Pelo terceiro ano, vou me dedicar à arte de chutar o que acho que vai acontecer durante o ano. Cada vez menos tenho a pretensão de acertar, e acho a conjuntura particularmente ingrata para essa atividade - como exemplo, levemos em conta quantos bons economistas previam a saída da Grécia da zona do euro no ano passado, e os ativos do país terminaram o ano com grandes ganhos para quem apostou no "nada acontece" (e teve estômago para aguentar enquanto algo parecia estar acontecendo). 2012 foi dominado por governos e bancos centrais; por consequência, 2013 começa com esses agentes contando com grande confiança e respaldo. Acredito que governos e bancos centrais vão manipular preços e volatilidade enquanto conseguirem, e isso vai fazer com que o próximo choque na economia global seja muito violento, já que os desequilíbrios vão se acumulando em cenários extremos (aqui tomo emprestada a teoria do Nassim Taleb, claro): está tudo sob controle até alguém gritar que o rei está nu, e aí o que vai estar em jogo é muito mais do que variações de preços.
O problema de acreditar nesse tipo de cenário é que sua aplicação para a vida prática depende de um timing impossível de ser previsto - e, enquanto isso, a maldição de Cassandra se aplica aos pessimistas. Por ora, não vejo motivos para acreditar numa ruptura tão cedo, mas isso pode mudar muito, muito rápido. Como sempre, vale não se levar muito a sério e ser flexível.
Olhando para os mercados hoje, vejo certa euforia, preços caros (mas não absurdos) e tenho pouquíssima clareza de quais serão as tendências que vão valer para os próximos 12 meses. Assim, a maioria das minhas previsões são de natureza contrária / reversão à média, e muitas são apostas em assimetrias: perdas limitadas caso estejam erradas, grandes ganhos caso estejam certas. Vamos a elas:
- O Japão não vai conseguir escapar da deflação via política monetária mais agressiva. O movimento do mercado nos últimas semanas baseia-se na premissa de que a eleição de Shinzo Abe trouxe mudanças de paradigma, não acredito nisso. Dessa forma, a preços atuais, compraria iene (preço de referência contra o dólar: 87,88) e venderia o Nikkei contra o Dow Jones (10.600 / 13.435). Considerando a tendência atual, seria preferível fazer com opções fora do dinheiro, mas vamos simplificar...
- Ações brasileiras andarão melhor que ações mexicanas. Referências: Ibovespa 62.640 / IPC 44.562.
- Com muitos grãos de sal, para sair correndo no primeiro sinal de barbeiragem: Petrobras vai subir mais que o índice Bovespa (PETR4 hoje: 20,52, Ibovespa: 62.640).
- Ações de empresas de educação, estrelas do ano passado, vão andar menos que o Ibovespa (KROT3: 45,09, ESTC3: 39,63).
- Vão começar a ficar mais evidentes os problemas nos balanços dos bancos públicos. Venderia Banco do Brasil e compraria Itaú / Bradesco (BBAS3: 26,03, BBDC4: 37,50, ITUB4: 35,29).
- De novo, acho muito assimétrico comprar CDS do Brasil a 102 b.p.
- Também na linha da assimetria: os franceses que me perdoem, mas a dívida do país não pode pagar só 21 b.p. a mais do que a dívida americana. Vendo OATs, compro Treasuries (2.11% / 1.90%).
- Também parece assimétrico vender Treasuries de cinco anos a 0,81% - pode dobrar caso haja sinais de inflação ou de que o Fed está mesmo disposto a encerrar as compras de títulos antes do que se imaginava.
- Preços de imóveis nos EUA seguem subindo mais do que a inflação.
- Sigo gostando do dólar americano, sou comprador contra uma cesta de EUR, BRL, GBP, AUD, NZD, TRY, HUF, ZAR.
- No preço de agora, dá para comprar VXX (27,55) e acender uma vela para ganhar uns 20%.
- A bolsa da Alemanha não terá outro ano tão glorioso. Venderia DAX (7.740) contra S&P500 (1.466) e Ibovespa (62.640).
- Como regra de bolso, venda ouro e compre petróleo (WTI) toda vez que a razão dos preços for acima de 20.
- Também na teimosia, acho que acabou a liderança da Apple. Venderia contra o S&P500 (527 / 1.466).
- PIB do Brasil cresce mais do que o esperado (3,26% pelo último Focus). O corolário dessa previsão é que aguentaremos o Mantega por pelo menos mais uns 15 meses.
- Selic não sobe este ano.
- Seguirá a multiplicação e difusão de fundos de crédito no Brasil. É impressionante como copiamos, com anos de atraso, exatamente o que acontece no mundo desenvolvido.
- Angela Merkel se reelege na Alemanha (fácil, essa, aparentemente).
- Philip Roth ganha o Nobel de literatura (para compensar a barbada anterior).
- Um time brasileiro ganha a Libertadores (já sabem da torcida, mas vamos evitar a soberba).
- Paulinho da Viola finalmente lança um disco de músicas inéditas. O Brasil comemora.
- A célebre expressão "imagina na Copa" seguirá sendo usada ad nauseam, sobretudo a qualquer presepada que apareça na Copa das Confederações.
- Para os que fazem distinção entre "especulação" e "investimento": se eu recebesse alguns milhões hoje, gastaria 1/3 para comprar uma boa casa em Atlanta ou alguma outra cidade barata nos EUA; daria 1/3 para um gestor de hedge fund de confiança administrar e compraria o terço final em títulos de verdadeiros AAA (Noruega, Canadá, Austrália, Suíça...), usando um pedaço como margem para uma posição vendida em créditos ruins (tem aos montes, nem precisa procurar muito). Essa é uma carteira para muitos anos, porém - apropriada para ficar olhando para o mar sem muita preocupação.
É isso. Divirtam-se tirando sarro ao longo do ano do que não acontecer.
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Previsões aleatórias para 2013
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Leituras da Semana
- A Pershing Square, de Bill Ackman, aposta grande que a Herbalife é uma fraude histórica. Falando em pirâmides, relembre a incrível história da Albânia em 1996-97.
- Noah Smith sobre Shinzo Abe e as (não) mudanças no Japão.
- Um ótimo guia para os mercados globais neste trimestre.
- Como mudou a geografia da manufatura global nos últimos trinta anos.
- Um índice Big Mac para salários reais.
- Trickle-down economics sobrevive no Banco Mundial.
- 10 colapsos econômicos na história.
- A exploração de mão-de-obra sueca barata - na Noruega, onde mais?
- As "outrageous predictions" para 2013, do Saxo Bank.
- O melhor escrito sobre economia política global no ano passado.
- As 50 piores colunas (nos EUA) de 2012. Alguém precisa fazer uma versão brasileira.
- Uma lista para dominar todas as listas.
- The New Republic malhando Alain de Botton.
- The Economist sobre cartoons na internet.
- Michel Laub sobre viajar.
- Noah Smith sobre Shinzo Abe e as (não) mudanças no Japão.
- Um ótimo guia para os mercados globais neste trimestre.
- Como mudou a geografia da manufatura global nos últimos trinta anos.
- Um índice Big Mac para salários reais.
- Trickle-down economics sobrevive no Banco Mundial.
- 10 colapsos econômicos na história.
- A exploração de mão-de-obra sueca barata - na Noruega, onde mais?
- As "outrageous predictions" para 2013, do Saxo Bank.
- O melhor escrito sobre economia política global no ano passado.
- As 50 piores colunas (nos EUA) de 2012. Alguém precisa fazer uma versão brasileira.
- Uma lista para dominar todas as listas.
- The New Republic malhando Alain de Botton.
- The Economist sobre cartoons na internet.
- Michel Laub sobre viajar.
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Conferindo as previsões para 2012
Hora do leitor se divertir com a pretensão deste escriba ao imaginar há um ano o que aconteceria nos doze meses seguintes:
- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.
Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.
- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.
Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.
- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.
A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.
- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...
Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.
- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.
2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.
- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.
De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.
- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).
A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.
- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.
É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.
- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.
A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.
- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).
Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.
- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.
Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.
- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.
10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.
- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.
Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.
- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.
BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.
- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.
Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.
- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.
De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.
- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.
Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.
- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.
Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.
- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.
Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.
- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).
Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.
- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.
Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:
They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
They all laughed at Wilbur and his brother
When they said that man could fly
They told Marconi
Wireless was a phony
It's the same old cry
(...)
For ho, ho, ho!
Who's got the last laugh?
Hee, hee, hee!
Let's at the past laugh
Ha, ha, ha!
Who's got the last laugh now?
E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.
- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.
Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:
- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.
Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.
- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.
Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.
- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.
Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.
- Vou errar mais previsões do que no ano passado.
Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):
Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%
Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).
Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.
Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.
- Juros reais no Brasil vão seguir caindo. Investir em NTN-Bs seguirá sendo uma boa opção, o retorno deve superar o CDI por mais um ano.
Comecei com um mega acerto: para a alegria dos fundos multimercados, os juros caíram de forma praticamente ininterrupta durante 2010. Para os detentores de NTN-B, melhor ainda, já que a inflação seguiu relativamente alta. O rendimento anual da NTN-B 2022 caiu de 5,47% para 3,32%, e o índice IMA-B rendeu quase 27% no ano. 1 / 1.
- Juros das Treasuries americanas também cairão, fazendo novas mínimas históricas.
Fato: os juros de 10 anos americanos começaram o ano a 1,95%, terminaram a 1,80%, mas chegaram a 1,39% em julho, menor taxa desde sempre. 1 / 1.
- Juros de 10 anos dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha começam 2012 mais ou menos nos mesmos níveis (entre 1,9% e 2,0%). Acredito em algumas apostas de divergência, comprando EUA e Canadá e vendendo os outros dois.
A hipótese por trás dessa previsão é que o mercado de renda fixa ia começar a diferenciar ainda mais entre os créditos soberanos; aconteceu justo o contrário: spreads fecharam e os juros tiveram uma nova convergência. No caso da Europa, a decisão da Alemanha de, indiretamente, financiar a dívida da parte "ruim" do continente não só não piorou sua percepção de risco de crédito, mas muito dinheiro entrou no país em busca de segurança. Os juros de EUA, Canadá e Inglaterra terminaram 2012 mais ou menos no mesmo patamar (perto de 1,9%); a Alemanha furou de vez a previsão e encerrou o ano pagando 1,32%. 0 / 1.
- Política monetária segue frouxa no mundo todo. E tome QE3 nos EUA, QEn no Reino Unido, algo parecido na Europa...
Sim, bancos centrais seguiram muito ativos, e a política monetária seguiu bastante frouxa (mais em termos de juros baixos do que em crescimento de balanços - monetaristas vão preferir esta medida). A próxima alta de juros no mundo desenvolvido concorre no futuro distante com a volta do cometa Halley. 1 / 1.
- O real vai seguir se depreciando contra o dólar americano, assim como o rand sul-africano, a lira turca, o peso mexicano e o forint húngaro.
2012 passou longe de ser um ano de fortalecimento geral do dólar. O real e o rand de fato se depreciaram, mas as demais moedas que listei bateram com gosto na minha cara (lira turca +6%, peso mexicano +8,4%, forint +10%). 0,3 / 1.
- Reservas internacionais brasileiras não chegam aos US$ 400 bilhões. Chance não desprezível de começarem a cair. Comprar CDS do Brasil e México a um prêmio de 160 b.p. (50 b.p. mais baixo que o da França) parece uma boa aposta assimétrica.
De novo previsão baseada na ideia de dólar mais forte, ou um aperto na liquidez nesta moeda. Valeu para as reservas do Brasil (terminaram o ano perto de US$380 bilhões, mais ou menos estáveis desde maio), mas os prêmios de CDS seguiram o fechamento dos spreads de renda fixa. Brasil e México começam 2013 com prêmios próximos a 100 b.p. (do ponto de vista de assimetria, a aposta agora é ainda melhor). 0,4 / 1.
- Sigo comprando bancos americanos, vendendo bancos europeus (o short selling está banido na maioria dos mercados na Europa, mas há como montar proxies disso).
A estratégia teria sido muito ganhadora se fosse revertida por volta do meio do ano. Desde então, o pacote de bondades de Mario Draghi e companhia provocou uma forte recuperação nas ações dos bancos europeus. Os índices que representam esses mercados tiveram desempenhos muito parecidos: o S&P500 Financials Index (EUA) subiu 26%; o Stoxx 600 Banks subiu 23,5%. 0,5 / 1.
- Se o crescimento da China ameaçar ir abaixo do esperado, o banco central voltará a desvalorizar o yuan. Acho o payoff dessa aposta muito bom, mesmo num cenário de crescimento inalterado, já que a maioria do mundo acha que o yuan só deveria se valorizar. Outra aposta muito boa em moedas é comprar coroa dinamarquesa contra euro, favorita do Cerebelo Econômico.
É, a maioria do mundo teve razão, e o yuan valorizou 1% contra o dólar durante 2012 (pelo menos confirmou a assimetria da aposta). O peg euro / coroa dinamarquesa seguiu inabalado. 0,2 / 1.
- Preços de imóveis nos EUA já fizeram a mínima; o índice Case-Shiller deve voltar a subir. Em São Paulo e no Rio, creio que estamos perto de uma inflexão. No melhor dos casos, acredito em altas até 10%, e o custo de oportunidade começaria a pesar.
A última leitura do Case-Shiller é do final de outubro; se vale a tendência, de fato, o índice fez uma mínima no final de 2011 e passou a subir. A alta até então era de 5%. Por aqui, o FIPE ZAP subia 13% nos doze meses até o final de novembro - nada perto da exuberância dos últimos anos, mas longe de causar alguma preocupação para os compradores. 0,5 / 1.
- Ações para vender: LinkedIn, Zynga, Groupon, Facebook (depois do IPO). No geral, negócios que dependem de muita fé em crescimento de fluxos de caixa futuros não irão bem (Grupo X?). Vou seguir apostando contra a Apple porque errei no ano passado (péssimo motivo, mas aqui passa).
Nas ações americanas LinkedIn bateu na minha cara (+75%), acertei em cheio as demais (Zynga -75%, Groupon -75%, Facebook caiu 33% do IPO até o final do ano). O ano de fato foi péssimo para os sócios do Eike Batista (OGX -65%, MMX -36%, LLX -25%, OSX -11%), assim como era o motivo para apostar contra a Apple (+33% - ainda que tenha valido a regra de bolso que diz que empresas ainda não conseguiram passar muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões). 0,7 / 1.
- Agências de classificação de risco vão continuar o mergulho na direção da irrelevância. Venderia ações da Moody's, por princípio. Possivelmente sofrerão ameaças ou represálias dos governos que tiverem suas notas rebaixadas.
Talvez tenha acertado o princípio (os mercados de dívida soberana pouco reagiram a vários rebaixamentos, sobretudo na Europa), mas o acionista da Moody's teve um grande ano (+47%), provavelmente pela forte atividade de novos emissores. 0,3 / 1.
- Será bom comprar ações no Brasil, mas num preço pelo menos 10% mais baixo do que estão começando o ano. Ainda assim, melhor fazer o mínimo de stock picking do que comprar o índice, temo muito pela combinação de commodities + empresas picaretas que o compõe hoje. Para pegar um caso, bancos grandes devem ir melhor do que o índice. Empresas "parceiras" do BNDES, pior.
10% de queda no Ibovespa coincide (foi sorte, mesmo, não tinha pensado nesses termos) com o melhor suporte para o índice no ano, ao redor dos 52.000 pontos. E de fato o stock picking evitando commodities e picaretas funcionou muito bem, vide o bom desempenho de muitos fundos ativos ou long-short. Houve alguma dispersão entre os bancos grandes (BB e Bradesco melhores, Itaú e Santander piores), e as empresas X e os frigoríficos (pra ficar nos casos mais evidentes) de fato foram pior do que o índice. 0,8 / 1.
- Não gosto de Vale, vai ser dos shorts mais líquidos disponíveis no mercado quando o mundo se der conta de que a China pode, surpresa, não crescer perto de 10% ano após ano.
Vale chegou a cair mais de 20% no ano, teve uma grande recuperação e terminou mais ou menos no 0 x 0. O susto com o minério de ferro passou relativamente rápido, mas foi uma oportunidade para quem soube realizar lucros. 0,4 / 1.
- Bancos médios vão seguir indo mal no Brasil. O modelo de negócios da maioria deles (captar caro no exterior e emprestar ainda mais caro aqui) parece estar se esgotando. O FGC deve ter trabalho.
BVA, Cruzeiro do Sul... as fraudes começaram a aparecer, mas o mercado diferenciou bem o setor, e os demais listados (Indusval, Pine, ABC) tiveram um bom ano. 0,5 / 1.
- Não tenho grandes convicções em commodities, mas se fosse pra comprar algo, seria petróleo.Agrícolas têm cara de que ainda podem cair muito.
Petróleo passou bem pouco tempo acima de onde começou o ano ($103 para o barril de WTI), teria sido péssimo investimento. O índice de agrícolas (DBA) caiu um pouco durante o ano (3%), com grande diferenciação (trigo, soja e milho subiram; açúcar, algodão e café caíram bastante). 0,1 / 1.
- Creio que hedge funds terão outro ano para ser esquecido, com mercados de ações sem tendência e intervenções cada vez maiores dos governos.
De fato, o ano foi muito difícil para hedge funds, que muito provavelmente (dados demoram para serem consolidados) tiveram desempenho pior do que a maioria das estratégias passivas. Ações ficaram mesmo sem tendência durante grande parte do ano, e as intervenções tiveram gatilhos e consequências muito difíceis de serem previstas. 1 / 1.
- Ainda há alguma intenção de concluir a Rodada de Doha, da OMC? Se há, vai falhar.
Não houve, aparentemente o mundo tinha coisas mais importantes para se preocupar. 0 / 0.
- São Paulo vai eleger um prefeito de ruim a muito ruim.
Considerando que estivemos perto de eleger o Rousseau Mano, acho que saímos no lucro. 0,5 / 1.
- Metade das participantes do Big Brother farão capas da Playboy e/ou Sexy.
Não contei, mas essa previsão é quase como dizer que o sol vai nascer amanhã: um dia vai falhar, mas demora... 1 / 1.
- Meryl Streep será, de novo, indicada para um Oscar (dããã).
Não só foi indicada, ganhou o terceiro como a Margaret Thatcher do fraquinho A Dama de Ferro. 1 / 1.
- O Corinthians finalmente vence a Libertadores (PAREM DE RIR!). Lusa se segura na série A.
Preciso recorrer aos grandes irmãos Gershwin para celebrar o maior acerto da história deste blog:
They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
They all laughed at Wilbur and his brother
When they said that man could fly
They told Marconi
Wireless was a phony
It's the same old cry
(...)
For ho, ho, ho!
Who's got the last laugh?
Hee, hee, hee!
Let's at the past laugh
Ha, ha, ha!
Who's got the last laugh now?
E a Lusa bem que tentou cair, mas se segurou entre os grandes. 1,2 / 1.
- Usain Bolt perde os 100m rasos, mas leva os 200m em Londres. Brasil fará novo fiasco, no futebol masculino e no geral.
Bolt foi a Apple dos esportes, impossível apostar contra. Quanto ao Brasil:
0,7 / 1.
- Os filmes argentinos continuarão (muito) melhores que os brasileiros.
Na minha lista de melhores do ano entraram um argentino e um brasileiro, mas não foi um ano em que acompanhei de perto a produção de ambos (leitores, alguma opinião?). Grandes expectativas para O Som ao Redor, que estreia em SP amanhã. 0,5 / 1.
- O megahit Ai Se Eu Te Pego será regravado em Espanhol, Italiano, Romeno, Swahili, Esperanto e Cantonês.
Devem ter gravado até em klingon e algumas das línguas do Tolkien. Algumas amostras aqui. 0,8 / 1.
- O mundo não vai acabar em 21 de Dezembro. Lá pra Novembro eu publico a nova data.
Esqueci de publicar a nova data, mas, aparentemente, sobrevivemos. 1 / 1.
- Vou errar mais previsões do que no ano passado.
Somando meus pontos (se corretamente atribuídos, cornetem nos comentários):
Previsões "sérias" (economia, mercados e afins): 8,5 / 16 = 53%
Previsões aleatórias: 6,9 / 8 = 86%
Total: 15,4 / 24 = 64%
Acertei mais do que ano passado, o que faz esta metaprevisão contar como erro e joga meu desempenho para 62%, um pouco melhor do que um chimpanzé jogando cara ou coroa (pior ainda considerando que o que puxou a média pra cima foram as previsões não relacionadas à economia - aceito ofertas de emprego para comentar entretenimento e esportes).
Numa nota um pouco mais séria: a cada ano que passo trabalhando com gestão de dinheiro, aumenta minha convicção de que acertar previsões tem importância secundária para essa atividade (sorte, flexibilidade, gestão de risco e margem de segurança são muito mais relevantes). Hoje trato-as como hipóteses: boas até serem contrariadas pelos mercados, tendo que ser trocadas ou modificadas a partir daí (como diz um antigo chefe, somos pagos para ganhar dinheiro para os clientes, não para nos provarmos certos). Tendo partido de economista de formação quase totalmente ortodoxa e cheio de convicções, esse tem sido um processo difícil de deseducação, mas que tem facilitado enormemente minha vida. Talvez sirva de conselho para quem quer seguir o mesmo caminho.
Em alguns dias coloco aqui meus chutes para este ano, ainda preciso gastar mais um tempo pensando.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Drunkeynesian Awards 2012
A exemplo do ano passado, uma lista de coisas aleatórias que me chamaram a atenção durante o ano (durante os últimos dias, na verdade - viva o viés de disponibilidade):
- Melhor hedge fund: São Paulo Futebol Clube, que, dizem as fontes, ganhou R$10 milhões só com a oscilação do câmbio euro / real após fechar a venda do Lucas para o PSG.
- Livro mais presciente sobre o pós-crise (até agora): Capitalism 4.0, do colunista da Reuters Anatole Kaletsky. Quando li, a linha de achar que "problema adiado é problema resolvido" parecia delirante, mas o comportamento dos mercados na Europa este ano confirmou-a com todas as letras.
- Ideias mais interessantes sobre mercados: Christopher Cole, aproveitando um ano em que o Hugh Hendry andou meio quieto.
- Melhor investimento, categoria macro: ativos da Grécia, pasmem. Os juros dos títulos de dez anos caíram 2400 p.b. desde o início do ano, a bolsa subiu mais de 30%... Esse negócio de arrancar dinheiro do mercado financeiro é difícil pra caramba.
- Melhor investimento, categoria large caps: ações do Bank of America, preço mais do que dobrou em 2012. No geral, ações de bancos no mundo desenvolvido foram um ótimo negócio, cortesia das molezas proporcionadas pelos bancos centrais.
- Pior case do mercado de ações brasileiro: disputa dura entre as companhias elétricas (Eletrobras vai terminar o ano tendo perdido mais de 60% do valor de mercado) e as empresas do grupo X. Mas...
(a propósito, o Ibovespa teve, em dólares, o pior desempenho do ano entre os principais índices de ações do mundo. Onde mesmo era a crise?)
- Troféu Torre de Babel: ações da Apple, que ameaçaram subir até o céu (mas já caíram 26% desde a máxima, em setembro). Ao preço atual, confirma a regra de bolso que diz que poucas companhias aguentam muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões.
- Paper econômico mais pertinente (dos poucos que li): The dog and the frisbee, do diretor do Banco da Inglaterra Andrew Haldane, defendendo que um mundo ultracomplexo requer modelos de regulação bancária muito mais simples do que os protocolos da Basiléia. Leva também a ideia econômica do ano, ainda que 2012 foi mesmo o ano em que a que eu tinha mencionado ano passado (metas para o PIB nominal) pegou pra valer.
- Melhor twitter, categoria Lucy in the Sky With Diamonds: @stanleyburburin, claro, com teorias que fazem as do Nassif e do PHA parecerem versões atualizadas dos encadeamentos lógicos do Bertrand Russell.
- Melhor twitter, de verdade: @mkarl, porque um baixista-vascaíno-libertário-de-Petrópolis-morando-nos-confins-da-Alemanha só pode ser engraçado e pertinente.
- Melhor blog novo estrangeiro: Behavioral Macro. Posts não muito frequentes, mas sempre uma aula de como se aplica economia na prática dos mercados.
- Melhor blog novo brasileiro: Apogeo - ainda que mais professoral do que gosto de acompanhar, tem feito um grande trabalho de educação do investidor médio.
- Melhor site de comics: Vida e Obra de Mim Mesmo. xkcd é hors concours, claro (ainda que eu não entenda uns 30% das piadas).
- Foto do ano: era essa, de um urso sendo resgatado no Colorado:
... até que ontem alguém postou isso no twitter (o grande Carlos Valderrama lavando a própria estátua em Santa Marta, Colômbia):
- Melhor factóide: companheira Rose viajando com mala de dinheiro (apenas 25 milhões de euros) em voo diplomático para depositar em bancos de Portugal.
- Troféu Chora The Economist: Silvio Berlusconi, que, após ter anunciado aposentadoria da política, mudou de ideia e deve tentar voltar ao poder na Itália em 2013.
- Maior Lusófono de Todos os Tempos (que, por definição, é melhor que o Maior Brasileiro de Todos os Tempos): Miguel Marujo, por atualizar diariamente e com zelo impecável o E Deus Criou a Mulher.
- Melhor série de TV: a dinamarquesa Borgen (na verdade foi a única recente que vi - só neste ano perdi o preconceito com séries, ao começar a ver The Wire com dez anos de atraso).
- Descoberta musical do ano: a genialidade do Raça Negra, após ouvir as versões hipster.
- Melhor ano para a história da música popular: 1942, após constatar que foi quando nasceram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Jimi Hendrix, Tim Maia, Jorge Ben, Paul McCartney, Isaac Hayes, Lou Reed, Curtis Mayfield, John McLaughlin, Milton Nascimento, Nara Leão, Clara Nunes...
- Troféu Puskas do Mundo Bizarro: Diego Souza, por motivos óbvios. A nação corinthiana agradece.
- Anti-herói do ano: o cidadão do Qatar Emerson Sheik, claro.
- Melhor prova irrefutável de que o Brasil deu certo: Monica Bellucci anunciando mudança para o Rio.
Espero que tenham se divertido lendo isso metade do que eu me diverti escrevendo. Bom final de semana do não-final do mundo (ainda volto por aqui semana que vem).
P.S. Não podia deixar de mencionar o Troféu Homem de Visão (obrigado pela lembrança, Samer) para o craque Zé Love, que esnobou o Milan, seguiu jogando no lanterna do campeonato italiano (1 gol marcado pelo clube até agora) e, dizem as más línguas, vai parar no Vasco (chora, Magno Karl).
- Melhor hedge fund: São Paulo Futebol Clube, que, dizem as fontes, ganhou R$10 milhões só com a oscilação do câmbio euro / real após fechar a venda do Lucas para o PSG.
- Livro mais presciente sobre o pós-crise (até agora): Capitalism 4.0, do colunista da Reuters Anatole Kaletsky. Quando li, a linha de achar que "problema adiado é problema resolvido" parecia delirante, mas o comportamento dos mercados na Europa este ano confirmou-a com todas as letras.
- Ideias mais interessantes sobre mercados: Christopher Cole, aproveitando um ano em que o Hugh Hendry andou meio quieto.
- Melhor investimento, categoria macro: ativos da Grécia, pasmem. Os juros dos títulos de dez anos caíram 2400 p.b. desde o início do ano, a bolsa subiu mais de 30%... Esse negócio de arrancar dinheiro do mercado financeiro é difícil pra caramba.
- Melhor investimento, categoria large caps: ações do Bank of America, preço mais do que dobrou em 2012. No geral, ações de bancos no mundo desenvolvido foram um ótimo negócio, cortesia das molezas proporcionadas pelos bancos centrais.
- Pior case do mercado de ações brasileiro: disputa dura entre as companhias elétricas (Eletrobras vai terminar o ano tendo perdido mais de 60% do valor de mercado) e as empresas do grupo X. Mas...
um recado para quem ta shorteando (esta vendido) de ogx, You´re wrong! don´t ever short an x company! oil is pumping e o time eh do caralho.
— Thor Batista Oficial (@Thor631) April 25, 2012
(a propósito, o Ibovespa teve, em dólares, o pior desempenho do ano entre os principais índices de ações do mundo. Onde mesmo era a crise?)
- Troféu Torre de Babel: ações da Apple, que ameaçaram subir até o céu (mas já caíram 26% desde a máxima, em setembro). Ao preço atual, confirma a regra de bolso que diz que poucas companhias aguentam muito tempo com valor de mercado acima de US$500 bilhões.
- Paper econômico mais pertinente (dos poucos que li): The dog and the frisbee, do diretor do Banco da Inglaterra Andrew Haldane, defendendo que um mundo ultracomplexo requer modelos de regulação bancária muito mais simples do que os protocolos da Basiléia. Leva também a ideia econômica do ano, ainda que 2012 foi mesmo o ano em que a que eu tinha mencionado ano passado (metas para o PIB nominal) pegou pra valer.
- Melhor twitter, categoria Lucy in the Sky With Diamonds: @stanleyburburin, claro, com teorias que fazem as do Nassif e do PHA parecerem versões atualizadas dos encadeamentos lógicos do Bertrand Russell.
- Melhor twitter, de verdade: @mkarl, porque um baixista-vascaíno-libertário-de-Petrópolis-morando-nos-confins-da-Alemanha só pode ser engraçado e pertinente.
- Melhor blog novo estrangeiro: Behavioral Macro. Posts não muito frequentes, mas sempre uma aula de como se aplica economia na prática dos mercados.
- Melhor blog novo brasileiro: Apogeo - ainda que mais professoral do que gosto de acompanhar, tem feito um grande trabalho de educação do investidor médio.
- Melhor site de comics: Vida e Obra de Mim Mesmo. xkcd é hors concours, claro (ainda que eu não entenda uns 30% das piadas).
- Foto do ano: era essa, de um urso sendo resgatado no Colorado:
... até que ontem alguém postou isso no twitter (o grande Carlos Valderrama lavando a própria estátua em Santa Marta, Colômbia):
- Melhor factóide: companheira Rose viajando com mala de dinheiro (apenas 25 milhões de euros) em voo diplomático para depositar em bancos de Portugal.
- Troféu Chora The Economist: Silvio Berlusconi, que, após ter anunciado aposentadoria da política, mudou de ideia e deve tentar voltar ao poder na Itália em 2013.
- Maior Lusófono de Todos os Tempos (que, por definição, é melhor que o Maior Brasileiro de Todos os Tempos): Miguel Marujo, por atualizar diariamente e com zelo impecável o E Deus Criou a Mulher.
- Melhor série de TV: a dinamarquesa Borgen (na verdade foi a única recente que vi - só neste ano perdi o preconceito com séries, ao começar a ver The Wire com dez anos de atraso).
- Descoberta musical do ano: a genialidade do Raça Negra, após ouvir as versões hipster.
- Melhor ano para a história da música popular: 1942, após constatar que foi quando nasceram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Jimi Hendrix, Tim Maia, Jorge Ben, Paul McCartney, Isaac Hayes, Lou Reed, Curtis Mayfield, John McLaughlin, Milton Nascimento, Nara Leão, Clara Nunes...
- Troféu Puskas do Mundo Bizarro: Diego Souza, por motivos óbvios. A nação corinthiana agradece.
- Anti-herói do ano: o cidadão do Qatar Emerson Sheik, claro.
- Melhor prova irrefutável de que o Brasil deu certo: Monica Bellucci anunciando mudança para o Rio.
Espero que tenham se divertido lendo isso metade do que eu me diverti escrevendo. Bom final de semana do não-final do mundo (ainda volto por aqui semana que vem).
P.S. Não podia deixar de mencionar o Troféu Homem de Visão (obrigado pela lembrança, Samer) para o craque Zé Love, que esnobou o Milan, seguiu jogando no lanterna do campeonato italiano (1 gol marcado pelo clube até agora) e, dizem as más línguas, vai parar no Vasco (chora, Magno Karl).
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Eletrobras
Eu achando que seria bom comprar semana passada a preços de 2005, voltou a preços de 2002. Sobrou para alguém a conta da energia mais barata.
P.S. Mais no Valor. Parece mesmo exemplo de livro do "starve the beast" dos anos Reagan, que mencionei no post anterior falando da Petrobras. Não canso de me surpreender com a Dilma.
P.P.S. Relatório do Santander sobre a situação da Eletrobras.
P.S. Mais no Valor. Parece mesmo exemplo de livro do "starve the beast" dos anos Reagan, que mencionei no post anterior falando da Petrobras. Não canso de me surpreender com a Dilma.
P.P.S. Relatório do Santander sobre a situação da Eletrobras.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Gasolina Brasilis
Entendo bem pouco de energia e do que se passa entre a Petrobras e o governo, portanto interpretem isso mais como um pensamento alto do que uma análise. A preços atuais, consta que a Petrobras está na curiosa situação de que quanto mais vende combustível, mais perde dinheiro. Se vale isso, vale também dizer que os acionistas da Petrobras (o tesouro nacional entre eles, claro) subsidiam quem consome combustíveis - mais um exemplo bem acabado das tantas taxações regressivas do país.
Fora essa consideração: ao longo do tempo, transformar a Petrobras em uma empresa cronicamente perdedora é um tiro no pé. Os acionistas privados, que dividem com governo os riscos do negócio, tendem a abandonar o investimento; a empresa tem um longo cronograma de investimentos dos quais, aparentemente, já é tarde demais para desistir; e há muita dívida para pagar, que depende de uma taxa de retorno do investimento maior que os juros contratados. No fim das contas, se der besteira, quem sobra para tapar os buracos na empresa é o próprio governo.
A explicação preferida para essa insistência em manter defasado o preço dos combustíveis é o impacto na inflação. Assumindo que isso seja verdade, e considerando que: i) a meta que de inflação que o BC observa é no ano-calendário; ii) faltam 47 dias para acabar este ano, e, nesse período, é muito pouco provável que a inflação estoure o teto da meta, iii) quanto mais esse aumento demorar, mais ficam os efeitos para serem sentidos na inflação do ano que vem; por que raios o governo não autoriza logo o aumento nos preços?
Algumas possíveis teorias:
- Conspiratória - diz um passarinho verde que há um esforço do executivo para controlar a corrupção nas estatais, uma versão tropicalizada do "starve the beast". Essa hipótese apareceu primeiro aplicada a Eletrobras, mas talvez valha também para a Petrobras. Há que ter cuidado, porém, para não matar a besta;
- Especulativa - na onda atual dos governos acharem que sabem tudo e conseguem controlar muitas variáveis, alguém com poder acha que o preço do petróleo vai seguir caindo (o WTI veio de US$100 no meio de setembro para atuais US$85). Assim, a Petrobras completaria o arquétipo de empresa de petróleo do mundo bizarro, que torce para que o produto que extrai caia de preço.
- Tranquilista - tá tudo bem, o aumento vem em breve, a inflação está sob controle e não teremos problemas.
- Idiotista - como diria o meu pai, "esses caras são todos uns imbecis e não têm a menor ideia do que estão fazendo".
Escolha (ou crie) a sua.
Fora essa consideração: ao longo do tempo, transformar a Petrobras em uma empresa cronicamente perdedora é um tiro no pé. Os acionistas privados, que dividem com governo os riscos do negócio, tendem a abandonar o investimento; a empresa tem um longo cronograma de investimentos dos quais, aparentemente, já é tarde demais para desistir; e há muita dívida para pagar, que depende de uma taxa de retorno do investimento maior que os juros contratados. No fim das contas, se der besteira, quem sobra para tapar os buracos na empresa é o próprio governo.
![]() |
| *Acumulado em 12 meses |
A explicação preferida para essa insistência em manter defasado o preço dos combustíveis é o impacto na inflação. Assumindo que isso seja verdade, e considerando que: i) a meta que de inflação que o BC observa é no ano-calendário; ii) faltam 47 dias para acabar este ano, e, nesse período, é muito pouco provável que a inflação estoure o teto da meta, iii) quanto mais esse aumento demorar, mais ficam os efeitos para serem sentidos na inflação do ano que vem; por que raios o governo não autoriza logo o aumento nos preços?
Algumas possíveis teorias:
- Conspiratória - diz um passarinho verde que há um esforço do executivo para controlar a corrupção nas estatais, uma versão tropicalizada do "starve the beast". Essa hipótese apareceu primeiro aplicada a Eletrobras, mas talvez valha também para a Petrobras. Há que ter cuidado, porém, para não matar a besta;
- Especulativa - na onda atual dos governos acharem que sabem tudo e conseguem controlar muitas variáveis, alguém com poder acha que o preço do petróleo vai seguir caindo (o WTI veio de US$100 no meio de setembro para atuais US$85). Assim, a Petrobras completaria o arquétipo de empresa de petróleo do mundo bizarro, que torce para que o produto que extrai caia de preço.
- Tranquilista - tá tudo bem, o aumento vem em breve, a inflação está sob controle e não teremos problemas.
- Idiotista - como diria o meu pai, "esses caras são todos uns imbecis e não têm a menor ideia do que estão fazendo".
Escolha (ou crie) a sua.
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terça-feira, 13 de novembro de 2012
Gráfico do Dia - rentabilidade civilizada
De um ótimo relatório do J.P. Morgan sobre bancos na América Latina. Pelo menos quando comparados aos dos pares no continente, os retornos dos bancos brasileiros não podem ser qualificados como "astronômicos". Já tinha observado algo parecido aqui.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Leituras da Semana
![]() |
| Legítimo representante do "nobre povo" |
- Pastore, Gazzano e Pinotti sobre a estagnação da produção industrial no Brasil.
- Dilma na capa da edição da Forbes com as mulheres mais poderosas do mundo.
- A Bloomberg descobriu a mulher mais rica do Brasil.
- PIMCO sobre a "japanização" do mundo desenvolvido.
- Timothy Garton Ash na Foreign Affairs sobre a história do euro.
- Uma história dos regimes de câmbio no mundo.
- O FRED, ótima base de dados do Fed de St. Louis, agora tem versões para tablets e celulares (sei lá, deve ter um tipo de pessoa que sente uma vontade incontrolável, durante um jantar, de checar como anda a criação de empregos nos EUA).
- Algumas coisas que é bom estudar caso queira discutir política externa a sério.
- Uma lista de leitura sobre economia comportamental, por Michael Mauboussin, da Legg Mason.
- Como se explica o sucesso da The Economist.
- Por que estudar Ayn Rand?
- Virou filme a história do ilustre desconhecido Aristides de Sousa Mendes: cônsul de Portugal em Bordeaux durante a Segunda Guerra, emitiu cerca de 30 mil vistos para refugiados (10 mil judeus, entre eles).
- Baroque Yo' Mama, judeu, nascido em Oslo, presidente dos EUA.
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Brasil x México, dados e pitacos em 10 tópicos
"Ah, que saudades de ganhar do México, amigo!"
Galvão Bueno
Em algum momento nos últimos meses, o que chamamos de "mercado" tornou-se convencido que, entre as grandes economias da América Latina, bom mesmo é investir no México. Alguns exemplos:
- Is Mexico the new Brazil, no Financial Times
- Mexico Ousts Brazil As Investors' Top Choice In Latin America
- Why Investors Love Mexico
- Sorry Brazil, Investors Prefer Mexico
- Sorry Brazil, Mexico Is Better
- Can Mexico Overtake Brazil By 2022?
- Economia mexicana pode passar Brasil em 10 anos
- Brazil or Mexico?
Algumas dessas análises fazem sentido, outras não escapam da categoria de modismos passageiros. Compilei alguns dados para dar um contexto melhor para a história e ver se aparece alguma conclusão. Como bons dados, alguns confirmam supostas "obviedades", outros as desmentem. Aí vão:
1. Nos últimos 30 anos, histórias de crescimento de Brasil e México são parecidas - e não muito brilhantes
Separei em períodos arbitrários a história de crescimento dos dois países e do mundo nos últimos 30 anos: de 1981 até o fim da inflação alta no Brasil, em 1993; de 1994 até o início do ciclo de alta de commodities e de lá até o ano passado. O Brasil só cresceu mais que o México neste último período. Na média de longo prazo, os crescimentos são muito parecidos - e mais fracos do que o crescimento mundial:
Galvão Bueno
Em algum momento nos últimos meses, o que chamamos de "mercado" tornou-se convencido que, entre as grandes economias da América Latina, bom mesmo é investir no México. Alguns exemplos:
- Is Mexico the new Brazil, no Financial Times
- Mexico Ousts Brazil As Investors' Top Choice In Latin America
- Why Investors Love Mexico
- Sorry Brazil, Investors Prefer Mexico
- Sorry Brazil, Mexico Is Better
- Can Mexico Overtake Brazil By 2022?
- Economia mexicana pode passar Brasil em 10 anos
- Brazil or Mexico?
Algumas dessas análises fazem sentido, outras não escapam da categoria de modismos passageiros. Compilei alguns dados para dar um contexto melhor para a história e ver se aparece alguma conclusão. Como bons dados, alguns confirmam supostas "obviedades", outros as desmentem. Aí vão:
1. Nos últimos 30 anos, histórias de crescimento de Brasil e México são parecidas - e não muito brilhantes
Separei em períodos arbitrários a história de crescimento dos dois países e do mundo nos últimos 30 anos: de 1981 até o fim da inflação alta no Brasil, em 1993; de 1994 até o início do ciclo de alta de commodities e de lá até o ano passado. O Brasil só cresceu mais que o México neste último período. Na média de longo prazo, os crescimentos são muito parecidos - e mais fracos do que o crescimento mundial:
Em termos per capita, nenhum dos dois países conseguiu fazer um catch-up consistente com os EUA, ainda que o México (em PPP) seja mais rico e esteja mais perto do seu melhor momento nos últimos 30 anos:
2. Ciclos de crescimento de Brasil e México tem sido muito distintos
Pelo gráfico abaixo, dá para perceber certa alternância nos períodos em que os dois países andam melhor ou pior do que o mundo. Não sei bem porque: talvez o ciclo aqui seja mais atrasado com relação aos EUA, ou talvez, grosso modo, o que ajuda a economia brasileira (commodities em alta?) atrapalha a mexicana. Se essa relação se mantiver e de fato estivermos perto do esgotamento do "modelo" de crescimento brasileiro dos últimos anos, o relativo deve ser mesmo favorável ao México:
3. Se EUA vão bem, México vai bem
A partir da implementação do NAFTA, em 1994, o México escolheu, no que diz respeito à economia, ser uma espécie de 51º estado dos EUA. A importância do comércio exterior para o PIB mexicano cresceu muito (enquanto o Brasil só viu algum aumento com o boom de commodities), sendo que hoje entre 80% e 90% das exportações são destinadas aos EUA. Para investidores de mercados emergentes, investir no México é a maneira de comprar a recuperação dos EUA com relação ao resto do mundo desenvolvido, o que, neste momento e antes de olhar para preços, faz todo sentido.
4. Composição das exportações dos dois países
Do fabuloso Atlas de Complexidade Econômica, dados de 2009, ajudam a esclarecer os itens anteriores:
![]() |
| México |
![]() |
| Brasil |
4. No relativo, México foi ficando muito, muito barato
Já tinha mostrado aqui um estudo do UBS que apontava para isso. Abaixo a evolução do câmbio real dos dois países nos últimos 10 anos:
5. Bolsas contam histórias muito diferentes...
Entre 2002 e meados de 2010, havia uma correlação muito alta entre os principais índices de ações do Brasil (Ibovespa) e México (IPC). Desde então, o Ibovespa tem patinado e o IPC seguiu fazendo novas máximas. Como boa parte do mercado se guia por performance passada, esse deve ser um dos fatores mais importantes para explicar o modismo atual:
6. ... refletindo as grandes diferenças em suas composições
Quem compra Ibovespa compra commodities, bancos e um pouco de consumo doméstico; no México, o peso de consumo é maior e há o "privilégio" de ser sócio de Carlos Slim na America Movil.
7. Investimento estrangeiro no Brasil vem de excessos
O volume de investimento estrangeiro direto que entrou no Brasil nos últimos três anos foi muitas vezes maior do que no México. Parte disso deve ser investimento em portifólio disfarçado para não pagar imposto; mesmo levando isso em conta, creio que boa parte desse dinheiro teve retornos bem menores do que o esperado pelos investidores - pelo movimento do câmbio ou pela dificuldade de gerar lucros no país.
8. Economia do México maior que a do Brasil?
No ano passado, em dólares correntes, o PIB per capita do Brasil fechou perto de US$ 12.600, contra US$ 10.070 do México. Ajustando apenas pelos movimentos do câmbio neste ano (muito maiores do que as eventuais diferenças de crescimento de PIB e população), essa diferença deve cair de 25% para perto de 9% a favor do Brasil - historicamente é de 14% a favor do México, mas vamos aceitar que os 10 anos de bonança de commodities geraram algum benefício mais duradouro por aqui.
Em 2020 o United States Census Bureau projeta a população do Brasil em 211,7 milhões e a do México em 124,7 milhões - Brasil quase 70% mais populoso. Para a economia do México ser maior que a Brasileira, seu PIB per capita em dólares tem que crescer, no período, 85% a mais do que o do Brasil, ou 8% por ano. Pelo crescimento, não vai acontecer. Pelo câmbio, só se ocorrer algum alinhamento de astros que faça com que o real fique muito desvalorizado com relação ao peso - não seria inédito (ocorreu entre 2001 e 2004), mas improvável que seja sustentável: se há algo em comum nos dois países é a baixa eficiência recente de suas políticas de desenvolvimento (quando existem).
9. Futebol
Em partidas das seleções principais, o Brasil jogou 37 vezes com o México, ganhou 21, empatou 6 e perdeu as demais.Ocorre que, em cinco finais disputadas, o Brasil perdeu todas (Copa Ouro 1996 e 2003, Copa das Confederações 1999, Mundial Sub-17 2005 e Olimpíadas 2012). Podendo, melhor evitar.
10. Conclusões
Há várias maneiras de interpretar o atual modismo, e provavelmente todas elas se completam:
- A mídia só agora se deu conta de algo que o preço das ações vem mostrando desde 2010: as companhias mexicanas estão melhor no concurso de beleza do mercado. Isso pode ser sinal de que o movimento está perto do fim (ou de uma pausa) - ver as regras de Bob Farrell # 1, 2, 5 e 9.
- Parte do mercado vive de vender em histórias. Por um bom tempo, a história mais vendável era a dos BRICs, da qual o México ficou de fora. Agora, parecendo menos plausível que a China e a Índia vão continuar crescendo a taxas altas sem interrupção e puxando para cima preços de commodities, há a necessidade de criar novos casos de sucesso. O do México é de fato interessante: a essa altura parece melhor apostar em temas ligados a uma recuperação dos EUA do que à manutenção do crescimento da China. Para ações porém, os preços não são evidentemente baratos, e embutem a certa euforia das manchetes que citei no começo do post.
- Os dois países estão longe de serem casos de crescimento acelerado, e assim devem continuar - são duas economias tentando fugir da "armadilha da renda média", com grandes dificuldades de promover reformas estruturais e investir.
- Em dólares, o Brasil segue relativamente caro - mesmo com o movimento de 15% neste ano no câmbio reais x peso mexicano, os excessos da última década ainda estão longe de serem corrigidos. Para investimentos, isso, na minha opinião, é mais importante que qualquer consideração que se faça sobre perspectivas de crescimento futuro (sem levar em conta características específicas de setores ou empresas).
- Testei um monte de conclusões-clichê para esse post, não gostei de nenhuma. Fiquem com uma frase interessante que li hoje na entrevista de Martin Taylor, do Nevsky Fund, para o Hedge Fund Market Wizards:
"In an emerging market, the smart money is domestic, not international."
Não sei o que os mexicanos andam fazendo com o dinheiro, mas siga eles.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Gráfico do Dia - Saias e Preços de Ações
Uma visualização legal da "teoria do comprimento das saias". Xavier Sala-i-Martín explica os problemas com esse tipo de indicador.
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quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Passeando pelo mundo das ações
O Merrill Lynch publicou há alguns dias um relatório inspiradamente intitulado The Equity Hitchhiker’s Guide to the Global Galaxy. Para quem olha os mercados a uma certa altura, é uma grande fonte de ideais e dados interessantes. Aí vão alguns que me chamaram a atenção:
- O valor das ações negociadas no mundo é US$ 27 trilhões. O PIB global é US$ 70 trilhões, mercado de dívida US$ 43 trilhões, total de reservas internacionais US$ 10,4 trilhões.
- O setor de tecnologia do mercado dos EUA é maior do que todo o mercado de ações da zona do euro.
- Ações de empresas financeiras (bancos, seguradoras, etc) ainda são a maior fatia do mercado global, quase 20% do total.
- Setor financeiro brasileiro vale tanto quanto o da Alemanha ou da França.
- Ações dos setores de saúde e consumo básico estão, globalmente, bastante perto de suas máximas históricas. Entre os países, México e Malásia são os mais próximos dos melhores dias.
- Setor de saúde como proporção do mercado é ridiculamente pequeno no Brasil - 0,9%, contra 9,6% no mundo.
- Em termos de múltiplo preço / lucro esperado, México é o mercado mais caro do mundo.
- O rendimento de dividendos no Brasil está entre os maiores do mundo, 4,8% nos últimos 12 meses.
- Como eu tinha mostrado, o retorno sobre o capital dos bancos brasileiros não é absurdo ou astronômico: 15,5%, pouco maior que a média do setor nos emergentes (14,4%). Os maiores retornos do setor estão na Indonésia (ah, Armínio Fraga...), na Rússia e no Chile.
- Para entender a atual onda de "largue o Brasil, compre México", olhe o crescimento dos lucros esperado para este ano - deve ser de quase 40% no México; no Brasil, cairão 6,4% - e junte a velha mania de extrapolação que permeia as atividades de analistas e economistas.
- Esse gráfico:
- O valor das ações negociadas no mundo é US$ 27 trilhões. O PIB global é US$ 70 trilhões, mercado de dívida US$ 43 trilhões, total de reservas internacionais US$ 10,4 trilhões.
- O setor de tecnologia do mercado dos EUA é maior do que todo o mercado de ações da zona do euro.
- Ações de empresas financeiras (bancos, seguradoras, etc) ainda são a maior fatia do mercado global, quase 20% do total.
- Setor financeiro brasileiro vale tanto quanto o da Alemanha ou da França.
- Ações dos setores de saúde e consumo básico estão, globalmente, bastante perto de suas máximas históricas. Entre os países, México e Malásia são os mais próximos dos melhores dias.
- Setor de saúde como proporção do mercado é ridiculamente pequeno no Brasil - 0,9%, contra 9,6% no mundo.
- Em termos de múltiplo preço / lucro esperado, México é o mercado mais caro do mundo.
- O rendimento de dividendos no Brasil está entre os maiores do mundo, 4,8% nos últimos 12 meses.
- Como eu tinha mostrado, o retorno sobre o capital dos bancos brasileiros não é absurdo ou astronômico: 15,5%, pouco maior que a média do setor nos emergentes (14,4%). Os maiores retornos do setor estão na Indonésia (ah, Armínio Fraga...), na Rússia e no Chile.
- Para entender a atual onda de "largue o Brasil, compre México", olhe o crescimento dos lucros esperado para este ano - deve ser de quase 40% no México; no Brasil, cairão 6,4% - e junte a velha mania de extrapolação que permeia as atividades de analistas e economistas.
- Esse gráfico:
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
Piquenique na beira do vulcão
Mesmo para os otimistas de ocasião, a semana começou com emoções. Vários indicadores indo hoje para níveis críticos:
A "novidade" é a volta de um risco concreto da Grécia ser forçada para fora do euro e os temores da possível espiral destrutiva que isso geraria (ver no Spiegel - com a ressalva que deve ser a quarta ou quinta vez que o Spiegel coloca a Grécia nessa situação). Minha visão era que essa coordenação já estava mais ou menos resolvida, pelo visto os alemães ainda não estão totalmente convencidos. Não tenho nenhum palpite no curto prazo; o jeito é continuar com o piquenique e confiar nos níveis de stop-loss. Esperem uma semana de muito ruído.
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| Juros títulos 10 anos Alemanha (Bund) - perto da mínima de todos os tempos |
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| Índice IBEX (Espanha) - de volta às mínimas deste ano |
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| Ações do Banco Santander - tentando romper o suporte a EUR 4.0 |
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| EUR/USD perto de 1.20 |
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| Spread títulos 2 anos - 10 anos Espanha - curva em movimento de inversão |
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| Ibovespa, novamente testando a mínima deste ano |
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| EWZ (ETF ações brasileiras), de novo ameaçando romper $50 |
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| Petrobras, recuperação ameaçada |
A "novidade" é a volta de um risco concreto da Grécia ser forçada para fora do euro e os temores da possível espiral destrutiva que isso geraria (ver no Spiegel - com a ressalva que deve ser a quarta ou quinta vez que o Spiegel coloca a Grécia nessa situação). Minha visão era que essa coordenação já estava mais ou menos resolvida, pelo visto os alemães ainda não estão totalmente convencidos. Não tenho nenhum palpite no curto prazo; o jeito é continuar com o piquenique e confiar nos níveis de stop-loss. Esperem uma semana de muito ruído.
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quarta-feira, 18 de julho de 2012
Bipolaridade do Dia
Duas notícias publicadas hoje exatamente no mesmo horário no UOL, baseadas em estudos do mesmo profissional (clique nas imagens para acessar):
- A primeira faz "tchan":
- A segunda faz "tchun":
Impossível (sem entrar no mérito do conteúdo das matérias, outra história) não invocar o mascote preferido do Alexandre Schwartsman.
- A primeira faz "tchan":
- A segunda faz "tchun":
Impossível (sem entrar no mérito do conteúdo das matérias, outra história) não invocar o mascote preferido do Alexandre Schwartsman.
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Pensando alto sobre mercados
Este é um post para a categoria "notas mentais", não deve interessar a muita gente. Aí vai...
- Minha hipótese geral para o resto do ano é que a crise na Europa já está (i) bastante incorporada nos preços de mercados e (ii) sendo endereçada, entre trancos e barrancos e com todas as limitações da coordenação política do continente.
- Se isso está certo, boa parte do pessimismo que paira sobre os mercados hoje não se justifica - o que implica um viés mais otimista para os ativos "de risco". Minha opinião é que nenhum banco europeu vai quebrar - das coisas mais incríveis que aconteceram neste ano foi o controle de uma corrida bancária na Grécia e, em alguma medida, na Espanha. Achei que isso poderia quebrar o euro; de algum jeito, conseguiram substituir depósitos e emissões de curto prazo por linhas contra bancos centrais e destes contra o ECB, tudo isso sem provocar pânico na população. Incrível.
- Nada disso implica que a crise está resolvida e que entraremos numa fase de bonança. Se tudo der muito certo, os EUA não entrarão novamente em recessão, a Europa começa a se recuperar (basta a economia voltar a funcionar, em alguns casos) e os dois migram para uma "japanização" - baixo dinamismo, elevados estoques de dívida e população envelhecendo com dignidade. No Japão, esse cenário foi péssimo para as companhias, bom para renda fixa (juros muito baixos por décadas) e positivo para a moeda. Se tudo der errado - bem-vindos a 2008, com alguns twists.
- Os títulos de renda fixa de países vistos como "solventes" operam nos níveis de juros mais baixos da história, em muitos casos com uma remuneração pífia para o risco envolvido. Podem ser uma boa opção de investimento ex-post (como foram os títulos do Japão nos últimos 20 anos), mas, com a informação que se tem hoje, acho uma loucura emprestar dinheiro por dez anos para qualquer governo a menos de 2% ao ano nominais. Não precisa muita besteira para anos desse rendimento serem varridos.
- Mercado atribui probabilidade elevada a um cenário de deflação, o que seria condizente com a "japanização". Ainda assim, acho que o o risco é menor do que o precificado e que muitas divergências devem aparecer. A que me parece mais óbvia: juros longos na Alemanha são menores que nos EUA, mas acredito que a evolução do cenário na Europa fará com que o país assuma parte da dívida dos países periféricos e piore sua capacidade de pagamento - o que deveria levar a juros maiores. Caso isso não aconteça, juros na Espanha deveriam subir muito.
- Aqui no Brasil, acho que, salvo tudo dando errado no mundo, o ciclo de corte de juros do BC está perto do fim - talvez o mercado já tenha começado a precificar isso, com a curva de juros devolvendo parte da alta na inclinação dos últimos meses. Ainda assim, ainda há várias medidas que o governo pode tomar na direção de tirar alguns pontos da inflação - a mais evidente hoje parece a tarifação de energia elétrica. Difícil ir contra esse tipo de movimento. De fato Dilma chegará nas eleições com 2% de juros reais (ao menos medidos pela Selic) - promessa de político que virou realidade, espécie rara.
- O câmbio reais / dólar parece algo controlado pelo BC, num intervalo entre 1,90 - 2,10. A depreciação ano ano, até agora, já paga quase todo o diferencial de juros Brasil - EUA, o que deve deixar os felizes proprietários de cotas de fundos cambiais relativamente tranquilos. No médio / longo prazo, o real deve seguir enfraquecendo. O grande risco de descontinuidade segue sendo um problema na China que cause um choque adverso nos termos de troca. Um dia vai acontecer, mas muito difícil prever o timing.
- Escrevi várias vezes no Twitter que é quase impossível olhar a composição do Ibovespa e se animar a comprar o índice (claro que sempre há espaço para stock picking, mas essa não é muito minha praia). O índice é 13% petróleo (além do risco do preço, o da exploração), 13% minério de ferro (mais exposto a China, impossível), 12% bancos (na fase ruim do ciclo de crédito), algum peso de siderúrgicas (acho dos piores negócios para o futuro) e construção civil (vale a mesma observação dos bancos). Não temos nenhum varejista com peso relevante, nada de tecnologia, muito pouco de alimentos / bebidas... Excluindo a alta do início deste ano, o Ibovespa há quase dois anos não vai a lugar nenhum ou escorrega para baixo; não seria surpresa se ficasse mais dois anos assim. O risco de descontinuidade é o mesmo do câmbio, com mais alavancagem.
- Em resumo, o cenário macroeconômico é uma merda, com riscos enormes para todos os lados. Acho que, para a maior parte dos investidores, não é hora de tentar ser herói e buscar grandes ganhos, haverá oportunidades para isso no futuro. No curto prazo, dá para fazer um caso contrário razoavelmente otimista, mas altamente especulativo e com assimetria de risco / retorno não muito boa. Trabalho para profissionais (ou cowboys). O que acho notável, e muitas vezes não é evidente, é que os mercados estão escalando um muro de preocupações bastante grande, isso por si só deveria ser uma indicação positiva (ou ao menos para menos pessimismo).
- No geral, acho que não mudaria a maior parte das "previsões" que fiz no início do ano. Ia revisitar uma por uma, mas deu preguiça... faço isso em dezembro. De qualquer maneira, a previsão que mais importa eu já acertei.
- Para uma visão com mais informação e menos falação, recomendo muito este post do Humble Student of the Markets.
- Minha hipótese geral para o resto do ano é que a crise na Europa já está (i) bastante incorporada nos preços de mercados e (ii) sendo endereçada, entre trancos e barrancos e com todas as limitações da coordenação política do continente.
- Se isso está certo, boa parte do pessimismo que paira sobre os mercados hoje não se justifica - o que implica um viés mais otimista para os ativos "de risco". Minha opinião é que nenhum banco europeu vai quebrar - das coisas mais incríveis que aconteceram neste ano foi o controle de uma corrida bancária na Grécia e, em alguma medida, na Espanha. Achei que isso poderia quebrar o euro; de algum jeito, conseguiram substituir depósitos e emissões de curto prazo por linhas contra bancos centrais e destes contra o ECB, tudo isso sem provocar pânico na população. Incrível.
- Nada disso implica que a crise está resolvida e que entraremos numa fase de bonança. Se tudo der muito certo, os EUA não entrarão novamente em recessão, a Europa começa a se recuperar (basta a economia voltar a funcionar, em alguns casos) e os dois migram para uma "japanização" - baixo dinamismo, elevados estoques de dívida e população envelhecendo com dignidade. No Japão, esse cenário foi péssimo para as companhias, bom para renda fixa (juros muito baixos por décadas) e positivo para a moeda. Se tudo der errado - bem-vindos a 2008, com alguns twists.
- Os títulos de renda fixa de países vistos como "solventes" operam nos níveis de juros mais baixos da história, em muitos casos com uma remuneração pífia para o risco envolvido. Podem ser uma boa opção de investimento ex-post (como foram os títulos do Japão nos últimos 20 anos), mas, com a informação que se tem hoje, acho uma loucura emprestar dinheiro por dez anos para qualquer governo a menos de 2% ao ano nominais. Não precisa muita besteira para anos desse rendimento serem varridos.
- Mercado atribui probabilidade elevada a um cenário de deflação, o que seria condizente com a "japanização". Ainda assim, acho que o o risco é menor do que o precificado e que muitas divergências devem aparecer. A que me parece mais óbvia: juros longos na Alemanha são menores que nos EUA, mas acredito que a evolução do cenário na Europa fará com que o país assuma parte da dívida dos países periféricos e piore sua capacidade de pagamento - o que deveria levar a juros maiores. Caso isso não aconteça, juros na Espanha deveriam subir muito.
- Aqui no Brasil, acho que, salvo tudo dando errado no mundo, o ciclo de corte de juros do BC está perto do fim - talvez o mercado já tenha começado a precificar isso, com a curva de juros devolvendo parte da alta na inclinação dos últimos meses. Ainda assim, ainda há várias medidas que o governo pode tomar na direção de tirar alguns pontos da inflação - a mais evidente hoje parece a tarifação de energia elétrica. Difícil ir contra esse tipo de movimento. De fato Dilma chegará nas eleições com 2% de juros reais (ao menos medidos pela Selic) - promessa de político que virou realidade, espécie rara.
- O câmbio reais / dólar parece algo controlado pelo BC, num intervalo entre 1,90 - 2,10. A depreciação ano ano, até agora, já paga quase todo o diferencial de juros Brasil - EUA, o que deve deixar os felizes proprietários de cotas de fundos cambiais relativamente tranquilos. No médio / longo prazo, o real deve seguir enfraquecendo. O grande risco de descontinuidade segue sendo um problema na China que cause um choque adverso nos termos de troca. Um dia vai acontecer, mas muito difícil prever o timing.
- Escrevi várias vezes no Twitter que é quase impossível olhar a composição do Ibovespa e se animar a comprar o índice (claro que sempre há espaço para stock picking, mas essa não é muito minha praia). O índice é 13% petróleo (além do risco do preço, o da exploração), 13% minério de ferro (mais exposto a China, impossível), 12% bancos (na fase ruim do ciclo de crédito), algum peso de siderúrgicas (acho dos piores negócios para o futuro) e construção civil (vale a mesma observação dos bancos). Não temos nenhum varejista com peso relevante, nada de tecnologia, muito pouco de alimentos / bebidas... Excluindo a alta do início deste ano, o Ibovespa há quase dois anos não vai a lugar nenhum ou escorrega para baixo; não seria surpresa se ficasse mais dois anos assim. O risco de descontinuidade é o mesmo do câmbio, com mais alavancagem.
- Em resumo, o cenário macroeconômico é uma merda, com riscos enormes para todos os lados. Acho que, para a maior parte dos investidores, não é hora de tentar ser herói e buscar grandes ganhos, haverá oportunidades para isso no futuro. No curto prazo, dá para fazer um caso contrário razoavelmente otimista, mas altamente especulativo e com assimetria de risco / retorno não muito boa. Trabalho para profissionais (ou cowboys). O que acho notável, e muitas vezes não é evidente, é que os mercados estão escalando um muro de preocupações bastante grande, isso por si só deveria ser uma indicação positiva (ou ao menos para menos pessimismo).
- No geral, acho que não mudaria a maior parte das "previsões" que fiz no início do ano. Ia revisitar uma por uma, mas deu preguiça... faço isso em dezembro. De qualquer maneira, a previsão que mais importa eu já acertei.
- Para uma visão com mais informação e menos falação, recomendo muito este post do Humble Student of the Markets.
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terça-feira, 10 de julho de 2012
Gráfico do Dia - Ibovespa em 2012 (até agora)
Não sei se serve de consolo para alguém saber que, descontando as duas maiores quedas entre seus membros (OGX e PDG - cuidado com empresas com nomes de três letras!), o Ibovespa não está assim tão mal neste ano (claro, se esses papéis não estivessem no índice os pesos seriam outros, assim como toda essa conta). Em todo caso, aí vai:
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terça-feira, 3 de julho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Ai-que
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| Eike dureza ter que olhar de novo pra essa capa ridícula... |
Ontem o Arthur M. me mandou um e-mail perguntando se eu não ia escrever nada sobre a, digamos, maré de azar nas empresas do grupo X (considerando o meu muitas vezes manifestado ceticismo com relação a esses negócios). Eu respondi que não pretendia porque: primeiro, não entendo quase nada de petróleo - a maior queda (perda de metade do valor de mercado neste mês) foi da OGX, em teoria provocada por um corte de estimativa de produção em uma das áreas de exploração e; segundo, ainda era cedo para declarar Eike e suas empresas uma fraude completa. Isso foi enquanto a queda da OGXP3 no pregão era de "apenas" 7%. No fim do dia acelerou para quase 20%, a MMXM3 caiu outros 17% e fiquei com a impressão de que, na melhor expressão da célebre frase de Dornbusch, as coisas poderiam estar acontecendo mais rápido do que qualquer um poderia imaginar.
Eike é o arquétipo da ilusão do "Brasil que deu certo", que conseguiria enriquecer em uma geração com um modelo baseado em pouco mais do que exploração de commodities e a crença de que os termos de troca nunca voltariam a piorar. A genialidade de Eike foi perceber que o mundo havia se convencido dessas falácias, e que empresas pré-operacionais, com todo o risco associado a esse estágio do negócio e à exploração de commodities, poderiam ser vendidas como empresas maduras, cash cows em plena operação. Acho que o ajuste dos preços de mercado neste mês (que não sei se já terminou - de qualquer forma, o mês útil termina hoje) reflete a reversão dessa ilusão, e as empresas serão reprecificadas de forma a refletir melhor a realidade, não a expectativa de um futuro onde tudo deu certo. Uma próxima reprecificação pode ocorrer se o mercado se convencer de que alguns dos projetos vendidos são fraudes e que o investimento será perdido; não os conheço a fundo para saber se isso vai acontecer, ainda que não me pareceria uma grande surpresa. Ecoa na minha cabeça a frase que ouvi do professor L. Randall Wray em um seminário, há alguns meses: "nada é mais lucrativo que fraude". É possível que a loucura com o caso do Brasil tenha chegado a um ponto em que as expectativas exageradas de lucros só poderiam ser correspondidas com a venda de fraudes, com todas as letras. O próximo par de anos deve ser um bom teste para essa tese.
Um outro aspecto pernicioso do "fenômeno Eike" é o uso de sua história como modelo de gênio capitalista visionário - nada é mais ilustrativo disso do que a ridícula capa de uma edição de janeiro deste ano da revista com maior circulação no país. O capitalismo, nesse caso, é a exploração do setor primário, intensivo em capital e de baixíssimo potencial de inovação, fortemente regulado pelo governo, com o uso de grandes volumes de financiamento a juros subsidiados de um banco de fomento estatal. Compare com a trajetória de verdadeiros capitalistas visionários (pode ser o Steve Jobs, pra pegar um caso mais recente) e ache os sete erros. Até a alusão ao caso da China é apropriada: crescimento brutal em todos os sentidos, também com a possibilidade de ter sido alimentado além do verdadeiro potencial com uma miríade de fraudes. É esse o modelo que queremos usar?
"Não éramos tão ruins, nem ficamos tão bons", foi o que disse o professor Eduardo Giannetti em uma entrevista de dezembro de 2009. Pensando em mercados, se juntarmos a magnitude e o tempo que durou a ilusão de que eramos muito bons com a segunda regra de Bob Farrell (excessos em uma direção levam a excessos na direção oposta), podemos esperar um longo e duro período de correção, até que pareça de novo que somos muito ruins. Talvez estejamos vendo o início desse movimento. Torçamos pelo melhor, nos preparemos para o pior.
Agradeço ao Arthur M. pela provocação e discussão.
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quinta-feira, 28 de junho de 2012
Leituras da Semana
- Apresentação de Jim Chanos sobre o que ele considera armadilhas de valor (Petrobras entre elas).
- Liaquat Ahamed, de Lords of Finance, sobre a atual geração de banqueiros centrais.
- Os últimos países AAA.
- Jens Nordvig, do Nomura, sobre a volta da dominância de política sobre a economia.
- Anatole Kaletsky sobre as consequências de uma eventual saída da Alemanha do euro.
- Mark Dow sobre metais preciosos.
- Persio Arida fala ao Estado sobre o Plano Real (prestes a completar 18 anos) e o Brasil de hoje.
- Fabuloso artigo de Deirdre McCloskey sobre felicidade, uma crítica aguda e pertinente aos "quantitative hedonists".Quando não se perde na própria erudição, McCloskey tem, de longe, o melhor texto que conheço entre economistas vivos. Vejam esse trecho: "Decades ago, I was in Paris alone and decided to indulge myself with a good meal, which, you know, is rather easy to do in Paris. The dessert was something resembling crème brulée, but much, much better. I thought, “I shall give up my professorships at the University of Iowa in economics and history, retire to this neighborhood on whatever scraps of income I can assemble, and devote every waking moment to eating this dessert.” It seemed like a good idea at the time."
- Qual o candidato à presidência dos EUA mais preparado para lidar com uma invasão alienígena?
- A Manifesto for Economic Sense
- O centro de gravidade da economia global.
- Conheça La Línea de la Concepción, a vizinha espanhola de Gibraltar e interessante (e deprimente) microcosmo da crise na Espanha.
- The Economist comenta a biografia de Ryszard Kapuscinski, agora traduzida para o Inglês.
- John Gray desconstrói Slavoj Žižek (e não sobra muita coisa).Guardian sobre Žižek .
- Um congestionamento de 12 horas em Lagos, Nigéria.
- Uma teoria geral dos tipos de Muppets.
- A resposta de Ronald Reagan a um quarto de adolescente declarado área de desastre (via goombagoomba).
- Algumas concorrentes do concurso anual de fotografia de viagem da National Geographic (a que ilustra este post está entre elas).
- Os 10 mandamentos do bowieismo.
- A Noite Estrelada, de Van Gogh, com dominós.
- Liaquat Ahamed, de Lords of Finance, sobre a atual geração de banqueiros centrais.
- Os últimos países AAA.
- Jens Nordvig, do Nomura, sobre a volta da dominância de política sobre a economia.
- Anatole Kaletsky sobre as consequências de uma eventual saída da Alemanha do euro.
- Mark Dow sobre metais preciosos.
- Persio Arida fala ao Estado sobre o Plano Real (prestes a completar 18 anos) e o Brasil de hoje.
- Fabuloso artigo de Deirdre McCloskey sobre felicidade, uma crítica aguda e pertinente aos "quantitative hedonists".Quando não se perde na própria erudição, McCloskey tem, de longe, o melhor texto que conheço entre economistas vivos. Vejam esse trecho: "Decades ago, I was in Paris alone and decided to indulge myself with a good meal, which, you know, is rather easy to do in Paris. The dessert was something resembling crème brulée, but much, much better. I thought, “I shall give up my professorships at the University of Iowa in economics and history, retire to this neighborhood on whatever scraps of income I can assemble, and devote every waking moment to eating this dessert.” It seemed like a good idea at the time."
- Qual o candidato à presidência dos EUA mais preparado para lidar com uma invasão alienígena?
- A Manifesto for Economic Sense
- O centro de gravidade da economia global.
- Conheça La Línea de la Concepción, a vizinha espanhola de Gibraltar e interessante (e deprimente) microcosmo da crise na Espanha.
- The Economist comenta a biografia de Ryszard Kapuscinski, agora traduzida para o Inglês.
- John Gray desconstrói Slavoj Žižek (e não sobra muita coisa).Guardian sobre Žižek .
- Um congestionamento de 12 horas em Lagos, Nigéria.
- Uma teoria geral dos tipos de Muppets.
- A resposta de Ronald Reagan a um quarto de adolescente declarado área de desastre (via goombagoomba).
- Algumas concorrentes do concurso anual de fotografia de viagem da National Geographic (a que ilustra este post está entre elas).
- Os 10 mandamentos do bowieismo.
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terça-feira, 12 de junho de 2012
Frases do Dia - sobre ações & goma de mascar
"I was asked yesterday whether the shares will cost 100 tenge ($0.68). Frankly speaking, we wouldn’t like to sell the shares of the national companies at 100 tenge each. We are calling the citizens to treat the shares responsibly and seriously. If they cost 100 tenge, it will be the same as buying a chewing gum or a candy. This means that the attitude to purchasing stock will be initially wrong."
A contribuição de Kuandyk Bishimbayev, vice presidente do fundo soberano do Cazaquistão (Samruk-Kazyna), para a teoria de finanças. O fundo começa em outubro o programa chamado de "IPO do Povo", que vai privatizar parcialmente várias das dezenas de empresas estatais do país. A primeira companhia a ter ações vendidas será a transportadora de petróleo KazTransOil, e em breve o público poderá ser sócio da maior mineradora de urânio e companhia com o nome mais invocado do mundo, a Kazatomprom (serviria bem também como onomatopeia para um tombaço).
Mais aqui. h/t: Ashby Monk.
A contribuição de Kuandyk Bishimbayev, vice presidente do fundo soberano do Cazaquistão (Samruk-Kazyna), para a teoria de finanças. O fundo começa em outubro o programa chamado de "IPO do Povo", que vai privatizar parcialmente várias das dezenas de empresas estatais do país. A primeira companhia a ter ações vendidas será a transportadora de petróleo KazTransOil, e em breve o público poderá ser sócio da maior mineradora de urânio e companhia com o nome mais invocado do mundo, a Kazatomprom (serviria bem também como onomatopeia para um tombaço).
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
Gráficos do Dia - Ibovespa e um pequeno detalhe
Se em termos nominais, há tempos a Bovespa não vai a lugar nenhum...
... quando leva-se em conta o custo de oportunidade do dinheiro (CDI), a preços de agora só ganhou nos últimos dez anos quem teve o sangue frio de comprar no auge da crise (final de 2008 / início de 2009) ou em alguns momentos antes de junho de 2004.
Deve ter havido diversas maneiras de obter lucro com ações no Brasil nesse período; o buy-and-hold passivo definitivamente não foi uma delas.
... quando leva-se em conta o custo de oportunidade do dinheiro (CDI), a preços de agora só ganhou nos últimos dez anos quem teve o sangue frio de comprar no auge da crise (final de 2008 / início de 2009) ou em alguns momentos antes de junho de 2004.
Deve ter havido diversas maneiras de obter lucro com ações no Brasil nesse período; o buy-and-hold passivo definitivamente não foi uma delas.
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