Da última carta da GMO, de Jeremy Grantham.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
O Sr. Dinheiro e o negócio de entretenimento
Hoje (escrevo em 18 de Dezembro) fiquei sabendo da existência do Sr. Dinheiro, personagem criado, aparentemente, pelo "Fantástico" da TV Globo em cima de Luis Carlos Ewald. O Sr. Dinheiro ganha para ensinar finanças na FGV do Rio e prestar assessoria financeira. Hoje ele concedeu uma entrevista ao portal InfoMoney dizendo que há uma bolha imobiliária no Brasil que vai estourar "no primeiro semestre de 2014". A entrevista não fala como ele precisou tão bem o timing. Se tem um modelo para isso, é forte candidato ao Nobel nos próximos anos.
Assumindo que, de fato, haja uma bolha no mercado imobiliário brasileiro, o que garante que ela vai estourar nos próximos seis meses, ou seis anos? Nada. Se é fato consumado que toda bolha estoura (ver a pesquisa da GMO sobre o assunto, a mais completa que conheço), também é mais ou menos estabelecido que bolhas podem ser incrivelmente resilientes. As perdas amargadas por muitos grandes investidores que tentaram ir contra bolhas, de Julian Robertson a George Soros, passando pela própria GMO, parecem confirmar a frase (aparentemente apócrifa) atribuída a Keynes: o mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode permanecer solvente.
Ewald, porém, não deve ter problemas de solvência (ou pode ser mais esperto que Robertson, Soros, Jeremy Grantham ou o próprio Keynes). Ele e outros consultores financeiros não vivem de acertar ou errar: vivem de colocar o nome nas manchetes, fazendo previsões "ousadas" e "bombásticas". Em seis meses, se errar, ninguém mais vai se lembrar e ele pode continuar cobrando por aulas e consultoria; se acertar, vira guru. Baixíssimo risco, alto retorno potencial: esse é o melhor investimento que o Sr. Dinheiro poderia recomendar.
O problema aqui é como reputações no mercado financeiro são construídas e destruídas. O assunto merece um estudo mais cuidadoso, mas arrisco alguns palpites: é uma área que lida com variáveis complexas, com um componente brutal de incerteza, onde o sucesso é difícil de ser mensurado ao longo do tempo, e povoada por um nível monumental de ignorância. Isso gera um grande problema de seleção: como saber escolher um bom profissional se (i) o nível de conhecimento geral sobre o assunto é baixo e qualquer um que fala besteiras com convicção pode se passar por expert; (ii) mesmo os verdadeiros experts sofrem para entregar resultados (e estes são os que, sabendo da incerteza, cercam de cautela suas opiniões e frequentemente são vistos como "fracos" ou "pouco arrojados"); (iii) os resultados mais visíveis são os de poucos meses - para períodos mais curtos, o peso da incerteza é ainda maior, e anos de bom trabalho são facilmente esquecidos após um semestre de performance fraca. Aqui, de novo, o grande Keynes: "é melhor para a reputação falhar de forma convencional do que ter sucesso de forma não convencional".
Aqui, a analogia com o futebol e seus inúmeros comentaristas é quase perfeita: o assunto, complexo, é parte importante da vida de milhões; há um corpo de conhecimento sobre o assunto, dominado por poucos; o conhecimento implica reconhecer que grande parte do jogo é determinada por fatores que não podem ser explicados; quem reconhece isso não chama a atenção devida e quem ganham os holofotes são os que gritam mais alto, usam metáforas mais coloridas ou criam mais polêmicas. Tostão escreveu hoje, na Folha, que, caso o Atlético Mineiro passasse do Raja Casablanca, podia tanto ser goleado pelo Bayern ou ganhar a final do Mundial de Clubes. Isso pode parecer óbvio, mas embute grande dose de humildade, conhecimento e sabedoria. Coloquem ele em um canal da TV dizendo isso e no outro o Craque Neto dizendo que o Galo é favorito, que esses times da Europa não são tudo isso, etc, e vejamos quem atrai mais audiência. Em resumo, ambos os negócios remuneram mais entretenimento e menos conhecimento. Ao menos no futebol raramente se coloca em risco o dinheiro da aposentadoria.
O post já está longo demais e ainda nem cheguei ao que mais me deixou doente na entrevista do professor. Cito:
Entre 2007 e 2008, o preço de imóveis nos EUA, medido por um índice criado pelo professor de Yale que ganhou o Nobel este ano e o Sr. Dinheiro orgulhosamente citou como referência para suas previsões, caiu pouco mais de 25%. As açoes americanas, medidas pelo S&P 500, perderam mais de um terço do seu valor. O mesmo aconteceu em inúmeros outros países onde o mercado imobiliário colapsou. A crise que se arrasta até hoje é das maiores da história do capitalismo, mas não é evidência suficiente para o Sr. Dinheiro, que prefere sacar uma teoria estapafúrdia para empurrar incautos para o mercado de ações.
Uma das frases que Nassim Taleb gosta de repetir (acho que está no Antifragile, se bobear é emprestada de algum grego): se você vê uma fraude e não grita "fraude", você é uma fraude. O Sr. Dinheiro é uma fraude. Espero ter coragem e isenção para apontar outras ao longo da vida.
Assumindo que, de fato, haja uma bolha no mercado imobiliário brasileiro, o que garante que ela vai estourar nos próximos seis meses, ou seis anos? Nada. Se é fato consumado que toda bolha estoura (ver a pesquisa da GMO sobre o assunto, a mais completa que conheço), também é mais ou menos estabelecido que bolhas podem ser incrivelmente resilientes. As perdas amargadas por muitos grandes investidores que tentaram ir contra bolhas, de Julian Robertson a George Soros, passando pela própria GMO, parecem confirmar a frase (aparentemente apócrifa) atribuída a Keynes: o mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode permanecer solvente.
Ewald, porém, não deve ter problemas de solvência (ou pode ser mais esperto que Robertson, Soros, Jeremy Grantham ou o próprio Keynes). Ele e outros consultores financeiros não vivem de acertar ou errar: vivem de colocar o nome nas manchetes, fazendo previsões "ousadas" e "bombásticas". Em seis meses, se errar, ninguém mais vai se lembrar e ele pode continuar cobrando por aulas e consultoria; se acertar, vira guru. Baixíssimo risco, alto retorno potencial: esse é o melhor investimento que o Sr. Dinheiro poderia recomendar.
O problema aqui é como reputações no mercado financeiro são construídas e destruídas. O assunto merece um estudo mais cuidadoso, mas arrisco alguns palpites: é uma área que lida com variáveis complexas, com um componente brutal de incerteza, onde o sucesso é difícil de ser mensurado ao longo do tempo, e povoada por um nível monumental de ignorância. Isso gera um grande problema de seleção: como saber escolher um bom profissional se (i) o nível de conhecimento geral sobre o assunto é baixo e qualquer um que fala besteiras com convicção pode se passar por expert; (ii) mesmo os verdadeiros experts sofrem para entregar resultados (e estes são os que, sabendo da incerteza, cercam de cautela suas opiniões e frequentemente são vistos como "fracos" ou "pouco arrojados"); (iii) os resultados mais visíveis são os de poucos meses - para períodos mais curtos, o peso da incerteza é ainda maior, e anos de bom trabalho são facilmente esquecidos após um semestre de performance fraca. Aqui, de novo, o grande Keynes: "é melhor para a reputação falhar de forma convencional do que ter sucesso de forma não convencional".
Aqui, a analogia com o futebol e seus inúmeros comentaristas é quase perfeita: o assunto, complexo, é parte importante da vida de milhões; há um corpo de conhecimento sobre o assunto, dominado por poucos; o conhecimento implica reconhecer que grande parte do jogo é determinada por fatores que não podem ser explicados; quem reconhece isso não chama a atenção devida e quem ganham os holofotes são os que gritam mais alto, usam metáforas mais coloridas ou criam mais polêmicas. Tostão escreveu hoje, na Folha, que, caso o Atlético Mineiro passasse do Raja Casablanca, podia tanto ser goleado pelo Bayern ou ganhar a final do Mundial de Clubes. Isso pode parecer óbvio, mas embute grande dose de humildade, conhecimento e sabedoria. Coloquem ele em um canal da TV dizendo isso e no outro o Craque Neto dizendo que o Galo é favorito, que esses times da Europa não são tudo isso, etc, e vejamos quem atrai mais audiência. Em resumo, ambos os negócios remuneram mais entretenimento e menos conhecimento. Ao menos no futebol raramente se coloca em risco o dinheiro da aposentadoria.
O post já está longo demais e ainda nem cheguei ao que mais me deixou doente na entrevista do professor. Cito:
Ainda segundo o Sr. Dinheiro, quando o mercado imobiliário desaba, a bolsa de valores (e o mercado acionário como um todo) melhora muito. “Essa bolha que vai estourar no ano que vem vai criar uma ótima oportunidade para os investidores do mercado de renda variável, afinal, o desempenho de ambos são inversamente proporcionais”, finalizou.
Entre 2007 e 2008, o preço de imóveis nos EUA, medido por um índice criado pelo professor de Yale que ganhou o Nobel este ano e o Sr. Dinheiro orgulhosamente citou como referência para suas previsões, caiu pouco mais de 25%. As açoes americanas, medidas pelo S&P 500, perderam mais de um terço do seu valor. O mesmo aconteceu em inúmeros outros países onde o mercado imobiliário colapsou. A crise que se arrasta até hoje é das maiores da história do capitalismo, mas não é evidência suficiente para o Sr. Dinheiro, que prefere sacar uma teoria estapafúrdia para empurrar incautos para o mercado de ações.
Uma das frases que Nassim Taleb gosta de repetir (acho que está no Antifragile, se bobear é emprestada de algum grego): se você vê uma fraude e não grita "fraude", você é uma fraude. O Sr. Dinheiro é uma fraude. Espero ter coragem e isenção para apontar outras ao longo da vida.
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Temporada de caça aos ursos
2013 não está terminando bem para os pessimistas com os mercados de ações dos Estados Unidos. O índice S&P 500 deve terminar o ano perto dos 1800 pontos, tendo subido cerca de 25% com relação ao nível do final de 2012. A expectativa média das projeções que 14 grandes instituições apresentaram há um ano a seus clientes era 1534 pontos, mais de 17% abaixo de onde o mercado se encontra. O mais otimista entre esses (usualmente exageradamente otimistas) analistas esperava alta de pouco mais de 12%. Os pessimistas foram atropelados, mesmo com um cenário econômico pior do que se imaginava: em dezembro do ano passado, o Fed acreditava que o PIB americano cresceria, em 2013, entre 2,3% e 3,0%. O crescimento efetivo dificilmente passará de 2,0%.
O resto do texto está no Estadão.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Frases do Dia - vivendo em tempos de bolha imobiliária
I wonder if a house has ever represented as much as it does now, for people like Lisa and me. It has been the full measure and symbol of our wealth and security over the last few years; every cent we threw into it and every cent we took out, seemed so smart, like such a good bet. Every time we got ahead, we borrowed against the thing to remodel, and every time we remodeled the thing we congratulated ourselves of our wisdom, and every time we saw a house go up for sale on our block (They're asking three-eighty-five and it's half the size!) we became like derivative-crazed brokers; we stopped thinking of the value of our home as a place of shelter and occupancy and family-or even as the aesthetic triumph witnessed from our alley-but as a kind of faith equation, theoretical construct, mechanism of wealth-generation, salvation function on a calculator, its value no longer what it's worth but some compounded value that might exist given the continued upward tick of the market, because this was the only direction housing markets could ever go: up. All the geniuses said so. If housing had survived the dump of the technology bubble and the brief realization after 7/11 that we weren't alone in the scary, scary world, then what could possibly stop its march? In eighty years, the geniuses told us, actual housing values had only fallen once. One time in eighty years? I can still close my over-leveraged eyes and hear two decades of such party talk: real estate is the only safe bet; real estate can only go up; they aren't making any more real estate.
Do ótimo The Financial Lives of Poets, de Jess Walter.
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Leituras da Semana
- A Pershing Square, de Bill Ackman, aposta grande que a Herbalife é uma fraude histórica. Falando em pirâmides, relembre a incrível história da Albânia em 1996-97.
- Noah Smith sobre Shinzo Abe e as (não) mudanças no Japão.
- Um ótimo guia para os mercados globais neste trimestre.
- Como mudou a geografia da manufatura global nos últimos trinta anos.
- Um índice Big Mac para salários reais.
- Trickle-down economics sobrevive no Banco Mundial.
- 10 colapsos econômicos na história.
- A exploração de mão-de-obra sueca barata - na Noruega, onde mais?
- As "outrageous predictions" para 2013, do Saxo Bank.
- O melhor escrito sobre economia política global no ano passado.
- As 50 piores colunas (nos EUA) de 2012. Alguém precisa fazer uma versão brasileira.
- Uma lista para dominar todas as listas.
- The New Republic malhando Alain de Botton.
- The Economist sobre cartoons na internet.
- Michel Laub sobre viajar.
- Noah Smith sobre Shinzo Abe e as (não) mudanças no Japão.
- Um ótimo guia para os mercados globais neste trimestre.
- Como mudou a geografia da manufatura global nos últimos trinta anos.
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- Trickle-down economics sobrevive no Banco Mundial.
- 10 colapsos econômicos na história.
- A exploração de mão-de-obra sueca barata - na Noruega, onde mais?
- As "outrageous predictions" para 2013, do Saxo Bank.
- O melhor escrito sobre economia política global no ano passado.
- As 50 piores colunas (nos EUA) de 2012. Alguém precisa fazer uma versão brasileira.
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Gráficos do Dia - uma bolha estourada
Não há muito tempo parecia genial a ideia de investir em alguns dos elementos menos populares da tabela periódica. Do Valor de hoje (clique para aumentar):
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Leituras da Semana
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| Greatest sungas in the world |
- Barry Eichengreen sobre o desaquecimento da economia da China.
- Suíça: país ou hedge fund?
- Um perfil de Mohamed El-Erian, da PIMCO, no New York Times. Se você acha o bônus de banqueiros absurdo, veja quanto ele e Bill Gross levaram no ano passado (em que os fundos da PIMCO não foram bem).
- 10 cidades americanas onde casas custam menos que um carro (Detroit no topo, para provar que a história gosta de produzir ironias).
- A incapacidade da Europa de fomentar empreendedorismo, ótima matéria na The Economist.
- Cinco livros sobre estatística e risco.
- Compartilhamento de arquivos na internet virou uma religião, na Suécia.
- Saiu a atualização desta década da lista dos melhores filmes da história pela Sight and Sound. Cidadão Kane perdeu o topo que vinha ocupando nos últimos 50 anos.
- Uma bela crítica de O Porto, um dos melhores filmes que vi este ano.
- Susan Sontag sobre amor, ilustrado.
- Os links olímpicos: o The Big Picture sempre tem as melhores coletâneas de fotos - aqui a primeira dos jogos.Cartazes das Olimpíadas de Moscou. As escolhas de grandes momentos olímpicos do ótimo Iconic Photos. Uma classificação dos esportes em duas dimensões.Os significados políticos e históricos da cerimônia de abertura. Uma crítica de Christopher Hitchens aos jogos, de 2010.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Leituras da Semana
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| Enxergar bem é um luxo desnecessário |
- A última carta ao investidor da Greenlight Capital, de David Einhorn.
- Bolhas na ausência de mercados são mais devastadoras, diz Robert Shiller.
- John Kay conta a parábola do boi.
- Oito jovens economistas falam sobre os possíveis rumos da dismal science.
- O mapa do Japão e sua curva de Phillips.
- O fracasso da Europa em fomentar empreendedorismo.
- O que é possível comer com uma renda abaixo da linha da pobreza em 15 países.
- Republicanos, esses socialistas.
- A história de quatro grandes impérios (espanhol, francês, português, britânico) contada como criaturas numa placa de Petri.
- Fui apresentado ao Coursera, um excelente agregador de cursos online de ótimas universidades.
- O aniversário do grande Nelson Mandela foi semana passada, mas vale ver esse vídeo da história da vida dele contada pelas redes sociais.
- Noruega, sempre dando aulas de civilização.
- Ai. Thomas. Friedman.
- O rabugento e exigente Miles Davis ouvindo alguns discos de jazz, e soltando provavelmente um dos maiores elogios que João Gilberto já recebeu: "He could read a newspaper and sound good!"
- É científico: música pop nunca foi tão barulhenta e chata.
- A relação de escritores com dinheiro.
- Porque Nicolas Cage é o maior ator de sua geração.
- O que lê Lisa Simpson.
- A Ernst & Young sobre o impacto socioeconômico da Copa 2014.
- Os inevitáveis links olímpicos: cinco livros sobre a história olímpica de Londres. O Guardian compilou seis previsões do quadro de medalhas (todas com os EUA voltando à frente da China, sem precisar apelar para a contagem de todas as medalhas ao invés de só os ouros). Xavier Sala-i-Martín e The Economist sobre os métodos por trás dessas previsões. Mais uma receita para criar potências olímpicas. O regularmente brilhante Adam Gopnik, da New Yorker, sobre os jogos. Na Foreign Policy, os oito momentos mais carregados de política da história dos jogos.
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sábado, 16 de junho de 2012
Comecemos a nos preocupar
A China planeja construir o edifício mais alto do mundo (838m), em três meses, em Changsha, capital da província de Hunan (que, com 7 milhões de habitantes, não está entre as 30 maiores cidades do país - !!!). O porquê da preocupação? Veja no (ótimo) Humble Student of the Markets.
P.S. Poucos sabem que a versão correta desse gráfico é esta aqui.
P.S. Poucos sabem que a versão correta desse gráfico é esta aqui.
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
Frases do dia - Jim Chanos sobre China
Residential real estate prices, in aggregate in China, at construction cost, are equal to 350% of GDP. The only two economies that ever saw higher numbers at roughly 375% were Japan in 1989 and Ireland in 2007, and both had epic property collapses. So the data does not look good for China.
Da longa entrevista que o Brazilian Bubble achou na Graham and Doddsville, newsletter dos alunos da Columbia Business School. Não poderia recomendar mais a leitura de toda a entrevista para quem se interessa por investimentos. Chanos fala longamente sobre sua carreira, metodologia, características dos mercados, balanços de empresas, China, Europa... Grande oportunidade para aprender com um dos grandes.
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sexta-feira, 18 de maio de 2012
Facebook Inc, dia 1
Assim foi: na abertura houve quem comprou 18,5% acima do preço da emissão, durante o dia chegou a subir quase 12% e terminou praticamente igual. Mais emoções para a segunda-feira, sem suporte dos bancos que fizeram a distribuição.
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quinta-feira, 17 de maio de 2012
Escambo: troco Facebook 0KM por 3M + Danone usadas + uns trocados
![]() |
| Troco você por iogurte e post-its. |
P.S. Outras empresas com valor de mercado ao redor de US$ 100 bilhões: Amazon, Qualcomm, Total, Gazprom, Pepsico, Ambev...
P.P.S. O "bolhômetro" do broadstuff completou oficialmente o nível 7.
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quinta-feira, 26 de abril de 2012
Leituras da Semana
- Dois pesquisadores na Inglaterra reconstruíram o desempenho dos investimentos de Keynes - matéria no Wall Street Journal (de onde saiu o gráfico aí do lado); paper na SSRN.
- O mimimi dos traders de câmbio.
- Benjamin Graham e o primeiro hedge fund da história.
- A Petrobras só sobe o preço da gasolina se o petróleo voltar a US$ 130 / barril (e, suponho, ficar lá por alguns meses). Preços de gasolina ao redor do mundo.
- A ferramenta da Microsoft de busca acadêmica, que, entre outras coisas, traça ligações entre coautores.
- A pequena e irrelevante Harvard juntou-se à guerra contra as editoras que cobram por jornais científicos.
- As FGV de São Paulo e do Rio não concordam muito quanto a Argentina.
- Que ¢$Ħ%Φ*₪ acontece com a Argentina, por Acemoglu e Robinson.
- 11 supostas bolhas que flutuam a altura de nossos olhos.
- Notícia boa: para ser feliz, "bastam" US$ 50 mil por ano. Notícia ruim: isso é mais que o PIB per capita de todos os países do mundo, exceto os 20 mais ricos.
- O Brasil ficou em primeiro em um estudo com 28 países sobre educação financeira. Tanto tempo lidando com indexação e mudanças de regras amalucadas deve ter deixado algum legado.
- Lula encontra Eric Hobsbawm (via Mauricio Santoro).
- Uma história minimalista das Copas do Mundo.
- Quanto custaria a piscina de moedas de ouro do Tio Patinhas (recalcular corrigindo a premissa da onça de ouro a US$ 5 - o preço atual é 330 vezes maior).
- Uma câmera que fotografa descrições.
- O mimimi dos traders de câmbio.
- Benjamin Graham e o primeiro hedge fund da história.
- A Petrobras só sobe o preço da gasolina se o petróleo voltar a US$ 130 / barril (e, suponho, ficar lá por alguns meses). Preços de gasolina ao redor do mundo.
- A ferramenta da Microsoft de busca acadêmica, que, entre outras coisas, traça ligações entre coautores.
- A pequena e irrelevante Harvard juntou-se à guerra contra as editoras que cobram por jornais científicos.
- As FGV de São Paulo e do Rio não concordam muito quanto a Argentina.
- Que ¢$Ħ%Φ*₪ acontece com a Argentina, por Acemoglu e Robinson.
- 11 supostas bolhas que flutuam a altura de nossos olhos.
- Notícia boa: para ser feliz, "bastam" US$ 50 mil por ano. Notícia ruim: isso é mais que o PIB per capita de todos os países do mundo, exceto os 20 mais ricos.
- O Brasil ficou em primeiro em um estudo com 28 países sobre educação financeira. Tanto tempo lidando com indexação e mudanças de regras amalucadas deve ter deixado algum legado.
- Lula encontra Eric Hobsbawm (via Mauricio Santoro).
- Uma história minimalista das Copas do Mundo.
- Quanto custaria a piscina de moedas de ouro do Tio Patinhas (recalcular corrigindo a premissa da onça de ouro a US$ 5 - o preço atual é 330 vezes maior).
- Uma câmera que fotografa descrições.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
Leituras das últimas semanas
- A matéria de capa da última The Atlantic, que estampou uma foto de Ben Bernanke com o título The Hero. Não canso de me espantar com como o mundo gosta de se iludir pelo acaso (ou por menos que isso).
- Para quem não estava no sistema solar semana passada, o editorial do NY Times do executivo (não alto, como disseram alguns - a empresa tem quase 500 sócios, e ele não era um deles) de saída da Goldman Sachs. A resposta do banco, um editorial opinativo da Bloomberg e a saída de Darth Vader do Império.
- A Apple continua sua competição com a Torre de Babel: a companhia já vale mais que um ano de PIB da Polônia ou da Bélgica; e há quem acredite que em um ano esse valor de mercado chegará bem perto de US$ 1 trilhão.
- A resenha do NY Times para o Why Nations Fail, de Daron Acemoglu e James Robinson (a simpática ilustração aí do lado é de lá). A The Economist não gostou tanto.
- O novo livro de Robert Shiller, sobre o papel de finanças como bem público.
- O Valor sobre a famosa biblioteca de Delfim Netto, que está sendo transferida para a FEA-USP. E você não sabia que existem 10 mil livros só sobre marxismo analítico, aposto.
- Um perfil de Naji Nahas, na Folha.
- Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke revisitam a comparação entre a Grande Depressão e nossos tempos esquisitos. A conclusão é que ainda não há espaço para consolidação fiscal.
- William Easterly não perde o costume de bater de frente com Jeffrey Sachs, e explica como não comandaria o Banco Mundial.
- O Fed agora tem uma conta no twitter. A agenda das aulas de Ben Bernanke sobre a instituição na George Washington University, que começam amanhã e terão transmissão ao vivo pela internet.
- Uma entrevista interessante da Folha sobre a Grécia, com o historiador de Columbia Mark Mazower.
- Longa matéria da Exame com Luis Stuhlberger.
- A vida na Itália não deve estar fácil.
- O (apócrifo) soluço de Winston Churchill e como foi desenhado o mapa do Oriente Médio.
- Martin Scorsese vai mesmo filmar O Lobo de Wall Street. Apesar do título grandiloquente, o livro é sobre um rodapé da história dos mercados (e o personagem, um trombadinha perto dos grandes ladrões que já passaram por lá). Ainda assim, deve dar um filme divertido.
- Mitt Romney ou Senhor Burns?
- Para quem não estava no sistema solar semana passada, o editorial do NY Times do executivo (não alto, como disseram alguns - a empresa tem quase 500 sócios, e ele não era um deles) de saída da Goldman Sachs. A resposta do banco, um editorial opinativo da Bloomberg e a saída de Darth Vader do Império.
- A Apple continua sua competição com a Torre de Babel: a companhia já vale mais que um ano de PIB da Polônia ou da Bélgica; e há quem acredite que em um ano esse valor de mercado chegará bem perto de US$ 1 trilhão.
- A resenha do NY Times para o Why Nations Fail, de Daron Acemoglu e James Robinson (a simpática ilustração aí do lado é de lá). A The Economist não gostou tanto.
- O novo livro de Robert Shiller, sobre o papel de finanças como bem público.
- O Valor sobre a famosa biblioteca de Delfim Netto, que está sendo transferida para a FEA-USP. E você não sabia que existem 10 mil livros só sobre marxismo analítico, aposto.
- Um perfil de Naji Nahas, na Folha.
- Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke revisitam a comparação entre a Grande Depressão e nossos tempos esquisitos. A conclusão é que ainda não há espaço para consolidação fiscal.
- William Easterly não perde o costume de bater de frente com Jeffrey Sachs, e explica como não comandaria o Banco Mundial.
- O Fed agora tem uma conta no twitter. A agenda das aulas de Ben Bernanke sobre a instituição na George Washington University, que começam amanhã e terão transmissão ao vivo pela internet.
- Uma entrevista interessante da Folha sobre a Grécia, com o historiador de Columbia Mark Mazower.
- Longa matéria da Exame com Luis Stuhlberger.
- A vida na Itália não deve estar fácil.
- O (apócrifo) soluço de Winston Churchill e como foi desenhado o mapa do Oriente Médio.
- Martin Scorsese vai mesmo filmar O Lobo de Wall Street. Apesar do título grandiloquente, o livro é sobre um rodapé da história dos mercados (e o personagem, um trombadinha perto dos grandes ladrões que já passaram por lá). Ainda assim, deve dar um filme divertido.
- Mitt Romney ou Senhor Burns?
segunda-feira, 5 de março de 2012
Leituras da semana (passada)
- A Apple chegou ao meio trilhão de dólares de valor de mercado, e vai se ver com a lei dos grandes números. Para o pessoal que pensa em vender, não deve animar saber que a Cisco Systems chegou a US$ 700 bilhões no auge da bolha, em 2000.
- Faça você mesmo: a produção de cerveja artesanal e como deveria funcionar o capitalismo.
- Mansueto Almeida fala sobre a entrevista de Paul Krugman a Playboy; o próprio fala sobre a crise na ciência econômica. Scott Adams, o economista que criou o Dilbert, numa variação sobre o tema.
- Maurice Obstfeld, um dos coautores do Krugman, explica porque ainda é importante prestar atenção para déficits em conta corrente.
- Scott Sumner faz uma nova introdução para o monetarismo de mercado.
- O Banco Central de Israel vai radicalizar a "diversificação de reservas" e investir em ações. Espero que a moda não chegue por aqui.
- Como a tributação de energia elétrica atrapalha a distribuição de renda no Brasil.
- Duas leituras obrigatórias para quem mexe com ações (ou tiver interesse no mercado financeiro em geral): as últimas cartas de Warren Buffett e Jeremy Grantham. O site da Berkshire Hathaway continua na vanguarda do design mundial.
- Nova Délhi e São Paulo tiveram os mercados imobiliários mais quentes do mundo no ano passado, segundo o Global Property Guide. Nos EUA, só Detroit ganhou em 2011.
- A piauí tirou do paywall a matéria do João Moreira Salles sobre a Islândia que eu tinha recomendado aqui, vale conferir.
- O grande Amartya Sen vai falar em São Paulo no dia 24 de Abril, marque na agenda.
- Uma entrevista pouco usual com Obama, falando longamente sobre esportes (e deixando escapar que já conta com a reeleição).
- Mais uma para a coleção de anedotas absurdas da Grécia.
- O tweet do ano, por enquanto.
- Faça você mesmo: a produção de cerveja artesanal e como deveria funcionar o capitalismo.
- Mansueto Almeida fala sobre a entrevista de Paul Krugman a Playboy; o próprio fala sobre a crise na ciência econômica. Scott Adams, o economista que criou o Dilbert, numa variação sobre o tema.
- Maurice Obstfeld, um dos coautores do Krugman, explica porque ainda é importante prestar atenção para déficits em conta corrente.
- Scott Sumner faz uma nova introdução para o monetarismo de mercado.
- O Banco Central de Israel vai radicalizar a "diversificação de reservas" e investir em ações. Espero que a moda não chegue por aqui.
- Como a tributação de energia elétrica atrapalha a distribuição de renda no Brasil.
- Duas leituras obrigatórias para quem mexe com ações (ou tiver interesse no mercado financeiro em geral): as últimas cartas de Warren Buffett e Jeremy Grantham. O site da Berkshire Hathaway continua na vanguarda do design mundial.
- Nova Délhi e São Paulo tiveram os mercados imobiliários mais quentes do mundo no ano passado, segundo o Global Property Guide. Nos EUA, só Detroit ganhou em 2011.
- A piauí tirou do paywall a matéria do João Moreira Salles sobre a Islândia que eu tinha recomendado aqui, vale conferir.
- O grande Amartya Sen vai falar em São Paulo no dia 24 de Abril, marque na agenda.
- Uma entrevista pouco usual com Obama, falando longamente sobre esportes (e deixando escapar que já conta com a reeleição).
- Mais uma para a coleção de anedotas absurdas da Grécia.
- O tweet do ano, por enquanto.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Acha que estamos em uma nova bolha de tecnologia? Vai tentar vender...
Já devo ter reproduzido aqui uma meia dúzia de vezes a tabela abaixo, que está acompanhando o mercado de ações de internet / tecnologia na medida em que passos da bolha que estourou em 2000 vão sendo repisados com precisão assustadora (clique para aumentar):
Talvez o diagnóstico seja preciso e estejamos mesmo em uma bolha, que, quando estourar, vai deixar os acionistas de algumas companhias com uma pequena fração do que investiram. Porém, como também já escrevi aqui, tentar lucrar antecipando o estouro de uma bolha é das coisas mais ingratas que um especulador pode se dedicar a fazer. Meu amigo Veiga tem o estranho prazer de acompanhar algumas companhias abertas com negócios mais ou menos estranhos baseados na internet. Com a ajuda dele, montei a tabela abaixo, acrescentando o índice Nasdaq e alguns outros casos que considero emblemáticos:
Timing is a bitch... por enquanto, em 2012, ganharam os que identificaram a bolha e, seguindo a máxima de George Soros, compraram e estão surfando. Se a história se repete, teremos, como em 2000, muita gente inteligente perdendo dinheiro mesmo com a visão de médio / longo prazo se provando correta. Esse negócio de tentar ser mais esperto que o mercado é muito, muito difícil.
Talvez o diagnóstico seja preciso e estejamos mesmo em uma bolha, que, quando estourar, vai deixar os acionistas de algumas companhias com uma pequena fração do que investiram. Porém, como também já escrevi aqui, tentar lucrar antecipando o estouro de uma bolha é das coisas mais ingratas que um especulador pode se dedicar a fazer. Meu amigo Veiga tem o estranho prazer de acompanhar algumas companhias abertas com negócios mais ou menos estranhos baseados na internet. Com a ajuda dele, montei a tabela abaixo, acrescentando o índice Nasdaq e alguns outros casos que considero emblemáticos:
Timing is a bitch... por enquanto, em 2012, ganharam os que identificaram a bolha e, seguindo a máxima de George Soros, compraram e estão surfando. Se a história se repete, teremos, como em 2000, muita gente inteligente perdendo dinheiro mesmo com a visão de médio / longo prazo se provando correta. Esse negócio de tentar ser mais esperto que o mercado é muito, muito difícil.
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Gráfico do dia - mercados imobiliários
Uma perspectiva de longo prazo interessantíssima, que mostra que, em termos reais, os preços de casas nos EUA estão praticamente no mesmo nível que há 112 anos. Levado a sério esse dado, uma possível conclusão é que a bolha que estourou nos EUA em 2007/2008 era muito mais um problema de alavancagem do que de valorização excessiva desse tipo de ativo. Outra é que os preços atuais podem ser a oportunidade de uma vida.
Tirado do Credit Suisse Global Investments Returns Yearbook 2012, que tem muitos outros insights valiosos (dica: Abnormal Returns).
Tirado do Credit Suisse Global Investments Returns Yearbook 2012, que tem muitos outros insights valiosos (dica: Abnormal Returns).
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Facebook indo a público
Poucas coisas irritam mais um investidor / especulador do que ver uma bolha inflando sem participar dos lucros. Claro que, no fim, nenhuma era é tão diferente assim, todas as bolhas estouram e aqueles têm sua compensação pelo menos na forma de schadenfreude. Muitas vezes, porém, o processo é mais longo do que se antecipa e faz muita gente rica enquanto se desenrola - e ganhar com o estouro é, provavelmente, tão difícil quanto com a valorização (de um tal George Soros: "a primeira coisa que faço quando vejo uma bolha é comprar"). O mesmo Soros, junto com pelo menos outro investidor lendário (Julian Robertson), tentou antecipar o furo da bolha do Nasdaq, em 2000, por muito tempo, desistindo meses antes do início da queda. E o livro The Big Short, do Michael Lewis, conta várias histórias de brilhantes especuladores que lucraram com o fim da bolha imobiliária nos EUA, não sem antes quase irem a loucura questionando suas convicções ante o comportamento exuberante do mercado.
Dado isso, é compreensível o tom raivoso de muitos corneteiros de mercados (este escriba incluído) ao saber que o Facebook está nos últimos passos para uma oferta pública inicial de ações, que deve levantar algo como US$ 10 bilhões e determinar um valor de mercado entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões para a companhia (mais aqui). Para uma ideia das grandezas: uma oferta de US$ 10 bilhões seria cinco vezes maior que o IPO do Google, em 2004, e o terceiro maior da história do mercado de capitais dos EUA. Um investidor com US$ 100 bilhões (por acaso, mais ou menos o que a Apple tem em caixa - chorem, pobres!) poderia escolher entre comprar, grosso modo, 100% do Facebook ou escolher uma entre empresas do porte de: Unilever, Cisco, Verizon, Schlumberger, Pepsico, Sanofi (o Google e seus anos de sucesso valem US$ 190 bilhões no mercado, mais ou menos o mesmo que a Petrobras). Ainda que comparando fluxos e estoques, US$ 100 bilhões equivalem a um ano de PIB do Marrocos.
A questão de vários milhões de patacas é se de fato estamos assistindo aos desenvolvimentos finais de uma estranha nova bolha de tecnologia (ver aqui) ou se, com o tempo, o Facebook vai conseguir gerar os fluxos de caixa / crescimento que justifiquem seu preço em bolsa. Para fazer uma conta de padaria: com um valor de mercado de US$ 100 bilhões e um múltiplo preço / lucro igual ao do Google (20x), o Facebook teria que ser capaz de gerar lucros de US$ 5 bilhões por ano - em 2011, gerou entre zero e US$ 1 bilhão, dependendo da fonte. Para quem compra, mais importante do que acreditar nesse crescimento é se convencer de que o modelo de negócios do Facebook é estável, e que a empresa é de fato o modelo definitivo de rede social - sendo que tantas outras que pareciam promissoras caíram no esquecimento antes de fazer qualquer dinheiro para seus compradores finais. Há opiniões de "especialistas" para todos os lados; eu acho as premissas muito, muito frágeis - mas pelo menos desde que a empresa era avaliada em "apenas" US$ 50 bilhões. Façamos nossas apostas e assistamos a uma das grandes histórias corporativas dos nossos tempos.
P.S. Sim, acho que o Zuckerberg é mais um iludido pelo acaso do que um visionário.
P.P.S. O Wolfram|Alpha está muito bacana pra levantar informações de empresas listadas. Treme, Bloomberg.
Dado isso, é compreensível o tom raivoso de muitos corneteiros de mercados (este escriba incluído) ao saber que o Facebook está nos últimos passos para uma oferta pública inicial de ações, que deve levantar algo como US$ 10 bilhões e determinar um valor de mercado entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões para a companhia (mais aqui). Para uma ideia das grandezas: uma oferta de US$ 10 bilhões seria cinco vezes maior que o IPO do Google, em 2004, e o terceiro maior da história do mercado de capitais dos EUA. Um investidor com US$ 100 bilhões (por acaso, mais ou menos o que a Apple tem em caixa - chorem, pobres!) poderia escolher entre comprar, grosso modo, 100% do Facebook ou escolher uma entre empresas do porte de: Unilever, Cisco, Verizon, Schlumberger, Pepsico, Sanofi (o Google e seus anos de sucesso valem US$ 190 bilhões no mercado, mais ou menos o mesmo que a Petrobras). Ainda que comparando fluxos e estoques, US$ 100 bilhões equivalem a um ano de PIB do Marrocos.
A questão de vários milhões de patacas é se de fato estamos assistindo aos desenvolvimentos finais de uma estranha nova bolha de tecnologia (ver aqui) ou se, com o tempo, o Facebook vai conseguir gerar os fluxos de caixa / crescimento que justifiquem seu preço em bolsa. Para fazer uma conta de padaria: com um valor de mercado de US$ 100 bilhões e um múltiplo preço / lucro igual ao do Google (20x), o Facebook teria que ser capaz de gerar lucros de US$ 5 bilhões por ano - em 2011, gerou entre zero e US$ 1 bilhão, dependendo da fonte. Para quem compra, mais importante do que acreditar nesse crescimento é se convencer de que o modelo de negócios do Facebook é estável, e que a empresa é de fato o modelo definitivo de rede social - sendo que tantas outras que pareciam promissoras caíram no esquecimento antes de fazer qualquer dinheiro para seus compradores finais. Há opiniões de "especialistas" para todos os lados; eu acho as premissas muito, muito frágeis - mas pelo menos desde que a empresa era avaliada em "apenas" US$ 50 bilhões. Façamos nossas apostas e assistamos a uma das grandes histórias corporativas dos nossos tempos.
P.S. Sim, acho que o Zuckerberg é mais um iludido pelo acaso do que um visionário.
P.P.S. O Wolfram|Alpha está muito bacana pra levantar informações de empresas listadas. Treme, Bloomberg.
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Conferindo as previsões para 2011 - perdas & danos
No final do ano passado, me meti a fazer algumas previsões para 2011. Seguindo a tradição que diz que economistas devem dizer o que vai acontecer no futuro e depois explicar porque erraram (acho que a ideia é do Churchill), aí vai o meu confronto com a realidade. Na primeira semana de 2012 faço as previsões para o ano novo.
- Os juros longos no Brasil vão continuar caindo, possivelmente para os níveis mais baixos da história.
Caíram, é verdade - os juros locais de dez anos foram de 12% para algo como 11,2% no fechamento de ontem, mas ainda estão longe dos patamares mais baixos da história (abaixo de 10%, em meados de 2007). Na prática, a execução foi muito problemática, já que até julho os juros estavam em alta e quase todo o movimento de queda foi feito durante agosto (mês em que eu estava de férias, diga-se de passagem). Quem teve estômago e paciência fez algum dinheiro, e as quedas maiores foram nos juros curtos, mais diretamente influenciados pela mudança de postura do Banco Central. Conto a previsão como meio certa.
- A inflação no Brasil será mais baixa do que o mercado prevê.
Errei feio. O último relatório Focus do ano passado previa o IPCA de 2011 em 5,32%; deve ficar bem perto do teto da meta, 6,5%.
- Mais algum banco médio brasileiro vai ter problemas com a carteira de crédito.
A história do Panamericano é um misto disso com fraude, e o ano não foi exatamente bom para o modelo de negócio desses bancos, deve ter muito mais por vir. Ponto pra mim.
- As ações de bancos na Europa vão seguir caindo. Possivelmente alguns bancos grandes serão nacionalizados ou receberão ajuda dos governos.
O índice Stoxx 600 Banks, que engloba os bancos do continente, caiu até agora 33,3%. Todos os grandes bancos do continente, sem exceção, perderam valor de mercado, em alguns casos mais da metade (os franceses Société Générale e Crédit Agricole). A ajuda do governo, em termos de liquidez, foi ampla e enorme, e o Dexia foi nacionalizado na Bélgica. Ponto.
- A União Européia vai garantir a dívida de todos os seus membros. Dessa forma, o esfacelamento do euro que eu achava que ia ocorrer vai ser adiado, até que algum país não aguente mais conviver com uma moeda valorizada.
De fato, o euro não se esfacelou (há quem diga que chegou perto disso). Não houve uma garantia formal para as dívidas, mas estamos caminhando para isso, e, nos casos mais problemáticos, a ajuda multinacional tirou o financiamento do mercado. 3/4 de ponto, creio.
- O Brasil vai começar a ter problemas com financiamento externo. O real vai se desvalorizar. As reservas internacionais vão parar de crescer.
2/3 errado: o financiamento externo para o Brasil continuou sendo tranquilo, em parte por uma balança comercial melhor do que quase todo mundo esperava (o Focus previa US$ 8 bilhões, o acumulado até Novembro foi quase US$ 26 bilhões) e por grandes entradas de investimento direto. Como consequência, as reservas subiram para quase US$ 350 bilhões, ainda que estejam praticamente estáveis desde o final de Julho. Ainda assim, o real deve fechar o ano com cerca de 10% de desvalorização contra o dólar americano, que foi, junto com o iene, a moeda forte de 2011.
- A bolha do ouro e da prata vai estourar; o preço de ambos cairá pelo menos 20%.
Grande erro, ainda que ambos estejam longe das máximas do ano, 2011 deve terminar com o ouro ganhando mais de 10% e a prata com queda de 5%. Nada de bolha aqui, por enquanto.
- Vender volatilidade nos picos vai novamente ser uma estratégia ganhadora. O mercado caminha para cada vez mais preços controlados.
Agora vejo que essa previsão, levada ao pé da letra, é auto-realizável: se a venda é no pico, necessariamente todos os níveis posteriores são mais baixos. De qualquer maneira, olhando para o VIX, algo desse tipo teria funcionado: os grandes spikes em volatilidade duraram poucos dias, concentrados entre agosto e setembro, e sempre foram seguidos de reversões rápidas e violentas. Durante Dezembro, o VIX colapsou e deve terminar o ano perto de onde começou.
No campo mais abstrato, uma tese a ser comprovada é "as consequências econômicas de mr Taleb": a popularização da compra de seguros contra eventos extremos elevou muito o preço de "risco", a ponto desse tipo de estratégia não ser mais eficiente. Quem desenvolver isso já tem uma boa tese de mestrado pronta.
- A carteira de crédito do BNDES vai começar a ter problemas. Talvez demore mais do que um ano, mas a JBS não vai se aguentar.
Ainda não foi dessa vez que o BNDES teve que reconhecer grandes perdas em investimentos, mas mantenho a convicção. E a JBS nem é o pior caso...
- Não terminarão o ano acima dos preços máximos deste ano as ações de: Apple, Netflix, bancos brasileiros, índice do México, índice da Alemanha. E, sinto informar, o Facebook não vale US$ 40 bilhões.
Variações em 2011 (sem nem olhar as máximas de 2010, que são quase todas mais altas que o fechamento): Apple +23,5%, Netflix -58%, Itaú -12%, Bradesco -4%, Banco do Brasil -24%, Santander Brasil -33%, índice IPC do México -3,8% (em moeda local, -14% em dólares), índice DAX -17%. Nada mal o índice de acerto - só errei a Apple, aposta que vou renovar para 2012. Quanto ao Facebook... continuo achando que não vale US$ 40 bilhões, mas a última estimativa de precificação para o IPO é de módicos US$ 100 bilhões. Veremos...
- Preços de imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro vão seguir altos (e, possivelmente, subindo).
O índice FIPE ZAP (Case-Shiller, o FIPE ZAP deles) de São Paulo subiu 25% até Novembro; no Rio, a alta foi de quase 30% no mesmo período. Nada de bolha estourando aqui, também.
- Eike Batista vai seguir vendendo promessas. Guido Mantega vai continuar falando asneiras. Ben Bernanke vai seguir imprimindo. Eu vou seguir reclamando.
Essa era covardia, não vou nem contar como acerto - vide as bravatas do Eike, as Mantegadas, o prosseguimento da política monetária expansiva nos EUA e a manutenção do tom rabugento deste blog.
- Vai ficar cada vez mais claro o quanto Lula foi sortudo. E a culpa vai ser colocada em dona Dilma. É do jogo...
Meu ponto aqui eram os preços de commodities, que, no geral, não caíram e seguiram disfarçando muitas fragilidades da economia brasileira. O que ficou claro, considerando as quedas quase mensais de ministros, é quanto o arranjo político dos últimos anos dependia da, digamos, flexibilidade e capacidade de afagar quase todos os lados do Lula. A vida para Dilma é mais difícil, e não necessariamente isso é culpa exclusiva dela.
- Vou errar pelo menos metade das previsões acima. Espero não perder leitores por isso. Saravá!
Na minha contagem esquisita, até agora errei 5,76 de 12 possíveis, o que significa que acertei mais da metade e errei esta metaprevisão, o que prejudica meu desempenho total (maldita falta de autoconfiança). Ficaria interessante se eu tirasse o "acima" desta previsão: colocar este erro na conta contaria como mais um acerto, e cairíamos em algo próximo ao Paradoxo de Russell (os eventuais leitores que realmente conhecem lógica e matemática podem me apedrejar).
Em resumo, foi mais um ano que confirmou a grande sabedoria de Yogi Berra: é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. Outra confirmação foi a de que na prática, a teoria é outra: ainda que eu tenha acertado relativamente bastante do cenário, o desempenho do meu portifólio foi muito aquém do que isso poderia sugerir. Resta manter o humor e tentar de novo em 2012.
- Os juros longos no Brasil vão continuar caindo, possivelmente para os níveis mais baixos da história.
Caíram, é verdade - os juros locais de dez anos foram de 12% para algo como 11,2% no fechamento de ontem, mas ainda estão longe dos patamares mais baixos da história (abaixo de 10%, em meados de 2007). Na prática, a execução foi muito problemática, já que até julho os juros estavam em alta e quase todo o movimento de queda foi feito durante agosto (mês em que eu estava de férias, diga-se de passagem). Quem teve estômago e paciência fez algum dinheiro, e as quedas maiores foram nos juros curtos, mais diretamente influenciados pela mudança de postura do Banco Central. Conto a previsão como meio certa.
- A inflação no Brasil será mais baixa do que o mercado prevê.
Errei feio. O último relatório Focus do ano passado previa o IPCA de 2011 em 5,32%; deve ficar bem perto do teto da meta, 6,5%.
- Mais algum banco médio brasileiro vai ter problemas com a carteira de crédito.
A história do Panamericano é um misto disso com fraude, e o ano não foi exatamente bom para o modelo de negócio desses bancos, deve ter muito mais por vir. Ponto pra mim.
- As ações de bancos na Europa vão seguir caindo. Possivelmente alguns bancos grandes serão nacionalizados ou receberão ajuda dos governos.
O índice Stoxx 600 Banks, que engloba os bancos do continente, caiu até agora 33,3%. Todos os grandes bancos do continente, sem exceção, perderam valor de mercado, em alguns casos mais da metade (os franceses Société Générale e Crédit Agricole). A ajuda do governo, em termos de liquidez, foi ampla e enorme, e o Dexia foi nacionalizado na Bélgica. Ponto.
- A União Européia vai garantir a dívida de todos os seus membros. Dessa forma, o esfacelamento do euro que eu achava que ia ocorrer vai ser adiado, até que algum país não aguente mais conviver com uma moeda valorizada.
De fato, o euro não se esfacelou (há quem diga que chegou perto disso). Não houve uma garantia formal para as dívidas, mas estamos caminhando para isso, e, nos casos mais problemáticos, a ajuda multinacional tirou o financiamento do mercado. 3/4 de ponto, creio.
- O Brasil vai começar a ter problemas com financiamento externo. O real vai se desvalorizar. As reservas internacionais vão parar de crescer.
2/3 errado: o financiamento externo para o Brasil continuou sendo tranquilo, em parte por uma balança comercial melhor do que quase todo mundo esperava (o Focus previa US$ 8 bilhões, o acumulado até Novembro foi quase US$ 26 bilhões) e por grandes entradas de investimento direto. Como consequência, as reservas subiram para quase US$ 350 bilhões, ainda que estejam praticamente estáveis desde o final de Julho. Ainda assim, o real deve fechar o ano com cerca de 10% de desvalorização contra o dólar americano, que foi, junto com o iene, a moeda forte de 2011.
- A bolha do ouro e da prata vai estourar; o preço de ambos cairá pelo menos 20%.
Grande erro, ainda que ambos estejam longe das máximas do ano, 2011 deve terminar com o ouro ganhando mais de 10% e a prata com queda de 5%. Nada de bolha aqui, por enquanto.
- Vender volatilidade nos picos vai novamente ser uma estratégia ganhadora. O mercado caminha para cada vez mais preços controlados.
Agora vejo que essa previsão, levada ao pé da letra, é auto-realizável: se a venda é no pico, necessariamente todos os níveis posteriores são mais baixos. De qualquer maneira, olhando para o VIX, algo desse tipo teria funcionado: os grandes spikes em volatilidade duraram poucos dias, concentrados entre agosto e setembro, e sempre foram seguidos de reversões rápidas e violentas. Durante Dezembro, o VIX colapsou e deve terminar o ano perto de onde começou.
No campo mais abstrato, uma tese a ser comprovada é "as consequências econômicas de mr Taleb": a popularização da compra de seguros contra eventos extremos elevou muito o preço de "risco", a ponto desse tipo de estratégia não ser mais eficiente. Quem desenvolver isso já tem uma boa tese de mestrado pronta.
- A carteira de crédito do BNDES vai começar a ter problemas. Talvez demore mais do que um ano, mas a JBS não vai se aguentar.
Ainda não foi dessa vez que o BNDES teve que reconhecer grandes perdas em investimentos, mas mantenho a convicção. E a JBS nem é o pior caso...
- Não terminarão o ano acima dos preços máximos deste ano as ações de: Apple, Netflix, bancos brasileiros, índice do México, índice da Alemanha. E, sinto informar, o Facebook não vale US$ 40 bilhões.
Variações em 2011 (sem nem olhar as máximas de 2010, que são quase todas mais altas que o fechamento): Apple +23,5%, Netflix -58%, Itaú -12%, Bradesco -4%, Banco do Brasil -24%, Santander Brasil -33%, índice IPC do México -3,8% (em moeda local, -14% em dólares), índice DAX -17%. Nada mal o índice de acerto - só errei a Apple, aposta que vou renovar para 2012. Quanto ao Facebook... continuo achando que não vale US$ 40 bilhões, mas a última estimativa de precificação para o IPO é de módicos US$ 100 bilhões. Veremos...
- Preços de imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro vão seguir altos (e, possivelmente, subindo).
O índice FIPE ZAP (Case-Shiller, o FIPE ZAP deles) de São Paulo subiu 25% até Novembro; no Rio, a alta foi de quase 30% no mesmo período. Nada de bolha estourando aqui, também.
- Eike Batista vai seguir vendendo promessas. Guido Mantega vai continuar falando asneiras. Ben Bernanke vai seguir imprimindo. Eu vou seguir reclamando.
Essa era covardia, não vou nem contar como acerto - vide as bravatas do Eike, as Mantegadas, o prosseguimento da política monetária expansiva nos EUA e a manutenção do tom rabugento deste blog.
- Vai ficar cada vez mais claro o quanto Lula foi sortudo. E a culpa vai ser colocada em dona Dilma. É do jogo...
Meu ponto aqui eram os preços de commodities, que, no geral, não caíram e seguiram disfarçando muitas fragilidades da economia brasileira. O que ficou claro, considerando as quedas quase mensais de ministros, é quanto o arranjo político dos últimos anos dependia da, digamos, flexibilidade e capacidade de afagar quase todos os lados do Lula. A vida para Dilma é mais difícil, e não necessariamente isso é culpa exclusiva dela.
- Vou errar pelo menos metade das previsões acima. Espero não perder leitores por isso. Saravá!
Na minha contagem esquisita, até agora errei 5,76 de 12 possíveis, o que significa que acertei mais da metade e errei esta metaprevisão, o que prejudica meu desempenho total (maldita falta de autoconfiança). Ficaria interessante se eu tirasse o "acima" desta previsão: colocar este erro na conta contaria como mais um acerto, e cairíamos em algo próximo ao Paradoxo de Russell (os eventuais leitores que realmente conhecem lógica e matemática podem me apedrejar).
Em resumo, foi mais um ano que confirmou a grande sabedoria de Yogi Berra: é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. Outra confirmação foi a de que na prática, a teoria é outra: ainda que eu tenha acertado relativamente bastante do cenário, o desempenho do meu portifólio foi muito aquém do que isso poderia sugerir. Resta manter o humor e tentar de novo em 2012.
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um grande filme sobre a crise e o mercado financeiro: Margin Call
[O texto deve ter alguns spoilers - nada que atrapalhe muito quem ainda não assistiu, mas os mais sensíveis a isso talvez prefiram ver o filme antes de ler.]
David Denby, um dos críticos de cinema da New Yorker, disse que Margin Call é "facilmente o melhor filme já feito sobre Wall Street", afirmação da qual é difícil discordar. O que me leva a essa conclusão é tanto o que o filme mostra (mais adiante) quanto o que não mostra: aqui não têm vez prostitutas de luxo (pelo menos visualmente), cocaína, conspirações, mesas de operações histéricas e dândis de dockside sem meia ostentando relógios de ouro. Os estereótipos dão vez a um realismo cínico que é facilmente identificado por quem já trabalhou no mercado financeiro, e a história e os diálogos são tão bem construídos (claro que o elenco estelar ajuda) que mesmo quem não tem interesse particular pelo assunto vê os 107 minutos passarem com facilidade.
Margin Call acompanha 36 horas infernais na vida de um banco de investimentos americano, envolvido até o último fio de cabelo na bolha imobiliária que estourou nos EUA em 2008. As referências ao Lehman Brothers são óbvias: desde a data escolhida para o lançamento no circuito americano (15 de setembro, exatos três anos depois que o Lehman pediu falência) até o nome do presidente do banco fictício - John Tuld, mudando uma letra pode-se ter o ex-presidente do Lehman (Fuld) ou o Inglês para "pedaço de merda" (turd - não sei se essa sacanagem foi intencional, mas me pareceu evidente). Nesse tempo, um executivo de riscos é demitido e entrega para um de seus funcionários um pen drive (uma das poucas cenas pouco críveis do filme - o segurança do banco que o acompanhava no elevador jamais teria permitido). Nele estão simulações estatísticas que levam à conclusão inevitável de que o banco está muito perto de ir pelo ralo.
A partir daí, toda a hierarquia da companhia é convocada para um comitê apocalíptico. Claro que os altos executivos já haviam sido avisados da situação, mas decidiram, como a esmagadora maioria do mercado, dançar até os últimos acordes da música (imagem criada por um ex-presidente do Citi e usada com muita propriedade no filme). Aí começam as diferenças com a realidade: enquanto o Lehman não conseguiu (ou não quis) tomar as medidas que salvariam o banco, e esperou até a última hora por um comprador ou pela intervenção do governo (essa situação está muito bem ilustrada em outro filme bastante recomendável, Too Big To Fail), o banco de Margin Call é o primeiro no mercado a perceber que a música parou. Levando isso em conta, toma as medidas para salvar a companhia: uma das frases antológicas do presidente John Tuld é "existem três maneiras de sobreviver no negócio: ser o primeiro, ser o mais esperto ou trapacear"; em um dia a equipe da mesa de operações exercita um pouco de cada uma delas e, ao fim desse dia, entendo que o banco estava salvo (creio que quem fez algo mais próximo disso na vida real foi a Goldman Sachs).
Enredo à parte, a galeria de personagens, do analista recém formado até o presidente do banco, passando por traders, executivos de risco e sócios, é riquíssima e completamente sintonizada com a realidade. O elenco, como já disse, é fabuloso: só para ficar nos nomes mais famosos, Jeremy Irons, Kevin Spacey, Paul Bettany, Stanley Tucci, Demi Moore, todos excelentes em seus papéis. A direção e o roteiro, de J.C. Chandor, são muito competentes, mais ainda levando em conta que é o primeiro longa no qual trabalhou. O conjunto é um grande filme sobre os nossos tempos, informativo sem ser exageradamente denso; acima de tudo, entretenimento de grande qualidade, que acho que é dos melhores elogios que podem ser feitos a um filme.
Margin Call estreou em São Paulo semana passada, e, enquanto escrevo, ainda sobrevive em três salas. Não sei se já está disponível nos iTunes e Netflix da vida; se não, deve aparecer em breve.
P.S. Não há nenhuma chamada de margem no filme, apesar do título. E é quase óbvio dizer o quanto é desnecessário o subtítulo aqui no Brasil (O Dia Antes do Fim).
David Denby, um dos críticos de cinema da New Yorker, disse que Margin Call é "facilmente o melhor filme já feito sobre Wall Street", afirmação da qual é difícil discordar. O que me leva a essa conclusão é tanto o que o filme mostra (mais adiante) quanto o que não mostra: aqui não têm vez prostitutas de luxo (pelo menos visualmente), cocaína, conspirações, mesas de operações histéricas e dândis de dockside sem meia ostentando relógios de ouro. Os estereótipos dão vez a um realismo cínico que é facilmente identificado por quem já trabalhou no mercado financeiro, e a história e os diálogos são tão bem construídos (claro que o elenco estelar ajuda) que mesmo quem não tem interesse particular pelo assunto vê os 107 minutos passarem com facilidade.
Margin Call acompanha 36 horas infernais na vida de um banco de investimentos americano, envolvido até o último fio de cabelo na bolha imobiliária que estourou nos EUA em 2008. As referências ao Lehman Brothers são óbvias: desde a data escolhida para o lançamento no circuito americano (15 de setembro, exatos três anos depois que o Lehman pediu falência) até o nome do presidente do banco fictício - John Tuld, mudando uma letra pode-se ter o ex-presidente do Lehman (Fuld) ou o Inglês para "pedaço de merda" (turd - não sei se essa sacanagem foi intencional, mas me pareceu evidente). Nesse tempo, um executivo de riscos é demitido e entrega para um de seus funcionários um pen drive (uma das poucas cenas pouco críveis do filme - o segurança do banco que o acompanhava no elevador jamais teria permitido). Nele estão simulações estatísticas que levam à conclusão inevitável de que o banco está muito perto de ir pelo ralo.
A partir daí, toda a hierarquia da companhia é convocada para um comitê apocalíptico. Claro que os altos executivos já haviam sido avisados da situação, mas decidiram, como a esmagadora maioria do mercado, dançar até os últimos acordes da música (imagem criada por um ex-presidente do Citi e usada com muita propriedade no filme). Aí começam as diferenças com a realidade: enquanto o Lehman não conseguiu (ou não quis) tomar as medidas que salvariam o banco, e esperou até a última hora por um comprador ou pela intervenção do governo (essa situação está muito bem ilustrada em outro filme bastante recomendável, Too Big To Fail), o banco de Margin Call é o primeiro no mercado a perceber que a música parou. Levando isso em conta, toma as medidas para salvar a companhia: uma das frases antológicas do presidente John Tuld é "existem três maneiras de sobreviver no negócio: ser o primeiro, ser o mais esperto ou trapacear"; em um dia a equipe da mesa de operações exercita um pouco de cada uma delas e, ao fim desse dia, entendo que o banco estava salvo (creio que quem fez algo mais próximo disso na vida real foi a Goldman Sachs).
Enredo à parte, a galeria de personagens, do analista recém formado até o presidente do banco, passando por traders, executivos de risco e sócios, é riquíssima e completamente sintonizada com a realidade. O elenco, como já disse, é fabuloso: só para ficar nos nomes mais famosos, Jeremy Irons, Kevin Spacey, Paul Bettany, Stanley Tucci, Demi Moore, todos excelentes em seus papéis. A direção e o roteiro, de J.C. Chandor, são muito competentes, mais ainda levando em conta que é o primeiro longa no qual trabalhou. O conjunto é um grande filme sobre os nossos tempos, informativo sem ser exageradamente denso; acima de tudo, entretenimento de grande qualidade, que acho que é dos melhores elogios que podem ser feitos a um filme.
Margin Call estreou em São Paulo semana passada, e, enquanto escrevo, ainda sobrevive em três salas. Não sei se já está disponível nos iTunes e Netflix da vida; se não, deve aparecer em breve.
P.S. Não há nenhuma chamada de margem no filme, apesar do título. E é quase óbvio dizer o quanto é desnecessário o subtítulo aqui no Brasil (O Dia Antes do Fim).
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