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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Gráfico do Dia - Fed, o Moderado

Cortesia do Deutsche Bank.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Alan Blinder

Alan Blinder foi vice-presidente do Fed entre 1994 e 1996. A curta permanência é atribuída a uma tentativa de debater ideias e premissas em uma instituição que, na época, orbitava em torno da aura de "maestro" de Alan Greenspan (não sei dizer se Bernanke é mais ou menos autoritário). Como citado pela Wikipedia, de um artigo do Huffington Post:

[Economist] Rob Johnson, who watched the Blinder ordeal, says Blinder made the mistake of behaving as if the Fed was a place where competing ideas and assumptions were debated. "Sociologically, what was happening was the Fed staff was really afraid of Blinder. At some level, as an applied empirical economist, Alan Blinder is really brilliant," says Johnson. In closed-door meetings, Blinder did what so few do: he challenged assumptions. "The Fed staff would come out and their ritual is: Greenspan has kind of told them what to conclude and they produce studies in which they conclude this. And Blinder treated it more like an open academic debate when he first got there and he'd come out and say, 'Well, that's not true. If you change this assumption and change this assumption and use this kind of assumption you get a completely different result.' And it just created a stir inside--it was sort of like the whole pipeline of Greenspan-arriving-at-decisions was disrupted." This put him in conflict with Greenspan and his staff. "A lot of senior staff... were pissed off about Blinder--how should we say?--not playing by the customs that they were accustomed to," Johnson says.

Um ano após sua saída, Blinder foi convidado a proferir as célebres Lionel Robbins Memorial Lectures da London School of Economics. A transcrição das aulas virou um livrinho clássico, Central Banking in Theory and Practice, lançado no início de 1999.

Hoje o Valor publicou uma longa entrevista com Blinder, que está lançando um novo livro que aumenta a já enorme biblioteca de obras sobre a crise recente. Da resenha de Roger Lowenstein para a New Republic:

Say this for Alan S. Blinder: the man has not been jaded. His new book on the Wall Street meltdown, After the Music Stopped: The Financial Crisis, the Response, and the Work Ahead, is animated by a lay person’s sense of wonder and—at times—horror at the country’s financial mess.

Pois bem, eis que, no finalzinho do livro mais recente de Nassim Taleb, Antifragile, encontro a seguinte história:

At Davos, during a private coffee conversation that I thought aimed at saving the world from, among other things, moral hazard and agency problems, I was interrupted by Alan Blinder, a former vice chairman of the Federal Reserve Bank of the United States, who tried to sell me a peculiar investment product that aims at legally hoodwinking taxpayers. It allowed the hight net worth investor to get around the regulations limiting deposit insurance (at the time, $100,000) and benefit from coverage for near-unlimited amounts. The investor would deposit funds in any amount and Prof. Blinder's company would break it up into smaller accounts and invest in banks, thus escaping the limit; it would look like a single account but would be insured in full. In other words, it would allow the super-rich to scam taxpayers by getting free goverment-sponsored insurance. Yes, scam taxpayers. Legally. With the help of former civil servants who have an insider edge. 
I blurted out: "Isn't this unethical?" I was then told in response "It is perfectly legal," adding the even more incriminating "we have plenty of former regulators on the staff," (a) implying that what was legal was ethical and (b) asserting that former regulators have an edge over citizens. 
(...) 
Now stage two - things get worse. Blinder and the dean of Columbia University Business School wrote an op-ed opposing the government's raising the insurance limit on individuals. The article argued that the public should not have the unlimited insurance that Blinder's clients benefit from.

Não descobri se houve uma réplica de Blinder, mas, se a história é verdadeira, "horror at the country's financial mess" só pode ser uma forma aguda de dissonância cognitiva - ou pura canalhice.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

10 coisas que não entendo da política econômica de Dilma

Como os leitores habituais já devem ter percebido, estou longe de ser crítico incondicional do que se faz na condução da política econômica no Brasil - não acho, por exemplo, que a ortodoxia irrestrita é nossa salvação, nem que os ministérios são dominados por completos imbecis. Ainda assim, pelo meio de mandato de dona Dilma, muita coisa me escapa a compreensão, e, honestamente, algumas delas não sei se por estupidez de quem as determina ou falha no meu entendimento. Abaixo compartilho parte dessa reflexão em 10 pontos (fui listando e cheguei em nove, obviamente acrescentei mais um por razões de marketing):

1. Comunicação e estratégia do Banco Central

Eu espumo de raiva toda vez que leio algum comunicado do BC. Primeiro a convergência para o centro da meta de inflação é "não-linear", depois essa menção desaparece; uma hora eles se metem a emitir comunicados oficiais sobre o que sai na imprensa, mas cansaram, ao longo do ano passado, de "mandar recados" por vários diretores antes das reuniões de política monetária. Achei totalmente legítima a tentativa de buscar um novo equilíbrio para a taxa Selic, mas há algum tempo o juro real é menor do que o que Dilma prometeu no início do mandato (2%) e tenho a impressão de que eles passam os dias torcendo por algum choque deflacionário (algo como a torcida para que chova nos rios que alimenta hidrelétricas) para que a inflação ceda um pouco.

Uma possibilidade é que está tudo combinado com os russos, ou seja, o governo vai trabalhar para, como no ano passado, tirar alguns pontos da inflação com desonerações, subsídios, etc - o que nos leva a...

2. Não atacar a indexação da economia

Aqui penso especificamente na regra de reajuste do salário mínimo (pelo crescimento do PIB + inflação). Já ouvi o Nelson Barbosa dizer com todas as palavras que a regra foi pensada para atacar distribuição de renda; ocorre que os efeitos secundários começam a aparecer na forma de inflação persistentemente alta (que atrapalha muito mais quem não tem ganhos indexados) e uma compressão de margens de lucro que acaba por sufocar os "espíritos animais" e o investimento. Meu problema aqui, notem, é com privilégios adquiridos, não com a ideia de que os empresários precisam de defesa ou que é ilegítimo tentar distribuir renda.

3. Mania de microgerenciamento

Esse é o caso geral em que caem outros pontos abaixo e as tentativas de influenciar a inflação de um mês para o outro (como se isso fosse fazer grande diferença), acertar a taxa de câmbio em um intervalo de cinco centavos (idem), lançar pacotes com medidas cujo impacto é totalmente marginal, etc... Parece tolice, ou tentativa de disfarçar incapacidade de mexer no que realmente importa.

4. Tentativas de enganar todos, o tempo todo

A sabedoria de Abraham Lincoln diz que isso é uma impossibilidade, o que não impede tentativas por aqui. O exemplo mais recente é das amalucadas manobras contábeis para cumpri a meta de superávit fiscal do ano passado - aos olhos do governo, isso é preferível do que assumir que o ano foi difícil, o crescimento foi baixo e a meta não foi cumprida; ou, como defendeu o Delfim, definir uma nova meta, compatível com os juros mais baixos e que seguiria garantindo uma dinâmica muito boa para a dívida. Dizem as "fontes" que esse caso específico gerou uma briga entre as secretarias de política econômica e do tesouro; pior que tenha vencido a que optou pelo truque, sancionado pelo ministro e a presidenta.

5. Por que não aumentar o preço do combustível?

Pela inflação, claro. Ou porque há uma percepção de que é necessário subsidiar esses preços, às custas da arrecadação de impostos e da saúde financeira da Petrobras, que fica na incrível situação de perder mais dinheiro quanto mais gasolina vender. Ou porque alguém defende que o preço do petróleo vai cair no mercado internacional ao longo do tempo.

Como a meta de inflação vale para o ano-calendário, o governo perdeu uma ótima chance de dar o aumento no final do ano passado, sabendo que a inflação não estouraria o teto da meta e deixaria 2013 menos pressionado. E o acionista minoritário da Petrobras não pode ser destruído - a empresa precisa atrair dinheiro privado para dividir os riscos da exploração do pré-sal (a opção a isso seria fazer todo o investimento pelo tesouro, e dar mais passos na direção de re-estatização da empresa).

6. Não permitir ajustes no mercado de trabalho

Esse ponto é bastante polêmico, já que manter uma taxa de desemprego baixa é um dos melhores objetivos de política econômica que posso imaginar. Há, porém, as tradicionais consequências de suprimir um movimento que seria feito naturalmente no mercado: adiar o ajuste possivelmente atrasa a recuperação do investimento (forçando empresas a terem, por algum tempo, retornos mais baixos), dificulta a vida de quem não está empregado (e estaria disposto a trabalhar por menos do que o salário de mercado) e acumula desequilíbrios para um ponto, no futuro, em que vai ser inevitável atacá-los.

Para este ponto, pensei na relação do governo com as montadoras, mas talvez isso seja menos relevante e de fato estejamos numa situação de mudança estrutural nos preços da mão-de-obra, que deveria levar a uma revisão de planos de negócios, e, com o tempo, a demissões.

7. Falta de ambição com reformas

Talvez, contra a intuição, tempos de bonança não sejam favoráveis a reformas, que só são feitas com a corda no pescoço. De qualquer jeito, é desanimador ver um executivo com ampla base de apoio popular e no legislativo ousar tão pouco.

8. A estratégia do BNDES

cansei de falar disso aqui, mas ainda não entendi (ou não quero entender) o que leva o BNDES a investir tanto em empresas tão pouco promissoras e promover um modelo de empreendedor que toma poucos riscos, tem acesso a financiamento subsidiado e torna-se bilionário antes de suas empresas retornarem o investimento.

9. O "heroísmo" dos bancos públicos

Banco do Brasil e Caixa resolveram compensar a queda na disposição dos bancos privados emprestarem, seja porque os juros ficaram menos atrativas ou as taxas de inadimplência começaram a preocupar (ou uma combinação dos dois fatores). O Jorge Browne, nos comentários, disse que isso pode ser uma aposta numa mudança de paradigma que o setor privado não enxerga - que os ganhos na renda sustentaram uma alta no padrão de endividamento que beneficiará quem mais conceder crédito agora. Pode até ser verdade, só não acho que cabe aos bancos públicos tomarem esse risco (de novo, se der errado, todos os contribuintes pagam a conta, criando a situação em que o trouxa é quem não tomou crédito e teve que pagar pelos que tomaram de qualquer jeito).

10. Guido Mantega

Bem, no fim das contas, ele é groovy.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O mundo de acordo com Paul McCulley

Paul McCulley era um dos mais influentes Fed watchers enquanto trabalhava na PIMCO, de onde se aposentou no final de 2010. Hoje dedica-se a pescar e escrever para o Global Interdependence Center, uma ONG sediada na Filadélfia criada para promover o livre comércio. Em seu último trabalho (em coautoria com Zoltan Pozsar), ele desenha o seguinte mapa da macroeconomia global:


McCulley é, declaradamente, seguidor de Keynes e Minsky. Aqui, dá um passo em direção às heterodoxias que apareceram nos últimos anos, como a Teoria Monetária Moderna, defendendo que a única solução possível (que evitará uma depressão) para os bancos centrais e governos do mundo desenvolvido é alimentar uma simbiose entre bancos centrais e tesouros, na direção do que ele chama de "helicopter money" (o quadro 6 do mapa). Vale a leitura para entender o tal mapa e notar quanto essas ideias radicais estão ganhando em influência.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Europa 2013

Entre o que aconteceu de surpreendente no ano passado, nada me espanta mais do que a Zona do Euro ter chegado a 2013 funcionando e com exatamente a mesma composição de um ano atrás. Dentro desse tema, cresce o espanto ao ver que as taxas de juros pagas pelos títulos dos governos que usam a moeda entraram novamente em convergência, diminuindo a diferença para os títulos da Alemanha.

De algum jeito, Mario Draghi, seus colegas tecnocratas e políticos conseguiram: conter uma corrida bancária que, em vários momentos, pareceu se iniciar na Grécia, Portugal e Espanha; evitar a eleição de partidos radicais, que poderiam tirar unilateralmente seus países do acordo monetário; administrar as divergências internas da comunidade e garantir linhas de salvamento para todos os países em crise mais aguda; e fomentar programas de austeridade mesmo em países com alto desemprego e grande pressão por mais gastos públicos. Não é pouca coisa, e só foi conseguido às custas de alguns pactos faustianos, de alto risco: aumento do "risco moral" do sistema (bancos não quebram mais, ponto final); potencial da austeridade gerar mais um longo período de desemprego alto e consequente radicalização política; enormes desequilíbrios entre os balanços de bancos centrais nacionais (o sistema TARGET2, mais neste paper do BIS) e distorção dos mecanismos de mercado para vários preços importantes (notadamente, o custo de financiamento público).

Para o futuro, creio, uma hipótese importante a ser testada (emprestada do Taleb) é se essa supressão de volatilidade implicará em rupturas mais profundas. Afinal, a vida da maioria da população e sua capacidade de consumir ou pagar dívidas não parece ter melhorado, e deve haver um ponto em que a insistência na austeridade, se não gerar resultados concretos para o emprego, passe a ajudar na plataforma de partidos de oposição mais radicais do que aqueles eleitos nas votações mais recentes. Assim, os maiores riscos tornaram-se ocultos, longe das telas de cotações de preços e sujeitos a dinâmicas pouco previsíveis e de grande impacto.

Por enquanto, sobra aos pessimistas o rótulo de Cassandra, já que as apostas vencedoras das quais se têm notícia foram na capacidade dos governos contornarem a crise e na reação que isso gerou nos mercados - como exemplo, basta dizer que ativos gregos forneceram grandes retornos no ano passado. Não há como ignorar, porém, a deterioração progressiva da representatividade de alguns governos e a tentativa de domar grandes sistemas complexos com medidas centralizadas. A história mostra algumas consequências desastrosas dessa combinação e, infelizmente, não vejo porque acreditar que desta vez será diferente. Porém, anos podem se passar sem que nada aconteça, o que inviabiliza boa parte das teses de investimento baseadas nessa ideia. Resta buscar opcionalidades e, sobretudo, evitar a tentação de eventuais ganhos de curto prazo em ativos sabidamente ruins.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Conferindo as previsões para 2012

Hora do leitor se divertir com a pretensão deste escriba ao imaginar há um ano o que aconteceria nos doze meses seguintes:


- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.

Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.

- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.

Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.

- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.

A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.

- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...

Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.

- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.

2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.

- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.

De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.

- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).

A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.

- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.

É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.

- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.

A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.

- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).

Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.

- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.

Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.

- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.

10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.

- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.

Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.

- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.

BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.

- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.

Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.

- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.

De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.

- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.

Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.

- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.

Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.

- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.

Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.

- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).

Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.

- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.

Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:


They all laughed at Christopher Columbus 
When he said the world was round 
They all laughed when Edison recorded sound 
They all laughed at Wilbur and his brother 
When they said that man could fly 

They told Marconi 
Wireless was a phony 
It's the same old cry 

(...)


For ho, ho, ho! 
Who's got the last laugh? 
Hee, hee, hee! 
Let's at the past laugh 
Ha, ha, ha! 
Who's got the last laugh now?

E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.



- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.

Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:


0,7 / 1.

- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.

Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.

- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.

Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.

- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.

Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.

- Vou errar mais previsões do que no ano passado.

Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):

Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%

Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).

Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.


Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Gasolina Brasilis

Entendo bem pouco de energia e do que se passa entre a Petrobras e o governo, portanto interpretem isso mais como um pensamento alto do que uma análise. A preços atuais, consta que a Petrobras está na curiosa situação de que quanto mais vende combustível, mais perde dinheiro. Se vale isso, vale também dizer que os acionistas da Petrobras (o tesouro nacional entre eles, claro) subsidiam quem consome combustíveis - mais um exemplo bem acabado das tantas taxações regressivas do país.

Fora essa consideração: ao longo do tempo, transformar a Petrobras em uma empresa cronicamente perdedora é um tiro no pé. Os acionistas privados, que dividem com governo os riscos do negócio, tendem a abandonar o investimento; a empresa tem um longo cronograma de investimentos dos quais, aparentemente, já é tarde demais para desistir; e há muita dívida para pagar, que depende de uma taxa de retorno do investimento maior que os juros contratados. No fim das contas, se der besteira, quem sobra para tapar os buracos na empresa é o próprio governo.

*Acumulado em 12 meses

A explicação preferida para essa insistência em manter defasado o preço dos combustíveis é o impacto na inflação. Assumindo que isso seja verdade, e considerando que: i) a meta que de inflação que o BC observa é no ano-calendário; ii) faltam 47 dias para acabar este ano, e, nesse período, é muito pouco provável que a inflação estoure o teto da meta, iii) quanto mais esse aumento demorar, mais ficam os efeitos para serem sentidos na inflação do ano que vem; por que raios o governo não autoriza logo o aumento nos preços?

Algumas possíveis teorias:

- Conspiratória - diz um passarinho verde que há um esforço do executivo para controlar a corrupção nas estatais, uma versão tropicalizada do "starve the beast". Essa hipótese apareceu primeiro aplicada a Eletrobras, mas talvez valha também para a Petrobras. Há que ter cuidado, porém, para não matar a besta;

- Especulativa - na onda atual dos governos acharem que sabem tudo e conseguem controlar muitas variáveis, alguém com poder acha que o preço do petróleo vai seguir caindo (o WTI veio de US$100 no meio de setembro para atuais US$85). Assim, a Petrobras completaria o arquétipo de empresa de petróleo do mundo bizarro, que torce para que o produto que extrai caia de preço.

- Tranquilista - tá tudo bem, o aumento vem em breve, a inflação está sob controle e não teremos problemas.

- Idiotista - como diria o meu pai, "esses caras são todos uns imbecis e não têm a menor ideia do que estão fazendo".

Escolha (ou crie) a sua.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Leituras atrasadas

"50 years of excitingly detonated hardware
and women breathing “Jaaames” in states
 of postcoital gratitude, thousands of air
miles clocked en route to tropical lagoons
where villainy lurks among the ravenous
barracuda"
- Eichengreen e O'Rourke sobre multiplicadores fiscais.

- Perfil de Felix Salmon na The New Republic.

- Sheila Bair propõe cinco reformas para Wall Street.

- Os BRICs continuam perdendo o apelo.

- Os entrevistadores casca-grossa do Spiegel falam com Mario Draghi.

- Um documentário sobre o Fed, a ser lançado em breve.

- Jeffrey Frankel e as dificuldades da disciplina fiscal em tempos de crise.

- Boas conversas: Hugh Hendry e David Einhorn na conferência da The Economist; Paul Krugman e Joseph Stiglitz.

- Como mudou, em 200 anos, a terminologia de desenvolvimento.

- O Brasil é o país que tem mais cachorros pequenos per capita do mundo.

- Sir Mervyn King e Don Diego Maradona.

- A paulistanização do Rio.

- Um livro sobre as origens do neoliberalismo.

- Steven Pinker explica como os estados americanos se tornaram democratas ou republicanos.

- Robert D. Kaplan sobre a arte de viajar.

- Simon Schama sobre o novo James Bond.

- Uma vida com livros - os bibliófilos certamente vão se identificar. Trecho:

The world is changing, but I am not changing with it. There is no e-reader or Kindle in my future. My philosophy is simple: Certain things are perfect the way they are. The sky, the Pacific Ocean, procreation and the Goldberg Variations all fit this bill, and so do books. Books are sublimely visceral, emotionally evocative objects that constitute a perfect delivery system.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Fed, por Linus van Pelt


Aviso que as ideias desse post são descaradamente copiadas dos e-mails do amigo C.R., a quem agradeço.

Noite de Halloween. Linus van Pelt, o melhor amigo do Charlie Brown, espera a aparição da Grande Abóbora, concorrente menos popular do Papai Noel. Antes do Halloween, Linus sempre escreve para a Grande Abóbora. Para melhor entendimento pelas gerações mais novas de economistas, podemos imaginá-lo como um operador de mercado ou banqueiro, e substituir "Grande Abóbora" por "Fed":


Dear Great Pumpkin, I am looking forward to your arrival on Halloween night. I hope you will bring me lots of presents. You must get discouraged because more people believe in Santa Claus than in you. Well, let’s face it; Santa Claus has had more publicity, but being #2, perhaps you try harder. Everyone tells me you are a fake, but I believe in you. 

P.S.: If you really are a fake, don’t tell me. I don’t wanna know.

E, a essa altura, não acreditar na Grande Abóbora Fed sai caro:


Esse Charles Schulz sabia das coisas. Boa Noite da Abóbora a todos.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Global Economic Symposium 2012

Embarco hoje para o Rio para o Global Economic Symposium. Sou um dos responsáveis pelo blog do evento, cobrirei o que for dito sobre bancos centrais, estabilidade monetária e, sobrando tempo, o que mais me interessar. Volto aqui na quinta-feira.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Leituras da Semana

- Fabio Giambiagi sobre o impacto da queda dos juros nos fundos de pensão brasileiros.

- Olivier Blanchard sobre o multiplicador fiscal.

- Um ótimo trabalho do Banco da Inglaterra defendendo mais simplicidade na regulação bancária, fortemente inspirado nas ideias do psicólogo alemão Gerd Gigerenzer.

- Aritmética simples aplicada a preços pode ser muito cruel.

- Um paper sobre o aumento do uso de equações e ferramentas econométricas nos trabalhos de economia. Essa figura é de lá (via Justin Wolfers):


- A última edição da Foreign Policy, sobre economia global, está muito boa: quem ganhou na Grande Recessão, repensando os BRICS e alguns pensamentos de Nassim Taleb.

- Noah Smith divaga sobre as consequências de blogar sobre economia.

- A relação (ou não) entre centros financeiros e centros de arte.

- A Suécia leva a sério essa história de igualidade.

- Ótimo texto sobre parte da geração que chega agora aos 20 e alguns anos, seu egocentrismo e problemas em lidar com o mundo fora da faculdade (acho que em larga medida vale também para a minha geração, dos 30 e poucos). Dica: Marcio Guilherme.

- Small Demons, um site que lista referências culturais em livros e vai te tomar muitas e muitas horas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Fluxos estrangeiros: pare com o mimimi e use regulação

Essa é a mensagem de Barry Eichengreen sobre como o Brasil e outros países devem lidar com os fluxos originados por juros muito baixos no mundo. Nas palavras dele para o Caixin - China Economics & Finance:


What should Brazil and China do?  Neither has much room to fight fire with fire. Chinese consumer prices rose 2 percent year-on-year in August, and food prices climbed 3.4 percent. Brazilian inflation in the year through mid-September was 5.3 percent, and there too food prices are a problem. Both the Brazilian Central Bank and People's Bank of China have already loosened significantly. Given inflationary pressures, it is not clear that they can do more. 
Tightening fiscal policy is another standard way of leaning against an appreciating exchange rate, but with growth so weak this too is off the table. 
The best way of dealing with the impact of cheap foreign money, under the circumstances, is with regulatory policy. Both Brazil and China have regulatory restrictions on hot money inflows. If advanced-country policy threatens to augment those flows, now is the time to tighten those rules and restrictions. 
And Brazil, for its part, should emulate China and abandon its public criticism of advanced-country quantitative easing. Low interest rates in the advanced countries may be uncomfortable for emerging markets. But recession throughout the advanced country world, which would result from central bank inaction, would be even worse. As the Chinese proverb says, "there is no wisdom like silence."

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Banco Imobiliário x Fed x Física Quântica

Das regras do Monopoly (vulgo Banco Imobiliário) - via TheTrader:


Do Fed de St. Louis, citado por L. Randall Wray:

"As the sole manufacturer of dollars, whose debt is denominated in dollars, the U.S. government can never become insolvent, i.e., unable to pay its bills. In this sense, the government is not dependent on credit markets to remain operational. Moreover, there will always be a market for U.S. government debt at home because the U.S. government has the only means of creating risk-free dollar-denominated assets.“

Sempre acho que o que o grande físico dinamarquês Niels Bohr disse da teoria quântica também se aplica ao sistema de moeda fiduciária:


"Anyone who is not shocked by quantum theory has not understood it."

E eis um post sem absolutamente nenhuma ideia original.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

QE or not QE?

Jackson Hole, sem Bernanke
Na próxima sexta-feira, espera-se que Ben Bernanke faça um discurso no simpósio anual do Fed de Kansas City, realizado no Buraco do Filho do Jão (vulgo Jackson Hole), um lindo vale no estado de Wyoming (uma vez, durante uma viagem, conheci um casal que vivia lá; ficaram muito espantados ao saber que eu já tinha ouvido falar - economistas...). Faço uma pausa, primeiro, para pensar sobre a situação: o mundo vai parar para ver um presidente de banco central falar em um simpósio acadêmico (foi criado para que economistas do Fed apresentassem seus trabalhos de pesquisa, inicialmente com foco em agricultura, depois abrindo para macroeconomia e finanças). Com base no que ele falar (ou não falar), milhares de participantes do mercado financeiro vão tomar decisões especulativas que, potencialmente, vão mudar o rumo dos preços de ativos para os próximos meses. Não importa muito se o que ele anunciar vai ter real impacto na economia e nos lucros das empresas, o que vale é a "sinalização" e a reação dos animais pavlovianos por trás das mesas de operações. Graham e Dodd se reviram nas respectivas tumbas; Keynes provavelmente ficaria espantado ao ver como o "concurso de beleza" hoje está resumido, grosso modo, a adivinhar o que (e quando) bancos centrais vão fazer.

A dúvida, neste caso, é se os indicadores da economia americana justificam mais um festival de impressão de dinheiro, sob o nome sofisticado de quantitative easing. A turma "pró-QE" alega que a economia ainda está muito frágil, com baixa criação de empregos, pouca criação de crédito e "espíritos animais" muito contidos. Se muito pouco é feito pelos políticos para estimular a demanda, que pelo menos o Fed faça sua parte. Os "anti-QE" (contem-me entre esses) podem dizer que os juros já estão no nível mais baixo da história, que não há ameaça deflacionária (o indicador mais confiável que conheço, a taxa forward de  inflação cinco anos x cinco anos, está bem acima do limite de 2%, que, quando ultrapassado para baixo, antecedeu o QE2 e a Operação Twist), que a medida pode afetar o resultado das eleições presidenciais e que é necessário deixar os mercados funcionarem, sem ameaça constante de intervenções que não se provaram inequivocamente efetivas no passado.

O duplo mandato do Fed e a credibilidade (merecida ou não) conquistada por Bernanke nesses anos de crise tornam plausível qualquer escolha. Desanima ver toda as atenções e discussões voltadas para política monetária, que se tornou a única ferramenta de intervenção viável e aceitável. Desanima ver o ceticismo do mercado, que sabe que os fundamentos no mundo desenvolvido são desanimadores e vem sendo guiado pela expectativa de muito ou muito mais tempo de dinheiro barato. Estranho o mundo onde ainda predomina a narrativa do laissez-faire, mas que aceita de bom grado intervenções que acabam por distorcer (e não raro fixar) preços de mercado.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Gráficos do Dia - Lucky (and Expensive) Country

Estou cada vez mais convencido de um caso pessimista para a Austrália, sobretudo para a moeda (o índice de ações já parece razoavelmente descontado). Minha hipótese é que o momento favorável para termos de troca já acabou, e que a moeda está sendo sustentada sobretudo por compras de bancos centrais (como o da Suíça, notado pelo próprio BC da Austrália) - dinheiro que chega atrasado e é quase insensível a fundamentos e preço.

O caso dos termos de troca da Austrália é bastante parecido com o do Brasil, com a diferença fundamental da postura dos bancos centrais - daí ser possível imaginar que o dólar australiano é ainda mais sobrevalorizado do que o real. Veremos como anda nos próximos meses.

Gráfico do estudo recente da McKinsey

Gráfico do UBS, via FT Alphaville. Clique para aumentar.
Minério de ferro 62% Fe, porto de Tianjin, US$ / tonelada

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Metas para o PIB nominal (em Inglês)

Já tinha escrito sobre o tema aqui; continuando a série que estou fazendo para o GES, fiz uma atualização em Inglês. Trecho:

Believing in NGDP targeting depends on several questionable premises. One of them is, to quote Lars Christensen, that recessions are monetary phenomena, i.e., they are mainly caused by overly tight monetary policy. NGDP targeting looks like a way to follow an old prescription from Milton Friedman (the “k-percent rule“): let the monetary base grow at a reasonable, constant rate, and the economy will take care of itself.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Escrevendo para fora, em Inglês

Há umas três semanas, coloquei aqui um texto em Inglês que era um teste para um projeto paralelo. Por conta dele, recebi um convite da Bertelsmann Stiftung (uma fundação e think tank alemã riquíssima, dona de 77.4% do conglomerado de mídia Bertelsmann AG, que controla, entre outras empresas, a Random House - maior editora de livros de interesse geral do mundo - e Gruner + Jahr - maior editora de revistas da Europa) para escrever no blog do Global Economic Symposium. O evento é organizado anualmente (desde 2008) pela Bertelsmann em parceria com o respeitado Kiel Institute for the World Economy e cooperação com o Leibniz Information Centre for Economics, dono da maior biblioteca de economia do mundo. A edição deste ano ocorre no Rio de Janeiro, entre 15 e 17 de outubro.

O evento é dividido em temas e, dentro deles, sessões. Eu vou cobrir a sessão "The Future of Central Banking: Inflation Targeting versus Financial Stability", dentro do tema "The Global Economy". Até o início do simpósio, devo publicar pelo menos dois posts por mês no blog. O primeiro já está na rede (mas não ainda debaixo do blog principal, isso deve ser resolvido ainda esta semana), e pode ser acessado aqui. Um trecho:


I believe we’re living through times of very difficult political coordination in the developed world: one of the paradoxical legacies of several decades of prosperity and stability is a very powerful defense of the status quo (partly because, as late historian Tony Judt said, there’s too much to be preserved), hence little disposition for taking risks in the form of bold action that could damage the current arrangements of power and privileges. In this environment, central bankers became the quintessential technocrats, with a mandate for discretionary action, no need of political legitimacy, and an aura of neutrality and technical knowledge.


Comentários, críticas e sugestões são, como de costume, muito benvindos. E ponham o blog do evento nos favoritos, vai ter muita gente boa escrevendo por lá.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Indo pra prateleira...

Umas três ou quatro vezes por ano o carrinho da Amazon passa por aqui e faz a alegria deste ser antiquado que prefere papel às telas de tinta eletrônica ou cristal líquido. Desta vez, chegaram (fora os quadrinhos e romances pouco pertinentes):

- Central Banking in Theory and Practice, de Alan Blinder - vou começar a escrever em breve sobre bancos centrais para outro projeto, e para isso resolvi seguir a indicação de um chefe há uns cinco anos e me informar um pouco mais. Blinder foi um dos chefes dos conselheiros econômicos de Bill Clinton e braço direito de outro Alan, o Greenspan. Esse livrinho é produto das Robbins Lectures que Blinder proferiu na London School of Economics em 1996. Naquela época os EUA estavam quase zerando o déficit do orçamento, cresciam a 4% ao ano e, creio, a vida de banqueiro central era bem mais fácil. Vai ser interessante ver o que mudou nesses longos e esquisitos 16 anos.

- Financial Turmoil in Europe and the United States, de George Soros - coletânea de artigos curtos mais recente de Soros, que, ainda que às vezes repetitivo, segue como um dos observadores mais lúcidos e ilustrados da relação entre mercados financeiros e economia.

- Reinventing the Bazaar: a Natural History of Markets, de John McMillan - foi muito bem recomendado, agora não lembro por quem.

- The Mystery of Capital, de Hernando de Soto - um dos grandes livros sobre desenvolvimento que me falta ler. De Soto fez o famoso experimento tentando descobrir, nos anos 80, quanto tempo levaria para, pelos meios legais, abrir um novo negócio no Peru. Gastou 256 dias úteis para obter as 11 permissões necessárias, tendo que ceder e pagar propina para conseguir duas delas.

- The Element, de Ken Robinson - OK, parece meio auto-ajuda (e deve ser um pouco, mesmo), mas também foi bem recomendado.

- Hedge Fund Market Wizards, de Jack Schwager e The Alpha Masters, de Maneet Ahuja - ambos compilam entrevistas com gestores de hedge funds e devem ser de pouco ou nenhum interesse para quem não trabalha com isso. Eu acho útil, seja para aprender ou para observar as ilusões pelo acaso.

- What Money Can't Buy, de Michael J. Sandel - livro novo do filósofo político popstar de Harvard, antes ainda preciso ler o Justice. O Anatole Kaletsky disse que é naïve e superficial, veremos...