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segunda-feira, 19 de março de 2012

Leituras das últimas semanas

- A matéria de capa da última The Atlantic, que estampou uma foto de Ben Bernanke com o título The Hero. Não canso de me espantar com como o mundo gosta de se iludir pelo acaso (ou por menos que isso).

- Para quem não estava no sistema solar semana passada, o editorial do NY Times do executivo (não alto, como disseram alguns - a empresa tem quase 500 sócios, e ele não era um deles) de saída da Goldman Sachs. A resposta do banco, um editorial opinativo da Bloomberg e a saída de Darth Vader do Império.

- A Apple continua sua competição com a Torre de Babel: a companhia já vale mais que um ano de PIB da Polônia ou da Bélgica; e há quem acredite que em um ano esse valor de mercado chegará bem perto de US$ 1 trilhão.

- A resenha do NY Times para o Why Nations Fail, de Daron Acemoglu e James Robinson (a simpática ilustração aí do lado é de lá). A The Economist não gostou tanto.

- O novo livro de Robert Shiller, sobre o papel de finanças como bem público.

- O Valor sobre a famosa biblioteca de Delfim Netto, que está sendo transferida para a FEA-USP. E você não sabia que existem 10 mil livros só sobre marxismo analítico, aposto.

- Um perfil de Naji Nahas, na Folha.

- Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke revisitam a comparação entre a Grande Depressão e nossos tempos esquisitos. A conclusão é que ainda não há espaço para consolidação fiscal.

- William Easterly não perde o costume de bater de frente com Jeffrey Sachs, e explica como não comandaria o Banco Mundial.

- O Fed agora tem uma conta no twitter. A agenda das aulas de Ben Bernanke sobre a instituição na George Washington University, que começam amanhã e terão transmissão ao vivo pela internet.

- Uma entrevista interessante da Folha sobre a Grécia, com o historiador de Columbia Mark Mazower.

- Longa matéria da Exame com Luis Stuhlberger.

- A vida na Itália não deve estar fácil.

- O (apócrifo) soluço de Winston Churchill e como foi desenhado o mapa do Oriente Médio.

- Martin Scorsese vai mesmo filmar O Lobo de Wall Street. Apesar do título grandiloquente, o livro é sobre um rodapé da história dos mercados (e o personagem, um trombadinha perto dos grandes ladrões que já passaram por lá). Ainda assim, deve dar um filme divertido.

- Mitt Romney ou Senhor Burns?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Som da Sexta - Chico Hamilton

Linda música que aparece meio escondida na trilha do filmaço Elegy, com (ave) Penélope Cruz, Dennis Hopper e Sir Ben Kingsley.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Leituras da ressaca pós-Carnaval

- A Barron's entrevistou Hugh Hendry, que andava sumido. Pérola recolhida: "I am an existentialist. To my mind, the three most important principles when it comes to investing are Albert Camus' principles of ethics: God is dead, life is absurd and there are no rules."

- Dois novos blogs para adicionar à lista de leituras: o flamboyant Xavier Sala-i-Martín, de Columbia e Daron Acemoglu (MIT) / James Robinson (Harvard), que lançam no mês que vem o esperado Why Nations Fail. O livro se propõe a responder a pergunta de vários milhões de dólares do desenvolvimento (meu chute é que é mais fácil determinar porque países dão errado do que conseguir identificar o que leva ao sucesso).

- Timothy Garton Ash defende a busca de uma estratégia de crescimento para a Grécia, não tenho como concordar mais. No Kathimerini, uma defesa do euro; na The Economist, ex-banqueiros centrais da Argentina e do México dizem porque acham que a Grécia não deve sair da moeda única.

- Christina Romer, ex-conselheira econômica de Obama, indica quatro livros sobre a Grande Depressão.

- Simon Wren-Lewis, de Oxford, sobre a polarização da macroeconomia após a crise.

- Eduardo de Carvalho Andrade, do Insper, explicando porque não existe milagre no crescimento chinês (e porque árvores não crescem até o céu).

- Duas boas análises do Nomura: Richard Koo argumenta que os banqueiros centrais e políticos ainda não entenderam a natureza da crise e insistem apenas no estímulo monetário; Bob Janjuah segue preocupado e afirma que os preços da onça de ouro (hoje em US$ 1.780) e do índice Dow Jones (13.000) vão se encontrar nos próximos anos.

- Recomendado por Dani Rodrik, texto do NY Times sobre a Apple e os empregos que a China absorveu. Ele argumenta que a produção não segue nenhum critério de vantagem comparativa, mas não vejo como não acreditar que a China possui essa vantagem para quase qualquer atividade que exija trabalho semi-qualificado intensivo.

- Como a internet pode ameçar a serendipity.

- Domingo é dia de Oscar (zzzzzzzzzzzzzz). O Valor fez uma ótima análise do zeitgeist americano pelos filmes indicados. Para os maníacos por dados, doze maneiras criativas de visualizar informações sobre filmes (via Alex Bellos). Quantos Oscar Meryl Streep deveria ter.

- Quanto custaria construir a Estrela da Morte (boa motivação para Dr Evil em um futuro filme da série Austin Powers).

- Kassab também olha para coisas.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os Filmes de 2011


No ano passado, essa mesma lista tinha só 13 filmes (de uma amostra mais ou menos do mesmo tamanho; o critério é o que passou no cinema em São Paulo durante o ano), e não acho que 2011 tenha sido um ano especialmente bom para a arte. A conclusão inevitável é que meus padrões baixaram, e o leitor deve levar isso em consideração. De qualquer maneira, ao longo deste ano gostei de:

- Abutres (Carancho), de Pablo Trapero

Uma ótima história de personagens sombrios e desesperados, bem diferente do que se costuma ver do cinema argentino por aqui. Não estranharia se fosse refilmada em Hollywood.

- Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love), de Glen Ficarra e John Requa

Porque alguma comédia americana tinha que se salvar, e essa tem atores acima da média, bom roteiro e (raridade) não apela para piadas escatológicas fora do contexto. Impressionante também ver a forma da Marisa Tomei, aos 46 anos.

- Balada do Amor e do Ódio (Balada triste de trompeta), de Álex de la Iglesia

Uma comédia de humor estranho, que começa na Guerra Civil Espanhola e termina com cenas que lembram a estética de Underground, do Emir Kusturica (só falta a trilha alucinada de Goran Bregovic).

- Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky

Aronofsky não deixa muito espaço para sutileza e faz um filme sufocante, que tira o melhor da Natalie Portman (depois ela merecia ter o Oscar confiscado por ter feito Sexo Sem Compromisso).

- Contágio (Contagion), de Steven Soderbergh

Grande elenco e direção precisa de Soderbergh. Talvez seja o grande filme americano de 2011, e é muito representativo dos nossos tempos - confiemos no governo, quando as coisas apertam, é quem salva todo mundo (brilhante leitura do David Denby, acho que o melhor crítico de cinema que tenho lido).

- Um Conto Chinês (Un cuento chino), de Sebastián Borensztein

Sim, os malditos argentinos também sabem fazer boas comédias. Quero ver quando o Ricardo Darin se aposentar.

- Em um Mundo Melhor (Hævnen), de Susanne Bier

Acho que Incêndios (abaixo) merecia o Oscar de filme estrangeiro, mas esse filme perturbador sobre grandes temas (paternidade, ódio, caridade) não faz feio com o prêmio.

- O Discurso do Rei (The King's Speech), de Tom Hooper

Talvez não tenha merecido tanta consagração (e Colin Firth estava melhor em Direito de Amar), mas não deixa de ser um bom filme.

- Fora da Lei (Hors-la-loi), de Rachid Bouchareb

Um épico sobre o movimento de independência da Argélia, contado do ponto de vista de três irmãos que são forçados a migrar para a França. Foi muito criticado (justamente) por algum revisionismo histórico; descontado isso, é um filmaço.

- Homens e Deuses (Des hommes et des dieux), de Xavier Beauvois

A história (real) de um monastério trapista na Argélia não precisa ser sonolenta, acreditem.

- Incêndios (Incendies), de Denis Villeneuve

Foi o filme favorito do Tyler Cowen; como disse acima, teria o meu voto para o Oscar de filme estrangeiro. Grande história com a guerra civil do Líbano como pano de fundo.

- Jogos de Poder (Fair Game), de Doug Liman

Das histórias reais que são mais estranhas do que obras de ficção, produto da política externa americana dos anos Bush.

- Margin Call - O Dia Antes do Fim (Margin Call), de J.C. Chandor

Resenhei aqui.

- Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Medianeras), de Gustavo Taretto

Confirmando o comentário de Um Conto Chinês, desta vez na linha da comédia romântica. A história se passa em Buenos Aires, mas poderia ser em São Paulo, Nova York, Paris, Hong Kong...

- Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), de Woody Allen

Algumas notas acima de Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, mantem a impressionante média de produção de Allen e extrai uma boa atuação de Owen Wilson. Não é pouca coisa, acho.

- Minha Terra, África (White Material), de Claire Denis

Pode ser lido como uma versão atualizada e sombria de Entre Dois Amores (Out of Africa). Denis cresceu entre Burkina Faso, Somália, Senegal e Camarões, sabe muito bem do assunto que trata.

- A Minha Versão do Amor (Barney's Version), de Richard J. Lewis

Barney Panofsky (personagem do Paul Giamatti) é um idiota, e por isso me identifiquei com ele (deve acontecer o mesmo, em alguma medida, com homens dos 20 aos 50). E Rosamund Pike, ex-Bond girl, aqui morena, nunca esteve tão bonita.

- Saturno em Oposição (Saturno contro) e O Primeiro Que Disse (Mine vaganti), de Ferzan Özpetek

Até agora gostei muito de todos os filmes que vi de Özpetek, turco radicado na Itália que gosta de filmar belas cidades e amores complicados.

- O Sequestro de um Herói (Rapt), de Lucas Belvaux

Thriller francês impecável e tenso, parte do sequestro de um empresário e vai construindo um retrato pouco simpático de como são geridas as grandes corporações.

- Um Sonho de Amor (Io sono l'amore), de Luca Guadagnino

Tilda Swinton, uma das minhas atrizes preferidas, consegue convencer como uma russa que fala italiano.

- Submarino (Submarine), de Richard Ayoade

Grande sensação cult da Mostra de São Paulo, divertido e despretensioso.

Também recomendável, embora não tenha passado no cinema (passou na HBO): Too Big To Fail, de Curtis Hanson. Falei dele aqui.

Outros filmes da minha amostra (notas de 1 a 5 asteriscos):


A Pele Que Habito *** (acho que o Almodóvar errou a mão pela primeira vez em muito tempo)
A Inquilina *
Além da Vida ***
Amizade Colorida ***
Apenas Uma Noite ***
Biutiful ***
Bruna Surfistinha ***
Caminho da Liberdade **
Cópia Fiel ***
Inverno da Alma ***
Malu de Bicicleta ***
Melancolia ** (gosto muito do Von Trier, minha birra com a Kirsten Dunst deve ter atrapalhado)
Missão Madrinha de Casamento ***
Namorados Para Sempre *** (pegadinha ridícula da distribuidora no Brasil, foi lançado com esse título no fim de semana do dia dos namorados, mas a história é de um relacionamento caindo aos pedaços)
Não Me Abandone Jamais *
O Casamento do meu Ex ***
O Mágico ***
O Vencedor ***
Os Amores Imaginários ***
Professora Sem Classe * (segundo pior do ano)
Que Mais Posso Querer ***
Quero Matar Meu Chefe ***
Reencontrando a Felicidade ***
Rio *** (grande patriotada a crítica local ter gostado tanto)
Se Beber, Não Case! Parte 2 **
Sexo Sem Compromisso * (pior do ano)
Shocking Blue ***
Trabalho Interno *** (critiquei aqui)
Um Dia ***
Um Lugar Qualquer **

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um grande filme sobre a crise e o mercado financeiro: Margin Call

[O texto deve ter alguns spoilers - nada que atrapalhe muito quem ainda não assistiu, mas os mais sensíveis a isso talvez prefiram ver o filme antes de ler.]

David Denby, um dos críticos de cinema da New Yorker, disse que Margin Call é "facilmente o melhor filme já feito sobre Wall Street", afirmação da qual é difícil discordar. O que me leva a essa conclusão é tanto o que o filme mostra (mais adiante) quanto o que não mostra: aqui não têm vez prostitutas de luxo (pelo menos visualmente), cocaína, conspirações, mesas de operações histéricas e dândis de dockside sem meia ostentando relógios de ouro. Os estereótipos dão vez a um realismo cínico que é facilmente identificado por quem já trabalhou no mercado financeiro, e a história e os diálogos são tão bem construídos (claro que o elenco estelar ajuda) que mesmo quem não tem interesse particular pelo assunto vê os 107 minutos passarem com facilidade.

Margin Call acompanha 36 horas infernais na vida de um banco de investimentos americano, envolvido até o último fio de cabelo na bolha imobiliária que estourou nos EUA em 2008. As referências ao Lehman Brothers são óbvias: desde a data escolhida para o lançamento no circuito americano (15 de setembro, exatos três anos depois que o Lehman pediu falência) até o nome do presidente do banco fictício - John Tuld, mudando uma letra pode-se ter o ex-presidente do Lehman (Fuld) ou o Inglês para "pedaço de merda" (turd - não sei se essa sacanagem foi intencional, mas me pareceu evidente). Nesse tempo, um executivo de riscos é demitido e entrega para um de seus funcionários um pen drive (uma das poucas cenas pouco críveis do filme - o segurança do banco que o acompanhava no elevador jamais teria permitido). Nele estão simulações estatísticas que levam à conclusão inevitável de que o banco está muito perto de ir pelo ralo.

A partir daí, toda a hierarquia da companhia é convocada para um comitê apocalíptico. Claro que os altos executivos já haviam sido avisados da situação, mas decidiram, como a esmagadora maioria do mercado, dançar até os últimos acordes da música (imagem criada por um ex-presidente do Citi e usada com muita propriedade no filme). Aí começam as diferenças com a realidade: enquanto o Lehman não conseguiu (ou não quis) tomar as medidas que salvariam o banco, e esperou até a última hora por um comprador ou pela intervenção do governo (essa situação está muito bem ilustrada em outro filme bastante recomendável, Too Big To Fail), o banco de Margin Call é o primeiro no mercado a perceber que a música parou. Levando isso em conta, toma as medidas para salvar a companhia: uma das frases antológicas do presidente John Tuld é "existem três maneiras de sobreviver no negócio: ser o primeiro, ser o mais esperto ou trapacear"; em um dia a equipe da mesa de operações exercita um pouco de cada uma delas e, ao fim desse dia, entendo que o banco estava salvo (creio que quem fez algo mais próximo disso na vida real foi a Goldman Sachs).

Enredo à parte, a galeria de personagens, do analista recém formado até o presidente do banco, passando por traders, executivos de risco e sócios, é riquíssima e completamente sintonizada com a realidade. O elenco, como já disse, é fabuloso: só para ficar nos nomes mais famosos, Jeremy Irons, Kevin Spacey, Paul Bettany, Stanley Tucci, Demi Moore, todos excelentes em seus papéis. A direção e o roteiro, de J.C. Chandor, são muito competentes, mais ainda levando em conta que é o primeiro longa no qual trabalhou. O conjunto é um grande filme sobre os nossos tempos, informativo sem ser exageradamente denso; acima de tudo, entretenimento de grande qualidade, que acho que é dos melhores elogios que podem ser feitos a um filme.

Margin Call estreou em São Paulo semana passada, e, enquanto escrevo, ainda sobrevive em três salas. Não sei se já está disponível nos iTunes e Netflix da vida; se não, deve aparecer em breve.

P.S. Não há nenhuma chamada de margem no filme, apesar do título. E é quase óbvio dizer o quanto é desnecessário o subtítulo aqui no Brasil (O Dia Antes do Fim).