segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma crônica argentina, 2001-2012

Não falta alguém?
Minha história com a economia da Argentina começa em 2001, quando comecei um estágio na tesouraria de um banco europeu. Dois anos já haviam se passado desde a desvalorização do real, e o país vizinho seguia com uma constituição onde estava escrito que um peso valia exatamente um dólar. Todo mundo sabia que esse arranjo não era sustentável: não havia dólares entrando no país para saciar a demanda dos argentinos que, pero que sí, pero que no, preferiam guardar as notas verdes embaixo do colchão a manter contas em dólares digitais nos bancos. Comecei a trabalhar em maio, e há algum tempo já vinham sendo feitas apostas para o dia em que a Argentina calotaria a dívida externa. A crise seguiu exemplarmente a apropriada descrição de Rudiger Dornbusch: primeiro, demorou mais para ocorrer do que todos esperavam; depois, aconteceu de forma mais rápida que qualquer um poderia imaginar. A maioria das apostas expirou sem sucesso ao longo do ano. No início de dezembro, os depósitos foram congelados e, na última semana do ano, veio finalmente o calote, em grande estilo: o presidente-tampão Adolfo Rodríguez Saá declarou insolvência em mais de US$ 130 bilhões em dívida, no maior evento desse tipo da história, até então.

O fundo do poço foi cavado mais um pouco, e o desemprego ficou por dois anos perto de 18%. Em 2003, novas eleições presidenciais foram chamadas. A posse de Néstor Kirchner coincidiu com o início da recuperação, impulsionada pelo câmbio muito desvalorizado, juros internos negativos e a melhora nos termos de troca. Em 2004, visitei a Argentina pela primeira vez. Uma das minhas lembranças de Buenos Aires nessa viagem é de um maluco que ficava o dia todo batendo com um pedaço de pau na porta de uma agência do Citibank, perto da calle Florida, berrando palavras de ordem contra o FMI e o imperialismo ianque. Ele, porém, já era uma voz solitária: não havia mais grandes protestos e panelaços, o desemprego já tinha começado a cair e havia algum futuro a ser vislumbrado. Para quem gosta de simbolismo: em um mesmo dia daquele ano, 28 de agosto, duas das principais equipes masculinas da Argentina conquistaram o ouro olímpico em Atenas: futebol (contra o Paraguai, gol de Tévez) e basquete (contra a Itália). As leonas, time de hóquei na grama liderada pela bela Luciana Aymar (o "Maradona de saias"), haviam, dois dias antes, garantido uma honrosa medalha de bronze. De algum jeito, estava recuperado parte do proverbial orgulho argentino. Já no ano seguinte, veio a bravata da liquidação da dívida junto ao FMI, quase US$ 10 bilhões em um único pagamento (with a little help from the amigo Chávez, claro).
Nacionalizem o Messi!

Nos anos seguintes, até 2009, devo ter voltado mais umas três vezes a Buenos Aires. A 2h30 de voo de São Paulo, a cidade era boa, bonita e barata, com o inconveniente de metade do sul / sudeste do Brasil ter chegado, ao mesmo tempo, à mesma conclusão. Nas ruas de compras, ouvia-se mais Português do que Castelhano, e havia fila para comer, a algo como R$ 50 por pessoa (vinho incluído), as fabulosas carnes do Cabaña Las Lilas. Eu, metido a intelectual, fazia a festa nas livrarias e lojas de discos: edição espetacular das obras completas de Shakespeare, no original, por dez dólares (evidentemente depois concluí que não conseguiria ler o Inglês do século XVII); inúmeros discos de Coltrane, Ornette Coleman, Paco de Lucia, Piazzolla e Charles Mingus por R$ 12; por pouco não comprei uma mala nova para enfiar uma coleção em capa dura com a obra completa de Freud em Espanhol, custava menos de 100 dólares. Na Santa Fe, a loja da Dior vendia ternos por US$ 250, com um bom desconto para pagamento em dinheiro. Era quase bom demais para ser verdade, e talvez fosse, mesmo.

Passei três anos sem voltar à capital argentina, baixando novamente por lá na última sexta-feira. Nesse tempo, o povo aproveitou a melhora de vida para voltar ao inconveniente hábito de consumir, e aí começou a entrar água no modelo kirchnerista. Em 2007, a inflação já havia subido a ponto do governo se incomodar e passar a manipular os índices oficiais. Estava aberta a Caixa de Pandora do intervencionismo. A situação econômica do país seguiu piorando, chamando por mais intervenção (difícil fechar a caixa) e populismo - havia uma eleição para ser ganha no final do ano passado, afinal de contas. Passada a votação, com dona Kirchner reeleita, veio a rasteira final no capital: a nacionalização da petrolífera YPF, no último 16 de abril.

A culpa é dos brasileiros, colombianos,
espanhóis...
Buenos Aires há muito é uma cidade com ar decadente, mas não lembro de ter visto os domínios de Imperatriz Cristina (como a chamam os portenhos opositores) com tanto lixo nas ruas, pichações nos prédios e cartazes lambe-lambe nas paredes e tapumes (alguns devidamente protegidos por grades, para evitar a ação dos cartoneros, catadores de papel). Ao câmbio oficial, depois de anos de inflação subestimada, o país deixou de ser evidentemente barato: um jantar num bom restaurante na capital não custa menos do que o equivalente em São Paulo (ou seja, é caro com todas as letras); também não vi diferença entre os preços de livros e discos lá e aqui (ou melhor, livros importados estão muito mais caros lá - deixei de comprar uma coletânea de novos autores da Alfaguara porque custava quase 190 pesos), o mesmo valendo para uma olhada geral em um supermercado. Táxi continua barato, com o gás natural subsidiado e preços tabelados, o que é quase garantia de ouvir reclamações dos motoristas ao entrar nos veículos: "O governo está louco, preços de comida sobem 5% ao mês, o câmbio oficial é uma piada", e por aí vai.

O câmbio oficial, de fato, é uma piada. Está hoje em 4,47 pesos por dólar. Para quem tira dinheiro do país via blue chip swap, a taxa é quase 6 pesos por dólar, ágio de mais de 30%. Na sexta, o governo tentava, de forma patética, convencer as casas de câmbio a praticarem uma taxa de 5,10. Quem precisa viajar para fora do país não encontra dólares - a burocracia para comprar ao preço oficial inclui prestar contas dos gastos e, como contaram, eventualmente receber menos dólares do que o solicitado e uma recomendação para gastar menos. O Banco Central reporta US$ 47 bilhões em reservas, mas não está disposto a entregar os dólares para o mercado. O governo adota uma política mercantilista que tende ao escambo: importações devem ser acompanhadas de contrapartidas em exportações. Com isso consegue, por enquanto, uma conta corrente equilibrada, ao custo de escassez, preços mais altos, criação de uma ampla rede informal e deterioração geral do ambiente de negócios. Já podem começar as apostas para o agravamento da crise.

A esperança de desenvolvimento econômico vem sendo substituída por uma onda de nacionalismo - nunca tinha visto tantas referências as Malvinas, de grafites a seções inteiras nas livrarias; e encontra-se o logo da YPF estatizada até nos souvenirs das barracas da feira da Plaza Serrano, em Palermo. É a marcha da insensatez, mais uma vez atingindo uma das sociedades do mundo que mais tenta se conhecer. Não sei se aí há um paradoxo, ou se o peronismo-kirchnerismo, como a psicanálise, são partes inseparáveis do que conhecemos como psique do país. Gente muito mais qualificada do que eu já procurou esse tipo de resposta, até onde sei, sem conclusões definitivas. A vida é absurda, só um pouco mais na Argentina, e aí está grande parte da fascinação que o país exerce em quem o observa.

Para sair das conclusões sociológicas rasteiras e voltar um pouco à economia: parte do "desenvolvimentismo" brasileiro adora citar o "exemplo de sucesso do modelo argentino", sempre mencionando as altas taxas de crescimento do PIB nos últimos anos (ignorando, claro, o que está ruim ou o tamanho do buraco em que o país havia se metido antes da recuperação). Um outro tipo de "desenvolvimentista", com mais apego a dados e à realidade, olhando para a situação atual do país provavelmente chegaria a uma conclusão menos animadora. No seu excelente The Elusive Quest for Growth, William Easterly não consegue chegar a nenhuma receita mágica para o enriquecimento dos países, mas dedica um capítulo inteiro a ações induzidas por governos que foram capazes, ao longo da história, de enterrar o crescimento. São elas: inflação alta, altos ágios no mercado paralelo de câmbio, altos déficits de orçamento, juros reais fortemente negativos, restrições ao livre comércio, burocracia excessiva e serviços públicos inadequados*. Quase tudo presente na Argentina de hoje, que, mais uma vez, tenta desafiar alguns equivalentes econômicos às leis da física. Resta desejar sorte, ou dias melhores - this too shall pass.


As fotos que ilustram o post foram todas tiradas no último final de semana, em Buenos Aires.


* Sobre os determinantes do crescimento, Easterly cita:


Robert J. Barro, 1996.
"Determinants of Economic Growth: A Cross-Country Empirical Study,"
NBER Working Papers 5698, National Bureau of Economic Research, Inc.


Sobre a associação entre prêmio no mercado paralelo de câmbio e aumento na desigualdade:


Kevin Sylwester, 2003.
"Changes in income inequality and the black market premium," 
Applied Economics, Taylor and Francis Journals, vol. 35(4), pages 403-413.


Sobre o câmbio paralelo na Argentina, mais na The Economist e no Foro Económico.

13 comentários:

Delfim Bisnetto disse...

Muito interessante o relato. Parabéns e obrigado!

Delfim Bisnetto disse...

Uma dúvida: para aceitar dólar, os estabelecimentos utilizam o câmbio oficial ou alguma outra taxa mais realista?

E para comprar pesos aqui, que valor é praticado?

Drunkeynesian disse...

Se paga com o cartão, é convertido pelo câmbio oficial. Se paga com dólares, consegue uma taxa melhor - cheguei a ver 5,50.

Não sei quanto aos pesos aqui, mas imagino que também saiam pela taxa oficial (ou pior, dado o spread das casas de câmbio).

Danilo disse...

Parabéns pelo texto, muito informativo. Descobri seu blog apenas há alguns dias, mas confesso que fiquei surpreso com a ótima qualidade dos posts. Mais uma vez, meus parabéns. Grande abraço!

Jorge Browne disse...

O pessoal que conheço e trabalha na área de relações internacionais está horrorizado. No RS o comércio com eles vai de mal a pior. Chega a ser piada o que as autoridades argentinas andam fazendo.
É impressionante a incapacidade dos argentinos em construírem instituições sólidas. Parece que o Chile e o Brasil (e o Uruguai?) são os casos de sucesso na América do Sul.
Trivia: da última vez que fui a Buenos Aires de carro, fazem uns 10 anos, havia um monte de placas na estrada com o mapa das Malvinas e a frase Las Malvinas son argentinas!. Muito argentino...

Drunkeynesian disse...

É um planeta a parte. O mais curioso é que os argentinos que conheço estão entre as pessoas mais críticas com quem já convivi... talvez por isso quase todos tenham saído de lá.

Estou longe disse...

Estive por lá semana passada. Como fui a trabalho, e não a turismo, não era reconhecido como brasileiro nas ruas do centro (estava de terno e tal). Assim, não me ofereciam tango, mas dólar. Impressionante o mercado negro. Uma pessoa começa a andar ao seu lado, encosta perto de vc e fala baixo: Dolar?
Me surpreendeu a fila no aeroporto, para sair do país, para registrar na AFIP os pertences eletronicos.
O curioso é que eles sabem que não é a melhor política, mas não deixam de apoiar o governo.

Drunkeynesian disse...

Obrigado pelo relato. O próximo passo é o mercado negro ser escancarado, como na Venezuela, e o governo fingir que não vê.

Anônimo disse...

Timming...quando explode de vez? 3 meses? 9 meses? Any guesses?

Drunkeynesian disse...

Nenhum... e aguentam muito mais meio do jeito que está se desvalorizarem o câmbio. Acho que agora não tem explosão, as expectativas já são muito baixas. Tem uma decadência lenta e triste.

bibis disse...

por favor, onde posso encontrar as taxas de blue ship swap para, pelo menos, 2012?

Drunkeynesian disse...

É blue chip, e não faço ideia...

Mariana disse...

Eu fui a Buenos Aires e gostei muito. não sei como deve ser morar lá com os problemas da sua economia, mas me lembro que em comparação com o delivery em jardins e a comida lá, era mais barato pedir aqui comida.