sexta-feira, 9 de abril de 2010

China e as impressões dos turistas financeiros

O ex-ministro e gestor de fundos Luiz Carlos Mendonça de Barros esteve na China. Sua conclusão (está na Folha de hoje, para quem não é assinante, deve estar em breve no site da Quest)?

"Ainda bem que a economia brasileira está ligada de forma muito forte ao desenvolvimento chinês. Essa vai ser uma das fontes mais importantes para nosso crescimento econômico na próxima década."

Hugh Hendry, do fundo britânico Eclectica, também esteve na China. As impressões dele estão no vídeo abaixo, que virou um cult no mercado financeiro:



Eu acho que a lógica de investir na China e em tudo ligado à sua história de crescimento é um pouco parecida com a do subprime americano (estou terminando o livro de Michael Lewis sobre o assunto, The Big Short. Mais em breve aqui.): tudo vai bem enquanto o país consegue crescer a taxas perto de 10% ao ano. Um espirro, e um monte de casos aparentemente brilhantes começam a fazer água. O Brasil tem que achar sua própria trilha de desenvolvimento, e estar preparado para um mundo menos sedento por commodities. Colar na China não me parece uma boa alternativa.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Proposta para o fim da tragédia grega

Mais alguém acha que a dracma está prestes a reaparecer: John Taylor, do FX Concepts, o maior fundo de moedas do mundo:

"At this point, the best way out for Greece is very clear. Greece should pull out of the euro this weekend, issue new drachma notes as soon as possible, and let the lawyers clean up the mess. If I were running Portugal, Italy, or Spain I would do the same thing – the first one out is the winner. "

Talvez quem estiver planejando visitar as ilhas gregas neste verão vai ter uma boa surpresa quando pagar a fatura...

Grupo Bertin forma consórcio para Belo Monte

Está no Valor de hoje. Cada país tem o chaebol que merece.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Copa, cerveja e previsões

Já que sabemos que previsões do futuro têm pouco valor, melhor usá-las para algo divertido, não? O blog do FT traz um estudo feito pela empresa de pesquisa americana Sanford Bernstein tentando estimar o aumento do consumo de cerveja nos países que sediam a Copa do Mundo (1,8%, na média, para quem interessar). Melhor ainda, com base nas casas de apostas, eles apontam que a final da Copa será jogada entre Espanha e Brasil, com a Espanha levando a taça inédita (pfffffffff...). Inglaterra e Argentina seriam os outros semifinalistas. Faltam 55 dias!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Novo blog (de respeito) na praça

Martin Wolf, do Financial Times.

Isla Presidencial - segundo episódio

O fantástico Lost dos presidentes latinoamericanos, no El Chigüire Bipolar. Lá tem o link para o primeiro episódio, para quem não viu.

Real contra a rapa

Um leitor comentou no post abaixo e me motivou a escrever sobre a confusão que é comparar a valorização do real contra a desvalorização das outras moedas. Os dois movimentos são paralelos.
Para começar, o dólar americano vem numa tendência de desvalorização que já dura mais de oito anos (desde o final de janeiro de 2002). O DXY é um índice amplamente usado (e negociável) que mede a taxa de câmbio do dólar contra outras seis moedas (euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço):

Comparando o real com outras moedas nesse período, vemos que a moeda brasileira não foi das que mais se fortaleceu (todas as barras verdes indicam valorizações maiores que o real). Entretanto, contra o dólar o ganho foi expressivo (quase 27%):

Para pegarmos um período mais recente: o DXY fez uma mínima histórica em abril de 2008, que foi seguida por uma correção relativamente forte, seguida de uma nova desvalorização. Desde o pico dessa correção, em março de 2009, a mesma comparação do real com outras moedas é a seguinte:



Esse é um período de "todo-poderoso real", e onde está boa parte da valorização contra o euro.
Conclusão? Da minha parte, nenhuma relevante. Fortes mesmo estão os dólares australiano e neo-zelandês, além do rand sul-africano. O ganho em termos de troca dos produtores de commodities tem sido brutal, e esse é o mundo em que vivemos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mudar, não podemos

Deve haver algo errado quando uma das candidatas à presidência que, em teoria, mais clama por mudança, defende o "tripé de política econômica".

No UOL:

Marina Silva diz que manterá política econômica caso seja eleita

Da série: "nunca na história deste país"

Considerando que a "história deste país" começa com a posse de Luiz Inacius Lula Maximus, nunca o euro foi tão barato em reais. Primavera em Paris, alguém?


O estado da pesquisa acadêmica sobre política monetária

Um capítulo sobre política monetária (escrito por dois pesquisadores de Harvard) de um novo manual de economia monetária , publicado como paper pelo NBER, começa dizendo que qualquer texto sobre o assunto escrito antes de 2008 teria concluído que (tradução livre minha):

1) Política monetária é melhor quando deixada para bancos centrais independentes, longe de políticos e do tesouro;

2) Bancos centrais devem seguir uma meta de inflação (explícita ou implícita);

3) A combinação de bancos centrais independentes e política de metas de inflação levou à "grande moderação" e à solução para o problema da inflação;

4) Políticos muitas vezes usam os bancos centrais como bodes expiatórios, mas, na prática, tiveram pouco espaço para influenciar os rumos da política monetária (nos países da OECD);

5) A experiência do Euro foi, no geral, positiva, mas ainda não passou por um teste num período de recessão.

O confronto da literatura que levou a esse consenso teórico com a realidade da crise de 2007-2009 levou à seguinte conclusão:

"... o capítulo levantou mais questões do que forneceu respostas. É razoável dizer que na época em que isto foi escrito nós ainda não havíamos digerido as implicações da crise para a condução da política monetária e suas instituições. Provavelmente o próximo manual de economia monetária em uma década trará todas as soluções. Agora que esclarecemos alguma das questões, precisamos começar a procurar respostas."

Se essa conclusão parece desanimadora, pelo menos dá o primeiro passo na direção da resolução de um problema: a consciência de que ele existe.

O Dia do Fico de Meirelles

(este texto estava pronto para ser publicado na quinta-feira; infelizmente o nosso venerável presidente do Banco Central resolveu tornar pública decisão tão importante para nossa sociedade e para a "racionalidade econômica" depois que eu já estava em ritmo de Páscoa.)

Seu Henrique Meirelles achava que o prestígio conquistado por "conduzir o país com maestria durante um período de inédita turbulência" (claro que discordo dessa afirmação tão propagada por aí, mas esse é tema para outras discussões) teria lhe garantido a opção de escolher, ao seu bel-prazer, entre ser o vice-presidente de dona Dilma, candidato ao senado por Goiás, executivo à procura de emprego no mercado financeiro ou criador de orquídeas e outras plantas ornamentais. Nos últimos meses, ele deve ter descoberto que política é uma atividade bem pouco cartesiana, e que exige um tipo de ego bastante diferente daquele de banqueiros centrais. Por isso, veremos Meirelles terminar seu mandato gloriosamente, de mãos dadas com Lula, seu quase fiel apoiador (diz Luiz Gonzaga Belluzzo que chegou a recusar um convite do Nosso Guia para assumir o Banco Central enquanto Meirelles estava lá), e como um dos poucos ministros que conseguiram sobreviver a oito anos do governo do PT.

O Banco Central que Meirelles comandará até o final deste ano é muito diferente do padrão com o qual o mercado se acostumou desde 2003. Se antes pelo menos metade da diretoria era composta por profissionais ligados ao mercado financeiro ou à PUC-RJ (quase sinônimos, ultimamente), gente de pensamento "ortodoxo" e relativamente previsível, agora a maior parte do Comitê de Política Monetária é formada por burocratas de carreira, muitos anteriormente ligados ao Ministério da Fazenda, e, leitura quase consensual, mais "influenciáveis" por fatores políticos.

Minha opinião, um pouco iconoclasta, é que o trabalho do Banco Central do Brasil como perseguidor de uma meta de inflação se assemelha a de um pescador montado numa jangada -- por mais que ele faça um trabalho excelente, muito do seu resultado dependerá de fatores aleatórios (como a maré e o tempo), e ele pode ser varrido por um tsunami ou por um transatlântico passando por perto. Dessa forma, acho que faz pouca diferença para 99,9% da população (ou seja, os que não operam diariamente no mercado de juros) o que a nova diretoria vai fazer com os juros de um dia. Passo mais importante, talvez, será dado no ano que vem, com presidente e idéias novas quanto à condução da economia. Até lá, podemos esperar as tradicionais discussões sobre a diferença que faz 0,25% de aumento na Selic distribuído ao longo de meses. Durmamos em paz e tomemos cuidado com o que realmente importa, os tsunamis e transatlânticos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Bilionários dos hedge funds, classe de 2009



Conheça David Tepper, o homem que acertou em cheio que o governo americano não deixaria os bancos quebrarem, e seus colegas que ficaram alguns bilhões mais ricos no ano passado.

Obama: "estamos vivendo além de nossas possibilidades"

Depois da grande vitória na aprovação do novo sistema de saúde americano, Barack Obama parece de fato resolvido a enfrentar os problemas do país. No tradicional pronunciamento pré-Páscoa, Obama disse que o povo americano precisa reconhecer que a riqueza dos últimos anos foi "irreal", e que os trabalhadores atuais não devem sustentar seus padrões de vida às custas das próximas gerações. O presidente também disse que o governo não ajudará empresas com problemas durante os próximos anos, e que os bancos devem se preparar para uma normalização dos juros "em breve".

Vale conferir o discurso, aqui.