ganhou minha torcida:


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Acha que estamos em uma nova bolha de tecnologia? Vai tentar vender...

Já devo ter reproduzido aqui uma meia dúzia de vezes a tabela abaixo, que está acompanhando o mercado de ações de internet / tecnologia na medida em que passos da bolha que estourou em 2000 vão sendo repisados com precisão assustadora (clique para aumentar):


Talvez o diagnóstico seja preciso e estejamos mesmo em uma bolha, que, quando estourar, vai deixar os acionistas de algumas companhias com uma pequena fração do que investiram. Porém, como também já escrevi aqui, tentar lucrar antecipando o estouro de uma bolha é das coisas mais ingratas que um especulador pode se dedicar a fazer. Meu amigo Veiga tem o estranho prazer de acompanhar algumas companhias abertas com negócios mais ou menos estranhos baseados na internet. Com a ajuda dele, montei a tabela abaixo, acrescentando o índice Nasdaq e alguns outros casos que considero emblemáticos:


Timing is a bitch... por enquanto, em 2012, ganharam os que identificaram a bolha e, seguindo a máxima de George Soros, compraram e estão surfando. Se a história se repete, teremos, como em 2000, muita gente inteligente perdendo dinheiro mesmo com a visão de médio / longo prazo se provando correta. Esse negócio de tentar ser mais esperto que o mercado é muito, muito difícil.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Facebook indo a público

Poucas coisas irritam mais um investidor / especulador do que ver uma bolha inflando sem participar dos lucros. Claro que, no fim, nenhuma era é tão diferente assim, todas as bolhas estouram e aqueles têm sua compensação pelo menos na forma de schadenfreude. Muitas vezes, porém, o processo é mais longo do que se antecipa e faz muita gente rica enquanto se desenrola - e ganhar com o estouro é, provavelmente, tão difícil quanto com a valorização (de um tal George Soros: "a primeira coisa que faço quando vejo uma bolha é comprar"). O mesmo Soros, junto com pelo menos outro investidor lendário (Julian Robertson), tentou antecipar o furo da bolha do Nasdaq, em 2000, por muito tempo, desistindo meses antes do início da queda. E o livro The Big Short, do Michael Lewis, conta várias histórias de brilhantes especuladores que lucraram com o fim da bolha imobiliária nos EUA, não sem antes quase irem a loucura questionando suas convicções ante o comportamento exuberante do mercado.

Dado isso, é compreensível o tom raivoso de muitos corneteiros de mercados (este escriba incluído) ao saber que o Facebook está nos últimos passos para uma oferta pública inicial de ações, que deve levantar algo como US$ 10 bilhões e determinar um valor de mercado entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões para a companhia (mais aqui). Para uma ideia das grandezas: uma oferta de US$ 10 bilhões seria cinco vezes maior que o IPO do Google, em 2004, e o terceiro maior da história do mercado de capitais dos EUA. Um investidor com US$ 100 bilhões (por acaso, mais ou menos o que a Apple tem em caixa - chorem, pobres!) poderia escolher entre comprar, grosso modo, 100% do Facebook ou escolher uma entre empresas do porte de: Unilever, Cisco, Verizon, Schlumberger, Pepsico, Sanofi (o Google e seus anos de sucesso valem US$ 190 bilhões no mercado, mais ou menos o mesmo que a Petrobras). Ainda que comparando fluxos e estoques, US$ 100 bilhões equivalem a um ano de PIB do Marrocos.

A questão de vários milhões de patacas é se de fato estamos assistindo aos desenvolvimentos finais de uma estranha nova bolha de tecnologia (ver aqui) ou se, com o tempo, o Facebook vai conseguir gerar os fluxos de caixa / crescimento que justifiquem seu preço em bolsa. Para fazer uma conta de padaria: com um valor de mercado de US$ 100 bilhões e um múltiplo preço / lucro igual ao do Google (20x), o Facebook teria que ser capaz de gerar lucros de US$ 5 bilhões por ano - em 2011, gerou entre zero e US$ 1 bilhão, dependendo da fonte. Para quem compra, mais importante do que acreditar nesse crescimento é se convencer de que o modelo de negócios do Facebook é estável, e que a empresa é de fato o modelo definitivo de rede social - sendo que tantas outras que pareciam promissoras caíram no esquecimento antes de fazer qualquer dinheiro para seus compradores finais. Há opiniões de "especialistas" para todos os lados; eu acho as premissas muito, muito frágeis - mas pelo menos desde que a empresa era avaliada em "apenas" US$ 50 bilhões. Façamos nossas apostas e assistamos a uma das grandes histórias corporativas dos nossos tempos.

P.S. Sim, acho que o Zuckerberg é mais um iludido pelo acaso do que um visionário.

P.P.S. O Wolfram|Alpha está muito bacana pra levantar informações de empresas listadas. Treme, Bloomberg.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Leituras da semana

Tenho gastado mais tempo no twitter; boa parte desses links já apareceu por lá:

- Saiu o esperadíssimo livro da Sylvia Nasar (que escreveu Uma Mente Brilhante e fez Hollywood apresentar o John Nash para o mundo) sobre a história do pensamento econômico. Jim Grant e a The Economist resenham, a Bloomberg tem um trecho que ajuda a desmistificar a polarização Keynes x Hayek. Na Amazon tem um vídeo de quatro minutos bem bacana, com a própria autora apresentando a obra.

- Fala a voz da experiência: um ex-presidente do BC argentino recomenda um calote dos grandes para a Grécia. Falando na Grécia, eles andaram importando AZEITE da Alemanha (dica iconoclastas).

- O grande Barry Eichengreen fala sobre história e política econômicas.

- George Soros sobre o futuro (ou falta de) do euro.

- Mais uma história mal contada de rogue trader, desta vez no UBS de Londres.O Financial Times explica o que é o tal de delta one.

- Da série "mais estranho que a ficção": Qaddafi pode ser... judeu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quantum Fund, 1969-2011 (ou: se não está fácil pro Soros...)

Mais um marco para uma geração de lendários gestores de hedge funds: menos de um ano após a aposentadoria do seu ex-protegido, Stanley Druckenmiller, George Soros (nome original: Dzjchdzhe Shorash) está devolvendo o dinheiro de seus clientes externos (cerca de US$ 1 bilhão, seguirá administrando apenas US$ 24,5 bi da família). O Quantum Fund, fundado em 1969, retornou cerca de impressionantes 20% por ano (em média) ao longo de sua história.

Mais na Bloomberg. O FT Alphaville tem a carta enviada aos investidores.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Leituras da QUARTA-feira

- George Soros convoca os "verdadeiros europeus" para mais um grande passo na integração do continente. Estou lendo o Pós-Guerra, do Tony Judt (um modesto volume de mais de 800 páginas, em letra miúda) e começando a entender porque, defesa dos interesses dos bancos à parte, muita gente se dispõe a lutar pela União Européia. Ah, acho que vale adicionar nos favoritos esse A-List do Financial Times, todo dia tem algum figurão comentando um assunto atual.

- René Magritte e a Grécia, na carta trimestral da Greenlight Capital, de David Einhorn.

- O Leonardo Monasterio puxa a comparação recorrente entre análise técnica e crenças esotéricas, deu uma boa discussão.

- O Financial Times segue decretando o fim do boom econômico do Brasil.

- A The Economist acredita na Itália, desde que, claro, o custo de financiamento da dívida não entre em órbita.

- Artigo do Mansueto Almeida na Folha do domingo, sobre o BNDES.

- O dinheiro da ilha de Yap, no Pacífico: discos de pedra de três metros de diâmetro, cuja elaboração empregava 10% da população de homens adultos. Curioso seria alguém estudar o impacto de uma política monetária expansionista em um ambiente desse tipo: dobrar a base monetária aumentaria brutalmente a demanda por mão de obra, com todas as consequências. Seria o sonho de Ben Bernanke & companhia.

Update: um comentarista anônimo e mais letrado do que este escriba lembrou que a mesma ilha foi usada por Milton Friedman, no primeiro capítulo do livro Money Mischief, de 1994, para ilustrar o aparente absurdo do sistema de moeda fiduciária.

- Os 11 próximos emergentes.

- Um mapa de estereótipos inúteis.

- Enquete impertinente: agora que o BNDES desistiu de participar da brincadeira Pão de Açúcar - Carrefour, qual vai ser o próximo mico em que o banco vai se meter? Financiar o trem-bala sozinho? Ajudar na transferência do Tevez do Manchester City para o Corinthians?

- Hoje é aniversário de 26 anos do Live Aid, ou, como ficou conhecido, Dia Mundial do Rock. Tem algo mais rock & roll que o Angus Young?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Leituras acumuladas das férias

- O cisne negro do Cairo, por Nassim Taleb e Mark Blyth (Foreign Affairs).

- Baruch relê Peter Lynch e aconselha os investidores individuais a ir contra o senso comum de finanças pessoais e comprar ações diretamente (Ultimi Barbarorum).

- Um alerta para o endividamento do brasileiro, que gasta, em média, mais para servir a dívida do que os americanos no topo do boom de crédito (FT, via Marginal Revolution).

- "We need more monetary historians and historians of economic thought and fewer model-builders. We need more Eichengreens, Shillers, Akerlofs, Reinharts, and Rogoffs – not to mention a Kindleberger, Minsky, or Bagehot." Brad DeLong sobre a crise na ciência econômica (Project Syndicate).

- O WSJ descobre o que qualquer turista brasileiro tem experimentado em viagens para o exterior: o Brasil é um lugar caríssimo para se viver (Wall Street Journal).

Oh, really?

- Robert Skidelsky, o biógrafo de Keynes, aponta para um conflito entre democracia e mercados. Não concordo totalmente com a argumentação (não acho que a precificação de dívida soberana seja feita de forma tão errada pelo mercado, mas de fato é difícil descobrir se a alta de juros pelo mercado leva a uma situação insustentável na dívida ou o contrário), mas vale a leitura (Project Syndicate).

- George Soros sobre Hayek (Politico e Slate).

- Lógica x crença (Indexed).

- A piauí abriu as tão comentadas memórias do Pérsio Arida para não-assinantes (piauí).

- Algumas das gravações mais importantes da história do jazz foram descobertas, mas você não pode ouví-las (Abajournal).

- O Código Walter Lantz: alguns desenhos antigos do Pica-Pau escondiam obras de arte moderna. O Pica-Pau doidão é o personagem de desenhos animados favorito da casa; eu sempre soube que aquilo era alta cultura (NY Times). O episódio em questão pode ser visto aqui (com o som original) ou aqui, com a impagável dublagem em Português.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Leituras do começo do outono - Hathaways, Soros, Greenspan...

- A popularidade de Anne Hathaway ajuda o preço das ações da Berkshire Hathaway, de Warren Buffett? Pense de novo (The Atlantic).

- A cara de pau de Alan Greenspan segue inabalável: para ele, o ativismo dos governos está impedindo uma recuperação econômica mais robusta (The Big Picture).

- George Soros sobre a Europa, apontando o dedo para Alemanha (Project Syndicate).

- Porque a bolha imobiliária não estoura no Canadá e na Austrália (FT).

- El PIBón: a Argentina cresceu 9.2% em 2010. Confiável ou não, não vai demorar para aparecer gente louvando o sucesso do crescimento pelo 'modelo argentino' (WSJ).

- Receita para reduzir dívida, sem calote: inflação + juros reais negativos (Reinhart e Sbrancia, NBER).

- O Aid Watch entrevistou Deidre McCloskey sobre seu novo livro, que diz que não é a economia, estúpido: o que explica o sucesso econômico do mundo moderno é uma mudança de atitude da sociedade na direção de mais dignidade e liberdade para a burguesia empreendedora (Aid Watch).

- A economia comportamental encontra o desenvolvimento (Boston Review).

- A qualidade da música pop piorou com a explosão dos downloads? Paper de Joel Waldfogel. Vale pelo menos pela colossal compilação de listas de best of que o autor fez para extrair os dados da pesquisa (NBER).

- O exame mais difícil do mundo (Paul Kedrosky).

- Vem aí mais uma coletânea 'definitiva' da história do jazz (NYT). Aceito doações para que eu possa fazer minha própria avaliação.

- Dez artigos bizarros da Wikipedia (ListVerse).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Os melhores livros de 2010

Se eu mal consigo acompanhar os filmes na medida em que eles estream no cinema, com os livros é ainda pior. Este ano consegui ler mais do que em 2009 (mesmo não considerando as releituras das histórias do Asterix), mas ainda assim a pilha só cresceu. De qualquer maneira, aí vai o que me chamou a atenção em 2010:

Economia, mercados e afins:

- The Big Short: Inside the Doomsday Machine, Michael Lewis (W.W. Norton, 2010)

Escrevi uma resenha aqui. Para quem trabalha no mercado, uma lição sobre paciência e como bolhas podem ser resilientes.

- Invisible Hands: Hedge Funds Off the Record - Rethinking Real Money, Steve Drobny (Wiley, 2010)

No mesmo molde de entrevistas dos clássicos Market Wizards e do livro anterior de Drobny (Inside the House of Money), só que preservando a identidade dos entrevistados. A tese (corajosa) de Drobny é que o dinheiro dos fundos de pensão deveria fugir da pseudodiversificação em instrumentos parecidos com ou mais arriscados que ações e ser gerido como os ativos de fundos de hedge, com extrema flexibilidade. Talvez a tese seja correta, mas, ainda assim, creio que faltariam gestores talentosos como os retratados no livro (alguns, como Hugh Hendry, são facilmente identificáveis). De qualquer forma, traz algumas grandes histórias e insights.

- The Little Book of Behavioral Investing, James Montier (Wiley, 2010)

Vale mais do que qualquer curso de finanças na universidade. Fala dos mercados e dos investidores como eles são, e não como deveriam ser no mundo da normalidade.

- More Money Than God: Hedge Funds and the Making of a New Elite, Sebastian Mallaby (Penguin, 2010)

Quatro anos de pesquisa foram necessários para montar uma grande história dos fundos de hedge e dos egos e ideias por trás deles. O pecado (menor) é praticamente só falar dos fundos americanos.

- The Soros Lectures, George Soros (PublicAffairs, 2010)

Um dos maiores especuladores da história fala sobre sua visão do mundo. Resenhei aqui.

- Mobs, Messiahs, and Markets, William Bonner e Lila Rajiva (Wiley, 2009)


Às vezes pedante a ponto de irritar, mas uma boa alternativa contemporânea para o clássico Extraordinary Popular Delusions and The Madness of Crowds.

- How to Lie With Statistics, Darrell Huff (W.W. Norton, 1993)

Quase 50 anos se passaram da primeira edição deste livro (de 1954). A quantidade de dados disponíveis se multiplicou algumas vezes; o mau tratamento deles (intencional ou não) segue o mesmo.

- Dance with Chance, Spyros Makridakis, Anil Gaba e Robin Hogarth (Oneword, 2009)

Soa um pouco como autoajuda, mas é muito bem embasado e ensina a fugir de médicos. Vale a leitura, portanto.



Temas menos mundanos:


- O Pequeno Livro do Rock, Hervé Bourhis (Conrad)

- Divertido, apaixonado e bem desenhado (e ousa achar Grandaddy melhor que Radiohead).

- Playing the Enemy, John Carlin (Penguin)

O livro que inspirou Invictus, do Clint Eastwood. História que se lê como um bom romance.

- As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, Amin Maalouf (Brasiliense)

Consegue, ao mesmo tempo, defender os árabes e criticar duramente sua decadência. O trabalho de pesquisa, em fontes da época, deve ter sido insano.

- Six Easy Pieces, Richard P. Feynman (Penguin)

Física é para os fortes. O primeiro livro do Feynman que leio; ele realmente devia saber muito para conseguir fazer com que coisas completamente abstratas pareçam minimamente simples.

- Reflexões Sobre um Século Esquecido, Tony Judt (Objetiva)

A lucidez de Judt fará muita falta. Felizmente sua obra seguirá a nosso alcance.

- What Have You Changed Your Mind About?, John Brockman (Harper Perennial)

Tem tantas ideias interessantes que pode ser material de reflexão para a vida inteira.

- Autores de Guias de Viagem Vão Para o Inferno?, Thomas Kohnstamm (Panda)

Sexo, drogas e caipirinha. E, nas horas vagas, escrever um guia de viagens para o Brasil. Deixou a editora do Lonely Planet puta da vida, só por isso já valeria a leitura.


Ficção

- Uma Breve História dos Tratores em Ucraniano, Marina Lewycka (Bertrand Brasil)

Comprei pelo título e pela capa, saí no lucro. Além do aprendizado sobre a história dos tratores nos tempos de Stalin, ganhei uma história original, muito bem contada, divertida e humana.

- The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, Junot Díaz (Riverhead Trade)

A história (de um adolescente de origem dominicana, nascido nos EUA e sofrendo o diabo no país dos pais) é miserável, mas rendeu, ao invés de um dramalhão, uma comédia de humor negro contundente e muito bem escrita.

- Pornopopéia, Reinaldo Moraes (Objetiva)

Mais um herói sem caráter para a história da literatura brasileira. Mais na piauí deste mês.

- Freedom, Jonathan Franzen (Farrar, Straus and Giroux)

O livro mais comentado deste ano nos EUA. Merecia um texto maior aqui, ainda vou fazer. Talvez seja o livro que vai definir uma geração.


E ficaram para o ano que vem (e para o outro... o outro... o outro...):

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O futuro da pesquisa econômica

O Institute for New Economic Thinking, apadrinhado pelo George Soros, divulgou hoje os primeiros projetos de pesquisa que vão receber financiamento da instituição. Parece que muita coisa interessante vai sair de lá.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Capitalização da Petrobras - quem ganhou?

Considerando a euforia com o parto da maior oferta de ações da história (passamos para o "nunca antes na história da humanidade" e entramos no maior delírio de grandeza do país desde o "milagre" dos anos 1970), muita gente -- políticos, fornecedores, banqueiros de investimento, a lista segue. O mero mortal acionista, entretanto, por enquanto aguarda um desfecho favorável para uma sequência de eventos cercados por incerteza (já falei sobre isso aqui). Nessa condição, só teve chance de garantir algum ganho quem tinha os papéis e vendeu antes do mercado derrubar os preços nos meses que antecederam a operação -- entre outros possíveis, surge, inevitavelmente, o nome de George Soros.

O Soros Fund havia comprado US$ 811 milhões em ações da Petrobras negociadas em Nova York (ADRs) durante o segundo trimestre de 2008. Reduziu a posição um ano depois e saiu completamente do investimento entre abril e junho deste ano. Passou longe de ser uma aposta brilhante (o preço médio no período em que ele comprou foi de US$ 107,5, e, durante as vendas US$ 79,4 e US$ 69,9, respectivamente), mas poderia ser ainda pior caso tivesse insistido no erro -- hoje os papéis operam a US$ 35,5. Claro que a história poderia ser outra, mas vai ser mais uma para alimentar a aura do maior especulador dos nossos tempos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Michael Lewis sobre a Grécia

Michael Lewis foi à Grécia tentar descobrir como anda o país que tem sido o assunto favorito no mercado financeiro quando tenta-se ver o copo meio vazio. Além das anedotas sobre corrupção e impostos e de uma história surreal sobre monges ortodoxos que viraram megaespeculadores imobiliários, a matéria da Vanity Fair traz um insight muito interessante, no último parágrafo:

"It [Greece] behaves as a collection of atomized particles, each of which has grown accustomed to pursuing its own interest at the expense of the common good."

Parece ser um exemplo extremo do que acontece quando os princípios de mercado, sem considerações éticas e morais, passam a ser aplicados para toda a sociedade -- como George Soros tinha mencionado nas suas aulas, que comentei aqui. Observar o que vai acontecer com a Grécia e sua luta para manter a prosperidade alcançada nos últimos anos vai ser muito interessante, e talvez forneça um mapa do que vai acontecer no resto de um mundo extremamente endividado, desesperado para gastar hoje o que conseguir de uma riqueza que ainda não foi gerada.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Professor Soros

Terminei há pouco o livrinho The Soros Lectures, que foi lançado este ano nos EUA para juntar cinco aulas que George Soros deu, em outubro do ano passado, na Central European University de Budapeste (fundada por ele próprio em 1991). Creio que essas aulas são o jeito mais fácil de acessar o pensamento abstrato de Soros, já que foram desenhadas para leigos e seus livros não são exatamente famosos pela facilidade de leitura e compreensão.

Soros, antes de ganhar bilhões no mercado financeiro e se tornar a cara mais conhecida do mundo dos especuladores, estudou na London School of Economics sob a orientação do filósofo Karl Popper, e daí vem sua ambição de tentar explicar o mundo. Mais do que isso, creio (pela leitura de uma biografia escrita por Robert Slater) que Soros é guiado por três motivações: a primeira é de ser levado a sério, de justificar como ele soube ganhar tanto dinheiro no mercado financeiro sem depender da sorte. A segunda é de devolver para a sociedade, em forma de conhecimento ou filantropia, esse dinheiro ganho às custas de tesouros nacionais e outros especuladores menos competentes. A terceira são suas crenças: Soros de fato parece acreditar em "sociedades abertas" e que o ativismo intelectual e político é uma maneira nobre de dedicar o tempo depois que as preocupações com dinheiro foram (muito) superadas.

Nessas aulas, Soros dedica-se primeiro a explicar sua teoria da reflexividade: em todo processo que envolve seres humanos, suas percepções são tão importantes quanto à realidade, e essas percepções podem também afetar objetivamente a realidade, gerando ciclos que se autoalimentam. Essa teoria serve muito bem para explicar a formação de bolhas no mercado financeiro, mas Soros é mais ambicioso: para ele, a reflexividade é presente em todos os aspectos da sociedade, e deveria ser sempre levada em conta nas formulações feitas por cientistas sociais (economistas inclusos). A realidade de Soros é ambígua, com causas e efeitos se confundindo e, por isso, difícil de ser modelada, para desespero dos que tentam prever o futuro com base nos dados passados.

Feito isso, Soros passa pela crise de 2008 / 2009 (segundo ele, o estouro de uma "super bolha" de alavancagem financeira), por como os anos Bush fizeram ele se decepcionar com os Estados Unidos e chega no que achei a parte mais interessante do livro: como o capitalismo pode ser contra a sociedade aberta. Para isso, ele parte de uma discussão muito interessante (pelo menos para mim, que estava procurando há algum tempo ler algo sobre esse tema) sobre a moralidade dos mercados: segundo ele, os mercados são amorais, já que seus valores são expressos em unidades monetárias e unidades monetárias são intercambiáveis, sem que os participantes precisem exercer algum julgamento moral nas suas decisões de compra e venda. Essa característica pode ser útil no nível individual, com diversos participantes atuando de acordo com seus interesses, mas falha quando é estendida para a política, que deveria levar em conta questões éticas e morais e a defesa do interesse coletivo. Nas palavras dele:
"... taking it for granted that all human behavior is guided by self-interest leaves no room for the exercise of moral judgment - and society cannot exist without some ethical precepts"


"Extending the idea of a free-standing market, self-governing and self-correcting, to the political sphere is highly deceptive because it removes ethical considerations from politics, which cannot properly function without them."

A vitória dos que ele chama de "market fundamentalists" ao longo dos anos 1980 e 1990 teria levado à situação atual, na qual governos seguem os princípios e interesses do livre mercado e deixam de se preocupar com as tais considerações éticas ou com o coletivo. Para isso, Soros propõe uma solução utópica e um pouco ingênua: que as pessoas separem seus papéis de participantes do mercado dos de agentes políticos -- ou seja, ajam em interesse próprio no que diz respeito a mercados e guiem-se pelo interesse público na política. Difícil acreditar que isso vai acontecer sem uma revolução ou uma quebra total do modelo atual.

Na última aula, Soros aponta para a necessidade de uma reforma no sistema financeiro, chamando os governos das principais potenciais para uma nova espécie de Bretton Woods, que tentaria chegar em um modelo de regulação global. Aqui vale novamente a observação acima: a necessidade do Bretton Woods original só foi percebida depois de um cataclisma; imagino que os países só vão deixar seus interesses atuais em busca de algum consenso quando o capitalismo parecer em perigo (mais do que esteve em 2008).

É difícil imaginar que Soros teria a mesma visibilidade atual caso tivesse optado, há mais de 50 anos, por seguir na carreira acadêmica e não tivesse se tornado um dos homens mais ricos do mundo. De qualquer forma, suas causas e idéias são muito interessantes e relevantes e, ao contrário de muitos teóricos, ele efetivamente coloca dinheiro nelas. Isso, junto com a maneira como ele tornou-se rico e influente (sendo um outsider, tomando riscos e, diferentemente de muitos "gênios" do mercado financeiro, sem depender de dinheiro de terceiros e da gentileza de governos), concede a ele uma autoridade que dificilmente é igualada no debate atual. Daí a relevância de The Soros Lectures.


The Soros Lectures, George Soros, 2010. US$ 11,54 na Amazon.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A aposentadoria de uma lenda (Stanley Druckenmiller)

Stanley Druckenmiller, o braço direito de George Soros no famoso episódio de ataque à libra esterlina em 1992, resolveu hoje fechar seu fundo (Duquesne, US$ 12 bilhões em ativos) e encerrar uma carreira de 30 anos. Nesse tempo, Druckenmiller juntou uma fortuna de US$ 2,8 bilhões (segundo a Forbes) e tornou-se um dos investidores mais bem sucedidos e conhecidos do mundo.

Segundo a Bloomberg, ele está frustrado por não ter consguido, nos últimos três anos, igualar a performance média do fundo desde sua fundação, em 1986 (cerca de 30% ao ano). No passado recente (2000), o fechamento de dois fundos lendários (Quantum, do próprio Soros e Tiger, de Julian Robertson) quase coincidiu (num intervalo de poucos meses) com uma virada histórica dos mercados -- o estouro da bolha ponto-com. O fracasso relativo de fundos macro anteriormente bem sucedidos pode marcar o clímax de um ambiente contrário a esse tipo de investimento (um mercado com tendências confusas, de movimentos prolongados contra os fundamentos). Em breve saberemos se este é mais um desses episódios.

Update: o The Big Picture tem a carta de despedida da figura.