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sábado, 21 de dezembro de 2024

Os livros de 2024

Hora do post anual que mantém a vida deste humilde blog. Acho que este ano consumi em excesso o que é o meu comfort food literário, a não-ficção bem editada para o público "leigo porém bem educado", como dirira um grande professor. A amostra inteira está no Goodreads.


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Ficção:

'Austerlitz', W.G. Sebald. Um dos clássicos indiscutíveis deste século, nunca o turbulento século XX foi tratado com tanta sutileza e elegância.

'O colibri', Sandro Veronesi. [Alerta de spoiler] O final fica dramalhônico e arrastado demais, mas o resto do livro justificou a fama.

'Seul, São Paulo', Gabriel Mamani Magne. Um olhar sobre a grande e discreta comunidade dos bolivianos que vêm tentar a vida na grande metrópole sul-americana.

'The MANIAC', Benjamín Labatut. Labatut repete a ficção histórica do seu livro anterior, igualmente perdendo o fôlego no quarto final, mas, no caminho, deixando um grande livro. A boa companhia é a biografia do alienígena John von Neumann.

'Dr. No', Percival Everett. Everett dominou a lista de melhores livros deste ano com 'James', que ainda não li. Esta é uma mistura de romance acadêmico com Ian Fleming e altíssima dose de ironia.

'O drible', Sérgio Rodrigues. Só conheci, tardiamente, na edição comemorativa de 10 anos. Vai direto para a seleta prateleira de melhores livros que usam futebol como pano de fundo (estranhamente, há pouquíssimos).


Quadrinhos:

'Patos: dois anos nos campos de petróleo', Kate Beaton. A vida de uma mulher no inferno gelado das areias betuminosas do Canadá.


'Chumbo'
, Matthias Lehmann. Imensa reconstituição da Belo Horizonte dos anos da ditadura, uma obra que deve entrar para a história dos quadrinhos feitos sobre o Brasil.

'Impossible people: a completely average recovery story', Julia Wertz. Acompanhar a obra da Julia Wertz é como assistir a 'Boyhood' ao longo de muitos anos. Torcendo para que ela continue documentando sua vida, agora com a loucura da maternidade.

'Dragon hoops', Gene Luen Yang. Basquete colegial e o triunfo da imigração ainda dão uma esperança para o futuro dos Estados Unidos.


Economia, mercados & afins:

'The rise and fall of the EAST: how exams, autocracy, stability, and technology brought China success, an why they might lead to its decline', Yasheng Huang. Difícil fazer uma resenha melhor que o subtítulo, mas vale ser lido inteiro.

'Material world: the six raw materials that shape modern civilization', Ed Conway. Basta ver quanta energia consome o mundo "digital" da inteligência artificial para nos fazer prestar atenção ao velho mundo da Madonna.

'Edible economics: a hungry economist explains the world', Ha-Joon Chang. Economistas heterodoxos são tudólogos muito melhores que seus pares ortodoxos, temos que lidar com esse trade-off.

'How big things get done: the surprising factors behind every succesful project, from home renovations to space exploration', Bent Flyvbjerg. Keep it simple, stupid.


Outros de não-ficção:

'A fronteira: uma viagem em torno da Rússia', Erika Fatland. Escrito antes da invasão russa de 2022, mostra, com uma mistura de frieza escandinava e profunda empatia, como é difícil a vida de quem deu o azar de compartilhar a fronteira com o pretenso império.

'O país dos privilégios - volume 1: os novos e velhos donos do poder', Bruno Carazza. A mistura de coragem e clareza que Carazza nos traz o coloca quilômetros acima dos habituais pedantismo e puxa-saquismo tupiniquins.

'About time: a history of civilization in twelve clocks', David Rooney. Daqueles livros que só poderiam ter sido escritos por uma ou duas pessoas no mundo.

'A broken hallelujah: rock and roll, redemption, and the life of Leonard Cohen', Liel Leibovitz. 2024 foi o ano de alimentar a obsessão por Leonard Cohen. Leia o livro, veja o fime e ouça as músicas.

'Every man for himself and God against all: a memoir', Werner Herzog. O louco mais perigoso é o louco discreto, funcional e altamente produtivo?


2024 funcionou e mantenho a fé na poderosa virada do calendário, ainda bem. Um grande 2025 a todos.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Os livros de 2023

Hora de parar para olhar para a lista de leituras do ano, separar o que achei mais legal e lembrar como é bom escrever um blog (obviamente não estou perto de voltar com regularidade, talvez a periodicidade anual seja de fato a mais conveniente). A amostra inteira está no Goodreads.

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Ficção:

'O nervo óptico', María Gainza. É ficção? As histórias parecem bater com o pouco que descobri da biografia da autora, as muitas obras de arte mencionadas parecem existir... Isso importa? Só aumenta o charme deste 'Ways of Seeing' com sotaque portenho.


'The Divorce', César Aira.
O outro argentino notável da lista, também curtinho, o primeiro que leio do autor – que, aparentemente, tem vários outros pequenos romances de imaginação borgesiana.

'Sul da fronteira, oeste do sol', 'Sono' e 'Primeira pessoa do singular', Haruki Murakami. Respectivamente, o Murakami de que mais gostei, uma novela-quase-conto-ilustrada e o livro de contos mais recente. Jazz, Japão e relacionamentos meio platônicos sempre vão me pegar.

'Ghost Town', Kevin Chen. Um romance de realismo fantástico sulamericano do século XX, só que lançado em 2022 e ambientado em Taiwan.

'Trust', Hernan Diaz. Uma ficção histórica altamente convincente (e bem escrita), num formato desafiador e engenhoso. Parece ter merecido o Pulitzer que levou (e mais um argentino na lista...).

'The Road', Cormac McCarthy. Uma das experiências mais aterradoras que a literatura já me proporcionou.


Quadrinhos:

'Afirma Pereira', Pierre-Henry Gomont. Linda versão do essencial romance antifascista de Antonio Tabucchi.

'Verões Felizes', Zidrou & Jordi Lafebre. Nem todo bom livro precisa ser sobre famílias infelizes e distintas. 

'The Secret to Superhuman Strength', Alison Bechdel. Bechdel continua sendo uma personagem tão irritante quanto quadrinista talentosa, aqui usando como pano de fundo sua obsessão de décadas com atividade física.


Economia, mercado e afins:

'The Chile Project: The Story of the Chicago Boys and the Downfall of Neoliberalism', Sebastian Edwards. Edwards foi muito criticado (talvez justamente) pela certa complacência com muitos colaboradores de um regime psicopata. Ao mesmo tempo, o livro não existiria se não fosse sua proximidade com esses personagens. De qualquer maneira, pouca gente poderia contar a história econômica do Chile nos últimos 50 anos de forma tão competente.

'Slouching Towards Utopia: An Economic History of the Twentieth Century', J. Bradford DeLong. Polanyi e Hayek como os 'economistas defuntos' que escravizaram tantos homens práticos no longo século XX.

'Status and Culture: How Our Desire for Social Rank Creates Taste, Identity, Art, Fashion, and Constant Change`, W. David Marx. O nome deve ajudar na agudeza da observação social
multidisciplinar.

`The Fund`, Rob Copeland. Delenda Dalio.


Outros de não-ficção:

'Milicianos: Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele', Rafael Soares. Um livro de enorme coragem, com o tipo de trabalho jornalístico que está morrendo na era da informação rasa e "gratuita". Vale ler junto com a 'Vale o Escrito', da Globoplay.

'How the World Really Works: The Science Behind How We Got Here and Where We're Going', Vaclav Smil. Cause we are living (and will keep living) in a material world.

'Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business', Neil Postman. Postman morreu sem ver o estrago que a internet e redes sociais fizeram na política, o que tornou sua análise ainda mais pertinente e atual.

'Sovietistão', Erika Fatland. Um olhar de antropóloga, mas livre de academicismos, sobre as esquisitices da Ásia Central.


Se der tempo antes do ano acabar, ainda coloco outras listas (de filmes e músicas) no Twitter. Que todos vivam muitas alegrias neste finalzinho de 2023 e comecem 2024 com a ilusão sincera de que as coisas sempre podem ser melhores.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Os livros de 2022

Vamos ao tradicional (fui contar agora, é o 13º!) post anual que ainda mantém este blog vivo. Tudo que li está no Goodreads. Os livros não estão em nenhuma ordem particular, tudo listado aqui é recomendável.

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Ficção:

'Too Loud a Solitude', Bohumil Hrabal. Uma novela curta ambientada na Checoslováquia comunista. O protagonista é um operário responsável por uma enorme prensa hidráulica que transforma livros e outros papeis menos nobres em enormes blocos de papel para reciclagem. Hrabal usa essa premissa inusitada para falar de literatura, censura, autoritarismo, e, meu tema favorito aqui, a relação entre trabalhadores e seus ofícios.

'Chess', Stefan Zweig. Outra novela curta e alegórica, que Zweig escreveu no final da vida, já no Brasil. Li em inglês, mas há uma linda edição brasileira recente da Fósforo.

'Saint Peter's Snow', Leo Perutz. Perutz foi uma recomendação do 'Exact Thinking in Demented

Times' (abaixo). Uma história que se passa nesses "tempos dementes", cheios de fanatismo e descobertas científicas.

'Lessons', Ian McEwan. A história de uma vida desde o pós-guerra, que, não por coincidência, acompanha a trajetória do autor, desde a Líbia no pôr do sol do imperialismo até a pandemia de covid-19.

'Kudos', Rachel Cusk. Último livro de uma trilogia estranha e difícil de classificar. Leia a crítica da Sally Rooney para a Slate, muito melhor do que qualquer coisa que eu consiga elaborar.

'Norwegian Wood', Haruki Murakami. O romance de formação de Murakami, uma delícia de ler (ao menos para quem compartilha de paixões por relacionamentos complicados, meio platônicos e jazz).

'Sagarana', João Guimarães Rosa. Mais especial ainda ter lido durante uma viagem a Minas e encontrar no livro a imagem escrita daquela terra tão bonita e cheia de histórias.

'The Door', Magda Szabó. Parando agora pra olhar a lista, este foi o meu ano de romances da Europa Central. Aqui Emerence, uma governanta irascível, personifica a história da Hungria que emergiu da ocupação nazista e do comunismo.

'When We Cease to Understand the World', Benjamín Labatut. Este foi tão lido e comentado este ano que só deixo o registro.


Quadrinhos:


'Paul Has a Summer Job'
, Michel Rabagliati. Primeiro que leio da série do autor de Quebec. Leve, doce e divertido, sobre um daqueles períodos em que a vida, de repente, acelera e nunca volta ao que era.

'The Structure Is Rotten, Comrade', Viken Berberian e Yann Kebbi. Um passeio delirante pela arquitetura do século XX, via uma Yerevan distópica.

'Crônicas da Juventude', Guy Delisle. Deslile mantém a forma, aqui em uma viagem a seu passado como trabalhador temporário em uma fábrica de papel no Canadá. Se falta o olhar de descoberta de lugares "exóticos" como Pyongyang, Jerusalém ou Shenzhen, a sensibilidade e humor de sempre continuam presentes, além dos desenhos econômicos e precisos.

'Gourmet', Masayuki Kusumi. Cada refeição do protagonista solitário e faminto é um haiku, uma homenagem à grandeza infinita da cozinha japonesa e à diversidade e o anonimato proporcionado pelas grandes cidades.

'Uncomfortably Happy', Yeon-Sik Hong. Parece uma graphic novel sobre um lockdown durante a pandemia, mas é de 2017 e mostra a vida em isolamento por opção durante um longuíssimo inverno.


Economia, mercados e afins:

'Efficiently Inefficient: How Smart Money Invests and Market Prices Are Determined', Lasse Heje Pedersen. Deveria ser leitura obrigatória para qualquer um envolvido na gestão de ativos líquidos. Pedersen é o raro autor que consegue combinar profunidade acadêmica com a prática, além de uma lista de conexões impressionante (Soros, John Paulson, Scholes, etc.) que ilustra os capítulos dedicados a cada tipo de estratégia.

'The Technology Trap: Capital, Labor, and Power in the Age of Automation', Carl Benedikt Frey. Frey nos guia pela história do relacionamento entre automação e empregos, mostrando que a adoção de novas tecnologias está longe de ser automática e passar ao largo de ações de governos.


Outros de não-ficção:

'Energy and Civilization: A History', Vaclav Smil. Longe de ser um livro de aeroporto, como sugere o blurb do Bill Gates. Smil tenta quantificar os fluxos de energia globais desde a idade da pedra para oferecer um painel magistral de como a humanidade tem os usado (de forma pouquíssimo eficiente) para chegar onde chegou. Aprende-se algo novo em praticamente todas as páginas.

'Vento Vadio: As crônicas de Antônio Maria'. Excelente edição da Todavia, que junta, pela primeira vez, o melhor da produção de um dos menos lembrados dos nossos grandes cronistas.

'Major Labels: A History of Popular Music in Seven Genres', Kelefa Sanneh. Uma mistura de crítica, história e relato pessoal por um ouvinte atento e sem preconceitos, que tenta evitar julgamentos contemporâneos sobre fenômenos culturahis passados.

'Exact Thinking in Demented Times: The Vienna Circle and the Epic Quest for the Foundations of Science', Karl Sigmund. Um desses raros livros que são produto de uma vida: Sigmund é um vienense apaixonado e professor na mesma uniersidade que gerou o famoso Círculo de Viena. Aqui ele leva o leitor para um tour pelas ideias e personalidades de um grupo de pensadores que moldaram o que entendemos hoje por ciência. Foi ótimo lê-lo depois de 'When We Cease To Understand the World'; a não-ficção meticulosamente pesquisada aqui lembra as fantasias de Labatut, e vice-versa.

'História da música popular brasileira sem preconceitos, vol. 1'', Rodrigo Faour. Faour fez um enorme esforço para incluir, nesta obra enciclopédica, ritmos e artistas que, geralmente, são esquecidos por livros do tipo. Evidentemente, é impossível fazer isso sem perda de profundidade, mas o resultado ainda é muito bom, ao menos como ponto de partida para outras explorações. Impossível não ficar de queixo caído com a riqueza do tema coberto.

'The Man in the Red Coat', Julian Barnes. Barnes usa a vida de Samuel Pozzi, um extraordinário ginecologista e bon-vivant francês, para ir e vir entre fofocas, histórias e personagens da Belle Époque.


A quem chegou até aqui, desejo um excelente 2023, cheio de tempo para passarmos fazendo o que gostamos e com quem amamos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Os livros de 2021

 Mantendo ao menos a tradição do post anual, vamos lá (tudo que li está no Goodreads, este ano tentei fazer, lá mesmo, uma pequena resenha do que fui registrando). A maioria dos romances que li este ano desapontou (incluindo o novo da Sally Rooney), então a lista ficou carregada em não-ficção. Para o nobre de propósito de achar o que dar de presente, recomendo também a lista dos livros que foram presenteados no amigo secreto do clube de leitura do qual participo, a curadoria ali é de alto nível.

Ficção:

'Outline' e 'Transit', Rachel Cusk. Cusk parece ser uma boa companhia para um daqueles cafés que dura horas, emendando uma história na outra. Ainda não li o volume final da trilogia ('Kudos'), então não tenho um veredito final. Gostei bem mais de 'Outline' do que do seguinte, o que pode só demonstrar que é muito mais fácil gostar de algo ambientado no verão da Grécia do que no inverno de Londres.

'Sabbath's Theater', Philip Roth. O melhor Roth que li, devasso e sem freios morais. Certamente teria dificuldades para ser publicado hoje.


'Diomedes'
, Lourenço Mutarelli. Enorme graphic novel, criativa e delirante. Demorei demais pra me lançar no Mutarelli.

'Livro do Desassossego', Fernando Pessoa. Uma bíblia pagã. Para ler continuamente pro resto da vida.

'Serotonina', Michel Houellebecq. Bem menos irritante que 'Submissão', talvez ainda mais incômodo.

'A Odisseia de Hakim', Fabien Toulmé. Em três volumes. Talvez a obra que mais me tocou este ano. Simplesmente narrando, em quadrinhos, a trajetória de um refugiado sírio de Damasco até conseguir chegar na Provença (seria um voo direto de pouco mais de três horas, me diz o WolframAlpha), Toulmé escancara o absurdo que é o tratamento dado pelo mundo a refugiados.

'A Noiva do Tradutor', João Reis. Divertidíssima atualização das andanças por Lisboa de uma versão menos angustiada e mais raivosa do Bernardo Soares de Pessoa.

'Luster: a novel', Raven Leilani. Ainda terminando, dos poucos lançamentos recentes que parece valer o hype. 


Não-ficção:

'Scale', Geoffrey West. Livros com "teorias gerais de tudo" são sempre fadados a falhar, mas este, aos olhos da física, acaba explicando de forma muito clara e pouco intuitiva muitos fenômenos econômicos e sociais.

'Why Bother with Elections?', Adam Przeworski. Przeworski destila décadas de estudo e reflexão nesse livrinho, que mostra como eleições devem ser, ao mesmo tempo, objeto de pouca esperança e fundamentais. Saiu este ano em Português, também.

'A Canção no Tempo', Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. Em dois volumes, à altura da monumental obra de que trata.

'How Asia Works', Joe Studwell. Ásia aqui são os três países extremamente bem-sucedidos economicamente do leste do continente, Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Em comum tiveram a distribuição em massa de propriedades rurais, incentivos à agricultura familiar e a combinação pouco usual de protecionismo seguido de "disciplina de exportação". Parece algo fácil de ser seguido, mas, como sabemos, a estrada para o inferno está pavimentada de boas intenções de governos desenvolvimentistas. A China continental parece estar seguindo os passos.

'Why the Germans do it Better', John Kampfner. Aqui, outro arranjo institucional impressionante que emergiu da Segunda Guerra. Ótimo para acompanhar a despedida de frau Merkel.

'The Ends of the Earth', Robert D. Kaplan. Relato de uma viagem de Kaplan (em 1994) em países que pareciam bastante fodidos de maneiras distintas entre eles. Interessante (e animador) ver que, quase 30 anos depois, a grande maioria deles melhorou substancialmente a vida dos seus habitantes: se não enriqueceram, melhoraram substancialmente dois indicadores básicos de saúde pública, mortalidade infantil e taxa de fertilidade. Ia fazer um post sobre isso, mas deu preguiça; tem um monte de gráficos prontos aqui.

'The World for Sale', Javier Blas e Jack Farchy. Belo trabalho para descrever como funcionam empresas das quais, até bem pouco tempo atrás, não se sabia muita coisa (as trades de commodities, no


caso).

'Numbers Don't Lie', Vaclav Smil. Primeiro livro que pego pra ler do prolífico heroi intelectual do Bill Gates. Smil parece ser um mestre nas estimativas de Fermi, além de, claro, saber tudo sobre produção e consumo de energia. Lerei outros.

'Bad Science', Ben Goldacre. Indicação do Tim Harford, grandes capítulos sobre placebos, os incentivos para publicação científica e, claro, vacinas.

'The Swerve', Stephen Greenblatt. O argumento central é meio forçado e furado, mas nunca gostei tanto de um livro que se passa na Idade Média (talvez porque o principal protagonista é um maníaco por livros).

'Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World', David Epstein. Peguei esperando um livro de negócios típico (e para exercitar meu viés de confirmação), encontrei uma combinação muitíssimo bem feita de resumo da literatura e boas histórias. 

'Murakami T: The T-Shirts I Love', Haruki Murakami. Os pontos de vista esquisitos, originais e divertidos de Murakami sobre sua enorme coleção de camisetas.


Um grande 2022 pra vocês, com mais humanidade e menos máscaras.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Os livros de 2020

O blog segue agonizando, mas teima em não morrer. Aí vai o post anual de costume (todo o resto está no Goodreads):

Ficção:


'Tiempos Recios', Mario Vargas Llosa. O melhor Vargas Llosa desde 'Travessuras da Menina Má', retomando a verve e alguns personagens de 'A Festa do Bode' para contar a história do golpe militar de 1954 na Guatemala.

´Sobre os Ossos dos Mortos', Olga Tokarczuk. Foi propagandeado como um panfleto ambientalista, mas também pode ser lido como uma história de detetive tragicômica contada por uma narradora sem nenhuma credibilidade.

'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão', Martha Batalha. Um dos melhores romances contemporâneos que já li, muito mais leve e divertido que a versão em filme.

'A Peste', Albert Camus. Releitura inevitável do ano, felizmente muito mais otimista do que eu lembrava ser.

'Segredos', Domenico Starnone. Ainda não apareceu o livro do Starnone que li e não gostei.

'Biografia Involuntária dos Amantes', João Tordo. Viagem sentimental atormentada pela Galícia, Canadá e Londres.

'The Nickel Boys', Colson Whitehead. Vale o hype do Pulitzer.

'Torto Arado', Itamar Vieira Junior. Um livro que vai passando e deixando uma legião de pessoas que o recomendam entusiasmadamente. Em breve numa lista de leituras para o vestibular. A grande leitura do ano, sem dúvidas.

'The Vegetarian', Han Kang. Para quem conhece um pouco de cinema coreano e nada da literatura, é exatamente o que se espera.

'The Loser', Thomas Bernhard. Você era o melhor pianista do mundo, mas deu azar de ser colega de sala de Glenn Gould. Loser.

'Perto do Coração Selvagem' e 'A Hora da Estrela', Clarice Lispector. Efemérides servem como uma cutucada para correr atrás dos buracos na formação. 


Não-ficção:

'Em Busca da Alma Brasileira: Biografia de Mário de Andrade', Jason Tércio. Biografia à altura do incansável biografado.

'This Is Not Propaganda: Adventures in the War Against Reality', Peter Pomerantsev. Um mergulho no submundo digital onde habitam bots, extremistas e governos inescrupulosos.

'The Story of Art', E.H. Gombrich e 'The Great Movies', Roger Ebert. Dois grandes produtos da mistura imbatível de paixão e erudição, dois guias para mundos que pedem uma vida de exploração.

'Crônicas de Jerusalém', Guy Delisle. Delisle usa como poucos os quadrinhos para fazer rir e pensar na mesma obra.

'Shah of Shahs', Ryszard Kapuscinski. Kapuscinski é dos autores que leio aos poucos para que a obra não acabe tão rápido.

'The Narrow Corridor: States, Societies, and the Fate of Liberty', Daron Acemoglu e James A.
Robinson. O ímpeto de querer encaixar todas as sociedades de todos os tempos na tese central às vezes irrita, mas vale insistir. 

'A Organizaçao', Malu Gaspar. Malu é a melhor repórter investigativa do Brasil. Impressionante reconstrução de décadas de escândalos que deveriam continuar nos chocando.


P.S. Para recomendações boas mesmo, recomendo olhar a lista de livros presenteados no amigo secreto do incrível grupo de leitura do qual tenho a alegria de participar. Não há melhor curadoria.

Um grande 2021 a todos, merecemos.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Os livros de 2019

De novo chegou aquela época do ano. Abaixo o que mais gostei de ler em 2019 (isso e todo o resto está no Goodreads):

Ficção:

‘First Execution’, Domenico Starnone. Terceiro Starnone que leio, terceiro muito bom (ainda que inferior a ‘Laços’ e ‘Assombrações’). Este é o melhor trecho.

‘Os Enamoramentos’ e ‘Assim Começa o Mal’, Javier Marías. Marías ainda vai ganhar um Nobel, podem anotar. Acho que ‘Assim Começa o Mal’ é o melhor romance contemporâneo que li este ano.

‘Anna Karenina’, Leo Tolstoy, ‘Great Expectations’, Charles Dickens e ‘Herzog’, Saul Bellow. Esses caras não entraram pra história por acaso.

‘The Year of the Hare’, Arto Paasilinna. “Um jornalista solitário e uma lebre do barulho vão aprontar altas confusões”, diria a chamada da Sessão da Tarde.

‘Conversation with Friends’, Sally Rooney. Ninguém escreveu recentemente tão bem sobre
enroscos amorosos quanto Sally Rooney. Também li ‘Normal People’, que não me empolgou tanto.

‘Bluebeard’, Kurt Vonnegut. Vonnegut é diversão garantida, sempre.

‘A Honra Perdida de Katharina Blum’, Henrich Böll. Bela redescoberta da Carambaia, uma porradaça em tabloides sensacionalistas.


Não-ficção:

‘Red Notice: A True Story of High Finance, Murder, and One Man’s Fight for Justice’, Bill Browder. “Russian stories never have happy endings.”

‘Do Rock ao Clássico – Cem Crônicas Afetivas sobre Música’, Arthur Dapieve. Legal acompanhar a trajetória de ouvinte de um cara com bom gosto (leia: parecido com o meu), do punk ao jazz ao erudito.

‘Vozes de Tchernóbil’, Svetlana Alexeievich. A série da HBO é ótima e, provavelmente, deve muito a esta grande obra.

‘Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X’, Malu Gaspar. Ótimo relembrar as loucuras que o mercado já comprou como “revolucionárias”.


‘The Monk of Mokha’, Dave Eggers. Você vai devorando e, quando se deu conta, aprendeu um monte sobre café, San Francisco, empreendedorismo e o Iêmen.

‘China’s Economy: What Everyone Needs to Know’, Arthur Kroeber. Ótimo para quem não sabe nada sobre o assunto (era o meu caso).

‘The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion’, Jonathan Haidt. De onde vêm as preferências políticas, e porque temos muito menos controle sobre elas do que imaginamos.


Quadrinhos:

‘Melody: Story of a Nude Dancer”, Sylvie Rancourt. Desenhos quase infantis funcionando muito bem para contar a história de uma stripper.

‘Blackbird Days’, Manuele Fior e ‘Fun”, Paolo Bacilieri. Duas grandes graphic novels italianas – os desenhos de ‘Blackbird Days’ são um desbunde.

‘Pyongyang: A Journey in North Korea’, Guy Delisle. Aprenda que há uma indústria de animação na Coreia do Norte e tantas outras coisas.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Os livros de 2018

Este blog está convergindo para uma publicação anual, justamente esta. Aqui o que li de interessante em 2018, em nenhuma ordem particular (a amostra toda está no Goodreads).

Ficção:

'Dias de Abandono', Elena Ferrante. Recomendo muitíssimo ler seguido de 'Laços', do Starnone, o suposto marido da grande dama. Este artigo explora a conexão.

'Pachinko', Min Jin Lee. Novelaça que segue três gerações de uma família coreana que fugiu para o Japão. Talvez o livro que mais gostei de ter lido este ano.

'Nocturnes: Five Stories of Music and Nightfall', Kazuo Ishiguro. Cinco contos que têm música como tema de fundo, bons pra aquecer o coração.

'It Can't Happen Here', Sinclair Lewis. Livraço de história alternativa, escrito no calor da ascendência do nazifascismo.

'Pssica', Edyr Augusto. Policial amazônico em ritmo alucinante, pra ler em uma sentada e ficar pensando numa adaptação porreta pra cinema.

'Total Chaos', Jean-Claude Izzo. Grande hino de amor a Marselha em forma de romance policial.

'Ruins', Peter Kuper. HQ lindíssima, vai fazer você querer marcar as próximas férias para conhecer Oaxaca.

'4 3 2 1', Paul Auster. Leitura muito mais rápida e prazerosa que o tamanho sugere.

'Feast Days', Ian MacKenzie. Uma história de expatriados em São Paulo durante os dias estranhos de 2013-14.
"A gauze of pale light stretched around buildings after the rain. It was a city of liquor bottles, soccer matches, cheap motorcycles, boys in the road, businessmen. Sometimes it was beautiful."
'Trick', Domenico Starnone. Um degrau abaixo de 'Laços', mas ainda grande.

'Órfãos do Eldorado', Milton Hatoum. Outra história amazônica pra ler em uma sentada.

Não-Ficção:

'Democracy for Realists: Why Elections Do Not Produce Responsive Government', Christopher H. Achen e Larry Bartels. As virtudes da democracia não incluem premiar bons governos, e o acaso (sempre ele) tem papel no resultado de eleições maior do que se costuma supor.

'Holidays in Hell', P.J. O'Rourke. Da época em que chamar um lugar de 'shithole' não causava uma crise diplomática.

'Microeconomics: a Very Short Introduction', Avinash K. Dixit. Dixit é um dos grandes didatas da ciência lúgubre.

'Other People's Trades', Primo Levi. Levi também foi um grande cronista, além de tudo mais.

'História da Riqueza no Brasil', Jorge Caldeira. Muito concentrado no pré-república, mas grande referência.

'Factfulness', Hans Rosling. O último legado do grande Rosling, que nos deixou em 2017. Deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso de introdução ao desenvolvimento internacional.

'País Mal Educado: por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras?', Daniel Barros e 'São Paulo nas Alturas', Raul Juste Lores. Dois livros brasileiros não-técnicos de história/assuntos correntes à altura do que é feito de melhor fora daqui.

'Jorge Amado: Uma Biografia', Josélia Aguiar. Biografia à altura do enorme personagem.

'Playing Changes: Jazz for the New Century', Nate Chinen. O jazz está em uma das melhores fases da história, não é difícil se convencer.

Infantil:

'Islandborn', Junot Díaz e Leo Espinosa. História linda sobre identidade e imigração.



Um ótimo 2019 a todos e um muito obrigado para a turma do clube do livro mensal, com quem tive o grande prazer de compartilhar e discutir boa parte desssas leituras (não teria chegado a muitas delas sem as recomendações do grupo). Participar de um grupo de leitura é das coisas mais legais que descobri nos últimos tempos, recomendo muito.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Quando o acaso atropela talento e esforço

Do alto da minha arrogância de vestibulando de engenharia (17 anos, inteligentinho, estudando 8 horas por dia em um bom cursinho), eu ficava irritado quando, antes de alguma prova, alguém me desejava "boa sorte". Ora, na minha mente adolescente, todo o meu preparo e dedicação eliminavam qualquer papel do acaso, e o resultado do vestibular estava dado dias antes de eu sentar para fazer a prova, pela soma do tempo gasto na preparação. Sorte era pra quem não tinha estudado direito, obrigado.

Hoje, 20 anos depois, considero um indicador claro de amadurecimento perceber que quem estava certo memo era Nelson Rodrigues – que, além de aconselhar escrotinhos de 17 anos a envelhecer, dizia que "sem sorte não se chupa nem um Chicabon. Você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha." Meritocracia só opera (quando opera) depois que uma série de possíveis azares, de difícil ou nenhum controle, são superados. Cada história de sucesso é um pequeno milagre probabilístico. Ou, como gosta de dizer um amigo, de forma mais eloquente e elegante, "o acaso é foda."

Em um livrinho que mistura histórias pessoais, estatística e propostas de reforma tributária, Robert H. Frank, professor de Cornell, propõe um experimento computacional relativamente simples (pode ser replicado no Excel, por exemplo): pegue 1.000 (ou 10.000, ou 100.000) pessoas, definidas por três atributos, distribuídos aleatoriamente pela amostra: habilidade, esforço e sorte. Cada atributo tem uma pontuação, de 0 a 100. Dê pesos iguais para habilidade e esforço, e atribua o restante – um peso relativamente pequeno, de 1% a 20% – à sorte. Use a composição desses atributos para definir o único vencedor de mil de torneios entre essas pessoas, e observe com qual frequência o resultado desvia da maior soma de habilidade e esforço – ou seja, quantas vezes o competidor mais habilidoso e esforçado deixa de vencer. Algum chute?


O produto de uma simulação está no gráfico acima. A direção dos resultados é intuitiva: quanto maior o peso da sorte, maior a probabilidade do vencedor não ser o que tem a melhor combinação de habilidade e esforço. E, dentro do mesmo nível de sorte, quanto maior a amostra, maior o peso da sorte – maior a probabilidade de um embate entre dois competidores com níveis equivalentes de habilidade + esforço ser decidida pela sorte. O que surpreende é quão frequente a parada é resolvida pelo acaso: em torneios com 100.000 participantes, em pelo menos 68% dos casos o vencedor não será o mais habilidoso/esforçado. Essa proporção sobe para mais de 90% quando a sorte determina apenas 10% do resultado na maior amostra testada. 

Mais recentemente, três pesquisadores italianos (dois físicos e um economista), partindo de uma ideia semelhante, propuseram um modelo ainda mais sofisticado e realista: para uma população de 1.000 pessoas dotadas de 10 unidades, distribuídas aleatoriamente (seguindo uma normal), de "talento", simularam uma carreira de 40 anos. A cada seis meses, cada pessoa é exposta, também aleatoriamente, a eventos de sorte ou azar, que, respectivamente, dobram ou reduzem pela metade, como proporção ao talento, uma medida de sucesso (também configurada inicialmente com 10 unidades). 


Passados os 40 anos, eis os resultados: primeiro, a distribuição de sucesso deixa de ser normal (concentrada em torno da média e com poucos resultados muito divergentes) e passa a seguir uma lei de Pareto, com alta desigualdade (ver a figura abaixo). Menos de metade da população termina com mais que os 10 "sucessos" iniciais, e os 20 indivíduos mais bem-sucedidos concentram 44% do sucesso total. Segundo, como nas simulações de Frank, raramente os mais talentosos terminam melhor. O acaso atropela as condições iniciais com frequência.

Pluchino, Biondo e Rapisarda ainda fazem outros simulações para avaliar a eficiência de diversas estratégias de financiamento e a influência do ambiente em termos de oportunidades para os indivíduos, também com resultados interessantes, mas não quero me alongar (mais) aqui. Minha conclusão é que, sobretudo em ambientes complexos e altamente competitivos, onde muitas pessoas qualificadas disputam algo, devemos aplicar uma alta dose de compaixão. A diferença entre quem é lembrado e quem é esquecido e deixado para trás pode ser nada mais que um atraso por conta do trânsito, uma dor de estômago, uma briga com o marido, uma chuva que fez um avião não decolar na hora esperada, uma folha de respostas de vestibular perdida num assalto.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Os livros de 2017

É aquela época do ano de novo. Aqui o que andei lendo de bom (em nenhuma ordem particular):

Ficção

‘Sweet Tooth’, Ian McEwan. A Guerra Fria encontra a literatura na Inglaterra dos anos 1970. Ainda estou pra ler um livro ruim do McEwan.

‘El Aleph’, Jorge Luis Borges. Tem El Zahir, El Aleph e mais alguns outros contos pra você ler em 20 minutos e seguir pensando neles por 20 anos.

‘The Plot Against America’, Philip Roth. É ótimo e tem todas aquelas analogias com a eleição do Trump que você está cansado de ouvir.

‘Afirma Pereira’, Antonio Tabucchi. Obra-prima de concisão e erudição, a briga solitária de um jornalista contra o fascismo português.

‘Os Cus de Judas’, António Lobo Antunes. Mais sobre a vida sob o salazarismo, aqui do ponto de vista de um médico dado a digressões longas e originais trabalhando em Angola durante a guerra colonial.

‘O Homem que Amava os Cachorros’, Leonardo Padura. Grande romance histórico e crítica devastadora ao stalinismo.

‘Half of a Yellow Sun’, Chimamanda Ngozi Adichie. Novelona (no melhor dos sentidos) ambientada na Guerra de Biafra. Não perca tempo com o filme, ruinzinho, ruinzinho. (Acabei de descobrir que essa guerra parou pra um amistoso do Santos de Pelé contra uma tal Seleção do Meio Oeste, história fantástica.)

‘Bone’, Yrsa Daley-Ward. Poesia para a minha geração (que não gosta muito de poesia, acho).

‘Laços’, Domenico Starnone. Não há uma linha desperdiçada nessa grande pequena novela. Junto com o Lobo Antunes, foi o que mais gostei de ler no ano.


Não-ficção

‘Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies’, Jared Diamond. Uma busca original e erudita pela causa-raiz do desenvolvimento econômico. O tamanho intimida, mas é uma leitura fluente e prazerosa.

‘A Ditadura Acabada’, Elio Gaspari. Esperado último livro da série, é generoso demais com o governo no desastre econômico do fim do “milagre”, mas vale a leitura.

‘A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo’, Paulo Francis. Sempre divertido rever os chutes e acertos de um dos nossos maiores tudólogos.

‘Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals’, John Gray. Pra ler na praia, num dia de sol, com um mojito na mão (em qualquer outra situação pode levar à depressão e pensamentos suicidas, epa, peraí, por que você está entrando no mar com uma bigorna amarrada no tornozelo?).

‘Traffic: Why We Drive the Way We Do’, Tom Vanderbilt. Enorme e bem-sucedido esforço para apresentar de forma atrativa os resultados de décadas de pesquisa acadêmica sobre um assunto que tanto nos afeta.

‘Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados’, Jairo Nicolau. Manual claríssimo e bem-escrito para entender os desdobramentos do voto proporcional no Brasil. Merecia uma edição atualizada em 2018 incorporando as mudanças da última rodada de reforma política.

‘Pavões Misteriosos – 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil”, André Barcinski. As histórias e personagens, famosos e anônimos, de um período de grande criatividade e cara de pau da brilhante música feita por aqui.

‘Better Presentations: A Guide for Scholars, Researchers, and Wonks’, Jonathan Schwabish.
Excelente para quem, como eu, gasta um tempo inconfessável trabalhando com o PowerPoint e apresentando material técnico.

‘Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy’, Tim Harford. Harford é quem melhor leva Economia às massas, segue em grande forma.

‘China Airborne’, James Fallows. A indústria aeronáutica chinesa como ponto de partida para falar sobre desenvolvimento, instituições e, claro, o maior dos “grandes enriquecimentos” da história.

‘1988: Segredos da Constituinte’, Luiz Maklouf Carvalho. Ainda quero ler uma narrativa bem contada da constituinte, mas esse livro de entrevistas é muito informativo e divertido.

'Os Pecados Secretos da Economia', Deirdre McCloskey. A edição ficou linda e a tradução é ótima, até compensam a picaretagem do cara que fez as notas.


Quadrinhos

‘Trinity: A Graphic History of the First Atomic Bomb’, Jonathan Fetter-Vorm. Como diz o título, uma história ilustrada do Projeto Manhattan, com vários diálogos históricos reproduzidos.

 ‘Marbles: Mania, Depression, Michelangelo, and Me’, Ellen Forney. Um relato instrutivo, honesto  e sensível sobre a relação entre transtorno bipolar e arte.

 ‘O Árabe do Futuro 3 – Uma Juventude no Oriente Médio (1985-1987)’, Riad Sattouf. Presença frequente por aqui, a série continua ótima.

Outros

‘This Book Is a Planetarium… And Other Extraordinary Pop-Up Contraptions’, Kelli Anderson. Presente de Natal para a pessoa mais curiosa e inteligente da casa (o pequeno Drunk Jr., claro).



Um ótimo final de ano e um 2018 ainda melhor para todos!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Livros de 2016

Olhando a lista do que li neste ano fiquei com a impressão que, tal qual o autor do maior trote telefônico da história, perdi muito tempo com bobagens – logo, a meta literária para o ano que vem está evidente. O que dá pra recomendar (sem nenhuma ordem particular):

Economia, mercados & afins:


  • ‘The Second Machine Age’, Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson. Possivelmente o melhor guia – sem (muito) deslumbre ou catastrofismo – para como o refinamento de algumas tecnologias que já utilizamos hoje vai mudar nossas vidas e a estrutura do mercado de trabalho.
  • ‘How Does My Country Grow’, Brian Pinto. Excelente guia para analisar países do ponto de vista da macroeconomia e um prazer de ler – uma raridade para livros desse tipo. Grande dica do Samuel Pessôa.
  • ‘The Origin of Wealth: Evolution, Complexity, And the Radical Remaking of Economics’, Eric D. Beinhocker. Economia da complexidade é a heterodoxia possível, acho.

Temas menos mundanos:

  • ‘Letters to a Young Contrarian’, Christopher Hitchens. Hitchens irrita como poucos.
  • ‘When the Facts Change: Essays, 1995-2010’, Tony Judt. A raspa do tacho da produção de Judt, melhor do que muitos tachos inteiros por aí.
Quadrinhos:

  • ‘The Fixer and Other Stories’, Joe Sacco. O ‘fixer’ do título é uma alegoria brutal da Guerra da Bósnia e um dos grandes personagens que já apareceram nos quadrinhos.
  • ‘Zahra’s Paradise’, Amir & Khalil. Excelente companhia pro ‘Rosewater’, de Jon Stewart.
  • ‘Bohemians’, vários autores editados por Paul Buhle e David Berger. Coletânea de quadrinhos um pouco irregular, mas raramente desinteressante sobre uma época porreta.
  • ‘Relish: My Life in the Kitchen’, Lucy Knisley. Qualquer um que gosta de comer vai se identificar com essas memórias sentimentais. A receita de carbonara foi testada e aprovada por este sofrível cozinheiro.
Ficção:
  • ‘Três Mulheres de Três PPPês’, Paulo Emílio Sales Gomes. As três mulheres sapateiam nos três PPPês (os narradores) em novelas de alma paulistana (isso é um elogio!). Paulo Emílio teria feito 100 anos em 2016, aqui uma bela homenagem da Cinemateca Brasileira.
  • ‘The Children Act’, Ian McEwan. McEwan consegue dar leveza para temas éticos e morais pesados e humanidade para juízes e advogados (he he he).
  • ‘Bonita Avenue’, Peter Buwalda e ‘The Human Stain’, Philip Roth. Fazendo a lista me dei conta de que esses dois livros têm bastante em comum – Roth é melhor, mas Buwalda também satisfaz.
  • ‘Obra Completa’, Murilo Rubião. Dos contos mais bem escritos e originais da nossa língua.
  • ‘Madame Bovary’, Gustave Flaubert. Precisa justificar?

Tudo que li no ano está no Goodreads. Feliz 2017, caras e caros.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Erros, erros grosseiros e projeções de PIB

Semana passada coloquei a tabelinha abaixo no Twitter, mostrando como a mediana das projeções dos economistas que contribuem com a pesquisa Focus, do Banco Central, costuma errar a projeção do PIB com um ano de antecedência por muito (1,6 ponto percentual, na média do período):


Também semana passada, a Economist publicou uma matéria sobre o mesmo assunto, avaliando o desempenho das projeções feitas pelo FMI. Os resultados também não são muito animadores, como se pode ver no gráfico:


Se projeções e previsões, no geral, erram tão feio, por que ainda há um mercado para elas? Para Tim Harford, projeções são como Pringles: "nobody thinks that there’s any great virtue in them but, offered with the fleeting pleasure of consuming them, we find it hard to resist." Por que? As teorias de Harford:

Possibility one is that the moment we hear a forecast, we imagine it happening. It then becomes a believable outcome and one that is easy to call to mind in the future. The scenario that we imagine looms large in our minds; other scenarios, equally plausible, fade to the background. As a result, we can be sceptical of forecasts in general yet still hooked by a particular one. 
(...) 
Possibility two is that forecasts offer us a lazy way to understand a complex world. The background to the conflict in Syria is complicated. So is Chinese politics. So, too, is the evolution of the Japanese economy. Trying to understand what is going on in any of these places requires an investment of time and attention that most of us are not willing to make. Wise heads at this newspaper could explain the intricacies to you or to me for hours yet barely have begun to do the topic justice.

Sobre o assunto, ainda quero ler o Superforecasting, sobre o Good Judgment Project.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os Livros de 2015

Porque pelo menos espasmos anuais são precisos pra não declarar o óbito do blog. O que li de bom neste longo ano:

Economia, mercados & afins:

How to be Human, Though an Economist”, Deirdre McCloskey. Coletânea de textos curtos; funciona como se você, economista, tivesse uma tia mais velha cheia de manias e implicâncias que, por acaso, é uma brilhante economista e gosta de dar palpites sobre a vida, carreira e o que ler e não ler. De lá saiu a recomendação do ótimo “The Educated Imagination” (abaixo), entre muitas outras.

The Plundered Planet”, Paul Collier. Melhor livro que li para o curso do Francisco Monaldi. Muito bom para entender como funciona e como deveria funcionar a exploração de commodities.

The Drunkard’s Walk”, Leonard Mlodinow. Ótimo como breve história do estudo da probabilidade e para mostrar como subestimamos o papel do acaso (nesta linha, meu favorito continua sendo o “Fooled by Randomness”—desculpa aí, Samer).

Seeing Like a State”, James Scott. Devia ser leitura obrigatória no primeiro semestre de qualquer mestrado em administração ou política pública. O inferno e os governos estão cheios de boas intenções que fizeram água. Se um dia eu estiver com esse livro e encontrar o Jeffrey Sachs (calculem aí a probabilidade), dou-lhe uma boa livrada.

Micromotives and Macrobehavior”, Thomas Schelling. Ler Schelling é acompanhar o raciocínio de alguém com uns 100 pontos a mais de QI que você, mas que se dá ao trabalho de explicar o que está pensando de forma cristalina para os mortais. Se esse livro fosse lançado hoje, viria com um site para visualizar os modelos dinâmicos, algo que fica meio maçante no papel.

Economic Rules”, Dani Rodrik. Economia como uma coleção de modelos, ou uma defesa sutil e apaixonada do nosso ofício lúgubre.

Por Que o Brasil Cresce Pouco?”, Marcos Mendes. Ainda que a tese principal (que a combinação de democracia e alta desigualdade gera um ambiente que retarda o crescimento) ainda precise de refinamento e evidências mais robustas, é um trabalho de grande fôlego, certamente referência para um assunto de extrema importância.


Temas menos mundanos:

Cinquenta Anos Esta Noite”, José Serra. Serra é um dos Forrest Gumps da nossa política, e tem a mão surpreendentemente leve nessa biografia que merece continuações até os dias de hoje.

My Struggle: Book 1”, Karl Ove Knausgaard. Tem um monte de motivos pra não se gostar desse livro, mas pra mim vale pelos conflitos pais x filhos. Em breve encaro o segundo volume, que dizem ser melhor.

The Educated Imagination”, Northrop Frye. Indicado pela tia McCloskey, sobre a importância de estudar e conhecer literatura, além de só ir acumulando livros lidos. Me fez querer ler a Bíblia de cabo a rabo.

Ainda Estou Aqui”, Marcelo Rubens Paiva. “Feliz Ano Velho” é “o” livro da minha
adolescência; este serve como uma continuação daquela história e um documento de um caso bárbaro, covarde e completamente impune de tortura por conta dos nossos militares. E, claro, é um belo tributo à mãe do autor.

Ficção:

The Story of a New Name”, “Those Who Leave and Those Who Stay” e “The Story of the Lost Child”, Elena Ferrante. As Novelas Napolitanas de Ferrante são o equivalente literário àquelas séries de 12 horas que você devora em menos de uma semana. 1.600 páginas que voam, não sem deixar um rastro de emoções e identificação.

Red Plenty”, Francis Spufford. Um dos livros favoritos da Diane Coyle, mistura realidade e fantasia durante o auge e o começo da decadência do socialismo soviético. Um dos personagens é Leonid Kantorovich, Nobel de Economia de 1975.

O Estrangeiro”, Albert Camus. Não, nunca tinha lido. Estou curioso para ler o recente “The Meursault Investigation”, a história contada pelo irmão do árabe morto.

Barba Ensopada de Sangue”, Daniel Galera. História boa e bem escrita, precisa mais do quê?

A Chave Estrela”, Primo Levi. Levi é dos meus autores favoritos. Se quiser dar um belo presente de Natal para um amigo economista, bêbado e protokeynesiano, acabou de sair, nos EUA, uma edição lindona das obras completas dele.

The Goldfinch”, Donna Tartt. Perde quando desanda pra thriller e podia ter umas 200 páginas a menos, mas ainda muito bom. Vai virar filme, supostamente.

Slaughterhouse-Five”, Kurt Vonnegut. So it goes.

Submissão”, Michel Houllebecq. Na verdade não gostei—tenho pouca paciência para as picuinhas da academia francesa—mas, estranhamente, fiquei com vontade de reler.


Quadrinhos:

O Árabe do Futuro”, Riad Sattouf. Ótima narrativa de uma infância vivida entre França, Líbia (quando ainda havia esperança com Gaddafi) e Síria (quando ainda havia Síria). Vai ter continuação.



Uma Metamorfose Iraniana”, Maya Neyestani. Parece uma versão real e ainda mais cruel do ótimo “A Brincadeira”, do Milan Kundera. Lindamente desenhado.

Vida de Prástico”, Ricardo Coimbra. Coimbra é dos melhores herdeiros do esculacho de Angeli & companhia.


Tudo que li em 2015 está no Goodreads. Minha meta literária pro ano que vem é ler pelo menos um clássico por mês. Feliz Natal, caros leitores!