Há não muito tempo, o mercado chegou a acreditar que era quase indiferente carregar dívida da Grécia ou da Holanda, já que, no vencimento, ambos os tesouros nacionais retornariam o principal para o investidor em euros, com baixo risco de calote. Hoje o consenso é que há um risco grande de, em muitos casos, o principal não ser devolvido na totalidade ou ser pago nas antigas moedas nacionais, e isso se reflete nos juros pagos pelos títulos da dívida. A era do fim do risco soberano durou pouco: atualmente, na mesma moeda, você pode receber 1.8% ao ano confiando na solidez da Alemanha ou levar 28.4% ao ano em possíveis dracmas futuras.
É interessante ver que os títulos emitidos pelo fundo de estabilização (EFSF) encontraram mercado a taxas acima das de diversos membros do euro. E que os juros pagos pela França, após a forte alta de hoje (0.27 p.b.), operam a uma taxa quase duas vezes maior que a da Alemanha. Claramente alguns AAA são mais AAA que os outros.
Os dados são da Bloomberg. Chipre e Estônia também fazem parte da zona do euro, mas não têm títulos com negociação relevante no mercado.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
McHermano
Mais bizarrices dos nossos vizinhos. Há alguns meses, o governo apresentou queixas criminais contra uma consultoria que tentava estimar a inflação real (possivelmente mais de 20% ao ano, contra algo como 9% anunciados pelo instituto oficial, o Indec). E já aparecem vários indícios de que começa a entrar água na "espetacular recuperação" da economia depois do calote de 2001. Creio que esse, no futuro, vai ser dos casos mais evidentes de como a bonança de commodities pode esconder, por muito tempo, péssimas decisões de política econômica (o que indica que a Venezuela tem de fato dos piores governos do mundo, capaz de enfiar o país no buraco mesmo após anos de preços de petróleo altos).
Marcadores:
América Latina,
commodities,
macroeconomia,
política
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Leituras da Semana
Hoje é dia da independência do Camboja.
- Nassim Taleb pede o fim dos bônus para banqueiros.
- Thomas Sargent aceita um convite para se unir ao lado negro.
- Uma rara (e lúcida) perspectiva otimista para a Europa.
- Barry Eichengreen defende que o BCE comece a acelerar as compras de dívida italiana.
- Daniel Kahneman, por Michael Lewis.
- A história da turma que abandonou uma aula de introdução à economia, em Harvard.
- Um bom indicador de desenvolvimento para o Brasil: 14% dos CEOs de grandes empresas são mulheres (contra menos que 5% nos EUA e no Reino Unido). Via Marginal Revolution.
- Os 10 maiores no crédito imobiliário no Brasil.
- Uma ideia digna de Ig Nobel: taxar os países da Europa com desemprego alto.
- Acho que o Niall Ferguson caiu de vez na tentação da supersimplificação, uma pena.
- Andrew Lo, do MIT, resume 21 livros sobre a crise.
- Luigi Zingales, de Chicago, sobre o declínio do ideal meritocrático.
- Mauricio Santoro sobre o fim da era do Bunga-Bunga.
- Para Dani Rodrik, a manufatura é especial.
- Explicando lógica difusa (fuzzy) em uma imagem.
- A turma do Charlie Brown encontra H.P. Lovecraft.
- Kind of Blue, Time Out, The Shape of Jazz to Come, Mingus Ah Um... parece que 1959 foi um ano bom pro jazz.
- Nassim Taleb pede o fim dos bônus para banqueiros.
- Thomas Sargent aceita um convite para se unir ao lado negro.
- Uma rara (e lúcida) perspectiva otimista para a Europa.
- Barry Eichengreen defende que o BCE comece a acelerar as compras de dívida italiana.
- Daniel Kahneman, por Michael Lewis.
- A história da turma que abandonou uma aula de introdução à economia, em Harvard.
- Um bom indicador de desenvolvimento para o Brasil: 14% dos CEOs de grandes empresas são mulheres (contra menos que 5% nos EUA e no Reino Unido). Via Marginal Revolution.
- Os 10 maiores no crédito imobiliário no Brasil.
- Uma ideia digna de Ig Nobel: taxar os países da Europa com desemprego alto.
- Acho que o Niall Ferguson caiu de vez na tentação da supersimplificação, uma pena.
- Andrew Lo, do MIT, resume 21 livros sobre a crise.
- Luigi Zingales, de Chicago, sobre o declínio do ideal meritocrático.
- Mauricio Santoro sobre o fim da era do Bunga-Bunga.
- Para Dani Rodrik, a manufatura é especial.
- Explicando lógica difusa (fuzzy) em uma imagem.
- A turma do Charlie Brown encontra H.P. Lovecraft.
- Kind of Blue, Time Out, The Shape of Jazz to Come, Mingus Ah Um... parece que 1959 foi um ano bom pro jazz.
Marcadores:
academia,
bancos,
bancos centrais,
crise,
desenvolvimento,
Europa,
história,
livros,
mercado financeiro,
mercado imobiliário,
mídia,
Nassim Taleb,
off topic,
política
Gráfico do dia - minério de ferro, soja, real
Ideologias à parte, qualquer história econômica dos anos do PT no poder deveria começar com um gráfico desse tipo. Impressionante também ver que as exportações de soja e minério neste ano, supostamente "ruim", serão uns 50% maiores do que no ano passado - Deus continua sendo brasileiro.
O gráfico é da extensa matéria da última The Economist sobre o petróleo no Brasil, vale a leitura.
O gráfico é da extensa matéria da última The Economist sobre o petróleo no Brasil, vale a leitura.
Marcadores:
Brasil,
câmbio,
comércio exterior,
commodities,
dados,
história,
termos de troca,
The Economist
terça-feira, 8 de novembro de 2011
O táxi de um milhão de dólares
Essa notícia de ontem na Bloomberg é muito ilustrativa do mundo de baixos retornos de investimento em que estamos vivendo (a "nova normal" da PIMCO): o preço de licenças de táxi em Nova York (os medallions) bateu recordes no mês passado - duas licenças foram vendidas por US$ 1 milhão cada. Uma das explicações, não citada na matéria, são os juros mais baixos da história, que fazem com que os valores presentes dos fluxos futuros atinjam valores mais altos (isso também valeria para imóveis, não fosse a bolha). Outro, segundo a Bloomberg, é o interesse de investidores em ativos seguros, capazes de gerar retornos com relativo baixo risco.
O retorno, claro, não é grande coisa: uma licença de táxi gera, segundo a Bloomberg, um lucro de cerca de US$ 2.500 por mês, que corresponde a um retorno de cerca de 3% ao ano sobre o capital - ou 33 longos anos para o investimento se pagar. Para quem não tem US$ 1 milhão disponível, é possível financiar a compra - a 6% ao ano, o que significa todo o tempo do financiamento com um fluxo de caixa bastante negativo. Não anda nada fácil a vida dos poupadores americanos (enquanto isso, por aqui meu pai reclama que há tempos a poupança não dá mais 1% ao MÊS).
Outro dado curioso: Nova York tem uma frota de pouco mais de 13 mil táxis (deve ganhar mais 1.500 a partir de julho do próximo ano). Rio e São Paulo têm, cada uma, algo como 30 mil licenças, e fica para um próximo post lucubrar sobre porque achar um táxi livre no Rio é tão difícil quanto em Nova York (e porque quase nenhum taxista da Zona Sul se dispõe a ir até a Barra) e porque as tarifas em São Paulo são tão caras.
O retorno, claro, não é grande coisa: uma licença de táxi gera, segundo a Bloomberg, um lucro de cerca de US$ 2.500 por mês, que corresponde a um retorno de cerca de 3% ao ano sobre o capital - ou 33 longos anos para o investimento se pagar. Para quem não tem US$ 1 milhão disponível, é possível financiar a compra - a 6% ao ano, o que significa todo o tempo do financiamento com um fluxo de caixa bastante negativo. Não anda nada fácil a vida dos poupadores americanos (enquanto isso, por aqui meu pai reclama que há tempos a poupança não dá mais 1% ao MÊS).
Outro dado curioso: Nova York tem uma frota de pouco mais de 13 mil táxis (deve ganhar mais 1.500 a partir de julho do próximo ano). Rio e São Paulo têm, cada uma, algo como 30 mil licenças, e fica para um próximo post lucubrar sobre porque achar um táxi livre no Rio é tão difícil quanto em Nova York (e porque quase nenhum taxista da Zona Sul se dispõe a ir até a Barra) e porque as tarifas em São Paulo são tão caras.
![]() |
| Baby, you're a rich man... |
Marcadores:
Brasil,
EUA,
finanças pessoais,
renda fixa
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
A humildade de Larry Summers
Eu já sabia que ele tinha seus ataques de prima donna, mas isso parece novo. Da última coluna do Elio Gaspari:
2) Ser chamado para as fotografias em cerimônias importantes.
3) Carro oficial com motorista.
Em 2007, antes de ir para o governo, Summers ganhara US$ 5,2 milhões dando consultoria de um dia por semana a um fundo de investimentos. Ficou sem o carro e, mais tarde, sem o cargo.
A certa altura foi necessário fazer um agrado no professor Larry Summers, o principal assessor econômico do presidente. Summers sentia-se desprestigiado e tinha três pleitos:1) Jogar golfe com Obama.
2) Ser chamado para as fotografias em cerimônias importantes.
3) Carro oficial com motorista.
Em 2007, antes de ir para o governo, Summers ganhara US$ 5,2 milhões dando consultoria de um dia por semana a um fundo de investimentos. Ficou sem o carro e, mais tarde, sem o cargo.
Jornalistas e a crise européia
Eu tinha prometido parar de policiar a cobertura econômica dos jornais, mas está difícil segurar. Mais ainda quando a cobertura é feita por um cara que gosta de bater no peito dizendo que tem 40 anos de carreira (no caso, o Clóvis Rossi) e já viu de tudo (e isso supostamente o qualificou para, hoje em dia, cobrir os grandes encontros de governos e viajar bastante às custas do jornal). Isso implica também que já teve bastante tempo para aprender algo além do superficial sobre os assuntos que cobre. Ainda assim, não raramente ele dá umas escorregadas que seriam imperdoáveis mesmo para um foca com alguma ambição na carreira.
A manchete do caderno Mundo da Folha no sábado foi "G20 adia soluções para crise econômica". Tudo bem o G20 acreditar (ou fingir) que tem soluções para a crise, mas, a essa altura, dar a entender que os caras têm uma solução viável e estão só esperando (sabe-se lá o quê) para agir é algo perigosamente ingênuo (eu sei que, geralmente, não é quem escreve a matéria que coloca o título, mas o tom da matéria é exatamente esse). Em outro texto, seu Rossi diz que Mantega falou em "guerra fiscal" (no lugar de "guerra cambial"), depois de citar o clássico "injeção de dinheiro na veia da economia" - a medicina estaria perdida se as injeções tivessem a eficácia que tiveram os afrouxamentos quantitativos da vida. No domingo, o mesmo autor se meteu a explicar o trading de alta frequência e os dark pools, chamando-os de "cavaleiros da escuridão". Bela retórica, mas não ajuda em nada o entendimento do leitor (pelo menos ele sugeriu uma consulta ao Google, mais por falta de espaço do que por humildade, creio).
Estamos falando de um dos articulistas mais conceituados do maior jornal do Brasil, e aí caímos naquela velha pergunta: por que a cobertura econômica no Brasil é, com nobres exceções, tão precária? Isso deu uma boa discussão no blog do Leonardo Monasterio há um tempo, não tenho muito mais a acrescentar. Outro ponto interessante é tentar imaginar as barbaridades que se fala sobre outros assuntos que não domino, e que passam como verdades. Nisso, pelo menos, a internet faz um grande serviço: é possível ler opiniões de gente que realmente estudou os assuntos, concordando com elas ou não. Além disso, os incentivos para se escrever um blog esporádico me parecem muito menos perversos do que os de um jornal diário. Vida longa aos blogs, portanto (nada como advogar em causa própria).
P.S. O pessoal do G20 não pode alegar ignorância, e diz no comunicado final (também citado na Folha) que "as flutuações nos preços das commodities puseram o crescimento em risco". Ainda bem que é só controlar o mercado de commodities para garantir a volta à trilha do crescimento.
P.P.S. Meu chute é que, agora que um país grande demais para falir começa a preocupar, não vai demorar muito para o Banco Central Europeu (sob nova direção) seguir o mapa desenhado pelo Fed e o Banco da Inglaterra e começar a monetizar dívida em grandes volumes. É o caminho mais fácil, que não envolve grande coordenação entre governos e poderia adiar o problema das dívidas sem passar por um calote. Mais fácil ainda porque pode-se alegar que os casos dos EUA e do Reino Unido foram, até agora, um sucesso: os juros caíram, a inflação não acelerou (ainda, dirão os mais céticos) e uma depressão foi evitada. O custo, que o legado do Bundesbank tentaria evitar, é a depreciação da moeda, mas essa causa parece estar cada vez mais sem defesa.
Charge roubada da The Economist.
A manchete do caderno Mundo da Folha no sábado foi "G20 adia soluções para crise econômica". Tudo bem o G20 acreditar (ou fingir) que tem soluções para a crise, mas, a essa altura, dar a entender que os caras têm uma solução viável e estão só esperando (sabe-se lá o quê) para agir é algo perigosamente ingênuo (eu sei que, geralmente, não é quem escreve a matéria que coloca o título, mas o tom da matéria é exatamente esse). Em outro texto, seu Rossi diz que Mantega falou em "guerra fiscal" (no lugar de "guerra cambial"), depois de citar o clássico "injeção de dinheiro na veia da economia" - a medicina estaria perdida se as injeções tivessem a eficácia que tiveram os afrouxamentos quantitativos da vida. No domingo, o mesmo autor se meteu a explicar o trading de alta frequência e os dark pools, chamando-os de "cavaleiros da escuridão". Bela retórica, mas não ajuda em nada o entendimento do leitor (pelo menos ele sugeriu uma consulta ao Google, mais por falta de espaço do que por humildade, creio).
Estamos falando de um dos articulistas mais conceituados do maior jornal do Brasil, e aí caímos naquela velha pergunta: por que a cobertura econômica no Brasil é, com nobres exceções, tão precária? Isso deu uma boa discussão no blog do Leonardo Monasterio há um tempo, não tenho muito mais a acrescentar. Outro ponto interessante é tentar imaginar as barbaridades que se fala sobre outros assuntos que não domino, e que passam como verdades. Nisso, pelo menos, a internet faz um grande serviço: é possível ler opiniões de gente que realmente estudou os assuntos, concordando com elas ou não. Além disso, os incentivos para se escrever um blog esporádico me parecem muito menos perversos do que os de um jornal diário. Vida longa aos blogs, portanto (nada como advogar em causa própria).
P.S. O pessoal do G20 não pode alegar ignorância, e diz no comunicado final (também citado na Folha) que "as flutuações nos preços das commodities puseram o crescimento em risco". Ainda bem que é só controlar o mercado de commodities para garantir a volta à trilha do crescimento.
P.P.S. Meu chute é que, agora que um país grande demais para falir começa a preocupar, não vai demorar muito para o Banco Central Europeu (sob nova direção) seguir o mapa desenhado pelo Fed e o Banco da Inglaterra e começar a monetizar dívida em grandes volumes. É o caminho mais fácil, que não envolve grande coordenação entre governos e poderia adiar o problema das dívidas sem passar por um calote. Mais fácil ainda porque pode-se alegar que os casos dos EUA e do Reino Unido foram, até agora, um sucesso: os juros caíram, a inflação não acelerou (ainda, dirão os mais céticos) e uma depressão foi evitada. O custo, que o legado do Bundesbank tentaria evitar, é a depreciação da moeda, mas essa causa parece estar cada vez mais sem defesa.
Charge roubada da The Economist.
Marcadores:
bancos centrais,
crise,
Europa,
Fed,
Inglaterra,
mídia,
política
Ocupando Wall Street - o que querem
Depois do ruído inicial, algo bastante sensato do Occupy Wall Street (carta publicada na última The Economist):
Capitalism, or the destruction of it as a system, is not the objective. Rooting out and holding to account the people and or entities that knowingly and wantonly break the law and violate our constitution is the goal. We know who we are fighting for and if our message is not exactly refined yet, it will be. After all, we are only into our second month.
I assure you, if voting worked, we would all be home right now.
Marcadores:
crise,
EUA,
política,
The Economist,
zeitgeist
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Anedota grega do dia
Do Telegraph. O problema de arrecadação por lá é de chorar:
Obrigado ao Zé A. pela dica.
Update: O Patrick (a quem agradeço) achou essa checagem dos números que diz que a história do professor Polemarchakis não é muito mais crível do que os planos de austeridade gregos.
There are more Porsche Cayennes registered in Greece than taxpayers declaring an income of 50,000 euros (£43,800) or more, according to research by Professor Herakles Polemarchakis, former head of the Greek prime minister’s economic department.
Obrigado ao Zé A. pela dica.
Update: O Patrick (a quem agradeço) achou essa checagem dos números que diz que a história do professor Polemarchakis não é muito mais crível do que os planos de austeridade gregos.
Um paper para o dia
Via De Gustibus, uma história econômica da cerveja. Produção da Universidade Católica de Leuven, cidade belga que, não à toa, é o berço da Stella Artois e atual sede da AB InBev. Saúde!
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Frase do dia - ofendidos por trens rápidos
People who don't want high-speed rail are not just indifferent to fast trains. They are offended by fast trains, as the New York Post is offended by bike lanes and open-air plazas: these things give too much pleasure to those they hate.
Adam Gopnik, da New Yorker, numa excepcional revisão da literatura recente sobre o suposto declínio dos EUA e do Ocidente.
Assinar:
Postagens (Atom)










