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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

50 tons de vermelho nas crises cambiais

Levou menos de um mês para os mercados de câmbio aprontarem a primeira surpresa de 2014. Se as resposta de alguns bancos centrais – maxidesvalorização na Argentina, choque de juros na Turquia, as “rações” de dólares ao mercado que o BC brasileiro vem fornecendo há algum tempo – lembram algumas grandes crises do passado, o contexto global atual é tão distinto, e as diferenças entre os países tão grandes a ponto de tornar impossível usar a história como mapa para o futuro.

O resto do texto está no Estadão.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Delfim e a guerra cambial

Quando quer, Delfim é dos economistas mais lúcidos deste país. Por vezes, porém, é de um sabujismo que passa por cima de qualquer traço de honestidade intelectual. Hoje, no Valor, pede para os "críticos impertinentes fazerem justiça à retórica do ministro Guido Mantega", já que ele teria se provado correto quanto à "guerra cambial" promovida pelo Fed.

Ora, a guerra cambial não era uma tentativa de desvalorizar a própria moeda e colocar os vizinhos e parceiros comerciais em má situação? Na conveniência de Delfim, a lógica se inverteu: agora o Fed, ameaçando aumentar os juros, provoca desvalorização nas moedas dos emergentes (curiosamente, não no euro, libra, iene, etc). Não sabemos o que queremos, contra quem estamos lutando, de que lado estamos... mas estamos numa "guerra", e precisamos "lutar". A retórica é de propaganda de cerveja em época de Copa, e a tradição brasileira de tentar distribuir a culpa pelos próprios descaminhos econômicos tem um passado glorioso e um futuro promissor, como diria outro dos grandes tecnocratas da história do país.

Adiante, diz Delfim:

"O que os emergentes têm pela frente, portanto, não é um trilema. É um pobre dilema: impor controle à plena liberdade no movimento dos capitais ou entregar sua política monetária ao banco central americano, o Fed! Sua superação precisa de uma ordem internacional inteligente."

O Fed não é o maior BC do mundo desde anteontem, portanto, ou Delfim está certo, ou só é possível ter política monetária independente com controle de capitais (ignoremos os que têm conseguido fazê-lo). De novo, o inimigo está fora, é grande e não há nada que possamos fazer. Talvez a melhor solução seja mesmo alugar o Brasil (nós não vamo pagá nada, yeah).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

É hora de vender dólar?

Os sinais contrários se acumulam... (minha opinião: talvez seja no curto prazo, mas o ajuste ainda não terminou).





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Reservas, pra que te quero?

Texto desta semana para a Agência Estado.

O Banco Central do Brasil passou anos acumulando reservas internacionais, tirando do mercado parte do grande volume de dólares que entrou no país nos tempos de bonança nas contas externas e tentando atenuar a tendência decorrente de valorização do real. Em setembro do ano passado, essa conta parou de crescer, permanecendo ao redor de US$ 370 bilhões até hoje. Com o movimento recente no mercado de câmbio, começam as especulações sobre o destino desses dólares (e alguns euros, ienes, libras, etc. - há alguma, não muita, diversificação nas reservas). A desvalorização é bem-vinda para exportadores e os economistas autodenominados “desenvolvimentistas”, que há muito tempo pedem um real mais fraco. Porém, o longo período de fortalecimento da moeda certamente gerou interesses que dependem da continuação dessa conjuntura (ou ao menos de uma transição mais suave): por exemplo, agências de viagem, varejistas e o próprio BC, que deixará de contar com preços em queda de bens duráveis importados para atenuar a alta dos índices de inflação.

A resultante dessas forças pode fazer com que em breve haja pressão sobre o banco central para entregar reservas ao mercado e atenuar a alta do dólar--seria uma nova arma no “arsenal” que o ministro Mantega gosta de mencionar. Isso dependeria, porém, do BC tomar alguns grandes riscos: primeiro, criar condições de saída a um preço mais favorável do que o de equilíbrio pelo mercado para quem quiser tirar dinheiro do Brasil ; segundo, seria uma aposta num período de tempo relativamente curto de fortalecimento global do dólar--caso a tendência permaneça, a queda nas reservas pode alimentar um ataque especulativo, que consumiria mais reservas e levaria uma espiral de desvalorização acentuada. A história não é generosa com bancos centrais que tentaram lutar contra os mercados, com o caso mais famoso sendo o do Banco da Inglaterra ajudando a criar a fama e fortuna de George Soros e seus sócios, em setembro de 1992.

A pesquisa econômica recente coloca grande ênfase no papel estabilizador de reservas internacionais em países emergentes, sobretudo os que operam com câmbio flutuante (para os de câmbio fixo, é evidente a intenção de escolher uma taxa de câmbio que sirva aos principais interesses econômicos do país e defendê-la, como é o caso da China). Os motivos citados são diversos: aumentar o custo para os especuladores envolvidos em um ataque e reduzir a probabilidade desse tipo de evento; reduzir a violência dos ajustes de taxa de câmbio (o mais recorrentemente citado pelo nosso BC);  facilitar o desenvolvimento do mercado de dívida local, atraindo investidores estrangeiros; oferecer colateral para que empresas nacionais possam emitir dívida em moeda estrangeira. Todos eles, porém, apontam para certo consenso em manter as reservas em níveis relativamente elevados, e não liquidá-las em tempos de crise. A política de gestão de reservas, dessa maneira, não deve ter correlação com política fiscal, já que aquela não permite uma atuação anticíclica. Requer grande autonomia e certa humildade do BC para não tentar operar o mercado ou tentar escolher um nível de câmbio.

Até agora, o Brasil parece estar seguindo a teoria, deixando o câmbio se ajustar a partir de um nível de partida claramente sobrevalorizado e a uma situação de liquidez externa marginalmente desfavorável. Ainda que, caso continue o movimento das últimas semanas, a falta de novas ações passe a parecer inaceitável para parte do governo e da imprensa, é melhor que o trabalho do BC siga sendo apenas de suavizar as oscilações de mercado. Hora de simplesmente deitar-se sobre o tal colchão de reservas e aproveitar seus benefícios, ainda que eles não sejam facilmente perceptíveis quando a turbulência no mercado torna-se rotineira.

Agradeço a Samer Shousha pela discussão e pela revisão da literatura

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A poupança brasileira e a Disney

Dizer que "o Brasil gastou sua poupança na Disney" gera uma manchete poderosa, juntando cultura pop, crítica a uma suposta tendência consumista do brasileiro médio e uma moral implícita, pela qual consumir é um pecado em um país que precisa tanto de poupança. Vai fazer sucesso nos círculos que gostam de analisar caricaturas e respostas prontas. É, porém, errado a ponto de poder ser questão de prova de introdução à macroeconomia de qualquer aluno de primeiro ano (nem precisa ser graduando em economia).


O brasileiro gastou, na Disney, em Paris ou em Timbuctu porque, primeiro, havia dólares disponíveis para serem comprados no mercado e, segundo, porque esses dólares ficaram baratos a ponto dessas viagens serem alternativas preferíveis a ir para Foz do Iguaçu ou Canoa Quebrada. Tudo isso foi facilitado porque o país passou bastante tempo tendo superávits em conta corrente, o que equivale a dizer que estava exportando poupança em moeda estrangeira - justo o contrário do que foi dito na matéria. Essa é uma identidade de contas nacionais vergonhosamente básica.

Por muito tempo o Brasil não precisava atrair fluxos internacionais ou tomar empréstimos em moeda estrangeira para obter dólares com intenção de investir ou consumir, tudo isso era financiado pelo comércio exterior, com folga (quem se endividou em dólares não foi o consumidor, foram empresas se aproveitando da janela de financiamento aparentemente barato). O problema recente é que essa folga acabou, e isso deve fazer com que também diminuam as viagens para a Disney que, naturalmente, ficaram mais caras com o câmbio mais desvalorizado que reflete a nova conjuntura.

Enfim, existem as mais diversas maneiras acertadas de criticar a condução da economia brasileira. Botar a culpa em quem, racionalmente e dados os incentivos, escolheu gastar em outra país não é uma delas. Ir menos a Disney não nos fará mais prósperos (se fosse fácil assim...).

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Leituras da Semana

- O Irã desvalorizou sua moeda, o rial, em mais de 50%. Pode se declarar vencedor da guerra cambial?

- Paper novo de Dani Rodrik, sobre ideias e interesses em economia política.

- Entrevista com Stephen King, do HSBC.

- Entrevista com Persio Arida no Estado.

- Esse artigo do Eike Batista no Valor merece ser lido.

- Um seminário bacana sobre reindustrialização, aqui em São Paulo.

- John Cassidy sobre os problemas com os lucros (recordes) dos bancos americanos.

- O mercado de apostas para o próximo presidente do Fed. Nassim Taleb paga 1000 para 1, para quem quiser apostar no cisne negro.

- A associação de João Gilberto e Daniel Dantas, isso sim é inovação financeira. Deveria virar caso de estudo para as escolas de negócios.

- A lista de livros de verão de Bill Gates.

- Tyler Cowen sobre o livro novo de Jon Elster.

- Onde estão os 34.492 Mc Donald's do mundo.

- O tamanho médio das dissertações em várias disciplinas.

- Galeria de fotos de escritórios de professores de Harvard.

- Claro que não há nada errado com um jogo de futebol que termina 79-0, né?

- Robert Galbraith, mas pode chamar de JK Rowling.

- Uma história animada da tipografia em cinco minutos.

- Um TED talk imperdível com Pico Iyer.

- Michel Laub sobre falácias na literatura.

- Um festival de jazz imperdível aqui no SESC Pompéia: McCoy Tyner, Lonnie Smith, Cassandra Wilson... O modelo de financiamento do SESC é detestável, mas, pqp, como fazem coisas bacanas...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Câmbio, bolsa, etc...

Um estimado leitor me escreve dizendo que há tempos não aparecem por aqui posts sobre os mercados brasileiros, em especial bolsa e câmbio. Ele tem razão, claro. Parte da omissão é porque eu tenho estado tão errado que dá uma certa vergonha seguir opinando; parte porque, por estar tão errado, sinto-me meio perdido. De qualquer maneira, atendendo ao pedido e seguindo a recomendação (do Churchill, acho - não estou achando a fonte) de que um economista deve dizer o que vai acontecer e depois explicar porque não aconteceu, aí vão meus pitacos atualizados:

Primeiro, apesar da extrema má vontade dos mercados com o Brasil (em grande medida justificada, claro), a queda da bolsa e desvalorização da moeda não são exclusividade do país. Sim, o Ibovespa tem o pior desempenho entre os principais índices do mundo, mas essa diferenciação pode ser atribuída sobretudo à queda do império X e suas ramificações. As bolsas da América Latina (Chile, México, Peru) também estão mal em 2013, e quase todas as moedas do mundo estão perdendo valor contra o dólar americano. Minha principal mea culpa recente foi não ter levado a sério a possibilidade de uma chacoalhada nos mercados emergentes por conta da possibilidade de alta dos juros nos EUA e fortalecimento do dólar.




Dito isso, vamos às particularidades:

1. Bolsa - a preços atuais, o Ibovespa implica uma relação preço / lucros de 13x para 2013 e 9x para 2013. Esses mesmos múltiplos para o S&P500 são 15x e 13x. O desconto é compatível com o padrão histórico e, creio, com a dependência de commodities do índice brasileiro. As incógnitas aqui são: i) se há alguma possibilidade dos lucros surpreenderem positivamente; ii) o destino do grupo X; iii) (e talvez mais importante) se o ciclo de commodities de fato virou. Sem parar para analisar cada um desses pontos, acho que muito pessimismo já está incorporado, mas achava o mesmo quando o índice operava a 53 mil pontos.

Na prática, se fosse pra dar algum trade idea, recomendaria, para o curto prazo, comprar contra algum outro índice (México, por exemplo). Para a minha poupança, esperaria, sem pressa, por uma nova crise. Nada está tão ruim que não possa piorar muito: a Petrobras segue perdendo dinheiro vendendo gasolina e com um caminhão de dívida para pagar, sem saber bem o que vai ser do pré-sal; o minério de ferro ainda vale muito mais do que o padrão histórico, etc...

2. Câmbio - nove entre dez economistas que conheço acham que, no médio / longo prazo, o câmbio vai ter que seguir se desvalorizando para compensar a deterioração das contas externas. Mais do que isso, acho que ajustar o câmbio é condição necessária para devolver alguma competitividade ao país (lembrando que, se o câmbio terminar o ano no nível atual, a depreciação terá pagado pouco mais do que o diferencial de inflação e quase o mesmo que o diferencial de juros - é preciso mais para que o câmbio real efetivamente mude de patamar).

O que complica a análise aqui é o papel das reservas e o comportamento do banco central. Não há precedente na história do país de um estoque de reservas internacionais do tamanho atual, e não dá para saber (pelo menos não consigo ter uma opinião firme) se quando o BC começar a entregar reservas para o mercado isso vai atenuar a depreciação ou atiçar um ataque especulativo. Também não tenho ideia de quanto do (enorme) passivo externo vai ser chamado de volta em caso de crise mais aguda. Tudo isso considerado, acho que o real segue se enfraquecendo nos próximos anos, e tenho recomendado a todo mundo que me pergunta manter uma boa reserva de dólares. Foi bom enquanto durou, mas durante a história do Brasil moeda forte foi exceção, não regra. Como diz o Teco, chora Mickey, viva Axé Moi.

Bom, é isso... opiniões minhas, não de onde trabalho, etc... Com elas e mais três reais, ganha-se uma viagem de ônibus dentro de São Paulo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Gráfico do Dia - a fuga dos emergentes

Roubado do Paweł Morski, a surra que as moedas de países emergentes estão levando de um mês pra cá. Aqui, a culpa não é da Dilma ou do BC...


terça-feira, 4 de junho de 2013

Gráficos do Dia - reservas, Peru e Brasil

Anteontem o Inca Kola News postou esse gráfico das reservas internacionais do Peru, que tiveram uma inflexão no meio de abril:


As reservas do Brasil pararam de crescer em setembro do ano passado. O banco central ainda não começou a vender dólares para o mercado (essa queda recente provavelmente é totalmente explicada pela marcação a mercado da carteira de títulos que o país carrega), mas, aparentemente, chegaram ao fim os tempos em que todo mês sobravam dólares no mercado para o BC comprar.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

O "novo" BC: Copom e câmbio

Geralmente não gosto de comentar política monetária no calor dos acontecimentos, mas como tem muita gente (3 pessoas) pedindo minha opinião, aí vai:

Acho que nesta semana o BC destruiu duas fortes crenças que o mercado brasileiro vinha alimentando nos últimos meses:

1. O BC de Tombini é "frouxo": vai sempre tentar segurar a taxa de juros no nível mais baixo possível, e, antes de aumentá-la, recorrerá a um repertório de medidas "macroprudenciais". Também é relativamente tolerante com a inflação, com uma banda informal entre 5,5% e 6,5% anuais. Com isso em mente, comprar NTN-Bs (títulos indexados ao IPCA) é das melhores operações: no cenário-base, a inflação é alta com a Selic parada, o que garante um bom carregamento (juros reais + inflação x Selic). Caso a inflação acelere, o BC relutaria em subir os juros básicos, e o carregamento continuaria bom. E, na improbabilidade da inflação cair, o BC voltaria a cortar os juros.

2. A taxa de câmbio no Brasil é controlada: se a cotação do dólar subir muito, o BC intervem num teto informal próximo a R$2,05/US$. O controle do câmbio é ferramenta fundamental no controle da inflação, mais ainda em um cenário de juros artificialmente baixos.

A crença #1 foi destruída com o resultado da reunião do Copom da última quarta-feira, quando, por unanimidade, o comitê acelerou a alta dos juros mesmo com o IBGE mostrando crescimento do PIB abaixo do esperado algumas horas antes. Tombini passou de "Pombini" para "águia", e agora o mercado passa a levar mais a sério o combate da inflação via política monetária. Os compradores de NTN-B estão sendo destruídos, já que o pior e "menos provável" cenário está se concretizando: inflação caindo com Selic em alta. Fica para um próximo post comentar sobre a barbeiragem que a regulação de fundos de previdência cometeu, forçando os gestores a alongar carteiras a preços com baixíssima margem de segurança (combinação de juros de mercado baixos + inflação esperada alta), como se mais risco implicasse necessariamente em mais retorno.

A crença #2 acabou com o mercado vendo o câmbio reais / dólares, ao longo do mês, chegar a 2,0, 2,05, pqp, cadê o BC?, 2,10 e 2,14 enquanto escrevo. Neste caso, curiosamente, 9 entre 10 economistas achavam que o real deveria se depreciar, já que os fundamentos (fluxo externo) pioraram muito e o dólar entrou em trajetória de alta contra quase todas as moedas de emergentes e/ou produtores de commodities. Ocorre que o BC, sentado em cima de US$370 bilhões em reservas, aparentemente controlava o mercado no curto prazo, o que impedia os fundamentos de prevalecerem. A percepção que segue, portanto, é que o dólar só subiu porque o BC assim o quis. O discurso oficial deve ser de um alinhamento com o movimento das demais moedas (ver a entrevista de Tombini na Folha de hoje, por exemplo), o que faz bastante sentido e seria natural se o câmbio fosse de fato flutuante; o que parece estranho é o timing, mais ainda considerando que a depreciação forçada do final do ano passado foi vista como um erro, ao impedir que a inflação se beneficiasse de uma queda no preço em dólares de várias commodities.

A combinação de câmbio mais depreciado e juros mais altos soa como um ajuste ortodoxo necessário, mas que, num cálculo político (no qual eu acreditava), seria empurrado para depois das eleições presidenciais do ano que vem, já que arriscaria comprometer algumas bandeiras eleitorais importantes (consumo, juros na mínima histórica e inflação, considerando que a depreciação do câmbio tem efeito mais rápido do que a alta dos juros). Ainda não consigo tirar uma conclusão, mas talvez o contínuo fraco desempenho da economia (ao menos se medido pelo crescimento do PIB) pode ter levado a presidente a autorizar uma mudança grande na orientação da política econômica. Isso implicaria em um BC com mais poder e Fazenda com menos relevância (o que parece estranho depois do "alquimista" Arno Augustin aparentemente ter ganhado uma longa briga contra o mais pragmático Nelson Barbosa). A ver o que ocorre nos próximos meses.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Gráfico do Dia - hot money

Curioso observar que, de algumas semanas pra cá e depois de muito tempo, começaram a pipocar relatórios de bancos sobre reversão de fluxos de capital e risco de "paradas súbitas" no financiamento externo. Esse gráfico usa dados de um dos mais interessantes que recebi (de Stephen Jen, para o Itaú BBA); segundo o autor, esse é dos indicadores mais importantes para avaliar aquele risco.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pensando alto sobre mercados

Esse é daqueles posts que faço pra organizar minha cabeça. Não deve ser de interesse para quem não se interessa por mercados ou futurologia gratuita (devem sobrar dois leitores).

Depois dos problemas com o sistema bancário do Chipre, passei a trabalhar com a possibilidade que poderíamos voltar a ver sombras de uma crise bancária generalizada sobre a Europa. Por um tempo essa tese encontrou correspondência nos mercados: as bolsas do continente, no geral, tiveram desempenho pior do que as dos EUA; e, dentre essas bolsas, sofreram mais as de países com grande peso de bancos no índice e maior percepção de fragilidade (Espanha, França, Itália). Há mais ou  menos dez dias esses movimentos se intensificaram, com bolsas americanas também caindo e alguns movimentos violentos em commodities dando indicações de uma mini-crise deflacionária.

Em algum momento da semana passada, isso mudou, com os movimentos descritos acima sendo descontinuados: bolsas europeias passaram a subir, deixando EUA para trás; entre essas bolsas, os maiores ralis foram nos países mais frágeis. O ouro começou a se recuperar de um movimento particularmente agudo e o iene voltou a se depreciar contra a maioria das outras moedas. O dólar seguiu se fortalecendo e os juros de títulos longos em parte do mundo desenvolvido fizeram novas mínimas.

Como fundo a isso, vejo duas possibilidades:

i. Uma recuperação técnica, já que alguns dos índices europeus estavam testando suportes importantes, que, se respeitados, levariam a uma correção da queda e possível formação de um intervalo bem definido para os próximos meses;

ii. Indicação de corte de juros pelo Banco Central Europeu - isso seria compatível com as indicações de atividade mais fraca na Alemanha, o movimento das bolsas, dos títulos e do euro. Também estaria em linha com o tema geral de iniciativa dos bancos centrais, que deixaram de reagir a choques e passaram a tomar iniciativas para tentar promover crescimento.

Se (ii) estiver correto, poderemos ver bolsas fazendo novas máximas para o ano e, eventualmente, o euro encontrando um novo patamar, mais perto de US$1,20. Com o dólar relativamente forte, é mais difícil para commodities encontrarem espaço para subir, o que daria continuidade à fraqueza relativa de moedas de produtores e suas respectivas bolsas.

Ontem outro fato me convenceu de que provavelmente estamos no início de um período de recuperação das bolsas da Europa com relação às dos EUA: a Apple, que foi claramente a líder dos índices americanos no ano passado, anunciou recompra de ações e aumento de dividendos. Creio que a mensagem é que a companhia perdeu, ao menos temporariamente, a capacidade de gerar lucros com base em inovação, e está gastando caixa para agradar acionistas e comprar tempo (e tomando um risco de cross-border grande, já que o caixa da companhia está no exterior e ela tomará empréstimos nos EUA para pagar as recompras e dividendos). Isso pode ser bom para os preços das ações no curto prazo, mas me parece um sinal claro de que a companhia está num momento de inflexão (como se não bastasse o movimento dos preços). Evidentemente tudo pode mudar com o lançamento de novos produtos, mas não é bom contar com isso (o que também ficou evidenciado desde o ano passado, quando muitos analistas citavam a "capacidade infinita de inovar" da empresa como justificativa para preços-alvo ao redor de $1,000). Se a Apple não lidera, os candidatos naturais são os bancos, novamente registrando lucros recorde. Porém, se é esse o tema dominante, há muito mais espaço para recuperação na Europa, a preços mais descontados e possibilidade de aumento de lucros com juros mais baixos e outras possíveis benesses do BCE.

No médio / longo prazo, é importante notar que quase toda a recuperação dos mercados estará fundada em ideias no mínimo duvidosas: que bancos centrais podem influenciar decisivamente os níveis de atividade e preços, que ações de bancos com problemas graves de balanço podem valer alguma coisa e que bancos são os melhores instrumentos para distribuir dinheiro público para toda a economia. Isso faz com que os níveis atuais sejam extremamente frágeis, já que não parece haver melhora significativa em fundamentos (justo o contrário, em alguns casos). Porém, talvez o confronto com a realidade demore a acontecer, e também é possível que a primeira indicação (dados do Japão neste ano) apontem para a direção oposta, de sucesso da iniciativa de expansão monetária. O "sucesso" levaria, claro, a mais incentivos para repetição desse tipo de política, inflando ainda mais preços e deixando cada vez menos opções à disposição dos governos.

Em resumo, creio que tudo vai acabar em lágrimas, mas provavelmente estamos num período de euforia para alguns mercados, até que um novo esqueleto saia do armário (não são poucos enfiados nos balanços de bancos na Europa). Na dúvida, compre dólares.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

7 mitos sobre a economia brasileira que foram / estão sendo / serão destruídos

Diz George Soros (vou citar de orelha porque meus livros sumiram; se notarem algum erro, por favor corrijam) que bolhas especulativas nascem de uma percepção de mudança de paradigma. Na medida em que aparecem sinais dessa mudança, mais pessoas investem nela, o que reforça os sinais e atrai mais gente. Depois de algumas rodadas desse auto-reforço, a percepção se descola tanto da realidade que, mesmo que a mudança inicialmente prevista ocorra, é impossível que as expectativas embutidas nos preços sejam confirmadas. Isso ocorrendo, é questão de tempo para que a bolha estoure, ativos sejam liquidados e percepção e realidade voltem a se encontrar.

Esse esquema me parece bastante correto para descrever o passado recente do Brasil: do país que ia "decolar" para o pior mercado de ações do mundo e grandes dificuldades em crescer. Abaixo uma lista (sem a menor pretensão de ser exaustiva) dos mitos que foram, estão sendo e (acho que) serão destruídos sobre o Brasil:

1. O PIB potencial do Brasil cresceu

Nos últimos 20 anos, o PIB brasileiro cresceu em média 3,2% ao ano. Entre 2003 e 2010, com o boom de commodities, essa média foi de 4,05% ao ano, e muita gente achou que estávamos entrando em uma nova era de crescimento mais acelerado: no início de 2011, a Fitch dizia que o novo crescimento potencial era de 4,5% anuais, e o recém-empossado governo Dilma determinou uma absurda "meta" de 5,9% de crescimento durante o mandato. O choque de realidade veio com sucessivos "pibinhos", mesmo após cortes de juros e inúmeros pacotes de crescimento. Mais provável mesmo que o PIB potencial esteja ao redor da média de longo prazo (3% anuais, talvez um pouco menos), e todo o crescimento adicional tenha sido função da alta dos preços do que exportamos.

2. O Brasil autossuficiente em petróleo

Em 2006 Lula declarou a "autossuficiência" do Brasil em petróleo. Sete anos depois, nunca antes na história deste país se importou tanta gasolina, a ponto disso preocupar os acionistas e detentores de dívida da Petrobras e prejudicar as contas externas do país.

3. O que trava o país é a Selic alta

Claro que provavelmente ainda estamos passando pelos efeitos defasados da grande queda dos juros no ano passado, mas parece evidente que não vai ser isso que vai fazer o país decolar. Pelo menos serviu para evidenciar outros problemas estruturais.

4. O Brasil não depende tanto de commodities

A dependência no principal índice de ações é claríssima - e volta a ficar claro que, no que depende do mercado interno, o Brasil é um país com inúmeros gargalos e dificuldades estruturais.

5. Eike Batista como empreendedor e possível homem mais rico do mundo

O fundo do poço estava longe de chegar quando escrevi isso, em junho do ano passado. Hugh Hendry acertou em cheio. É o caso mais emblemático (e alavancado) do descolamento entre realidade e percepções do Brasil recente.

6. O triunfo do "capitalismo de estado"

Após a crise de 2007/2008, muita gente defendeu a ideia (mais aqui) de que grandes empresas estatais (ou de capital misto) e bancos de fomento seriam os grandes indutores de crescimento no futuro. Talvez haja versões mais ou menos efetivas do "capitalismo de estado"; a brasileira, aparentemente, não mostrou nenhum novo dinamismo, a não ser a capacidade de prover o crédito que os bancos privados não quiseram conceder, com resultados ainda para serem discutidos.

7. O fim das crises cambiais

Já disse várias vezes por aqui que a história econômica do Brasil pode ser contada pelas suas inúmeras crises cambiais. A bonança de commodities e o consequente aumento de reservas internacionais parece ter afastado o risco de uma nova crise no futuro recente. Desde 2007 o país tem financiado com relativa facilidade déficits sucessivos em conta corrente; resta saber se esse padrão se repetirá no futuro ou quanto tempo levará para que as aparentemente grandes reservas sejam consumidas se o dinheiro estrangeiro que entrou nos últimos anos resolver voltar para casa.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Gráfico do Dia - as reservas do mundo

Do último relatório do FMI com dados de reservas internacionais. Os rumores sobre a morte do dólar ainda são amplamente exagerados...


quarta-feira, 27 de março de 2013

Frases do Dia - o termômetro do mercado negro de câmbio

The black market is indispensable to one's insight into a country. Right away you know if there is a black market, and if so, whether the currency carries a big premium. The black market is like taking somebody's temperature. If I give you a thermometer and we take your temperature, we know whether something is wrong. We do not know what is wrong, but we do know that something is wrong. If you have a high temperature, we know that something is really wrong. The black market operates the same way. You do not know what is wrong if there is a black market, but it gives you the frist hint. And if there is a big premium in the market - a large discrepancy between the official rate and the black market rate - you know something is seriously wrong. If you want to know something about a country, you can learn more from talking to a black marketer than from speaking to a government minister.

Da nova biografia de Jim Rogers, Street Smarts. A economia da Argentina vai bem, obrigado.

P.S. Não sei se já linkei aqui, mas há uns dois anos a Glória Maria fez uma matéria divertida com ele em Cingapura. Figuraça.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Gráfico do Dia - Dólar x Bolsas Emergentes

De Russell Napier, do CLSA.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Argentina e uma possível falta de dólares no mundo

Ontem o dólar paralelo atingiu novo recorde na Argentina, cotado a 8,63 pesos (ágio de quase 70% contra a cotação oficial - mais na Folha; cotações atualizadas aqui; gráfico aqui). Todo mundo sabe do problema de escassez da moeda americana por lá, e é claro que ele tem mais motivações idiossincráticas do que globais. Mas pode ser que a Argentina esteja sendo o canário na mina de carvão, a primeira indicação de um problema de financiamento em dólares que em breve pode afetar outros países.

De alguns meses para cá, creio que os EUA se tornaram novamente o melhor destino para a poupança global - melhor até do que a Suíça, que em 2011 colocou um teto para sua moeda contra o euro. Os EUA têm bancos sólidos, já saneados; oportunidades interessantes de investimento; legisladores não muito hostis com o mercado financeiro (para dizer o mínimo) e, pelo "privilégio exorbitante" de emitir a moeda global de transações, não terão problemas de financiamento externo até onde seja possível enxergar.

Além disso, o déficit em conta corrente americano vem diminuindo desde 2006, tendo mudado de patamar desde então e, aparentemente, voltado a fechar a partir do ano passado. Se vale a alternativa de substituição de importações de combustível pelo shale gas, essa pode ser uma nova tendência. E, amigos, déficit externo americano diminuindo não é nada bom para o resto do mundo, como mostra esse gráfico do Simple Economic Concepts for Complicated Financial Markets, ótimo livro da turma do GaveKal Research que merece uma reedição (como de costume, descontem minhas incríveis habilidades de digitalização de imagens - clique para aumentar):



Se de fato a Argentina for a primeira da série de vítimas de um encolhimento da liquidez em dólares, quais serão os próximos dominós a caírem? Os candidatos evidentes são países com grandes déficits de conta corrente: entre os maiores (critério: os que aparecem toda semana nas tabelas das últimas páginas da The Economist) estão Turquia (6% do PIB) e África do Sul (5,4% do PIB). A moeda turca anda relativamente bem comportada, mas o rand sul-africano já perdeu quase 30% contra o dólar desde o topo, em abril de 2011.

Ainda que o déficit externo brasileiro seja relativamente pequeno (3,5% do PIB), me preocupa a dependência do país de commodities para gerar dólares. É provável que, se o dólar começar a se valorizar contra as principais moedas do mundo, isso afete os preços das matérias primas, e a balança comercial brasileira pode se deteriorar rapidamente (mais ainda com a nossa recém criada demanda por gasolina importada - mais nesse relatório da Nomura). Com isso em mente, tenho cerca de 30% da minha poupança em dólares, e recomendo a todos que me perguntam considerar essa opção. Os dias em que comprar até lenço de papel em Miami é mais barato podem estar acabando.

DXY (dólar americano contra cesta de moedas, preto) x CRB (índice de commodities, laranja)

quinta-feira, 14 de março de 2013

Gráfico do Dia - real forte (por enquanto)

Em maio do ano passado, o real era a moeda que mais havia se desvalorizado no ano. Este ano, a situação é oposta: o real corrigiu a desvalorização do ano passado e está entre as moedas que mais se fortaleceram em 2013. Por enquanto, aparentemente, ganha a corrente que defende manter o câmbio relativamente apreciado para combater a inflação contra os industrialistas. No campo dos fundamentos, caminhamos para ter o pior saldo em balança comercial desde 2002.

O gráfico abaixo é de variação percentual contra o dólar americano.