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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Espanha e os 0,1%, aplicado ao futebol

Anteontem, na premiação da FIFA de melhores de 2012 no futebol, foi escolhida uma seleção mundial - os 11 jogadores mais votados por mais de 50.000 outros jogadores profissionais. Em teoria e descontados alguns vieses, são os melhores jogadores do mundo em suas respectivas posições - ou pelo menos é seguro afirmar que estão entre os três ou cinco primeiros em todos os casos. Chamou-me a atenção que todos, 100%, os 11, jogam em clubes espanhóis - cinco no Real Madrid, cinco no Barcelona e um no Atletico de Madrid.


A Espanha, como sabemos, terminou o ano passado com mais de 25% de desemprego - 56,5% para os jovens com menos de 25 anos. Passou mais da metade dos últimos quatro anos em recessão. Ainda assim, seus clubes têm dinheiro para pagar e manter os onze maiores futebolistas em atividade no mundo. Onde está o erro?

Dá pra falar de vários aspectos desse caso (quer dizer, daria se eu entendesse alguma coisa dos assuntos), todos fascinantes: a capacidade do futebol descolar do ambiente da sede dos clubes, tanto pela transcendência do esporte quanto pelo dinheiro globalizado aplicado nos times grandes; a atual fase do futebol espanhol (mais da metade dos eleitos) e a tendência desses jogadores preferirem jogar no país / clube de origem, mesmo com potenciais ofertas melhores; o efeito "winner takes all" que o atual esquema de receitas alimenta; a enganação que são os "dois melhores laterais do mundo" brasileiros, etc... Vou me concentrar em um que especialmente me incomoda: os subsídios cruzados que ajudam a sustentar o futebol.

Os times da liga espanhola, segundo estudo de um professor da Universidade de Barcelona (mais, muito mais no ótimo The Swiss Ramble) acumulam cerca de €3,5 bilhões em dívidas - Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, somados, correspondem a quase metade desse valor. Os clubes devem a bancos, outros clubes e ao fisco espanhol (€426 milhões para este). No mundo ideal, essas dívidas um dia seriam devidamente pagas. Clubes de futebol, porém, não estão entre os melhores pagadores, talvez porque não têm grandes incentivos para tal: como executar um grande clube? Decretar sua falência, liquidar e encerrar a história? Quem vai lidar com a pressão popular, ou dos torcedores poderosos (apenas o rei da Espanha, no caso do Real Madrid)? Para piorar, estamos numa conjuntura em que bancos não podem mais quebrar, e suas más decisões de crédito, emprestar a times de futebol entre elas, acabam sendo bancadas pelo contribuinte.

No fim das contas, todos os contribuintes acabam sustentando os clubes - o governo precisa arrecadar de outra maneira os impostos que deixa de cobrar, resgata os bancos que emprestaram aos clubes e, pelo exemplo brasileiro (deve haver muitos outros), resgata os próprios clubes, quando preciso. É um crowdfunding compulsório, tendo como fundo a ideia que clubes de futebol são, ao menos parcialmente, bens públicos. Podem até ser, mas isso deveria ficar mais claro para que os eleitores decidam se é legítimo manter essa casta de multimilionários às custas da população.

O caso específico da Espanha hoje parece particularmente imoral pelo descolamento entre a conjuntura do país e a riqueza da liga de futebol, mas não é o único. Nem é o futebol - o mundo está repleto de negócios que criam milionários indiretamente subsidiados por contribuintes. É ridículo políticos defenderem uma era de austeridade geral  enquanto esses casos não se tornarem explícitos, analisados e repensados.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Conferindo as previsões para 2012

Hora do leitor se divertir com a pretensão deste escriba ao imaginar há um ano o que aconteceria nos doze meses seguintes:


- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.

Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.

- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.

Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.

- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.

A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.

- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...

Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.

- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.

2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.

- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.

De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.

- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).

A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.

- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.

É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.

- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.

A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.

- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).

Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.

- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.

Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.

- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.

10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.

- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.

Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.

- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.

BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.

- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.

Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.

- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.

De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.

- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.

Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.

- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.

Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.

- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.

Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.

- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).

Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.

- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.

Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:


They all laughed at Christopher Columbus 
When he said the world was round 
They all laughed when Edison recorded sound 
They all laughed at Wilbur and his brother 
When they said that man could fly 

They told Marconi 
Wireless was a phony 
It's the same old cry 

(...)


For ho, ho, ho! 
Who's got the last laugh? 
Hee, hee, hee! 
Let's at the past laugh 
Ha, ha, ha! 
Who's got the last laugh now?

E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.



- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.

Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:


0,7 / 1.

- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.

Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.

- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.

Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.

- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.

Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.

- Vou errar mais previsões do que no ano passado.

Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):

Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%

Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).

Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.


Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Gráfico do Dia - rentabilidade civilizada

De um ótimo relatório do J.P. Morgan sobre bancos na América Latina. Pelo menos quando comparados aos dos pares no continente, os retornos dos bancos brasileiros não podem ser qualificados como "astronômicos". Já tinha observado algo parecido aqui.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Leituras da Semana

- Fabio Giambiagi sobre o impacto da queda dos juros nos fundos de pensão brasileiros.

- Olivier Blanchard sobre o multiplicador fiscal.

- Um ótimo trabalho do Banco da Inglaterra defendendo mais simplicidade na regulação bancária, fortemente inspirado nas ideias do psicólogo alemão Gerd Gigerenzer.

- Aritmética simples aplicada a preços pode ser muito cruel.

- Um paper sobre o aumento do uso de equações e ferramentas econométricas nos trabalhos de economia. Essa figura é de lá (via Justin Wolfers):


- A última edição da Foreign Policy, sobre economia global, está muito boa: quem ganhou na Grande Recessão, repensando os BRICS e alguns pensamentos de Nassim Taleb.

- Noah Smith divaga sobre as consequências de blogar sobre economia.

- A relação (ou não) entre centros financeiros e centros de arte.

- A Suécia leva a sério essa história de igualidade.

- Ótimo texto sobre parte da geração que chega agora aos 20 e alguns anos, seu egocentrismo e problemas em lidar com o mundo fora da faculdade (acho que em larga medida vale também para a minha geração, dos 30 e poucos). Dica: Marcio Guilherme.

- Small Demons, um site que lista referências culturais em livros e vai te tomar muitas e muitas horas.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Gráficos do Dia - Lucky (and Expensive) Country

Estou cada vez mais convencido de um caso pessimista para a Austrália, sobretudo para a moeda (o índice de ações já parece razoavelmente descontado). Minha hipótese é que o momento favorável para termos de troca já acabou, e que a moeda está sendo sustentada sobretudo por compras de bancos centrais (como o da Suíça, notado pelo próprio BC da Austrália) - dinheiro que chega atrasado e é quase insensível a fundamentos e preço.

O caso dos termos de troca da Austrália é bastante parecido com o do Brasil, com a diferença fundamental da postura dos bancos centrais - daí ser possível imaginar que o dólar australiano é ainda mais sobrevalorizado do que o real. Veremos como anda nos próximos meses.

Gráfico do estudo recente da McKinsey

Gráfico do UBS, via FT Alphaville. Clique para aumentar.
Minério de ferro 62% Fe, porto de Tianjin, US$ / tonelada

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Leituras da Semana e Meia

Índia, 65
- O Spiegel acha que o Brasil é um país-modelo. Ouch.

- Mark Dow sobre as dificuldades dos fundos global macro.

- Uma lista de leituras para o verão europeu, por Barry Eichengreen.

- Nicholas Kaldor, há 41 anos, sobre a União Européia.

- A Companhia das Letras lança ainda esta semana a versão brasileira do livro de Sylvia Nasar sobre pensamento econômico. A Folha publicou um trecho e a resenha do NY Times. Eu havia resenhado aqui.

- John Kay sobre a abordagem de Keynes para probabilidade.

- 36 indicadores econômicos bizarros.

- Nassim Taleb acha que não é mais uma boa ideia trabalhar na indústria de investimentos.

- Uma retrospectiva da crise argentina.

- McKinsey sobre a Austrália.

- Começa a esquentar o debate pré-eleições nos EUA: Simon Schama e a escolha entre Franklin Roosevelt e Ayn Rand. A matéria de capa da última Newsweek, com Niall Ferguson panfletando para os republicanos. Entre as dezenas de reações, a de Noah Smith e o comentário de John Cassidy. Ezra Klein e o melhor caso contra o mandato de Obama.

- Jeremy Grantham sobre a crise de alimentos.

- O Oikomania faz um resumo sobre as hipóteses correntes para o desenvolvimento.

- As desigualdades regionais na Europa e uma boa reflexão sobre educação.

- Um manual do Brasil, pelo J.P. Morgan.

- William Easterly prova que as Olimpíadas não produzem medalhas.

- Os guias de viagens e suas concessões a tiranias.

- Como tem crescido o consumo de cerveja no mundo.

- Das Kapital em mangá.

- Caso não saibam, é proibido entrar com livros em estádios de futebol no Brasil.

- O Financial Times lê o quadro de medalhas das Olimpíadas de Londres.

- As 10 verdadeiras lições de gestão dos jogos.

- Sonny Rollins na New York Review of Books.

- A globalização segundo a revista Cosmopolitan (Nova, por aqui).

- Os bons tempos em que se podia beber no trabalho.

- Fotos dos 65 anos de independência do Paquistão e da Índia.

- Escândalo: o bolovo é uma invenção escocesa.

- Um grande dilema de lecionar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Passeando pelo mundo das ações

O Merrill Lynch publicou há alguns dias um relatório inspiradamente intitulado The Equity Hitchhiker’s Guide to the Global Galaxy. Para quem olha os mercados a uma certa altura, é uma grande fonte de ideais e dados interessantes. Aí vão alguns que me chamaram a atenção:

- O valor das ações negociadas no mundo é US$ 27 trilhões. O PIB global é US$ 70 trilhões, mercado de dívida US$ 43 trilhões, total de reservas internacionais US$ 10,4 trilhões.

- O setor de tecnologia do mercado dos EUA é maior do que todo o mercado de ações da zona do euro.

- Ações de empresas financeiras (bancos, seguradoras, etc) ainda são a maior fatia do mercado global, quase 20% do total.

- Setor financeiro brasileiro vale tanto quanto o da Alemanha ou da França.

- Ações dos setores de saúde e consumo básico estão, globalmente, bastante perto de suas máximas históricas. Entre os países, México e Malásia são os mais próximos dos melhores dias.

- Setor de saúde como proporção do mercado é ridiculamente pequeno no Brasil - 0,9%, contra 9,6% no mundo.

- Em termos de múltiplo preço / lucro esperado, México é o mercado mais caro do mundo.

- O rendimento de dividendos no Brasil está entre os maiores do mundo, 4,8% nos últimos 12 meses.

- Como eu tinha mostrado, o retorno sobre o capital dos bancos brasileiros não é absurdo ou astronômico: 15,5%, pouco maior que a média do setor nos emergentes (14,4%). Os maiores retornos do setor estão na Indonésia (ah, Armínio Fraga...), na Rússia e no Chile.

- Para entender a atual onda de "largue o Brasil, compre México", olhe o crescimento dos lucros esperado para este ano - deve ser de quase 40% no México; no Brasil, cairão 6,4% - e junte a velha mania de extrapolação que permeia as atividades de analistas e economistas.

- Esse gráfico:


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tio Sam, esse desconhecido

Algumas coisas que eu não sabia sobre os EUA (ou tinha vaga ideia) e aprendi na matéria de capa da The Economist da semana passada (editorial, mais curto, aqui, para os preguiçosos ocupados):

- Imóveis residenciais nos EUA estão entre os mais baratos do mundo, na avaliação da revista - índice de preços 19% abaixo de um cálculo de "valor justo" (definido pelas médias de longo prazo das relações preço-renda e preço-aluguel). Uma evidência anedótica: a corretora que me atende em Chicago disse que o metro quadrado por lá anda valendo algo como US$ 2.700. Chicago, não Little Rock, Des Moines ou Pittsburgh. Compare com o que se pede por imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro;

- Cinco entre os maiores bancos americanos já provisionaram perdas nas carteiras de crédito de quase US$ 500 bilhões (US$ 143 bilhões só no Citigroup). Nenhum banco europeu reconheceu mais que US$ 30 bilhões;

- Esses bancos já levantaram, depois da crise, US$ 318 bilhões em novo capital;

- Exportações dos EUA para a China cresceram 53% desde 2007;

- Importações líquidas de petróleo neste ano provavelmente serão as menores desde 1995;

- Há no país 311 mil pessoas empregadas para criar aplicativos para smartphones e Facebook;

- Americanos pagam menos de US$ 3 por milhão de BTU em gás natural; europeus e asiáticos frequentemente pagam mais de US$ 10.

O viés da matéria é evidente (basta ver a caricatura da capa, que também ilustra este post), mas concordo largamente com as implicações: não há fim à vista para o domínio econômico global dos EUA, e o país vai liderar a saída da crise entre os desenvolvidos. Está muito na frente da Europa no reconhecimento da nova conjuntura, e a China sequer começou a mostrar seus problemas. O século XXI ainda é americano.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Leituras da semana (passada)

Palau, mom
- Uma boa entrevista de Miriam Leitão com o professor Eduardo Giannetti.

- Pedro Malan sobre os 18 anos do Plano Real. Semana passada resgataram também um texto da época assinado por um tal Guido Mantega.

- Edmar Bacha consegue encontrar erotismo na macroeconomia. Cada um com sua tara...

- Flavio Comim sobre o acerto de Dilma ao minimizar a importância do PIB.

- Um mito da FEA-USP se despede.

- Marcelo Ballvé sobre securitização e os problemas dos bancos médios no Brasil. O Marcelo tem feito um ótimo trabalho na cobertura desses temas, vale acompanhar.

- Dani Rodrik acha que Brasil, Índia e Coréia do Sul estão em boa posição relativa para os próximos anos na economia global.

- Richard P. Mattione, da GMO, sobre a Espanha.

- Os "gráficos mais importantes do mundo" (sei lá se são, mas muitos são bem interessantes).

- Uma boa crítica de Noah Smith ao Zero Hedge.

- O maior hedge fund do mundo não está tendo um ano exatamente brilhante.

- As ligações perigosas de Hayek com Pinochet.

- Como economistas se atrapalham com estatística.

- O que Daniel Kahneman sabe.

- Guardian sobre um possível renascimento do marxismo na Inglaterra.

- Infográficos (picaretas) da antiga União Soviética.

- Uma carta de Kurt Vonnegut para a família, direto de um campo de repatriação de prisioneiros da II Guerra.

- Como fazer um TED Talk.

- Procrastine e seja feliz.

- Considere migrar para Palau.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Gráfico do dia - custo de crises bancárias (de novo)

Já tinha falado do assunto aqui e aqui. O gráfico abaixo é do J.P. Morgan (via Zero Hedge), e mostra que a conta da crise da Espanha ainda está relativamente baixa.

Clique para aumentar

terça-feira, 5 de junho de 2012

Gráfico do Dia - Goldman Sachs e os estudantes

Ontem saiu a pesquisa da CNN Money com os empregadores preferidos dos estudantes de MBA nos EUA. Desde 2007, o líder é o Google. Aqui, chamo a atenção para a posição da Goldman Sachs no ranking: este ano foi a mais baixa dos últimos sete anos. A teoria a ser testada é que a era dos grandes bancos de investimento nos EUA acabou, e emprego neles vai cada vez mais se parecer com o resto do mercado, tanto em termos de remuneração quanto de badalação. Esse seria um movimento de muitos anos, talvez o dado seja mais um sinal de que já começou:


terça-feira, 29 de maio de 2012

Esperando Godot, versão 2012

Cortesia de Michael Cembalest, do J.P. Morgan (é, economistas conseguem ser engraçados - é raro, mas acontece). Qualquer semelhança da situação da Europa com humor nonsense não é mera coincidência. Clique para aumentar:


A referência para as "M Countries" é o gráfico abaixo, que sugere que uma união monetária formada por países cujo nome começa com a letra "M" seria mais coesa que a zona do euro.


O relatório inteiro está aqui.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Frases do Dia - Bancos & Prosperidade

The Theater in Chesnut Street Philadelphia, 1809
"We are well aware that some persons suppose much of the prosperity the country at present enjoys is owing to the banks; but we can find sufficient causes for the increase in national wealth in the combined operations of capital accumulated by the preceding generations with the exertions of an increased number of laborers in a country rich in natural resources, aided by improvements in the arts and discoveries in the sciences... Those who maintain that banks enrich a country are bound to prove that speculation creates wealth. Till they establish this paradox, we shall continue to believe in the old-fashioned doctrine that wealth owes its existence to industry and economy."

De um cartaz de 1829 criado por "working men and others opposed to the chartering of any more new banks" da Filadélfia. Citado no Grant's Interest Rate Observer desta semana, fonte de boa reflexão em tempos onde tudo parece ser justificável para salvar bancos.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Leituras da Semana

- Charlie Munger, o primeiro violino do maestro Warren Buffett, faz companhia a Keynes na definição de ouro como uma "relíquia bárbara": "I think gold is a great thing to sew in to your garments if you're a Jewish family in Vienna in 1939 but I think civilized people don't buy gold." A maioria dos americanos acha que ouro é o investimento mais seguro (seguido de imóveis, não parecem ter aprendido muito).

- O poder da "repressão financeira" para destruir dívida.


- Um bom relatório do Santander sobre os limites (ou falta deles) para a atuação do BNDES.

- Os fantásticos cursos abertos virtuais de Yale viraram livros. A iniciativa é tão bacana que eu deveria fazer propaganda toda semana. Dá para aprender sobre mercados financeiros com um tal Robert Shiller; eu comecei a assistir a um curso sobre capitalismo que parece muito bom.

- Enquanto isso, na UERJ, você pode aprender como se tornar um ninja.

Elio Gaspari e o cheiro de picaretagem no livro Breakout Nations (o autor diz que o Plano Real saiu durante o governo Collor). A The Economist resenhou.

- Raghuram Rajan publicou, na Foreign Affairs, um artigo muito comentado sobre as possíveis lições da recessão nos EUA. Aqui um resumo das discussões.

- John Kay defende o fim do oligopólio bancário e menores barreiras de entrada no setor.

- Shaquille O'Neal agora é doutor (provavelmente o maior do mundo). Título da tese: How Leaders Utilize Humor or Seriousness in Leadership Styles.

- Uma conversa do Wall Street Journal com Deirdre McCloskey (é de Janeiro, tinha deixado passar).

- Para quem estiver pensando em seguir carreira de trader.

- Hugh Hendry preocupado com a "monocultura de fundos". Eu, com iniciativas como a do banco central do Japão, que está comprando ETFs de ações. A época parece ser de grande ameaça para livres mercados.

- James Montier, da GMO, na conferência anual do CFA Institute.

- Celso Barros, do NPTO, sobre as complicações de ler Marx.


- Das Kapital... em quadrinhos.

- O ministério de piadas prontas de Portugal, numa tentativa de amenizar a crise, cortou quatro feriados do calendário. Ganha um (ig)Nobel quem provar a relação entre número de feriados em um país e crescimento econômico.

terça-feira, 8 de maio de 2012

IBEX, o pulo do gato (morto?)

O IBEX, principal índice de ações da Espanha, testou semana passada seu nível mínimo nos últimos nove anos. Para os analistas gráficos, pode ter feito um fundo duplo, e agora está corrigindo parte da forte queda dos últimos meses (até agora, subiu 6,25% da mínima).

No campo dos fundamentos, a grande notícia foi a intervenção do governo no Bankia, a "supercaja" criada em Dezembro de 2010 na tentativa de transformar sete "cajas" regionais (Madri, Bancaja, Canarias, Ávila, Laietana, Segovia e Rioja) em um banco grande demais para falir. Por enquanto, a intervenção cobrou a cabeça de Rodrigo Rato, ex-diretor do FMI e presidente do banco por uma injeção de € 7 bilhões em dinheiro público (mais no Expansión). O temor do mercado é que o governo tenha que assumir parte relevante do capital e diluir os acionistas correntes - e, creio, a grande briga dos próximos dias vai ser o Santander e o BBVA tentando salvar-se do mesmo destino. Acompanhemos.


Em tempo: acho o caso dos grandes bancos espanhóis similar ao do Citi; minha aposta é que dificilmente escaparão de (pelo menos) uma grande diluição do capital. Porém, isso ainda pode demorar (talvez mais do que os shorts consigam permanecer solventes).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ações na Espanha, mínimas importantes

Hoje o IBEX teve o menor nível de fechamento desde 2003, abaixo de onde estava no pânico de Março de 2009 (quando o S&P500, hoje em 1400 pontos, chegou a 666). As ações dos dois maiores bancos do país, Santander e BBVA, caíram, respectivamente, 20% e 25% neste ano. Fala-se que o governo espanhol está perto de separar ativos do setor bancário; a ver. Minha aposta contra o Fabio Kanczuk segue.

Índice IBEX, preço em euros
IBEX / S&P500, preços em dólares
Curiosamente, para a dívida soberana do país os piores dias parecem ter passado - os títulos de 10 anos pagam 5,85%, bem abaixo da máxima dos últimos anos (6,7%). Não me perguntem quem está comprando (não tem sido o BCE).

Frase do Dia - Banqueiros & Economistas

"Antigamente todos os banqueiros eram donos de bancos; depois que se começou a contratar economistas para o cargo, piorou muito"

José Eduardo de Andrade Vieira, ex-presidente do Bamerindus, em entrevista para o Valor. O Bamerindus entrou no PROER em 1994, sofreu intervenção do Banco Central em 1997 e foi vendido no mesmo ano para o HSBC. Ao final de 2009, o Bamerindus ainda devia R$ 2,7 bilhões ao Banco Central.

Obrigado ao Osmar pela frase.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Spread bancário: olhando alguns dados e culpando o mordomo

Consta que o comando da economia do país tem olhado com certo desagrado para o spread bancário, e decretou o "fim da era dos lucros hiperbólicos obtidos sem esforço" no setor (mais no João Villaverde). O governo olha para as taxas de juros cobradas pelos bancos e acha que elas são muito altas (como discordar? Cabe ver a tabela do Banco Mundial que foi bastante citada nesses dias, com a comparação dos spreads por país); os bancos rebatem dizendo que os juros refletem, além do custo de captação entre os mais caros do planeta, compulsórios, impostos, inadimplência, custos, etc, todos altos. Creio que há vários estudos muito competentes sobre spread bancário e sua composição, e não quero entrar nessa parte da discussão. Aqui, reflito sobre algumas premissas (na preguiça de ler tudo, pule direto para o item 3 abaixo):

1. Primeira impressão: mesmo com os spreads tão altos, a operação de bancos no Brasil não parece fácil, haja vista que o mercado é dominado por dois bancos estatais, dois gigantes nacionais e apenas um estrangeiro com participação significativa. Barreiras de entrada à parte (e não estou negando que existam), se os spreads por si só garantissem lucros muito altos, seria esperado (pelo menos até antes da crise) uma briga dos grandes grupos bancários globais para operar no varejo brasileiro. Citi, BBVA, HSBC, etc, tentaram, mas não conseguiram ganhar escala; hoje, só o Santander tem tamanho para conseguir competir com os grandes de capital nacional.

2. Se os spreads no Brasil são muito mais altos do que deveriam, isso implicaria em lucros maiores ou mais fáceis. Resolvi recolher alguns dados para testar essa hipótese (nada científico, vai pouco além do anedótico): a tabela abaixo resume dez anos de retorno sobre patrimônio líquido e alavancagem para diversos bancos mundo afora (excluí bancos puramente de investimento e tentei pegar bancos representativos de diversas economias grandes). Uma possível teoria é que o trade-off risco x retorno vale para bancos: quanto maior a alavancagem, maior o retorno potencial (e o tamanho do estrago quando o plano não vai bem). No caso do Brasil, poderíamos esperar: (i) retornos absolutos muito altos com relação ao resto do mundo e/ou (ii) retornos excepcionais dado um certo nível de alavancagem.

A turma mais afobada pode já dizer que o retorno sobre PL dos bancos brasileiros é o maior do mundo, caso encerrado, mas vamos com calma:

- De fato, os retornos estão entre os mais altos desta amostra. São sensivelmente mais altos do que no mundo desenvolvido (algo previsível, já que isso também deve valer para os demais setores da economia - economias mais maduras oferecem, em teoria, retornos menores), mas comparáveis aos de diversos países do grupo que chamei de "outros emergentes". Alguns bancos indianos, chineses e sul-africanos são tão rentáveis quanto os brasileiros, por esse critério.

- A crise, como era de se esperar, reduziu muito o retorno sobre PL para bancos europeus e americanos; o mesmo não ocorreu para emergentes (incluindo o Brasil).

- A alavancagem dos bancos brasileiros é muito similar a dos americanos e do resto do mundo emergente (em que pese que bancos americanos conseguem carregar muitos ativos fora dos balanços das companhias listadas, o que leva a dados oficiais de alavancagem subestimados na maioria dos casos). Na Europa, níveis de alavancagem muito maiores levaram a retornos menores - a competência dos banqueiros europeus virou do avesso a fronteira eficiente.

Os gráficos abaixo mostram o retorno sobre PL em função da alavancagem para os três períodos (2001-2006, 2007-2011 e todos os dez anos da amostra):






Os bancos brasileiros conseguiram ficar o tempo todo no quadrante "sweet spot" (de retorno mais alto e alavancagem mais baixa que as respectivas médias na amostra), mas não estão isolados em nenhum dos períodos que determinei (não perguntem como os bancos espanhóis conseguiram manter a rentabilidade depois da crise - creio que poderemos reavaliar com mais cinco anos de dados).

- Dos países listados, o Brasil, ao longo do período, teve o custo de oportunidade (juro interbancário) mais alto, com exceção da Turquia. A tabela abaixo mostra o que chamei de "excesso de retorno" dos bancos, simplesmente a diferença entre o retorno sobre PL e a taxa básica de juros no período:


Antes da crise, o excesso de retorno sobre o PL dos bancos brasileiros foi menor do que no mundo desenvolvido e em boa parte dos emergentes. Após a crise, como dito acima, os bancos de países emergentes (Brasil incluso) conseguiram manter as rentabilidades, ao contrário dos bancos de países desenvolvidos. O desempenho dos bancos brasileiros, medido por esse critério, foi consideravelmente melhor do que o de boa parte do mundo, mas similar a de bancos da Índia, China, México e África do Sul (os juros básicos muito altos da Turquia jogaram a média da amostra de emergentes para baixo). Enfim, nada que pareça "hiperbólico" com relação a outros casos de sucesso.

3. Concluindo: não há dúvida de que o spread bancário brasileiro é alto. Porém, ainda assim, o capital que os bancos locais arriscam não parece absurdamente melhor remunerado do que no resto do mundo, sobretudo entre alguns emergentes. Por esse critério, é difícil não dar razão a Febraban e devolver ao governo a responsabilidade por juros bancários tão altos: teriam que ser ainda mais altos para que a acusação do governo de lucros espetaculares e fáceis encontrasse correspondência na realidade. Talvez a concorrência com os bancos públicos faça com que os bancos privados tenham que competir com taxas menores. Ainda que isso seja, num primeiro momento, bom para o consumidor, pode ser um incentivo para que o sistema, na tentativa de manter margens, aumente a alavancagem (que já não é notadamente baixa, como vimos). Resta saber se isso é desejável em um mundo onde alavancagem alta já provou ter efeitos potencialmente muito danosos e em um país onde a capacidade da população de absorver crédito sem aumento de inadimplência parece estar perto de ser atingida (claro que isso também é afetado pelo nível dos juros). Aqui, mais concorrência ao longo do tempo pode não trazer apenas benefícios para a população - possivelmente o contrário: na parte boa do ciclo, ganha quem surfa no crédito; na parte ruim, todos os contribuintes pagam pelos eventuais pacotes de resgate (a conclusão mudaria caso perdas do sistema bancário não fossem socializadas, mas essa não é a prática corrente e não tenho porque acreditar que no Brasil seria diferente do resto do mundo).

Outra observação sobre a alavancagem dos bancos brasileiros, que não parece muito abaixo de um nível relativamente prudente: o dado talvez seja surpreendente para um país com volume de crédito baixo como proporção do PIB (ver a página 12 da apresentação do professor Gabriel Palma que mencionei há alguns dias). Uma possível hipótese é que o volume de crédito é baixo porque o sistema bancário parte de uma base de capital pequena para o tamanho da economia, o que também reforça a ideia de que os retornos no setor não são absurdos: se fossem, atrairiam mais capital. Nenhuma resposta fácil daqui, e não vai ser de um dia para o outro que o governo vai conseguir estimular a criação de novos bancos, com dinheiro vindo de outras fontes que não os bancos já existentes ou o Tesouro Nacional (evitem mencionar os bancos de frigoríficos, por favor).

Talvez seja possível concluir que crédito é caro no Brasil pelo mesmo motivo que também são caros carros, roupas, alimentos, passagens aéreas, etc: para isso, ver tudo que já se escreveu (muito!) sobre o suspeito usual, o mordomo de iniciais C.B. (Custo Brasil) - para mim, o nome-fantasia de uma enorme e intrincada rede de oligopólios, subsídios cruzados e privilégios. Quem toma dinheiro no BNDES, paga TJLP; quem toma crédito rural, paga TJLP mas renegocia para pagar em 350 anos caso tenha problemas com a safra;  quem toma no balcão da agência, paga três dígitos anuais e vai parar no SPC se falhar uma prestação, e por aí vai.

4. Resumo do resumo: o ataque do governo aos spreads parece mais uma tentativa de achar uma solução fácil para um problema complexo. Uma queda forçada nos juros bancários deve levar a maior tomada de risco por parte dos bancos (a conferir se isso se concentrará nos bancos estatais ou se estenderá para todo o setor). Enquanto essa queda favorecer a capacidade de pagamento da massa de tomadores, muito bem - é possível que os juros mais baixos diminuam a inadimplência e permitam mais alavancagem a um risco, na margem, igual ou mais baixo. Pode ser que isso não ocorra, ou que os bancos estatais forcem uma compressão nas margens de lucro de todo o sistema e gerem incentivos para que os padrões de concessão de crédito sejam relaxados. Com boa parte do mundo vivendo a maior crise de dívida (isso é, descasamento entre fluxos de caixa esperados e efetivamente pagos) em muitas gerações, deveríamos entender bem os riscos dessa situação.

P.S. Contra essas conclusões, vale fazer algumas ressalvas:

- Retornos sobre qualquer investimento, na média, deveriam ser menores no Brasil do que em países menos desenvolvidos e com potencial maior de crescimento. Ocorre que, para pegar dois casos, juros na China e Índia são muito menores que no Brasil, o que viabiliza investimentos lá que aqui possivelmente parariam em títulos do governo. Com os juros básicos caindo, é de se esperar que também caiam as taxas para o consumidor, mas a margem de lucro dos bancos só será comprimida, como concluí acima, com mais capital entrando no sistema.

- Creio que ainda é cedo para saber se os bancos de emergentes (Brasil incluído) são mesmo mais lucrativos ou se apenas estão em uma fase do ciclo em que más decisões de crédito ainda não afetaram o resultado. Talvez essa análise tenha resultados bem diferentes daqui a cinco anos.

- O acionista dos bancos brasileiros, ao longo do tempo, lucrou também com a valorização das ações no mercado, mas isso vale para praticamente qualquer ativo brasileiro. Para isso, correu um risco de mercado, como deve ser. Não houve nenhuma moleza evidente do governo envolvida nisso.

- Pode-se perguntar porque é razoável, no mundo, bancos terem retornos tão elevados em comparação a outros ativos. A discussão toda é longa e não cabe aqui, mas creio que a balança se equilibraria caso alavancagem trouxesse também risco maior de perda permanente para quem a utiliza. Infelizmente, o conceito de risco no capitalismo contemporâneo só se aplica a uma determinada parcela da sociedade, que não consegue influenciar decisivamente governos e bancos centrais.

P.P.S. Acho que este é o post mais longo da história deste blog. Agradeço ao leitor pela paciência.