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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

1 ano de Abenomics

Há pouco mais de um ano, num domingo, milhares de corinthianos em Tóquio (este escriba entre eles) se preparavam para tomar um trem para Yokohama, ver seu time bater o Chelsea e conquistar o Mundial de Clubes. O outro campeão no Japão naquele dia foi Shinzo Abe, eleito novamente primeiro ministro do país com a promessa de tirar o país da estagnação que prevalece desde o estouro das bolhas de ações e imobiliária, em 1990. Na semana seguinte, o índice Nikkei 225 subiu 2%, começando uma impressionante escalada de (até agora) mais de 60%.
O resto do texto está no Estadão.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

De volta aos dois dígitos

Nosso governo gosta de repetir variações da frase “quem aposta contra o Brasil sempre perde”. A volta da taxa Selic para os dois dígitos, padrão com o qual nos acostumamos por muito tempo, mostra que, ao menos no mercado de juros, vale o oposto da versão oficial: quem acha que o Brasil pode sustentar juros básicos abaixo de 10% por muito tempo acaba sempre perdendo dinheiro.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

As consequências econômicas da senhora Yellen

O aspecto mais importante da nomeação de Janet Yellen para a presidência do Fed foi a nomeação em si. Primeiro, por ela ser a primeira mulher a ocupar esse posto, em um campo ainda amplamente comandado por homens. Annie Lowrey, no New York Times, observou que não há nenhuma mulher entre os 23 membros do conselho do Banco Central Europeu ou os 9 do mesmo órgão no Banco da Inglaterra, e apenas uma no equivalente do Japão. Fora do mundo desenvolvido, mulheres presidem os bancos centrais da África do Sul, Malásia e Botsuana, mas não há mais do que 10 no cargo mais importante dos bancos centrais do resto do mundo. Atualmente, não há nenhuma mulher entre os membros do nosso Copom.

O resto do texto está no Estadão.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Uma virada liberal de Dilma?

Se tomarmos pelo valor de face o que tem sido noticiado, estamos vendo ou em breve veremos no Brasil: diversos leilões de concessões no setor de transportes, bancos públicos reduzindo o crescimento do crédito, Banco Central levando os juros básicos de volta a dois dígitos, um novo reajuste nos preços de combustíveis e o braço de participações do BNDES vendendo ações no mercado. Todas essas decisões têm (pelo menos) dois fatores em comum: vão na direção de maior peso nas sinalizações vindas de um mercado livre e têm o aval da economista mais influente do país, que também acumula o cargo de Presidente da República.

O resto do texto está no Estadão.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bernanke em casa

Da última New Yorker:


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Delfim e a guerra cambial

Quando quer, Delfim é dos economistas mais lúcidos deste país. Por vezes, porém, é de um sabujismo que passa por cima de qualquer traço de honestidade intelectual. Hoje, no Valor, pede para os "críticos impertinentes fazerem justiça à retórica do ministro Guido Mantega", já que ele teria se provado correto quanto à "guerra cambial" promovida pelo Fed.

Ora, a guerra cambial não era uma tentativa de desvalorizar a própria moeda e colocar os vizinhos e parceiros comerciais em má situação? Na conveniência de Delfim, a lógica se inverteu: agora o Fed, ameaçando aumentar os juros, provoca desvalorização nas moedas dos emergentes (curiosamente, não no euro, libra, iene, etc). Não sabemos o que queremos, contra quem estamos lutando, de que lado estamos... mas estamos numa "guerra", e precisamos "lutar". A retórica é de propaganda de cerveja em época de Copa, e a tradição brasileira de tentar distribuir a culpa pelos próprios descaminhos econômicos tem um passado glorioso e um futuro promissor, como diria outro dos grandes tecnocratas da história do país.

Adiante, diz Delfim:

"O que os emergentes têm pela frente, portanto, não é um trilema. É um pobre dilema: impor controle à plena liberdade no movimento dos capitais ou entregar sua política monetária ao banco central americano, o Fed! Sua superação precisa de uma ordem internacional inteligente."

O Fed não é o maior BC do mundo desde anteontem, portanto, ou Delfim está certo, ou só é possível ter política monetária independente com controle de capitais (ignoremos os que têm conseguido fazê-lo). De novo, o inimigo está fora, é grande e não há nada que possamos fazer. Talvez a melhor solução seja mesmo alugar o Brasil (nós não vamo pagá nada, yeah).

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O fim do “duplo equilíbrio” nos juros?

Texto desta semana para a Agência Estado.


Entre as inúmeras explicações dadas para a persistência de juros reais altos no Brasil, a tese do “duplo equilíbrio” é das mais interessantes. Por ela, o país estaria preso em uma armadilha que se auto-alimenta: partindo de um nível alto de juros, o serviço da dívida é caro, requerendo um grande esforço fiscal e embutindo um risco grande para os títulos soberanos. O risco serve para justificar as taxas altas pedidas pelo mercado para carregar a dívida, e o preço dos títulos encontra equilíbrio a um nível de juros ainda mais alto, que deve ser sancionado pelo banco central na formulação da política monetária.

Para quebrar a armadilha, seria necessário um choque externo que colocasse os juros de partida num nível mais baixo. Isso reverteria o ciclo descrito acima: as taxas menores reduziriam os pagamentos de juros e o risco da dívida, levando o mercado a um novo equilíbrio, sem comprometer o controle da inflação.

Quaisquer que sejam os reais motivos que levaram o Banco Central do Brasil a, a partir de março de 2012, levar a taxa Selic aos níveis mais baixos em várias décadas, entre eles poderia estar uma justificativa “técnica”, embasada pela elegante teoria do “duplo equilíbrio” descrita acima. Se o experimento desse certo, Tombini e sua equipe entrariam para a história por terem, em uma decisão audaciosa, livrado os contribuintes brasileiros de transferirem bilhões de reais para os detentores da dívida ao longo do tempo. A combinação do ambiente de juros internacionais perto dos níveis mais baixos da história com anos de alguma disciplina fiscal, melhora notável do perfil da dívida (fim da dívida remunerada pela variação cambial e redução da emissão de LFTs) e acúmulo de reservas internacionais contribuiriam para aumentar a probabilidade de sucesso da mudança de rumo na política monetária.

Faltou, claro, combinar com a inflação, que foi o fator decisivo para que tal experimento começasse a ser revertido depois de pouco mais de um ano. Porém, o aumento da inflação deveria ter papel menos relevante na determinação dos juros reais--apenas levaria a uma alta na Selic que compensasse o desvio com relação à meta. Não foi o que ocorreu: os juros reais de longo prazo, medidos pela taxa de mercado das NTN-Bs, passaram pouco tempo ao redor de 3% (o que seria compatível com o objetivo declarado de levar os juros reais de um dia a 2%), e já voltam a flertar com o nível que parecia ser o equilíbrio anterior, ao redor de 6%.

Com esses resultados, sai enfraquecida a hipótese do equilíbrio duplo. Pior do que isso, as evidências apontam para a velha tese da “dominância fiscal” defendida por Olivier Blanchard*: o aumento nos juros tem sido acompanhado por uma depreciação no câmbio, como se a juros mais altos a dívida brasileira ficasse menos atrativa para o investidor global. Isso se explicaria por um maior risco de calote na dívida (como estamos tratando de dívida interna, essa probabilidade é melhor descrita como risco de mais depreciação no câmbio, controles de capital e aceleração da inflação para além do que o mercado precifica), que afastaria novos aplicadores e aumentaria o prêmio de risco para investimentos no país.

A saída da “dominância fiscal” é por via conhecida, ou seja, ortodoxa: aumentar o esforço fiscal, deixar o câmbio se ajustar, baixar a inflação e depois tentar um novo patamar para os juros. Parece ser para esse lado que o pêndulo está balançando, ainda que por uma somatória de forças conflitantes. Os meses do experimento ao tentar forçar um novo equilíbrio serviram, ao menos, para provar que a Selic alta não era nem de longe o principal obstáculo ao crescimento do país.


* Fiscal Dominance and Inflation Targeting: Lessons from Brazil, NBER Working Paper No. 10389

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Reservas, pra que te quero?

Texto desta semana para a Agência Estado.

O Banco Central do Brasil passou anos acumulando reservas internacionais, tirando do mercado parte do grande volume de dólares que entrou no país nos tempos de bonança nas contas externas e tentando atenuar a tendência decorrente de valorização do real. Em setembro do ano passado, essa conta parou de crescer, permanecendo ao redor de US$ 370 bilhões até hoje. Com o movimento recente no mercado de câmbio, começam as especulações sobre o destino desses dólares (e alguns euros, ienes, libras, etc. - há alguma, não muita, diversificação nas reservas). A desvalorização é bem-vinda para exportadores e os economistas autodenominados “desenvolvimentistas”, que há muito tempo pedem um real mais fraco. Porém, o longo período de fortalecimento da moeda certamente gerou interesses que dependem da continuação dessa conjuntura (ou ao menos de uma transição mais suave): por exemplo, agências de viagem, varejistas e o próprio BC, que deixará de contar com preços em queda de bens duráveis importados para atenuar a alta dos índices de inflação.

A resultante dessas forças pode fazer com que em breve haja pressão sobre o banco central para entregar reservas ao mercado e atenuar a alta do dólar--seria uma nova arma no “arsenal” que o ministro Mantega gosta de mencionar. Isso dependeria, porém, do BC tomar alguns grandes riscos: primeiro, criar condições de saída a um preço mais favorável do que o de equilíbrio pelo mercado para quem quiser tirar dinheiro do Brasil ; segundo, seria uma aposta num período de tempo relativamente curto de fortalecimento global do dólar--caso a tendência permaneça, a queda nas reservas pode alimentar um ataque especulativo, que consumiria mais reservas e levaria uma espiral de desvalorização acentuada. A história não é generosa com bancos centrais que tentaram lutar contra os mercados, com o caso mais famoso sendo o do Banco da Inglaterra ajudando a criar a fama e fortuna de George Soros e seus sócios, em setembro de 1992.

A pesquisa econômica recente coloca grande ênfase no papel estabilizador de reservas internacionais em países emergentes, sobretudo os que operam com câmbio flutuante (para os de câmbio fixo, é evidente a intenção de escolher uma taxa de câmbio que sirva aos principais interesses econômicos do país e defendê-la, como é o caso da China). Os motivos citados são diversos: aumentar o custo para os especuladores envolvidos em um ataque e reduzir a probabilidade desse tipo de evento; reduzir a violência dos ajustes de taxa de câmbio (o mais recorrentemente citado pelo nosso BC);  facilitar o desenvolvimento do mercado de dívida local, atraindo investidores estrangeiros; oferecer colateral para que empresas nacionais possam emitir dívida em moeda estrangeira. Todos eles, porém, apontam para certo consenso em manter as reservas em níveis relativamente elevados, e não liquidá-las em tempos de crise. A política de gestão de reservas, dessa maneira, não deve ter correlação com política fiscal, já que aquela não permite uma atuação anticíclica. Requer grande autonomia e certa humildade do BC para não tentar operar o mercado ou tentar escolher um nível de câmbio.

Até agora, o Brasil parece estar seguindo a teoria, deixando o câmbio se ajustar a partir de um nível de partida claramente sobrevalorizado e a uma situação de liquidez externa marginalmente desfavorável. Ainda que, caso continue o movimento das últimas semanas, a falta de novas ações passe a parecer inaceitável para parte do governo e da imprensa, é melhor que o trabalho do BC siga sendo apenas de suavizar as oscilações de mercado. Hora de simplesmente deitar-se sobre o tal colchão de reservas e aproveitar seus benefícios, ainda que eles não sejam facilmente perceptíveis quando a turbulência no mercado torna-se rotineira.

Agradeço a Samer Shousha pela discussão e pela revisão da literatura

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O sinal e o ruído na inflação brasileira

Na semana passada iniciei uma coluna para a Broadcast da Agência Estado (em breve vai aparecer também na página do jornal na internet). Esta é a primeira; vou colocando as outras aqui depois que forem saindo lá.

Na última semana, parte do governo (que exclui o banco central, importante ressaltar) comemorou a pequena variação no IPCA em julho - 0,03%. “A queda da inflação é uma maravilha”, disse a presidente, como se fosse possível traçar uma tendência a partir de um ponto e tal queda fosse um fato consumado. Políticos, porém, não são os únicos a cometer esse tipo de erro, e a disponibilidade de dados de inflação no Brasil contribui para que a discussão seja muitas vezes pautada por ruídos, com a informação principal sendo esquecida ou convenientemente omitida.

Não conheço outro país do mundo que acompanhe inflação de forma tão obsessiva. Somadas as divulgações do IBGE, FGV e FIPE, quase todo dia são publicadas novas leituras de índices de inflação. Bancos, empresas e consultorias mobilizam uma legião de analistas que tentam extrair informação de coletas e monitores de preços diários para conseguir alguma vantagem no grande mercado de títulos e derivativos indexados. Por fim, a mídia amplifica esse ruído, por vezes evocando o risco de “acordar o dragão” e alimentando factoides, como a “inflação do tomate” que vimos no início deste ano. 

Se nos concentrarmos em dados de médio / longo prazo, é possível extrair alguns fatos da inflação brasileira que são mais úteis para a formulação de políticas do que acompanhar as divulgações diárias. Primeiro, a inflação cheia, medida pelo IPCA, tem sido surpreendentemente estável - a um nível alto, e, dirão os críticos, sujeita a mudanças de metodologia e “canetadas” do governo em alguns preços, notoriamente os de combustíveis e tarifas elétricas. Nos últimos cinco anos, a medida mensal do IPCA acumulado em doze meses teve mediana de 5,73%. Nos cinco anos anteriores, havia sido 5,63%. Não por acaso, a mediana das expectativas de mercado, pelo relatório Focus, aponta para uma variação do IPCA no ano-calendário de 2013 em 5,74% e em 5,85% para 2014. Parece seguro afirmar, portanto, que a inflação brasileira tem oscilado entre 5,5% e 6,0% anuais há bastante tempo, sem uma grande mudança de tendência perceptível. O mercado de inflação implícita, estimada pelas taxas pré-fixadas descontadas pelos juros de mercado das NTN-Bs, corrobora essa afirmação, costumeiramente atraindo vendedores quando a inflação esperada para períodos de dois ou mais anos ultrapassa 6%.

É na abertura dos componentes do índice que estão os principais problemas: há, sim, uma clara tendência de alta na inflação de serviços a partir do ínicio de 2008, com poucos sinais de arrefecimento (não é alívio caso “estabilize” subindo mais de 8% ao ano). Ao longo do tempo, isso foi compensado com forte queda na inflação de bens duráveis, interrompida recentemente com a alta do dólar. Se essas duas tendências, de alguma forma, se contrabalanceiam, a inflação ao longo de poucos meses (justamente a mais discutida e fonte de manchetes) acaba sendo definida pelo comportamento dos preços de alimentos, que depende de fatores pouco controláveis - clima e mercados de commodities globais, por exemplo. Em resumo, acabamos, na maior parte do tempo, tentando racionalizar sobre o imponderável - o que poderia ser aceitável em cadernos de esporte, mas tem pouco valor para a boa análise econômica.

Se aceitarmos a hipótese que a alta na inflação de serviços é efeito colateral de uma decisão deliberada de fortalecer os trabalhadores via indexação do salário mínimo, só é possível conceber uma inflação mais baixa quando essa política começar a ser desmontada, seja por outra decisão de política econômica ou por uma piora no mercado de trabalho. E se de fato o real estiver em meio a uma tendência mais longa de depreciação, seus efeitos nos preços de duráveis podem levar a inflação a um novo patamar - ou seja, é legítima a renovada preocupação com o pass-through do câmbio, e aí talvez esteja o sinal mais importante para os próximos meses.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A economia de Marina Silva

Elena apontou para uma entrevista de Marina Silva na última Exame, surpreendente para quem, como eu, achava que ela tinha pouca ideia do que fazer com a economia se fosse eleita. Talvez ela de fato não tenha, mas:

- Já juntou um time algo respeitável:

Marina tem em torno de si um grupo de economistas que vêm, desde a candidatura de 2010, ajudando a criar um plano para a anêmica economia brasileira. O capitão do time é Eduardo Giannetti da Fonseca, professor da escola de negócios Insper. Com ele estão Paulo Sandroni, da FGV, e Ricardo Abramovay, da USP. Mais recentemente, André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, tem participado das discussões.

- Ao menos para fora, parece ter sido influenciada por uma visão ortodoxa que é bem distante do seu partido de origem (penso aqui no PT, não no PV):

A inflação está subindo. O topo da meta virou o centro. A preocupação, hoje, é não romper os 6,5%. O que está dando errado?  
Eu dizia, em 2010, que o atraso na política ia acabar nos levando a perder as conquistas alcançadas a duras penas nos 16 anos anteriores: a estabilidade econômica e a inclusão social. Quando tivemos a crise financeira em 2008, foram tomadas medidas corretas para o estímulo do consumo. Quando o país voltou a crescer, a partir do segundo semestre de 2009, o governo teria de ir puxando o freio do intervencionismo, como agora está sendo feito nos Estados Unidos. Como se fez uma ginástica para chegar a um crescimento de 7,5% em 2010 por razões eleitorais, o governo brasileiro continuou dando os mesmos incentivos quando já não era mais necessário. Isso nos levou a um problema. Atualmente, o próprio tripé da estabilidade econômica está sendo comprometido, sobretudo em relação à inflação. 
A senhora acha que a independência do Banco Central por lei ajudaria a consolidar nosso tripé macroeconômico? 
Não é necessária uma lei para dizer que não devo comer açúcar de manhã, à tarde e à noite para não me tornar diabética. Não precisa da institucionalização. Até porque já tivemos experiências no governo de Fernando Henrique e no de Lula em que havia essa autonomia. Mas controlar a inflação por meio da elevação de juros é apenas um dos instrumentos. O gasto público também precisa ser controlado. Como se cria uma cultura de controle do gasto público se a governabilidade é feita da distribuição indiscriminada de mais e mais pedaços do Estado? Se há 39 ministérios?

- Não perde a chance de chutar a Geni favorita dos últimos meses:

...E também as surpresas na hora de explorar, porque nem sempre o que se apresenta como possibilidade se transforma em realidade. Eike Batista que o diga.

Marina para mim ainda é uma esfinge, e talvez ela tenha só aproveitado o momento em que a política econômica atual está em baixa para defender algo diferente. Ainda assim, é interessante ver o rumo que a discussão de política econômica para a campanha do ano que vem está começando a tomar.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cientistas no dinheiro

O Kottke disse ontem que "os países cool colocam cientistas em suas cédulas", com links para vários exemplos. Bem, um dia já fomos cool - pelo menos  para isso serviu a época de trocar de dinheiro a cada par de anos:

Oswaldo Cruz - 50.000 cruzeiros, 1984


Carlos Chagas - 10.000 cruzados, 1988


Augusto Ruschi - 500 cruzados novos, 1990


Vital Brazil - 10.000 cruzeiros, 1991



Desculpas aos pesquisadores que eventualmente chegarem neste post pelo Google procurando recursos para seus projetos. Ainda não.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Brasil, na contramão do mundo

A tabela abaixo é uma versão resumida da que aparece no ótimo Central Bank News (tirei os países menores e quem não mexeu nos juros este ano).


Com exceção de Brasil e Egito (poupem os comentários da "mistura do Brasil com Egito", por favor), há um padrão claro: o mundo está cortando juros, ou, quando esses já estão muito próximos a zero, embarcando em outros experimentos monetários menos católicos (estou pensando em EUA e, sobretudo, Japão). O crescimento global aparentemente está mais lento do que se esperava, preços de commodities vêm caindo e, como consequência desses dois fatores, a inflação está caindo em boa parte do mundo. Para pegar um caso típico: na Turquia, o índice de preços ao consumidor acumulava alta mais de 11% nos doze meses terminados em abril do ano passado; hoje, a mesma medida é de pouco mais de 6% (e o banco central turco deve seguir cortando juros amanhã, para uma taxa real ainda mais negativa).

O Brasil compartilha do problema global de crescimento, mas por aqui a resiliência e o patamar da inflação fazem com que muita gente sensata ache que o BC deveria divergir ainda mais do padrão mundial e subir os juros mais rapidamente. Grande parte da explicação para isso está numa peculiaridade do mercado de trabalho, também divergente do resto do mundo, com baixo desemprego e salários reais em alta. Essa explicação, por sua vez, encontra raízes em uma combinação de forças demográficas (tem uma matéria bacana na última piauí sobre isso, ainda fechada para não-assinantes) e um governo francamente trabalhista, que fez da indexação do salário mínimo uma de suas principais políticas de redistribuição de renda.

Disso todo mundo já sabe. A questão agora é: como evitar que o cenário atual vire uma estagflação prolongada ou mais acelerada? Não há resposta fácil (claro que o leitor chegou até aqui esperando uma solução mágica, desculpo-me). Nos EUA, a estagflação dos anos 70 terminou com o choque de juros comandado por Paul Volcker e a desmontagem progressiva do poder dos sindicatos durante o governo Reagan. Aqui, creio, antes da eleição do ano que vem será feita uma tentativa de não mexer muito nos juros, e, ao menos enquanto o poder estiver nas mãos de um partido criado a partir de sindicatos, uma saída daquele tipo parece altamente improvável (e lenta, de qualquer maneira).

Me parece que, atualmente, a maior aposta do governo é que as medidas de desoneração passadas e futuras vão, algum dia, resultar em uma dinâmica deflacionária - pouco provável, com base no que aconteceu com um dos maiores possíveis, a queda dos preços de energia elétrica. Tudo isso enquanto se torce para que não ocorra um novo choque desfavorável nos preços de alimentos e tentando evitar que o aperto no mercado de trabalho se resolva com empresas demitindo e desemprego aumentando a meses das eleições. Equilíbrio complexo e delicado, como se nota.

Tendo sucesso em não "balançar o barco" até as eleições e mantida a essência da conjuntura atual, creio que em 2015 o Brasil permitirá uma forte desvalorização cambial, alta de juros e, eventualmente, uma recessão. Porém, há muitas variáveis fora do controle dos nossos planejadores, e as condições de mercado podem adiantar esse ajuste. Muito cedo ainda para especular sobre esse timing, mas é difícil ficar animado com a economia brasileira nos próximos anos (com a ressalva que a situação atual, enquanto mantida, é muito boa para grande parte da população).

terça-feira, 14 de maio de 2013

Equação do dia

Não é um DSGE, mas deve explicar muita coisa.


terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma nova série de preços de imóveis no Brasil

O Banco Central passou a publicar uma série de preços de imóveis. Do site do BC:

O Banco Central publica a partir de hoje, no Sistema Gerenciador de Séries Temporais, a série nº 21.340, que contém o Índice de Valores de Garantia de Imóveis Residenciais Financiados (IVG-R). Divulgado na última edição do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), o IVG-R foi analisado em termos de variação anual real, isto é, a variação entre um mês e o mesmo mês do ano anterior, deflacionada pelo IPCA. Para a série temporal, a divulgação será realizada em número índice (iniciando em março de 2001 com valor igual a 100 e acumulando as variações nominais a partir daquela data), portanto, sem ajuste a qualquer índice de preços, o que permitirá maior liberdade de análise. O IVG-R será atualizado mensalmente, até 90 dias após o fim do mês de referência. O último valor disponível na primeira atualização é janeiro de 2013. Maiores detalhes estão disponíveis nos metadados da série.

Essa é a cara da série:



Seria legal se o BC abrisse a composição dessas séries (provavelmente ainda vão fazer isso), mas é um ótimo começo para um mercado ainda muito carente de dados confiáveis.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meus 5 ienes sobre o Japão

5 centavos de dólar (e caindo)
Primeiro, atualizando os que não se interessam tanto pela página 5 do caderno de economia dos jornais: ontem o banco central do Japão anunciou que vai aumentar seu programa de compra de títulos da dívida soberana e que pretende, em dois anos, dobrar a base monetária. Se de fato levado à prática, será um dos maiores experimentos monetários da história. Aqui alguns pensamentos que juntei nesse par de dias, ajudado pela discussão de ontem no Twitter (muito obrigado aos interlocutores):

- Uma das consequências do anúncio foi uma queda nos juros longos, de patamares já ridiculamente baixos (0,56% aa para 10 anos) para novas mínimas históricas (0,32% - salvo engano, menor taxa já negociada para um título desse vencimento na história da humanidade). Essa taxa, a meu ver, embute duas fortes convicções: i) os juros curtos, ditados pelo banco central, serão próximos de zero por muito tempo; ii) o BC aceitará essas taxas (e possivelmente mais baixas) na recompra de títulos. Como consequência, um comportamento que em qualquer condição inicialmente pareceria irresponsável, como se alavancar o quanto possível para comprar títulos rendendo menos de 1%, terá se convertido em uma estratégia muito vencedora.

Considerações de risco moral à parte: o que impediria essa taxa de cair ainda mais, já que, aparentemente, o poupador que carrega os títulos não se importa com sua rentabilidade e, para o governo, quanto mais baixa, melhor (mais fácil servir a dívida, mais potencial de gerar inflação e crescimento nominal)? Na medida em que os juros longos se aproximam a zero, há cada vez menos diferença entre emitir títulos e simplesmente imprimir dinheiro (papel moeda é um título perpétuo do governo que não paga juros) para cobrir os déficits?

- Antes de começar a gritar "Weimar! Hiperinflação!", é bom lembrar que hiperinflações não são fenômenos exclusivamente monetários (mais nesse trabalho do James Montier). A questão aqui, como diria meu chefe, é quanto tempo o senhor e a senhora Watanabe aceitam trocar horas de trabalho e mercadorias por papel pintado cada vez mais abundante. Ou, vendo por outro lado, transferir dinheiro de suas poupanças para especuladores, bancos e outros que se posicionem para lucrar com juros reais negativos. Poderia aqui entrar em uma discussão de botequim sobre a coesão da sociedade japonesa e sua disposição a sacrifícios, mas não conseguiria ir além dos estereótipos - de qualquer forma, o Japão de hoje está longe de parecer um ambiente propício à convulsão social (claro que isso pode mudar relativamente rápido, como a história já mostrou tantas vezes).

- Afinal, o que quer o governo do Japão? Aqui me apoio na opinião de Noah Smith, que provavelmente já esqueceu sobre economia e Japão mais do que vou aprender na minha vida. Quando Shinzo Abe foi eleito (a votação foi em 16 de dezembro, mesmo dia em que o Corinthians ganhou o mundial de clubes - os sinais de mudanças tectônicas estavam lá para quem quisesse interpretar!), ele achou que o principal objetivo da nova política econômica era provocar uma forte depreciação no iene para atender interesses "mercantilistas" (mais aqui). Esta semana ele mudou de opinião, e acha que as mudanças podem ser mais profundas (aqui). Em resumo, o Japão parece estar disposto a fazer a maior aposta de política monetária da história para tentar aumentar o patamar da inflação no país e gerar algum crescimento. No mínimo vão gerar excelente material para os historiadores econômicos do futuro.

- Para concluir: se tudo der certo, daqui a alguns meses o Japão terá uma moeda mais depreciada, algum crescimento e inflação subindo, mas sob controle. Seria um caso de sucesso (ainda que temporário, alguém pode dizer) que geraria grande clamor por imitações em outras partes do mundo (possíveis consequências em um outro post futuro - só fiquemos em mente que o contexto do Japão é muitíssimo específico). Se der meio errado, a economia segue emperrada e com inflação muito baixa, e aí ou a definição de insanidade de Einstein segue sendo aplicada (fazer mais da mesma coisa esperando resultados diferentes) ou os japoneses buscam outros caminhos (eventualmente um novo líder). Se der muito errado, o que parecer bom no início (mais inflação) sairá do controle e veremos o desenrolar da maior crise de dívida da história (mas não Weimar - comparações com Weimar deveriam render uma Lei de Godwin aplicada à história econômica). Tempos interessantes, tempos interessantes...

terça-feira, 19 de março de 2013

Gráficos do Dia - EUA, capota mas não breca

Gráficos interessantes da apresentação do diretor do BC Luis Awazu Pereira da Silva na reunião do BID da semana passada, na Cidade do Panamá. Não tinha me dado conta, mas parece claro que o setor privado dos EUA voltou a se alavancar, enquanto a maior parte do restante do mundo desenvolvido segue reduzindo balanços.

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quinta-feira, 7 de março de 2013

Banco Central do Brasil, o volúvel

Trabalhinho legal do Credit Suisse, mostrando que, na mediana, o Banco Central do Brasil fica apenas três meses com a taxa Selic parada. Os fatos parecem mudar muito rápido por aqui.