 |
| O crepúsculo do macho |
Ao que parece, o mercado está acelerando a precificação de um calote das empresas do grupo EBX (já há relatórios com preço-alvo de R$0.10 para as ações da OGX - aparentemente
eu estava muito errado). Abaixo uma lista, sem a menor pretensão de ser exaustiva, das consequências disso para os mercados e a economia (usem os comentários pra lembrar do que esqueci ou omiti).
1. Ibovespa - é a vítima mais direta, com sua
metodologia de cálculo por "negociabilidade" que faz com que a OGX (valor de mercado atual: R$1.5 bilhões) até poucos dias atrás tivesse peso maior do que a Ambev (valor de mercado: R$255 bilhões) - já tinha observado isso
aqui. Entre os rebalanceamentos trimestrais, ações que caem muito de preço vão perdendo peso, mas este é recuperado caso o papel continue com giro alto. A Bovespa excluiria papeis de empresas que entrassem em falência ou recuperação judicial, mas, antes disso, não sei o que seria necessário para que considerassem as empresas "X" como caso especial. A situação atual já é bizarra o bastante, e pode piorar se, por algum motivo, os preços de OGX se recuperarem e o peso dos papeis no índice aumentar (porém, nada que não tenha acontecido no passado com os recibos de Telebras, por exemplo).
A convicção do mercado na derrocada do império X é enorme. 35% do
free float de OGXP3 está alugado. As taxas anualizadas para aluguel de OGXP3, CCXC3 e MMXM3 estão em, respectivamente, 60%, 52% e 31%. Aqui, creio, o perigo está na ponta oposta, para os cotistas de fundos
long/short e
equity hedge que estão vendidos a descoberto nesses papeis. Uma notícia de aquisição ou reestruturação bem vista pelo mercado pode catalisar um grande
short squeeze. Não parece ser o cenário-base de ninguém, de qualquer maneira.
2. Petrobras - o fracasso da operação da OGX faz com que o mercado aumente a probabilidade de que tal fracasso se repita na exploração da Petrobras. Acredito também que haja algum temor de intervenção estatal que faça a Petrobras adquirir a OGX e comprometer ainda mais seu balanço. PETR4 fechou ontem no menor nível desde 2005, quando o barril de petróleo custava pouco mais de US$60 e a produção diária era quase 20% menor. Por outro lado, desde então a dívida total da companhia quase dobrou - é esse o tamanho da aposta no pré-sal.
3. Bancos - o BofA/ML calculou a exposição de alguns bancos à dívida das companhias. A tabela abaixo é do
relatório (clique para aumentar):
Os analistas fazem questão de deixar claro que esses números são parciais, já que não incluem a dívida da holding (EBX). Eles reconhecem que os cálculos de jornais, que colocam a exposição em até R$5 bilhões nos grandes bancos, podem estar corretos (
mais na Bloomberg).
Não é surpresa verificar que a maior exposição está nos bancos estatais, que tanto têm se esforçado para criar "campeões nacionais", com critérios esquisitos. Aqui começa o risco de contágio para as contas públicas, que talvez já esteja afetando o mercado de juros locais.
4. Crédito - aqui é difícil separar o impacto dos problemas no grupo X com a deterioração geral da percepção do Brasil nos mercados. Abaixo, só para ilustrar, o descolamento dos prêmios dos CDS de 5 anos de Brasil e México, que em novembro do ano passado andavam no mesmo patamar.
5. Fluxos estrangeiros, investimentos, crescimento - já
escrevi aqui que o grupo EBX era o arquétipo do Brasil de alguns anos atrás, a aposta mais alavancada no capitalismo de estado (ou de compadrio) baseado na exploração de commodities. Esse modelo está ruindo espetacularmente, e, julgando pelo desempenho da economia no último par de anos, não apareceu nenhum outro para substituí-lo.
Se confirmada a derrocada do império de Eike e os credores ficarem em má situação (quer dizer, pior do que já estão), aumenta o
risco de uma parada súbita de financiamento para o país e as perspectivas de crescimento ficam ainda piores. O modelo dos últimos anos só vai ser enterrado definitivamente com uma desvalorização ainda mais aguda do câmbio e o reconhecimento, na dívida líquida, do custo fiscal do financiamento equivocado das "campeãs nacionais". Achei que isso pudesse ser adiado para depois das eleições do ano que vem; aparentemente o mercado está naqueles momentos de apressar o encontro com a realidade.
6. Ontem a Lúcia Guimarães lançou, no Twitter, a seguinte provocação:
Acho que não há muitos inocentes aqui (a não ser, talvez, os minoritários, que se deixaram levar pelo
hype). A ANP sabia da dificuldade da operação, e deveria ter endurecido os critérios para concessão das áreas de exploração. Os banqueiros sabiam que estavam vendendo um investimento de risco precificado como uma
cash cow - e o mercado pagou, na época sorridente, por esse preço. A mídia amplificou o barulho, na sede de achar um ícone para a "história de sucesso" do país. O tempo da euforia acabou, agora é vez de exercitarmos novamente o ceticismo. A maioria acreditou no grupo X porque quis, isso faz parte da natureza humana. Sair caçando bruxas pode ser necessário, mas não vai levar a alguma grande conclusão. Os tempos criam ilusões e ilusionistas; se não fosse Eike, seria outro, acredito. Hora de virar a página e ver o que dá pra fazer com o que sobrou.