If you are living in a southern country, in Greece, and Portugal and Spain, the electorates views are much less important than the views of the bankers, the rating agencies and the financial institutions. One result of European monetary integration, without a political integration, is that the population of many of these countries has no voice. Economics is de-linked from the political base. That I think is a mistake and it goes completely against the big European movement that began in the 40s and fostered the idea of a democratic, united Europe.
Amartya Sen, em entrevista (que vale muito a pena ser lida na íntegra) para o jornal alemão Handelsblatt. Agradeço ao Shikida pela recomendação.
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sexta-feira, 13 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
Gráfico do Dia - Bancos Europeus
O gráfico abaixo é do índice STOXX 600 Banks, que reúne os maiores bancos europeus. Creio que esse índice atualmente é o melhor termômetro para o mercado como um todo, já que, essencialmente, foram os bancos europeus que lideraram a queda das bolsas na segunda metade do ano passado e a reação dos mercados foi notadamente forte depois que o Banco Central Europeu introduziu a LTRO e acabou com o problema de liquidez dessas instituições. O índice testou por três vezes este ano o nível de 160, sem sucesso, e nos últimos dias rompeu tanto sua média móvel de 200 dias quanto uma linha de tendência de alta que vinha desde a mínima de Novembro passado.
Entre seus componentes, os mais problemáticos são o italiano UniCredit (que perdeu 1/4 do valor de mercado neste ano) e o espanhol BBVA (queda de 17,5% em 2012). Fiquemos de olho, acredito que os balanços dos bancos europeus são uma grande potencial fonte de surpresas negativas ao longo dos próximos meses / anos.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
QE3 - helicóptero esquentando os motores
Pesquisa da Bloomberg com os 21 dealers de títulos do tesouro dos EUA, apenas sete deles não esperam uma nova rodada de afrouxamento quantitativo.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
Leituras das últimas semanas
- A matéria de capa da última The Atlantic, que estampou uma foto de Ben Bernanke com o título The Hero. Não canso de me espantar com como o mundo gosta de se iludir pelo acaso (ou por menos que isso).
- Para quem não estava no sistema solar semana passada, o editorial do NY Times do executivo (não alto, como disseram alguns - a empresa tem quase 500 sócios, e ele não era um deles) de saída da Goldman Sachs. A resposta do banco, um editorial opinativo da Bloomberg e a saída de Darth Vader do Império.
- A Apple continua sua competição com a Torre de Babel: a companhia já vale mais que um ano de PIB da Polônia ou da Bélgica; e há quem acredite que em um ano esse valor de mercado chegará bem perto de US$ 1 trilhão.
- A resenha do NY Times para o Why Nations Fail, de Daron Acemoglu e James Robinson (a simpática ilustração aí do lado é de lá). A The Economist não gostou tanto.
- O novo livro de Robert Shiller, sobre o papel de finanças como bem público.
- O Valor sobre a famosa biblioteca de Delfim Netto, que está sendo transferida para a FEA-USP. E você não sabia que existem 10 mil livros só sobre marxismo analítico, aposto.
- Um perfil de Naji Nahas, na Folha.
- Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke revisitam a comparação entre a Grande Depressão e nossos tempos esquisitos. A conclusão é que ainda não há espaço para consolidação fiscal.
- William Easterly não perde o costume de bater de frente com Jeffrey Sachs, e explica como não comandaria o Banco Mundial.
- O Fed agora tem uma conta no twitter. A agenda das aulas de Ben Bernanke sobre a instituição na George Washington University, que começam amanhã e terão transmissão ao vivo pela internet.
- Uma entrevista interessante da Folha sobre a Grécia, com o historiador de Columbia Mark Mazower.
- Longa matéria da Exame com Luis Stuhlberger.
- A vida na Itália não deve estar fácil.
- O (apócrifo) soluço de Winston Churchill e como foi desenhado o mapa do Oriente Médio.
- Martin Scorsese vai mesmo filmar O Lobo de Wall Street. Apesar do título grandiloquente, o livro é sobre um rodapé da história dos mercados (e o personagem, um trombadinha perto dos grandes ladrões que já passaram por lá). Ainda assim, deve dar um filme divertido.
- Mitt Romney ou Senhor Burns?
- Para quem não estava no sistema solar semana passada, o editorial do NY Times do executivo (não alto, como disseram alguns - a empresa tem quase 500 sócios, e ele não era um deles) de saída da Goldman Sachs. A resposta do banco, um editorial opinativo da Bloomberg e a saída de Darth Vader do Império.
- A Apple continua sua competição com a Torre de Babel: a companhia já vale mais que um ano de PIB da Polônia ou da Bélgica; e há quem acredite que em um ano esse valor de mercado chegará bem perto de US$ 1 trilhão.
- A resenha do NY Times para o Why Nations Fail, de Daron Acemoglu e James Robinson (a simpática ilustração aí do lado é de lá). A The Economist não gostou tanto.
- O novo livro de Robert Shiller, sobre o papel de finanças como bem público.
- O Valor sobre a famosa biblioteca de Delfim Netto, que está sendo transferida para a FEA-USP. E você não sabia que existem 10 mil livros só sobre marxismo analítico, aposto.
- Um perfil de Naji Nahas, na Folha.
- Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke revisitam a comparação entre a Grande Depressão e nossos tempos esquisitos. A conclusão é que ainda não há espaço para consolidação fiscal.
- William Easterly não perde o costume de bater de frente com Jeffrey Sachs, e explica como não comandaria o Banco Mundial.
- O Fed agora tem uma conta no twitter. A agenda das aulas de Ben Bernanke sobre a instituição na George Washington University, que começam amanhã e terão transmissão ao vivo pela internet.
- Uma entrevista interessante da Folha sobre a Grécia, com o historiador de Columbia Mark Mazower.
- Longa matéria da Exame com Luis Stuhlberger.
- A vida na Itália não deve estar fácil.
- O (apócrifo) soluço de Winston Churchill e como foi desenhado o mapa do Oriente Médio.
- Martin Scorsese vai mesmo filmar O Lobo de Wall Street. Apesar do título grandiloquente, o livro é sobre um rodapé da história dos mercados (e o personagem, um trombadinha perto dos grandes ladrões que já passaram por lá). Ainda assim, deve dar um filme divertido.
- Mitt Romney ou Senhor Burns?
terça-feira, 13 de março de 2012
Benvindos a 2007!
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| Petróleo (1º futuro NYMEX) |
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| S&P 500 |
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| Ibovespa |
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| Câmbio reais / dólar |
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| VIX |
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| Juros Pré 5 anos |
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| Índice de bancos americanos (S&P 500 Financials Index) |
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| Índice de bancos europeus (STOXX 600 Banks) |
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| Apple Inc |
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| Ouro, US$ por Onça |
O sábio e o Conselheiro Acácio diriam que a 2007 se seguiu 2008. Aguardemos.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
LTRO para (quase) leigos*
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| O produto mais fantástico da história do SkyMall, apropriado para acompanhar esse tipo de leitura. |
Ontem o Banco Central Europeu anunciou que vai emprestar, em termos camaradas (três anos de prazo, juros de 1% ao ano) € 530 bilhões para 800 instituições financeiras. Os empréstimos fazem parte do programa acronimado LTRO (inglês para Operação de Refinanciamento de Longo Prazo), iniciado no final de Dezembro para salvar o sistema bancário do continente e que já concedeu cerca de (voz do Dr Evil) € 1 trilhão em operações desse tipo. Algumas ponderações além das manchetes (acho):
1. O LTRO ataca o problema de liquidez dos bancos, mas não o de solvência: no prazo dos empréstimos, os bancos depositam ativos como garantia (colateral) para o dinheiro recebido. A exigência de qualidade para esse colateral é muito baixa - consta que vale quase tudo, desde bônus da Alemanha à títulos lastreados em hipotecas de casas em Murcia (títulos da Grécia não valem enquanto estiverem em "calote seletivo", passarão a valer uma vez definidos os termos da renegociação). No fim do prazo, em teoria, os bancos têm que repagar o Banco Central Europeu.
2. O dinheiro "novo", idealmente, funcionaria para que os bancos voltassem a expandir o crédito e, por consequência, ajudassem na recuperação da economia. Ocorre que, como bem aponta Richard Koo-san, estamos vivendo uma recessão onde a prioridade das companhias e indivíduos é limpar os balanços, e não aumentá-los (pagar dívidas contraídas no passado). Assim, parece pouco provável que: (i) haja abundância de projetos com bom retorno esperado que justifiquem investidores usarem alavancagem para financiá-los; (ii) os bancos julgarem os créditos bons o bastante para merecer empréstimos (num ambiente em que também estão preocupados em limpar os balanços e levantar capital) e (iii) isso tenha impacto significante na vida do grego ou português médios. O dinheiro acabará, creio, financiando os próprios governos - um banco prudente pode tomar dinheiro no LTRO a 1% ao ano e comprar um título de dez anos da Alemanha a quase 2% ao ano, assumindo o descasamento de duration e embolsando a diferença das taxas, tudo mais constante. Os mais agressivos podem tomar como princípio que existem países grandes demais para quebrar e comprar dívida da Itália ou Espanha ao redor de 5%, levando o carregamento de 4% ao ano (Grécia, Portugal e Irlanda pagam mais, mas estão quebrados ou podem quebrar antes do prazo - nada, porém, que impeça os aventureiros de tentarem a sorte por lá). Se der certo por um tempo, ótimo - será o bastante para uma certa estabilidade no sistema, os bancos publicarem algum lucro e pagarem os bônus aos brilhantes executivos que foram empurrados para essa situação (muitas vezes por suas próprias debilidades). Se der errado, ao final do prazo do LTRO, o BCE terá outro problema para resolver. Exemplo de livro-texto de risco moral.
3. O que também pode ocorrer no período é os colaterais não terem o valor pelos quais foram avaliados quando entraram no LTRO. Tenho pouca dúvida que ainda existem perdas não reconhecidas nas carteiras de crédito dos bancos europeus; na prática, a consequência é a mesma do item acima - mais risco moral para a carteira do BCE.
4. A pergunta final é a famosa "quem paga a conta". Bom, algo dando errado, alguns bancos não conseguem pagar de volta ao BCE e este fica com um buraco no balanço, que deve ser coberto com emissão de dinheiro (a possibilidade do banco central quebrar parece bastante remota). No melhor dos casos, o dinheiro é impresso, isso não desestabiliza o sistema monetário e o BCE captura a senhoriagem, que funciona como um imposto regressivo (proporcionalmente pior para os mais pobres). No pior, esse negócio de imprimir dinheiro em grandes volumes não acaba bem, a inflação acelera, perdem os poupadores e, de novo, a turma menos favorecida, que não tem acesso a mecanismos de proteção contra a inflação (mais sobre a dinâmica aqui). As consequências sociais e políticas também não são exatamente desejáveis.
(Dando tudo certo, os bancos terão usado o crédito barato para gerar lucros e melhorar os balanços, o BCE recebe o dinheiro de volta e devolve os títulos. A economia estará recuperada e esses títulos são pagos no prazo, integralmente. Eva Green e Paola Oliveira aceitam fazer, pro bono, um ensaio conjunto para a Playboy. A vida é boa.)
5. (Observação mais genérica e chutada, talvez não mereça ser lida) Emitir moeda, sabe-se, não cria riqueza - talvez se levarmos em conta o efeito sobre os "espíritos animais" e suas consequências em alguma função de produção, mas os efeitos são de segunda ordem e mais no sentido de reconduzir uma economia a uma tendência de crescimento perturbada por um choque de duração limitada. Porém, tem efeitos distributivos relevantes e perniciosos, como os exemplificados acima. É estranho imaginar que num sistema cujo maior problema (no caso dos países desenvolvidos) é a desigualdade e distribuição muito assimétrica da riqueza criada nos últimos anos as soluções imaginadas pelos governos tenham como consequência provável mais desigualdade. Esse é o aspecto mais repugnante do risco moral gerado pelo jogo de interesses entre companhias e governos: dinheiro de impostos financiando más decisões econômicas de bancos, fundos de pensão, indústrias, companhias aéreas, times de futebol... Algum grande economista ainda vai escrever algo convincente sobre esses subsídios cruzados, torço para que a tempo dessas políticas serem revertidas antes de uma eventual radicalização do eleitorado - este o grande risco oculto desses tempos estranhos.
Mais sobre LTRO na Bloomberg e no Zero Hedge.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Leituras pré-carnavalescas
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| Cordão do Boitatá, vou sentir falta este ano. |
- Discretos noruegueses x David Swensen (Yale), de quem é o melhor modelo de gestão de grandes fundos de longo prazo (soberanos, pensão, endowments).
- Mansueto Almeida analisa o corte de R$ 55 bilhões no orçamento brasileiro para este ano, e conclui que a política fiscal ainda é expansionista.
- Um estudo do Banco Central Europeu chegou à chocante conclusão que traders prestam menos atenção nos mercados durante jogos de suas seleções na Copa.
- A Turquia preocupa-se com o impacto de trocas de aparelho celular nas suas contas externas.
- Porque banqueiros gostariam de ver seus ganhos comparados aos de esportistas, e porque isso é errado.
- Dois engenheiros se meteram a estudar quantitativamente um pouco da política brasileira (como os diferentes partidos votam no congresso), e chegaram a resultados interessantes.
- A difícil aplicação de leis de potência à ciência.
- A contribuição dos cervejeiros da Guinness para a popularização da significância estatística.
- O economista de Harvard mais famoso do momento.
- Porque eu nunca vou conseguir ser doutor em economia.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Frases do dia - BRICs, pelo criador
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| Ele nos juntou e agora vem com essa? |
"Esses quatro países compartilham muito pouco: dois são democracias, dois não; dois são produtores de commodities, dois não; Brasil e Rússia têm nível semelhante de riqueza, a Índia está muito atrás. O resultado é que os países têm prioridades muito diferentes. Eles não conseguiram nem concordar em relação a um nome para liderar o FMI quando Strauss-Kahn saiu."
Jim O'Neill, da Goldman Sachs, dizendo o evidente que às vezes deixa de ser enxergado (está na Folha de hoje). Falei sobre o tema aqui.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Leituras da Semana
祝福大家新年快樂!!!
- 222 anos de juros longos nos EUA - já foram mais baixos do que agora, nos anos após a II Guerra.
- Discurso de Raghuram Rajan para a American Finance Association, defendendo a ligação entre Wall Street e Main Street e a importância de um mercado acionário vibrante.
- Will Hutton, de Oxford, recomenda cinco livros sobre justiça social e desigualdade (um do Rajan, entre eles).
- Música pop como indicador antecedente dos mercados (dica Balu, paper original aqui). Abordagem diferente do que o Robert Prechter costuma fazer.
- David Einhorn sobre 2011 e a crise, sempre relevante.
- Contra a austeridade fiscal em tempos de crise: Robert Shiller e Richard Koo.
- Lord Skidelsky provoca: dívida realmente importa?
- Alguém teve a paciência de contar as risadas nas reuniões do Fed para quais as transcrições estão disponíveis. Vai ficar interessante quando liberarem as de 2008.
- Ouvido no elevador da Goldman Sachs: matéria no FT e o twitter.
- Tentar imitar o "milagre" de desenvolvimento do Sudeste Asiático pode ser difícil. Falando em Ásia, o Japão, para minha surpresa, fechou 2011 com um déficit comercial, o primeiro desde 1963.
- A The Economist entrevista FHC.
- Eike para presidente, novo marco na sabujice do colunismo brasileiro.
- Vladimir Safatle sobre a Tunísia, primeira de uma série de visitas ao mundo árabe pós-revoluções.
- Existem leis fundamentais para cozinhar? Os quants invadem a cozinha.
- A solidão das Guianas, nossos vizinhos menos prestigiados.
- Pico Iyer sobre os benefícios de se desligar da vida digital.
- Frank Zappa como Jeff "The Dude" Lebowski e outros fantásticos elencos alternativos.
- 222 anos de juros longos nos EUA - já foram mais baixos do que agora, nos anos após a II Guerra.
- Discurso de Raghuram Rajan para a American Finance Association, defendendo a ligação entre Wall Street e Main Street e a importância de um mercado acionário vibrante.
- Will Hutton, de Oxford, recomenda cinco livros sobre justiça social e desigualdade (um do Rajan, entre eles).
- Música pop como indicador antecedente dos mercados (dica Balu, paper original aqui). Abordagem diferente do que o Robert Prechter costuma fazer.
- David Einhorn sobre 2011 e a crise, sempre relevante.
- Contra a austeridade fiscal em tempos de crise: Robert Shiller e Richard Koo.
- Lord Skidelsky provoca: dívida realmente importa?
- Alguém teve a paciência de contar as risadas nas reuniões do Fed para quais as transcrições estão disponíveis. Vai ficar interessante quando liberarem as de 2008.
- Ouvido no elevador da Goldman Sachs: matéria no FT e o twitter.
- Tentar imitar o "milagre" de desenvolvimento do Sudeste Asiático pode ser difícil. Falando em Ásia, o Japão, para minha surpresa, fechou 2011 com um déficit comercial, o primeiro desde 1963.
- A The Economist entrevista FHC.
- Eike para presidente, novo marco na sabujice do colunismo brasileiro.
- Vladimir Safatle sobre a Tunísia, primeira de uma série de visitas ao mundo árabe pós-revoluções.
- Existem leis fundamentais para cozinhar? Os quants invadem a cozinha.
- A solidão das Guianas, nossos vizinhos menos prestigiados.
- Pico Iyer sobre os benefícios de se desligar da vida digital.
- Frank Zappa como Jeff "The Dude" Lebowski e outros fantásticos elencos alternativos.
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Previsões aleatórias para 2012
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| Vai chutar... |
- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.
- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.
- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.
- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...
- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.
- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.
- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).
- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.
- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.
- Ações para vender: Linkedin, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).
- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.
- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.
- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.
- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.
- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.
- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.
- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.
- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.
- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.
- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).
- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.
- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.
- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.
- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.
- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.
- Vou errar mais previsões do que no ano passado.
O leitor mais atento vai notar que não fiz previsões para nenhuma das questões que realmente vão definir o ano: sobrevivência do euro, possibilidade de hard landing na China; eleições na França, EUA, Madagascar e outros países relevantes; ataques de Israel ao Irã; e por aí vai. Para alguns desses eventos, não tenho a menor ideia do desfecho (não que tenha muita para os previstos); para outros, creio que as probabilidades são balanceadas. Resta manter a humildade, apegar-se aos fatos e mudar a cabeça conforme eles aparecerem. Essa dica de investimento é mais valiosa que qualquer uma das barbaridades que listei acima.
Outras boas listas de (anti) previsões para o ano:
- Bristlemouth: 10 Stock Market Predictions for 2012
- Abnormal Returns: 5 reasons to ignore top 10 stock lists
- Saxo Bank: Outrageous Predictions 2012
- The Economist
- globo.com 2012
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011
O (péssimo) ano para os bancos
2011 vai ser um ano que os acionistas de bancos vão tentar esquecer. Alguns destaques:
- Todo-poderoso Goldman Sachs perdeu quase metade do seu valor de mercado;
- Bank of America perdeu quase 60%, mais que qualquer banco europeu (incluindo o Banco da Grécia, os italianos e os franceses), contribuindo para o péssimo ano de John Paulson;
- O índice de ações de bancos japoneses fez uma nova mínima desde que existe;
- Os bancos brasileiros caíram menos, mas não escaparam da marolinha (exceção ao Bradesco, que ainda tem alguma chance de terminar o ano como começou).
- Todo-poderoso Goldman Sachs perdeu quase metade do seu valor de mercado;
- Bank of America perdeu quase 60%, mais que qualquer banco europeu (incluindo o Banco da Grécia, os italianos e os franceses), contribuindo para o péssimo ano de John Paulson;
- O índice de ações de bancos japoneses fez uma nova mínima desde que existe;
- Os bancos brasileiros caíram menos, mas não escaparam da marolinha (exceção ao Bradesco, que ainda tem alguma chance de terminar o ano como começou).
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Conferindo as previsões para 2011 - perdas & danos
No final do ano passado, me meti a fazer algumas previsões para 2011. Seguindo a tradição que diz que economistas devem dizer o que vai acontecer no futuro e depois explicar porque erraram (acho que a ideia é do Churchill), aí vai o meu confronto com a realidade. Na primeira semana de 2012 faço as previsões para o ano novo.
- Os juros longos no Brasil vão continuar caindo, possivelmente para os níveis mais baixos da história.
Caíram, é verdade - os juros locais de dez anos foram de 12% para algo como 11,2% no fechamento de ontem, mas ainda estão longe dos patamares mais baixos da história (abaixo de 10%, em meados de 2007). Na prática, a execução foi muito problemática, já que até julho os juros estavam em alta e quase todo o movimento de queda foi feito durante agosto (mês em que eu estava de férias, diga-se de passagem). Quem teve estômago e paciência fez algum dinheiro, e as quedas maiores foram nos juros curtos, mais diretamente influenciados pela mudança de postura do Banco Central. Conto a previsão como meio certa.
- A inflação no Brasil será mais baixa do que o mercado prevê.
Errei feio. O último relatório Focus do ano passado previa o IPCA de 2011 em 5,32%; deve ficar bem perto do teto da meta, 6,5%.
- Mais algum banco médio brasileiro vai ter problemas com a carteira de crédito.
A história do Panamericano é um misto disso com fraude, e o ano não foi exatamente bom para o modelo de negócio desses bancos, deve ter muito mais por vir. Ponto pra mim.
- As ações de bancos na Europa vão seguir caindo. Possivelmente alguns bancos grandes serão nacionalizados ou receberão ajuda dos governos.
O índice Stoxx 600 Banks, que engloba os bancos do continente, caiu até agora 33,3%. Todos os grandes bancos do continente, sem exceção, perderam valor de mercado, em alguns casos mais da metade (os franceses Société Générale e Crédit Agricole). A ajuda do governo, em termos de liquidez, foi ampla e enorme, e o Dexia foi nacionalizado na Bélgica. Ponto.
- A União Européia vai garantir a dívida de todos os seus membros. Dessa forma, o esfacelamento do euro que eu achava que ia ocorrer vai ser adiado, até que algum país não aguente mais conviver com uma moeda valorizada.
De fato, o euro não se esfacelou (há quem diga que chegou perto disso). Não houve uma garantia formal para as dívidas, mas estamos caminhando para isso, e, nos casos mais problemáticos, a ajuda multinacional tirou o financiamento do mercado. 3/4 de ponto, creio.
- O Brasil vai começar a ter problemas com financiamento externo. O real vai se desvalorizar. As reservas internacionais vão parar de crescer.
2/3 errado: o financiamento externo para o Brasil continuou sendo tranquilo, em parte por uma balança comercial melhor do que quase todo mundo esperava (o Focus previa US$ 8 bilhões, o acumulado até Novembro foi quase US$ 26 bilhões) e por grandes entradas de investimento direto. Como consequência, as reservas subiram para quase US$ 350 bilhões, ainda que estejam praticamente estáveis desde o final de Julho. Ainda assim, o real deve fechar o ano com cerca de 10% de desvalorização contra o dólar americano, que foi, junto com o iene, a moeda forte de 2011.
- A bolha do ouro e da prata vai estourar; o preço de ambos cairá pelo menos 20%.
Grande erro, ainda que ambos estejam longe das máximas do ano, 2011 deve terminar com o ouro ganhando mais de 10% e a prata com queda de 5%. Nada de bolha aqui, por enquanto.
- Vender volatilidade nos picos vai novamente ser uma estratégia ganhadora. O mercado caminha para cada vez mais preços controlados.
Agora vejo que essa previsão, levada ao pé da letra, é auto-realizável: se a venda é no pico, necessariamente todos os níveis posteriores são mais baixos. De qualquer maneira, olhando para o VIX, algo desse tipo teria funcionado: os grandes spikes em volatilidade duraram poucos dias, concentrados entre agosto e setembro, e sempre foram seguidos de reversões rápidas e violentas. Durante Dezembro, o VIX colapsou e deve terminar o ano perto de onde começou.
No campo mais abstrato, uma tese a ser comprovada é "as consequências econômicas de mr Taleb": a popularização da compra de seguros contra eventos extremos elevou muito o preço de "risco", a ponto desse tipo de estratégia não ser mais eficiente. Quem desenvolver isso já tem uma boa tese de mestrado pronta.
- A carteira de crédito do BNDES vai começar a ter problemas. Talvez demore mais do que um ano, mas a JBS não vai se aguentar.
Ainda não foi dessa vez que o BNDES teve que reconhecer grandes perdas em investimentos, mas mantenho a convicção. E a JBS nem é o pior caso...
- Não terminarão o ano acima dos preços máximos deste ano as ações de: Apple, Netflix, bancos brasileiros, índice do México, índice da Alemanha. E, sinto informar, o Facebook não vale US$ 40 bilhões.
Variações em 2011 (sem nem olhar as máximas de 2010, que são quase todas mais altas que o fechamento): Apple +23,5%, Netflix -58%, Itaú -12%, Bradesco -4%, Banco do Brasil -24%, Santander Brasil -33%, índice IPC do México -3,8% (em moeda local, -14% em dólares), índice DAX -17%. Nada mal o índice de acerto - só errei a Apple, aposta que vou renovar para 2012. Quanto ao Facebook... continuo achando que não vale US$ 40 bilhões, mas a última estimativa de precificação para o IPO é de módicos US$ 100 bilhões. Veremos...
- Preços de imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro vão seguir altos (e, possivelmente, subindo).
O índice FIPE ZAP (Case-Shiller, o FIPE ZAP deles) de São Paulo subiu 25% até Novembro; no Rio, a alta foi de quase 30% no mesmo período. Nada de bolha estourando aqui, também.
- Eike Batista vai seguir vendendo promessas. Guido Mantega vai continuar falando asneiras. Ben Bernanke vai seguir imprimindo. Eu vou seguir reclamando.
Essa era covardia, não vou nem contar como acerto - vide as bravatas do Eike, as Mantegadas, o prosseguimento da política monetária expansiva nos EUA e a manutenção do tom rabugento deste blog.
- Vai ficar cada vez mais claro o quanto Lula foi sortudo. E a culpa vai ser colocada em dona Dilma. É do jogo...
Meu ponto aqui eram os preços de commodities, que, no geral, não caíram e seguiram disfarçando muitas fragilidades da economia brasileira. O que ficou claro, considerando as quedas quase mensais de ministros, é quanto o arranjo político dos últimos anos dependia da, digamos, flexibilidade e capacidade de afagar quase todos os lados do Lula. A vida para Dilma é mais difícil, e não necessariamente isso é culpa exclusiva dela.
- Vou errar pelo menos metade das previsões acima. Espero não perder leitores por isso. Saravá!
Na minha contagem esquisita, até agora errei 5,76 de 12 possíveis, o que significa que acertei mais da metade e errei esta metaprevisão, o que prejudica meu desempenho total (maldita falta de autoconfiança). Ficaria interessante se eu tirasse o "acima" desta previsão: colocar este erro na conta contaria como mais um acerto, e cairíamos em algo próximo ao Paradoxo de Russell (os eventuais leitores que realmente conhecem lógica e matemática podem me apedrejar).
Em resumo, foi mais um ano que confirmou a grande sabedoria de Yogi Berra: é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. Outra confirmação foi a de que na prática, a teoria é outra: ainda que eu tenha acertado relativamente bastante do cenário, o desempenho do meu portifólio foi muito aquém do que isso poderia sugerir. Resta manter o humor e tentar de novo em 2012.
- Os juros longos no Brasil vão continuar caindo, possivelmente para os níveis mais baixos da história.
Caíram, é verdade - os juros locais de dez anos foram de 12% para algo como 11,2% no fechamento de ontem, mas ainda estão longe dos patamares mais baixos da história (abaixo de 10%, em meados de 2007). Na prática, a execução foi muito problemática, já que até julho os juros estavam em alta e quase todo o movimento de queda foi feito durante agosto (mês em que eu estava de férias, diga-se de passagem). Quem teve estômago e paciência fez algum dinheiro, e as quedas maiores foram nos juros curtos, mais diretamente influenciados pela mudança de postura do Banco Central. Conto a previsão como meio certa.
- A inflação no Brasil será mais baixa do que o mercado prevê.
Errei feio. O último relatório Focus do ano passado previa o IPCA de 2011 em 5,32%; deve ficar bem perto do teto da meta, 6,5%.
- Mais algum banco médio brasileiro vai ter problemas com a carteira de crédito.
A história do Panamericano é um misto disso com fraude, e o ano não foi exatamente bom para o modelo de negócio desses bancos, deve ter muito mais por vir. Ponto pra mim.
- As ações de bancos na Europa vão seguir caindo. Possivelmente alguns bancos grandes serão nacionalizados ou receberão ajuda dos governos.
O índice Stoxx 600 Banks, que engloba os bancos do continente, caiu até agora 33,3%. Todos os grandes bancos do continente, sem exceção, perderam valor de mercado, em alguns casos mais da metade (os franceses Société Générale e Crédit Agricole). A ajuda do governo, em termos de liquidez, foi ampla e enorme, e o Dexia foi nacionalizado na Bélgica. Ponto.
- A União Européia vai garantir a dívida de todos os seus membros. Dessa forma, o esfacelamento do euro que eu achava que ia ocorrer vai ser adiado, até que algum país não aguente mais conviver com uma moeda valorizada.
De fato, o euro não se esfacelou (há quem diga que chegou perto disso). Não houve uma garantia formal para as dívidas, mas estamos caminhando para isso, e, nos casos mais problemáticos, a ajuda multinacional tirou o financiamento do mercado. 3/4 de ponto, creio.
- O Brasil vai começar a ter problemas com financiamento externo. O real vai se desvalorizar. As reservas internacionais vão parar de crescer.
2/3 errado: o financiamento externo para o Brasil continuou sendo tranquilo, em parte por uma balança comercial melhor do que quase todo mundo esperava (o Focus previa US$ 8 bilhões, o acumulado até Novembro foi quase US$ 26 bilhões) e por grandes entradas de investimento direto. Como consequência, as reservas subiram para quase US$ 350 bilhões, ainda que estejam praticamente estáveis desde o final de Julho. Ainda assim, o real deve fechar o ano com cerca de 10% de desvalorização contra o dólar americano, que foi, junto com o iene, a moeda forte de 2011.
- A bolha do ouro e da prata vai estourar; o preço de ambos cairá pelo menos 20%.
Grande erro, ainda que ambos estejam longe das máximas do ano, 2011 deve terminar com o ouro ganhando mais de 10% e a prata com queda de 5%. Nada de bolha aqui, por enquanto.
- Vender volatilidade nos picos vai novamente ser uma estratégia ganhadora. O mercado caminha para cada vez mais preços controlados.
Agora vejo que essa previsão, levada ao pé da letra, é auto-realizável: se a venda é no pico, necessariamente todos os níveis posteriores são mais baixos. De qualquer maneira, olhando para o VIX, algo desse tipo teria funcionado: os grandes spikes em volatilidade duraram poucos dias, concentrados entre agosto e setembro, e sempre foram seguidos de reversões rápidas e violentas. Durante Dezembro, o VIX colapsou e deve terminar o ano perto de onde começou.
No campo mais abstrato, uma tese a ser comprovada é "as consequências econômicas de mr Taleb": a popularização da compra de seguros contra eventos extremos elevou muito o preço de "risco", a ponto desse tipo de estratégia não ser mais eficiente. Quem desenvolver isso já tem uma boa tese de mestrado pronta.
- A carteira de crédito do BNDES vai começar a ter problemas. Talvez demore mais do que um ano, mas a JBS não vai se aguentar.
Ainda não foi dessa vez que o BNDES teve que reconhecer grandes perdas em investimentos, mas mantenho a convicção. E a JBS nem é o pior caso...
- Não terminarão o ano acima dos preços máximos deste ano as ações de: Apple, Netflix, bancos brasileiros, índice do México, índice da Alemanha. E, sinto informar, o Facebook não vale US$ 40 bilhões.
Variações em 2011 (sem nem olhar as máximas de 2010, que são quase todas mais altas que o fechamento): Apple +23,5%, Netflix -58%, Itaú -12%, Bradesco -4%, Banco do Brasil -24%, Santander Brasil -33%, índice IPC do México -3,8% (em moeda local, -14% em dólares), índice DAX -17%. Nada mal o índice de acerto - só errei a Apple, aposta que vou renovar para 2012. Quanto ao Facebook... continuo achando que não vale US$ 40 bilhões, mas a última estimativa de precificação para o IPO é de módicos US$ 100 bilhões. Veremos...
- Preços de imóveis em São Paulo e Rio de Janeiro vão seguir altos (e, possivelmente, subindo).
O índice FIPE ZAP (Case-Shiller, o FIPE ZAP deles) de São Paulo subiu 25% até Novembro; no Rio, a alta foi de quase 30% no mesmo período. Nada de bolha estourando aqui, também.
- Eike Batista vai seguir vendendo promessas. Guido Mantega vai continuar falando asneiras. Ben Bernanke vai seguir imprimindo. Eu vou seguir reclamando.
Essa era covardia, não vou nem contar como acerto - vide as bravatas do Eike, as Mantegadas, o prosseguimento da política monetária expansiva nos EUA e a manutenção do tom rabugento deste blog.
- Vai ficar cada vez mais claro o quanto Lula foi sortudo. E a culpa vai ser colocada em dona Dilma. É do jogo...
Meu ponto aqui eram os preços de commodities, que, no geral, não caíram e seguiram disfarçando muitas fragilidades da economia brasileira. O que ficou claro, considerando as quedas quase mensais de ministros, é quanto o arranjo político dos últimos anos dependia da, digamos, flexibilidade e capacidade de afagar quase todos os lados do Lula. A vida para Dilma é mais difícil, e não necessariamente isso é culpa exclusiva dela.
- Vou errar pelo menos metade das previsões acima. Espero não perder leitores por isso. Saravá!
Na minha contagem esquisita, até agora errei 5,76 de 12 possíveis, o que significa que acertei mais da metade e errei esta metaprevisão, o que prejudica meu desempenho total (maldita falta de autoconfiança). Ficaria interessante se eu tirasse o "acima" desta previsão: colocar este erro na conta contaria como mais um acerto, e cairíamos em algo próximo ao Paradoxo de Russell (os eventuais leitores que realmente conhecem lógica e matemática podem me apedrejar).
Em resumo, foi mais um ano que confirmou a grande sabedoria de Yogi Berra: é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. Outra confirmação foi a de que na prática, a teoria é outra: ainda que eu tenha acertado relativamente bastante do cenário, o desempenho do meu portifólio foi muito aquém do que isso poderia sugerir. Resta manter o humor e tentar de novo em 2012.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Drunkeynesian Awards 2011
Fora os filmes e livros, uma listinha randômica do que me chamou a atenção durante o ano:
- Ideia econômica do ano: metas para o PIB nominal, que eu não acho particularmente brilhante, mas é o que temos, por enquanto.
- Pior ideia econômica do ano: sanções e multas para os países da Europa que não cumprirem metas fiscais.
- Acadêmico mais pertinente: Barry Eichengreen.
- Melhor research de banco: Nomura, pelo Richard Koo ter acertado (por enquanto) o script japonês das crises dos EUA e da Europa, pelos acertos de Kevin Gaynor e Bob Janjuah na direção geral dos mercados e por ter sido, por muito tempo, a única casa que dizia que o Banco Central do Brasil cortaria os juros antes e mais do que o consenso imaginava.
- Troféu sic transit gloria mundi: John Paulson, depois de ser "o" cara que lucrou com a crise de 2007/2008, vai terminar o ano perdendoquase mais que metade do capital dos clientes, em alguns fundos.
- Furos de bolha do ano: algodão (caiu 62% do pico, em março) e Netflix (perdeu 60% do valor de mercado).
- Troféu "Vivendo e Não Aprendendo": cotistas da GWI, que voltaram a confiar num gestor incompetente / maluco / mal intencionado e foram novamente varridos, desta vez por uma verdadeira marolinha do mercado.
- Pior case do mercado de ações no Brasil: disputa duríssima. Tivemos grandes micos em praticamente todos os setores, mas acho que fico com os frigoríficos amigos do BNDES, sobretudo a Marfrig, que colaborou muito para o desastre do camarada mencionado acima. Menções desonrosas para Lupatech, B2W, HRT, Gafisa, etc...
- Melhor factóide: risco EUA maior que risco Brasil, cortesia, claro, de Guido Mantega. E ele ainda arrisca entrar na história como o cara que decretou a "guerra cambial" dos anos 2010.
- Melhor hedge fund: Banco Central do Brasil, que passou boa parte do ano comprando dólares perto de R$ 1,60 e vendeu a R$ 1,90. Além disso, acertou na mosca (por acaso ou não) o timing da crise européia quando resolveu cortar os juros e capturou todo o rali nas Treasuries e bônus de países desenvolvidos que compõem as reservas internacionais. Só vai faltar o Tombini pedir bônus de performance para dona Dilma.
- Melhor twitter: @PSTUvote16, com um kolkhoz de vantagem.
- Melhor blog novo estrangeiro: Global Macro Monitor (é do fim do ano passado, na verdade).
- Melhor blog novo brasileiro: era para ser o A Consciência de Dois Liberais, mas parece que esse já foi abandonado prematuramente (diz-se que por criticar a FIESP. Parabéns, grupo Abril, por cultivar e defender a liberdade de expressão no país). Um dos "dois liberais", o Fábio Kanczuk, lançou o Cerebelo Econômico, que é bastante promissor.
- Foto do ano: em política / economia, esta da Merkel e Sarkozy apontando para o Mario Monti é insuperável. No absoluto, fico com essa do quebra-quebra em Vancouver depois que os Canucks locais perderam a Stanley Cup para o Boston Bruins.Corinthianos depredando o Pacaembu depois da eliminação da Libertadores são amadores.
- Disco de rock do ano: w h o k i l l, do tUnE-yArDs, apesar da grafia ridícula.
- Melhor disco de jazz que ainda não ouvi: Samdhi, do Rudresh Mahanthappa.
- Melhor show em São Paulo: empate entre Christian Scott e Chris Potter, ambos no SESC Pompéia. A apresentação do Stevie Wonder no Rock in Rio também não foi mole.
- Melhor site de comics: estrangeiro, Abstruse Goose. Brasileiro, Dinâmica de Bruto.
- Melhor destino turístico futuro: Grécia, depois da desvalorização. Mesmo com o euro, já está relativamente barato.
- Melhor paper acadêmico: o estudo sobre traumas cerebrais nas histórias do Asterix.
- Pior paper acadêmico: Male Organ and Economic Growth: Does Size Matter?
- Melhor nome de presidente exercendo o cargo: Goodluck Jonathan (Nigéria)
- Melhor nome de personagem de filme (que poderia ser presidente de algum país): Motherfucker Jones, personagem impagável de Jamie Foxx em Quero Matar Meu Chefe.
- Melhor pior analogia: Christopher Hitchens, o Reinaldo Azevedo deles. Pelo menos gerou dezenas de boas piadas.
- Palavra do ano: o Merriam-Webster diz que é pragmatic, mas só porque não tiveram coragem de eleger bunga bunga.
Ainda preciso conferir as minhas previsões e algumas do mercado para o ano, e aí 2011 estará acabado para este humilde blog. Fiquem por aí.
- Ideia econômica do ano: metas para o PIB nominal, que eu não acho particularmente brilhante, mas é o que temos, por enquanto.
- Pior ideia econômica do ano: sanções e multas para os países da Europa que não cumprirem metas fiscais.
- Acadêmico mais pertinente: Barry Eichengreen.
- Melhor research de banco: Nomura, pelo Richard Koo ter acertado (por enquanto) o script japonês das crises dos EUA e da Europa, pelos acertos de Kevin Gaynor e Bob Janjuah na direção geral dos mercados e por ter sido, por muito tempo, a única casa que dizia que o Banco Central do Brasil cortaria os juros antes e mais do que o consenso imaginava.
- Troféu sic transit gloria mundi: John Paulson, depois de ser "o" cara que lucrou com a crise de 2007/2008, vai terminar o ano perdendo
- Furos de bolha do ano: algodão (caiu 62% do pico, em março) e Netflix (perdeu 60% do valor de mercado).
- Troféu "Vivendo e Não Aprendendo": cotistas da GWI, que voltaram a confiar num gestor incompetente / maluco / mal intencionado e foram novamente varridos, desta vez por uma verdadeira marolinha do mercado.
- Pior case do mercado de ações no Brasil: disputa duríssima. Tivemos grandes micos em praticamente todos os setores, mas acho que fico com os frigoríficos amigos do BNDES, sobretudo a Marfrig, que colaborou muito para o desastre do camarada mencionado acima. Menções desonrosas para Lupatech, B2W, HRT, Gafisa, etc...
- Melhor factóide: risco EUA maior que risco Brasil, cortesia, claro, de Guido Mantega. E ele ainda arrisca entrar na história como o cara que decretou a "guerra cambial" dos anos 2010.
- Melhor hedge fund: Banco Central do Brasil, que passou boa parte do ano comprando dólares perto de R$ 1,60 e vendeu a R$ 1,90. Além disso, acertou na mosca (por acaso ou não) o timing da crise européia quando resolveu cortar os juros e capturou todo o rali nas Treasuries e bônus de países desenvolvidos que compõem as reservas internacionais. Só vai faltar o Tombini pedir bônus de performance para dona Dilma.
- Melhor twitter: @PSTUvote16, com um kolkhoz de vantagem.
- Melhor blog novo estrangeiro: Global Macro Monitor (é do fim do ano passado, na verdade).
- Melhor blog novo brasileiro: era para ser o A Consciência de Dois Liberais, mas parece que esse já foi abandonado prematuramente (diz-se que por criticar a FIESP. Parabéns, grupo Abril, por cultivar e defender a liberdade de expressão no país). Um dos "dois liberais", o Fábio Kanczuk, lançou o Cerebelo Econômico, que é bastante promissor.
- Foto do ano: em política / economia, esta da Merkel e Sarkozy apontando para o Mario Monti é insuperável. No absoluto, fico com essa do quebra-quebra em Vancouver depois que os Canucks locais perderam a Stanley Cup para o Boston Bruins.Corinthianos depredando o Pacaembu depois da eliminação da Libertadores são amadores.
- Disco de rock do ano: w h o k i l l, do tUnE-yArDs, apesar da grafia ridícula.
- Melhor disco de jazz que ainda não ouvi: Samdhi, do Rudresh Mahanthappa.
- Melhor show em São Paulo: empate entre Christian Scott e Chris Potter, ambos no SESC Pompéia. A apresentação do Stevie Wonder no Rock in Rio também não foi mole.
- Melhor site de comics: estrangeiro, Abstruse Goose. Brasileiro, Dinâmica de Bruto.
- Melhor destino turístico futuro: Grécia, depois da desvalorização. Mesmo com o euro, já está relativamente barato.
- Melhor paper acadêmico: o estudo sobre traumas cerebrais nas histórias do Asterix.
- Pior paper acadêmico: Male Organ and Economic Growth: Does Size Matter?
- Melhor nome de presidente exercendo o cargo: Goodluck Jonathan (Nigéria)
- Melhor nome de personagem de filme (que poderia ser presidente de algum país): Motherfucker Jones, personagem impagável de Jamie Foxx em Quero Matar Meu Chefe.
- Melhor pior analogia: Christopher Hitchens, o Reinaldo Azevedo deles. Pelo menos gerou dezenas de boas piadas.
- Palavra do ano: o Merriam-Webster diz que é pragmatic, mas só porque não tiveram coragem de eleger bunga bunga.
Ainda preciso conferir as minhas previsões e algumas do mercado para o ano, e aí 2011 estará acabado para este humilde blog. Fiquem por aí.
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um grande filme sobre a crise e o mercado financeiro: Margin Call
[O texto deve ter alguns spoilers - nada que atrapalhe muito quem ainda não assistiu, mas os mais sensíveis a isso talvez prefiram ver o filme antes de ler.]
David Denby, um dos críticos de cinema da New Yorker, disse que Margin Call é "facilmente o melhor filme já feito sobre Wall Street", afirmação da qual é difícil discordar. O que me leva a essa conclusão é tanto o que o filme mostra (mais adiante) quanto o que não mostra: aqui não têm vez prostitutas de luxo (pelo menos visualmente), cocaína, conspirações, mesas de operações histéricas e dândis de dockside sem meia ostentando relógios de ouro. Os estereótipos dão vez a um realismo cínico que é facilmente identificado por quem já trabalhou no mercado financeiro, e a história e os diálogos são tão bem construídos (claro que o elenco estelar ajuda) que mesmo quem não tem interesse particular pelo assunto vê os 107 minutos passarem com facilidade.
Margin Call acompanha 36 horas infernais na vida de um banco de investimentos americano, envolvido até o último fio de cabelo na bolha imobiliária que estourou nos EUA em 2008. As referências ao Lehman Brothers são óbvias: desde a data escolhida para o lançamento no circuito americano (15 de setembro, exatos três anos depois que o Lehman pediu falência) até o nome do presidente do banco fictício - John Tuld, mudando uma letra pode-se ter o ex-presidente do Lehman (Fuld) ou o Inglês para "pedaço de merda" (turd - não sei se essa sacanagem foi intencional, mas me pareceu evidente). Nesse tempo, um executivo de riscos é demitido e entrega para um de seus funcionários um pen drive (uma das poucas cenas pouco críveis do filme - o segurança do banco que o acompanhava no elevador jamais teria permitido). Nele estão simulações estatísticas que levam à conclusão inevitável de que o banco está muito perto de ir pelo ralo.
A partir daí, toda a hierarquia da companhia é convocada para um comitê apocalíptico. Claro que os altos executivos já haviam sido avisados da situação, mas decidiram, como a esmagadora maioria do mercado, dançar até os últimos acordes da música (imagem criada por um ex-presidente do Citi e usada com muita propriedade no filme). Aí começam as diferenças com a realidade: enquanto o Lehman não conseguiu (ou não quis) tomar as medidas que salvariam o banco, e esperou até a última hora por um comprador ou pela intervenção do governo (essa situação está muito bem ilustrada em outro filme bastante recomendável, Too Big To Fail), o banco de Margin Call é o primeiro no mercado a perceber que a música parou. Levando isso em conta, toma as medidas para salvar a companhia: uma das frases antológicas do presidente John Tuld é "existem três maneiras de sobreviver no negócio: ser o primeiro, ser o mais esperto ou trapacear"; em um dia a equipe da mesa de operações exercita um pouco de cada uma delas e, ao fim desse dia, entendo que o banco estava salvo (creio que quem fez algo mais próximo disso na vida real foi a Goldman Sachs).
Enredo à parte, a galeria de personagens, do analista recém formado até o presidente do banco, passando por traders, executivos de risco e sócios, é riquíssima e completamente sintonizada com a realidade. O elenco, como já disse, é fabuloso: só para ficar nos nomes mais famosos, Jeremy Irons, Kevin Spacey, Paul Bettany, Stanley Tucci, Demi Moore, todos excelentes em seus papéis. A direção e o roteiro, de J.C. Chandor, são muito competentes, mais ainda levando em conta que é o primeiro longa no qual trabalhou. O conjunto é um grande filme sobre os nossos tempos, informativo sem ser exageradamente denso; acima de tudo, entretenimento de grande qualidade, que acho que é dos melhores elogios que podem ser feitos a um filme.
Margin Call estreou em São Paulo semana passada, e, enquanto escrevo, ainda sobrevive em três salas. Não sei se já está disponível nos iTunes e Netflix da vida; se não, deve aparecer em breve.
P.S. Não há nenhuma chamada de margem no filme, apesar do título. E é quase óbvio dizer o quanto é desnecessário o subtítulo aqui no Brasil (O Dia Antes do Fim).
David Denby, um dos críticos de cinema da New Yorker, disse que Margin Call é "facilmente o melhor filme já feito sobre Wall Street", afirmação da qual é difícil discordar. O que me leva a essa conclusão é tanto o que o filme mostra (mais adiante) quanto o que não mostra: aqui não têm vez prostitutas de luxo (pelo menos visualmente), cocaína, conspirações, mesas de operações histéricas e dândis de dockside sem meia ostentando relógios de ouro. Os estereótipos dão vez a um realismo cínico que é facilmente identificado por quem já trabalhou no mercado financeiro, e a história e os diálogos são tão bem construídos (claro que o elenco estelar ajuda) que mesmo quem não tem interesse particular pelo assunto vê os 107 minutos passarem com facilidade.
Margin Call acompanha 36 horas infernais na vida de um banco de investimentos americano, envolvido até o último fio de cabelo na bolha imobiliária que estourou nos EUA em 2008. As referências ao Lehman Brothers são óbvias: desde a data escolhida para o lançamento no circuito americano (15 de setembro, exatos três anos depois que o Lehman pediu falência) até o nome do presidente do banco fictício - John Tuld, mudando uma letra pode-se ter o ex-presidente do Lehman (Fuld) ou o Inglês para "pedaço de merda" (turd - não sei se essa sacanagem foi intencional, mas me pareceu evidente). Nesse tempo, um executivo de riscos é demitido e entrega para um de seus funcionários um pen drive (uma das poucas cenas pouco críveis do filme - o segurança do banco que o acompanhava no elevador jamais teria permitido). Nele estão simulações estatísticas que levam à conclusão inevitável de que o banco está muito perto de ir pelo ralo.
A partir daí, toda a hierarquia da companhia é convocada para um comitê apocalíptico. Claro que os altos executivos já haviam sido avisados da situação, mas decidiram, como a esmagadora maioria do mercado, dançar até os últimos acordes da música (imagem criada por um ex-presidente do Citi e usada com muita propriedade no filme). Aí começam as diferenças com a realidade: enquanto o Lehman não conseguiu (ou não quis) tomar as medidas que salvariam o banco, e esperou até a última hora por um comprador ou pela intervenção do governo (essa situação está muito bem ilustrada em outro filme bastante recomendável, Too Big To Fail), o banco de Margin Call é o primeiro no mercado a perceber que a música parou. Levando isso em conta, toma as medidas para salvar a companhia: uma das frases antológicas do presidente John Tuld é "existem três maneiras de sobreviver no negócio: ser o primeiro, ser o mais esperto ou trapacear"; em um dia a equipe da mesa de operações exercita um pouco de cada uma delas e, ao fim desse dia, entendo que o banco estava salvo (creio que quem fez algo mais próximo disso na vida real foi a Goldman Sachs).
Enredo à parte, a galeria de personagens, do analista recém formado até o presidente do banco, passando por traders, executivos de risco e sócios, é riquíssima e completamente sintonizada com a realidade. O elenco, como já disse, é fabuloso: só para ficar nos nomes mais famosos, Jeremy Irons, Kevin Spacey, Paul Bettany, Stanley Tucci, Demi Moore, todos excelentes em seus papéis. A direção e o roteiro, de J.C. Chandor, são muito competentes, mais ainda levando em conta que é o primeiro longa no qual trabalhou. O conjunto é um grande filme sobre os nossos tempos, informativo sem ser exageradamente denso; acima de tudo, entretenimento de grande qualidade, que acho que é dos melhores elogios que podem ser feitos a um filme.
Margin Call estreou em São Paulo semana passada, e, enquanto escrevo, ainda sobrevive em três salas. Não sei se já está disponível nos iTunes e Netflix da vida; se não, deve aparecer em breve.
P.S. Não há nenhuma chamada de margem no filme, apesar do título. E é quase óbvio dizer o quanto é desnecessário o subtítulo aqui no Brasil (O Dia Antes do Fim).
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Gráfico do dia - custo de crises bancárias
A Autoridade Bancária Européia (EBA) divulgou hoje um teste de stress cujo resultado indica que os bancos europeus precisarão levantar adicionais € 115 bilhões em novo capital. Isso corresponde a pouco menos de 1% do PIB da União Européia (eu tinha escrito 10%, erro grosseiro - obrigado ao anônimo que corrigiu nos comentários), de € 12,3 trilhões. Esse tipo de estimativa parece estar se aproximando mais da realidade, mas acredito que os números ainda sejam otimistas demais: para pegar um caso que me parece mais dramático, os três maiores bancos franceses carregam € 4,7 trilhões em ativos, e pela EBA precisariam de apenas mais € 7,3 bilhões (abertura dos resultados aqui).
Em 2005, o Fed de St Louis publicou o seguinte gráfico, num trabalho sobre crises bancárias:
A tabela abaixo é de um trabalho de 2010, do FMI:
Lembrando que, mesmo antes de resolver o problema dos bancos, os tesouros nacionais partem de níveis de dívida bem pouco confortáveis, para ser generoso com o adjetivo.Cada vez mais parece clara a escolha entre ligar a impressora oucalotar renegociar a dívida. Chamar a situação atual de "crise de confiança" é um insulto à inteligência dos pagadores de impostos europeus.
Em 2005, o Fed de St Louis publicou o seguinte gráfico, num trabalho sobre crises bancárias:
E adicionou (grifo meu):
The fiscal costs of restructuring may seem extremely large at first, but they often pale in comparison to the long-term effects of systemic banking crises. The resources committed to resolving a crisis are diverted from other productive uses, economic reforms are delayed, and stabilization programs are abandoned. The economy suffers from higher interest rates, lower growth, and higher unemployment for a protracted period. Because nearly every citizen is affected by the declining living standards brought on by large banking crises, the public should understand the factors that weaken a banking system and make it susceptible to systemic crises.
A tabela abaixo é de um trabalho de 2010, do FMI:
Lembrando que, mesmo antes de resolver o problema dos bancos, os tesouros nacionais partem de níveis de dívida bem pouco confortáveis, para ser generoso com o adjetivo.Cada vez mais parece clara a escolha entre ligar a impressora ou
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
A besteira dos BRICs
Num dos primeiros posts deste blog, há longos quatro anos, eu demonstrava meu desespero ao ver uma jogada de marketing de um banco americano ser levada a sério pela diplomacia brasileira. Desde então, o desespero só aumentou: em 2009, em Yekaterimburgo, Rússia, foi realizado o primeiro fórum dos BRICs (que passou a ser anual, em 2012 ocorrerá na Índia) e, no final do ano passado, a África do Sul se juntou ao grupo unido pela cabeça do Jim O'Neill e um "S" foi adicionado ao acrônimo. Ainda estamos para ver algo prático e benéfico sair desses encontros, e assim deve continuar por algum tempo. Pode ter algum valor como ferramenta de soft power, mas não consigo deixar de achar, no fundo, uma distração do que realmente importa pro país.
Tudo isso pra comentar que esta semana apareceram mais alguns que compartilham da minha birra com o conceito, em diferentes frentes:
- Clóvis Rossi, da Folha (em quem eu tinha metido o pau aqui, dessa vez ele acertou a mão - ou simplesmente concordou comigo), pegou os ganchos de uma palavra chinesa (hoyou) citada pelo Elio Gaspari e uma entrevista do Jim O'Neill para contar a história e falar da irrelevância do grupo nas discussões internacionais;
- Albert Edwards, do Société Générale, fala do fracasso que foi investir em BRICs neste ano, e cita a apropriada (re)definição de um amigo: Bloody Ridiculous Investment Concept.
- Update: o Moska indicou esse texto do Financial Times de alguns dias atrás. Já estou me sentindo um visionário.
Tudo isso pra comentar que esta semana apareceram mais alguns que compartilham da minha birra com o conceito, em diferentes frentes:
- Clóvis Rossi, da Folha (em quem eu tinha metido o pau aqui, dessa vez ele acertou a mão - ou simplesmente concordou comigo), pegou os ganchos de uma palavra chinesa (hoyou) citada pelo Elio Gaspari e uma entrevista do Jim O'Neill para contar a história e falar da irrelevância do grupo nas discussões internacionais;
- Albert Edwards, do Société Générale, fala do fracasso que foi investir em BRICs neste ano, e cita a apropriada (re)definição de um amigo: Bloody Ridiculous Investment Concept.
- Update: o Moska indicou esse texto do Financial Times de alguns dias atrás. Já estou me sentindo um visionário.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011
Leituras pré-Dia do Peru
- Um exercício de futurologia de Niall Ferguson sobre a Europa. Provavelmente vai errar tudo, mas a narrativa é interessante e provocativa.
- Uma carta aberta para Jens Weidmann, presidente do Bundesbank.
- Muitos gráficos interessantes sobre a "Grande Desalavancagem".
- Os hedge funds estão ficando nus.
- Malcolm Gladwell aceita uma oferta do lado negro da força (dica do Bruno Borges).
- Mais uma adição para a lista de zumbis econômicos de John Quiggin: austeridade.
- Cinco livros para provar que a economia pode ser divertida.
- Burocratas e políticos, respectivamente, decidiram que água não hidrata e que pizza é um vegetal. What a wonderful world!
- O NY Times sobre a morte da película de celulóide.
- Quem nunca fez um dinheirinho atuando em filme pornô quando jovem e quebrado? Frank Sinatra fez.
- Forte candidata à frase do ano: "The excessive amount of semen stain on the floor cost thousands of pounds to be removed professionally and must be reflected in tuition fee rises for next year."
- Uma carta aberta para Jens Weidmann, presidente do Bundesbank.
- Muitos gráficos interessantes sobre a "Grande Desalavancagem".
- Os hedge funds estão ficando nus.
- Malcolm Gladwell aceita uma oferta do lado negro da força (dica do Bruno Borges).
- Mais uma adição para a lista de zumbis econômicos de John Quiggin: austeridade.
- Cinco livros para provar que a economia pode ser divertida.
- Burocratas e políticos, respectivamente, decidiram que água não hidrata e que pizza é um vegetal. What a wonderful world!
- O NY Times sobre a morte da película de celulóide.
- Quem nunca fez um dinheirinho atuando em filme pornô quando jovem e quebrado? Frank Sinatra fez.
- Forte candidata à frase do ano: "The excessive amount of semen stain on the floor cost thousands of pounds to be removed professionally and must be reflected in tuition fee rises for next year."
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Frases do dia - Don't Mess With the U.S.
The US can force monetization at the ECB. If the Colonel deems sado-fiscalism as a global systemic threat (which it is), the Fed could act. The Fed has an account at the ECB in Euros. When the pesky Europeans borrow dollars from us on currency swaps to fund their insolvent banks we get this lovely account. And right now the Euros just sit there! If things get messy we just jack the "unlimited" lines up, back up the forklift, and buy Euro area bonds. Lots of them. Say a trillion or two across all non-German markets. The Fed already owns nearly 100b in German and French bonds. And if anyone tries to default down the road, well we have a few hundred billion in European gold to confiscate in the basement of the NY Fed. And if that's not enough we just institute "annual fees" for NATO membership or start confiscating European assets in the US. If the shenanigans in Europe are going to mess up a US recovery, or even a presidential election, then there should be a serious US response. We did not spend all that money on the Marshall plan just to have Europe blow up the world again!
Roteiro de ficção de David Zervos, do banco americano Jefferies, um pouco descontente com o que chama de "sadofiscalismo" e falta de ação dos europeus (os grifos no trecho são meus). O texto completo está aqui.
domingo, 13 de novembro de 2011
Edição de Domingo - Pa-Panamericano
Porque é muito fácil falar da crise e das fraudes bancárias alhures e não se lembrar do nosso próprio umbigo. Que não se esqueça a história podre do Panamericano, e, se possível, dê-se atenção a outro caso similar (que ainda não virou um escândalo): o do Banco Votorantim, em 2008. Escreve o Elio Gaspari hoje, na Folha:
Os amigos do mico do PanAmericano
Todos os malfeitos dos seis ministros varridos na faxina da doutora Dilma não somam os R$ 4,3 bilhões do buraco do Banco PanAmericano. Em dezembro de 2009 o comissariado da Caixa Econômica comprou por R$ 739 milhões metade desse negócio, então pertencente ao empresário Silvio Santos. À época, tudo parecia nos conformes. O Banco Central autorizou a operação, e as contas haviam sido auditadas pela KPMG e pela Deloitte.
Em agosto de 2010 o BC sentiu cheiro de queimado e, dois meses depois, chamou a Polícia Federal. Desde 2007 os diretores do PanAmericano simplesmente vendiam carteiras de crédito sem retirar esses valores de seus balanços. Para começar, um rombo de R$ 2,5 bilhões. A Caixa comprara metade de um mico.
Havia de tudo, dezenas de milhões em bônus dissimulados, casas em Miami e até caixas de dinheiro em porta-malas de carro. Graças à PF sabe-se que há mais. Em 2009, o ex-comissário Luiz Gushiken tinha tratativas com a casa. Nesse ano, o braço direito de Silvio Santos dizia que "ficou de boca aberta" ao saber quem eram os "amigos" que ajudariam a enfiar a Caixa no buraco. Amigos, o banco tinha. Em dezembro de 2006, com Lula já reeleito, seus diretores, valendo-se de empresas próprias, doaram legalmente R$ 500 mil à sua campanha. Em janeiro de 2010, semanas depois da entrada da Caixa no banco, os diretores recebiam pedidos para nomear amigos do governo. Num e-mail, o presidente Rafael Palladino narrou sugestões para que se aninhasse no PanAmericano o companheiro Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES. A essa altura, a explosão do banco era iminente, mas doaram, "na moita", por meio de outra empresa, R$ 300 mil para o Diretório Nacional do PT. Na mesma época, o PanAmericano passou ao tucanato R$ 954 mil. Numa operação escrachada, pagou contas de campanha do governador Teotônio Vilela. Em agosto de 2010 o Banco Central achou o rombo, no dia 22 de setembro Silvio Santos esteve com Lula e em outubro chamou-se a polícia.
O PanAmericano mudou de dono, Silvio Santos saiu do negócio, os ex-diretores estão indiciados em inquérito, o contador está colaborando com as investigações e os computadores apreendidos pela PF têm mais a contar.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Leituras da Semana
Hoje é dia da independência do Camboja.
- Nassim Taleb pede o fim dos bônus para banqueiros.
- Thomas Sargent aceita um convite para se unir ao lado negro.
- Uma rara (e lúcida) perspectiva otimista para a Europa.
- Barry Eichengreen defende que o BCE comece a acelerar as compras de dívida italiana.
- Daniel Kahneman, por Michael Lewis.
- A história da turma que abandonou uma aula de introdução à economia, em Harvard.
- Um bom indicador de desenvolvimento para o Brasil: 14% dos CEOs de grandes empresas são mulheres (contra menos que 5% nos EUA e no Reino Unido). Via Marginal Revolution.
- Os 10 maiores no crédito imobiliário no Brasil.
- Uma ideia digna de Ig Nobel: taxar os países da Europa com desemprego alto.
- Acho que o Niall Ferguson caiu de vez na tentação da supersimplificação, uma pena.
- Andrew Lo, do MIT, resume 21 livros sobre a crise.
- Luigi Zingales, de Chicago, sobre o declínio do ideal meritocrático.
- Mauricio Santoro sobre o fim da era do Bunga-Bunga.
- Para Dani Rodrik, a manufatura é especial.
- Explicando lógica difusa (fuzzy) em uma imagem.
- A turma do Charlie Brown encontra H.P. Lovecraft.
- Kind of Blue, Time Out, The Shape of Jazz to Come, Mingus Ah Um... parece que 1959 foi um ano bom pro jazz.
- Nassim Taleb pede o fim dos bônus para banqueiros.
- Thomas Sargent aceita um convite para se unir ao lado negro.
- Uma rara (e lúcida) perspectiva otimista para a Europa.
- Barry Eichengreen defende que o BCE comece a acelerar as compras de dívida italiana.
- Daniel Kahneman, por Michael Lewis.
- A história da turma que abandonou uma aula de introdução à economia, em Harvard.
- Um bom indicador de desenvolvimento para o Brasil: 14% dos CEOs de grandes empresas são mulheres (contra menos que 5% nos EUA e no Reino Unido). Via Marginal Revolution.
- Os 10 maiores no crédito imobiliário no Brasil.
- Uma ideia digna de Ig Nobel: taxar os países da Europa com desemprego alto.
- Acho que o Niall Ferguson caiu de vez na tentação da supersimplificação, uma pena.
- Andrew Lo, do MIT, resume 21 livros sobre a crise.
- Luigi Zingales, de Chicago, sobre o declínio do ideal meritocrático.
- Mauricio Santoro sobre o fim da era do Bunga-Bunga.
- Para Dani Rodrik, a manufatura é especial.
- Explicando lógica difusa (fuzzy) em uma imagem.
- A turma do Charlie Brown encontra H.P. Lovecraft.
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