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| 5 centavos de dólar (e caindo) |
Primeiro, atualizando os que não se interessam tanto pela página 5 do caderno de economia dos jornais: ontem o banco central do Japão anunciou que vai aumentar seu programa de compra de títulos da dívida soberana e que pretende, em dois anos, dobrar a base monetária. Se de fato levado à prática, será um dos maiores experimentos monetários da história. Aqui alguns pensamentos que juntei nesse par de dias, ajudado pela discussão de ontem no Twitter (muito obrigado aos interlocutores):
- Uma das consequências do anúncio foi uma queda nos juros longos, de patamares já ridiculamente baixos (0,56% aa para 10 anos) para novas mínimas históricas (0,32% - salvo engano, menor taxa já negociada para um título desse vencimento na história da humanidade). Essa taxa, a meu ver, embute duas fortes convicções: i) os juros curtos, ditados pelo banco central, serão próximos de zero por muito tempo; ii) o BC aceitará essas taxas (e possivelmente mais baixas) na recompra de títulos. Como consequência, um comportamento que em qualquer condição inicialmente pareceria irresponsável, como se alavancar o quanto possível para comprar títulos rendendo menos de 1%, terá se convertido em uma estratégia muito vencedora.
Considerações de risco moral à parte: o que impediria essa taxa de cair ainda mais, já que, aparentemente, o poupador que carrega os títulos não se importa com sua rentabilidade e, para o governo, quanto mais baixa, melhor (mais fácil servir a dívida, mais potencial de gerar inflação e crescimento nominal)? Na medida em que os juros longos se aproximam a zero, há cada vez menos diferença entre emitir títulos e simplesmente imprimir dinheiro (papel moeda é um título perpétuo do governo que não paga juros) para cobrir os déficits?
- Antes de começar a gritar "
Weimar! Hiperinflação!", é bom lembrar que hiperinflações
não são fenômenos exclusivamente monetários (mais nesse
trabalho do James Montier). A questão aqui, como diria meu chefe, é quanto tempo o senhor e a senhora Watanabe aceitam trocar horas de trabalho e mercadorias por papel pintado cada vez mais abundante. Ou, vendo por outro lado, transferir dinheiro de suas poupanças para especuladores, bancos e outros que se posicionem para lucrar com juros reais negativos. Poderia aqui entrar em uma discussão de botequim sobre a coesão da sociedade japonesa e sua disposição a sacrifícios, mas não conseguiria ir além dos estereótipos - de qualquer forma, o Japão de hoje está longe de parecer um ambiente propício à convulsão social (claro que isso pode mudar relativamente rápido, como a história já mostrou tantas vezes).
- Afinal, o que quer o governo do Japão? Aqui me apoio na opinião de Noah Smith, que provavelmente já esqueceu sobre economia e Japão mais do que vou aprender na minha vida. Quando Shinzo Abe foi eleito (a votação foi em 16 de dezembro, mesmo dia em que o Corinthians ganhou o mundial de clubes - os sinais de mudanças tectônicas estavam lá para quem quisesse interpretar!), ele achou que o principal objetivo da nova política econômica era provocar uma forte depreciação no iene para atender interesses "mercantilistas" (mais
aqui). Esta semana ele mudou de opinião, e acha que as mudanças podem ser mais profundas (
aqui). Em resumo, o Japão parece estar disposto a fazer a maior aposta de política monetária da história para tentar aumentar o patamar da inflação no país e gerar algum crescimento. No mínimo vão gerar excelente material para os historiadores econômicos do futuro.
- Para concluir: se tudo der certo, daqui a alguns meses o Japão terá uma moeda mais depreciada, algum crescimento e inflação subindo, mas sob controle. Seria um caso de sucesso (ainda que temporário, alguém pode dizer) que geraria grande clamor por imitações em outras partes do mundo (possíveis consequências em um outro post futuro - só fiquemos em mente que o contexto do Japão é muitíssimo específico). Se der meio errado, a economia segue emperrada e com inflação muito baixa, e aí ou a definição de insanidade de Einstein segue sendo aplicada (fazer mais da mesma coisa esperando resultados diferentes) ou os japoneses buscam outros caminhos (eventualmente um novo líder). Se der muito errado, o que parecer bom no início (mais inflação) sairá do controle e veremos o desenrolar da maior crise de dívida da história (mas não Weimar - comparações com Weimar deveriam render uma Lei de Godwin aplicada à história econômica). Tempos interessantes, tempos interessantes...